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Epifisiólise proximal do fêmur: a dor de joelho que se opera no quadril

Epifisiólise proximal do fêmur no adolescente: dor referida no joelho, radiografia em Lauenstein e fixação in situ

Dor referida, exame do quadril e fixação precoce

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 12 anos, obeso, apresenta há 3 semanas dor no quadril esquerdo irradiada para a face medial da coxa e joelho, com claudicação e limitação da rotação interna. Ao exame, o quadril tende à rotação externa e abdução quando fletido passivamente. A radiografia em posição de rã mostra escorregamento posteromedial da epífise femoral em relação ao colo. Qual é o diagnóstico e a conduta recomendada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata de uma doença de nome pouco falado e de decisão muito clara: a epifisiólise proximal do fêmur, o escorregamento da epífise femoral sobre o colo no adolescente com a fise ainda aberta. O eixo é o atraso diagnóstico. A dor chega referida no joelho pelo nervo obturatório, o joelho está normal, e o tempo que se perde examinando o lugar errado é o tempo em que o osso continua escorregando.

A régua nacional é uma diretriz de sociedade elaborada pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia com o Colégio Brasileiro de Radiologia, no Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira. Ela responde sete perguntas em sequência — qual exame pedir, quando pedir outros, o que fazer no escorregamento leve, em quanto tempo, quando fixar o outro lado, quais complicações esperar e como conduzir a carga depois. É um documento curto e incomumente franco sobre os limites do que sustenta cada recomendação.

Ao lado dela ficam três protocolos de encaminhamento — um federal, um estadual e um municipal — que decidem por onde esse adolescente entra no sistema. Os três organizam a dor no quadril, e a comparação entre eles é a parte deste capítulo que muda o que se escreve no papel do encaminhamento. Também ficam ao lado dela as duas apresentações clínicas, que aqui aparecem pela pergunta que as separa: o paciente consegue apoiar o pé.

03

O que muda decisão

O osso escorrega no quadril e o menino aponta o joelho

A epifisiólise proximal do fêmur é o enfraquecimento da camada hipertrófica da cartilagem epifisial proximal do fêmur, com perda da relação entre a epífise e o colo. A diretriz brasileira descreve o movimento a partir do colo: há deslocamento do colo femoral em relação à epífise. Os enunciados de residência descrevem o mesmo fato a partir da epífise, que escorrega para trás e para dentro em relação à metáfise. Os dois jeitos de dizer valem, e vale saber que valem — porque a cabeça femoral fica presa ao acetábulo pelo ligamento redondo e é o resto do osso que gira sob ela.

A consequência clínica dessa geometria é a queixa que engana. A inervação da articulação coxofemoral vem do nervo obturatório, e o obturatório também inerva a face medial da coxa e a região medial do joelho. O adolescente com escorregamento chega dizendo que dói o joelho, e o joelho está normal ao exame. Quem examina só o joelho pede radiografia do joelho, encontra osso e articulação sem alteração, prescreve analgésico e marca retorno. O escorregamento continua escorregando enquanto isso.

O sinal de exame que fecha o raciocínio à beira do leito não está no joelho nem na dor: está no arco de movimento do quadril. Ao flexionar passivamente o quadril acometido, a coxa roda para fora e abduz de forma obrigatória, porque a epífise deslocada para trás só acomoda a flexão nessa rotação. A rotação interna, no mesmo quadril, está limitada e dolorosa. Nenhuma dessas duas manobras precisa de aparelho, e nenhuma delas é feita quando o médico acredita na topografia que o paciente indicou com o dedo.

Vale registrar o que essa dor não costuma ser. Ela não é noturna a ponto de acordar o paciente, não vem com febre e não vem com sinais inflamatórios locais — e essas três ausências afastam, na cabeceira, as duas urgências que competem no mesmo grupo etário, a artrite séptica e o tumor ósseo. A dor da epifisiólise é mecânica, piora com a carga e melhora com o repouso, e dura semanas antes de qualquer consulta. Um adolescente que já foi atendido duas ou três vezes pelo mesmo joelho é a apresentação típica, não a exceção.

A regra prática que sobrevive a qualquer prova e a qualquer plantão é curta. Adolescente com dor no joelho, exame do joelho normal e marcha alterada tem doença do quadril até prova em contrário. Examine o quadril de todo adolescente que se queixa de joelho, e examine-o antes de pedir a imagem do lugar onde ele apontou.

Quem escorrega: o estirão, o peso e a fise ainda aberta

A doença tem endereço etário estreito. Ela ocorre enquanto a placa de crescimento proximal do fêmur está aberta e sob carga máxima, o que na prática significa o intervalo do estirão puberal. Antes disso a fise é mais espessa e menos solicitada; depois do fechamento fisário a lesão deixa de ser possível. A incidência descrita na diretriz brasileira é de um a dez vírgula oito casos para cada cem mil crianças, uma faixa larga que reflete diferenças de população estudada mais do que discordância entre autores.

O fator mecânico dominante é o excesso de peso corporal. A carga que atravessa a fise cresce com a massa, e a orientação da placa de crescimento se verticaliza na puberdade, o que converte parte da força de compressão em força de cisalhamento. É por isso que o adolescente obeso aparece em quase todo enunciado do tema, e é por isso que a pergunta sobre peso não é preenchimento de ficha: ela desloca a probabilidade antes mesmo do exame físico.

Há também um grupo em que o gatilho é hormonal e não mecânico. A diretriz nomeia comorbidades endócrinas e metabólicas, sem listar as entidades uma a uma, e é dentro dessa categoria que entram o hipotireoidismo, o déficit de hormônio de crescimento, o hipogonadismo e a osteodistrofia da doença renal crônica. O detalhe que muda conduta é que esse grupo escorrega mais cedo e dos dois lados, e a diretriz usa exatamente essa característica para decidir quem recebe fixação do quadril contralateral.

Duas perguntas de anamnese e uma medida resolvem a maior parte da estratificação. Pergunte a idade e o estágio puberal, pergunte por doença de tireoide, doença renal ou uso de hormônio de crescimento, e pese o paciente. Quando a idade destoa para baixo do intervalo esperado, procure a causa hormonal antes de tratar o escorregamento como idiopático.

Estável e instável: quem consegue apoiar o pé decide o risco

A diretriz brasileira separa duas apresentações sem batizá-las. A forma aguda cursa com dor intensa e incapacidade de deambular mesmo com auxílio de muletas. A forma crônica é mais branda, com dor insidiosa e menor restrição funcional na fase inicial. Essa é, palavra por palavra, a mesma fronteira que a literatura de língua inglesa chama de instável e estável — e o documento nacional usa o critério sem usar o par de nomes, escrevendo instável apenas duas vezes e estável nenhuma.

A distinção não é semântica. Ela pergunta se o periósteo e os vasos retinaculares que sobem pelo colo até a epífise ainda estão íntegros. No escorregamento que permite marcha, a continuidade está preservada e a cabeça femoral continua nutrida. No escorregamento que impede a marcha, houve uma ruptura aguda sobre a fise já enfraquecida, e é nesse subgrupo que se concentra a necrose avascular da cabeça femoral, a complicação que decide o quadril adulto daquele paciente.

O teste é banal e é o mais informativo do atendimento. Peça ao adolescente que fique de pé e tente dar um passo, com ou sem muletas, e observe. Não é preciso forçar, não é preciso repetir, e o resultado vai para o prontuário com as mesmas palavras do exame: consegue ou não consegue apoiar o membro. Essa frase vale mais para o ortopedista que vai receber o paciente do que qualquer descrição do grau de dor.

O erro frequente é inverter a hierarquia e supor que a dor mais forte significa escorregamento maior. O grau de deslocamento se mede na radiografia; a estabilidade se mede na tentativa de marcha; e as duas informações são independentes uma da outra. Existe escorregamento grave que caminha e escorregamento leve que não caminha. Registre as duas separadamente e você terá dito ao cirurgião tudo o que ele precisa antes de ver a imagem.

Há ainda uma terceira situação, que a diretriz descreve pela imagem e não por um nome próprio: o escorregamento crônico que se agudiza. Nesse caso a história tem semanas de dor insidiosa e um evento recente que mudou tudo, e a radiografia mostra a epífise em descontinuidade com o colo, sem neoformação nem reabsorção óssea entre os dois. Funcionalmente ele pertence ao grupo que não deambula, e é assim que deve ser tratado e transportado, por mais antiga que a queixa pareça na anamnese.

A radiografia que fecha: bacia inteira e duas incidências

O padrão-ouro está escrito sem hesitação na diretriz da sociedade brasileira: radiografias simples do quadril nas projeções ântero-posterior e de Lauenstein, que o próprio documento explica entre parênteses como posição de rã ou dupla abdução. Elas servem para diagnosticar e para classificar, quantificando o quanto o colo se deslocou em relação à epífise. Não há indicação de rotina para ressonância nem para ultrassonografia.

O mesmo exame tem quatro nomes conforme o documento que se lê. A diretriz escreve Lauenstein, com rã e dupla abdução como sinônimos explicados no texto, e não escreve perfil nenhuma vez. Os enunciados de residência escrevem ora perfil entre parênteses com Lauenstein ao lado, ora posição de rã. Um protocolo municipal de encaminhamento pede, sem citar a doença, radiografia de bacia em ântero-posterior e na sigla inglesa da mesma posição. Quem só reconhece um dos nomes perde a informação nos outros três.

O pedido precisa dizer bacia, e não quadril doloroso. As duas articulações entram no mesmo filme porque o lado assintomático é a informação que decide o seguimento, e porque a comparação entre os dois quadris é o que torna visível um deslocamento pequeno. Um filme centrado apenas no lado que dói custa o mesmo e devolve metade do diagnóstico.

Na fase que antecede o deslizamento visível, o achado não é o degrau entre epífise e colo, e sim a rarefação óssea metafisária junto à cartilagem epifisial somada ao aumento da altura da placa de crescimento com perda dos processos mamilares. No caso agudizado a epífise aparece em descontinuidade com o colo, sem neoformação nem reabsorção entre eles; no crônico há continuidade com sinais de remodelação metafisária. Escreva no pedido a incidência que você quer e o lado que dói, e leia o filme procurando esses três achados antes de procurar o degrau.

Dois painéis com um adolescente deitado de costas na mesa de exame: à esquerda, pernas estendidas e paralelas com as patelas para cima; à direita, quadris fletidos e abduzidos, joelhos fletidos e plantas dos pés encostadas. Em cada painel, um retângulo pontilhado marca o campo do exame e cobre a bacia inteira, com os dois quadris dentro dele.
As duas incidências que a diretriz brasileira pede, e o campo que elas precisam cobrir: pernas estendidas com as patelas para cima na ântero-posterior, quadris fletidos e abduzidos com as plantas aproximadas na incidência de Lauenstein, também chamada de posição de rã ou dupla abdução. O pedido diz bacia, e não quadril doloroso, porque os dois lados entram no mesmo filme: o lado sem queixa decide o seguimento, e é a comparação entre eles que torna visível um deslocamento pequeno.

Os três graus, e a fração que vale tanto quanto o ângulo

A quantificação do escorregamento se faz na incidência de Lauenstein e aceita duas linguagens equivalentes: a fração da largura da epífise que se deslocou, ou o ângulo entre a epífise e a diáfise femoral. O escorregamento leve é o deslocamento menor que um terço da largura da epífise, ou a angulação menor que trinta graus. O moderado fica entre um terço e dois terços do diâmetro, ou entre trinta e sessenta graus. O grave ultrapassa dois terços do diâmetro, ou sessenta graus de angulação.

Ter duas réguas para a mesma coisa é uma conveniência de serviço, não uma divergência. A fração se estima a olho no filme, sem transferidor, e serve ao médico da unidade que precisa dizer alguma coisa útil ao telefone. O ângulo é reprodutível e serve ao cirurgião que vai planejar. Quando as duas discordam num caso concreto, prevalece a medida angular, porque a estimativa de fração depende de o filme estar bem posicionado.

O grau importa por três motivos práticos, e nenhum deles é a escolha entre operar e não operar. Ele antecipa a dificuldade técnica da fixação, orienta a necessidade de planejamento por imagem adicional nos casos mais graves, e sinaliza o risco de deformidade residual que vai cobrar osteotomia anos depois. A indicação cirúrgica em si não depende do grau: todo escorregamento diagnosticado é cirúrgico.

Existe uma armadilha de leitura que a própria diretriz previne ao descrever o pré-deslizamento. Nessa fase o grau é zero, o degrau não existe, e ainda assim há doença e há indicação de tratamento. Medir grau nenhum não é afastar a doença. Meça e escreva o grau no encaminhamento, e escreva também quando não há grau a medir e os sinais metafisários estão presentes.

Fixar onde está: a cirurgia que não tenta consertar o eixo

Feito o diagnóstico, a diretriz manda duas coisas na sequência em que aparecem. Primeiro, o membro acometido vai a carga zero — isso vale para o pronto-socorro, para a unidade básica e para o transporte, e não depende do ortopedista. Depois, o tratamento cirúrgico é instituído no momento oportuno, com o objetivo declarado de promover a epifisiodese e impedir que o escorregamento progrida.

A operação é a fixação in situ com um único parafuso, e a expressão latina é a parte que carrega a decisão: fixa-se onde está, sem tentar recolocar a epífise no lugar. O documento sustenta a escolha com fusão fisária prematura em noventa e dois por cento das epífises fixadas com parafuso único, além de estabilidade epifisária adequada. Um parafuso, portanto, e não dois; e a fise fecha antes da hora de propósito, porque é justamente o fechamento que impede a progressão.

A tentação de corrigir o alinhamento é o erro caro. A redução de escorregamentos agudizados é uma das situações que a diretriz nomeia como associada à necrose avascular da cabeça femoral, ao lado do mau posicionamento do parafuso. Manobras vigorosas de redução e imobilizações gessadas pertencem à história do tratamento, não à conduta atual — e a imobilização prolongada ainda reaparece adiante, como fator de condrólise.

Para quem atende fora do centro cirúrgico, a conduta cabe em três atos e nenhum deles envolve tocar no quadril. Proíba a carga imediatamente, inclusive com muletas se o paciente as tiver. Escreva o diagnóstico suspeito e o resultado da tentativa de marcha. E encaminhe para o serviço com ortopedia, sem tração, sem gesso e sem manipular o membro.

As vinte e quatro horas sugeridas e o intervalo que não as sustenta

A pergunta sobre quando operar tem, na diretriz brasileira, uma resposta honesta e desconfortável. Uma metanálise de cinco estudos comparou escorregamentos instáveis tratados antes e depois de vinte e quatro horas do início dos sintomas, e encontrou redução de metade na probabilidade de necrose avascular a favor do tratamento precoce. Logo em seguida, o mesmo parágrafo registra que a diferença não alcançou significância estatística, com intervalo de confiança que atravessa a unidade e valor de p muito acima do limiar convencional.

O documento explica por que o dado ficou assim: o número de pacientes incluídos nos estudos é pequeno, e o poder da metanálise para detectar diferença é limitado. A recomendação que se segue usa o verbo mais fraco disponível — sugere-se que a epifisiodese seja realizada, nos casos agudos, de preferência nas primeiras vinte e quatro horas — e não afirma benefício comprovado.

Esse é o ponto em que a leitura de níveis de evidência costuma escorregar. A metanálise é classificada com a letra de melhor consistência metodológica, e essa letra qualifica o desenho do estudo, não a certeza do achado. Um estudo de primeira linha pode produzir um resultado inconclusivo, e é exatamente o que aconteceu aqui. Quem para de ler na classificação transforma uma sugestão prudente em regra dura, e depois se surpreende quando outra fonte diz que o prazo não é obrigatório.

Na prática, a conduta prudente e a leitura honesta coincidem. Opere cedo, porque o dano de esperar é biologicamente plausível e o custo de antecipar é baixo; e diga à família que a antecipação busca reduzir um risco, sem prometer que o risco desaparece. Prometer o que o intervalo não sustenta é o começo de uma conversa difícil depois.

O quadril do outro lado escorrega calado na maioria das vezes

O acompanhamento longo do lado sadio produziu o número que organiza toda a discussão. Numa análise retrospectiva de pacientes com escorregamento unilateral ao diagnóstico, com idade média de treze anos e oito meses e seguimento médio superior a três décadas, o quadril contralateral escorregou em quarenta e um por cento dos pacientes. E o achado que muda a conversa: esse deslocamento foi assintomático em noventa e dois por cento dos casos.

A diretriz extrai desse par de números a conclusão contra a fixação profilática universal. Se pouco mais de dois em cada cinco pacientes escorregam do outro lado, indicar cirurgia para todos significa operar desnecessariamente mais da metade deles, com os riscos anestésicos e cirúrgicos correspondentes. O documento reconhece que existe controvérsia e escolhe a via seletiva.

Os critérios da via seletiva são três e cabem numa frase. Fixa-se profilaticamente o quadril contralateral em quem tem endocrinopatia ou doença metabólica, em quem já mostra sinais radiográficos de pré-deslizamento do outro lado, e em quem não terá acompanhamento clínico adequado — a diretriz cita, como exemplo dessa terceira situação, o paciente proveniente de área remota. Em todos os casos, com esclarecimento e consentimento do paciente e dos responsáveis. A idade biológica entra como parâmetro adicional, porque o risco contralateral cai à medida que a idade avança.

A leitura clínica dos noventa e dois por cento assintomáticos tem uma consequência que não é cirúrgica. Se o segundo escorregamento não dói, então esperar a queixa é esperar a deformidade. Marque o retorno com radiografia de bacia, diga aos pais que o outro lado pode escorregar sem avisar, e escreva no prontuário a data em que essa conversa aconteceu.

Depois de fixar: semanas sem carga e a fratura que isso evita

O capítulo do pós-operatório começa com uma frase que quase nenhum documento assume: não existem estudos sobre os cuidados pós-operatórios nessa doença. A diretriz escreve isso, e ainda assim recomenda — o que é legítimo, desde que quem lê saiba que está diante de prudência fundamentada em mecânica, e não de resultado de ensaio.

A conduta sugerida é manter o membro operado sem carga por quatro a seis semanas. O motivo é concreto e vale a pena ser dito ao paciente: a passagem do parafuso enfraquece a cortical lateral do fêmur, e a carga total precoce sobre um osso assim predispõe à fratura ao redor do implante. Não é uma restrição de conforto nem uma medida para poupar dor; é a prevenção de uma segunda cirurgia.

A forma de cumprir a restrição depende de quantos quadris foram fixados. Na fixação unilateral, o paciente deambula com muletas, sem carga ou com carga parcial no membro operado. Na fixação bilateral, por doença dos dois lados ou por profilaxia, não sobra membro para apoiar, e a diretriz mantém o paciente em cadeira de rodas durante o período. Prescrever muletas a quem tem os dois quadris fixados é prescrever uma queda.

O que sai da consulta de alta, portanto, é uma frase escrita e não uma orientação verbal. Registre o membro operado, o tipo de restrição, o prazo em semanas e o dispositivo — muletas ou cadeira — e marque o retorno dentro desse prazo. Restrição de carga combinada no corredor não sobrevive à primeira semana de aula.

Condrólise e necrose: o que a doença faz e o que a cirurgia apressa

Duas complicações dominam o prognóstico, e ambas têm a mesma natureza ambígua: podem surgir na evolução natural da doença e podem ser precipitadas pelo tratamento. A condrólise é a perda da cartilagem articular, com estreitamento do espaço e rigidez progressiva. A necrose avascular da cabeça femoral é a morte óssea por interrupção do aporte sanguíneo, e é a que deixa sequela funcional maior no adulto jovem.

A condrólise tem, na diretriz, um fator de risco nomeado antes de todos: tratamentos com imobilização prolongada, e o exemplo é o aparelho gessado. Sobre o material de síntese, o documento faz uma distinção fina que costuma ser mal citada. A penetração transitória do implante no espaço articular durante o ato cirúrgico não predispõe à condrólise; o que aumenta o risco é o material não ser retirado e permanecer em contato persistente com a cartilagem acetabular.

A necrose avascular tem três antecedentes descritos, e dois deles são do cirurgião. O primeiro é a evolução natural da própria doença, sobretudo na apresentação que impede a marcha. O segundo é o mau posicionamento do parafuso, com lesão da vascularização intraóssea. O terceiro é a redução dos deslizamentos agudizados. A frequência é menor com a fixação in situ com parafuso único, o que fecha o argumento a favor da técnica.

A diretriz encerra esse ponto com a única frase possível: independentemente do risco de complicação, o tratamento continua sendo cirúrgico, e o que se faz é cuidar da técnica. Para quem acompanha depois, isso significa que a radiografia de controle não serve só para ver o parafuso. Olhe o espaço articular e olhe a densidade da cabeça femoral, e pergunte por rigidez, porque é assim que as duas complicações aparecem antes de doer.

O caminho até o ortopedista, e a palavra que os formulários não têm

O documento federal que organiza o encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada tem um volume dedicado a reumatologia e ortopedia, com uma seção específica chamada dor no quadril. Nela, a lista de condições que indicam encaminhamento para emergência tem um único item: suspeita de fratura ou luxação do quadril. As condições que indicam encaminhamento ambulatorial para ortopedia são osteonecrose e osteoartrite com potencial indicação cirúrgica. Em quarenta e sete páginas, com quadril e joelho aparecendo às dezenas, a doença de que aqui se trata não é nomeada nenhuma vez.

O protocolo estadual saído da mesma equipe tem o mesmo silêncio e outro por cima: em vinte e duas páginas, não escreve criança, não escreve adolescente e não escreve pediátrico. É um protocolo de ortopedia de adulto que não anuncia sê-lo, e o médico que o consulta para decidir sobre um menino de doze anos não encontra régua nenhuma.

Um protocolo municipal do interior paulista faz mais que os dois, e é interessante que faça. Ele cria um item chamado criança com claudicação e deformidades em membros inferiores, e manda encaminhar com radiografia do segmento afetado em duas posições mais bacia em ântero-posterior e na posição de rã. A imagem certa está prescrita sem que a doença seja nomeada. O mesmo documento, algumas páginas adiante, reescreve o mesmo item como criança com claudicação crônica — um adjetivo a mais que deixaria de fora justamente a apresentação que não consegue caminhar. E, nas duas listas, o caso entra como prioridade ambulatorial, nunca como emergência.

A ponte entre a norma escrita e o adolescente que está na sala é o médico. Quando o formulário não tem a caixa, escreva a hipótese por extenso no campo livre, escreva se ele consegue ou não apoiar o membro, anexe a radiografia de bacia nas duas incidências e telefone para o serviço de referência em vez de confiar na fila. A prioridade que o protocolo dá é para quem manca há meses; quem não consegue apoiar o pé hoje precisa de vaga hoje, e quem diz isso é você.

04

As réguas, lado a lado

Três decisões e uma classificação. A imagem sai da diretriz da sociedade; a estabilidade sai da tentativa de marcha; a indicação cirúrgica não depende do grau; e a porta de entrada sai do protocolo de encaminhamento que o município adota.

  1. 1Adolescente com dor em quadril, coxa medial ou joelho, com ou sem trauma: examinar o quadril, medir rotação interna e observar se a flexão passiva provoca rotação externa obrigatória.
  2. 2Pedir radiografia de BACIA em duas incidências: ântero-posterior e Lauenstein (posição de rã / dupla abdução). Nunca só do lado que dói.
  3. 3Antes de qualquer transporte ou exame: carga zero no membro acometido.
  4. 4Testar a marcha: se não deambula nem com muletas, é a apresentação instável — encaminhar como emergência e sinalizar por telefone.
  5. 5Medir o grau em fração da largura da epífise OU em ângulo epífise-diáfise; prevalece o ângulo se as duas discordarem.
  6. 6Sem degrau visível e com rarefação metafisária + placa alargada com perda dos processos mamilares: pré-deslizamento — ressonância ou ultrassonografia podem confirmar (a US teve sensibilidade de 95% contra 88% da RM na diretriz).
  7. 7Tratamento: fixação in situ com um único parafuso, sem redução. Todo escorregamento diagnosticado é cirúrgico, qualquer que seja o grau.
  8. 8Caso agudo (instável): epifisiodese de preferência nas primeiras 24 horas — recomendação com verbo fraco (ver divergências).
  9. 9Contralateral: fixar profilaticamente só se endocrinopatia/doença metabólica, sinais de pré-deslizamento, ou seguimento inviável.
  10. 10Pós-operatório: sem carga por 4 a 6 semanas. Unilateral = muletas; bilateral = cadeira de rodas.
  11. 11Investigar causa endócrina/metabólica quando a idade for menor que a esperada ou quando o acometimento for bilateral ao diagnóstico.

Fise normal — epífise centrada no colo

Placa de crescimento de altura normal, com processos mamilares preservados e epífise alinhada ao colo femoral. É a referência contra a qual o lado doente é comparado — e é por isso que o pedido é de bacia, não de quadril.

Grau I — leve: menos de 1/3 ou menos de 30°

Deslocamento menor que um terço da largura da epífise, ou angulação epífise-diáfise menor que 30 graus. Conduta: fixação in situ com parafuso único.

Grau II — moderado: 1/3 a 2/3 ou 30° a 60°

Deslocamento entre um e dois terços do diâmetro da epífise, ou angulação de 30 a 60 graus. Mesma indicação cirúrgica; maior dificuldade técnica e maior deformidade residual.

Grau III — grave: mais de 2/3 ou mais de 60°

Deslocamento maior que dois terços do diâmetro, ou angulação acima de 60 graus. Imagem adicional entra aqui, para planejamento pré-operatório — não para diagnóstico.

Instável — não deambula nem com muletas

Definida pela função, não pelo grau: dor intensa e incapacidade de deambular mesmo com auxílio de muletas. É o subgrupo da necrose avascular e o que justifica a pressa. Existe grau III que caminha e grau I que não caminha.

Grau do escorregamento: duas linguagens equivalentes

GrauFração da largura da epífiseÂngulo epífise-diáfise
I — leve< 1/3< 30°
II — moderado1/3 a 2/330° a 60°
III — grave> 2/3> 60°

As duas apresentações, pela pergunta que as separa

Crônica (estável)Aguda (instável)
MarchaDeambula, com ou sem muletasNão deambula nem com muletas
DorInsidiosa, mais brandaIntensa
Restrição funcional inicialMenorTotal
RadiografiaEpífise em continuidade com o colo, com remodelação metafisáriaEpífise em descontinuidade, sem neoformação nem reabsorção
Risco de necrose avascularMenorConcentra-se aqui

Dor no quadril: o que cada protocolo manda fazer

DocumentoEmergênciaEncaminhamentoNomeia a epifisiólise?
Federal (MS/UFRGS, 2016, v. III)Suspeita de fratura ou luxação do quadrilOsteonecrose; osteoartrite com potencial indicação cirúrgicaNão — 0 ocorrências em 47 páginas
Estadual (TelessaúdeRS, 2016)Não há item de quadril pediátricoOsteoartrite de quadril, joelho ou ombroNão — e 0 ocorrências de criança/adolescente em 22 páginas
Municipal (Itu/SP, 2023)Dor intensa descaracterizada na emergênciaCriança com claudicação: RX do segmento + bacia AP e FROG, como prioridadeNão nomeia, mas pede a incidência certa

Fixação profilática do quadril contralateral

Indicar quandoNão indicar de rotina porque
Endocrinopatia ou doença metabólica41% escorregam do outro lado no seguimento longo
Sinais radiográficos de pré-deslizamento contralateralLogo, mais da metade seria operada sem necessidade
Seguimento clínico inviável (ex.: área remota)Risco anestésico e cirúrgico do lado sadio
Sempre com consentimento do paciente e responsáveisO risco contralateral cai com o avanço da idade biológica

A diretriz nacional não usa o par estável/instável: escreve 'instável' 2 vezes e 'estável' nenhuma, e define a forma aguda pela incapacidade de deambular mesmo com auxílio de muletas — que é o mesmo critério.

A mesma incidência aparece com quatro nomes: Lauenstein, posição de rã e dupla abdução na diretriz; perfil nos enunciados de residência; FROG no protocolo municipal. A diretriz não escreve 'perfil' nenhuma vez.

Ressonância e ultrassonografia não entram na rotina diagnóstica: servem ao pré-deslizamento, ao planejamento dos casos graves e à identificação de complicações.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Operar o escorregamento instável dentro das primeiras 24 horas

Sim, de preferência em até 24 horas

A recomendação do documento nacional é explícita: sugere-se que a epifisiodese seja realizada, nos casos agudos, de preferência nas primeiras 24 horas do início dos sintomas. O verbo é 'sugere-se', e a recomendação vem logo depois do parágrafo que apresenta o dado.

Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia; Colégio Brasileiro de Radiologia. Epifisiólise: Diagnóstico e Tratamento das Formas de Apresentação Pré-deslizamento e Leve. Projeto Diretrizes AMB, elaboração final 30/11/2012, pergunta 4, p. 4-5.

O dado citado não sustenta o prazo

A metanálise de cinco estudos citada pela própria diretriz encontrou OR = 0,50 para necrose avascular a favor do tratamento em até 24 horas, com IC95% de 0,09 a 2,92 e p = 0,441 — intervalo que atravessa a unidade. O texto registra 'todavia sem demonstrar diferença estatística' e atribui a limitação ao pequeno número de pacientes.

Mesma diretriz, pergunta 4, p. 5 — parágrafo do dado, com grau de recomendação A atribuído à metanálise.

Na prova

Os dois lados vêm do MESMO documento, e o enunciado escolhe qual metade cita. Quando a pergunta traz a recomendação ('em quanto tempo se recomenda operar'), a resposta é 24 horas. Quando a pergunta traz o número (OR, intervalo de confiança ou valor de p), a resposta é que a diferença não foi significativa. Grau A qualifica o desenho do estudo, não a certeza do resultado: uma metanálise pode ser nível A e inconclusiva ao mesmo tempo, e é o caso aqui.

Fixar profilaticamente o quadril contralateral sadio

Só em grupos selecionados

A recomendação nacional restringe a fixação profilática a portadores de endocrinopatias ou doenças metabólicas e a situações em que o acompanhamento clínico subsequente não será adequadamente realizado (o exemplo dado é o paciente proveniente de áreas remotas), sempre com esclarecimento e consentimento.

Projeto Diretrizes AMB/SBOT/CBR, Epifisiólise (pré-deslizamento e leve), pergunta 5, p. 5-6, recomendação.

O risco observado justificaria fixar mais

A série retrospectiva que a própria diretriz cita acompanhou pacientes com escorregamento unilateral ao diagnóstico (idade média 13,8 anos) por, em média, 32,4 anos: 41% escorregaram do lado contralateral, e em 92% desses o deslocamento foi assintomático. Um evento que atinge dois em cada cinco e não avisa é argumento para ampliar a indicação.

Mesma diretriz, pergunta 5, p. 5 — dado de nível C usado pelo documento para sustentar a via seletiva.

Na prova

O enunciado costuma trazer um dos dois números — 41% de escorregamento contralateral ou 92% de assintomáticos — e pedir a conduta. Note que o mesmo dado é usado nos dois sentidos: a diretriz o lê como 'mais da metade seria operada à toa'. A conduta esperada é a seletiva, com os três critérios; o número dos 92% assintomáticos justifica o retorno programado com radiografia, não a cirurgia.

Por qual porta o adolescente entra: emergência ou fila

Ambulatorial prioritário

O protocolo municipal cria o item 'criança com claudicação e deformidades em membros inferiores', pede radiografia do segmento afetado em 2 posições mais bacia em AP e FROG, e classifica o caso como PRIORIDADE — categoria de encaminhamento ambulatorial. Numa segunda lista, o mesmo documento escreve o item como 'claudicação crônica'.

Prefeitura Municipal de Itu (SP). Protocolo de Ortopedia, 2023, itens 4 (p. 9) e lista de priorização (p. 13) — deslocamentos 13.597 e 21.010 do texto extraído.

Emergência quando não deambula

A diretriz nacional descreve a forma aguda como dor intensa com incapacidade de deambular mesmo com muletas, e recomenda carga zero imediata e epifisiodese de preferência em 24 horas. Um quadro com prazo de horas não cabe em fila ambulatorial, ainda que a lista de emergência do protocolo federal para dor no quadril traga apenas 'suspeita de fratura ou luxação'.

Projeto Diretrizes AMB/SBOT/CBR, introdução (p. 3) e pergunta 4 (p. 5); Brasil. Ministério da Saúde; UFRGS. Protocolos de Encaminhamento da Atenção Básica para a Atenção Especializada, v. III — Reumatologia e Ortopedia, 2016, seção 2.8 Dor no quadril.

Na prova

Enunciado de gestão ou de atenção primária tende a cobrar a régua do protocolo; enunciado clínico com o menino que não apoia o pé cobra a régua da diretriz. As duas convivem: o protocolo organiza a fila para o caso arrastado, e a diretriz manda tirar da fila o caso que não deambula. Se o enunciado disser que ele não consegue apoiar o membro, a conduta é emergência, e não encaminhamento prioritário.

06

Caso resolvido

Menino de 12 anos, 68 kg, levado pela mãe à unidade básica por dor no joelho esquerdo há 5 semanas, sem trauma. Já foi atendido duas vezes; trouxe uma radiografia de joelho esquerdo normal. Anda mancando, mas anda sozinho e sem muletas. Afebril. Exame do joelho: sem derrame, sem dor à palpação das interlinhas, ligamentos estáveis. Ao exame do quadril esquerdo, a flexão passiva provoca rotação externa e abdução da coxa, e a rotação interna está limitada e dolorosa.
Reposicionar o problema
Dor no joelho com exame do joelho normal e radiografia do joelho normal, em adolescente obeso, é dor referida do quadril pelo nervo obturatório até prova em contrário. O achado que confirma a suspeita já está feito: rotação externa obrigatória à flexão passiva do quadril, com rotação interna limitada.
Pedir a imagem certa
Radiografia de BACIA em ântero-posterior e em Lauenstein (posição de rã), incluindo os dois quadris. Não é radiografia de quadril esquerdo: o lado assintomático é parte do exame, tanto para comparar quanto para procurar pré-deslizamento contralateral.
Classificar a apresentação antes do laudo
Ele deambula sem muletas e a dor é insidiosa há 5 semanas: apresentação crônica, a que a literatura chama de estável. Isso não reduz a indicação cirúrgica — reduz o risco de necrose avascular e muda a urgência do transporte, não a conduta final.
Proibir a carga
Carga zero no membro esquerdo a partir de agora, ainda dentro da unidade e antes do resultado da imagem. Se houver muletas disponíveis, ele sai com elas; se não houver, sai em cadeira de rodas ou carregado. A diretriz põe a carga zero antes da cirurgia na ordem em que escreve a conduta.
Ler o filme
A radiografia em Lauenstein mostra a epífise deslocada posteromedialmente, com cerca de um quarto da largura da epífise fora do colo — menos de um terço, e portanto escorregamento leve, grau I. O lado direito tem placa de crescimento de altura normal e processos mamilares preservados.
Encaminhar com o que o ortopedista precisa
Encaminhamento com hipótese escrita por extenso, o grau medido, a informação de que ele deambula sem muletas, o peso, e as duas incidências anexadas. Telefonema ao serviço de referência: o protocolo local classifica criança com claudicação como prioridade ambulatorial, e o caso precisa de data marcada, não de fila.
Antecipar as duas decisões seguintes
O tratamento será fixação in situ com um único parafuso, sem redução. O lado direito não tem indicação de fixação profilática — não há endocrinopatia conhecida, não há sinais de pré-deslizamento e o seguimento é viável —, mas terá retorno programado com radiografia, porque o escorregamento contralateral é assintomático na grande maioria dos casos.
Investigar o que a idade pede
Aos 12 anos, com obesidade, o quadro é compatível com a forma idiopática e a investigação hormonal não é obrigatória. Ela passaria a ser prioritária se a idade fosse menor que a esperada para o estirão, se houvesse baixa estatura desproporcional ao peso, ou se o acometimento fosse bilateral já ao diagnóstico.
07

Agora feche você

Menina de 11 anos e 9 meses, em diálise peritoneal por doença renal crônica desde os 7 anos, chega ao pronto-socorro trazida da escola por dor súbita e intensa no quadril direito, iniciada ao descer um degrau. Não consegue apoiar o pé direito no chão nem com o apoio de duas pessoas. Afebril. Membro em rotação externa, encurtado, com dor a qualquer mobilização. Relata que há cerca de 2 meses vinha com desconforto na coxa direita, que atribuiu a cãibra. Radiografia de bacia em AP e rã mostra escorregamento da epífise femoral proximal direita com cerca de metade da largura fora do colo, sem sinais de remodelação metafisária; à esquerda, a placa de crescimento está alargada, com perda dos processos mamilares e sem degrau.
Primeiro
Diga qual é a apresentação clínica do lado direito e qual achado do enunciado — não da radiografia — a define. Explique por que essa classificação muda o prognóstico e não muda a indicação cirúrgica.
Segundo
Classifique o grau do escorregamento direito nas duas linguagens da diretriz e diga qual das duas você usaria para conversar por telefone com o ortopedista e qual usaria para registrar no prontuário.
Terceiro
Descreva o que a radiografia do lado esquerdo está mostrando, com o nome da fase, e diga em quantos itens da recomendação de fixação profilática contralateral esta paciente se encaixa.
Quarto
Defina a conduta imediata no pronto-socorro, incluindo o que NÃO fazer com o membro, e diga qual prazo a diretriz sugere para a epifisiodese neste caso e com que grau de confiança esse prazo é sustentado pelo dado citado.
Quinto
Programe o pós-operatório supondo que os dois quadris sejam fixados no mesmo tempo cirúrgico: diga o prazo de restrição de carga, o dispositivo e o motivo mecânico da restrição.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir radiografia de joelho porque o paciente apontou o joelho A dor referida vem pelo nervo obturatório, que inerva a articulação coxofemoral, a face medial da coxa e a região medial do joelho. O joelho é normal ao exame e normal na imagem, e o filme normal dá falsa segurança. Em adolescente com dor no joelho e exame do joelho normal, a imagem que resolve é a radiografia de bacia.
  2. 2Confundir o grau do escorregamento com a estabilidade O grau se mede na radiografia (fração ou ângulo) e prevê dificuldade técnica e deformidade residual. A estabilidade se mede pedindo ao paciente que tente andar, e é ela que prevê necrose avascular. Um grau III pode deambular e um grau I pode não deambular; escrever os dois separadamente no encaminhamento é o que muda a fila.
  3. 3Tentar reduzir para 'consertar' o alinhamento A cirurgia indicada é a fixação in situ com um único parafuso, cujo objetivo é epifisiodese — fechar a fise para impedir a progressão. A redução dos deslizamentos agudizados está entre os antecedentes da necrose avascular nomeados pela diretriz, ao lado do mau posicionamento do parafuso. Redução vigorosa com gesso pelvipodálico e tração prolongada não são conduta atual.
  4. 4Ler grau A como 'está provado' A metanálise sobre as 24 horas recebe grau A porque é uma metanálise, e o mesmo parágrafo diz que a diferença não foi estatisticamente significativa: OR 0,50 com IC95% de 0,09 a 2,92 e p = 0,441. A letra classifica o desenho; o intervalo de confiança classifica a certeza. Operar cedo continua sendo prudente — só não é um benefício demonstrado.
  5. 5Achar que o pré-deslizamento não precisa de tratamento Antes do degrau existe doença: rarefação óssea metafisária junto à cartilagem epifisial e aumento da altura da placa com perda dos processos mamilares. Grau zero não é ausência de doença, e é justamente nessa fase que a fixação profilática do lado contralateral entra como recomendação quando há sinais radiográficos.
  6. 6Prescrever muletas a quem teve os dois quadris fixados A diretriz é literal: na fixação bilateral, por doença ou profilática, mantém-se o paciente em cadeira de rodas nas quatro a seis semanas. Muletas só servem quando sobra um membro para receber a carga. O motivo da restrição é a cortical lateral enfraquecida pela passagem do parafuso e o risco de fratura ao redor do implante.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Adolescente obeso com dor no quadril/joelho, limitação de rotação interna, sinal de Drehmann (rotação externa e abdução obrigatórias na flexão) e escorregamento posteromedial da epífise na radiografia em rã caracterizam a epifisiólise proximal do fêmur (SCFE); o tratamento é fixação cirúrgica in situ com parafuso para evitar progressão e necrose avascular. Perthes ocorre em crianças mais jovens com necrose da cabeça femoral, sem escorregamento epifisário. A sinovite transitória é autolimitada, sem alteração epifisária radiográfica. A artrite séptica cursa com febre e provas inflamatórias elevadas, exigindo drenagem. A displasia do desenvolvimento manifesta-se no lactente, não nessa idade.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória sete coisas sem abrir o capítulo. O nervo que explica a dor no joelho e as três regiões que ele inerva. As duas manobras do exame do quadril: o que a flexão passiva provoca e o que a rotação interna mostra. As duas incidências do pedido, com os quatro nomes que a segunda recebe, e por que o pedido é de bacia. Os três graus nas duas linguagens, com os cortes de fração e de ângulo. A pergunta única que separa estável de instável, e qual das duas concentra a necrose avascular. O nome da cirurgia, o número de parafusos e o objetivo declarado. E os dois números do quadril contralateral, com o que a diretriz conclui a partir deles.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva cinco cenários em voz alta antes de conferir. Menino obeso de 13 anos com dor no joelho há um mês e radiografia de joelho normal: qual o próximo exame e com que palavras você o pede. Adolescente que não consegue apoiar o pé após um passo em falso: o que muda no prazo e o que não muda na técnica. Pergunta sobre o prazo de 24 horas com o intervalo de confiança escrito no enunciado: qual das duas metades do documento está sendo cobrada. Paciente com hipotireoidismo e pré-deslizamento contralateral: quantos critérios de fixação profilática ele preenche e qual falta. E adolescente operado bilateralmente que recebeu muletas na alta: o que você corrige e com que argumento mecânico.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

No próximo adolescente que chegar com dor no joelho, faça três coisas antes de assinar a receita. Meça a rotação interna dos dois quadris e flexione passivamente o quadril do lado que dói, observando se a coxa roda para fora sozinha. Peça a ele que fique de pé e tente dar um passo, e escreva no prontuário se conseguiu ou não — essa frase é a que decide entre fila e vaga hoje. E, se a suspeita se levantar, escreva no pedido 'radiografia de bacia em AP e Lauenstein (posição de rã)', não 'radiografia de quadril': o lado que não dói é metade do exame, e é nele que mora a decisão sobre o quadril que ainda não escorregou. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Epifisiólise proximal do fêmur no adolescente – Epifisiólise proximal do fêmur: a dor de joelho que se opera no quadril — Preparatório para provas | OsceLabs