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Fratura de quadril no idoso: quando o alinhamento é o pior sinal

Fratura de quadril no idoso e osteoporose

Classificação, tempo cirúrgico e escolha do tratamento

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 78 anos cai da própria altura e é trazida ao pronto-socorro com dor intensa no quadril esquerdo, incapaz de deambular. Ao exame, o membro inferior esquerdo encontra-se encurtado e em rotação externa. PA 130/80 mmHg, FC 88 bpm. A radiografia confirma fratura do colo femoral desviada (Garden IV). Qual é a conduta cirúrgica mais adequada para essa paciente?

02

Como esse tema cai

No acervo de questões desta plataforma o tema aparece em dez questões vivas, e todas elas trazem a mesma cena: alguém com mais de setenta anos que cai da própria altura em casa e não consegue mais apoiar o peso na perna. Seis pedem a conduta cirúrgica diante de uma fratura do colo já classificada, duas partem de uma radiografia que voltou normal, uma trata da fixação de uma fratura entre os trocanteres e uma cobra o que aconteceu com uma osteossíntese feita catorze meses antes.

Isso desenha o recorte. A pergunta que a prova faz não é se a paciente tem osteoporose — ela quase sempre tem, e o enunciado costuma dizer. A pergunta é onde passou a linha da fratura e o que essa linha obriga a fazer nas próximas quarenta e oito horas.

O capítulo trabalha com dois documentos brasileiros que descrevem o mesmo paciente e não dizem a mesma coisa. As diretrizes do Ministério da Saúde, de 2018, são de uso obrigatório na regulação do acesso e valem em todo o território. A diretriz da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia com o Colégio Brasileiro de Radiologia, de 2007, é a que ainda descreve os estágios de Garden com as palavras que a prova reaproveita. Nenhuma revoga a outra, e as duas aparecem em gabarito.

Fica de fora o que tem dono. A investigação e o tratamento medicamentoso da osteoporose, com densitometria, escore T e a régua do FRAX, são do capítulo de osteoporose pós-menopausa. A prevenção de queda e a imobilidade são do capítulo de quedas no idoso. O delirium do pós-operatório é do capítulo de delirium. A duração da profilaxia de tromboembolismo é do capítulo de profilaxia perioperatória — e é justamente lá que mora a divergência de prazo que este capítulo precisa nomear.

03

O que muda decisão

A cápsula divide duas fraturas com destinos diferentes

A expressão fratura de quadril, sozinha, não decide nada. Ela cobre pelo menos dois eventos com fisiopatologia, risco e cirurgia diferentes, e o que os separa é uma estrutura de tecido mole: a cápsula articular, que desce do acetábulo e se insere adiante na linha intertrocantérica.

Fratura acima dessa inserção é intracapsular, e é a que se chama fratura do colo. Os ramos que nutrem a cabeça femoral sobem pelo colo de baixo para cima, retrogradamente, presos ao retináculo. Uma linha que atravessa o colo atravessa esses ramos. Daí vêm as duas complicações que assombram o seguimento: a necrose avascular da cabeça e a pseudartrose.

Fratura abaixo dessa inserção é extracapsular. É a fratura transtrocantérica, que corre por osso esponjoso ricamente vascularizado, entre os dois trocanteres. A cabeça continua irrigada, a consolidação é regra e a necrose é exceção. Em compensação, o sangramento no foco é maior, e o paciente pode chegar anemizado sem ter perdido uma gota para fora.

A consequência prática é direta e é o que a prova cobra. Na fratura transtrocantérica a discussão é qual implante fixa melhor, não se vale a pena trocar a articulação: o osso é bom e a cabeça está viva. Na fratura do colo com desvio, a discussão é se ainda vale a pena tentar preservar uma cabeça que talvez já esteja sem sangue. As diretrizes brasileiras de 2018 dizem, no próprio título, que tratam da fratura do colo do fêmur no idoso — e o aluno que aplica as recomendações delas a uma transtrocantérica está usando a régua de outra doença.

Uma marca de exame vale mais do que a impressão geral: o membro encurtado e rodado externamente, com o paciente incapaz de elevar o calcanhar do leito. A diretriz de 2007 descreve o achado ligando-o à lesão parcial ou total do retináculo nas fraturas com desvio. Ele aparece nas duas fraturas e não distingue uma da outra; o que distingue é a radiografia.

Garden: a única classificação em que o alinhamento é o pior sinal

A diretriz brasileira de 2007 escolheu a classificação de Garden para conduzir o texto, e o fez por dois motivos declarados: o lado prático e o fato de ser a mais usada na literatura. A descrição que ela dá dos quatro estágios é a que interessa decorar, porque é dela que a prova brasileira tira as palavras.

Estágio I: fraturas incompletas ou impactadas em valgo. Estágio II: fraturas sem desvio. Estágio III: fraturas desviadas e com desalinhamento entre as trabéculas ósseas do acetábulo e da cabeça femoral. Estágio IV: fraturas desviadas, mas com alinhamento das trabéculas ósseas entre a cabeça femoral e o acetábulo.

Leia de novo os dois últimos. O estágio III mostra trabéculas desalinhadas; o estágio IV, que é o mais grave, mostra trabéculas alinhadas. Não é erro de digitação da diretriz, e é a fonte mais confiável de erro nesta prova.

A explicação está na mecânica. No estágio III o desvio é parcial: a cabeça ainda tem alguma amarra retinacular e báscula em varo, de modo que suas trabéculas passam a apontar para uma direção diferente das do acetábulo. No estágio IV a cabeça se soltou por completo. Livre, ela volta a repousar na posição em que a anatomia a deixaria, e suas trabéculas voltam a acompanhar as do acetábulo — enquanto o colo, esse sim, escapa para longe. O que se alinhou foi a cabeça abandonada; o que se desalinhou foi o osso que restou preso a ela.

Por isso o alinhamento trabecular, aqui, não é sinal de que está tudo em ordem: é sinal de que a cabeça já não está presa a nada.

Uma consequência de leitura vem junto. Quem procura na radiografia o grau de bagunça da imagem vai classificar o estágio IV como se fosse menos grave que o III, porque ele parece mais organizado. A pergunta certa não é se a imagem está arrumada, e sim o que sobrou preso: no estágio III a cabeça ainda tem amarra e por isso está torta; no estágio IV ela não tem amarra e por isso está reta. Os dois recebem a mesma indicação na diretriz de 2007 e formam um grupo só — o das fraturas desviadas — no documento do Ministério de 2018.

Há uma segunda armadilha na mesma classificação, e ela é de agrupamento. O estágio I não é fratura sem desvio: é fratura incompleta ou impactada em valgo, que é um desvio, só que estável. Quem lê estágio I como sinônimo de fratura sem desvio perde a chance de reconhecer, no enunciado, a paciente que anda mancando há dias com uma fratura impactada.

A radiografia normal não fecha o caso

Duas das dez questões deste tema no acervo partem de uma radiografia que voltou sem alteração. É o cenário mais traiçoeiro do tema, e é o único em que a diretriz brasileira de 2018 dá um nome de exame.

A recomendação é literal: para fraturas ocultas que não foram diagnosticadas em radiografia simples do quadril em três incidências, a ressonância magnética é o método diagnóstico indicado. A força atribuída é moderada. As três incidências vinham já da diretriz de 2007, que as descreve como ântero-posterior, perfil e ântero-posterior com rotação interna de dez graus — e que já mandava recorrer à tomografia ou à ressonância nos casos de dúvida, com preferência declarada pela ressonância.

O que faz a diferença no enunciado não é a imagem, é o exame físico. Dor inguinal com incapacidade de sustentar o peso sobre o membro, em idoso que caiu, é fratura até que se prove o contrário, mesmo sem encurtamento e mesmo sem rotação externa. Encurtamento e rotação externa dependem de desvio; a fratura oculta, por definição, não tem desvio suficiente para produzi-los. Esperar a deformidade para pedir a segunda imagem é esperar a fratura piorar.

Um detalhe de posicionamento fecha o raciocínio. A recomendação do NICE reproduzida no documento brasileiro é de que a incidência ântero-posterior seja obtida com o membro posicionado — a mesma rotação interna de dez graus que a diretriz de 2007 pedia. O colo do fêmur é oblíquo em relação ao plano do filme; sem rodar o membro para dentro, o colo aparece encurtado por projeção e uma linha fina pode desaparecer atrás da sobreposição do trocanter maior. A radiografia normal, aqui, pode ser apenas uma radiografia mal posicionada.

O relógio de 48 horas, e a mesma frase com duas forças

A recomendação de tempo cirúrgico das diretrizes de 2018 é uma só e é fácil de reter: o tratamento cirúrgico deve ser realizado com a maior brevidade possível, desde que o paciente esteja clinicamente apto para a cirurgia proposta, evitando-se ultrapassar um período superior a 48 horas a partir da ocorrência da fratura.

Repare na estrutura da frase, porque ela é um condicional invertido e a prova gosta de invertê-lo de volta. A obrigação principal é operar cedo; a condição é estar clinicamente apto. Quem lê ao contrário — como se a diretriz mandasse operar em 48 horas custe o que custar — erra o enunciado do paciente que chega descompensado. E quem lê a condição como licença geral para adiar erra o enunciado do paciente hemodinamicamente estável, sem comorbidade descompensada, que fica esperando vaga. O prazo é contado do trauma, não da chegada ao hospital. É um gradiente com corte administrativo, não um interruptor.

Há uma particularidade do documento que vale conhecer, e que só aparece a quem lê a tabela-resumo inteira. Essa mesma frase está impressa duas vezes na tabela de recomendações, com poucas páginas de distância. Na primeira aparição, sob o título de tempo recomendado para abordagem cirúrgica, a força da recomendação declarada é moderada. Na segunda, sob o título de abordagem cirúrgica, a mesma frase palavra por palavra recebe força moderada a baixa.

Não é preciso decidir qual das duas está certa para usar o achado. Ele diz uma coisa útil sobre o tema: o número 48 é consensual, e a confiança na evidência que o sustenta não é. Enunciado que pergunta pelo prazo tem resposta única; enunciado que pergunta pela força da evidência do prazo está cobrando algo que o próprio documento nacional não fixou.

O contraponto honesto é que a janela de 48 horas não é um interruptor biológico. Ela é o corte administrativo herdado das diretrizes estrangeiras adaptadas, e o que a evidência mostra é um gradiente: quanto mais tempo o idoso passa acamado com a fratura, mais delirium, mais lesão por pressão, mais complicação pulmonar e mais tromboembolismo. Operar em 47 horas não é seguro por ser 47; é menos ruim do que operar em 96.

Fratura sem desvio: cirurgia, e uma trava de duas assinaturas

As duas fontes brasileiras concordam no essencial e divergem no detalhe, e o detalhe é exatamente o que o gabarito costuma testar.

A diretriz de 2007 é categórica sobre a técnica: é consenso na literatura que as fraturas nos estágios I e II de Garden devem ser tratadas com osteossíntese. O implante que ela recomenda é redução fechada sob intensificador de imagem com dois parafusos paralelos; e ela registra que uma metanálise com cinco mil pacientes mostrou parafusos superiores a pinos, sem evidência de que três ou mais parafusos sejam melhores que dois.

As diretrizes de 2018 são categóricas sobre outra coisa. Elas dizem que as fraturas do colo não desviadas têm indicação de tratamento cirúrgico, com força moderada — e acrescentam uma trava de processo que não existe na diretriz de sociedade: as situações em que a cirurgia não é indicada devem ser claramente definidas e discutidas por, pelo menos, dois ortopedistas. O documento nacional não nomeia o implante para a fratura sem desvio.

Junte as duas e o comportamento correto na prova aparece. Se o enunciado pergunta o que fazer, a resposta é operar; se pergunta com o quê, a régua disponível é a de 2007, com parafusos. Se o enunciado descreve alguém decidindo sozinho por tratamento conservador, o defeito não está na decisão clínica — está no processo, porque a diretriz nacional exige duas cabeças para isso.

Por que insistir em operar uma fratura que não desviou? A diretriz de 2007 responde com números do seguimento sem cirurgia: 20% dos pacientes evoluem para estágio IV em seis semanas, 18% morrem nos primeiros três meses e apenas 25% voltam a deambular de forma similar ao período anterior à fratura. Guarde o segundo desses números, porque ele reaparece na seção de epidemiologia e não se comporta como o aluno espera.

Fratura desviada: a régua brasileira tem um item a mais que a inglesa

Aqui as duas fontes se separam de verdade, e a separação tem consequência de conduta.

A diretriz de 2007 recomenda artroplastia total do quadril para as fraturas nos estágios III e IV de Garden, e sustenta a recomendação com uma lista de vantagens: menor índice de reoperação, melhor função e melhor qualidade de vida em quatro anos, menor perda de peso e de massa muscular em um ano, menos dor no pós-operatório e menor custo ao final do tratamento. Ela registra a alternativa: pacientes nesses estágios podem ser tratados com redução fechada e fixação interna desde que tenham condição clínica de suportar uma reoperação — que ocorre em 26% a 42% dos casos.

As diretrizes de 2018 chegam ao mesmo primeiro passo por outro caminho. Elas afirmam, com força forte, que as fraturas desviadas do colo apresentam melhores resultados funcionais e menores taxas de reoperação quando tratadas por artroplastia em detrimento da redução com fixação interna. Note que a palavra é artroplastia, sem sobrenome — a escolha entre total e parcial vem numa recomendação separada, e é ali que mora a diferença.

A recomendação separada diz que a artroplastia total é indicada para o idoso com fratura desviada que apresente sinais de coxartrose, demanda funcional comunitária — quem realiza atividades comunitárias além das domésticas —, capacidade cognitiva preservada e condições clínicas favoráveis. Para quem tem demanda comunitária apenas parcial, a indicada é a artroplastia parcial.

O problema dessa lista é a conjunção, e ele é verificável. A diretriz inglesa da qual o documento foi adaptado sustenta três critérios ligados por conjunção explícita: andar sem ajuda fora de casa com não mais que uma bengala, não ter comprometimento cognitivo e estar clinicamente apto para a anestesia e o procedimento. O texto brasileiro tem quatro itens, e o quarto — a coxartrose — não é um filtro de aptidão: é uma indicação própria de artroplastia total, que existiria mesmo sem fratura nenhuma.

Lida ao pé da letra, como conjunção, a regra brasileira exigiria que a paciente tivesse artrose do quadril para receber prótese total, o que excluiria o idoso ativo, lúcido e com quadril previamente saudável — justamente o perfil que a diretriz inglesa quer contemplar. Lida como lista aberta, a regra perde a função de filtro. O capítulo não resolve a ambiguidade, porque o documento não a resolve, e não há em nenhum dos dois textos brasileiros uma frase que a desfaça. O que o aluno deve levar é o desenho da decisão, que é estável nas duas leituras: quanto mais ativo, mais lúcido e mais apto o paciente, mais a balança pende para a prótese total; quanto mais restrito ao domicílio e mais frágil, mais ela pende para a parcial. Artrose do quadril, quando existe, empurra para a total em qualquer leitura.

Cimentada e unipolar: uma escolha por custo e uma conclusão que não segue da premissa

Escolhida a artroplastia parcial, duas perguntas técnicas sobram, e as diretrizes de 2018 respondem as duas.

A primeira é o tipo de cabeça da prótese. O documento afirma que próteses unipolares e bipolares não apresentam diferença significativa no resultado funcional, e recomenda a unipolar em razão do custo inferior. A força é moderada. Vale reter a estrutura do argumento, porque ela é honesta e é rara: quando dois recursos empatam em desfecho, o critério que decide é o preço — e num sistema público isso não é economia mesquinha, é o que permite operar o próximo paciente dentro das 48 horas.

A segunda é a fixação da haste. Aqui o documento faz um movimento que merece leitura devagar. Ele registra que os estudos revisados nas duas diretrizes de origem não apresentaram diferença estatística nem clínica entre as técnicas cimentada e não cimentada; e, na frase seguinte, conclui que a artroplastia cimentada é a melhor opção para o idoso com fratura desviada, porque o risco de causar fratura na haste não cimentada é maior nessa população.

As duas frases não se sustentam juntas como estão escritas. Se não há diferença clínica, a fratura periprotética em torno da haste não cimentada seria uma diferença clínica — e portanto haveria diferença. A reconciliação possível, e é ela que o aluno deve saber verbalizar, é que as duas afirmações medem coisas distintas em fontes distintas: os ensaios randomizados citados mediram função e mortalidade, desfechos em que as técnicas empataram; o risco de fratura em torno da haste vem de série e de registro, com número de eventos pequeno demais para mover um desfecho primário. A conclusão da diretriz é defensável; a redação que a apresenta é que não fecha.

Para a prova, a linha de chegada é simples e não depende de resolver isso: no idoso com fratura desviada do colo, a haste recomendada pelo documento nacional é a cimentada.

O que o pré-operatório deve parar de fazer

Boa parte do que se cobra sobre este paciente é a desistência de práticas antigas, e as diretrizes de 2018 são explícitas em cada uma.

A tração pré-operatória do membro fraturado não se justifica: analisados riscos e benefícios, os riscos são superiores. A força é moderada. É a recomendação mais fácil de errar por hábito, porque a imagem do idoso com peso pendurado na perna ainda circula. A analgesia que a tração prometia vem de outro lugar.

Vem do bloqueio de nervo regional, e essa é a única recomendação de analgesia do documento que recebeu força forte. A sequência recomendada é analgésico simples primeiro — paracetamol ou dipirona — e, após avaliação, o bloqueio regional para o controle da dor. Essa é a resposta que a prova quer quando descreve dor intensa refratária na sala de emergência e oferece opioide sistêmico como distrator: no idoso, o opioide compra analgesia e paga em delirium.

A anestesia também tem recomendação forte, e ela é de aparência ambígua. O documento diz que a evidência não demonstrou diferença significante nos desfechos entre anestesia geral e raquidiana e, em seguida, recomenda preferencialmente a regional, por menor incidência de complicações pulmonares e de mortalidade intra-hospitalar. É a mesma arquitetura da haste cimentada: empate no desfecho principal, preferência decidida por um desfecho secundário.

Dois exames fecham a rotina, e a assimetria entre eles é cobrável. A creatinina deve ser solicitada como rotina pré-operatória para todos os pacientes. A albumina deve ser solicitada caso necessário, após avaliação clínica. A força dessa recomendação é a mais baixa de toda a tabela: limitada. Rotina para uma, critério clínico para a outra.

Um último ponto, herdado da diretriz de 2007 e ainda cobrado: o hematoma fraturário intracapsular não precisa ser drenado de rotina. A pressão intra-articular sobe durante a tração e a rotação interna da manobra de redução, mas volta ao normal depois dela.

Os números da abertura: três que não fecham e três que fecham

A introdução das diretrizes de 2018 abre com um parágrafo de epidemiologia brasileira, e ele é um bom exercício de leitura crítica — porque parte dos números não sobrevive a uma conta.

O texto afirma que, no Censo de 2010, o número de idosos era de 20.438.561, representando 11,8% da população. A população recenseada em 2010 foi de 190.755.799 pessoas. A divisão dá 10,7%, não 11,8%. Para chegar a 11,8% seriam necessários 22,5 milhões de idosos, dois milhões a mais do que o próprio texto conta. E a contagem oficial do Censo para a faixa de 60 anos ou mais é 20.590.597 — cento e cinquenta e dois mil acima do número citado, o que dá 10,8%. A leitura mais econômica é que o 11,8% é um 10,8% com um dígito trocado; o que não se sustenta é a soma como está impressa.

O texto segue: desse percentual, 45,12% tem entre 70 e 79 anos. As faixas de 70 a 74 e de 75 a 79 do Censo somam 6.305.083 pessoas, que são 30,6% dos idosos — quinze pontos abaixo do afirmado. Mas o número não é inventado. A faixa de 70 anos ou mais somava 9.240.667 pessoas naquele Censo, e 45,12% do total de idosos citado no próprio documento dá 9.221.879, uma diferença de 0,2%. O que a frase tem é um teto que caiu: o intervalo era aberto, e a redação o fechou em 79. A conclusão que o texto extrai — envelhecimento dentro da própria população idosa — sobrevive à correção; a etiqueta da faixa é que não.

O terceiro caso é de denominador. O documento cita um inquérito com 6.616 idosos de cem municípios em vinte e três estados, relata prevalência de quedas de 27,6% e afirma que 11% dos idosos entrevistados relataram fratura decorrente da queda. Se 11% dos 6.616 fraturaram, são 728 fraturas contra 1.826 pessoas que caíram: 39,9% de quem cai fraturaria. Nenhum inquérito populacional brasileiro chega perto disso; os estudos da mesma linha ficam em torno de 12% de fratura entre quem caiu. O denominador certo é o das quedas, não o dos entrevistados — e a conta o prova sozinha, sem precisar de outra fonte.

O mesmo parágrafo tem um caso de natureza trocada que se resolve pela ordem dos números. O estudo de São Paulo é citado assim: 28,6% dos idosos referiram quedas; 26,2% dessas quedas ocorreram entre 60 e 74 anos e 36,9% acima de 75; mais frequentes em mulheres, 33,0%, do que em homens, 22,3%. Se fossem parcelas de um todo, 26,2 e 36,9 somariam 100 — somam 63,1. E 33,0 com 22,3 somam 55,3. O que resolve é a posição do 28,6: ele fica entre 26,2 e 36,9, e fica entre 22,3 e 33,0. São prevalências dentro de cada grupo, e a prevalência geral é a média ponderada delas. A palavra dessas, no meio da frase, é que está errada.

Nem tudo falha, e vale registrar o que confere. O documento relata que o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia fez 281 cirurgias de fratura em idosos em 2015, das quais 3,91% de alta complexidade e 96,09% de média, sendo 40 delas — 14,23% — fraturas do colo do fêmur, com 12 artroplastias e 28 osteossínteses. As três contas fecham: 12 mais 28 dá exatamente 40; 40 sobre 281 dá 14,23%; e 3,91% mais 96,09% de 281 dão 10,99 e 270,01, que somam 281. Quando o documento conta o que ele mesmo mediu, a aritmética está certa; os números que não fecham são os que ele foi buscar fora.

Sobra o número de mortalidade, e ele é o mais útil dos dois lados. As diretrizes de 2018 registram mortalidade de 5% a 10% nos primeiros trinta dias e de 15% a 30% no primeiro ano. A diretriz de 2007 registra que 18% dos pacientes com fratura sem desvio deixados sem cirurgia morrem nos primeiros três meses. Ponha as três faixas na mesma linha do tempo: uma fratura estável, a mais benigna da série, não operada, atinge em três meses uma mortalidade que ultrapassa o piso da faixa de um ano de toda a população operada. É esse cruzamento — e não a frase genérica de que fratura de quadril mata — que justifica operar o estágio I.

Gráfico de mortalidade por tempo desde a fratura. Faixa de 5 a 10 por cento aos 30 dias e faixa de 15 a 30 por cento em um ano, ambas dos pacientes operados. Um ponto isolado aos 3 meses marca 18 por cento na fratura sem desvio não operada, acima da linha tracejada de 15 por cento.
A fratura mais benigna da série, deixada sem cirurgia, atinge 18% de mortalidade em três meses — acima do piso de 15% que toda a população operada só alcança ao fim de um ano.

O que sai deste capítulo, e para onde

Três eixos aparecem no mesmo enunciado e pertencem a outros capítulos. Devolvê-los explicitamente é o que impede o aluno de estudar duas vezes a mesma coisa com réguas diferentes.

O primeiro é a osteoporose. Diagnóstico por escore T, sítios válidos de densitometria, limiar de intervenção do FRAX calibrado para o Brasil e escolha do medicamento estão no capítulo de osteoporose pós-menopausa. As diretrizes de 2018 dizem apenas o que é da alçada delas: ao paciente com fratura de colo por fragilidade óssea deve ser administrado bisfosfonato, contraindicado quando a depuração de creatinina está em 30 mL/min ou abaixo; e suplementação de cálcio e vitamina D deve ser considerada.

E aí há uma remissão que envelheceu por dentro, sem que ninguém revogasse nada. O texto de 2018 afirma que o ácido zoledrônico não está indicado, pelo protocolo brasileiro de osteoporose, por insuficiência de evidências de superioridade aos demais bisfosfonatos. O protocolo de osteoporose em vigor, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025, traz o ácido zoledrônico com critério de inclusão próprio: intolerância ou dificuldade de deglutição dos bisfosfonatos orais por anormalidade do esôfago que retarde o esvaziamento, refluxo importante ou situação que comprometa a absorção. As duas portarias estão vigentes; a de 2018 continua sendo a diretriz nacional da fratura, e a frase dela sobre o zoledrônico deixou de descrever o protocolo que ela cita.

O segundo eixo é a profilaxia de tromboembolismo, e ela também carrega uma divergência de prazo que o aluno precisa saber que existe. As diretrizes de 2018 recomendam profilaxia medicamentosa em artroplastia total, parcial e osteossíntese, com profilaxia mecânica quando houver contraindicação a anticoagulante, e indicam a profilaxia medicamentosa estendida após a alta por 28 a 30 dias. O consenso brasileiro de tromboembolismo, que é a régua usada no capítulo de profilaxia perioperatória, marca para fratura de quadril até o 35º dia de pós-operatório. Os dois números são brasileiros, os dois estão em documento vigente e nenhum deles é erro de leitura. Enunciado que pergunta o prazo precisa dizer qual régua adota — e enunciado que não diz costuma estar cobrando a existência da profilaxia estendida, não o dia exato em que ela termina.

O terceiro eixo é o cuidado do idoso em torno da cirurgia. Avaliação geriátrica ampla, delirium, risco de nova queda, imobilidade e lesão por pressão têm capítulos próprios. As diretrizes de 2018 apenas cravam o que é do ortopedista saber: reabilitação interdisciplinar com força forte, e fisioterapia iniciada dentro de 48 horas do pós-operatório, também com força forte. É o mesmo número da janela cirúrgica, contado de outro ponto de partida — e confundir os dois relógios é erro de leitura, não de conduta.

04

Do enunciado à linha da fratura, e da linha à cirurgia

Duas perguntas encadeadas. A primeira é onde passou a linha, e ela se resolve pela cápsula e pela radiografia bem posicionada. A segunda é o que a linha obriga, e ela se resolve pelo desvio e pelo perfil funcional do paciente. O prazo corre desde o trauma, por baixo das duas.

  1. 1Confirme a suspeita pelo exame antes da imagem: idoso que caiu, com dor inguinal e incapacidade de sustentar o peso, tem fratura até prova em contrário. Encurtamento com rotação externa confirma desvio, mas a ausência deles não afasta fratura.
  2. 2Peça radiografia do quadril em três incidências: ântero-posterior, perfil e ântero-posterior com rotação interna de dez graus. O membro precisa ser posicionado; colo oblíquo em filme sem rotação esconde linha fina.
  3. 3Radiografia sem alteração e clínica mantida: peça ressonância magnética. É o método indicado pelas diretrizes brasileiras para a fratura oculta, com força moderada.
  4. 4Analgese cedo: analgésico simples primeiro e, após avaliação, bloqueio de nervo regional. Não instale tração no membro fraturado.
  5. 5Peça creatinina para todos. Albumina, só se a avaliação clínica indicar.
  6. 6Localize a linha em relação à inserção capsular. Acima, é fratura do colo, intracapsular, com risco de necrose avascular e pseudartrose. Abaixo, é transtrocantérica, extracapsular, com cabeça irrigada e sangramento maior no foco.
  7. 7Sendo do colo, classifique por Garden. Estágios I e II são as sem desvio; III e IV são as desviadas. No IV as trabéculas da cabeça voltam a acompanhar as do acetábulo, e isso não é sinal de benignidade.
  8. 8Sem desvio: cirurgia indicada. A régua de técnica disponível é osteossíntese com dois parafusos paralelos sob intensificador de imagem. Não operar exige situação definida e discutida por pelo menos dois ortopedistas.
  9. 9Com desvio: artroplastia, e não fixação interna. A escolha entre total e parcial segue o perfil — quanto mais ativo, lúcido e apto, mais a balança pende para a total; artrose prévia do quadril também empurra para a total.
  10. 10Sendo parcial: prótese unipolar, por empatar em função e custar menos; haste cimentada, pelo risco de fratura em torno da haste não cimentada no osso do idoso.
  11. 11Opere com a maior brevidade possível, evitando ultrapassar 48 horas contadas do trauma, desde que o paciente esteja clinicamente apto. Anestesia regional, preferencialmente.
  12. 12No pós-operatório: fisioterapia dentro de 48 horas, reabilitação interdisciplinar, profilaxia medicamentosa de tromboembolismo estendida após a alta, e bisfosfonato para a fragilidade óssea, respeitada a função renal.

A linha decide antes de tudo

Acima da inserção capsular, na linha intertrocantérica, a fratura é do colo: intracapsular, com os ramos retinaculares no caminho. Abaixo, é transtrocantérica: extracapsular, cabeça irrigada, sangramento maior no foco.

O alinhamento que engana

Garden III mostra trabéculas desalinhadas; Garden IV, mais grave, mostra trabéculas alinhadas. No IV a cabeça se soltou e repousou na posição anatômica — alinhou-se porque não está mais presa.

Duas horas de nomes diferentes

Janela cirúrgica: 48 horas contadas do trauma. Início da fisioterapia: 48 horas contadas do pós-operatório. Mesmo número, relógios distintos.

Prazos de profilaxia que não coincidem

Diretrizes nacionais da fratura de colo: profilaxia estendida por 28 a 30 dias após a alta. Consenso brasileiro de tromboembolismo: até o 35º dia de pós-operatório. Ambos vigentes.

Garden pela letra da diretriz brasileira de 2007, e o que cada estágio obriga

EstágioO que a radiografia mostraGrupoConduta pela régua brasileira
IFratura incompleta ou impactada em valgoSem desvioCirurgia. A técnica descrita é osteossíntese com dois parafusos paralelos
IIFratura completa, sem desvioSem desvioCirurgia. Mesma técnica. Não operar exige decisão de dois ortopedistas
IIIDesviada, com desalinhamento entre as trabéculas do acetábulo e as da cabeça femoralDesviadaArtroplastia, e não fixação interna. Total ou parcial conforme o perfil funcional
IVDesviada, mas com alinhamento das trabéculas entre a cabeça femoral e o acetábuloDesviadaArtroplastia, e não fixação interna. O alinhamento indica cabeça solta, não fratura benigna

As recomendações do documento nacional de 2018 e a força que ele declara para cada uma

AssuntoRecomendaçãoForça declarada
Fratura ocultaRessonância magnética quando a radiografia em três incidências não fecha o diagnósticoModerada
Tempo cirúrgico (primeira aparição na tabela)Operar o mais breve possível, sem ultrapassar 48 horas do trauma, com o paciente clinicamente aptoModerada
Tempo cirúrgico (segunda aparição, texto idêntico)Operar o mais breve possível, sem ultrapassar 48 horas do trauma, com o paciente clinicamente aptoModerada a baixa
AnalgesiaAnalgésico simples e, após avaliação, bloqueio de nervo regionalForte para o bloqueio
AnestesiaRegional, preferencialmente, por menos complicação pulmonar e menor mortalidade intra-hospitalarForte
Tração pré-operatóriaNão indicada: riscos superiores aos benefíciosModerada
Fratura não desviadaTem indicação cirúrgica; a exceção exige definição clara e discussão por dois ortopedistasModerada
Fratura desviadaArtroplastia em detrimento da redução com fixação internaForte
Prótese unipolar x bipolarUnipolar, por empate funcional e custo menorModerada
HasteCimentadaModerada
ExamesCreatinina de rotina; albumina conforme avaliação clínicaLimitada
Profilaxia de tromboembolismoMedicamentosa, estendida após a alta por 28 a 30 dias; mecânica se houver contraindicaçãoQualidade da evidência moderada
FisioterapiaIniciada dentro de 48 horas do pós-operatório, supervisionada e continuadaForte

Os números de abertura do documento nacional: o afirmado e o recalculado

Afirmado no documentoRecalculadoO que explica a diferença
Idosos no Censo 2010: 20.438.561, ou 11,8% da população20.438.561 sobre 190.755.799 dá 10,7%; a contagem oficial de 60 anos ou mais é 20.590.597, ou 10,8%Percentual não corresponde à contagem citada nem à oficial; 11,8% parece 10,8% com um dígito trocado
45,12% dos idosos têm entre 70 e 79 anosAs faixas de 70 a 74 e 75 a 79 somam 6.305.083, ou 30,6% dos idosos45,12% do total citado dá 9.221.879, e a faixa de 70 anos ou mais tinha 9.240.667: diferença de 0,2%. O intervalo perdeu o teto
Inquérito com 6.616 idosos: quedas em 27,6% e fratura em 11% dos entrevistados11% dos entrevistados seriam 728 fraturas entre 1.826 que caíram, ou 39,9% de quem caiO denominador é o das quedas, não o dos entrevistados. A ordem de grandeza denuncia sozinha
Estudo de São Paulo: 28,6% referiram quedas; 26,2% dessas quedas entre 60 e 74 anos e 36,9% acima de 7526,2 mais 36,9 dá 63,1, não 100; e 28,6 fica entre os doisSão prevalências por faixa, não parcelas de um todo. Vale o mesmo para mulheres, 33,0%, e homens, 22,3%, que cercam 28,6%
Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, 2015: 281 cirurgias, 3,91% de alta e 96,09% de média complexidade, 40 (14,23%) de colo do fêmur, sendo 12 artroplastias e 28 osteossínteses12 mais 28 dá 40; 40 sobre 281 dá 14,23%; 3,91% e 96,09% de 281 dão 10,99 e 270,01, que somam 281Confere inteiro. É o único bloco de números que o documento mediu por conta própria
Estados Unidos: cerca de 340.000 internações por ano a um custo aproximado de três bilhões de dólaresTrês bilhões divididos por 340.000 dão cerca de 8.800 dólares por internaçãoA conta fecha entre si; o valor por internação é baixo para o cenário americano e sinaliza dado antigo

O prazo de 48 horas conta a partir da ocorrência da fratura, não da chegada ao hospital nem do momento em que o ortopedista avalia. Enunciado que informa a hora da queda está entregando o começo da contagem.

As diretrizes nacionais de 2018 tratam de fratura do colo do fêmur. Aplicar suas recomendações a uma fratura transtrocantérica é usar a régua de outra fratura: lá a cabeça está irrigada e a discussão é de implante, não de artroplastia.

Estágio I de Garden não é fratura sem desvio: é fratura incompleta ou impactada em valgo. Ela entra no grupo das não desviadas para efeito de conduta, mas a descrição não é a mesma.

Duas recomendações do documento usam 48 horas com significados diferentes: a janela cirúrgica, contada do trauma, e o início da fisioterapia, contado do pós-operatório.

A afirmação de 2018 de que o ácido zoledrônico não está indicado descreve o protocolo de osteoporose vigente à época. O protocolo em vigor, de outubro de 2025, o inclui com critério próprio. Nenhuma das duas portarias revoga a outra.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual cirurgia na fratura do colo sem desvio

É consenso na literatura que as fraturas nos estágios I e II de Garden devem ser tratadas com osteossíntese, por redução fechada sob intensificador de imagem e dois parafusos paralelos. Parafusos são superiores a pinos, e não há evidência de que três ou mais sejam melhores que dois.

Projeto Diretrizes AMB/CFM — Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e Colégio Brasileiro de Radiologia, Fratura do Colo Femoral no Idoso, elaboração final em 26 de novembro de 2007

As fraturas do colo não desviadas têm indicação de tratamento cirúrgico, com força moderada. O documento não nomeia a técnica, e acrescenta que as situações em que a cirurgia não é indicada devem ser claramente definidas e discutidas por pelo menos dois ortopedistas.

Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 21, de 24 de setembro de 2018 — Diretrizes Brasileiras para o Tratamento de Fratura do Colo do Fêmur em Idosos

Na prova

Se o enunciado pergunta se opera, a régua é a nacional e a resposta é sim. Se pergunta com qual implante, a única fonte brasileira que responde é a de sociedade, e ela diz parafusos. Enunciado que descreve alguém optando sozinho por conduta conservadora está cobrando o defeito de processo, não o de indicação.

Artroplastia total ou parcial na fratura desviada

A artroplastia total do quadril está indicada nas fraturas nos estágios III e IV de Garden, por menor índice de reoperação, melhor função e qualidade de vida em quatro anos, menos dor e menor custo ao final do tratamento. Pacientes entre 65 e 80 anos devem ser tratados com artroplastia total; os mais idosos, com comorbidade importante ou institucionalizados, se beneficiam mais da artroplastia parcial.

Projeto Diretrizes AMB/CFM — Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e Colégio Brasileiro de Radiologia, 2007

A artroplastia total é indicada para o idoso com fratura desviada que apresenta sinais de coxartrose, demanda funcional comunitária, capacidade cognitiva preservada e condições clínicas favoráveis. Para quem tem demanda comunitária apenas parcial, a indicada é a artroplastia parcial. A recomendação anterior, com força forte, é apenas de artroplastia em detrimento da fixação interna, sem sobrenome.

Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 21, de 24 de setembro de 2018

Na prova

O ponto estável nas duas fontes é que fratura desviada não recebe fixação interna, e que o perfil funcional decide entre total e parcial. Quando o enunciado descreve idoso ativo, lúcido e clinicamente apto, a total é a resposta em qualquer das duas réguas; quando descreve idoso institucionalizado, restrito ao domicílio ou com demência, a parcial é a resposta em qualquer das duas.

Por quanto tempo estender a profilaxia de tromboembolismo depois da alta

Em artroplastia total, parcial e osteossíntese do quadril deve ser feita profilaxia medicamentosa, com profilaxia mecânica sempre que houver contraindicação a anticoagulante, sendo indicada a profilaxia medicamentosa estendida após a alta hospitalar por um período de 28 a 30 dias.

Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 21, de 24 de setembro de 2018 — qualidade da evidência declarada moderada

Na fratura de quadril, a profilaxia medicamentosa deve seguir até o 35º dia de pós-operatório, prazo maior do que o das artroplastias eletivas de joelho e quadril, para as quais se descreve benefício de profilaxia estendida por 30 a 42 dias.

Consenso brasileiro de tromboembolismo venoso, régua adotada no capítulo de profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório

Na prova

Os dois prazos são brasileiros e estão em documento vigente, e a maioria dos enunciados não cobra o dia exato: cobra que exista profilaxia estendida após a alta, e que ela seja medicamentosa salvo contraindicação. Quando o enunciado traz um número, ele quase sempre reproduz a fonte que citou no cabeçalho — vale ler qual delas está sendo invocada antes de descartar uma alternativa por diferença de uma semana.

O ácido zoledrônico está indicado depois da fratura por fragilidade

Ao paciente com fratura de colo de fêmur por fragilidade óssea deve ser administrado bisfosfonato, contraindicado na insuficiência renal crônica com depuração de creatinina igual ou inferior a 30 mL/min. O ácido zoledrônico não está indicado, pelo protocolo de osteoporose brasileiro, por insuficiência de evidências de superioridade aos demais bisfosfonatos.

Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 21, de 24 de setembro de 2018 — ainda vigente como diretriz nacional da fratura

O ácido zoledrônico integra o rol do protocolo, com critério de inclusão próprio: pacientes com intolerância ou dificuldade de deglutição dos bisfosfonatos orais por anormalidade do esôfago que retarde o esvaziamento, refluxo importante ou situação que comprometa significativamente a absorção.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose

Na prova

Não é divergência de mérito clínico, é uma remissão que envelheceu: a diretriz da fratura descreve o protocolo de osteoporose de outra época e nunca foi atualizada nesse ponto. Enunciado sobre tratamento medicamentoso da osteoporose cobra o protocolo em vigor; enunciado sobre a diretriz da fratura, se citá-la nominalmente, cobra a redação dela.

06

Caso resolvido

Mulher de 80 anos, hipertensa, mora sozinha, faz compras e vai à igreja sem ajuda, sem queixa cognitiva. Cai da própria altura no banheiro às 22h e é levada ao pronto-socorro, chegando às 23h30. Refere dor intensa na região inguinal direita e não consegue apoiar o peso. Ao exame, membro inferior direito encurtado e em rotação externa, doloroso à mínima mobilização. Pressão arterial 140/85 mmHg, frequência cardíaca 92 bpm, saturação 96% em ar ambiente, glicemia capilar 118 mg/dL. Radiografia do quadril em três incidências mostra fratura completa do colo femoral com desvio e trabéculas da cabeça acompanhando as do acetábulo.
achado
Encurtamento com rotação externa e incapacidade de carga, após queda da própria altura, em paciente da faixa etária: quadro clássico de fratura por fragilidade do fêmur proximal. A radiografia já confirma, e nenhuma imagem adicional é necessária.
classificação
Fratura completa do colo, com desvio e trabéculas da cabeça alinhadas às do acetábulo: estágio IV de Garden pela descrição da diretriz de 2007. O alinhamento não abranda o quadro — indica cabeça completamente solta. Entra no grupo das desviadas.
conduta imediata
Analgesia com analgésico simples e, após avaliação, bloqueio de nervo regional. Não instalar tração. Solicitar creatinina de rotina; albumina só se a avaliação clínica indicar. O relógio das 48 horas começou às 22h.
decisão cirúrgica
Fratura desviada não recebe fixação interna: recebe artroplastia, com força de recomendação forte no documento nacional. Sobra escolher entre total e parcial.
escolha da prótese
Demanda funcional comunitária — sai de casa, faz compras, vai à igreja sozinha —, cognição preservada e condição clínica favorável. É o perfil que ambas as réguas brasileiras mandam para a artroplastia total do quadril.
pós-operatório
Anestesia regional preferencialmente. Fisioterapia iniciada dentro de 48 horas do pós-operatório, reabilitação interdisciplinar, profilaxia medicamentosa de tromboembolismo estendida após a alta e bisfosfonato para a fragilidade óssea, verificada a função renal. A investigação e o ajuste do tratamento da osteoporose seguem no capítulo próprio.
07

Agora feche você

Homem de 84 anos, morador de instituição de longa permanência há três anos, com demência moderada, anda poucos metros dentro do quarto com andador e depende de terceiros para todas as atividades básicas. Cai ao tentar se levantar da cama e é levado à unidade de pronto atendimento. Queixa-se de dor no quadril esquerdo e não consegue sustentar o peso. Ao exame, não há encurtamento nem rotação externa evidentes. A radiografia de bacia e quadril em duas incidências é interpretada como sem alterações. O médico plantonista considera contusão de partes moles e cogita alta com analgésico e retorno se piorar.
sinal que basta
Incapacidade de sustentar o peso após queda, em idoso, é o achado que sustenta a suspeita sozinho. Encurtamento e rotação externa são sinais de desvio, e a fratura oculta não tem desvio para produzi-los.
falha da imagem
Duas incidências não cumprem a régua. São três: ântero-posterior, perfil e ântero-posterior com rotação interna de dez graus, esta última para desfazer a obliquidade do colo em relação ao filme.
próximo exame
Suspeita mantida com radiografia de três incidências sem alteração é indicação de ressonância magnética, o método apontado pelas diretrizes brasileiras para a fratura oculta.
o que a demência muda
Muda a prótese, não a indicação. Comprometimento cognitivo e ausência de demanda funcional comunitária empurram a escolha para a artroplastia parcial, unipolar e cimentada; não autorizam conduta conservadora.
trava de processo
Deixar de operar exige situação claramente definida e discutida por pelo menos dois ortopedistas. Decisão isolada de plantão não cumpre a diretriz nacional.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Inverter Garden III e IV pelo alinhamento das trabéculas A intuição diz que a fratura mais grave é a mais desalinhada, e aqui é o contrário. O estágio III mostra desalinhamento entre as trabéculas do acetábulo e as da cabeça; o estágio IV mostra alinhamento, porque a cabeça se soltou por completo e voltou a repousar na posição anatômica enquanto o colo escapou. Alinhamento trabecular, na fratura desviada, é sinal de que a cabeça não está mais presa a nada.
  2. 2Ler estágio I como fratura sem desvio O estágio I é fratura incompleta ou impactada em valgo — um desvio, ainda que estável. Ele entra no grupo das não desviadas para efeito de conduta, mas quem decora estágio I como ausência de desvio não reconhece, no enunciado, a paciente que continuou andando com dor por dias.
  3. 3Aplicar a régua do colo a uma fratura transtrocantérica As diretrizes nacionais de 2018 tratam da fratura do colo. Na transtrocantérica a linha é extracapsular, a cabeça segue irrigada e a discussão é qual implante fixa melhor, não se vale trocar a articulação. Enunciado que diz transtrocantérica ou extracapsular está desligando a discussão sobre artroplastia.
  4. 4Descartar fratura porque a radiografia veio normal Dor inguinal com incapacidade de sustentar o peso, em idoso que caiu, é fratura até prova em contrário. Encurtamento e rotação externa dependem de desvio, e a fratura oculta não tem desvio para produzi-los. A régua nacional manda ressonância magnética quando a radiografia em três incidências não fecha o diagnóstico.
  5. 5Instalar tração no membro fraturado As diretrizes de 2018 concluíram que os riscos da tração pré-operatória superam os benefícios e não a indicam. A analgesia que ela prometia vem do bloqueio de nervo regional, que é a única recomendação de analgesia com força forte no documento.
  6. 6Escolher opioide sistêmico como analgesia de escolha A sequência recomendada é analgésico simples — paracetamol ou dipirona — e, após avaliação, bloqueio de nervo regional. No idoso com fratura de quadril, o opioide sistêmico compra analgesia e paga em delirium, e ele aparece como distrator justamente no enunciado de dor intensa refratária.
  7. 7Contar as 48 horas a partir da chegada ao hospital O prazo é contado a partir da ocorrência da fratura. Enunciado que informa a hora da queda está entregando o início da contagem, e o tempo perdido na regulação de vaga corre dentro da janela, não antes dela.
  8. 8Confundir as duas janelas de 48 horas Uma é cirúrgica e conta do trauma; a outra é o início da fisioterapia e conta do pós-operatório. As duas têm força de recomendação diferente no documento e respondem a perguntas diferentes.
  9. 9Tratar a condição clínica como permissão para adiar A recomendação é operar o mais breve possível, tendo como condição que o paciente esteja clinicamente apto. Isso obriga a otimizar rápido, não a esperar. O enunciado do idoso estável, sem comorbidade descompensada, que aguarda dias por vaga descreve descumprimento da diretriz, não prudência.
  10. 10Somar prevalências como se fossem parcelas Quando um texto apresenta percentuais por faixa etária ou por sexo que não somam cem, e o percentual geral fica entre eles, os números são prevalências dentro de cada grupo — não fatias de um total. O mesmo raciocínio denuncia denominador trocado: se a fração implicaria que quatro em cada dez quedas causam fratura, o denominador não eram os entrevistados.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Fratura do colo femoral desviada (Garden III/IV) em idoso tem alto risco de necrose avascular e pseudoartrose se preservada a cabeça; a conduta de escolha é a artroplastia (parcial ou total, conforme função prévia). A fixação com parafusos canulados reserva-se a fraturas sem desvio ou em jovens. Tratamento conservador com tração/repouso prolongado aumenta a mortalidade por complicações do imobilismo. O DHS é indicado em fraturas transtrocantéricas, não do colo desviadas em idoso. Imobilização gessada pelvipodálica não estabiliza essa fratura e é inviável no idoso.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os quatro estágios de Garden pela letra da diretriz brasileira de 2007, dizendo em voz alta, para os estágios III e IV, o que acontece com o alinhamento das trabéculas — e por que o alinhamento é o achado mais grave dos dois. Depois diga, sem consultar, os três prazos do documento nacional de 2018 e a que ponto de partida cada um se prende: as 48 horas da cirurgia, as 48 horas da fisioterapia e os 28 a 30 dias da profilaxia estendida.

em 30 dias

Monte a decisão inteira a partir de uma vinheta que você mesmo escreva. Comece pela linha da fratura em relação à inserção capsular e explique por que ela decide o risco de necrose avascular. Passe ao desvio e diga o que muda entre não desviada e desviada nas duas réguas brasileiras, nomeando qual delas responde sobre implante e qual responde sobre indicação. Termine escolhendo entre prótese total e parcial e explique por que a lista de critérios do documento nacional tem quatro itens enquanto a diretriz inglesa da qual foi adaptada tem três, e o que o item extra faz com a leitura da regra. Como aquecimento aritmético, pegue os três números da introdução das diretrizes de 2018 que não fecham e refaça cada conta: o percentual da população idosa em 2010, a faixa de 70 anos, e o denominador da fratura no inquérito com 6.616 idosos.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 78 anos é trazida ao pronto-socorro por familiares após queda da própria altura em casa, há duas horas. Refere dor intensa no quadril direito e não consegue ficar de pé. Você tem à disposição o exame físico, a radiografia e a decisão sobre o que pedir e quando encaminhar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Fratura de quadril no idoso e osteoporose – Fratura de quadril no idoso: quando o alinhamento é o pior sinal — Preparatório para provas | OsceLabs