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Clínica MédicaOncologia

Neutropenia febril: o antibiótico corre antes de saber o foco

Febre no paciente em quimioterapia: definir o quadro, colher hemocultura, iniciar o betalactâmico na primeira hora e saber quando parar

Reconhecer o limiar, colher culturas sem atrasar e iniciar betalactâmico antipseudomonas na primeira hora; ampliar cobertura apenas por indicação clínica.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 45 anos, em quimioterapia por linfoma, chega ao PS com febre de 38,5°C. Hemograma revela contagem absoluta de neutrófilos de 350/mm³. PA 118x76 mmHg, FC 96 bpm, sem foco infeccioso evidente ao exame. Qual é a conduta imediata mais adequada?

02

Como esse tema cai

Poucos temas de oncologia têm uma regra tão simples e tão pouco cumprida: o paciente em quimioterapia que apresenta febre recebe antibiótico dentro de uma hora, antes de qualquer resultado e antes de qualquer foco. Tudo o mais neste capítulo — o número que define neutropenia, a escolha do betalactâmico, quem vai para casa, quando parar — é detalhe operacional pendurado nessa frase.

O recorte tem três camadas. A primeira é de reconhecimento: entender por que a ausência de sinal localizatório, no neutropênico, é a regra e não a exceção. A segunda é de execução: o que se colhe antes da primeira dose, o que não se pede, e qual droga entra. A terceira é de contenção: quando descalonar, quando suspender e por que a febre residual não é motivo para manter antibiótico em quem já recuperou o neutrófilo.

As réguas brasileiras não coincidem, e a divergência é útil porque revela o que cada documento está tentando fazer. O consenso nacional de 2024 define a entidade e o tratamento hospitalar; os protocolos de serviço definem o gatilho de acionamento na porta; e a literatura brasileira de triagem, publicada na mesma casa editorial do consenso, organiza quem pode receber tratamento fora do hospital — assunto sobre o qual o consenso de 2024 não se pronuncia.

03

O que muda decisão

A febre que chega sem foco, e por que ela não espera

Um paciente em quimioterapia liga dizendo que está com febre. Não há tosse, não há disúria, não há dor localizada em lugar nenhum — só febre e mal-estar. A tentação é pedir que ele observe, tome um antitérmico e reavalie pela manhã. É a conduta que mais mata nesta doença.

A razão é mecânica. O neutrófilo é a célula que produz o pus, e é o pus que produz o sinal localizatório: a consolidação na radiografia, o abscesso flutuante, a secreção purulenta. Sem neutrófilo não há inflamação organizada, e portanto não há sinal. O que sobra é a febre — muitas vezes o único achado num paciente que já está bacteriêmico. Ausência de foco não é ausência de infecção: no neutropênico, é o esperado.

A segunda razão é temporal. A barreira mucosa do tubo digestivo, agredida pelo quimioterápico, deixa passar bactérias do próprio paciente para a corrente sanguínea de forma contínua. Enquanto há neutrófilo, o trânsito é contido sem que ninguém perceba; quando não há, cada passagem é uma bacteriemia em potencial, e a progressão de mal-estar a choque se conta em horas, não em dias.

Daí a regra de ouro que organiza tudo o que vem depois: no paciente com câncer em tratamento que apresenta febre, a suspeita basta para disparar o protocolo — não se espera o resultado do hemograma para começar a agir, não se espera o foco aparecer, e não se manda ninguém para casa com antitérmico. Colhe-se o sangue e trata-se.

Vale nomear a população, porque ela delimita a leitura. O consenso brasileiro de neutropenia febril foi escrito para a febre que aparece depois do tratamento de neoplasias hematológicas, e pede para ser aplicado no contexto da epidemiologia de cada serviço. O paciente com tumor sólido em quimioterapia entra pelo mesmo fluxo de urgência, mas a escolha fina do esquema pode diferir conforme o perfil de resistência da casa.

Dois números abrem o protocolo — e o país escreve o segundo de quatro maneiras

O protocolo tem dois gatilhos, e é preciso saber ambos de cor. O primeiro é a contagem de neutrófilos. O consenso brasileiro define neutropenia como contagem abaixo de quinhentos por microlitro, com noventa por cento de concordância entre os painelistas, e acrescenta uma ressalva que resolve metade das dúvidas de plantão: o paciente cuja contagem ainda está acima desse valor, mas que recebeu recentemente uma quimioterapia com potencial de induzir neutropenia, deve ser tratado como neutropênico para efeito de disparar o protocolo.

O segundo gatilho é a temperatura, e aqui o país não fala com uma voz só. O consenso nacional adotou febre como temperatura axilar acima de trinta e oito graus, com oitenta por cento de concordância, anotando nos comentários que a febre precisa ser sustentada por pelo menos uma hora e que a conversão entre a medida oral e a axilar é de meio grau.

Os protocolos hospitalares brasileiros costumam citar a régua norte-americana, que é outra: aferição oral única igual ou acima de trinta e oito graus e três décimos, ou aferição oral igual ou acima de trinta e oito graus mantida por mais de uma hora. E há um terceiro número, que aparece quando o serviço escreve o próprio gatilho operacional para a enfermagem da triagem: temperatura axilar igual ou acima de trinta e sete graus e meio, em medida única, associada a contagem de neutrófilos abaixo de mil por microlitro. É deliberadamente mais frouxo dos dois lados — pega mais gente, mais cedo.

Nenhum desses números é errado. Eles respondem a perguntas diferentes: o consenso define a entidade para fins de recomendação, e o serviço define o gatilho de acionamento para fins de segurança. À beira do leito, a conduta prática é usar o gatilho mais frouxo para acionar e o mais estrito para rotular: acione cedo, rotule depois. Diante de febre baixa em quem está sob quimioterapia recente, colha o hemograma e as culturas antes de decidir se aquilo se chamava febre.

Há ainda o vocabulário da profundidade, que aparece nos protocolos de serviço e ajuda a estimar quanto tempo o risco vai durar. Contagem abaixo de mil e quinhentos por microlitro já se chama neutropenia; abaixo de quinhentos, neutropenia grave; abaixo de cem, neutropenia profunda. Quanto mais fundo o vale e mais longo o tempo previsto até a recuperação, maior o risco de infecção — e é essa expectativa de duração, não só o número de hoje, que orienta quem interna e quem acompanha de perto.

O relógio de uma hora, e quem tem o poder de dispará-lo

O intervalo entre a chegada do paciente e a primeira dose do antibiótico é o indicador que os serviços de oncologia auditam, e o alvo é uma hora. Os protocolos brasileiros escrevem esse número duas vezes: uma na justificativa, dizendo que o tempo recomendado entre o início dos sintomas e o antibiótico é de sessenta minutos, com mortalidade crescente depois desse ponto de corte; outra na descrição das atividades por setor, como meta explícita entre o boletim de atendimento e a primeira dose.

O detalhe que faz o número virar realidade é organizacional, e é ele que a prática costuma ignorar. A hora não é contada a partir do momento em que o oncologista viu o paciente: é contada a partir da porta. Por isso os protocolos colocam o gatilho na triagem de enfermagem, e não na avaliação médica — a enfermeira que recebe alguém que se identifica como paciente oncológico em quimioterapia e afere temperatura elevada aciona o fluxo, acomoda o paciente e comunica, sem esperar consulta.

Três consequências práticas decorrem disso. A primeira: o paciente não fica na fila de espera comum, porque o tempo que ele passa sentado é tempo do relógio. A segunda: a coleta de culturas e a prescrição precisam acontecer em paralelo, não em série — quem espera a hemocultura ficar pronta para prescrever perdeu o alvo. A terceira: o horário da coleta e o horário da primeira dose devem ser registrados no prontuário, porque sem registro não há auditoria e sem auditoria o indicador não melhora.

Na prática do plantão, isso se traduz numa sequência curta e sem negociação: reconhecer, acomodar, puncionar, colher, prescrever, infundir. Quem prescreve antes de o hemograma voltar está certo, e quem espera está atrasado.

Há um ganho oculto nesse arranjo que costuma passar despercebido. Ao colocar o gatilho na porta, o serviço deixa de depender de o paciente conseguir explicar bem o que sente, e passa a depender apenas de duas informações objetivas: que ele faz quimioterapia e qual é a temperatura. É uma regra que funciona à noite, no fim de semana e com a equipe que nunca viu aquele paciente antes.

Colher antes de infundir — e a lista do que não se pede

Antes da primeira dose, o consenso brasileiro recomenda dois pares de hemocultura, colhidos de veia periférica e também dos cateteres, com inoculação de frascos para aeróbios, para anaeróbios e para fungos. A coleta pelos dois sítios existe para permitir a comparação que decide o destino do cateter mais adiante; a coleta antes do antibiótico existe porque depois da primeira dose o rendimento cai.

O que surpreende, e o que muda conduta, é a lista do que não entra na rotina. O consenso recomenda contra a radiografia de tórax como parte do atendimento inicial de rotina do neutropênico febril, e recomenda contra a urocultura de rotina. A lógica é a mesma da primeira seção: sem neutrófilo, o infiltrado costuma não estar formado e a urina de quem não produz piócitos é pouco informativa. Exame que não muda conduta consome tempo do relógio.

Isso não significa que a imagem fique fora. Ela entra dirigida pelo sintoma: tomografia de tórax quando há sinal ou sintoma respiratório, e tomografia de abdome quando há queixa abdominal. A troca é de rastreamento cego por investigação orientada, e a diferença aparece no rendimento.

Também entra a vigilância de colonização, que é uma decisão de serviço e não de paciente: swab anal na admissão para avaliar colonização por gram-negativos multirresistentes, e coleta semanal nos centros com alta incidência. O resultado desse swab não trata ninguém hoje, mas é o que permite escolher racionalmente o esquema empírico do próximo episódio. Na consulta, portanto, a ordem é: puncionar, colher os dois pares, examinar procurando sintoma que justifique imagem, e prescrever.

Uma observação sobre o cateter, que quase todo paciente em quimioterapia carrega. Colher de veia periférica e do cateter no mesmo momento permite comparar o tempo até a positivação das duas amostras; quando a do cateter positiva bem antes da periférica, a suspeita recai sobre o próprio dispositivo. Essa comparação só existe se as duas coletas forem feitas juntas, e por isso a coleta dupla entra no protocolo — a decisão sobre retirar ou manter o cateter se prepara agora e se toma depois.

Dois pares de frascos de hemocultura, um colhido pelo cateter central e outro por veia periférica, com seta apontando para a bolsa de infusão.
A coleta pareada vem antes da primeira dose: dois pares de frascos, um do cateter e outro de veia periférica — e nada disso pode atrasar a infusão.

O betalactâmico que cobre pseudomonas — e por que não se abre com carbapenêmico

A escolha do esquema empírico é a pergunta mais direta do tema, e a resposta brasileira é curta: cefepima ou piperacilina com tazobactam, em monoterapia, com a escolha entre as duas guiada pela epidemiologia local e pelo perfil de toxicidade de cada uma. As duas cobrem gram-negativos, incluindo Pseudomonas, que é a bactéria cuja falha de cobertura custa a vida do paciente nas primeiras horas.

O consenso recomenda explicitamente contra o uso rotineiro de carbapenêmico como esquema empírico inicial. O raciocínio é de ecologia, não de eficácia: começar todo mundo com carbapenêmico seleciona resistência num ambiente onde o mesmo paciente voltará a internar várias vezes ao longo do tratamento, e onde o próximo episódio dependerá de ainda haver droga disponível.

A exceção é nominal e vale a pena decorar, porque é ela que a prática cobra: o carbapenêmico entra de saída no paciente que se apresenta com hipotensão ou deterioração clínica e que, além disso, está colonizado por enterobactéria produtora de betalactamase de espectro estendido ou já teve bacteriemia por esse agente num episódio anterior. São duas condições somadas: gravidade agora mais história microbiológica antes. Gravidade sozinha, sem a história, não abre o carbapenêmico de rotina.

E há o movimento inverso, que quase ninguém lembra de fazer. Se o esquema foi ampliado empiricamente e as hemoculturas não cresceram gram-negativo resistente, o consenso recomenda descalonar de volta ao esquema original, com prazo escrito de quarenta e oito a setenta e duas horas. Ampliar é fácil e acontece à noite; voltar exige alguém revisitar a prescrição na visita seguinte, e é isso que se cobra do médico assistente.

Repare no que a monoterapia dispensa. Não há recomendação de acrescentar aminoglicosídeo de rotina ao betalactâmico no paciente estável: a associação amplia a toxicidade renal e auditiva sem ganho demonstrado de sobrevida nessa população. O esquema de partida é uma droga, escolhida para cobrir o gram-negativo que mata rápido, e a complexidade só entra quando algum achado a justifica.

Vancomicina: a droga que a intuição pede e o documento recusa

Poucas recomendações são tão contraintuitivas — e tão repetidamente ignoradas — quanto esta. O consenso brasileiro recomenda contra o uso empírico rotineiro de vancomicina ou de qualquer outro agente com ação contra estafilococo resistente à meticilina no neutropênico febril.

E vai além, fechando as três portas por onde a exceção costuma entrar. Recomenda contra a vancomicina empírica mesmo no paciente colonizado por esse estafilococo. Recomenda contra ela no paciente que se apresenta com pneumonia. Recomenda contra ela no paciente com mucosite — justamente as duas situações em que a intuição clínica mais empurra na direção do cocos gram-positivo. E, no episódio que evolui com febre persistente ou recorrente, mantém a recomendação contrária, ainda que o paciente esteja colonizado.

A justificativa é a mesma de sempre, e é dupla. A bacteriemia por gram-positivo no neutropênico tem curso mais lento do que a por gram-negativo, e o atraso de algumas horas até a hemocultura identificar o agente não costuma custar a vida; enquanto isso, a vancomicina empírica generalizada seleciona enterococo resistente e adiciona nefrotoxicidade num paciente que já está recebendo outras drogas que agridem o rim.

Quando o agente com ação contra estafilococo resistente estiver de fato indicado — infecção documentada, instabilidade com foco cutâneo ou de cateter —, a vancomicina é o agente de escolha. A regra prática, portanto, não é nunca prescrever: é não prescrever de saída, e prescrever quando houver documentação ou motivo clínico nomeável. Diante da dúvida, colha, comece o betalactâmico e reavalie.

Existe um corolário prático. Se a vancomicina não entra de saída, alguém precisa olhar a hemocultura assim que ela positivar — e agir. O desenho só é seguro porque pressupõe seguimento microbiológico ativo: culturas colhidas antes, resultado conferido todo dia, e esquema ajustado no momento em que o agente aparece. Sem esse seguimento, a recusa da vancomicina empírica deixa de ser prudência e vira descuido.

Quem pode ir para casa: um escore que confirma e não libera

Nem todo neutropênico febril precisa de internação, e a triagem de quem pode receber tratamento ambulatorial se apoia num sistema de pontuação nascido do estudo multinacional de cuidados de suporte em câncer. Ele soma pontos por estado geral bom, ausência de hipotensão, ausência de doença pulmonar obstrutiva crônica, tumor sólido ou doença hematológica sem infecção fúngica prévia, ausência de desidratação, condição ambulatorial no início da neutropenia e idade abaixo de sessenta anos.

O ponto de corte é vinte e um pontos ou mais para baixo risco, e é aqui que está a armadilha estatística que define o tema. Para o desfecho de ausência de complicações graves, o escore tem valor preditivo positivo de noventa e um por cento, especificidade de sessenta e oito por cento e sensibilidade de setenta e um por cento.

Leia esses três números na ordem certa. O valor preditivo positivo alto significa que, quando o escore aponta baixo risco, ele acerta quase sempre — esse paciente costuma evoluir bem. A sensibilidade de setenta e um por cento significa que quase um terço dos pacientes que vão complicar não é capturado pelo escore. Ou seja: o escore confirma quando aponta, e não libera quando cala. Ele serve para escolher quem pode ir para casa, jamais para tranquilizar sobre quem ficou de fora do critério.

A conduta que sustenta essa alta é conhecida desde os ensaios europeus de final dos anos noventa, em que pacientes de baixo risco tratados com quinolona associada a amoxicilina com clavulanato por via oral tiveram taxa de sucesso equivalente à do esquema venoso. Mas repare no que esses ensaios fizeram: em vários deles os pacientes permaneceram internados durante todo o estudo. A equivalência demonstrada foi da via oral, não da casa. Antes de mandar alguém embora, portanto, garanta o que o escore não mede — telefone que funciona, acompanhante presente, distância percorrível até o serviço e reavaliação marcada.

Repare também no que o escore não cobre. Ele foi construído em pacientes adultos e mede risco de complicação clínica — não mede adesão, transporte nem a capacidade da família de reconhecer piora à noite. Quem soma pontos e mora longe, sem acompanhante, é de baixo risco pelo escore e de alto risco na vida real. A decisão sobre a alta é clínica e social; o escore só entrega uma das duas metades.

A febre que persiste: trocar o antibiótico não é a primeira pergunta

A febre que não cede em setenta e duas horas assusta e induz a duas condutas reflexas: ampliar o antibacteriano e acrescentar antifúngico. O consenso brasileiro organiza isso de outra maneira, e a diferença é conceitual.

Primeiro, as definições, que existem para evitar que cada plantonista use a sua. Febre persistente é a que se mantém após três dias de antibiótico empírico; febre recorrente é um novo episódio febril depois de quarenta e oito horas sem febre. Ambas disparam a mesma providência inicial: colher novas hemoculturas e obter tomografia de tórax.

Segundo, a mudança do betalactâmico não é comandada pela febre. O consenso recomenda ampliar o espectro para gram-negativos diante de deterioração clínica ou sinal novo — ainda que afebril. É a inversão que organiza o raciocínio: quem manda é a trajetória clínica, não a curva térmica.

Terceiro, e talvez o ponto mais moderno do documento, o consenso recomenda contra iniciar antifúngico empírico apenas porque a febre persiste após quatro a sete dias de antibiótico. No lugar disso, adota a estratégia preemptiva: pesquisa de galactomanana sérica e tomografia de tórax, e antifúngico dirigido pelo resultado — anfotericina lipossomal, caspofungina ou voriconazol. Nos pacientes de alto risco que não recebem profilaxia contra aspergilose, a galactomanana é seriada, duas a três vezes por semana; nos que já recebem antifúngico com ação contra o fungo filamentoso, ela deixa de ser rastreio e passa a ser pedida só diante de suspeita. Na prática: diante de febre que persiste, colha de novo, tomografe e olhe a galactomanana antes de mexer na prescrição.

Cabe uma palavra sobre o marcador que o consenso recomenda acompanhar. A proteína C reativa seriada vale pela tendência, não pelo número isolado: curva que desce com a melhora clínica sustenta manter o esquema; curva que sobe em paciente aparentemente estável obriga a reexaminar, colher de novo e procurar foco que ninguém viu.

A dor perianal, o abdome que dói e a pele que denuncia

Três achados de exame físico mudam o esquema empírico, e todos os três são fáceis de perder porque exigem que alguém procure.

O primeiro é a dor perianal. No neutropênico ela não produz abscesso flutuante nem coleção visível, porque não há pus para coletar — produz dor desproporcional a um exame externo pobre. O consenso recomenda iniciar cobertura contra anaeróbios diante dela. O exame, aqui, é a inspeção e a palpação suave da região; o toque retal é evitado no neutropênico pelo risco de bacteriemia, e a decisão se toma pela queixa e pela inspeção.

O segundo é a dor abdominal em quadrante inferior direito acompanhada de distensão e diarreia em quem está no décimo dia depois da quimioterapia. Esse quadro tem nome — enterocolite neutropênica — e a conduta é repouso intestinal, suporte e cobertura ampla incluindo anaeróbios, com tomografia de abdome para confirmar o espessamento de parede. O erro clássico é levar esse paciente à sala de cirurgia como apendicite: a inflamação está na parede do ceco de quem não tem neutrófilo, e a operação em plena aplasia costuma piorar o desfecho. A indicação cirúrgica fica restrita à perfuração, ao sangramento incontrolável e à deterioração apesar do tratamento clínico.

O terceiro é a lesão de pele, sobretudo a nodular, para a qual o consenso recomenda biópsia. Num paciente sem foco, um nódulo cutâneo pode ser a única janela para o diagnóstico de uma infecção fúngica invasiva disseminada, e a biópsia entrega tanto a histologia quanto a cultura. Diante desses três achados, portanto, o médico não só amplia o esquema: ele pede a imagem dirigida e chama quem colhe o material.

Os três achados têm uma coisa em comum, e ela é a lição do exame físico no neutropênico: o sinal chega pobre e o sintoma chega inteiro. A dor existe porque a via nociceptiva não depende do neutrófilo; a vermelhidão, o calor e a coleção dependem. Quem examina esperando encontrar o achado clássico conclui que não há nada. Quem examina perguntando onde dói, e olha o períneo, a pele e a boca, encontra o que muda a prescrição.

Quando parar — e a decisão que independe da febre

Suspender antibiótico em paciente com câncer costuma dar mais medo do que iniciá-lo, e é onde o consenso brasileiro é mais explícito e mais contraintuitivo.

A primeira regra: resolvida a neutropenia e sem infecção, suspende-se — mesmo que o paciente ainda esteja febril. A recuperação do neutrófilo é o desfecho que encerra o risco que motivou o antibiótico; a febre residual tem outras causas, e mantê-lo por ela apenas prolonga a exposição. Se houver infecção documentada, o esquema é ajustado ao agente e mantido até a resolução daquela infecção — o relógio passa a ser o da doença identificada, não o da contagem.

A segunda regra vale para quem não recupera. No paciente que permanece neutropênico, sem documentação de infecção e com sinais vitais normais, suspende-se em quatro dias. Quem permanece neutropênico e febril, esse sim, segue em antibiótico.

O antifúngico não profilático segue a mesma lógica: suspende-se na recuperação do neutrófilo se não houver doença fúngica invasiva documentada, independentemente do tempo de uso. Havendo doença documentada, a duração é definida caso a caso, pelo tipo de fungo, pelo estado imune e pela resposta.

Vale registrar o escopo do documento, porque ele delimita a leitura: as recomendações se aplicam à neutropenia febril que ocorre após tratamento de neoplasias hematológicas, e devem ser seguidas no contexto da epidemiologia de cada serviço. Ao decidir suspender, portanto, o médico confere a contagem, confere a documentação microbiológica, confere os sinais vitais — e assina a suspensão.

Há uma razão prática para tanta ênfase em parar. Cada dia a mais de betalactâmico de amplo espectro nesse paciente aumenta a pressão de seleção sobre a flora que voltará a colonizá-lo entre um ciclo e outro, e ele terá vários episódios ao longo do tratamento. O antibiótico que se prolonga sem indicação hoje é o que faltará no episódio de daqui a três semanas.

O que o paciente leva para casa antes de precisar voltar

A parte do tema que decide desfecho não acontece no pronto-socorro: acontece na consulta anterior, quando o quimioterápico foi prescrito. O paciente que chega dentro da primeira hora é o que foi orientado; o que chega no terceiro dia de febre é o que não foi.

A orientação tem quatro peças e cabe em poucas frases. A primeira é o termômetro: quem faz quimioterapia precisa ter um em casa e saber usá-lo, porque a decisão inteira pendura num número que ninguém mede de olho. A segunda é o intervalo de risco, entre o sétimo e o décimo quarto dia depois do ciclo, quando a contagem costuma estar no fundo — é quando a febre importa mais.

A terceira peça é a proibição que salva vida: não tomar antitérmico antes de comunicar a febre. O antitérmico não trata a bacteriemia e apaga o único sinal disponível, e o paciente que chega afebril porque tomou dipirona em casa chega com o relógio já correndo e sem ninguém saber há quanto tempo.

A quarta é o caminho: para onde ir, com qual documento, e a instrução de dizer na recepção, em voz alta e antes de sentar, que faz quimioterapia e está com febre. Essa frase é o que aciona a triagem e o que faz o relógio de uma hora começar no momento certo. Registrar essas quatro orientações no prontuário, e repeti-las a cada ciclo, é parte do tratamento oncológico tanto quanto a prescrição do quimioterápico.

Uma última peça, e ela é do serviço, não do paciente: quem faz quimioterapia precisa saber a que serviço recorrer e esse serviço precisa saber que ele existe. Onde há registro prévio, a triagem confere o esquema recebido e a data do último ciclo em segundos. Onde não há, a mesma informação depende da memória de quem chega febril. Deixar a data do ciclo e o esquema anotados num documento que o paciente carrega é medida barata que encurta o relógio.

04

Esquemas e tabelas

O caminho é sempre o mesmo, e a ordem é o conteúdo: reconhecer, colher, prescrever, reavaliar, suspender.

  1. 1Reconheça pela porta: paciente oncológico em quimioterapia + febre aferida = acionar o fluxo na triagem, sem esperar consulta.
  2. 2Colha 2 pares de hemocultura (periférica + cateter), com frascos aeróbio, anaeróbio e para fungo, antes da primeira dose.
  3. 3Prescreva monoterapia com cefepima ou piperacilina-tazobactam; carbapenêmico só com hipotensão/deterioração E colonização ou bacteriemia prévia por ESBL.
  4. 4Não acrescente vancomicina empírica — nem se colonizado por MRSA, nem em pneumonia, nem em mucosite; ela entra quando há indicação nomeável.
  5. 5Examine períneo, abdome e pele: dor perianal ou suspeita de tiflite pedem cobertura para anaeróbios; lesão nodular pede biópsia.
  6. 6Febre persistente (> 3 dias) ou recorrente (nova, após 48 h afebril): recolha hemoculturas, faça TC de tórax e use galactomanana — estratégia preemptiva, não antifúngico empírico.
  7. 7Descalone em 48–72 h se ampliou sem documentação; suspenda ao recuperar o neutrófilo, ou após 4 dias no neutropênico estável sem foco.

Febre em quem faz quimioterapia: o alvo é a primeira dose de antibiótico em até 60 minutos da chegada. O relógio começa na triagem de enfermagem, não na avaliação médica, e o horário da coleta e o da infusão vão para o prontuário.

Antes de infundir: 2 pares de hemocultura, de veia periférica e do cateter, em frascos para aeróbios, anaeróbios e fungos. Fora da rotina: radiografia de tórax e urocultura. A tomografia entra dirigida pelo sintoma respiratório ou abdominal.

Neutrófilos < 500/µL e temperatura axilar > 38 °C definem o quadro; quem recebeu quimioterapia recente entra no protocolo mesmo acima de 500/µL. Recuperado o neutrófilo e sem infecção documentada, suspende-se — ainda que febril.

O escore de risco com corte em 21 pontos serve para escolher quem pode ir para casa; com sensibilidade de 71%, ele não serve para tranquilizar sobre quem ficou fora do critério.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual temperatura define febre no neutropênico

Febre é definida como temperatura axilar acima de 38 °C (80% dos painelistas), com o comentário de que se espera febre sustentada por pelo menos 1 hora e conversão de 0,5 °C entre medida oral e axilar; neutropenia é contagem absoluta de neutrófilos abaixo de 500/µL (90% de concordância).

Nucci M et al. Management of febrile neutropenia: consensus of the Brazilian Association of Hematology, Blood Transfusion and Cell Therapy (ABHH). Hematol Transfus Cell Ther. 2024;46(Suppl 6):S346-S361, seção General definitions e Tabela 2

O documento cita a régua norte-americana — aferição oral única ≥ 38,3 °C, ou oral ≥ 38 °C por mais de uma hora — e, diante dessa variabilidade, adota como gatilho operacional próprio neutrófilos < 1.000/µL com temperatura axilar ≥ 37,5 °C em medida única.

Grupo Hospitalar Conceição. Protocolo de Neutropenia febril, 2019 (arquivo de 2020), seções de introdução e de descrição das atividades por setor

Na prova

O vocabulário do enunciado entrega a régua que a banca adotou. Enunciado que fala em consenso brasileiro, painel ou concordância de especialistas, e que mede temperatura axilar, trabalha com > 38 °C. Enunciado que cita diretriz norte-americana, ou que mede temperatura oral, trabalha com 38,3 °C em medida única ou 38 °C por mais de uma hora. E quando a cena se passa na triagem de um serviço, com protocolo institucional e boletim de atendimento, o número pode descer a 37,5 °C axilar com neutrófilos abaixo de 1.000/µL — é gatilho de acionamento, não definição de doença. Se o gabarito oferecer dois números plausíveis, escolha o do documento cujo vocabulário o enunciado copiou.

Existe tratamento ambulatorial para a neutropenia febril de baixo risco

O escore da associação multinacional de cuidados de suporte em câncer define baixo risco a partir de 21 pontos, com valor preditivo positivo de 91%, especificidade de 68% e sensibilidade de 71% para o desfecho de ausência de complicações graves; ensaios com quinolona associada a amoxicilina-clavulanato por via oral mostraram sucesso de 71% contra 67% do esquema venoso.

Vidal LL, Machado CM. Triagem para o tratamento ambulatorial da neutropenia febril. Rev Bras Hematol Hemoter. 2010;32(5):402-408 (revisão)

O documento se declara aplicável à neutropenia febril que ocorre após tratamento de neoplasias hematológicas e organiza profilaxia, terapia empírica, modificação do esquema e critérios de suspensão; não há, em todo o texto, recomendação sobre estratificação por escore de risco nem sobre manejo fora do hospital.

Nucci M et al. Hematol Transfus Cell Ther. 2024;46(Suppl 6):S346-S361 — Tabela 2 e seção Conclusions

Na prova

O cenário denuncia o recorte. Pergunta que descreve paciente estável, sem comorbidade, com tumor sólido e boa rede de apoio, e que oferece quinolona com amoxicilina-clavulanato por via oral entre as alternativas, está no mundo do escore de risco e da alta precoce. Pergunta ambientada em leucemia aguda, indução, mucosite ou transplante, e que discute escolha de betalactâmico venoso, descalonamento e antifúngico, está no mundo do consenso brasileiro de 2024 — que trata de neoplasia hematológica e não discute alta. Quando as duas condutas aparecem juntas, repare em qual população o enunciado escolheu.

06

Caso resolvido

Mulher de 54 anos, em D+10 do terceiro ciclo de quimioterapia por linfoma não Hodgkin, chega ao pronto-socorro às 22h com febre aferida em casa de 38,6 °C há duas horas e mal-estar. Nega tosse, disúria, dor abdominal e diarreia. PA 118/74 mmHg, FC 98 bpm, FR 18 irpm, SatO₂ 97% em ar ambiente. Tem cateter totalmente implantado em subclávia direita, sem sinais inflamatórios no óstio. Mucosa oral íntegra. Hemograma colhido na admissão mostra neutrófilos de 320/µL.
o diagnóstico
Neutropenia febril: neutrófilos abaixo de 500/µL e temperatura axilar acima de 38 °C, pelas definições do consenso brasileiro. A ausência de foco não afasta infecção — no neutropênico é o achado esperado, porque sem neutrófilo não se forma o sinal localizatório.
o que fazer antes da primeira dose
Dois pares de hemocultura, colhidos de veia periférica e do cateter, com frascos para aeróbios, anaeróbios e fungos. A coleta pelos dois sítios permite comparar o tempo de positivação e decidir depois sobre o cateter. Não se pedem radiografia de tórax nem urocultura de rotina: ela não tem sintoma respiratório nem urinário.
o antibiótico
Monoterapia com cefepima ou piperacilina-tazobactam, escolhida pela epidemiologia do serviço. Não há indicação de carbapenêmico: ela está hemodinamicamente estável e não há história de colonização ou bacteriemia prévia por enterobactéria produtora de ESBL. Também não há indicação de vancomicina empírica — o óstio do cateter está limpo e não há mucosite.
o relógio
O alvo é a primeira dose em até 60 minutos da chegada. Prescrição e coleta correm em paralelo; o horário da hemocultura e o da infusão ficam registrados no prontuário, porque é esse registro que permite auditar o indicador.
e se a febre persistir
Febre que se mantém após três dias de antibiótico empírico é febre persistente: recolher hemoculturas e obter tomografia de tórax. Não se inicia antifúngico empírico só pela persistência — pede-se galactomanana e a tomografia, e o antifúngico entra dirigido pelo resultado.
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Agora feche você

Homem de 61 anos, em quimioterapia de indução por leucemia mieloide aguda, no D+12, apresenta febre de 38,4 °C, dor perianal intensa há um dia e neutrófilos de 90/µL. A inspeção perianal mostra apenas discreto eritema, sem flutuação e sem secreção. Está eupneico, com PA 122/78 mmHg e FC 92 bpm. Recebeu cefepima há 2 dias por episódio febril que cedeu, e a febre retornou hoje. Cultura de swab anal da admissão registrou colonização por MRSA.
por que a dor vale mais que o exame
Com neutrófilos de 90/µL não há pus para formar flutuação nem secreção: a dor perianal desproporcional a um exame externo pobre é o achado, e não a ausência de coleção. O toque retal é evitado no neutropênico pelo risco de bacteriemia.
o que a dor perianal muda no esquema
O consenso recomenda iniciar cobertura para anaeróbios no neutropênico febril que apresenta dor perianal ou manifestação sugestiva de tiflite. É uma adição dirigida pelo achado, não uma ampliação genérica do espectro.
a colonização por MRSA
Não indica vancomicina empírica. O consenso recomenda contra o uso empírico de anti-MRSA no neutropênico febril mesmo quando o paciente é colonizado, e mantém a recusa diante de febre persistente ou recorrente. A vancomicina é o agente de escolha quando houver indicação nomeável — não é o agente de partida.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Esperar o hemograma para prescrever o antibiótico Atrai porque parece rigor: sem o número, não há diagnóstico. Mas o consenso brasileiro manda tratar como neutropênico o paciente que recebeu quimioterapia com potencial de induzir neutropenia, ainda que a contagem esteja acima de 500/µL. Some-se a isso o alvo de 60 minutos, e a conta não fecha: o tempo de processamento do hemograma consome a janela inteira. Colhe-se o sangue e prescreve-se em paralelo.
  2. 2Pedir radiografia de tórax e urocultura de rotina antes de tratar Atrai porque é o que se faz em qualquer febre sem foco. O consenso recomenda contra os dois como parte da avaliação de rotina do neutropênico febril: sem neutrófilo o infiltrado costuma não estar formado e a urina tende a ser pouco informativa. A imagem entra dirigida — tomografia de tórax se há sintoma respiratório, de abdome se há queixa abdominal.
  3. 3Acrescentar vancomicina porque o paciente é colonizado por MRSA Atrai porque a colonização parece justificar cobertura. O consenso recomenda contra a vancomicina empírica justamente nesse cenário, e também na pneumonia e na mucosite, e mantém a recusa mesmo diante de febre persistente ou recorrente em paciente colonizado. Ela é o agente de escolha quando um anti-MRSA está indicado — não é o agente de partida.
  4. 4Iniciar antifúngico empírico porque a febre passou de cinco dias Atrai porque foi a conduta ensinada por duas décadas. O consenso brasileiro de 2024 recomenda contra iniciar antifúngico empírico no neutropênico com febre persistente ou recorrente após 4 a 7 dias de antibiótico, e adota a estratégia preemptiva: galactomanana sérica e tomografia de tórax primeiro, antifúngico dirigido pelo resultado — anfotericina lipossomal, caspofungina ou voriconazol.
  5. 5Manter o antibiótico porque o paciente recuperou o neutrófilo mas segue febril Atrai porque suspender antibiótico em paciente febril parece temerário. A recomendação é a inversa: recuperada a neutropenia e sem infecção documentada, suspende-se o esquema empírico ainda que a febre persista. Se houver infecção documentada, o esquema é ajustado ao agente e mantido até a resolução daquela infecção — o relógio passa a ser o dela.
  6. 6Levar à cirurgia o neutropênico com dor em fossa ilíaca direita Atrai porque a topografia é a da apendicite. No décimo dia após quimioterapia, com distensão e diarreia, o quadro é de enterocolite neutropênica: repouso intestinal, suporte e cobertura para anaeróbios, com tomografia de abdome. A operação em plena aplasia piora o desfecho; a indicação cirúrgica fica para perfuração, sangramento incontrolável ou deterioração apesar do tratamento clínico.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de neutropenia febril (neutrófilos < 500/mm³ com febre ≥ 38°C), emergência infectológica. A conduta é coletar culturas e iniciar imediatamente antibioticoterapia empírica de amplo espectro com cobertura antipseudomonas (ex.: cefepime ou piperacilina-tazobactam), sem aguardar resultados. Postergar o antibiótico aumenta a mortalidade. Manejo ambulatorial com antitérmico é inadequado nesse grau de risco. Antifúngico não é primeira linha inicial (considerado em febre persistente). Espectro estreito com alta não cobre o risco de sepse por Gram-negativos.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as réguas na ordem em que a decisão as usa. Definições do consenso brasileiro: neutropenia = neutrófilos < 500/µL; febre = axilar > 38 °C; febre persistente = após 3 dias de antibiótico empírico; febre recorrente = nova febre após 48 h afebril. Relógio: primeira dose em 60 minutos, contados da porta. Antes da dose: 2 pares de hemocultura (periférica + cateter), frascos aeróbio, anaeróbio e fúngico; contra radiografia de tórax e urocultura de rotina. Empírico: cefepima ou piperacilina-tazobactam; carbapenêmico só com hipotensão/deterioração E ESBL prévia; descalonar em 48–72 h sem documentação. Vancomicina: contra o uso empírico, inclusive em colonizado, pneumonia e mucosite. Escore de risco: ≥ 21 pontos = baixo risco, VPP 91%, especificidade 68%, sensibilidade 71%. Suspensão: ao recuperar o neutrófilo mesmo febril; após 4 dias no neutropênico estável sem foco; manter em quem segue neutropênico e febril.

em 30 dias

Reveja o que a régua brasileira NÃO diz, porque é onde a memória escorrega. O consenso de 2024 se declara para neutropenia febril após tratamento de neoplasia hematológica e não traz estratificação por escore nem manejo ambulatorial; quem sustenta a alta precoce é a literatura de triagem, com os ensaios de quinolona + amoxicilina-clavulanato por via oral (71% de sucesso contra 67% do venoso). Refaça também o raciocínio dos três achados de exame que mudam o esquema — dor perianal e tiflite pedem anaeróbio, lesão nodular de pele pede biópsia — e o dos marcadores: PCR seriada durante o episódio, galactomanana 2–3×/semana em alto risco sem profilaxia anti-Aspergillus, e só sob suspeita em quem já usa antifúngico com ação contra o filamentoso.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 58 anos, em quimioterapia por linfoma, chega ao pronto-socorro às 3h da manhã dizendo que 'está com febre desde ontem' e que tomou dipirona em casa duas vezes. Está sem febre no momento da triagem. Conduza o atendimento: descubra em que dia do ciclo ele está, qual esquema recebeu, se tem cateter e se há mucosite; decida se o protocolo é acionado mesmo com o paciente afebril agora; defina o que colher, o que não pedir e qual antibiótico prescrever; e explique a ele por que tomar antitérmico antes de comunicar a febre atrapalhou o próprio atendimento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Febre no paciente em quimioterapia – Neutropenia febril: o antibiótico corre antes de saber o foco — Preparatório para provas | OsceLabs