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Fraturas do membro superior: a mesma queda em três idades

Padrão da fratura, exame neurovascular e decisão terapêutica

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 25 anos cai de bicicleta apoiando a mão espalmada no chão (queda sobre mão em extensão). Queixa-se de dor no punho direito. Ao exame há dor à palpação na tabaqueira anatômica, sem deformidade evidente. As radiografias iniciais do punho não mostram fratura. Qual é a conduta mais adequada?

02

Como esse tema cai

Este é o capítulo que o acervo não tinha, e a medida é literal. Numa varredura dos quase novecentos capítulos de todos os níveis, as palavras Colles, Monteggia, Gartland e supracondiliana aparecem zero vez. Nenhuma. Em compensação, os epônimos do membro superior aparecem — sempre querendo dizer outra coisa. Galeazzi tem quatro ocorrências, e as quatro são o sinal de Galeazzi do quadril, no capítulo de ortopedia pediátrica desta mesma apostila, que compara a altura dos joelhos no lactente; nenhuma é a fratura de Galeazzi do antebraço. Volkmann tem sete ocorrências, e as sete são o canal de Volkmann da histologia óssea, no capítulo de osso e cartilagem do ciclo básico; nenhuma é a contratura isquêmica que este capítulo trata. Smith tem quinze ocorrências e nenhuma é a fratura de Smith: são o critério de Sgarbossa modificado por Smith, no eletrocardiograma, e o exame neurológico infantil de Hammersmith. Barton tem onze e nenhuma é a fratura de Barton: são um autor de referência e a bactéria Bartonella. Somando, os nomes próprios das fraturas do membro superior são escritos 37 vezes no acervo, e em 37 vezes significam outra coisa.

Já a demanda do banco é menor que a de temas vizinhos e mais limpa do que parece. Entre as questões vivas de trilha de prova, 44 tocam alguma fratura do membro superior, mas o filtro por enunciado derruba esse número para 23 — as outras 21 são osteoporose que usa a fratura de punho como critério clínico, distócia de ombro que menciona clavícula, e o sinal de Galeazzi da displasia do quadril. Das 23, a maior parte se distribui em três cenas fixas: a criança que cai de brinquedo e chega com o cotovelo deformado, o adulto jovem que cai de bicicleta com a mão espalmada e tem dor na tabaqueira anatômica com radiografia normal, e a mulher acima de 60 anos que tropeça em casa e quebra o punho. São três idades e um mecanismo só.

Fica de fora o que já tem dono, e são muitos donos. Duas coisas pertencem ao capítulo de antebraço e mão do ciclo básico, que as desenvolve com figura: a vascularização retrógrada do escafoide e a razão anatômica de a radiografia inicial normal não encerrar o caso; aqui elas aparecem como premissa, em uma linha. Salter-Harris e o ensaio da fratura em torus do punho são do capítulo de osso vivo. Já a investigação da osteoporose, com densitometria, escore T e a régua do risco absoluto, é do capítulo de osteoporose pós-menopausa. Fratura exposta, classificação de Gustilo e síndrome compartimental da perna são do capítulo de fraturas expostas desta apostila. O nexo ocupacional, a comunicação de acidente de trabalho e o afastamento são dos capítulos de medicina do trabalho. O sinal de Galeazzi do lactente é do capítulo de ortopedia pediátrica.

O que sobra é uma camada de decisão só, e ela é a mesma nas três idades: a radiografia classifica, e outra coisa decide. No cotovelo da criança, o tipo de Gartland diz qual é a operação e o exame neurovascular diz qual é o relógio. No punho do adulto jovem, a radiografia normal não muda a conduta, e quem decide é a palpação. No punho do idoso, o ângulo diz se cabe reduzir e a idade diz se a redução vai durar. Cada bloco a seguir traz o número, o documento de onde ele saiu, e o erro que o enunciado arma em cima dele.

03

O que muda decisão

Um mecanismo, três ossos: a queda sobre a mão espalmada

Quase tudo que este capítulo trata começa do mesmo jeito: a pessoa cai para a frente e estende o braço para se proteger. O termo técnico é queda com a mão espalmada, e ele explica por que fraturas tão diferentes moram no mesmo capítulo. Sempre a mesma energia entra pela palma e sobe. Onde ela para depende de qual elo é o mais fraco naquela idade — e o elo mais fraco muda três vezes ao longo da vida.

Na criança entre três e dez anos, o elo mais fraco é o úmero distal. Já a diretriz brasileira de 2007 descreve a anatomia com precisão: o terço distal do úmero tem uma área óssea delgada entre as fossas do olécrano e do coronoide, cercada pelas colunas medial e lateral, que são mais espessas. Quando a criança cai com o cotovelo em hiperextensão, o olécrano bate contra a fossa olecraneana e vira o fulcro de uma alavanca cujo ponto de quebra fica exatamente ali. Já a revisão de 2022 diz o mesmo com outras palavras e acrescenta o número: o mecanismo de extensão responde por 97 a 98% dos casos; a diretriz de 2007 escreve 95%. Some-se a lassidão ligamentar típica dessa faixa etária, que permite a hiperextensão em primeiro lugar, e está montado o quadro. O pico de incidência é aos 6 anos pela revisão de 2022, entre 4 e 7 anos pela diretriz de 2007.

No adulto jovem, a placa de crescimento já fechou e o cotovelo aguenta. Nesse caso a energia atravessa e para no carpo, onde o escafoide se coloca em posição de impacto. Ele é responsável por 60 a 70% das fraturas dessa região. É aqui que a anatomia cobra o preço que o ciclo básico já ensinou: o suprimento entra pelo polo distal e caminha em sentido retrógrado, de modo que um traço na cintura do osso deixa o polo proximal sem sangue.

Na pessoa mais velha, o osso metafisário do rádio distal cede antes do carpo. Já a diretriz de 2007 separa as duas populações numa frase que vale decorar: as fraturas do rádio distal ocorrem em jovens, em acidentes de maior energia, e em indivíduos mais velhos, em simples quedas ao solo; nos mais velhos há esmagamento ósseo, enquanto nos mais jovens há fraturas com traços articulares. É a mesma queda produzindo lesões de morfologia oposta em pessoas diferentes.

Três painéis com o mesmo braço caindo sobre a mão espalmada, com a seta de energia parando no úmero distal na criança, no escafoide no adulto jovem e no rádio distal no idoso, sobre uma base comum com o nome do mecanismo.
O mesmo mecanismo em três contextos: a energia entra sempre pela palma, e o que muda com a idade é onde ela encontra o elo mais fraco. É por isso que três fraturas de aparência tão diferente compartilham uma linha de anamnese.

Há uma consequência prática nessa figura, e ela é uma pergunta de anamnese que resolve metade das vinhetas: como a pessoa caiu, e quantos anos ela tem. Enunciado que descreve queda sobre a mão espalmada e depois dá a idade já entregou o osso. O que ele ainda não entregou — e é o que a prova cobra — é a decisão.

O cotovelo da criança: o tipo classifica, o exame marca o relógio

Gartland publicou sua classificação em 1959, e ela divide a fratura supracondiliana em três tipos pela quantidade de desvio: sem desvio, desviada com contato cortical posterior preservado, e desviada sem contato entre as corticais. Wilkins depois acrescentou o conceito de contato cortical posterior à definição do tipo intermediário, e a prática incorporou um quarto tipo, de instabilidade multidirecional, que só se revela durante a tentativa de redução sob fluoroscopia. Segundo a revisão de 2022, essa é a classificação mais utilizada, com boa concordância intra e interobservador.

Dois detalhes do tipo I e do tipo II derrubam candidato. No tipo I, a linha de fratura pode simplesmente não ser visível na radiografia inicial: o sinal do coxim gorduroso pode ser a única evidência da lesão, e a reação periosteal, que costuma surgir depois da segunda semana, é o que confirma a suspeita clínica em retrospecto. No tipo II, o critério de imagem é a linha umeral anterior, que no perfil deve cortar o terço médio do capitelo; quando não corta, há desvio. Mais: a revisão de 2022 diz, com todas as letras, que o tipo II é o tipo de fratura com maior discordância entre os autores — ou seja, o grau que parece mais fácil de reconhecer é aquele em que dois ortopedistas mais frequentemente discordam.

Registra ainda, a diretriz de 2007, uma classificação alternativa, de La Grange, com quatro tipos, e faz uma observação curiosa: chama a classificação de La Grange de mais descritiva e mais prática para a definição da conduta terapêutica, e em seguida informa que ela não é a mais utilizada. É um caso raro de documento nacional que declara que a régua mais útil não é a régua adotada. Para a prova, o que importa é que Gartland é a que cai; para a leitura, vale registrar que o próprio documento explica por que a régua adotada não é a melhor.

Aqui entra o ponto que organiza o capítulo inteiro. Existem duas réguas no cotovelo da criança, e elas não competem: uma decide a operação e a outra decide o relógio. Uma delas é o tipo de Gartland, que corre para a frente — quanto maior o desvio, maior a chance de precisar de redução e fixação, sendo o método de escolha para a fratura desviada a redução fechada com fixação percutânea. Outra é o exame neurovascular, que não olha para o tipo: ela procura edema acentuado, equimose volar e tensionamento da pele pelo fragmento proximal na região cubital. Esses três achados indicam maior lesão de partes moles e risco elevado de lesão neurovascular associada, e é o conjunto deles, não o número do tipo, que decide se a criança espera ou não.

Duas réguas empilhadas, a de cima com os quatro tipos de Gartland terminando na palavra operação e a de baixo com os quatro estados de perfusão terminando na palavra relógio, ligadas por linhas pontilhadas que não se correspondem.
As duas réguas do cotovelo infantil medem coisas diferentes e não se sobrepõem: o tipo de Gartland decide qual é a operação, e o exame neurovascular decide quando ela acontece. Um tipo II com pele tensa corre mais que um tipo III com mão quente e pulso cheio.

Sobre o relógio, os dois documentos brasileiros conversam bem. Nesse ponto, a diretriz de 2007 reúne quatro séries: em 158 crianças com fratura tipo III, o tempo médio até a cirurgia foi de 21,3 horas e não houve diferença em tempo cirúrgico, tempo de internação, necessidade de abordagem aberta ou evolução; em 150 crianças, comparando espera maior e menor que 12 horas, também não houve diferença; em 291 crianças, 77% foram tratadas no dia da admissão e os autores registram não haver consenso; e em 171 crianças, os casos tratados mais de 8 horas depois da chegada tiveram maior necessidade de abertura do foco de fratura. Fecha o assunto a revisão de 2022, com a ressalva que faltava: os estudos que mostram segurança em adiar estão sujeitos a viés de seleção, porque os casos mais graves tendem a ser abordados precocemente. Traduzindo: a literatura que diz que dá para esperar foi escrita sobre quem não precisava correr.

Enquanto a criança espera, o que se faz é imobilizar com tala gessada bem acolchoada em flexão entre 30 e 40 graus. O que não se faz é o gesto que parece mais natural: dobrar mais o cotovelo para segurar a redução. Tentativa forçada de redução no pronto-socorro com imobilização em flexão maior que 80 graus é contraindicada, pelo risco de síndrome compartimental, e a imobilização nunca deve passar dessa marca. Gesso cilíndrico se evita; a preferência é por talas gessadas posteriores bem acolchoadas. Em desvio grosseiro ou sem pulso palpável, a redução parcial com flexão até 40 graus e tração leve pode melhorar a perfusão e aliviar a tensão das partes moles — e o paciente fica internado em observação até a abordagem cirúrgica.

O pulso: o achado mais alarmante é o que menos decide sozinho

Três afirmações sobre o pulso são simultaneamente verdadeiras, e a prova monta questão em cima das três.

Primeira: a ausência de pulso palpável é reportada em até 20% das fraturas tipo III. É o achado com o maior número deste capítulo e o que mais assusta no primeiro contato.

Segunda: uma mão rosada e perfundida, mas sem pulso depois da redução e da fixação não é indicação de exploração vascular: o que se faz é avaliação do fluxo arterial com doppler e alta hospitalar adiada por pelo menos 24 horas, com exploração apenas se a perfusão piorar nesse período. O achado que assusta mais não é o que manda operar.

Terceira: quando a mão se apresenta pálida e fria após a redução e a fixação, aí sim está indicada a retirada dos pinos, a redução aberta e a exploração vascular — com uma tolerância explícita de 10 a 15 minutos com o membro aquecido e o cotovelo parcialmente estendido, porque o espasmo arterial pode se resolver sozinho. Na ausência de reperfusão, a abordagem é imediata, e é prudente convocar cirurgião vascular ou microcirurgião.

Quem ordena por susto coloca a ausência de pulso em primeiro lugar e opera a mão rosada. Quem lê a cor e a temperatura da mão acerta. É a mesma armadilha do marcador cuja estimativa pontual impressiona e cujo intervalo não sustenta nada: o número grande está no achado que sozinho decide menos.

Há uma inversão a mais, e ela é a mais cruel do tema. Não é a lesão arterial a complicação mais devastadora da fratura supracondiliana: é a síndrome compartimental, e sua incidência é de 0,1 a 0,5% — cem vezes menor que a dos 20% sem pulso. Os fatores de risco são crianças mais velhas, sexo masculino, fratura ipsilateral do antebraço (o chamado cotovelo flutuante) e lesão neurovascular associada. Vem daí a inversão: o déficit do nervo mediano exige ainda mais atenção justamente porque a alteração da sensibilidade dolorosa pode mascarar o quadro. O sinal que documenta a lesão nervosa é o mesmo que apaga o sinal que diagnosticaria a emergência. Some a dor desproporcional, e some por um motivo que parece uma explicação tranquilizadora.

Fecham o pacote duas regras técnicas que caem como alternativa. Fixação percutânea usa dois ou três pinos; dois fios laterais bastam para o tipo II e há evidência suficiente para três fios no tipo III, porque o terceiro fio reduz a falha de fixação e a necessidade de revisão. Os pinos laterais devem ser divergentes, nunca convergentes, e nunca cruzar no foco da fratura. O uso rotineiro do pino de entrada medial deve ser evitado pelo risco de lesão iatrogênica do nervo ulnar: a neuropraxia ocorre em 1 a cada 28 pacientes quando se faz a fixação cruzada — o artigo arredonda para cerca de 4%, mas a fração exata é 3,57%, e a diferença entre as duas formas de escrever o mesmo dado é exatamente o tipo de detalhe que separa quem leu do que decorou. Quando o pino medial é mesmo necessário, estende-se o cotovelo até pelo menos 80 graus para relaxar o ulnar, que pode subluxar durante a flexão, ou faz-se pequeno acesso para ver o ponto de entrada. Perda de redução acontece em torno de 4% e sua principal causa é a fixação inadequada, não a fratura. Já a fasciotomia profilática do antebraço, sobre a qual não há consenso, deve ser considerada quando o tempo de isquemia ultrapassa 6 horas.

O escafoide: a radiografia normal que não encerra o caso

O capítulo de antebraço e mão do ciclo básico já resolveu o porquê: o fluxo sanguíneo do escafoide é retrógrado, entra pelo polo distal e sobe, de modo que um traço na cintura desconecta o polo proximal. Aqui interessa o que se faz com isso na porta do pronto-socorro.

O exame clínico tem três componentes, e a revisão brasileira sobre a mão traumatizada os lista juntos: palpação dorsal do escafoide, palpação palmar e pistonagem do polegar de encontro ao escafoide. Com esse conjunto positivo, mesmo com radiografias não conclusivas, o punho deve ser imobilizado por precaução até o retorno em 7 a 15 dias. Repare que a regra não pede exame nenhum para ser aplicada: ela é uma decisão clínica que a imagem não altera.

O preço dessa regra está declarado e é alto. O artigo brasileiro sobre como o escafoide é tratado no país cita a estimativa de que, de cada cinco punhos imobilizados por suspeita, quatro são imobilizados desnecessariamente até que se chegue a um diagnóstico mais preciso. Traduzindo o fator em fração: a regra aceita 80% de imobilização sem doença para não perder a que existe. É a mesma aritmética de rastreamento que o capítulo de ortopedia pediátrica desta apostila usa no quadril do lactente, e é a razão de existir a divergência do bloco seguinte.

Quando a fratura aparece, dois cortes decidem tudo. Fratura estável, sem desvio, no colo ou no polo distal tem bom prognóstico e tratamento conservador, com imobilização por quatro a seis semanas — e há consenso brasileiro sobre isso. Fratura instável — desvio maior que 1,0 mm, cominuída, ou do polo proximal — tem indicação de fixação, pelo risco de pseudartrose e de artrose radiocárpica subsequente. Uma pesquisa com cirurgiões de mão mostra o quanto essa segunda regra é consensual na prática: na cintura desviada, 66% indicam cirurgia; no polo proximal, 99,4%. Praticamente ninguém trata polo proximal com gesso.

Há ainda uma regra de combinação que a prova adora e que quase ninguém decora: escafoide associado a fratura do rádio distal, a lesão de outro osso do carpo ou a luxação é, por definição, lesão de alta energia, instável, e tem indicação cirúrgica com estabilização e reconstrução ligamentar. Vinheta que descreve as duas fraturas no mesmo punho não está descrevendo duas fraturas simples somadas: está descrevendo outra entidade.

O rádio distal: a redução que a idade desfaz

Sobre a fratura de rádio distal no adulto, a diretriz brasileira de 2007 trabalha com a classificação de Cooney, também chamada de universal, que separa extra-articulares de intra-articulares e, dentro de cada grupo, desviadas de não desviadas — e depois subdivide as desviadas em redutível e estável, redutível e instável, irredutível e instável, e complexa. É uma classificação de conduta, não de descrição, e por isso a prova a usa menos que os números que vêm a seguir.

Os números que definem a necessidade de reduzir são três, e todos carregam o grau de recomendação mais alto da escala do documento: reduz-se a fratura angulada dorsalmente a partir de 11 graus, a que encurta o rádio em mais de 3 mm, e a que perde mais de 4 graus no ângulo radial. Do outro lado da linha, angulação dorsal de até 10 graus com encurtamento menor que 5 mm é considerada sem desvio significativo e não precisa de redução — e o documento avisa que esse parâmetro vale para indivíduos mais velhos, porque nos mais jovens se busca sempre a reconstrução anatômica. Acima de 65 anos, a tolerância se expande de novo: aceitam-se desvios dorsais entre 10 e 30 graus, desde que o encurtamento fique abaixo de 5 mm.

Régua de instabilidade há uma só, a de Lafontaine, com cinco critérios radiológicos e clínicos: desvio dorsal maior que 20 graus, cominuição dorsal, envolvimento articular radiocárpico, fratura associada da ulna e idade maior que 60 anos. Corre para a frente essa corrente — mais critérios, mais instabilidade, mais motivo para estabilizar. Então a diretriz faz a conferência no sentido oposto, e é o momento mais instrutivo do documento. Cinquenta fraturas consideradas instáveis foram tratadas por redução incruenta e imobilização gessada, e o estudo estatístico encontrou correlação de instabilidade apenas com a idade dos pacientes. Dos cinco critérios, um sobreviveu à auditoria. Do próprio texto sai a conclusão: a idade é o principal fator para predizer a instabilidade da fratura.

Sai daí o número mais útil deste capítulo — a rampa de risco por idade —, e ela vem escrita em três pontos: quem tem 40 anos tem risco de perda da redução de 27%; quem tem 58 anos, de 50%; quem tem 80 anos, de 77%. Recalculando a inclinação entre os extremos, são 50 pontos percentuais em 40 anos, ou 1,25 ponto por ano de idade. Aplicando essa inclinação aos 58 anos a partir dos 40, chega-se a 27 mais 22,5, isto é, 49,5% — o valor publicado, dentro do arredondamento. Os três números estão sobre uma reta. É isso que explica o corte que a diretriz adota: quando ela afirma que o tratamento incruento de fratura com desvio é ineficaz acima de 58 anos, ela não está nomeando uma fronteira biológica. Está nomeando a idade em que a moeda fica honesta — o ponto em que a reta cruza a metade. Quem decora 58 anos como se fosse um limiar de tecido está decorando um cara ou coroa.

Um quarto número do mesmo documento não entra nessa reta, e é honesto dizer por quê. Registra a diretriz um aumento de risco relativo da ordem de quatro vezes de falha na quarta semana em pacientes acima de 60 anos comparados aos abaixo dessa idade. Se a rampa linear valesse para esse desfecho, o risco aos 60 seria de 52% contra 27% aos 40, uma razão de 1,93 — menos da metade do fator publicado. Os dois números não se reconciliam porque medem coisas diferentes: um é a perda de redução ao longo de todo o tratamento, o outro é a falha num momento específico, a quarta semana, com a idade dicotomizada em vez de contínua. Não é contradição; é rótulo de coluna. Mas quem soma os dois num único raciocínio produz uma conta errada com dois dados certos.

O que se faz com tudo isso muda conforme quem é o paciente. Fraturas reduzidas perdem gradativamente a redução até a quinta semana, e os resultados funcionais nesse grupo foram semelhantes aos de um grupo tratado conservadoramente desde o início. Em idoso com baixa demanda funcional do punho, desvios ou perda de redução de até 30 graus dorsais e encurtamentos menores que 5 mm são aceitáveis, permitem abordagem conservadora e ficam ainda mais defensáveis quando há restrição clínica ou anestésica. Nesse cenário, a imobilização deve ter tamanho mínimo — só o punho, em posição neutra — e o paciente deve ser estimulado a usar a mão. Já o idoso que usa o membro em atividades de maior demanda funcional tem indicação de estabilização externa ou interna, exatamente porque o tratamento com imobilização carrega grande risco de redução funcional. Resumindo: no punho do idoso, quem escolhe o tratamento é a demanda funcional, e não o ângulo.

Uma última alternativa que aparece em prova e já está respondida: qual o melhor método de redução incruenta? Nenhum. Comparou-se a redução por manipulação com tração à redução mecânica com tração longitudinal pelos dedos, a chamada malha chinesa, em 223 pacientes: foram 15 falhas em cada grupo; revisão sistemática confirmou não haver diferença. Questão que oferece um dos dois métodos como resposta está oferecendo um empate.

Duas fatias nacionais que não fecham, e o que isso ensina

Os dois documentos brasileiros sobre a fratura supracondiliana discordam sobre o tamanho do problema, e a discordância é grande. Escreve a revisão de 2022 que a fratura representa 3 a 15% de todas as fraturas em crianças, chegando a 70% entre as do cotovelo. Já a diretriz de 2007 escreve que elas correspondem a 17% das fraturas na infância, sendo as mais frequentes do membro superior, perfazendo 60% das ocorrências.

Derivando o denominador implícito por dois caminhos, a incompatibilidade aparece. Pelo par de 2022, se a fratura é 3 a 15% de todas as fraturas e 70% das do cotovelo, então as fraturas de cotovelo são de 4,3% a 21,4% de todas as fraturas da infância. Pelo par de 2007, lendo os 60% como fatia do cotovelo — que é a leitura que espelha o outro documento —, as fraturas de cotovelo seriam 28,3% de todas as fraturas da infância. O piso da segunda derivação fica acima do teto da primeira. Os dois documentos não podem estar certos ao mesmo tempo sobre o tamanho do conjunto.

Existe um terceiro caminho, e ele não resolve. Consta da revisão de 2022 uma incidência de 1,7 por 1.000 indivíduos. Combinada com os 17%, ela força o total de fraturas da infância a exatamente 10 por 1.000 ao ano; combinada com o meio da faixa de 3 a 15%, dá cerca de 19 por 1.000; combinada com o piso de 3%, exigiria 57 por 1.000. O terceiro caminho descarta o piso da faixa de 2022 e não decide entre 15% e 17%. Registrar isso importa porque é justamente onde um erro de numerador passaria invisível: com apenas dois pontos de apoio, qualquer valor entre eles parece defensável.

O que ensina não é qual número está certo. É observar onde os dois documentos discordam e onde concordam. Eles discordam na fatia epidemiológica, no pico etário e na porcentagem do mecanismo de extensão — todos números que servem para memorizar e nenhum que muda conduta. Concordam, por outro lado, em tudo que decide: no mecanismo, na anatomia da região delgada entre as fossas, na obrigação do exame sensitivo, motor e vascular, no risco vascular e compartimental, e na ideia de que o desvio determina a necessidade de redução e fixação. O número que a prova gosta de perguntar é o único instável do par; os números que salvam o paciente são estáveis há quinze anos. Quando dois documentos nacionais divergirem, verifique qual das duas famílias está em disputa antes de decidir qual decorar.

04

As réguas do membro superior, lado a lado

Três tabelas cobrem a maior parte dos enunciados: a que liga idade, osso e decisão; a que separa o tipo de Gartland do relógio neurovascular; e a que reúne os cortes numéricos do rádio distal, com o que cada um autoriza.

  1. 1Ler o mecanismo e a idade antes de qualquer outra coisa. Queda sobre a mão espalmada em criança de três a dez anos aponta cotovelo; em adulto jovem aponta escafoide; acima de sessenta anos aponta rádio distal. Se o enunciado descrever trauma de alta energia fora dessas faixas, a regra de idade não vale e a lesão pode estar em qualquer nível.
  2. 2No cotovelo da criança, fazer duas leituras separadas e não misturá-las. Na radiografia em perfil está o tipo de Gartland, com a linha umeral anterior cortando ou não o terço médio do capitelo. O exame procura pulso, cor e temperatura da mão, função dos nervos mediano, radial e ulnar, edema, equimose volar e pele tensionada pelo fragmento proximal. O tipo diz qual operação; o exame diz em quanto tempo.
  3. 3Diante de mão sem pulso, classificar antes de agir. Mão rosada e perfundida sem pulso após redução e fixação: doppler e observação hospitalar por pelo menos vinte e quatro horas, explorando apenas se piorar. Mão pálida e fria após redução e fixação: retirar pinos, redução aberta e exploração vascular, tolerando dez a quinze minutos com o membro aquecido e o cotovelo parcialmente estendido para o espasmo ceder.
  4. 4Ao imobilizar o cotovelo infantil, respeitar o teto de flexão. Tala gessada posterior bem acolchoada, flexão entre trinta e quarenta graus, jamais acima de oitenta, e nada de gesso cilíndrico. Tentativa forçada de redução no pronto-socorro com flexão maior que oitenta graus é contraindicada.
  5. 5No punho do adulto jovem com queda sobre a mão espalmada, examinar a tabaqueira anatômica em três pontos: palpação dorsal do escafoide, palpação palmar e pistonagem do polegar. Clínica positiva com radiografia não conclusiva significa imobilizar e reavaliar em sete a quinze dias, ou solicitar tomografia ou ressonância; não significa alta.
  6. 6Diante de fratura de escafoide confirmada, decidir pelo local e pela estabilidade. Colo ou polo distal, estável e sem desvio, é conservador por quatro a seis semanas. Desvio maior que um milímetro, cominuição ou polo proximal é cirúrgico. Escafoide somado a fratura do rádio distal, a outro osso do carpo ou a luxação é lesão de alta energia e é cirúrgico.
  7. 7No punho do idoso, aplicar os cortes e depois perguntar pela demanda funcional. Angulação dorsal a partir de onze graus, encurtamento acima de três milímetros ou perda de mais de quatro graus no ângulo radial indicam redução; acima de sessenta e cinco anos a tolerância vai até trinta graus com encurtamento abaixo de cinco milímetros. Confirmada a tolerância, quem decide entre gesso e estabilização é o quanto aquela pessoa usa a mão, não o ângulo residual.
  8. 8Ao informar o paciente idoso, dar o número da idade dele. Aos quarenta anos o risco de perda da redução é de vinte e sete por cento, aos cinquenta e oito é de cinquenta, aos oitenta é de setenta e sete. Conversa sobre gesso contra fixação é conversa sobre essa probabilidade, e ela pertence ao paciente.

Uma queda, três idades

Idade típicaOsso que cedeO que a radiografia inicial fazO que decide a conduta
3 a 10 anos, pico aos 6Úmero distal (supracondiliana)Dá o tipo de Gartland; no tipo I pode mostrar só o coxim gordurosoO exame neurovascular: pulso, cor, temperatura, nervos, pele tensa
Adulto jovemEscafoide (60 a 70% das fraturas do carpo)Pode ser normal logo após o trauma e não exclui a fraturaPalpação dorsal e palmar mais pistonagem do polegar
Acima de 60 anosRádio distal (esmagamento metafisário)Dá os ângulos e o encurtamento, que definem se cabe reduzirIdade, que prediz a perda da redução, e demanda funcional
Qualquer idade, alta energiaCombinações (escafoide com rádio distal, cotovelo flutuante)Mostra as lesões, mas não a energiaAssociação em si: combinação é lesão instável, de tratamento cirúrgico

Gartland e o relógio: duas réguas que não se sobrepõem

Tipo de GartlandO que a imagem mostraTratamento habitualO que muda a urgência
Tipo ISem desvio ou desvio menor que 2 mm; periósteo íntegro; a linha pode não ser visívelConservador, com imobilização e acompanhamento radiográficoNada na imagem; só o exame neurovascular
Tipo IIContato cortical posterior preservado; linha umeral anterior não corta o terço médio do capiteloRedução e fixação quando há translação, rotação ou angulação; é o tipo de maior discordância entre autoresPele tensa, equimose volar e edema acentuado antecipam a cirurgia, mesmo neste tipo
Tipo IIISem contato entre as corticaisRedução fechada e fixação percutânea; três fios em vez de doisAusência de pulso em até 20%; mão pálida e fria é abordagem imediata
Tipo IVInstabilidade multidirecional, revelada na tentativa de redução sob fluoroscopiaRedução com técnica de manipulação por fio-guia e fixação com fios adicionaisMaior necessidade de redução aberta e de pino medial, com o risco de ulnar que isso traz

Rádio distal: os cortes numéricos e o que cada um autoriza

ParâmetroCorteO que ele autoriza
Angulação dorsal11 graus ou maisIndica redução
Encurtamento do rádioMais de 3 mmIndica redução
Perda do ângulo radialMais de 4 grausIndica redução
Angulação dorsal com encurtamentoAté 10 graus e menos de 5 mmConsiderada sem desvio significativo em pessoa mais velha; dispensa redução
Tolerância acima de 65 anosEntre 10 e 30 graus dorsais, com encurtamento abaixo de 5 mmPermite conduta conservadora mesmo com desvio moderado
Critérios de LafontaineDesvio dorsal acima de 20 graus, cominuição dorsal, envolvimento radiocárpico, fratura da ulna, idade acima de 60Rotulam a fratura como instável; na auditoria de 50 fraturas, só a idade correlacionou
Risco de perder a redução27% aos 40 anos, 50% aos 58, 77% aos 80Sustenta a conversa com o paciente e o corte de 58 anos, que é onde a reta cruza a metade
Prazo da perdaAté a quinta semanaDefine a janela de acompanhamento radiográfico após redução incruenta

Os três cortes que indicam redução no rádio distal têm o grau de recomendação mais alto da diretriz brasileira; os critérios de Lafontaine e a rampa de risco por idade têm grau C. Enunciado que pede o parâmetro para reduzir está cobrando a linha de grau A.

O corte de 8 horas até a cirurgia na supracondiliana vem de uma única série de 171 crianças e contraria três outras séries reunidas no mesmo documento. Não é consenso, e questão que o apresente como regra fechada está apertando a literatura.

Régua do escafoide vale para o quadro clínico completo. Dor isolada em um dos pontos, sem os outros dois e sem o mecanismo de queda sobre a mão espalmada, não obriga a imobilizar às cegas.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Suspeita de fratura de escafoide com radiografia não conclusiva: imagem avançada agora ou imobilizar e repetir?

Imobilizar por precaução e reavaliar em 7 a 15 dias

Na revisão brasileira sobre a mão traumatizada, a imobilização é a conduta padrão diante de clínica positiva com radiografia não conclusiva, e tomografia e ressonância aparecem como recursos usados em alguns casos, considerando os custos e a demanda funcional do paciente. É a posição que não depende de disponibilidade de equipamento, o que a torna a resposta segura em prova de acesso ao serviço público.

Silva FB, Giostri GS. Mão traumatizada — Atualização no primeiro atendimento. Rev Bras Ortop. 2021;56(5):543-549.

Pedir tomografia ou ressonância logo, e é o que a maioria dos especialistas brasileiros faz

Na pesquisa com 160 cirurgiões de mão certificados, diante de suspeita sem confirmação radiográfica, 57% pedem tomografia ou ressonância e 43% optam por imobilização com radiografias consecutivas. Essa divisão não é aleatória: entre os mais experientes, 63,9% pedem exame, contra 47,6% entre os menos experientes, com p igual a 0,04. Os próprios autores tomam partido na discussão, escrevendo que a radiografia seriada não tem boa concordância entre observadores e não é segura para o manejo, e lembrando que os custos entre ressonância e seguimento radiográfico são semelhantes quando não se conta a perda de produtividade da imobilização desnecessária.

Nacif GC e cols. How scaphoid fractures are treated in Brazil. Acta Ortop Bras. 2018;26(5):290-3.

O custo declarado da posição conservadora, que ninguém contesta

O mesmo artigo cita a estimativa de que, de cada cinco punhos imobilizados por suspeita, quatro o são desnecessariamente até que se chegue a um diagnóstico mais preciso. Oitenta por cento de imobilização sem doença é o preço explícito de não perder a fratura oculta, e é o argumento que sustenta a posição da imagem precoce sem invalidar a posição da imobilização.

Nacif GC e cols., citando Jenkins PJ e cols., Injury. 2008;39(7):768-74.

Na prova

Vinheta clássica: queda de bicicleta com a mão espalmada, dor na tabaqueira anatômica e radiografia descrita como normal. As alternativas costumam oferecer alta com analgésico, tomografia imediata, ressonância imediata e imobilização com retorno. Dar alta é sempre errado; entre as outras três, o gabarito depende de qual documento a banca leu, e por isso vale conhecer os dois lados com seus números.

Fratura supracondiliana desviada com pulso palpável: operar na urgência ou pode esperar até o dia seguinte?

Pode esperar, e várias séries brasileiras e internacionais reunidas dizem isso

Reúne a diretriz nacional três séries convergentes: em 158 crianças com fratura tipo III o tempo médio até o procedimento foi de 21,3 horas, sem diferença em tempo cirúrgico, internação, necessidade de abordagem aberta ou evolução; em 150 crianças, comparar espera acima e abaixo de 12 horas não mudou necessidade de redução aberta, infecção de fios, lesão iatrogênica de nervo, complicações vasculares ou síndrome compartimental; e em 291 crianças, com 77% tratadas no dia da admissão, os autores registram que não há consenso.

Projeto Diretrizes AMB/CFM — SBOT. Fratura Supracondiliana do Úmero na Criança, 2007.

Não pode, e há série que mostra o preço de esperar

O mesmo documento traz o contraexemplo: em 171 crianças, os casos operados mais de 8 horas depois da chegada ao serviço de emergência tiveram maior incidência de necessidade de abertura do foco de fratura, com tendência a tempo cirúrgico maior, e os autores recomendaram tratamento precoce. O documento registra a crítica de que não se conhecia o tempo exato entre o acidente e o procedimento, mas conclui que o estudo coloca dúvida sobre os dados anteriores.

Projeto Diretrizes AMB/CFM — SBOT. Fratura Supracondiliana do Úmero na Criança, 2007.

Ressalva que reorganiza os dois lados

Aponta a revisão de 2022 que os estudos que mostram segurança em adiar estão sujeitos a viés de seleção, porque os casos mais graves tendem a ser abordados precocemente. Ou seja, a literatura tranquilizadora foi escrita sobre a população que já tinha sido filtrada pelo exame. Sobra a recomendação de individualizar, tratar o mais precocemente possível e dar atenção especial aos sinais de gravidade e ao exame neurovascular — que é exatamente a segunda régua deste capítulo.

Poggiali P e cols. Rev Bras Ortop. 2022;57(1):23-32.

Na prova

O enunciado costuma dar uma criança com fratura tipo III, mão quente, pulso radial cheio, exame neurológico normal, e perguntar em quanto tempo operar. Não é um número o que a literatura sustenta: é uma condição.

Que fatia das fraturas da infância é a supracondiliana?

17% das fraturas da infância

É o número da diretriz nacional de 2007, com o grau de recomendação mais baixo da escala, o da opinião sem avaliação crítica, e acrescenta que a supracondiliana é a fratura mais frequente do membro superior na criança, perfazendo 60% das ocorrências — sem nomear a qual conjunto os 60% se referem, o que é a origem de metade da confusão.

Projeto Diretrizes AMB/CFM — SBOT, 2007.

3 a 15% das fraturas da infância, e 70% das do cotovelo

É o número da revisão de 2022 da mesma sociedade, que dá também a incidência de 1,7 por 1.000 indivíduos. Os dois pares não se reconciliam: o par de 2022 implica que as fraturas de cotovelo são de 4,3% a 21,4% de todas as fraturas da infância, enquanto o par de 2007, lido do mesmo modo, implica 28,3%. Nenhum documento reconhece a divergência do outro.

Poggiali P e cols. Rev Bras Ortop. 2022;57(1):23-32.

Na prova

Questão de porcentagem epidemiológica é rara e, quando aparece, costuma vir de banca que copiou o número de um dos dois documentos nacionais. Saber que existem duas respostas oficiais protege contra a alternativa que parece absurda e não é.

06

Caso resolvido

Menino de 6 anos é levado ao pronto-socorro trinta minutos após cair do trepa-trepa da escola, apoiando a mão direita espalmada no chão. Chora muito, não movimenta o cotovelo direito e sustenta o antebraço com a outra mão. Ao exame, há edema acentuado do cotovelo, equimose na face volar da prega cubital e a pele parece tensionada por uma saliência óssea logo acima da prega. Nessa mão, quente e rosada, o enchimento capilar é de 2 segundos, mas o pulso radial não é palpável. Consegue fazer o sinal de positivo com o polegar e abre os dedos em leque; refere formigamento no polegar e no indicador. Na radiografia em perfil há ausência de contato entre as corticais do úmero distal, com o fragmento distal desviado posteriormente.
achado
O mecanismo e a idade fecham o osso antes da imagem: queda com a mão espalmada em criança de 6 anos, que é exatamente o pico de incidência da fratura supracondiliana do úmero. Na radiografia em perfil, a ausência de contato entre as corticais classifica a fratura como tipo III de Gartland. Até aqui, a primeira régua está lida.
achado
Já a segunda régua traz três sinais de gravidade juntos, e eles são nominais na literatura: edema acentuado, equimose volar e tensionamento da pele pelo fragmento proximal na região cubital. O conjunto indica maior lesão de partes moles e risco elevado de lesão neurovascular associada. Some-se a ausência de pulso radial, que é reportada em até 20% das fraturas tipo III.
raciocinio
Note a mão: quente, rosada e com enchimento capilar preservado. Isso é uma mão perfundida sem pulso palpável, e não uma mão isquêmica — a distinção decide a conduta. O formigamento no polegar e no indicador aponta o território sensitivo do nervo mediano, e o fato de a criança fazer o sinal de positivo mostra que o interósseo anterior ainda funciona no componente motor testado.
raciocinio
O déficit sensitivo de mediano tem uma consequência que vai além do prognóstico do nervo: ele mascara a síndrome compartimental, porque apaga a dor desproporcional que seria o primeiro sinal. Esta criança soma dois fatores de vigilância, o déficit neurológico e o desvio importante, e por isso não é candidata a tentativa de redução no pronto-socorro nem a alta para retorno ambulatorial.
conduta
Imobilizar com tala gessada posterior bem acolchoada, com o cotovelo entre 30 e 40 graus de flexão, sem forçar a redução e sem passar de 80 graus, porque a flexão maior é contraindicada pelo risco de síndrome compartimental. Manter a criança internada em observação, com reavaliação neurovascular seriada, e programar a redução fechada com fixação percutânea, que é o método de escolha para a fratura desviada, com três fios laterais divergentes por se tratar de tipo III.
conduta
No pós-operatório imediato, reavaliar a mão. Se ela permanecer rosada e perfundida sem pulso, a conduta é avaliação do fluxo com doppler e alta hospitalar adiada por pelo menos 24 horas, explorando apenas se a perfusão piorar. Se ela ficar pálida e fria, aí sim se retiram os pinos, abre-se e explora-se o feixe, tolerando dez a quinze minutos com o membro aquecido e o cotovelo parcialmente estendido para o espasmo arterial ceder. Os fios saem entre a terceira e a quarta semana.
07

Agora feche você

Mulher de 72 anos, hipertensa, aposentada, mora sozinha e cuida da própria casa. Tropeça no tapete da sala e cai apoiando a mão direita espalmada. Chega à unidade de pronto atendimento quatro horas depois com dor e deformidade em dorso de garfo no punho direito, sem ferida, com mão quente, pulso radial palpável, sensibilidade preservada nos três territórios e mobilidade dos dedos mantida. Na radiografia há fratura extra-articular da extremidade distal do rádio com angulação dorsal de 24 graus e encurtamento radial de 4 mm, sem fratura associada da ulna. O plantonista propõe redução incruenta sob bloqueio, imobilização gessada e retorno em quatro semanas, e informa à paciente que, obtida uma boa redução, o resultado está garantido.
achado
Complete: diga qual é o mecanismo, por que a idade dela já aponta o osso antes da radiografia, e o que a expressão deformidade em dorso de garfo descreve em termos de direção do desvio.
raciocinio
Complete: aplique os cortes numéricos da diretriz brasileira a estes 24 graus de angulação dorsal e 4 mm de encurtamento, e diga se a fratura entra na faixa aceitável para conduta conservadora numa pessoa desta idade, nomeando o corte etário a partir do qual a tolerância se amplia.
raciocinio
Complete: liste os cinco critérios de instabilidade de Lafontaine, marque quais desta paciente estão presentes, e diga qual deles a auditoria brasileira de 50 fraturas instáveis mostrou ser o único que correlacionou com a instabilidade.
raciocinio
Complete: usando a rampa de risco por idade, estime o risco de perda da redução nesta paciente de 72 anos por interpolação entre os pontos publicados, mostre a conta, e explique por que a afirmação do plantonista de que o resultado está garantido é insustentável.
conduta
Complete: diga o que muda na decisão se a paciente for de baixa demanda funcional e o que muda se ela usar a mão em atividade que exija força, descrevendo em cada caso a imobilização ou a estabilização indicada e o prazo de acompanhamento radiográfico até quando a perda de redução ainda pode ocorrer.
conduta
Complete: descreva a conversa que falta com a paciente, incluindo o número que pertence a ela, e diga qual outro capítulo desta plataforma resolve a investigação que esta fratura por trauma mínimo obriga a abrir.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Dar alta com radiografia normal em dor na tabaqueira anatômica Atrai porque a radiografia é o exame que o pronto-socorro tem e porque um laudo normal parece encerrar a questão. Mas é justamente a vascularização retrógrada do escafoide que faz a fratura demorar a aparecer na imagem. Com clínica positiva, a conduta correta é imobilizar por precaução e reavaliar em 7 a 15 dias, ou solicitar tomografia ou ressonância. Aceita-se imobilizar quatro punhos sem fratura para cada um com fratura; não se aceita mandar embora quem tem.
  2. 2Dobrar mais o cotovelo para segurar a redução da supracondiliana Atrai porque a flexão realmente estabiliza o foco e porque o gesto parece cuidadoso. É o caminho direto para a síndrome compartimental. Imobiliza-se em flexão entre 30 e 40 graus, nunca acima de 80, com tala gessada posterior bem acolchoada e sem gesso cilíndrico. Tentativa forçada de redução no pronto-socorro com flexão acima de 80 graus é contraindicada de forma explícita.
  3. 3Interpretar déficit do nervo mediano como um dado tranquilizador porque a criança parou de reclamar Atrai porque a melhora da dor costuma ser boa notícia. Aqui é o contrário: a alteração da sensibilidade dolorosa mascara a síndrome compartimental, cujo primeiro sinal é justamente a dor desproporcional. O déficit de mediano é fator que aumenta a vigilância, não que a diminui, e se soma aos outros fatores de risco — criança mais velha, sexo masculino, fratura ipsilateral do antebraço e lesão neurovascular.
  4. 4Indicar exploração vascular pela ausência de pulso, sem olhar a cor da mão Atrai porque ausência de pulso soa como isquemia. Mão rosada e perfundida sem pulso após redução e fixação recebe doppler e observação hospitalar por pelo menos 24 horas, com exploração só se a perfusão piorar. Mão pálida e fria após redução e fixação é que manda retirar os pinos, abrir e explorar, com dez a quinze minutos de tolerância para o espasmo arterial ceder com o membro aquecido.
  5. 5Confundir o sinal de Galeazzi com a fratura de Galeazzi Atrai porque o nome é o mesmo e porque os dois moram na ortopedia. O sinal de Galeazzi compara a altura dos joelhos com quadris e joelhos fletidos e serve à displasia do desenvolvimento do quadril, no capítulo de ortopedia pediátrica desta apostila. Já a fratura de Galeazzi é fratura da diáfise do rádio com luxação da articulação radioulnar distal, do antebraço do adulto. Enunciado que fala em queda com a mão espalmada e antebraço deformado não está falando de quadril.
  6. 6Escolher o tratamento do rádio distal do idoso pelo ângulo residual Atrai porque o ângulo é objetivo e o laudo o entrega pronto. Acima de 65 anos, desvios dorsais entre 10 e 30 graus com encurtamento abaixo de 5 mm já entram na faixa aceitável, e o que separa gesso de estabilização é a demanda funcional: idoso de baixa demanda vai bem com imobilização mínima do punho em posição neutra e uso estimulado da mão, enquanto idoso que exige mais do membro tem indicação de estabilização externa ou interna.
  7. 7Usar o pino de entrada medial de rotina na fixação da supracondiliana Atrai porque a fixação cruzada é biomecanicamente mais estável em bancada. Os estudos clínicos mostram que a via lateral basta na maioria dos casos, e o pino medial custa neuropraxia do ulnar em 1 a cada 28 pacientes, cerca de 4%. Quando ele é mesmo necessário em fratura oblíqua ou cominuída, o cotovelo é estendido a pelo menos 80 graus para relaxar o nervo, ou faz-se pequeno acesso para ver o ponto de entrada.
  8. 8Tratar escafoide somado a rádio distal como duas fraturas simples Atrai porque cada uma delas, isolada, tem cenário conservador possível. Juntas, elas mudam de categoria: a associação de escafoide com fratura do rádio distal, com lesão de outro osso do carpo ou com luxação define lesão de alta energia, instável, com indicação cirúrgica de estabilização e reconstrução ligamentar. Vinheta que descreve as duas está descrevendo outra entidade, e não a soma de duas.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor na tabaqueira anatômica após queda sobre a mão em extensão é altamente sugestiva de fratura do escafoide, que pode não aparecer na radiografia inicial. A conduta é imobilizar e repetir a radiografia em 10-14 dias (ou solicitar TC/RM), pois o não tratamento leva a pseudoartrose e necrose avascular. Liberar por radiografia normal ignora fraturas ocultas. Cintilografia imediata rotineira não é a primeira escolha. Fixação cirúrgica de urgência não se indica sem diagnóstico/desvio. Aguardar 3 meses sem imobilizar arrisca complicações graves.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

As três fraturas do membro superior que a prova cobra vêm do mesmo mecanismo — queda com a mão espalmada — e o que muda é a idade: cotovelo entre 3 e 10 anos, escafoide no adulto jovem, rádio distal acima de 60. Na criança há duas réguas que não competem: o tipo de Gartland decide a operação e o exame neurovascular decide o relógio. Imobilizar em flexão de 30 a 40 graus, nunca acima de 80. Mão rosada sem pulso vai para doppler e 24 horas de observação; mão pálida e fria vai para exploração. Síndrome compartimental é rara, de 0,1 a 0,5%, e o déficit de mediano a mascara. No escafoide, radiografia normal com dor à palpação dorsal e palmar e pistonagem positiva do polegar significa imobilizar e reavaliar em 7 a 15 dias, ou pedir tomografia ou ressonância. No rádio distal, os cortes para reduzir são 11 graus de angulação dorsal, mais de 3 mm de encurtamento e mais de 4 graus perdidos no ângulo radial; a partir dos 65 anos a tolerância vai a 30 graus se o encurtamento ficar abaixo de 5 mm.

em 30 dias

Dos cinco critérios de instabilidade de Lafontaine no rádio distal, a auditoria de 50 fraturas tratadas incruentamente encontrou correlação apenas com a idade. Rampa de risco de perda da redução é linear: 27% aos 40 anos, 50% aos 58, 77% aos 80, ou 1,25 ponto percentual por ano — e o corte de 58 anos que a diretriz adota é simplesmente o ponto em que a reta cruza a metade, não uma fronteira biológica. As fraturas reduzidas perdem a redução gradualmente até a quinta semana. No punho do idoso, quem escolhe o tratamento é a demanda funcional, não o ângulo. Na supracondiliana, dois fios laterais bastam no tipo II e há evidência para três no tipo III; o pino medial custa neuropraxia do ulnar em 1 a cada 28. Não há consenso sobre o prazo até a cirurgia com pulso palpável, e a literatura que autoriza esperar foi escrita sobre casos já filtrados pelo exame. Por fim, os dois documentos nacionais divergem na fatia epidemiológica — 17% contra 3 a 15% — mas concordam em tudo que muda conduta.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um menino de 6 anos chega ao pronto-socorro logo depois de cair do trepa-trepa apoiando a mão no chão. O cotovelo está inchado, ele não deixa ninguém tocar, e a mão continua quente e rosada — mas você não acha o pulso radial. Os pais querem saber se vai precisar operar hoje. Conduza o atendimento: colha o mecanismo, faça o exame que separa as duas réguas, decida a imobilização e explique a eles o que muda conforme a mão continue rosada ou fique pálida. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Fraturas do membro superior: a mesma queda em três idades — Preparatório para provas | OsceLabs