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Síndrome compartimental e rabdomiólise: cinco números para a mesma enzima e duas réguas que não mandam operar

Diagnóstico clínico, pressão compartimental e proteção renal

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 22 anos sofre fratura exposta da tíbia em acidente de motocicleta. Horas após a redução e imobilização, evolui com dor desproporcional e progressiva na perna, que não melhora com analgésicos, além de dor intensa ao estiramento passivo dos dedos do pé, parestesia e tensão importante do compartimento à palpação. Os pulsos distais ainda estão presentes. Qual é a conduta imediata mais adequada?

02

Como esse tema cai

O capítulo cobre a síndrome compartimental aguda de membro, traumática e não traumática, e a rabdomiólise com sua ameaça renal, incluindo a síndrome do esmagamento que produz as duas ao mesmo tempo. Cobre também as duas formas em que o acidente ofídico brasileiro entra nesse território.

Não cobre a classificação de Gustilo nem o tempo de desbridamento da fratura exposta, que têm capítulo próprio nesta apostila; nem a fratura supracondiliana da criança, onde a mesma síndrome aparece com incidência de zero vírgula um a zero vírgula cinco por cento e é assunto do capítulo de fraturas do membro superior; nem a anatomia das quatro lojas da perna, que é da apostila de morfologia; nem o estadiamento e a diálise da lesão renal aguda, que são da apostila de nefrologia.

O recorte é deliberadamente duplo. As duas doenças são cobradas juntas porque a vinheta que traz uma quase sempre traz a outra, e porque cada uma tem uma régua de natureza diferente: uma se decide por exame físico e relógio, a outra por volume e eletrólito. Quem estuda só metade erra a metade que a alternativa correta contém.

As fontes são de três origens: uma norma de sociedade estrangeira, dois documentos assistenciais brasileiros e cinco artigos de periódicos nacionais. Elas discordam em quatro pontos que o capítulo isola, e convergem num só — o que fazer primeiro.

03

O que muda decisão

O eixo que aparece na resposta e quase nunca no enunciado

Este é um assunto que a prova cobra pela porta dos fundos. Nas questões de prova do acervo, o conjunto formado por síndrome compartimental, rabdomiólise, mioglobinúria, fasciotomia, esmagamento e embolia gordurosa aparece em oitenta e duas questões. Em trinta e três delas o termo está no enunciado ou na alternativa correta. E em vinte e três — mais de dois terços dessas trinta e três — ele aparece só na alternativa correta, nunca no enunciado. A vinheta descreve uma perna que dói demais, uma urina escura, um paciente resgatado de sob uma laje, e o nome da complicação espera na resposta.

Isso muda como se estuda. Não adianta procurar a palavra: ela não vem. O que vem é um conjunto de sinais que pertence a duas doenças diferentes ligadas pelo mesmo músculo — uma que mata o músculo por pressão de fora para dentro, outra que mata o rim com o conteúdo do músculo desfeito. A primeira é decidida no membro e por relógio; a segunda é decidida no soro e por volume.

As duas convivem e se disfarçam. O esmagamento produz as duas ao mesmo tempo. A picada de serpente produz uma ou outra conforme o gênero. O exercício extenuante produz as duas em atleta sem trauma nenhum. E o distúrbio do sódio produz a segunda sem tocar na primeira.

Duas réguas de pressão, e nenhuma delas manda operar

A norma britânica de trauma dedica quinze padrões de prática à síndrome compartimental do membro, e dois deles trazem números de pressão. O décimo diz que uma diferença entre a pressão diastólica e a pressão do compartimento menor que trinta milímetros de mercúrio sugere risco aumentado — e completa que, diante disso, recomenda-se ou seguir para a descompressão cirúrgica ou continuar monitorando, conforme a decisão do titular. O décimo primeiro diz que, se a pressão absoluta do compartimento for maior que quarenta milímetros de mercúrio, com sintomas clínicos, a descompressão urgente deve ser considerada.

Leia de novo o que esses dois padrões fazem. O número mais baixo sugere risco e devolve a escolha ao cirurgião. O número mais alto manda considerar. Nenhum dos dois obriga. E o mesmo documento, no nono padrão, exige que todo hospital que trate lesões significativas tenha a capacidade de medir pressão intracompartimental. É uma norma que obriga a comprar o aparelho e não deixa o aparelho decidir.

O artigo brasileiro de atualização sobre a forma crônica escreve a mesma coisa por outro caminho: o diagnóstico é essencialmente clínico, e a medição da pressão intracompartimental é descrita como controversa e com algumas limitações. Duas fontes de países diferentes, uma normativa e outra de revisão, chegam ao mesmo lugar sem se citar.

O relógio decide o que o manômetro não decidiu

Se nenhum número de pressão obriga, o que obriga? Tempo. A mesma norma britânica distribui cinco relógios pelos quinze padrões, e é neles que está a régua de verdade.

O primeiro é de uma hora: o quarto padrão manda que a observação de enfermagem do membro em risco seja feita de hora em hora enquanto o risco durar, e acrescenta que, se o escore de dor não estiver caindo, a revisão pelo médico sênior é obrigatória. O segundo é de trinta minutos: diante de sintomas, solta-se todo curativo circunferencial até a pele, eleva-se o membro à altura do coração, garante-se pressão arterial normal e reavalia-se em trinta minutos. Persistindo, opera.

O terceiro é o que a prova gosta: a síndrome compartimental é emergência cirúrgica, e a cirurgia deve acontecer dentro de uma hora da decisão de operar. Repare no ponto de partida — a hora conta da decisão, não do trauma. O quarto é de quarenta e oito horas: todo paciente descomprimido volta ao centro cirúrgico para reexploração em torno de quarenta e oito horas, ou antes se houver indicação clínica. O quinto é de doze horas, e é o mais desconfortável: apresentação ou diagnóstico com mais de doze horas carrega alto risco de complicação com a cirurgia, a decisão é difícil e deve envolver dois titulares, e o tratamento não operatório é uma opção.

Desenho de corte transversal da perna com quatro compartimentos musculares delimitados por osso, membrana e fáscia, um deles distendido.
Corte da perna com as quatro lojas musculares. Três das paredes da loja anterior são osso ou membrana e não cedem quando o volume de dentro aumenta.

Os pês que a norma rebaixou, e o que sobrou no lugar

A lista clássica de sinais que se decora para esta síndrome é uma armadilha, e a norma britânica desmonta duas peças dela por escrito. Já na justificativa, antes dos padrões, o documento afirma que os pulsos normalmente estão presentes na síndrome compartimental, e que pulso ausente costuma decorrer de hipotensão sistêmica, oclusão arterial ou lesão vascular — ou seja, de outra doença.

O terceiro padrão vai adiante e é a frase mais útil do documento inteiro: os achados clínicos-chave são a dor desproporcional à lesão e a dor ao movimento passivo dos músculos do compartimento envolvido; a neurologia e a perfusão do membro, incluindo enchimento capilar e pulsos distais, devem ser claramente documentadas mas não contribuem para o diagnóstico precoce da condição.

Guarde a distinção: documentar, sim; diagnosticar por ali, não. O quinto padrão fecha o cerco pelo lado do analgésico — em paciente de alto risco a anestesia regional deve ser evitada porque mascara os sintomas, e a analgesia controlada pelo paciente com opioide venoso também mascara; a dose e a velocidade do opioide têm de ser levadas em conta e registradas na avaliação.

E o relato brasileiro de fratura de platô tibial mostra o que acontece na prática quando essa régua não é a usada: naquele caso, a indicação da fasciotomia descompressiva foi baseada na parestesia dos nervos da perna, associada ao volume do membro comparado ao contralateral. Foram os dois achados que a norma rebaixa — e a indicação estava certa. É a divergência em estado puro: o que uma fonte chama de sinal tardio, a outra usou como gatilho, e o paciente foi descomprimido.

A descompressão completa que não impediu a segunda

Esse mesmo relato traz o fato que mais desmonta a intuição do candidato. O paciente, um homem de cinquenta e oito anos que caiu da própria altura, recebeu fasciotomia descompressiva dos quatro compartimentos da perna direita, pelas duas incisões que a norma britânica recomenda. Quarenta e oito horas depois foi feita a osteossíntese do platô tibial com placa. E então, no pós-operatório, evoluiu com nova síndrome compartimental.

Ou seja: o tratamento definitivo não imuniza. A fáscia foi aberta, os quatro compartimentos foram liberados, e o compartimento voltou a fechar sob o edema do segundo tempo cirúrgico. A vigilância não acaba na fasciotomia — e a prova que quiser ser cruel coloca exatamente esse cenário, com o candidato convencido de que membro já operado está resolvido.

O intervalo de quarenta e oito horas entre a descompressão e a osteossíntese, aliás, é o mesmo número que a norma britânica dá para a reexploração obrigatória. As duas fontes usam quarenta e oito horas para coisas diferentes no mesmo membro, e é fácil trocá-las.

O outro lado do mesmo músculo: cinco números para uma enzima

Passe do membro para o soro. A revisão brasileira de lesão renal no politraumatizado registra que a ocorrência de rabdomiólise no trauma chega a oitenta e cinco por cento dos casos, e que a lesão renal relacionada à mioglobinúria representa cerca de sete a dez por cento de todos os casos de lesão renal aguda. Registra também o consolo: a taxa de recuperação renal chega a índices de até oitenta por cento.

Agora o problema. O mesmo texto abre a discussão do corte laboratorial dizendo que não existe um valor definido de pico da enzima muscular a partir do qual a incidência de lesão renal esteja aumentada. Duas frases depois imprime que valores em torno de cinco mil unidades por litro são correlacionados ao desenvolvimento de lesão renal. E na frase seguinte escreve que o risco de lesão renal é baixo quando os valores estão abaixo de quinze mil a vinte mil unidades por litro.

As duas últimas não podem ser verdade juntas. Se cinco mil já se correlaciona com lesão renal, o risco não pode ser baixo até vinte mil. E há ainda um quarto número, mais adiante no mesmo trecho: a análise sugeriu tendência de benefício da alcalinização apenas nos indivíduos com pico acima de trinta mil unidades por litro. O relato de caso do mesmo periódico acrescenta o quinto, e é o que define a doença: embora não haja consenso oficial, a condição é geralmente definida por enzima sérica maior que mil unidades por litro, o que o próprio texto qualifica como quatro a cinco vezes o limite superior da normalidade.

Essa última parcela permite uma conta que o texto não faz. Se mil unidades equivalem a quatro ou cinco vezes o limite superior, o limite superior implícito está entre duzentos e duzentos e cinquenta unidades por litro. Ou seja: a escada vai de quatro vezes o normal, que define a doença, até cento e vinte vezes o normal, que é onde uma terapia controversa talvez ajude. Trinta vezes de distância entre o primeiro degrau e o último.

O maior valor do conjunto é o que não deu lesão renal

O número mais alto de todas as fontes deste capítulo não está em nenhuma revisão. Está num relato de caso publicado por revista brasileira de terapia intensiva: homem de quarenta e nove anos, com esquizofrenia, em uso de clozapina, levado à urgência em coma e com convulsões por hiponatremia secundária a polidipsia psicogênica. Corrigido o sódio, apresentou rabdomiólise de agravamento crescente, com enzima muscular de quarenta e quatro mil e cinquenta e oito unidades por litro no terceiro dia de internação. E, na frase seguinte, o desfecho: houve redução progressiva com a terapêutica, sem ocorrência de lesão renal.

Guarde o par. O valor que está quase cinquenta por cento acima do corte em que a alcalinização mostrou tendência de benefício produziu zero de dano renal. O número mais alto do conjunto é o que menos decidiu sozinho — exatamente porque a causa era um distúrbio do sódio corrigido a tempo, num paciente sem esmagamento, sem hipovolemia e sem hipotensão.

Esse caso também amarra o assunto a um terreno que a prova adora: o psiquiátrico. Rabdomiólise não é só do trauma. Ela vem de convulsão prolongada, de agitação com contenção, de síndrome neuroléptica maligna, de exercício extenuante e de distúrbio eletrolítico — e o texto registra que a polidipsia psicogênica cursa com hiponatremia em quase vinte e cinco por cento dos pacientes com esquizofrenia.

Quatro tubos de vidro com urina em tons progressivamente mais escuros, do amarelo claro ao castanho.
Coleta sequencial de urina entre a admissão e o segundo dia. O escurecimento é mioglobina, não sangue: a fita reage do mesmo jeito para as duas.

A fita que mente e o quadro eletrolítico que se inverte

Dois detalhes laboratoriais resolvem sozinhos várias questões. O primeiro: a mioglobinúria produz achado falso-positivo para hematúria na fita urinária, porque a fita é incapaz de distinguir mioglobina de hemoglobina. Fita positiva para sangue com sedimento sem hemácias é a assinatura. A vinheta que traz urina escura, fita positiva e microscopia limpa está descrevendo músculo, não rim sangrando nem via urinária.

O segundo: o quadro eletrolítico clássico é hipercalemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia, hipermagnesemia e hipocalcemia. O cálcio baixo no início tem duas causas — a formação de complexo de fosfato de cálcio nos tecidos lesados e a inibição da enzima que ativa a vitamina D pela hiperfosfatemia. E aí vem a inversão que a prova cobra: conforme a função renal se recupera, pode surgir hipercalcemia, pela mobilização do cálcio antes depositado nos tecidos.

Isso tem consequência prática direta. Repor cálcio na fase inicial só porque o exame veio baixo é errado quando não há sintoma nem arritmia: o cálcio reposto vai para o mesmo tecido lesado e volta na fase de recuperação, agora em excesso. A hipocalcemia da rabdomiólise se trata quando é sintomática ou quando serve para proteger o coração da hipercalemia, não para normalizar um número.

O manual que prescreve o litro e quase não diz a palavra

A régua brasileira de fluido para este problema não está numa diretriz de nefrologia. Está no manual do Ministério da Saúde sobre acidentes por animais peçonhentos, e ele é categórico: manter o paciente hidratado, com diurese entre trinta a quarenta mililitros por hora no adulto e um a dois mililitros por quilo por hora na criança. O manual repete a mesma meta três vezes em capítulos diferentes, uma delas com a fórmula de que a hidratação é de fundamental importância na prevenção da lesão renal e será satisfatória se o paciente mantiver esse fluxo urinário.

O contraste com a revisão de nefrologia é frontal. Ela afirma que não existe uma regra determinando a quantidade de volume a ser administrada, sendo o julgamento clínico a melhor ferramenta, e enumera o preço da sobrecarga: síndrome compartimental abdominal, congestão pulmonar, maior tempo de ventilação mecânica e acidose metabólica hiperclorêmica. Um documento normativo imprime a regra três vezes; uma revisão do mesmo país nega que a regra exista.

Há um segundo achado no manual, e é sobre o que ele não diz. Em cento e doze páginas, a palavra rabdomiólise aparece cinco vezes e a palavra fasciotomia aparece uma única vez. O documento que fixa a meta de diurese de todo o país para este problema quase não nomeia o problema. A única frase sobre a descompressão é esta: firmado o diagnóstico de síndrome de compartimento, a fasciotomia não deve ser retardada, desde que as condições de hemostasia do paciente o permitam. Uma linha, sem número, sem prazo e sem critério de firmar o diagnóstico.

A criança e o adulto na mesma frase, e a conta que se abre

Volte à meta de diurese e olhe as unidades. Para a criança, o manual escreve por quilo: um a dois mililitros por quilo por hora. Para o adulto, escreve em absoluto: trinta a quarenta mililitros por hora. Colocar as duas na mesma unidade abre a diferença.

Num adulto de setenta quilos, trinta a quarenta mililitros por hora equivalem a algo entre zero vírgula quatro e zero vírgula seis mililitro por quilo por hora. O piso da criança, que é um, já é uma vez e três quartos o teto do adulto. O teto da criança, que é dois, é quase cinco vezes o piso do adulto. As duas réguas do mesmo parágrafo só se encontram entre quinze e quarenta quilos de peso — e acima disso a régua pediátrica pede sempre mais.

Antes de acusar erro, reconcilie: regra em absoluto para adulto e por quilo para criança é convenção antiga e existe para não errar dose em criança pequena; num paciente de vinte quilos, um a dois por quilo dá vinte a quarenta mililitros por hora, que é justamente a faixa do adulto. As duas regras concordam no peso de uma criança e divergem no de um adulto, e a divergência cresce com o peso.

O mesmo padrão se repete em duas prescrições independentes da mesma obra, e é aí que o achado deixa de ser convenção. O manitol a vinte por cento vem como cinco mililitros por quilo na criança e cem mililitros no adulto: aplicada a setenta quilos, a regra pediátrica daria trezentos e cinquenta, três vezes e meia o volume do adulto. A furosemida vem como um miligrama por quilo na criança e quarenta miligramas no adulto: a setenta quilos, setenta contra quarenta, uma vez e três quartos. Repare onde essa última razão cai — exatamente sobre o piso do envelope que a meta de diurese tinha aberto. Três prescrições de finalidades diferentes, um só envelope, e a mais distante das três aterrissando no seu limite inferior.

Bicarbonato e manitol: o que o maior estudo não preveniu

A alcalinização urinária é o assunto em que o candidato mais erra por excesso de leitura antiga. A revisão brasileira descreve o objetivo — manter o potencial hidrogeniônico urinário acima de seis vírgula cinco — e em seguida registra que os benefícios não estão bem determinados, com estudos pequenos e análises que misturam alcalinização com diurese forçada por manitol ou por diurético de alça.

E então o achado que decide: no maior estudo que abordou a questão, a administração de bicarbonato e manitol não preveniu o desenvolvimento de lesão renal, nem a necessidade de terapia renal substitutiva, nem morte. Só houve sugestão de tendência de benefício acima do pico de trinta mil unidades por litro.

Some isso ao que o manual do Ministério prescreve — diurese osmótica com manitol a vinte por cento, e furosemida se persistir a oligúria — e a divergência fica nítida. A norma assistencial brasileira ainda escalona manitol e diurético; a revisão nacional de nefrologia diz que a dupla não mudou desfecho. O que as duas fazem em conjunto, por caminhos completamente diferentes, é colocar a expansão volêmica precoce em primeiro lugar: a revisão a chama de principal medida de prevenção, e o manual abre a lista de medidas gerais pela hidratação.

A serpente mais comum não é a que dissolve o músculo

O manual traz uma tabela de gêneros que é aula de raciocínio, e vale conferir a conta. Em oitenta e um mil seiscentos e onze notificações de acidente ofídico no país entre mil novecentos e noventa e mil novecentos e noventa e três, o gênero botrópico responde por cinquenta e nove mil seiscentos e dezenove casos e o crotálico por cinco mil e setenta e dois. Quase doze acidentes botrópicos para cada crotálico.

Agora inverta a pergunta. O veneno botrópico é o que produz edema volumoso, e o manual lista a síndrome compartimental entre suas complicações locais, decorrente da compressão do feixe vasculonervoso pelo grande edema. O veneno crotálico é o que tem ação miotóxica: produz lesão de fibras musculares esqueléticas com liberação de enzimas e mioglobina, e o manual afirma que a mioglobinúria constitui a manifestação clínica mais evidente da necrose da musculatura esquelética.

Ou seja: o gênero que responde por quase três em cada quatro acidentes é o que aperta o compartimento; o que dissolve o músculo e ameaça o rim é doze vezes mais raro. Frequência e desfecho renal apontam em direções opostas, e a soroterapia acompanha o desfecho, não a frequência — o crotálico grave leva vinte ampolas, contra o esquema menor do botrópico. O manual ainda acrescenta os dois relógios laboratoriais do envenenamento: o aumento da enzima muscular é precoce, com pico dentro das primeiras vinte e quatro horas, enquanto a lesão renal com necrose tubular costuma instalar-se nas primeiras quarenta e oito.

Bota de couro de cano alto no chão de terra ao lado de vegetação rasteira.
Sete em cada dez picadas atingem o pé e a perna. O equipamento de proteção individual é a medida que a própria norma aponta como capaz de reduzir grande parte desses acidentes.

Vale a mesma tabela para um exercício de leitura de número. As seis percentagens impressas somam cem por cento exatos, e a soma das contagens dá exatamente as oitenta e um mil seiscentas e onze notificações que o parágrafo anterior nomeia. Recalculadas sobre esse denominador, quatro das seis batem. Duas não: o gênero laquético sai a um vírgula um cinco, impresso como um vírgula um — truncamento, e reconcilia. O grupo de não peçonhentos sai a dois vírgula oito nove, impresso como três vírgula zero — e esse não reconcilia por truncamento nem por arredondamento. O denominador que produziria três vírgula zero seria setenta e oito mil e setecentos, número que não existe em lugar nenhum do documento. Os dois desvios têm o mesmo tamanho e sinais contrários, e é por isso que o total continua fechando em cem: um décimo saiu de uma linha e entrou na outra.

E o denominador muda dentro da mesma página sem aviso. A coluna de percentagem usa as oitenta e uma mil e seiscentas notificações; o gráfico logo abaixo usa os sessenta e cinco mil novecentos e onze casos em que a serpente peçonhenta foi identificada. O mesmo gênero crotálico vale seis vírgula dois por cento na tabela e sete vírgula sete por cento no gráfico. Nenhuma legenda avisa que o chão mudou.

04

Do membro ao rim, e de cada um ao seu relógio

A sequência abaixo resolve a maioria das vinhetas deste tema sem precisar de manômetro e sem precisar decorar corte de enzima. Ela separa as duas doenças logo no começo, porque cada uma tem uma régua e um destino diferentes.

  1. 1Leia o enunciado procurando qual dos dois problemas está descrito: dor no membro é compartimento; urina escura, mialgia difusa ou imobilização prolongada é músculo desfeito. Esmagamento traz os dois.
  2. 2Sendo dor no membro, procure a dor desproporcional à lesão e a dor ao movimento passivo dos músculos daquele compartimento. São os dois achados que a norma britânica chama de chave.
  3. 3Não use pulso, enchimento capilar nem neurologia para descartar. A norma manda documentá-los e diz por escrito que eles não contribuem para o diagnóstico precoce; o pulso normalmente está presente.
  4. 4Cheque o que pode estar mascarando: anestesia regional e opioide venoso controlado pelo paciente apagam a dor que seria o primeiro sinal. Registre dose e velocidade antes de concluir que não há dor.
  5. 5Antes de operar, solte tudo o que aperta: retire todo curativo circunferencial até a pele, eleve o membro à altura do coração, corrija a pressão arterial e reavalie em trinta minutos.
  6. 6Persistindo, opere. Se a dúvida clínica continuar, meça a pressão: diferença menor que trinta em relação à diastólica sugere risco; pressão absoluta acima de quarenta com sintomas manda considerar a descompressão.
  7. 7Decidido operar, o relógio é de uma hora — e conta da decisão. Na perna, a descompressão é por duas incisões e quatro compartimentos, com reexploração em torno de quarenta e oito horas.
  8. 8Membro já descomprimido não sai da vigilância. Depois de osteossíntese tardia, o compartimento pode fechar de novo sob o edema do segundo tempo.
  9. 9Sendo músculo desfeito, comece pela fita urinária: positiva para sangue com sedimento sem hemácias é mioglobina. Peça a enzima muscular sabendo que ela gradua a lesão, não define a conduta.
  10. 10Expanda volume cedo, que é a medida principal. Não conte com bicarbonato nem manitol para prevenir desfecho: no maior estudo eles não preveniram lesão renal, terapia substitutiva nem morte.
  11. 11Vigie o potássio primeiro e o cálcio por último. Trate a hipocalcemia apenas se houver sintoma ou necessidade de proteger o coração — na recuperação ela costuma virar hipercalcemia.

Primeiro grau: o membro sob suspeita

Lesão de alta energia, gesso ou curativo circunferencial, e dor que pede mais analgesia do que a fratura justifica. Observação de hora em hora, curativo aberto até a pele, membro à altura do coração, reavaliação em trinta minutos.

Segundo grau: a dor que não cede

Dor desproporcional mantida e dor ao movimento passivo do compartimento, com pulso ainda presente. Revisão pelo sênior é obrigatória quando o escore de dor não cai. A dúvida aqui é indicação de medir, não de esperar.

Terceiro grau: a decisão e a hora

Diagnóstico firmado, clinicamente ou pela pressão. A partir daqui conta uma hora até a incisão. Na perna, duas incisões e quatro compartimentos, músculo necrótico excisado e reexploração em torno de quarenta e oito horas.

Quarto grau: o músculo já no soro

Urina escura, fita positiva para sangue e sedimento sem hemácias. Volume cedo, potássio vigiado, cálcio deixado em paz salvo sintoma. Terapia substitutiva pela indicação renal habitual, não pelo valor da enzima.

Cinco números para a mesma enzima muscular

ValorO que a fonte diz que ele significaQuem escreve
Mil unidades por litroDefine a condição, na ausência de consenso oficial; equivale a quatro a cinco vezes o limite superior da normalidadeRelato de caso de nefrologia, dois mil e vinte e um
Cinco mil unidades por litroCorrelaciona-se com desenvolvimento de lesão renal agudaRevisão de nefrologia no trauma, dois mil e treze
Quinze a vinte mil unidades por litroAbaixo disso o risco de lesão renal é baixo — o que contradiz a linha acimaMesma revisão, frase seguinte
Trinta mil unidades por litroAcima disso houve apenas tendência de benefício da alcalinização, num estudo que não preveniu desfechoMesma revisão, mesmo trecho
Quarenta e quatro mil unidades por litroValor medido no terceiro dia de um caso real que evoluiu sem qualquer lesão renalRelato de caso de terapia intensiva, dois mil e quinze

Os relógios do membro, e de onde cada um conta

PrazoDo que ele contaO que ele manda fazer
De hora em horaEnquanto durar o riscoObservação de enfermagem do membro, com escore de dor registrado
Trinta minutosDa liberação do curativo e da elevaçãoReavaliar; persistindo o sintoma, descompressão urgente
Uma horaDa decisão de operar, não do traumaA cirurgia tem de acontecer
Doze horasDa apresentação ou do diagnósticoAlto risco de complicação com a cirurgia; dois titulares decidem, e não operar é opção
Quarenta e oito horasDa fasciotomiaReexploração de rotina, ou antes se houver indicação clínica

Os dois números de pressão da norma britânica não obrigam ninguém: o de trinta sugere risco e devolve a escolha ao titular, e o de quarenta manda considerar. Quem obriga é o relógio de uma hora depois da decisão.

Enzima muscular gradua, não decide. A indicação de terapia renal substitutiva na rabdomiólise é a indicação renal de sempre — hipercalemia refratária, acidose, sobrecarga, uremia — e não um valor de enzima.

Fasciotomia completa não encerra a vigilância do membro, e a osteossíntese feita depois pode reabrir o problema no mesmo compartimento já aberto.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual meta de fluxo urinário perseguir no adulto

Trinta a quarenta mililitros por hora no adulto, e um a dois mililitros por quilo por hora na criança. A meta é repetida em três capítulos diferentes da mesma obra, uma delas com a afirmação de que a hidratação assim conduzida é de fundamental importância na prevenção da lesão renal.

Manual do Ministério da Saúde sobre acidentes por animais peçonhentos, segunda edição

Não existe regra determinando a quantidade de volume a ser administrada, e o julgamento clínico é a melhor ferramenta, pesando o custo da sobrecarga — síndrome compartimental abdominal, congestão pulmonar, mais tempo de ventilação e acidose hiperclorêmica.

Revisão de lesão renal aguda no politraumatizado, Jornal Brasileiro de Nefrologia, dois mil e treze

A régua pediátrica da própria norma, aplicada a um adulto de setenta quilos, pediria setenta a cento e quarenta mililitros por hora — de duas a três vezes e meia o que a mesma frase prescreve para o adulto.

Aritmética sobre os dois valores impressos no mesmo parágrafo do manual do Ministério da Saúde

Na prova

O avaliador brasileiro cobra a meta do manual, porque é o único número escrito em documento oficial. Quando a vinheta é de acidente ofídico, unidade básica ou serviço público, a régua é a do manual. Quando a vinheta é de terapia intensiva e fala em julgamento clínico e risco de sobrecarga, o recorte é o da revisão. Nos dois casos a resposta começa por volume, e nunca por diurético.

Se a pressão do compartimento decide a fasciotomia

Diferença menor que trinta milímetros de mercúrio entre a diastólica e a pressão do compartimento sugere risco aumentado, e recomenda-se seguir para a descompressão ou continuar monitorando, conforme decisão do titular; pressão absoluta acima de quarenta com sintomas manda considerar a descompressão urgente.

Norma britânica de trauma para síndrome compartimental dos membros, padrões dez e onze

O diagnóstico é essencialmente clínico, e a medição da pressão intracompartimental, embora utilizada, é controversa e tem limitações.

Artigo de atualização sobre síndrome compartimental crônica em atletas, Revista Brasileira de Ortopedia, dois mil e vinte e quatro

Na prova

Quando o enunciado traz um valor de pressão, ele quase sempre quer testar se o candidato sabe que o número não substitui o exame. A alternativa que manda operar por dor desproporcional e dor ao estiramento passivo, mesmo sem manômetro, é a que segue as duas fontes. A que manda aguardar nova medida diante de quadro clínico completo é a que erra.

O que fazer com o membro que chega tarde

Apresentação ou diagnóstico com mais de doze horas carrega alto risco de complicação com a cirurgia; a decisão é difícil, deve envolver dois titulares, e o tratamento não operatório é uma opção.

Norma britânica de trauma, padrão quinze

Atleta de futebol com síndrome compartimental aguda não traumática foi diagnosticada e tratada vinte e quatro horas após o início dos sintomas, por fasciotomia descompressiva minimamente invasiva, com boa evolução pós-operatória.

Relato de caso, Revista Brasileira de Ortopedia, volume cinquenta e três, dois mil e dezoito

Na prova

A prova brasileira raramente cobra a hipótese do não operar. Cobra o oposto: que atraso não é justificativa para deixar de descomprimir quando ainda há músculo viável. Guarde as duas leituras e escolha pelo contexto — se o enunciado enfatiza necrose estabelecida e paciente grave, a cautela entra; se enfatiza dor e função presentes, opera.

Se alcalinizar a urina e usar manitol muda desfecho

A diurese osmótica pode ser induzida com manitol a vinte por cento, e persistindo a oligúria indica-se diurético de alça.

Manual do Ministério da Saúde sobre acidentes por animais peçonhentos, capítulo de insuficiência renal aguda

No maior estudo que abordou a questão, bicarbonato e manitol não preveniram lesão renal, necessidade de terapia substitutiva nem morte, com apenas tendência de benefício acima de trinta mil unidades por litro; a alcalinização visa potencial hidrogeniônico urinário acima de seis vírgula cinco e seus benefícios não estão bem determinados.

Revisão de lesão renal aguda no politraumatizado, Jornal Brasileiro de Nefrologia, dois mil e treze

Na prova

Vinheta de acidente ofídico tende a cobrar a conduta do manual, inclusive o manitol. Vinheta de esmagamento, exercício ou medicamento tende a cobrar a leitura moderna: volume primeiro, alcalinização como recurso discutível, diurético só depois de reposto o volume. A alternativa que começa por furosemida em paciente hipovolêmico erra nas duas leituras.

06

Caso resolvido

Homem de trinta e dois anos, pedreiro, é retirado de sob uma laje que desabou sobre suas pernas, quatro horas depois do desabamento. Chega consciente, orientado, com pressão arterial de cem por sessenta e frequência cardíaca de cento e dez. A perna direita está tensa, muito dolorosa, com dor intensa ao movimento passivo dos dedos; os pulsos pedioso e tibial posterior estão presentes e simétricos, e o enchimento capilar é de dois segundos. Recebeu morfina no resgate e refere que a dor não melhorou. A urina colhida na sondagem é castanho-escura; a fita urinária é fortemente positiva para sangue e a microscopia não mostra hemácias.
Primeiro: separe as duas doenças
A perna tensa com dor desproporcional e dor ao movimento passivo é compartimento. A urina castanha com fita positiva e sedimento sem hemácias é músculo desfeito. O esmagamento entrega as duas, e cada uma segue sua régua.
Segundo: não use o pulso para se tranquilizar
Pulsos presentes e enchimento capilar de dois segundos não afastam nada. A norma diz que o pulso normalmente está presente e que perfusão e neurologia não contribuem para o diagnóstico precoce. Aqui eles apenas confirmam que não há lesão arterial.
Terceiro: leia a analgesia como informação
Morfina administrada e dor que não cede é achado a favor, não contra. O opioide que mascararia o sinal não conseguiu mascarar. Dose e horário entram no registro.
Quarto: faça o que vem antes da faca
Solte todo curativo circunferencial até a pele, eleve o membro à altura do coração, corrija a pressão arterial e reavalie em trinta minutos. Este paciente está com pressão limítrofe e taquicárdico: manter a pressão normal faz parte do tratamento do compartimento.
Quinto: decida e conte a hora
Mantido o quadro, o diagnóstico é clínico e não exige manômetro. A partir da decisão conta uma hora até a incisão. Na perna, duas incisões e quatro compartimentos, com reexploração programada em torno de quarenta e oito horas.
Sexto: trate o rim em paralelo, não depois
Expansão volêmica precoce é a medida principal, e é o que as duas fontes colocam em primeiro lugar. Vigie potássio, fósforo e cálcio sabendo que a hipocalcemia inicial não se repõe por número. Bicarbonato e manitol não são promessa de prevenção.
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Agora feche você

Mulher de vinte e seis anos, corredora amadora, procura o pronto atendimento doze horas depois de uma prova de rua disputada em dia muito quente. Refere dor intensa e sensação de peso nas duas pernas, pior à frente, que não melhorou com repouso nem com anti-inflamatório. A urina está escura desde a manhã. Ao exame, as lojas anteriores das duas pernas estão tensas e dolorosas, com dor importante à flexão passiva dos dedos; pulsos presentes e sensibilidade preservada. Não houve trauma. A enzima muscular sérica é de dezoito mil unidades por litro e a creatinina está normal.
Primeiro
Diga quais dois achados do exame sustentam a hipótese do membro e por que a ausência de trauma não a afasta.
Segundo
Explique o que fazer nos primeiros trinta minutos, antes de qualquer decisão cirúrgica, e por que a pressão arterial entra nessa lista.
Terceiro
Diga o que o valor de dezoito mil unidades por litro decide e o que ele não decide, citando as duas afirmações da revisão de nefrologia que se contradizem nessa faixa.
Quarto
Explique por que a creatinina normal na admissão não tranquiliza, e qual exame de beira de leito confirma que a urina escura é muscular.
Quinto
Diga qual é a primeira medida para o rim, e por que bicarbonato e manitol não são a resposta esperada aqui.
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Onde a banca derruba

  1. 1Esperar o pulso sumir A norma britânica escreve que os pulsos normalmente estão presentes na síndrome compartimental, e que pulso ausente costuma significar hipotensão sistêmica, oclusão arterial ou lesão vascular. A pressão que fecha o compartimento é bem menor que a sistólica.
  2. 2Descartar pelo enchimento capilar ou pela força O terceiro padrão manda documentar neurologia e perfusão e diz na mesma frase que elas não contribuem para o diagnóstico precoce. Documentar não é diagnosticar; quem descarta por ali chega tarde.
  3. 3Achar que a hora conta do trauma O prazo de uma hora da norma é para a cirurgia acontecer depois da decisão de operar. Não é janela desde o acidente, e não autoriza adiar a decisão para caber no relógio.
  4. 4Considerar o membro resolvido depois da fasciotomia No relato brasileiro de fratura de platô tibial, o paciente teve os quatro compartimentos abertos e desenvolveu nova síndrome compartimental depois da osteossíntese feita quarenta e oito horas adiante.
  5. 5Confiar num corte de enzima muscular para decidir A revisão de nefrologia abre o assunto dizendo que não existe valor definido a partir do qual a incidência de lesão renal aumente, e em seguida imprime três valores diferentes. O caso com o valor mais alto de todos não teve lesão renal.
  6. 6Ler a fita urinária positiva como hematúria A fita não distingue mioglobina de hemoglobina. Fita positiva para sangue com sedimento sem hemácias é mioglobinúria, e aponta para o músculo, não para a via urinária.
  7. 7Repor cálcio porque o exame veio baixo A hipocalcemia inicial vem do sequestro do cálcio no tecido lesado. Na recuperação esse cálcio volta e pode virar hipercalcemia. Repõe-se por sintoma ou por proteção cardíaca na hipercalemia, não por número.
  8. 8Começar por diurético em paciente ainda hipovolêmico As duas fontes colocam a expansão volêmica precoce em primeiro lugar. O manual só indica furosemida a quem permanece oligúrico apesar de líquidos em quantidade satisfatória.
  9. 9Prometer que bicarbonato e manitol previnem a lesão renal No maior estudo citado pela revisão brasileira, a dupla não preveniu lesão renal, necessidade de terapia substitutiva nem morte. Houve apenas sugestão de tendência acima de trinta mil unidades por litro.
  10. 10Achar que rabdomiólise é sempre do trauma O caso de valor mais alto do conjunto veio de hiponatremia por polidipsia psicogênica em paciente com esquizofrenia. Convulsão prolongada, agitação com contenção, síndrome neuroléptica maligna e exercício extenuante entram na mesma lista.
  11. 11Trocar o gênero da serpente pelo desfecho O botrópico é o mais frequente e o que aperta o compartimento pelo edema. O crotálico, quase doze vezes mais raro, é o que tem ação miotóxica e ameaça o rim. Frequência e desfecho renal apontam para lados opostos.
  12. 12Deixar a anestesia regional apagar o sinal O quinto padrão manda evitar anestesia regional em paciente de alto risco e alerta que opioide venoso controlado pelo paciente também mascara. Dose e velocidade têm de entrar no registro antes de se concluir que a dor cedeu.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor desproporcional e progressiva, dor ao estiramento passivo, parestesia e compartimento tenso configuram síndrome compartimental aguda — emergência ortopédica cujo tratamento é a fasciotomia imediata; a presença de pulsos distais NÃO exclui o diagnóstico. Apenas elevar o membro ou trocar o gesso atrasa o tratamento e leva à necrose muscular/nervosa (contratura de Volkmann). Anticoagulação por suspeita de TVP não trata isquemia compartimental e é inadequada. Aguardar arteriografia protela a descompressão urgente; o diagnóstico é clínico (podendo medir pressão compartimental, mas sem retardar a cirurgia).

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os cinco relógios do membro e, ao lado de cada um, de onde ele conta: hora em hora enquanto dura o risco, trinta minutos depois de soltar o curativo, uma hora depois da decisão de operar, doze horas de apresentação como marco de risco cirúrgico e quarenta e oito horas para reexplorar. Depois escreva os dois números de pressão e, ao lado de cada um, o verbo exato que a norma usa — sugere e considere — para não confundi-los com ordem.

em 30 dias

Reconstrua a escada dos cinco valores de enzima muscular na ordem, dizendo o que cada fonte afirma sobre cada um, e termine pelo caso de quarenta e quatro mil que não teve lesão renal. Em seguida refaça a conta da meta de diurese: converta trinta a quarenta mililitros por hora para mililitro por quilo por hora num adulto de setenta quilos e compare com a régua pediátrica do mesmo parágrafo, dizendo em que faixa de peso as duas concordam.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um homem de trinta e dois anos chega ao pronto-socorro trazido pelo resgate depois de ficar preso sob escombros. Ele reclama de dor forte na perna direita e diz que a urina saiu escura na sonda. Converse com ele, examine o membro e decida o que fazer primeiro — e em quanto tempo. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síndrome compartimental e rabdomiólise: cinco números para a mesma enzima e duas réguas que não mandam operar — Preparatório para provas | OsceLabs