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Lesões de ombro e joelho: a regra que para no tornozelo e a exceção que a artrose escreveu

Indicação de imagem e cirurgia nas lesões de ombro e joelho

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 35 anos, jogador de futebol, sofre entorse no joelho direito com o pé fixo e rotação do corpo, ouvindo um 'estalo' seguido de dor e derrame articular volumoso nas primeiras horas (hemartrose). Ao exame, o teste de Lachman está positivo com aumento da translação anterior da tíbia. Qual é a estrutura mais provavelmente lesada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da camada de decisão do ombro e do joelho não fraturados: quem leva radiografia, quem leva ressonância, quem é encaminhado, quem opera e com que número. A anatomia do manguito, do lábio glenoidal e dos meniscos pertence ao ciclo básico e está escrita lá; a técnica das manobras — como se executa Lachman, McMurray, gaveta anterior — pertence à semiologia e também está escrita, com as razões de verossimilhança de cada uma. Repetir qualquer das duas aqui seria desperdício.

Três fronteiras ficam explicitamente de fora. O joelho artrósico com dor crônica é do capítulo de osteoartrite, que resolve o que fazer e o que não fazer; a monoartrite quente é do capítulo de artrite séptica, e o joelho inchado sem punção é erro que aquele capítulo já cobra; e o rótulo ocupacional do ombro, com a síndrome do manguito entre as lesões por esforço repetitivo, é dos capítulos de medicina do trabalho, que tratam de nexo e de notificação.

O que sobra é o que a prova cobra e o acervo não tinha: a regra de decisão do joelho traumático, o significado da hemartrose, o valor real do exame composto, a indicação de ressonância que muda conduta, a etiologia da lesão meniscal como preditor de resultado e o estadiamento do manguito. Cada bloco traz o número, o denominador de onde ele saiu e o erro que o enunciado costuma armar em cima dele.

03

O que muda decisão

A regra de decisão do joelho existe, e não é a do tornozelo

O aluno chega ao joelho traumático já tendo ouvido falar em regras de Ottawa, e é aí que o enunciado o pega. O que quase todo mundo aprendeu foi a regra do tornozelo e mediopé, e ela tem uma arquitetura própria: existe um portão. Só depois de haver dor na região maleolar é que os critérios seguintes passam a contar, e a partir daí valem a dor óssea na borda posterior ou na ponta de um dos maléolos, ou a incapacidade de dar quatro passos logo após o trauma e na avaliação. No mediopé o portão muda de lugar, mas continua existindo.

A regra do joelho, derivada em 1995, não tem portão nenhum. São cinco critérios independentes, e qualquer um deles, sozinho, indica a radiografia: idade de 55 anos ou mais; dor à palpação da cabeça da fíbula; dor isolada à palpação da patela; incapacidade de fletir o joelho a 90 graus; e incapacidade de dar quatro passos logo após o trauma e no pronto-socorro. Não há exigência de que a dor esteja em alguma zona antes de os critérios valerem. Um aniversário basta.

A diferença não é erudição. Ela inverte o gesto: no tornozelo o examinador decide primeiro se a regra se aplica e só então procura os achados; no joelho ele percorre os cinco itens e para no primeiro que aparecer. Quem carrega a arquitetura do tornozelo para o joelho passa a exigir um portão que não existe, e quem mais perde é o paciente de 60 anos que anda, não tem dor de patela e não tem dor de fíbula: pela régua do joelho ele já tem indicação de radiografia pela idade, e pela régua importada do tornozelo vai para casa.

Três painéis de um joelho: palpação isolada da patela, palpação da cabeça da fíbula e flexão a noventa graus.
Três dos cinco critérios da regra do joelho são atos de exame, e cada um vale sozinho: dor isolada na patela, dor na cabeça da fíbula e incapacidade de fletir a noventa graus. Os outros dois são a idade e o teste de apoio.

O segundo item que muda ao atravessar a articulação é o do apoio. Nas duas regras a exigência é dupla, e o texto original diz logo após o trauma e na avaliação — os dois momentos, não um deles. Quem mancou no campo e dá quatro passos no pronto-socorro não preenche o critério. Trocar esse e por um ou transforma um critério raro num critério comum e faz o serviço radiografar mais, que é o contrário do propósito da regra.

Os números da regra do joelho não são os que circulam

A literatura repete que a sensibilidade da regra do joelho se aproxima de 100%: uma revisão sistemática com metanálise a colocou em 99%, com razão de verossimilhança negativa de 0,07, e a revisão de Bachmann e colaboradores chegou a 98,5% e a 0,05. São números medidos em estudos desenhados para medir a regra.

Em 2020, uma auditoria clínica num hospital terciário do sul da Austrália mediu a mesma regra como ela é de fato usada no pronto-socorro, sem treinamento prévio dos solicitantes. De 713 pedidos de radiografia de joelho, 149 preencheram os critérios de elegibilidade, com idade de 18 a 93 anos e média de 44,29; entre esses, 24 tinham fratura confirmada, prevalência de 16,1%. A tabela de contingência é pequena e vale reconstruí-la: 17 verdadeiros positivos, 68 falsos positivos, 7 falsos negativos e 57 verdadeiros negativos.

Daí saem as quatro medidas, e as quatro conferem com a tabela: sensibilidade de 17 sobre 24, que é 70,8% e o artigo arredonda para 71%; especificidade de 57 sobre 125, que é 45,6% e vira 46%; razão de verossimilhança negativa de 0,64 e positiva de 1,3.

A auditoria não corrige a regra: mede o que sobra dela na vida real. Sensibilidade de 71% significa que 7 das 24 fraturas estavam em pacientes cujo pedido, do jeito como foi documentado, dizia regra negativa. E a razão negativa de 0,64 vem com intervalo de confiança de 0,33 a 1,22, que cruza o 1: do jeito como foi aplicada, uma regra negativa não reduziu de forma demonstrável a probabilidade de fratura. Na prova, marque a régua — instrumento de exclusão, sensibilidade alta, especificidade baixa como preço deliberado. Na cabeceira, guarde que o que separa 99 de 71 não está na regra, e sim na execução dos cinco itens.

Quem executa vale mais do que a régua, e isso foi medido

A auditoria separou o desempenho pela profissão de quem pediu a radiografia, e o resultado desmonta uma hierarquia. Fisioterapeutas assinaram 26 pedidos, com 5 verdadeiros positivos, 14 falsos positivos, 7 verdadeiros negativos e nenhum falso negativo: sensibilidade de 100%. Enfermeiros de triagem assinaram 20, também sem falso negativo. Os médicos consultores assinaram 8 e tiveram 2 falsos negativos, sensibilidade de 50%; os residentes assinaram 95 e tiveram 5, sensibilidade de 62%.

As colunas fecham: 26, 20, 8 e 95 dão os 149 pacientes; as fraturas somam 5, 2, 4 e 13, que dão as 24; e os falsos negativos somam 7, como na tabela geral. É a mesma amostra, repartida. A explicação está no bloco de aderência: fisioterapeutas cumpriram a regra em 73% dos pedidos, 19 de 26; enfermeiros em 65%, 13 de 20; residentes em 48,4%, 46 de 95; consultores em 37,5%, 3 de 8. Quem tinha protocolo escrito para pedir exame percorreu os itens; quem tinha autonomia clínica pulou etapas.

Cabe um contraponto honesto, porque a comparação é menos limpa do que parece. Os intervalos de confiança da sensibilidade dos fisioterapeutas e dos enfermeiros vão de 46 a 100% e de 20 a 100%: com apenas cinco e duas fraturas em cada grupo, o 100% é frágil e a diferença entre profissões pode ser de volume e casuística. O que não é frágil é a aderência, contada sobre todos os pedidos.

E há uma armadilha na própria definição de aderência, declarada no método, que muda o sentido do número: considerou-se aderente o pedido em que pelo menos um critério estivesse preenchido ou, se nenhum estivesse, o solicitante escrevesse explicitamente que a regra era negativa. Basta um item. Quem olhou apenas a idade, viu 62 anos, pediu o filme e não examinou patela nem fíbula é contabilizado como aderente. O ou apaga o piso da própria regra, que é avaliar os cinco, e os 73% passam a ser teto de uma exigência menor do que a regra pede.

Os cinco critérios não pesam igual, e os denominadores provam

A auditoria contou com que frequência cada critério apareceu documentado nos 149 pedidos. Idade acima de 55 anos foi o mais frequente, 55 pacientes, ou 36,9%. Dor à palpação da patela, 28, ou 18,8%. Incapacidade de apoio, 27, ou 18,1%. Incapacidade de fletir a 90 graus, 7, ou 4,7%. Dor na cabeça da fíbula, 5, ou 3,4%. Os cinco somam 122 critérios documentados, mas só 85 pedidos foram positivos: a diferença são pacientes que preencheram mais de um item.

O estudo então informa, em duas linhas, o rendimento de fratura de cada critério, e usa cinco denominadores diferentes: 18,5% dos que não apoiavam, 5 de 27; 28,6% dos que não fletiam, 2 de 7; 14,3% dos com dor patelar, 4 de 28; 40% dos com dor na cabeça da fíbula, 2 de 5; e 25% dos acima de 55 anos, 14 de 55. As cinco conversões conferem. Mas os numeradores somam 27 fraturas contra 17 verdadeiros positivos na tabela geral: o paciente com dois critérios foi contado duas vezes. Quem soma essas linhas para estimar quanto cada item rende sozinho está somando pessoas repetidas.

Duas conclusões sobrevivem à leitura cuidadosa. O critério de maior rendimento aparente, os 40% da cabeça da fíbula, repousa sobre cinco pacientes e duas fraturas: reclassificar um caso o leva a 20% ou a 60%, e nenhuma conduta deve depender dele. E o critério de idade, com rendimento de 25%, carrega o maior número absoluto de fraturas, 14 das 24 da série. O item que parece o mais burocrático dos cinco é o que mais encontra osso quebrado.

O joelho que incha na hora, e o exame que só vale no conjunto

Passada a decisão sobre radiografia, o próximo garfo é o do derrame. Inchaço que aparece em minutos a poucas horas depois do trauma é sangue dentro da articulação, e sangue dentro do joelho depois de entorse tem dono estatístico. A diretriz brasileira de diagnóstico do ligamento cruzado anterior, publicada pela sociedade de ortopedia dentro do Projeto Diretrizes da associação médica e do conselho federal, reúne quatro séries: lesão do cruzado em 75% de 50 pacientes com hemartrose, em 85% de outra série, em 72% de uma terceira e em 77% de uma quarta com 132 pacientes. A faixa vai de 72 a 85%, e o recado é o mesmo nas duas pontas: hemartrose pós-entorse é lesão do cruzado até prova em contrário. É por isso que a pergunta sobre o momento do inchaço vale mais do que qualquer manobra isolada, e também por isso que o exame logo depois do trauma costuma ser ruim: o joelho tenso e doloroso não deixa examinar.

A mesma diretriz aponta o teste de Lachman como o melhor da fase aguda, e aqui ela se atrapalha de um jeito instrutivo. Dá a positividade do Lachman agudo em quatro valores, tirados de quatro estudos: 87% num deles, com a observação de que a manobra deixa de fazer o diagnóstico em 13% dos casos; 95% noutro; 99% num terceiro; e, num quarto, 33 positivos em 42 lesões agudas, que dá 78,6% e é o único dos quatro que o texto não converte em porcentagem. Não é contradição a resolver, e sim a origem da faixa: amostras, examinadores e intervalos diferentes entre trauma e exame — num dos estudos o exame foi feito em média 3 dias depois, com mínimo de 1 e máximo de 7.

Só que o documento faz o mesmo com a gaveta anterior, e ali a distância incomoda: um estudo a encontra positiva em 33% dos pacientes conscientes e outro em 70%, um fator de 2,1 para a mesma manobra na mesma fase, em parágrafos vizinhos. Sob anestesia a diferença some: 98% e 91%. É esse apagamento que ensina o mecanismo. A gaveta depende de o paciente relaxar, e o joelho agudo dói; o Lachman, feito perto da extensão e com pouca amplitude, sofre menos com a defesa muscular. O pivot shift é o extremo: aparece em 35% dos acordados e em 98% sob anestesia.

Na lesão crônica a mesma metanálise dá gaveta anterior com sensibilidade média de 62% e especificidade de 88%; Lachman com 86% e 91%; pivot shift com especificidade de 97 a 99% e sensibilidade de 18 a 48%. A leitura clássica cai por si: Lachman para excluir, pivot shift para confirmar. Poucas linhas adiante, o mesmo documento cita outro estudo em que a gaveta anterior foi positiva em 92% dos pacientes crônicos conscientes, contra os 62% da metanálise — trinta pontos de diferença. Aqui a divergência é precisão de linguagem, não descuido: 62% é média agrupada de vários estudos e 92% é um estudo só, com grau de recomendação menor. O documento rotula cada afirmação com o grau da evidência; quem ignora os rótulos vê contradição, quem os lê vê hierarquia.

O que vale mais do que qualquer manobra isolada é o conjunto. A revisão sistemática de melhor grau mostra que o exame composto — as manobras feitas em série e interpretadas juntas — alcança razão de verossimilhança positiva de 25,0 e negativa de 0,04. O que quase nunca circula junto é o intervalo de confiança dessa razão: de 2,1 a 306,0. Duas ordens de grandeza. O ponto de 25,0 continua sendo a melhor estimativa disponível, mas a largura do intervalo diz que a amostra que o produziu era pequena, e tratar 25,0 como constante é mais confiança do que o dado sustenta. Vale a mesma lógica da razão negativa de 0,64 da auditoria de Ottawa: o intervalo é parte do número, não enfeite dele.

Ressonância: quando ela decide e quando só confirma

A pergunta que a prova faz não é se a ressonância enxerga a lesão, e sim se ela muda a conduta. A diretriz é explícita numa das poucas frases em forma de contraindicação: a ressonância não está indicada se a reconstrução já estiver planejada, depois de o paciente readquirir amplitude normal, porque as lesões associadas aparecerão na artroscopia de tratamento. Imagem que não muda decisão é gasto e atraso.

Quando ela muda, muda muito. Numa série pequena, a artroscopia mostrou 20 lesões do cruzado em 23 pacientes e a ressonância identificou 18, sensibilidade de 90%; dos três pacientes com ligamento normal houve um falso-positivo, e o texto registra especificidade de 67%. Vale insistir: essa especificidade é 2 sobre 3, e um único paciente reclassificado a levaria a 33% ou a 100%. É o tipo de número que não se cita sem o denominador.

O mesmo estudo mostra o que a ressonância faz de melhor, que é ver o que o joelho tem além do ligamento: 14 contusões ósseas, cinco lesões do cruzado posterior, nove do colateral medial e uma do colateral lateral. Para lesões compostas que exigiam intervenção a sensibilidade foi de 100%, e o exame teria evitado a artroscopia diagnóstica em 22% dos casos, cerca de 5 dos 23 pacientes.

Um segundo estudo do mesmo documento oferece o contraponto que ninguém espera: a ressonância teve sensibilidade de 97% para detectar lesão do cruzado em geral, mas esse número cai para 82% na lesão completa — enquanto o estudo anterior encontrou 94% justamente para as lesões completas de alto grau. A mesma diretriz tem, portanto, a sensibilidade da ressonância subindo e descendo na lesão completa conforme a fonte. Não há como reconciliar as duas dentro do documento, e por isso nenhuma conduta deste capítulo se apoia nessa comparação. O que se apoia com segurança é a hierarquia que a diretriz sustenta: história e exame bem feitos são equivalentes ou superiores à ressonância nessa lesão, e o exame físico inicial acertou 83% contra a artroscopia.

Menisco: a etiologia decide o resultado, e a maioria não é traumática

A palavra menisco carrega uma imagem única na cabeça do estudante: o jogador que torceu o joelho. A série brasileira mais útil sobre o assunto desmonta essa imagem. Foram 435 pacientes com lesão meniscal isolada, diagnóstico clínico confirmado por ressonância em todos, artroscopia em todos e seguimento de 4 anos, com exclusão de quem já tinha sinal radiográfico de artrose.

Os autores dividiram a casuística por etiologia: 194 traumáticas, com história clara de trauma datado; 101 degenerativas, de início insidioso e progressivo; e 140 por fadiga, de sintomas agudos sem trauma que os explique. A coluna fecha nos 435, e as proporções são 44,6%, 23,2% e 32,2%. Menos da metade das lesões meniscais isoladas que chegam ao cirurgião são traumáticas.

O desfecho separa os três grupos. Contando como resultado ruim os sintomas persistentes após 6 meses ou complicação maior, houve 15 ruins entre as 194 traumáticas, 7,7%; 43 entre as 101 degenerativas, 42,6%; e 13 entre as 140 por fadiga, 9,3%. A meniscectomia falha cerca de 5,5 vezes mais na lesão degenerativa do que na traumática, e o grupo de fadiga se comporta como o traumático.

Vale conferir a contabilidade à mão, porque o próprio artigo tropeça nela. A tabela de resultados gerais registra 363 bons, 71 ruins e total de 434. A tabela que abre os mesmos resultados por etiologia registra 179 mais 58 mais 127 bons, que são 364, e os mesmos 71 ruins, fechando em 435. As duas tabelas do mesmo artigo diferem em um paciente, e a que fecha com a casuística é justamente a construída grupo a grupo. Quando duas contagens brigam, aposte na que foi feita por partes.

Duas restrições precisam viajar junto com o número, ou ele engana. A primeira é a idade: mediana de 56 anos, média de 57, terceiro quartil de 64 e mínimo de 40 anos. Não há um único paciente abaixo dos 40 na série, de modo que o joelho do atleta de 22 anos, que é o caso da prova, está fora do denominador que produziu os 7,7%. A segunda é que 72,6% da casuística tinha mais de 50 anos, o que explica por que degenerativa e fadiga somam mais da metade dos casos.

A série dá ainda o número que falta ao capítulo de osteoartrite deste acervo. Aquele capítulo recusa artroscopia de limpeza e desbridamento no joelho artrósico com uma única exceção nominal — bloqueio mecânico por corpo livre ou lesão meniscal traumática — e nomeia essa exceção três vezes sem nunca dizer quanto ela pesa. Pesa 44,6% das lesões meniscais isoladas numa série com mediana de 56 anos, e o restante cai exatamente na faixa em que a artroscopia é recusada e falha em 42,6% quando feita. E, na mesma série, em 96% dos casos a ressonância apenas confirmou o diagnóstico clínico: onde ela acrescentou foi na cartilagem, com 92 lesões condrais vistas na imagem e confirmadas na artroscopia mais 10 osteocondrais que só a artroscopia encontrou.

Ombro: o estadiamento cobrado e os dois testes que dão nome à síndrome

No ombro, a régua que organiza tudo é antiga e continua sendo cobrada. O estadiamento de Neer descreve três estágios: no estágio I, edema, inflamação e hemorragia da bursa e dos tendões, sobretudo em jovens; no estágio II, espessamento da bursa e fibrose tendínea, tipicamente entre 25 e 40 anos; no estágio III, ruptura completa do manguito com alterações ósseas da cabeça umeral e do acrômio, acima dos 40 anos. A idade não é enfeite do estágio: é parte da definição.

A segunda régua é o tamanho da rotura no maior diâmetro: pequena abaixo de 1 cm, média abaixo de 3 cm, grande abaixo de 5 cm e maciça acima de 5 cm. Guarde o corte de 3 centímetros, porque é o que aparece no prognóstico: roturas maiores têm sete vezes mais chance de re-lesão depois do reparo, segundo a diretriz brasileira de tratamento cirúrgico. E os dois testes que nomeiam a síndrome são os irritativos de Neer e de Hawkins, que reproduzem o pinçamento do tendão contra o arco coracoacromial, ao lado do arco doloroso.

A série brasileira de tratamento conservador é pequena, mas é a que existe em português e a que a prova nacional tende a espelhar. Foram 26 pacientes, 9 homens e 17 mulheres, de 34 a 84 anos, média de 61,6, com 12 sedentários e 14 ativos, todos com arco doloroso e Neer e Hawkins positivos, submetidos a programa supervisionado de 6 meses e reavaliados 6 meses depois da alta. Oito tinham rotura completa e 18, parcial. O resultado: 18 satisfatórios e 8 insatisfatórios com indicação cirúrgica.

O número que circula é 69%, e ele merece três reservas. A primeira é aritmética e pequena: 18 sobre 26 é 69,23% e 8 sobre 26 é 30,77%, e o artigo imprime 69,22% e 30,78%. As duas parcelas foram arredondadas para lados opostos, de modo que a soma continua fechando em 100 enquanto cada uma erra a segunda casa.

A segunda reserva é o denominador, e muda o significado. O mesmo artigo informa que cerca de 180 pacientes foram tratados de forma conservadora nos dois serviços no período, com toda sorte de tratamentos, e que o estudo avaliou 26 deles — os que completaram o protocolo com um único reabilitador, sem infiltração prévia, sem cirurgia prévia e sem doença reumática. Os 69% descrevem o melhor cenário de aderência, não a experiência do serviço; quem os carrega para o ambulatório comum usa o teto como média.

A terceira é a comparação que o próprio artigo cita: outro autor brasileiro tratou 171 casos de síndrome do impacto e de lesão do manguito com termoterapia e exercícios e obteve resultado satisfatório em 42,9% em um ano e 21,5% em dois anos. A queda entre o primeiro e o segundo ano é a informação, e raramente aparece nos resumos: o resultado conservador do ombro pode ser bom no curto prazo e escorrer depois. Sempre que uma fonte der um único número de sucesso conservador, procure em que momento ele foi medido.

Quem opera, e o e ou que entrega o mesmo paciente para os dois lados

A frase que resume a conduta do manguito nas fontes brasileiras é curta e tem um defeito lógico que a prova adora: o tratamento conservador das roturas completas pode ser bem sucedido em pacientes sedentários e ou idosos, ao passo que o reparo cirúrgico é a melhor conduta para os indivíduos ativos ou nos casos de dor e fraqueza persistentes e evolutivas.

Sob esse e ou, ser sedentário basta e ser idoso basta. Um bancário de 45 anos que não faz exercício qualifica pela primeira metade; uma professora de 72 anos que nada três vezes por semana qualifica pela segunda. Só que a mesma professora é indivíduo ativo, e a frase seguinte a manda para a cirurgia. O subcaso em que as duas regras se cruzam é justamente o do idoso ativo, que é o grupo que mais cresce e o que mais aparece em enunciado. A pergunta que resolve não está em nenhuma das duas frases: o que este ombro precisa fazer?

Do lado cirúrgico, a diretriz brasileira abre com uma afirmação forte — as evidências disponíveis não sustentam o uso da fisioterapia como alternativa à cirurgia nas lesões traumáticas do manguito em pacientes ativos — e, logo abaixo, descreve a evidência que a sustentaria: a revisão sistemática mais recente conseguiu incluir apenas cinco estudos, um sobre lesões maciças e os outros sem relato de extensão, e por heterogeneidade não foi possível definir os resultados, sendo necessários novos estudos.

Não sustentar e não ter sido possível medir são coisas diferentes, e a distância entre elas é a que separa ausência de evidência de evidência de ausência. A premissa citada não carrega a conclusão enunciada. Isso não torna a recomendação errada — a preferência pelo reparo no jovem ativo com rotura traumática tem outras razões, entre elas a de que o tendão roto retrai e cicatriza mal —, mas obriga a ler a frase com o rótulo de evidência ao lado, e não como fato estabelecido.

Quanto à técnica, o que a prova cobra é modesto e estável. Artroscopia e cirurgia aberta têm satisfação equivalente: em roturas pequenas e moderadas, 97% e 94,6%; em grandes e maciças, 82,4% e 76,9%. O que muda o resultado não é a via, é o tamanho. A via artroscópica poupa o deltoide, cuja preservação importa para a função, e reduz a morbidade pós-operatória imediata. Um contraponto sobre essa equivalência: no estudo que comparou artroscopia com a técnica mini-open, o seguimento médio foi de 33 meses num braço e de 19 meses no outro, e a conclusão de ausência de diferença saiu assim mesmo. Quatorze meses num desfecho que inclui re-lesão não são detalhe, e é razoável ler essa equivalência como provisória.

O que o país faz com o joelho, e um erro de epidemiologia para não repetir

Fechar com o retrato nacional muda a escala do problema. Entre janeiro de 2008 e dezembro de 2014, o sistema público brasileiro registrou 48.241 reconstruções do ligamento cruzado anterior, extraídas das autorizações de internação hospitalar pelo código do procedimento. Os totais anuais vão de 4.954 em 2008 a 8.123 em 2014 e somam exatamente os 48.241 — a coluna fecha. Homens responderam por 39.586, 82%, e mulheres por 8.655, 18%; as duas parcelas também fecham.

A distribuição etária concentra o que a clínica prevê: 36% na faixa de 21 a 30 anos e 30% na de 31 a 40, de modo que dois terços das cirurgias estão entre 21 e 40 anos, contra 7% acima de 51. O contraste internacional é o dado mais desconfortável: a incidência brasileira do período, de 3,49 por 100 mil pessoas-ano, contra 34 na Noruega e 52 na Austrália. Não é plausível que o joelho brasileiro se rompa dez vezes menos, e a leitura correta é de fila, não de epidemiologia da lesão.

Há, nesse mesmo artigo, um erro que vale mais como aula do que como defeito. O resumo apresenta 3,49 por 100 mil pessoas-ano como a incidência geral dos sete anos, o que é aritmeticamente coerente. A seção de resultados, porém, escreve que a incidência era 2,59 em 2008 e aumentou 64% para 3,49 em 2014 — e a tabela do próprio artigo registra 4,0 para 2014.

Onde nasce o 64%? Nos números absolutos: 4.954 em 2008 e 8.123 em 2014 dão exatamente 63,97%. O crescimento da incidência, calculado pela tabela do artigo, vai de 2,6 a 4,0, isto é, 54%. O texto colou um crescimento de contagem numa frase sobre taxa. O que a taxa existe para remover é justamente o crescimento populacional, e a frase o devolveu por dentro. É o erro que a prova de saúde coletiva cobra em outra roupa, e aqui aparece publicado, num artigo cujas demais contas fecham.

Fica também um número que não reconcilia e que este capítulo não usa: o custo total é dado como 56 milhões de dólares e a média por cirurgia como 1.145, mas 48.241 vezes 1.145 dá 55,2 milhões. A diferença é pequena e pode vir de arredondamentos internos que o artigo não mostra. Quando a conta não fecha e não há como saber por quê, o número sai do texto em vez de virar afirmação.

04

Do trauma à decisão: radiografia, ressonância, encaminhamento

Três perguntas em sequência, e cada uma tem instrumento próprio. A primeira é se há fratura, e ela se resolve por regra de decisão. A segunda é qual estrutura foi lesada, e ela se resolve pelo momento do derrame e pelo exame composto. A terceira é se a imagem avançada muda alguma coisa, e ela se resolve perguntando qual conduta depende do resultado.

  1. 1Datar o trauma e o derrame. Inchaço em minutos a poucas horas é hemartrose e aponta lesão ligamentar; inchaço no dia seguinte favorece lesão meniscal ou derrame inflamatório. Essa pergunta vale mais do que qualquer manobra isolada.
  2. 2Aplicar a regra do joelho por inteiro, os cinco itens: idade de 55 anos ou mais, dor à palpação da cabeça da fíbula, dor isolada à palpação da patela, incapacidade de fletir a 90 graus e incapacidade de dar quatro passos logo após o trauma e agora. Qualquer um positivo indica radiografia; nenhum critério precisa de outro para valer.
  3. 3Não importar o portão da regra do tornozelo. No joelho não existe pré-requisito de dor em zona: o item de idade dispara sozinho, e foi ele que carregou 14 das 24 fraturas na auditoria de serviço.
  4. 4Com radiografia sem fratura e hemartrose presente, tratar como lesão do cruzado até prova em contrário e examinar de novo depois de a dor e o derrame cederem. O exame agudo subestima a gaveta anterior e o pivot shift; o Lachman é o que resiste melhor à defesa muscular.
  5. 5Interpretar as manobras em conjunto, nunca isoladas. O exame composto do cruzado chega a razão de verossimilhança positiva de 25,0, contra 1,3 do McMurray isolado; a dor de interlinha isolada não informa nada.
  6. 6Pedir ressonância quando o resultado muda a conduta: dúvida diagnóstica que decide entre tratar e não tratar, suspeita de lesão associada que mude o plano cirúrgico, ou incapacidade persistente sem explicação. Não pedir quando a reconstrução do cruzado já está decidida e o joelho ainda vai recuperar amplitude.
  7. 7No menisco, classificar a etiologia antes de prometer resultado: trauma datado, início insidioso e progressivo, ou início agudo sem trauma. A meniscectomia rende 7,7% de resultado ruim na lesão traumática e 42,6% na degenerativa.
  8. 8No ombro, estadiar por Neer e medir a rotura. Estágio e tamanho decidem o prognóstico; a via cirúrgica, não. Roturas acima de 3 centímetros têm sete vezes mais re-lesão.
  9. 9Encaminhar com a informação que o especialista precisa: mecanismo, momento do derrame, os cinco itens da regra com o resultado de cada um, amplitude ativa e passiva, e o que já foi tentado e por quanto tempo.

A regra do joelho não tem portão

No tornozelo, é preciso haver dor na região maleolar antes de os critérios contarem. No joelho, os cinco critérios valem sozinhos, e o primeiro deles é a idade de 55 anos. Quem exige portão no joelho deixa de radiografar o idoso que anda.

Hemartrose tem dono

Entre 72 e 85% dos joelhos com hemartrose pós-entorse têm lesão do ligamento cruzado anterior nas séries reunidas pela diretriz brasileira. O momento do inchaço é a pergunta de maior rendimento da anamnese do joelho traumático.

A etiologia do menisco vale mais que a manobra

Trauma datado prevê 7,7% de resultado ruim; início insidioso prevê 42,6%. A pergunta que separa os dois é quando começou, e ela é feita antes de qualquer teste.

Ressonância que não muda conduta

Se a reconstrução do cruzado já está decidida e o joelho ainda vai recuperar amplitude, a ressonância não é indicada: as lesões associadas aparecerão na artroscopia de tratamento.

Os cinco critérios da regra do joelho e o que cada um rendeu numa auditoria de 149 pacientes com 24 fraturas

CritérioDocumentado emFratura entre quem tinha o critérioO que a leitura exige
Idade de 55 anos ou mais55 de 149, ou 36,9%14 de 55, ou 25%Dispara sozinho e carrega o maior número absoluto de fraturas da série
Dor isolada à palpação da patela28 de 149, ou 18,8%4 de 28, ou 14,3%Isolada quer dizer sem outro ponto doloroso, e depende de palpar os outros pontos
Incapacidade de dar quatro passos27 de 149, ou 18,1%5 de 27, ou 18,5%Exige os dois momentos: logo após o trauma e na avaliação
Incapacidade de fletir a 90 graus7 de 149, ou 4,7%2 de 7, ou 28,6%Raro e específico; medir, não estimar a olho
Dor à palpação da cabeça da fíbula5 de 149, ou 3,4%2 de 5, ou 40%O maior rendimento aparente vem de cinco pacientes; não sustenta conduta sozinho

Lesão meniscal isolada por etiologia numa série de 435 pacientes com mediana de 56 anos

EtiologiaComo se reconheceCasosResultado ruim após meniscectomia
TraumáticaTrauma datado, referido com hora e mecanismo194, ou 44,6%15 de 194, ou 7,7%
DegenerativaInício insidioso e progressivo, sem marco temporal101, ou 23,2%43 de 101, ou 42,6%
Por fadigaInício agudo sem trauma que o explique140, ou 32,2%13 de 140, ou 9,3%
Série inteiraExcluídos os que tinham sinal radiográfico de artrose435, sem paciente abaixo de 40 anos71 de 435, ou 16,3%

A regra do joelho e a do tornozelo compartilham o nome da cidade e nada mais na arquitetura: uma tem portão e a outra tem cinco gatilhos independentes. As acurácias também são diferentes, e a que circula com 97,3% de sensibilidade é a do tornozelo e mediopé.

Toda razão de verossimilhança citada neste capítulo vem com intervalo quando o intervalo existe. Um ponto de 25,0 com intervalo de 2,1 a 306,0 e um ponto de 0,64 com intervalo de 0,33 a 1,22 dizem coisas muito diferentes sobre o quanto se pode apoiar neles.

Idade é critério em duas réguas deste capítulo por motivos opostos: na regra do joelho ela indica imagem porque o osso do idoso quebra com trauma menor; no estadiamento de Neer ela ajuda a definir o estágio porque o tendão degenera com o tempo.

Quando duas tabelas do mesmo artigo divergem, prefira a que foi construída por subgrupos: ela precisa fechar em cada linha e no total, e por isso erra menos.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Fisioterapia é alternativa à cirurgia na rotura completa do manguito rotador?

As evidências disponíveis não sustentam o uso da fisioterapia como forma de tratamento alternativo à cirurgia nas lesões traumáticas do manguito rotador em pacientes ativos.

Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina — Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e Colégio Brasileiro de Radiologia, Roturas Completas do Manguito Rotador: Tratamento Cirúrgico, elaboração final em 19 de outubro de 2007

A revisão sistemática citada por essa mesma recomendação incluiu apenas cinco estudos, um deles sobre lesões maciças e os demais sem relato da extensão da lesão, e concluiu que por heterogeneidade não foi possível definir os resultados, sendo necessários novos estudos.

Mesmo documento, descrição da evidência que sustenta a recomendação, referências 1 a 3 com grau A

Num programa supervisionado de seis meses, 18 de 26 pacientes com rotura parcial ou completa tiveram resultado satisfatório mantido seis meses após a alta, e 8 foram encaminhados à cirurgia; e o tratamento conservador da rotura completa pode ser bem sucedido em pacientes sedentários e ou idosos.

Lech O, Valenzuela Neto C, Severo A, Acta Ortopédica Brasileira 2000;8(3):144-156

Na prova

O avaliador que escreve não sustentam está cobrando a recomendação e espera a resposta cirúrgica no jovem ativo com rotura traumática. O avaliador que descreve um paciente sedentário ou idoso, com rotura degenerativa e sem fraqueza progressiva, está cobrando a exceção e espera reabilitação supervisionada com reavaliação. Repare em três palavras do enunciado — traumática, ativo e evolutiva — porque são elas que trocam o lado da régua.

Quanto tempo esperar entre a lesão do cruzado anterior e a reconstrução

O período de uma a quatro semanas entre a lesão e o procedimento cirúrgico foi considerado ideal pela maioria dos participantes, 52,65% dos 226 cirurgiões de joelho respondentes.

Arliani GG e cols., Revista Brasileira de Ortopedia 2012;47(2):191-196

Mesmo em casos de dúvida no exame inicial, institui-se a terapia inicial da lesão aguda do joelho e reexamina-se o paciente 7 a 10 dias mais tarde, sem necessidade de ressonância; e a ressonância não está indicada se a reconstrução já estiver planejada, após o paciente readquirir sua amplitude de movimento normal.

Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina — Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Lesão do Ligamento Cruzado Anterior: Diagnóstico, 26 de outubro de 2007, opinião com grau D e recomendação sobre imagem

Na prova

As duas posições respondem a perguntas diferentes e o enunciado sinaliza qual delas quer. Quando o texto fala em agendamento cirúrgico e em preferência de cirurgiões, o recorte é o da janela de uma a quatro semanas. Quando o texto descreve um joelho agudo, tenso e sem amplitude, o recorte é o da reavaliação em 7 a 10 dias, porque a condição para operar não é o calendário e sim a amplitude recuperada.

Qual é a sensibilidade da regra de Ottawa para o joelho

Revisão sistemática com metanálise demonstrou sensibilidade de 99% e razão de verossimilhança negativa de 0,07; outra revisão encontrou 98,5% e 0,05.

Sims JI, Chau M, Davies J, Journal of Medical Radiation Sciences 2020;67(3):193-198, citando a própria metanálise dos autores e a revisão de Bachmann e colaboradores

Na auditoria de 149 pedidos de um pronto-socorro terciário, sem treinamento prévio dos solicitantes, a sensibilidade foi de 71% com intervalo de 49 a 87%, e a razão de verossimilhança negativa de 0,64 com intervalo de 0,33 a 1,22.

Sims JI, Chau M, Davies J, Journal of Medical Radiation Sciences 2020;67(3):193-198, resultado próprio do estudo

Na prova

Prova de conhecimento cobra a régua: a regra do joelho é instrumento de exclusão, com sensibilidade alta e especificidade deliberadamente baixa. Prova de interpretação de artigo ou de gestão cobra a diferença entre eficácia e efetividade, e aí o número que interessa é o da auditoria. Identifique pelo verbo do enunciado: quando ele pergunta o que a regra faz, é a régua; quando ele pergunta o que aconteceu num serviço, é a auditoria.

06

Caso resolvido

Homem de 61 anos, aposentado, caminha diariamente e nunca teve problema no joelho. Escorrega no meio-fio e torce o joelho direito, há 3 horas. Chega ao pronto-socorro andando, com dor moderada na face medial do joelho. Ao exame, não há derrame visível nem palpável; a palpação da patela é indolor, a da cabeça da fíbula é indolor, há discreta dor difusa na interlinha medial. Ele flete o joelho até 110 graus e deu mais de quatro passos tanto no local do acidente quanto na sala de espera. O plantonista considera contusão simples, prescreve analgésico e cogita alta sem imagem.
achado
Quatro dos cinco critérios da regra do joelho estão negativos: sem dor patelar isolada, sem dor na cabeça da fíbula, flexão acima de 90 graus e apoio preservado nos dois momentos exigidos.
achado
O quinto critério está positivo e é o único: idade de 61 anos, portanto 55 anos ou mais.
raciocínio
Na regra do joelho os cinco itens são independentes e não existe pré-requisito de dor em zona alguma. Um critério positivo indica radiografia, e a idade é um critério, não um dado de contexto.
raciocínio
Este é exatamente o item de maior rendimento absoluto na auditoria de serviço: entre os pacientes com 55 anos ou mais, 25% tinham fratura, e esse grupo concentrou 14 das 24 fraturas da série.
conduta
Solicitar radiografia do joelho direito antes de decidir a alta, registrando no pedido o resultado de cada um dos cinco itens.
conduta
Registrar também a ausência de derrame e o horário do trauma. Sem hemartrose e com apoio preservado, a suspeita de lesão ligamentar maior é baixa, mas a reavaliação em 7 a 10 dias continua indicada se a dor persistir.
erro evitado
Dar alta sem imagem por ter aplicado ao joelho a arquitetura da regra do tornozelo, em que os critérios só contam depois de haver dor na região maleolar. No joelho, esse portão não existe.
07

Agora feche você

Mulher de 72 anos, nada três vezes por semana e cuida da horta de casa, procura o ambulatório com dor no ombro direito há 8 meses, pior à noite e ao elevar o braço acima da cabeça. Ao exame, arco doloroso entre 70 e 120 graus, testes irritativos de Neer e de Hawkins positivos, força de rotação lateral reduzida em relação ao lado esquerdo e amplitude passiva preservada. A ultrassonografia descreve rotura completa do supraespinal, medindo 2,4 centímetros no maior diâmetro. Ela nunca fez fisioterapia orientada e vem tomando anti-inflamatório por conta própria há meses. O residente escreve na evolução: paciente idosa, indicar tratamento conservador.
achado
Arco doloroso com testes irritativos de Neer e de Hawkins positivos e fraqueza de rotação lateral com amplitude passiva preservada: quadro de manguito, não de capsulite.
achado
Rotura completa do supraespinal de 2,4 centímetros, portanto de tamanho médio, abaixo do corte de 3 centímetros.
raciocínio
A régua conservadora tem dois qualificadores ligados por e ou, sedentário e idoso, e a régua cirúrgica tem o qualificador ativo. A paciente é idosa e ativa, e cai nos dois conjuntos.
raciocínio
Anti-inflamatório por conta própria não é tratamento conservador. Na série brasileira, o resultado de 18 satisfatórios em 26 veio de um programa supervisionado de seis meses, com terapia miofascial, alongamento e fortalecimento progressivo, e sem infiltração.
raciocínio
Esse número de 69% vem de 26 pacientes selecionados entre cerca de 180 tratados de forma conservadora nos serviços. É o teto da aderência, não a média do ambulatório, e a expectativa oferecida à paciente deve refletir isso.
conduta
Prescrever programa supervisionado com meta funcional e prazo explícito, reavaliar em 3 meses e de novo aos 6, documentando força de rotação lateral e amplitude a cada visita.
conduta
Encaminhar ao ortopedista se houver fraqueza progressiva, dor noturna que não cede ou falha documentada do programa; e informar que o resultado conservador do ombro tende a cair entre o primeiro e o segundo ano, de 42,9% para 21,5% numa série nacional.
erro evitado
Decidir pelo rótulo etário. O e ou da regra conservadora e o ativo da regra cirúrgica se cruzam exatamente no idoso ativo, e nesse subcaso a conduta vem da demanda funcional, não da idade.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Levar ao joelho a acurácia que é do tornozelo A sensibilidade de 97,3% e a especificidade de 36,6% que circulam como sendo das regras de Ottawa vêm da revisão sistemática do tornozelo e mediopé. A regra do joelho é outra, com cinco critérios próprios, e numa auditoria de serviço mediu 71% de sensibilidade e 46% de especificidade. Citar o par errado no joelho é erro de fonte, não de arredondamento.
  2. 2Exigir um portão de dor no joelho No tornozelo é preciso haver dor na região maleolar para que os critérios contem. No joelho não há pré-requisito nenhum: os cinco itens são independentes e qualquer um indica a radiografia. Quem importa o portão deixa de radiografar o paciente cujo único critério é ter 55 anos ou mais.
  3. 3Tratar a idade como fator de risco e não como critério Idade de 55 anos ou mais não é contexto: é um dos cinco gatilhos, e foi o mais frequente e o de maior número absoluto de fraturas na auditoria, com 14 das 24. Ler a idade como agravante do quadro em vez de item da regra é o erro que o enunciado arma quando descreve um idoso que caminha normalmente.
  4. 4Trocar o e do critério de apoio por um ou O item exige incapacidade de dar quatro passos logo após o trauma e também na avaliação. Aceitar apenas um dos dois momentos multiplica os positivos e desmonta a razão de ser da regra, que é reduzir radiografia. Numa auditoria, aplicar a regra corretamente teria evitado 64 dos 149 exames, uma redução de 43%.
  5. 5Chamar de lesão meniscal traumática o que começou devagar O adjetivo traumática exige trauma datado, com hora e mecanismo. Início insidioso e progressivo é lesão degenerativa, e é ela que responde por 42,6% de resultado ruim após meniscectomia contra 7,7% da traumática. A palavra muda a expectativa de resultado por um fator de 5,5.
  6. 6Tomar McMurray positivo como diagnóstico A razão de verossimilhança positiva do McMurray isolado é 1,3, e a da dor à palpação da interlinha é 0,9, que equivale a nenhuma informação. As manobras do joelho só ganham poder no conjunto, em que a razão positiva chega a 25,0 para o cruzado anterior. Pedir ressonância porque um McMurray veio positivo é agir sobre ruído.
  7. 7Pedir ressonância quando a cirurgia já está decidida Se a indicação de reconstrução do cruzado já está firmada e o joelho ainda vai recuperar amplitude, a ressonância não muda o plano: o que ela mostraria aparece na artroscopia de tratamento. A imagem se justifica na dúvida diagnóstica e na suspeita de lesão associada que altere a cirurgia.
  8. 8Ler não sustenta como demonstrou que não funciona A diretriz brasileira afirma que as evidências não sustentam a fisioterapia como alternativa à cirurgia e, no mesmo parágrafo, informa que a revisão citada não conseguiu definir resultados por heterogeneidade. Ausência de evidência não é evidência de ausência, e a distinção costuma ser justamente o que o enunciado testa.
  9. 9Confundir crescimento de número absoluto com crescimento de incidência As reconstruções do cruzado no sistema público passaram de 4.954 em 2008 para 8.123 em 2014, alta de 64%; a incidência, na tabela do mesmo artigo, foi de 2,6 para 4,0 por 100 mil pessoas-ano, alta de 54%. A diferença é o crescimento populacional, que a taxa existe para remover.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trauma rotacional com pé fixo, estalo audível, hemartrose precoce e teste de Lachman positivo são altamente sugestivos de lesão do ligamento cruzado anterior (LCA), o principal estabilizador contra a translação anterior da tíbia. O cruzado posterior é lesado por trauma direto na tíbia anterior (dashboard) com teste da gaveta posterior positivo. Lesão meniscal isolada raramente causa hemartrose volumosa aguda e não altera o Lachman. O colateral medial é avaliado pelo estresse em valgo. A ruptura do tendão patelar cursa com incapacidade de extensão ativa e patela alta.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Quais são os cinco critérios da regra do joelho, e qual deles dispara sem depender de nenhum outro achado? Por que a arquitetura dessa regra é diferente da do tornozelo? E o que a hemartrose imediata depois de um entorse indica?

em 30 dias

Numa auditoria de 149 pacientes com 24 fraturas, a regra do joelho teve sensibilidade de 71% e razão de verossimilhança negativa de 0,64 com intervalo de 0,33 a 1,22, contra 99% e 0,07 nas metanálises. O que explica a distância, o que o intervalo cruzando o 1 significa na prática, e por que os solicitantes com maior aderência à regra não eram os médicos?

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 24 anos chega ao pronto-socorro trazido por colegas de time, uma hora depois de torcer o joelho direito num jogo. O joelho está inchado e ele não consegue apoiar o peso. Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine, decida sobre imagem e monte o seu raciocínio. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Lesões de ombro e joelho: a regra que para no tornozelo e a exceção que a artrose escreveu — Preparatório para provas | OsceLabs