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Artrite séptica e osteomielite: o escore que absolve quem tem a doença

Suspeita clínica, limitações dos escores e confirmação microbiológica

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Criança de 4 anos é atendida na UPA com dor e limitação de movimento no joelho direito há 2 dias, febre de 39°C e recusa a apoiar o membro. Ao exame há calor, edema e dor intensa à mínima mobilização passiva da articulação. Qual o próximo passo diagnóstico mais importante?

02

Como esse tema cai

Osso e articulação são o mesmo território para a bactéria e dois capítulos diferentes para quem estuda. O enunciado explora exatamente essa divisão: descreve uma criança que não apoia o pé, um adulto com um joelho quente, um diabético com uma úlcera que já dura meses, e pergunta o que fazer primeiro. As respostas erradas estão sempre disponíveis, porque cada uma dessas cenas tem um dono em outro capítulo — a úlcera é do pé diabético, a fratura aberta é da classificação de Gustilo, a monoartrite à beira do leito é da reumatologia, o quadril que manca sem febre é da ortopedia pediátrica.

O que sobra sem dono é o meio: a infecção que começa dentro do osso sem ferida nenhuma, e a articulação infectada cuja cultura não cresce. São os dois casos em que a prova mede se o candidato entendeu o mecanismo ou apenas decorou um algoritmo, porque em ambos o exame que deveria confirmar volta normal.

Este capítulo percorre três reguas e mostra onde cada uma quebra: o relógio que separa a osteomielite aguda da crônica, a ordem entre a agulha e o antibiótico, e o escore de Kocher lido de trás para frente — a partir de crianças que comprovadamente tinham a doença que ele deveria apontar.

03

O que muda decisão

Três portas para o mesmo osso, e uma delas não deixa cicatriz

A bactéria chega ao osso por três caminhos, e a revisão de osteomielite crônica de fêmur e tíbia os separa sem lhes dar nome próprio: disseminação hematogênica a partir de um foco distante — uma abrasão cutânea mínima, um procedimento odontológico, um cateterismo —, inoculação direta por trauma ou cirurgia, e insuficiência vascular, que é o mecanismo do diabetes. A distinção não é acadêmica: só a primeira produz um doente sem porta de entrada visível, e é justamente esse doente que a prova escolhe.

Na criança, a porta hematogênica tem endereço anatômico. O sangue que irriga o osso longo desemboca na metáfise, onde os capilares fazem alças de fluxo lento junto à placa de crescimento; a bactéria que passa pela corrente sanguínea sedimenta ali. Por isso a osteomielite hematogênica aguda da criança é metafisária, e por isso ela se concentra na metáfise distal do fêmur e na proximal da tíbia — os dois lados do joelho, que é o osso que mais cresce.

Em duas situações essa metáfise fica dentro da cápsula articular: o quadril e o ombro. O colo do fêmur e o colo do úmero são intracapsulares, de modo que uma osteomielite metafisária nesses dois ossos rompe diretamente para dentro da articulação. É a explicação anatômica de uma frase que a prova cobra sem explicar: em criança pequena, artrite séptica e osteomielite coexistem com frequência, e investigar uma obriga a investigar a outra. Na série brasileira de 20 crianças, 3 tinham as duas coisas ao mesmo tempo, e duas dessas três eram no quadril.

O adulto tem uma quarta variante que a criança não tem: a osteomielite vertebral, em que o disco e os dois platôs vizinhos são atingidos juntos, porque no adulto o disco não tem vasos próprios e é irrigado por difusão a partir do osso. Dor lombar que não melhora deitado, febre baixa e marcadores inflamatórios altos em quem teve bacteremia recente é a apresentação, e a radiografia simples é normal por semanas.

Esquema de osso longo infantil com a metáfise destacada como ponto de sedimentação bacteriana, e ao lado o fêmur e o úmero proximais com a cápsula articular envolvendo a metáfise.
A anatomia que faz osso e articulação virarem um problema só: no quadril e no ombro a metáfise é intracapsular, e a infecção do osso rompe para dentro da articulação sem precisar de nenhuma outra porta.

Agudo e crônico não são adjetivos: são seis semanas e um pedaço de osso morto

A distinção que o acervo de provas mais cobra é também a que os textos menos definem. A régua é dupla e as duas metades precisam ser ditas juntas. A primeira é temporal: a osteomielite crônica é a que se apresenta seis semanas depois da infecção inicial. A segunda é anatômica, e é ela que manda: o crônico se caracteriza por inflamação de baixo grau, por trajetos fistulosos e pela presença de um sequestro, isto é, um fragmento de osso necrótico separado do osso vivo.

O sequestro é o motivo pelo qual osteomielite crônica não se cura com antibiótico. O fragmento perdeu o suprimento vascular; sem vaso, o antibiótico não chega e a célula de defesa também não. A bactéria fica alojada num compartimento onde o organismo não entra e o remédio não alcança, e produz um nicho de reinfecção permanente. Alguns agentes penetram melhor que outros — rifampicina e fosfomicina têm alguma capacidade demonstrada de atravessar —, mas a regra que decide conduta é outra: osso morto sai por cirurgia, não por prescrição.

Em volta do sequestro o periósteo forma osso novo, o invólucro, e através dele abre-se um orifício por onde o pus drena, a cloaca. Sequestro, invólucro e cloaca são a tríade radiográfica do crônico e aparecem juntos na descrição do osso do pé diabético de longa data. São três palavras que a prova usa como sinônimo de cronicidade e que valem uma decisão inteira: quem as vê no laudo já sabe que a resposta terá desbridamento dentro.

A classificação de Cierny-Mader organiza esse osso em duas perguntas independentes: a anatomia da lesão — medular, superficial, localizada ou difusa — e o hospedeiro, que pode ser normal, comprometido localmente ou sistemicamente, ou comprometido a ponto de o tratamento ser pior que a doença. A revisão de fêmur e tíbia mostra o que essa graduação prevê. Na série de Ferguson foram 18 recidivas: 11 entre os 144 doentes de grau 3, isto é 7,6%, e 7 entre os 38 de estágio 4, isto é 18,4% — nenhuma nos estágios 1 e 2. Os dois numeradores somam exatamente as 18 recidivas relatadas, o que quer dizer que toda recidiva daquela série aconteceu em doença localizada ou difusa, e nenhuma em doença medular ou superficial.

A leitura que importa para a prova é a proporção: passar de lesão localizada para lesão difusa multiplica a recidiva por cerca de duas vezes e meia. Traduzido em fração, dos doentes de estágio 4 que recidivam, a parcela que não teria recidivado se a doença fosse apenas localizada é de (18,4 − 7,6) dividido por 18,4, ou seja, 58,7% do risco. É por isso que o estadiamento entra antes da escolha da técnica cirúrgica, e não depois.

A agulha vem antes do antibiótico, e a ordem não é preferência

Diante de uma articulação aguda, quente e inchada, a sequência correta tem uma única inversão possível, e ela custa o diagnóstico. Puncionar antes de antibiotizar preserva a cultura; antibiotizar antes de puncionar entrega um doente que ficará semanas em tratamento empírico sem agente identificado e sem antibiograma — e sem ninguém disposto a suspender a droga depois. O líquido vai para contagem de células, pesquisa de cristais, coloração de Gram e cultura, e nenhum desses quatro dispensa os outros três.

Cristal encontrado não exclui infecção. Gota e artrite séptica coexistem, e coexistem com preferência no mesmo doente — o idoso, o diabético, o que já tem articulação alterada. Achar urato monossódico no líquido responde a uma pergunta e não responde à outra; Gram e cultura seguem obrigatórios sempre que houver febre, porta de entrada, imunossupressão ou prótese.

Gram negativo também não exclui. A régua britânica é explícita ao registrar que marcadores inflamatórios normais não excluem artrite séptica, e o mesmo vale para a bacterioscopia. Quando o líquido não cresce e a suspeita permanece, a cultura de biópsia sinovial colhida no momento da lavagem articular recupera parte dos casos, e é especialmente útil para agentes indolentes como micobactérias e fungos.

A técnica de semeadura muda o rendimento mais do que o candidato imagina. Num estudo prospectivo com 40 crianças com infecção osteoarticular — 17 com artrite, 13 com osteomielite e 10 com as duas —, inocular o material operatório diretamente em frasco de hemocultura detectou o patógeno em 68% dos casos, contra 45% do swab e 38% da cultura de tecido. Nove amostras, ou 23% do total, só foram positivas no frasco, e a identificação saiu mais rápido: 3,5 dias contra 4,3 a 4,4 dias dos outros métodos. O frasco de hemocultura não é improviso de plantão; é o método de maior rendimento.

No osso, a amostra que vale é o osso. Cultura de secreção de fístula ou de swab da úlcera reflete a colonização da superfície, não o agente do osso profundo, e a biópsia óssea é o padrão. Essa é a mesma regra que o capítulo do pé diabético aplica ao seu próprio doente; aqui ela vale para o osso que nunca teve ferida.

O escore de Kocher lido de trás para frente

O escore nasceu para separar a artrite séptica do quadril da sinovite transitória na criança, e tem quatro variáveis: febre, recusa de apoiar o membro, velocidade de hemossedimentação acima de 40 mm/h e leucócitos acima de 12.000/mm³. Quanto mais itens presentes, maior a probabilidade estimada de infecção. Caird acrescentou um quinto preditor, proteína C reativa acima de 20 mg/L, e com os cinco presentes a probabilidade estimada sobe a 98%; a revisão sistemática de Nannini, com 11 estudos e 391 crianças com artrite séptica de quadril, sustentou valor preditivo de 97,5%.

Até aqui a corrente corre num sentido só: achados entram, probabilidade sai. A conferência corre no sentido oposto, e é ela que ensina. De Marco reuniu 140 crianças com artrite séptica de quadril por Kingella kingae confirmada, em 17 hospitais de 7 países. Entre as 77 com dados completos para as quatro variáveis, apenas 5 (6,5%) preenchiam os quatro critérios. A mediana do escore foi 2, com intervalo interquartílico de 1 a 3, e 63,6% tinham probabilidade estimada abaixo de 40% — apesar da infecção confirmada. Febre acima de 38,5 °C e velocidade de hemossedimentação acima de 40 mm/h estavam presentes em menos da metade dos casos.

As duas leituras não competem, e o capítulo insiste nisso porque a prova gosta de confundi-las. A primeira responde "qual a chance de infecção dado o que estou vendo" e é a ordem de raciocinar diante do doente. A segunda responde "o que o escore disse sobre crianças que sabidamente tinham a doença" e é a ordem de conferir a régua. Uma é a ordem de decidir; a outra é a ordem de auditar. Um escore pode ser excelente na primeira direção e inútil na segunda, e este é exatamente o caso.

O que separa as duas direções não é a gravidade do doente: é o agente. Kocher e Caird foram construídos e validados numa era em que Staphylococcus aureus dominava, e o estafilococo produz o quadro exuberante que o escore mede. Kingella kingae produz o oposto — e é o agente principal justamente na faixa em que o quadril séptico é mais frequente.

Corrente de quatro caixas ligadas por setas para a direita terminando em probabilidade, com uma seta de conferência apontando para a esquerda a partir de crianças com infecção confirmada, e uma caixa tracejada separada com a proteína C reativa.
A corrente do escore corre num sentido; a conferência corre no sentido oposto e devolve uma mediana de 2 em crianças que comprovadamente tinham a doença. O quinto preditor está desenhado fora da pilha porque não faz parte do escore original.

A metanálise de Tang, com 11 estudos e 1.810 casos, pesou cada preditor isoladamente na separação entre artrite séptica e sinovite transitória. História de febre foi o mais forte, com razão de chances de 6,04 e intervalo de confiança de 2,44 a 14,97; recusa de apoiar o membro veio em seguida, com 5,23; a velocidade de hemossedimentação, com 3,98; e a contagem de leucócitos, com 2,73. Todos significativos. A proteína C reativa isolada, não: razão de chances de 7,12, com intervalo de confiança de 0,59 a 85,70.

Vale ler esse último número com cuidado, porque ele é honesto e parece contraditório. A proteína C reativa tem a maior razão de chances das cinco e é a única que não discrimina. Não há erro: o ponto estimado é alto e o intervalo atravessa o valor neutro, o que significa que os estudos discordam demais entre si para sustentar uma conclusão. Quem ordena os preditores pelo ponto coloca a proteína C reativa em primeiro lugar; quem lê o intervalo a exclui. E, na população de Kingella kingae, ela reaparece como o melhor preditor isolado. Três afirmações verdadeiras sobre o mesmo marcador, e a prova pode cobrar qualquer uma delas.

A idade escolhe o agente, e o agente escolhe o exame

Na Europa ocidental, cerca de 90% das infecções osteoarticulares primárias da criança vêm de três grupos: Kingella kingae, Staphylococcus aureus e estreptococos. A repartição entre eles é etária, e é ela que determina a estratégia de coleta.

Abaixo de 6 meses e no recém-nascido predominam estreptococo do grupo B, Staphylococcus aureus e bacilos gram-negativos; o quadril é o mais atingido e a apresentação é a criança que perde o estado geral e para de mover o membro, muitas vezes sem febre. Nesse grupo, quadril e joelho são acometidos com a mesma frequência, 32% cada, e a cirurgia é necessária em 87,3% dos casos. Uma metanálise com 13 estudos e 258 recém-nascidos encontrou desfecho favorável em apenas 69,7%, com intervalo de confiança de 60,5% a 77,7% — cerca de um terço fica com sequela. Intervenção nos primeiros 7 dias de sintoma foi preditor modificável de bom desfecho.

Entre 6 meses e 4 anos, Kingella kingae predomina. É um comensal da orofaringe, com portadores em 10% a 12% das crianças de 6 a 48 meses que frequentam creche, e produz uma doença de curso brando: menos de 15% dos pacientes têm febre e cerca de 40% têm proteína C reativa normal. A cultura convencional é negativa em 30% a 60% dos casos, e Gram direto costuma não mostrar nada. É por isso que a confirmação nessa faixa depende de método molecular — reação em cadeia da polimerase específica no líquido articular, ou em swab de orofaringe, que serve como diagnóstico não invasivo.

Acima de 4 anos, Staphylococcus aureus volta a dominar: 33% a 37% dos casos confirmados nas séries europeias e 50% a 70% nas coortes norte-americanas, onde a cepa comunitária resistente à meticilina é mais frequente. A gravidade e o risco de sepse são maiores, a artrocentese sob anestesia geral é o padrão, e a cultura convencional volta a ser informativa. O estreptococo do grupo A atravessa as duas faixas e responde por cerca de 10% dos casos com cultura positiva.

A consequência prática inverte a intuição. O agente que produz o quadro mais brando é o que exige a microbiologia mais especializada: frasco de hemocultura, reação em cadeia da polimerase específica, swab de orofaringe. O agente que produz o quadro dramático cresce numa placa comum. Quem trata a criança de 2 anos com febre baixa, proteína C reativa quase normal e cultura negativa como se não tivesse infecção está descrevendo, item por item, o perfil típico da infecção que ela tem.

A série brasileira, contada linha a linha

O estudo do Complexo Hospitalar do Mandaqui acompanhou 20 crianças internadas entre setembro de 2012 e agosto de 2014, e publicou a tabela paciente a paciente. Isso permite recontar cada coluna em vez de aceitar a porcentagem impressa, e a recontagem confirma o essencial e corrige a leitura de dois números que a prova costuma usar.

A repartição fecha exata: 10 crianças com artrite séptica (50%), 7 com osteomielite (35%) e 3 com as duas (15%). A distribuição anatômica também: 3 quadris, 2 cotovelos e 5 joelhos entre as artrites isoladas, e 7 sítios distintos entre as osteomielites. A média de internação, recalculada dos 20 valores individuais, dá 26,9 dias, com extremos de 4 e 106 — o mesmo valor impresso.

A cultura é o número que ensina. Contando a coluna de etiologia linha a linha, 8 das 20 crianças não tiveram crescimento, ou seja, 40%, exatamente a proporção que a discussão do artigo declara. Em duas de cada cinco crianças com infecção osteoarticular tratada como tal, nenhum agente foi isolado. A cultura negativa é o resultado esperado numa fração enorme dos casos, e não um argumento para desfazer o diagnóstico. O próprio artigo explica por quê ao registrar que 30% a 50% dos agentes não são identificados por cultura e ao lembrar que Kingella kingae responde por cerca de 82% das infecções abaixo dos 4 anos sem ser isolável em exame de rotina.

Os marcadores inflamatórios, recontados pelos valores individuais e pelos cortes que o próprio estudo declara — proteína C reativa normal abaixo de 1 mg/dL, hemossedimentação normal abaixo de 20 mm/h —, dão o seguinte. Nas artrites isoladas, proteína C reativa alta em 10 de 10 e hemossedimentação alta em 9 de 10. Nas osteomielites isoladas, proteína C reativa alta em 5 de 7 e hemossedimentação alta em 4 de 7. Nos casos combinados, ambas altas em 3 de 3. A leitura é direta e vale a decisão: no osso, cerca de um terço das crianças chega com pelo menos um marcador dentro da faixa normal. Marcador normal não afasta osteomielite.

Há ainda um par de números que parece contradição e não é. O tempo de internação médio foi de cerca de 26 dias, e o tratamento antibiótico total somado da tabela fica em torno de seis semanas. Não são o mesmo número porque não medem a mesma coisa: a criança recebeu antibiótico intravenoso enquanto internada e continuou com antibiótico oral depois da alta, por 2 a 8 semanas conforme o caso. Quem lê apenas o tempo de internação e o converte em semanas obtém 26 dividido por 7, isto é 3,7 semanas, e corta o tratamento pela metade. Internação não é tratamento, e essa é a armadilha aritmética mais barata do tema.

A mesma cautela vale para as contagens de articulação. As 10 artrites isoladas rendem 10 articulações; incluindo os 3 casos combinados, são 13 crianças e 14 articulações, porque uma delas tinha cotovelo e tornozelo acometidos ao mesmo tempo, além de osteomielite de ulna e fíbula. O cotovelo aparece na série como articulação infectada, como osso infectado e como ambos, em pacientes diferentes. Não há erro em nenhum dos números; há dois conjuntos encaixados, e quem ignora o rótulo da coluna enxerga contradição onde há definição.

A gonocócica é outra doença com o mesmo nome

O adulto jovem sexualmente ativo com artrite aguda tem uma hipótese que muda o esquema inteiro, e o protocolo federal a descreve em poucas linhas densas. A infecção gonocócica disseminada é rara — acomete entre 0,5% e 3% dos casos de infecção gonocócica — e resulta de disseminação a partir das mucosas infectadas, causando febre, lesões cutâneas, artralgia, artrite e tenossinovite sépticas. Acomete mais as mulheres, associa-se à infecção assintomática persistente, e o risco é maior no período menstrual, na gravidez e no pós-parto imediato.

A tenossinovite é o sinal que separa. Enquanto a artrite séptica comum dói dentro da articulação e trava o movimento passivo, a forma disseminada frequentemente dói ao longo dos tendões extensores, com lesões cutâneas pustulosas dispersas e poliartralgia migratória. É uma apresentação em que a punção pode ser difícil e a cultura do líquido pode não crescer, e ainda assim o diagnóstico existe.

O tratamento é diferente do da artrite séptica comum e está no quadro de gonorreia do protocolo: infecção gonocócica não complicada recebe ceftriaxona 500 mg por via intramuscular em dose única, associada a azitromicina 500 mg, dois comprimidos, por via oral, em dose única. A forma disseminada recebe ceftriaxona 1 g por via intramuscular ou intravenosa ao dia, completando ao menos 7 dias de tratamento, com a mesma azitromicina em dose única. Repare que a diferença não é só a dose: é a passagem de dose única para curso diário.

O elo que fecha o raciocínio está em outra parte do mesmo documento. A infecção de faringe é habitualmente assintomática em mais de 90% dos casos, e a bacterioscopia cervical detecta apenas 40% a 60% das infecções na mulher, porque a flora vaginal é densa e o número de gonococos no esfregaço é pequeno. O reservatório da artrite gonocócica é, portanto, um sítio que ninguém coletou e um exame que erra metade das vezes — o que explica por que a história sexual é a pergunta que resolve o caso e por que ela quase nunca é feita.

Escala: quantas artrites sépticas o país produz

Os capítulos de plantão contam casos; a prova cobra ordem de grandeza. A régua britânica em revisão estima a incidência de artrite séptica na população geral em 2 a 12 casos por 100.000 ao ano, e registra letalidade que vai de 2% a 15% conforme a série. Aplicada à população residente do Brasil no censo de 2022, que é de 203.080.756 pessoas, essa faixa produz entre 4.062 e 24.370 casos por ano no país.

A largura da faixa é o achado. O limite superior é seis vezes o inferior, o que significa que 83,3% da estimativa máxima é incerteza, e não doença medida. Nenhum sistema de informação brasileiro conta artrite séptica incidente; conta internação e conta procedimento. Toda vez que um texto apresenta um número nacional de artrite séptica, ele está contando quem chegou à mesa cirúrgica, e o denominador — os que foram tratados a tempo com punção e antibiótico, e os que não foram diagnosticados — permanece invisível.

O mesmo cuidado vale para a razão entre sexos, que a prova cobra e que circula com três valores diferentes. Séries hospitalares pequenas descrevem predomínio masculino de cerca de 3 para 1, e a série brasileira de 20 crianças reproduz isso. Mas o estudo francês de base nacional, com 2.911 pacientes, mede incidências de 24 por 100.000 em meninos contra 19 em meninas — uma razão de 1,26 para 1. Traduzido em fração oculta: da incidência masculina, a parcela que corresponde ao excesso sobre a feminina é (24 − 19) dividido por 24, ou seja, 20,8%. Predomínio masculino real e modesto; o 3 para 1 é o que se vê quando se conta casos numa enfermaria, não quando se mede a população.

Por fim, uma nota sobre a régua em si, porque ela também tem data. A diretriz britânica que organiza o atendimento da articulação quente e inchada no adulto é de 2006. Uma declaração de atualização publicada em 2017 registrou que continuava faltando evidência de boa qualidade e, por isso, não abriu revisão formal. O documento de escopo que anuncia a substituição é de 2025 e reconhece que auditorias mostram aderência ruim à diretriz vigente. Quem estuda por esse tema está lendo, na prática, uma régua de dezoito anos em processo de troca — e é por isso que a duração do antibiótico, que ela fixa em cerca de seis semanas com 1 a 2 semanas iniciais por via intravenosa, aparece em enunciados com faixas diferentes.

04

As réguas, lado a lado

Três tabelas resolvem a maior parte dos enunciados do tema: a que separa osteomielite aguda de crônica pelo relógio e pelo osso, a que confronta as duas leituras do escore de Kocher, e a que liga faixa etária, agente provável e amostra que confirma.

  1. 1Ler a vinheta procurando a porta de entrada. Ferida, cirurgia ou fratura recente apontam inoculação direta; úlcera crônica em diabético aponta insuficiência vascular e pertence ao capítulo do pé diabético; ausência de qualquer porta aponta via hematogênica, que é a que este capítulo cobra.
  2. 2Diante de articulação aguda, quente e inchada, puncionar antes de qualquer antibiótico, e mandar o líquido para os quatro exames: contagem de células, cristais, Gram e cultura. Cristal presente não exclui infecção; Gram negativo não exclui infecção.
  3. 3Se houver material operatório, inocular direto em frasco de hemocultura, e não confiar em swab. Para o osso, colher osso, e nunca através da úlcera ou da fístula.
  4. 4Datar a osteomielite: menos de seis semanas e sem osso necrótico é aguda; seis semanas ou mais, com sequestro, invólucro, cloaca ou fístula, é crônica — e crônica exige desbridamento, porque o antibiótico não chega ao osso morto.
  5. 5Na criança que não apoia o membro, calcular o escore de Kocher pelos quatro itens, mas usar o resultado apenas para subir a suspeita, nunca para descartá-la: abaixo de 4 anos, escore baixo é o esperado na infecção por Kingella kingae.
  6. 6No adulto jovem sexualmente ativo, procurar tenossinovite, lesões cutâneas pustulosas e poliartralgia migratória, e mudar o esquema para o da infecção gonocócica disseminada, que é ceftriaxona diária por pelo menos sete dias, não dose única.
  7. 7Ao definir duração no adulto com articulação nativa, partir de cerca de seis semanas, com as primeiras uma a duas por via intravenosa, e alongar quando houver osteomielite associada, bacteremia ou Staphylococcus aureus.

Osteomielite aguda e crônica: o que muda além do adjetivo

ItemAgudaCrônica
RelógioMenos de seis semanas desde a infecção inicialSeis semanas ou mais desde a infecção inicial
OssoOsso vivo, edema medular, sem fragmento separadoSequestro: fragmento de osso necrótico, desvascularizado
Achados associadosReação periosteal inicial, partes moles edemaciadasInvólucro de osso novo, cloaca de drenagem, trajeto fistuloso
InflamaçãoFranca, com febre e marcadores altos na maioriaDe baixo grau, marcadores podem estar próximos do normal
Por que o antibiótico basta ou não bastaO osso é vascularizado, a droga chegaO sequestro não tem vaso: nem antibiótico nem defesa chegam
Conduta que a resposta trazAntibiótico dirigido, drenagem se houver coleçãoDesbridamento do osso morto; antibiótico sozinho não cura
Estadiamento útilNão se aplicaCierny-Mader: anatomia (medular, superficial, localizada, difusa) mais hospedeiro
Recidiva por estágio (série de Ferguson)Estágios 1 e 2: nenhuma recidivaEstágio 3: 11 de 144 (7,6%). Estágio 4: 7 de 38 (18,4%)

O escore de Kocher nos dois sentidos

PerguntaNo sentido da decisãoNo sentido da conferência
O que entraFebre, recusa de apoiar o membro, hemossedimentação acima de 40 mm/h, leucócitos acima de 12.000/mm³Crianças com artrite séptica de quadril por Kingella kingae já confirmada
O que saiProbabilidade estimada de artrite séptica; com o quinto item de Caird (proteína C reativa acima de 20 mg/L), 98% quando os cinco estão presentesMediana de escore igual a 2, com intervalo interquartílico de 1 a 3
Tamanho da evidênciaRevisão sistemática de Nannini: 11 estudos, 391 crianças, valor preditivo de 97,5%De Marco: 140 crianças, 17 hospitais, 7 países; 77 com as quatro variáveis completas
Resultado marcanteQuatro ou cinco itens presentes tornam a infecção quase certaSó 5 de 77 (6,5%) tinham os quatro itens; 63,6% ficaram com probabilidade abaixo de 40%
Preditor mais forte isoladoFebre, com razão de chances de 6,04 (2,44 a 14,97) na metanálise de TangProteína C reativa acima de 20 mg/L, presente em 76,2% dos casos confirmados
Onde a leitura enganaEscore alto confirma bemEscore baixo não descarta: abaixo de 4 anos, escore baixo é o padrão da doença

Idade, agente provável e a amostra que confirma

Faixa etáriaAgentes predominantesO que a coleta precisa ter
Recém-nascido e lactente até 6 mesesEstreptococo do grupo B, Staphylococcus aureus, bacilos gram-negativosAspiração sistemática e exploração cirúrgica; quadril e joelho com 32% cada; cirurgia em 87,3%; desfecho favorável em 69,7%
6 meses a 4 anosKingella kingae, comensal de orofaringe com 10% a 12% de portadores em crecheFrasco de hemocultura e reação em cadeia da polimerase específica; swab de orofaringe como alternativa não invasiva; cultura convencional negativa em 30% a 60%
Acima de 4 anosStaphylococcus aureus (33% a 37% na Europa, 50% a 70% na América do Norte)Artrocentese sob anestesia geral; cultura convencional é informativa; perfil de toxinas só em doença grave, multifocal ou atípica
Qualquer idade pediátricaEstreptococo do grupo A, cerca de 10% das culturas positivasCultura de líquido articular
Adulto jovem sexualmente ativoNeisseria gonorrhoeae disseminada, 0,5% a 3% das infecções gonocócicasHistória sexual e coleta dos sítios mucosos; faringe assintomática em mais de 90%; bacterioscopia cervical detecta 40% a 60%
Adulto com prótese, artrite reumatoide ou infiltração recenteStaphylococcus aureus e estafilococos coagulase-negativosPunção antes do antibiótico; a doença de base explica o inchaço e é ao mesmo tempo o fator de risco

Os cortes de normalidade usados na recontagem da série brasileira são os declarados pelo próprio estudo: proteína C reativa normal abaixo de 1 mg/dL e velocidade de hemossedimentação normal abaixo de 20 mm/h.

A conversão da faixa de incidência em número absoluto usa a população residente do Brasil no censo de 2022, de 203.080.756 pessoas, e supõe que a incidência britânica se aplique ao país — é ordem de grandeza, não medida nacional.

A duração de seis meses, podendo chegar a nove ou doze, aplica-se à artrite séptica por Mycobacterium tuberculosis, e não ao curso bacteriano comum.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A proteína C reativa discrimina artrite séptica de sinovite transitória?

Discrimina, e é o melhor preditor isolado nessa população

Na auditoria de 140 crianças com artrite séptica de quadril por Kingella kingae confirmada, proteína C reativa acima de 20 mg/L foi o preditor individual mais sensível, presente em 76,2% dos casos, enquanto febre acima de 38,5 °C e hemossedimentação acima de 40 mm/h apareceram em menos da metade. Foi essa observação que levou Caird a acrescentá-la como quinto item ao escore original, elevando a probabilidade estimada a 98% quando os cinco estão presentes.

De Marco e Caird, reunidos na revisão narrativa de amostragem bacteriológica em artrite séptica pediátrica, Antibiotics 2026;15(8):719

Não discrimina: o intervalo de confiança atravessa o valor neutro

A metanálise de Tang, com 11 estudos e 1.810 casos, mediu razão de chances de 7,12 para a proteína C reativa, com intervalo de confiança de 0,59 a 85,70 — resultado sem significância. Os quatro itens originais permaneceram significativos: febre com 6,04 (2,44 a 14,97), recusa de apoiar o membro com 5,23, hemossedimentação com 3,98 e leucócitos com 2,73. A conclusão dos autores é que a inclusão da proteína C reativa como preditor independente é discutível.

Metanálise de Tang, reunida na mesma revisão narrativa, Antibiotics 2026;15(8):719

Na prova

O enunciado entrega qual das duas leituras quer pelo tipo de número que apresenta. Se traz uma criança concreta com proteína C reativa alta e pergunta o que fazer, quer a primeira leitura — a proteína C reativa sobe a suspeita e não a derruba. Se traz razões de chance com intervalos e pergunta qual preditor sustenta a decisão, quer a segunda — e a resposta olha o intervalo, não o ponto. O erro que a banca explora é misturar as duas: usar o ponto estimado de 7,12 para dizer que a proteína C reativa é o preditor mais forte, quando o mesmo estudo mostra que ela é o único não significativo.

Qual é a razão entre meninos e meninas na infecção osteoarticular da infância?

Cerca de 3 para 1, como descrevem as séries hospitalares

A literatura de revisão reproduzida na série brasileira afirma que os meninos são três vezes mais afetados que as meninas, e a própria amostra do Complexo Hospitalar do Mandaqui, recontada linha a linha, traz 15 meninos e 5 meninas entre as 20 crianças internadas. É a proporção que se vê contando pacientes numa enfermaria.

Acta Ortop Bras. 2018;26(3):201-5, introdução e Tabela 1

Cerca de 1,26 para 1, quando se mede incidência populacional

O estudo francês de base nacional com 2.911 pacientes mediu incidência de 24 por 100.000 habitantes em meninos e 19 por 100.000 em meninas, razão de 1,26 para 1. A parcela da incidência masculina que corresponde ao excesso sobre a feminina é de 20,8%. Predomínio masculino existe e é modesto no nível populacional.

Grammatico-Guillon et al., base nacional hospitalar francesa, citado em Acta Ortop Bras. 2018;26(3):201-5, discussão

Na prova

O que separa as duas não é a qualidade do estudo, é a grandeza medida: uma é proporção de casos dentro de uma amostra, a outra é razão entre duas incidências populacionais. Um enunciado que pede a proporção de meninos entre os internados aceita o 3 para 1; um que pede o risco relativo de adoecer sendo menino pede o 1,26. Enunciado que pergunta se o sexo masculino é fator de risco importante quer a segunda leitura, e a resposta honesta é que é fator de risco pequeno.

Quanto tempo de antibiótico na artrite séptica de articulação nativa

Cerca de seis semanas, com uma a duas iniciais por via intravenosa

O documento de escopo da sociedade britânica descreve como prática corrente seis semanas de antibioticoterapia, com as primeiras uma a duas semanas por via intravenosa seguidas de via intravenosa ou oral até completar o curso, e registra que cursos mais longos podem ser necessários quando há osteomielite associada ou outra infecção complexa.

British Society for Rheumatology guideline scope, Rheumatol Adv Pract. 2025;9(3):rkaf058, seção de prática corrente

Pelo menos três semanas no total, conforme resposta clínica

A referência pediátrica adotada pela série brasileira recomenda que o tratamento dure ao menos três semanas no total, dependendo da resposta clínica, e enfatiza a transição de via intravenosa para oral como parte do curso e não como abreviação dele. Na prática da série, todos receberam antibiótico intravenoso durante a internação e oral após a alta.

Kaplan, referência de manejo de infecção osteoarticular, citada em Acta Ortop Bras. 2018;26(3):201-5, discussão

Na prova

O que resolve o enunciado é a população: a régua de seis semanas é de adulto com articulação nativa e a de pelo menos três semanas é pediátrica. A armadilha aritmética mora no meio das duas: quem lê o tempo de internação da série brasileira, cerca de 26 dias, e o converte em semanas obtém 3,7 e conclui que o tratamento durou menos de quatro semanas — mas o antibiótico oral continuou por 2 a 8 semanas depois da alta. Enunciado que dá o tempo de internação e pergunta a duração do tratamento está testando exatamente essa confusão.

06

Caso resolvido

Menino de 2 anos e 4 meses, frequentador de creche, é levado ao pronto-socorro porque há dois dias parou de andar. A mãe conta que ele chora quando alguém tenta trocar a fralda e que tem se mantido deitado, mas comeu bem e brincou sentado no fim da tarde de ontem. Nega trauma. Teve coriza na semana passada. Ao exame, temperatura axilar de 37,6 °C, criança ativa no colo, sem toxemia. O quadril direito fica em flexão, abdução e rotação externa discretas, e a criança chora à rotação interna passiva; não há edema, calor nem eritema visíveis. Exames: leucócitos de 11.400/mm³, velocidade de hemossedimentação de 34 mm/h, proteína C reativa de 26 mg/L. Radiografia de bacia sem alterações. O plantonista calcula o escore de Kocher, encontra 1 de 4 critérios e propõe alta com anti-inflamatório e reavaliação em 48 horas, com hipótese de sinovite transitória.
achado
A recusa de apoiar o membro está presente e é, junto com a febre, um dos dois preditores mais fortes na metanálise de 1.810 casos: razão de chances de 5,23 para a recusa e 6,04 para a febre. A criança que para de andar sem trauma tem um achado de peso, mesmo com o restante do exame discreto.
achado
A posição do quadril em flexão, abdução e rotação externa é a posição de maior volume capsular, aquela que a articulação assume espontaneamente quando há derrame. A ausência de edema, calor e eritema não pesa contra: o quadril é profundo e não mostra sinais de superfície como o joelho.
raciocinio
O escore de Kocher aqui é 1: só a recusa de apoiar está presente. Febre acima de 38,5 °C não há, hemossedimentação está em 34 e não acima de 40, leucócitos em 11.400 e não acima de 12.000. Pelo escore original a probabilidade estimada é baixa, e é exatamente essa leitura que a auditoria de crianças com infecção confirmada desautoriza como critério de alta.
raciocinio
A idade de 2 anos e a frequência a creche colocam a criança na faixa de predomínio de Kingella kingae, cujo portador orofaríngeo chega a 10% a 12% nessa população. Nessa infecção, menos de 15% dos pacientes têm febre e cerca de 40% têm proteína C reativa normal; febre acima de 38,5 °C e hemossedimentação acima de 40 apareceram em menos da metade dos casos confirmados. Escore baixo é o esperado, não o tranquilizador.
raciocinio
A proteína C reativa de 26 mg/L é o único item francamente alterado, e é justamente o preditor que Caird acrescentou como quinto critério e que se mostrou o mais sensível isoladamente nessa população, presente em 76,2% dos casos confirmados. Ele não faz parte do escore que o plantonista aplicou.
conduta
A conduta é ultrassonografia do quadril direito para procurar derrame e, havendo derrame, punção guiada antes de qualquer antibiótico. O material deve ir para contagem de células, Gram e cultura, com inoculação direta em frasco de hemocultura e, se disponível, reação em cadeia da polimerase específica para Kingella kingae. Swab de orofaringe é alternativa não invasiva de apoio.
conduta
Se a punção for negativa ao Gram e a cultura não crescer, isso não desfaz o caso: cultura convencional é negativa em 30% a 60% das infecções por esse agente, e na série brasileira 8 de 20 crianças com infecção osteoarticular tratada não tiveram crescimento. A decisão de manter ou suspender tratamento se apoia na evolução clínica e nos marcadores, não no laudo de cultura isolado.
erro_evitado
A alta proposta pelo plantonista usa o escore de Kocher como critério de exclusão. Ele não serve para isso: em crianças com artrite séptica de quadril confirmada, a mediana do escore foi 2 e 63,6% tinham probabilidade estimada abaixo de 40%. Alta com escore baixo nessa faixa etária é a decisão que a auditoria da própria régua desaconselha.
07

Agora feche você

Homem de 58 anos, diabético tipo 2 em uso de insulina, procura o pronto-socorro por dor lombar há cinco semanas, contínua, que não melhora deitado e que o acorda à noite. Perdeu 4 kg. Nega trauma. Há dois meses internou por infecção de corrente sanguínea associada a cateter, tratada com antibiótico por catorze dias, com hemocultura que cresceu Staphylococcus aureus. Ao exame, temperatura de 37,8 °C, dor à percussão dos processos espinhosos de L3 e L4, sem déficit motor, sem alteração de esfíncteres, reflexos preservados. Leucócitos de 9.800/mm³, velocidade de hemossedimentação de 88 mm/h, proteína C reativa de 74 mg/L. Radiografia de coluna lombar descrita como sem alterações ósseas, com discreta redução de altura do disco L3-L4 atribuída a degeneração. O residente conclui que a radiografia normal afasta processo infeccioso, atribui o quadro a lombalgia mecânica em diabético descondicionado e prescreve analgésico e fisioterapia.
achado
Complete: identifique os elementos da história que caracterizam dor lombar de padrão não mecânico, e diga por que a combinação deles com o antecedente das últimas oito semanas muda a probabilidade pré-teste de infecção.
raciocinio
Complete: explique por que a radiografia simples descrita como sem alterações ósseas não afasta o diagnóstico neste momento da doença, dizendo em quanto tempo as alterações costumam aparecer.
raciocinio
Complete: diga por que a osteomielite do adulto na coluna acomete o disco e os dois platôs vizinhos ao mesmo tempo, e o que isso tem a ver com a irrigação do disco no adulto.
raciocinio
Complete: nomeie o antecedente que funciona como porta de entrada aqui, diga qual agente ele torna provável e explique por que catorze dias de antibiótico podem não ter bastado para esse sítio.
conduta
Complete: escreva a sequência de exames a solicitar, dizendo qual método de imagem responde à pergunta e por que hemocultura, neste caso, deixa de ser exame complementar e passa a ser central.
conduta
Complete: diga o que fazer se as hemoculturas forem negativas e a imagem mantiver a suspeita, nomeando o procedimento que fecha o diagnóstico e dizendo qual material ele colhe.
erro_evitado
Complete: aponte os dois erros do raciocínio do residente — o que ele fez com a radiografia e o que ele fez com a leucometria normal — e diga qual dos dois marcadores deste doente já estava gritando.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Descartar artrite séptica porque o escore de Kocher deu 1 ou 2 Atrai porque o escore é apresentado como ferramenta de decisão e porque probabilidades baixas dão permissão para não puncionar. A auditoria de 140 crianças com artrite séptica de quadril confirmada mostra o custo: a mediana do escore nelas foi 2, apenas 6,5% preenchiam os quatro critérios, e 63,6% ficaram com probabilidade estimada abaixo de 40%. O escore é bom para subir a suspeita e ruim para derrubá-la, porque o agente mais comum na faixa de maior risco produz febre em menos de 15% e proteína C reativa normal em cerca de 40%.
  2. 2Começar antibiótico antes de puncionar porque o doente parece grave Atrai porque parece a conduta cuidadosa e porque adiar antibiótico numa infecção articular soa perigoso. É a conduta que mais destrói informação: reduz a chance de a cultura crescer e entrega um doente que passará semanas em tratamento empírico sem agente e sem antibiograma. A punção leva minutos e devolve contagem de células em uma hora. A única ordem defensável é agulha, depois droga.
  3. 3Excluir osteomielite porque a radiografia veio normal Atrai porque a radiografia é o primeiro exame disponível e porque um exame normal parece tranquilizador. As alterações ósseas só aparecem sete a dez dias depois do início da infecção, e o mesmo se aplica à osteomielite vertebral do adulto, em que a radiografia permanece normal por semanas. Radiografia normal na primeira semana é o achado esperado e serve como comparação para o seguimento, não como critério de exclusão.
  4. 4Colher cultura de swab da úlcera ou da fístula para tratar o osso Atrai porque a secreção está ali, visível e fácil de coletar. O swab reflete a colonização da superfície e não o agente do osso profundo, e o antibiótico escolhido por ele trata a bactéria errada por seis semanas. A amostra do osso é osso, colhida por fora da úlcera, e quando há material operatório o rendimento sobe se ele for inoculado direto em frasco de hemocultura: 68% contra 45% do swab e 38% do tecido, com 23% das amostras positivas apenas no frasco.
  5. 5Tratar osteomielite crônica com antibiótico prolongado, sem cirurgia Atrai porque prolongar o antibiótico parece a alternativa conservadora e porque o doente costuma melhorar temporariamente. O sequestro é osso sem vaso: nem a droga nem a célula de defesa chegam até ele. Rifampicina e fosfomicina penetram melhor que os demais, mas nenhuma resolve o compartimento avascular. Osso morto sai por desbridamento, e o estadiamento de Cierny-Mader prevê o risco de recidiva, que foi de 7,6% na doença localizada e de 18,4% na difusa na série de Ferguson.
  6. 6Confundir o tempo de internação com o tempo de tratamento Atrai porque o enunciado costuma dar o tempo de internação e porque a alta parece o fim do tratamento. Na série brasileira a internação média foi de cerca de 26 dias, e o antibiótico oral seguiu por 2 a 8 semanas depois da alta, somando cerca de seis semanas no total. Dividir 26 por 7 devolve 3,7 semanas e corta o curso pela metade. Alta hospitalar marca a troca de via, não o fim do curso.
  7. 7Tratar a artrite gonocócica disseminada com o esquema da gonorreia comum Atrai porque a dose única é a que todo mundo decorou. A infecção gonocócica não complicada recebe ceftriaxona 500 mg por via intramuscular em dose única com azitromicina; a disseminada recebe ceftriaxona 1 g por via intramuscular ou intravenosa ao dia, por pelo menos sete dias, com a mesma azitromicina em dose única. Muda a dose e muda a lógica: de evento único para curso diário.
  8. 8Aceitar o achado de cristal como resposta e fechar o caso Atrai porque o cristal é um achado positivo e objetivo, e porque o doente costuma ter história de gota. Gota e infecção coexistem no mesmo perfil de paciente — idoso, diabético, com articulação já alterada. Cristal presente responde a uma pergunta e não à outra: Gram e cultura seguem obrigatórios quando há febre, porta de entrada, imunossupressão ou prótese, e a infiltração intra-articular de corticoide só entra depois de a infecção ser descartada.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro sugere artrite séptica (febre alta, monoartrite com dor à mínima mobilização e recusa de apoio) — emergência ortopédica. O próximo passo é a artrocentese, que confirma o diagnóstico e orienta a antibioticoterapia; a drenagem também é terapêutica. Radiografia é pouco sensível na fase inicial. Anti-inflamatório e espera atrasa tratamento e pode causar destruição articular. Ressonância eletiva não é apropriada numa suspeita aguda que exige diagnóstico e conduta imediatos.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Osso e articulação são um território só, e três portas levam a ele: hematogênica a partir de foco distante, inoculação direta e insuficiência vascular. Na criança a via hematogênica é metafisária, e no quadril e no ombro a metáfise é intracapsular, o que faz artrite e osteomielite coexistirem. Osteomielite crônica é a que se apresenta seis semanas depois e tem sequestro, invólucro, cloaca e fístula; o sequestro não tem vaso, por isso antibiótico não cura e desbridamento é obrigatório. O estadiamento de Cierny-Mader cruza anatomia com hospedeiro, e na série de Ferguson recidivaram 7,6% dos de grau 3 e 18,4% dos de estágio 4, nenhum dos estágios 1 e 2. Diante de articulação quente, punção antes de antibiótico, com contagem de células, cristais, Gram e cultura; cristal não exclui infecção e Gram negativo tampouco. Material operatório vai para frasco de hemocultura (68% de rendimento contra 45% do swab e 38% do tecido, com 23% positivos só no frasco); osso vai por biópsia, nunca por swab de fístula. O escore de Kocher tem quatro itens (febre, recusa de apoiar, hemossedimentação acima de 40 e leucócitos acima de 12.000) e Caird acrescenta proteína C reativa acima de 20 mg/L, chegando a 98% com os cinco. Em crianças com artrite séptica por Kingella kingae confirmada, a mediana do escore foi 2 e 63,6% ficaram abaixo de 40% de probabilidade: escore baixo não descarta. Kingella kingae domina de 6 meses a 4 anos, com portadores em 10% a 12%, febre em menos de 15%, proteína C reativa normal em 40% e cultura convencional negativa em 30% a 60%. Staphylococcus aureus domina acima de 4 anos. No recém-nascido a cirurgia é necessária em 87,3% e o desfecho é favorável em apenas 69,7%. Radiografia só altera após 7 a 10 dias. Infecção gonocócica disseminada ocorre em 0,5% a 3%, cursa com tenossinovite e lesões cutâneas, e o esquema é ceftriaxona 1 g ao dia por pelo menos 7 dias mais azitromicina em dose única.

em 30 dias

Reconstrua o capítulo por cinco perguntas. Primeira: por que a osteomielite hematogênica da criança é metafisária, e por que essa mesma anatomia faz o quadril e o ombro comportarem-se de modo diferente dos outros ossos. Segunda: o que exatamente muda quando a osteomielite vira crônica — diga o relógio, diga o achado anatômico, e explique por que o achado anatômico é o que decide a conduta e não o relógio. Terceira: escreva a ordem correta entre agulha e antibiótico e justifique-a com o que se perde ao inverter, depois liste os quatro exames do líquido e diga o que cada um responde e o que cada um não responde. Quarta: apresente o escore de Kocher nos dois sentidos, e explique por que um escore pode ser bom para confirmar e ruim para descartar — use os números da auditoria de crianças com infecção confirmada e diga qual é a característica do agente que produz esse comportamento. Quinta: separe a artrite gonocócica disseminada da artrite séptica comum por apresentação, por sítio de coleta e por esquema, e explique por que o reservatório dessa infecção costuma ser um sítio assintomático. Se travar em alguma, o ponto que falta costuma ser a diferença entre o que uma régua mede e o que a pergunta pede.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menino de 2 anos, que frequenta creche, chega ao pronto-socorro porque parou de andar há dois dias. A mãe nega queda e nega febre alta, e diz que ele chora quando trocam a fralda. O quadril direito fica numa posição que ele não deixa mudar. Os exames de sangue estão quase normais. Conduza a anamnese, decida o que pedir e explique à mãe por que uma criança sem febre pode precisar de uma punção. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Artrite séptica e osteomielite: o escore que absolve quem tem a doença — Preparatório para provas | OsceLabs