100 min de leitura

Outras EspecialidadesOrtopedia

Fraturas expostas e a classificação de Gustilo

Fraturas expostas, princípios de imobilização e classificação de Gustilo

Classificação, antibiótico precoce e hierarquia entre diretrizes

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 35 anos chega ao pronto-socorro 4 horas após fratura exposta de tíbia por acidente automobilístico. Ao exame: PA 128x78 mmHg, FC 96 bpm, ferida transversa de 8 cm na face anteromedial da perna com exposição óssea e contaminação por terra, perda de cobertura de partes moles exigindo retalho, mas com pulso pedioso presente e enchimento capilar normal. Segundo a classificação de Gustilo-Anderson, qual é o tipo desta fratura e a antibioticoprofilaxia empírica inicial mais adequada?

02

Como esse tema cai

No acervo de questões desta plataforma, o tema aparece em dezoito questões vivas, e elas se distribuem em apenas dois moldes. O primeiro mostra uma perna com ferida e pede o tipo de Gustilo-Anderson. O segundo mostra a mesma perna e pede o conjunto de medidas iniciais, com as alternativas variando entre curativo, imobilização, antibiótico e profilaxia antitetânica. Seis das dezoito são variações do segundo molde, com a mesma resposta escrita de seis maneiras.

Nos moldes de classificação, quatro dos cinco graus já apareceram como gabarito: tipo I duas vezes, IIIB duas vezes, IIIC duas vezes. O tipo II nunca foi resposta certa — ele existe no acervo apenas como distrator. Isso não é acaso: o tipo II é o grau definido por exclusão, e enunciado que quer testar exclusão precisa descrever o que não há, o que é mais difícil de escrever do que descrever o que há.

O recorte útil, então, é outro. O que decide o grau não é a régua sobre a pele: é a energia do trauma, o estado das partes moles e o vaso. O artigo que criou os subtipos diz isso com todas as letras — o IIIA vale para trauma de alta energia independentemente do tamanho da ferida. Quem classifica pelo centímetro erra nos dois sentidos: subestima a fratura de ferida pequena e alta energia e superestima a laceração grande de baixa energia.

O gabarito histórico brasileiro costuma associar cefalosporina de primeira geração e cobertura para Gram-negativos no tipo III, com penicilina quando há solo. Essa recomendação vem de 1984 e foi reafirmada em 2011. A Surgical Infection Society de 2022 recomenda contra a ampliação rotineira além de Gram-positivos e limita a duração; alguns protocolos institucionais adotam um terceiro esquema. O capítulo deve ensinar a reconhecer a fonte cobrada sem converter uma regra histórica em prescrição universal: a conduta assistencial segue o protocolo local atualizado.

03

O que muda decisão

O que a classificação foi criada para medir

A classificação nasceu de um trabalho sobre infecção, não sobre planejamento cirúrgico. Em 1976, Gustilo e Anderson publicaram a análise de 1.025 fraturas expostas de ossos longos — 673 tratadas entre 1955 e 1968, revistas retrospectivamente, e 352 acompanhadas prospectivamente entre 1969 e 1973. A soma confere: 673 mais 352 são exatamente as 1.025 do título.

A pergunta do artigo era como prevenir infecção. A resposta que ele deu tem duas partes. A primeira é o protocolo: desbridamento e irrigação abundante, fechamento primário nos tipos I e II e secundário no tipo III, sem fixação interna primária exceto quando havia lesão vascular associada, culturas de todas as feridas e antibiótico antes da cirurgia e por três dias depois. A segunda é a graduação, criada porque as taxas de infecção não eram as mesmas em todas as feridas.

Os números dessa série ainda são a base do que se ensina. No tipo III, a infecção foi de 44% na série retrospectiva e de 9% na prospectiva. Em 158 pacientes da série prospectiva foram colhidas culturas iniciais: 70,3% delas cresceram bactéria, e a taxa de infecção nesse subgrupo foi de 2,5%. Esses dois percentuais permitem recuperar as contagens exatas, porque só um inteiro produz cada um deles em 158: 111 culturas positivas e 4 pacientes infectados. Com 110 culturas o artigo teria escrito 69,6%; com 112, 70,9%. Com 3 infecções teria escrito 1,9%; com 5, 3,2%.

Vale reter o que essa aritmética mostra além da curiosidade: a maioria das feridas cresceu bactéria e quase nenhuma infectou. Cultura colhida na entrada não prediz o germe que vai infectar — a diretriz de 2022 repete essa advertência quase cinquenta anos depois, lembrando que o agente da infecção costuma ser hospitalar e não o da cultura inicial. É por isso que aguardar cultura para iniciar antibiótico é errado nas duas pontas: atrasa o que funciona e espera uma informação que não responde à pergunta.

Os cinco graus, na letra dos dois artigos

O artigo de 1976 definiu três tipos. O tipo I é a fratura exposta com ferida menor que um centímetro e limpa. O tipo II é a laceração maior que um centímetro sem lesão extensa de partes moles, sem retalhos e sem avulsões. O tipo III, na redação original, é lesão grave de partes moles, fratura segmentar ou amputação traumática.

Oito anos depois, o mesmo grupo publicou que o tipo III era largo demais. Sobre 87 fraturas tipo III em 75 pacientes tratadas entre 1976 e 1979, propôs a divisão em três subtipos, em ordem de pior prognóstico. O IIIA é a cobertura de partes moles adequada sobre o osso fraturado, apesar de laceração extensa ou de retalhos, ou trauma de alta energia independentemente do tamanho da ferida. O IIIB é a perda extensa de partes moles com descolamento periosteal e exposição óssea, em geral com contaminação maciça. O IIIC é a fratura exposta associada a lesão arterial que exige reparo.

Três coisas nessa redação mudam a leitura da prova. A primeira é que o IIIA tem duas portas de entrada independentes — a cobertura preservada apesar da lesão extensa, e a alta energia sozinha. A segunda é a expressão que fecha a segunda porta: independentemente do tamanho da ferida. A terceira é que o IIIB não se define por perda de pele, e sim por descolamento do periósteo com osso exposto: é a condição que obriga a retalho porque o leito perdeu a capacidade de granular.

O IIIC também é mais estreito do que parece. Não basta pulso ausente: o critério é lesão arterial que exige reparo. Membro que reperfunde ao ser realinhado não tem, por esse critério, uma artéria que precise ser reparada. É a razão pela qual reduzir e alinhar vem antes de decidir sobre o vaso, e não depois.

O centímetro sem grau e os dez centímetros que não estão no original

A definição original tem uma lacuna aritmética que sobreviveu a cinquenta anos de reprodução. O tipo I é ferida menor que um centímetro; o tipo II é laceração maior que um centímetro. Exatamente um centímetro não pertence a nenhum dos dois. A diretriz da Surgical Infection Society de 2022 reproduz a tabela com essa mesma redação, mantendo o vão intacto. O aluno não deve preencher a lacuna por conta própria numa prova: deve reconhecer que, quando o enunciado escolhe medir a ferida, ele escolhe medidas que caem claramente de um lado.

A segunda distorção é maior e mais frequente. A tabela que circula nos cursinhos brasileiros lê tipo II como ferida de um a dez centímetros e tipo III como ferida maior que dez centímetros. Nem o artigo de 1976 nem o de 1984 trazem esse número. Em 1976, tipo III é lesão grave de partes moles, fratura segmentar ou amputação traumática. Em 1984, o IIIA é definido incluindo alta energia independentemente do tamanho da ferida.

Duas diretrizes vigentes reproduzem hoje a mesma tabela de formas diferentes. A da Surgical Infection Society de 2022 vai do tipo II direto ao IIIA, sem linha de tipo III genérico e sem menção a dez centímetros. Um protocolo institucional norte-americano de 2026 acrescenta uma linha de tipo III com ferida maior que dez centímetros — e, na linha imediatamente abaixo, define o IIIA como alta energia independentemente do tamanho da ferida. A tabela contradiz a si mesma em linhas consecutivas.

O efeito prático na prova é assimétrico e é preciso dizer com cuidado. Quando o enunciado descreve ferida grande com desvitalização extensa, contaminação grosseira e descolamento periosteal, os dois critérios convergem e a resposta é a mesma pelo tamanho ou pela biologia. A divergência aparece nos dois extremos: ferida pequena de trauma de alta energia é tipo III pelo artigo e tipo I ou II pela régua do centímetro; laceração longa e limpa de baixa energia é tipo II pelo artigo e tipo III pela régua do centímetro. Diante de enunciado que dá energia e partes moles, decide-se por eles; diante de enunciado que só dá centímetros, o autor está usando a régua do centímetro.

Grade de seis células cruzando tamanho da ferida (menor que 1 cm, de 1 a 10 cm, maior que 10 cm) com energia do trauma (baixa e alta). Em cada célula, o grau pela régua do centímetro e pelo artigo original: em baixa energia, I e I, II e II, III e II; em alta energia, I e III A, II e III A, III e III A. As três células discordantes têm contorno espesso. Uma marca sobre a divisa de 1 cm indica que exatamente 1 cm não pertence ao tipo I nem ao tipo II.
O tamanho da ferida e a energia do trauma classificam o mesmo caso de modo diferente em metade das combinações: ferida pequena de alta energia é III pelo artigo e I ou II pela régua do centímetro.

Quem atribui o grau, e quando

O grau definitivo não se atribui na sala de emergência. Ele é do cirurgião, no centro cirúrgico, depois do desbridamento — porque só então se sabe qual é a extensão real da desvitalização e se a cobertura óssea é possível. Um estudo citado pela diretriz de 2022 descreve exatamente esse arranjo: o antibiótico começa na chegada, por decisão do plantonista, e a determinação final da classificação fica com o cirurgião que opera. O mesmo estudo aponta, entre suas limitações, casos de tipo II classificados como tipo III.

Isso tem duas consequências para quem responde prova. A primeira é que o grau descrito no enunciado é um dado do enunciado, não uma conclusão a construir contra ele: quando a questão afirma o grau e pergunta a conduta, discutir a classificação é perder a questão. A segunda é que a decisão que realmente acontece na emergência — antibiótico, curativo, imobilização, avaliação neurovascular — não depende de ter o grau em mãos. Ela é a mesma nos cinco graus. O grau muda o que acontece depois: o esquema antimicrobiano em algumas réguas, a necessidade de retalho, o prognóstico.

O relógio do antibiótico e o relógio do desbridamento

A primeira hora que as questões repetem tem endereço. O padrão 2 do documento britânico de 2017 determina antibiótico profilático endovenoso o mais cedo possível, idealmente em uma hora do trauma — e a contagem é a partir do trauma, não a partir da chegada ao hospital, o que muda a leitura de enunciados que informam o tempo decorrido. Uma revisão de 2010 citada pela diretriz de 2022 trabalha com três horas do trauma, independentemente da gravidade. O protocolo brasileiro do pré-hospitalar não tem passo de antibiótico: a etapa é hospitalar.

O relógio do desbridamento é mais interessante, porque a norma britânica abandonou Gustilo para escrevê-lo. O padrão 12 manda desbridar imediatamente quando a ferida é altamente contaminada — agrícola, aquática ou por esgoto — ou quando há comprometimento vascular, entendido como síndrome compartimental ou isquemia por lesão arterial. Manda desbridar em 12 horas as demais fraturas expostas isoladas de alta energia. E manda desbridar em 24 horas todas as demais de baixa energia.

Repare no que essa redação faz. A regra cruza dois eixos — energia alta ou baixa, lesão isolada ou não — o que produz quatro células. A norma nomeia três: alta energia e isolada tem 12 horas; baixa energia, isolada ou não, tem 24 horas, porque a terceira linha diz todas as demais de baixa energia. A quarta célula — alta energia em paciente que não tem lesão isolada — não recebe prazo nenhum. É justamente o politraumatizado, o caso mais grave da série. A lacuna não deve ser preenchida de cabeça: deve ser reconhecida, porque a prova que cobra o prazo de 12 horas costuma descrever fratura isolada, e é isso que autoriza o número.

A aritmética que a fonte cita e a que ela implica

Os prazos de 12 e 24 horas se apoiam em coortes. A mais citada acompanhou 364 pacientes com 459 fraturas expostas e 46 infecções profundas, ou 10% — todas em graus II ou III. Nesse subgrupo, cada hora de atraso até o desbridamento associou-se a uma razão de chances de 1,033, com intervalo de confiança de 95% de 1,010 a 1,057. O próprio artigo descreve o achado como aumento linear de 3% por hora.

Essa descrição subestima o modelo do artigo. Razão de chances por hora é multiplicativa: doze horas valem 1,033 elevado a 12, e não 1 mais 0,033 vezes 12. Em 12 horas o modelo dá 1,476, um aumento de 47,6%, contra os 39,6% da leitura linear — a leitura linear subestima em 5,45%. Em 24 horas o modelo dá 2,180, contra 1,792 da leitura linear: a leitura linear subestima em 17,79%. A distância entre as duas leituras cresce com o tempo, e cresce justamente na faixa em que a norma opera.

O teste que discrimina é o ponto de duplicação. Com razão de chances de 1,033 por hora, as chances de infecção profunda dobram em 21,35 horas. Vinte e uma horas de atraso dão 1,977, que não dobrou; vinte e duas dão 2,043, que dobrou. O prazo de 24 horas da norma fica, portanto, depois do ponto em que o modelo que a sustenta prevê chances dobradas. O prazo de 12 horas fica bem antes. Trocar 24 por 21 horas manteria o limite aquém da duplicação — a diferença entre cumprir a norma e cumprir o modelo cabe em três horas.

Só que o intervalo de confiança desmonta a precisão dos dois números. No limite superior do intervalo, com razão de chances de 1,057, a duplicação chega em 12,50 horas — quase exatamente o prazo curto da norma. No limite inferior, com 1,010, ela só chega em 69,66 horas. O intervalo de confiança do único estudo que quantifica o efeito abrange de 12,5 a 69,7 horas, e portanto contém as duas linhas que ele justifica. Um dado que é compatível com os dois prazos não escolhe entre eles.

Uma tentativa parecida de aritmética falha, e é honesto dizer onde. As taxas de sepse e amputação por subtipo publicadas em 1984 permitem, em tese, recuperar quantas das 87 fraturas eram IIIA, IIIB e IIIC. A conta devolve sete conjuntos de tamanhos compatíveis com todos os percentuais, e não um. A métrica não discrimina e fica de fora. O que ela mostra, esse sim válido em qualquer dos sete, é o parágrafo seguinte.

O que o artigo de 1984 observou, e o que ele afirmou

O artigo propõe os três subtipos em ordem de pior prognóstico e publica duas colunas de desfecho. A de amputação obedece à ordem anunciada: 0% no IIIA, 16% no IIIB e 42% no IIIC. A de sepse de ferida não obedece: 4% no IIIA, 52% no IIIB e 42% no IIIC. Pela infecção, o IIIB é pior que o IIIC — o contrário da ordem que o próprio artigo enuncia.

A leitura correta não é que o artigo errou, e sim que ele mede duas coisas diferentes com uma escala só. O que define o IIIC é o vaso, e o que o vaso ameaça é o membro; por isso ele lidera a amputação. O que define o IIIB é a perda de cobertura com descolamento periosteal, e o que isso ameaça é a esterilidade do leito; por isso ele lidera a infecção. Uma escala ordenada por um desfecho não fica ordenada para o outro.

Também é preciso separar o que foi observado do que costuma ser extrapolado. Os 42% de amputação do IIIC são uma proporção observada numa série de fim dos anos 1970, antes da microcirurgia de rotina, dos protocolos de controle de danos e dos serviços ortoplásticos. Repetir esse número hoje como prognóstico é transportar uma observação de coorte para uma população que não é a dela. O que sobrevive à mudança de época é a hierarquia — vaso ameaça membro, cobertura ameaça leito — não a magnitude.

Antibiótico: fontes discordantes, uma conduta institucional

A recomendação que a prova brasileira cobra tem origem em 1984 e foi reafirmada em 2011. Ela diz: cefalosporina de primeira geração nos tipos I e II; acrescentar cobertura para Gram-negativos no tipo III; manter 72 horas após o trauma ou até 24 horas após a cobertura de partes moles, o que vier primeiro; e usar aminoglicosídeo em dose única diária. A justificativa está no artigo de 1984: a proporção de infecções por Gram-negativos passou de 24% na série de 1961 a 1975 para 77% na de 1976 a 1979.

A diretriz de sociedade de 2022 chega ao oposto. No tipo III, recomenda antibiótico por não mais que 24 horas após o trauma, na ausência de sinais clínicos de infecção ativa, em recomendação classificada como 1C — e recomenda contra ampliar a cobertura além de Gram-positivos, em recomendação 2C. Nos tipos I e II, também recomenda contra ampliar o espectro. A única ampliação que ela endossa é local, não sistêmica: antibiótico local somado ao sistêmico quando há perda óssea associada.

Um protocolo institucional norte-americano de 2026 propõe um terceiro caminho: cefazolina 2 g a cada 8 horas nos tipos I e II não contaminados, piperacilina-tazobactam 4,5 g a cada 8 horas no tipo III, e duração de 24 horas nos tipos I e II e de até 72 horas no tipo III, sem passar de 24 horas após o fechamento da ferida. Para contaminação por solo, ele acrescenta metronidazol nos tipos I e II — não penicilina cristalina — e usa piperacilina-tazobactam em monoterapia no tipo III, explicitamente para evitar duplicar betalactâmico.

Essas três réguas não ocupam o mesmo nível. O esquema com cefalosporina de primeira geração, aminoglicosídeo no tipo III e penicilina para contaminação por solo é o gabarito histórico reproduzido por muitas provas brasileiras, apoiado nos trabalhos de 1984 e na diretriz EAST de 2011. A Surgical Infection Society de 2022 é uma recomendação contemporânea de sociedade: na ausência de infecção ativa, limita a profilaxia a 24 horas e recomenda não ampliar sistemicamente além de Gram-positivos no tipo III, com evidência de baixa certeza. Já piperacilina-tazobactam pertence a um protocolo institucional local, não a uma regra universal. Na prova, identifique a fonte explicitamente convocada; no atendimento real, inicie antibiótico precocemente e siga o protocolo institucional vigente, considerando contaminação, alergias, microbiologia local e plano cirúrgico. Gabarito histórico, diretriz contemporânea e protocolo local devem ser apresentados lado a lado, mas nunca como equivalentes.

Vale registrar o que nenhuma delas diz. O documento britânico de 2017, que fixa os prazos, não trata de escolha nem de duração de antibiótico: manda apenas que exista uma diretriz de rede publicada e acessível para isso. E o protocolo brasileiro do pré-hospitalar não tem etapa antimicrobiana. Quem procura no documento errado encontra silêncio, e silêncio não é permissão.

O membro entre a rua e o bloco

A régua brasileira do pré-hospitalar é o protocolo de fratura exposta das extremidades do serviço de atendimento móvel, que existe em versão básica e avançada com o mesmo conteúdo essencial. A entrada no protocolo é ampla: ferimento com exposição óssea, ou ferimento sem exposição óssea acompanhado de deformidade, crepitação, encurtamento do membro ou alteração sensitiva, vascular ou motora. Ou seja, o protocolo se aplica antes de haver certeza de exposição.

A sequência é avaliação primária, avaliação secundária, controle do sangramento externo com curativo compressivo estéril, e então a etapa que gera divergência: considerar limpeza ou enxágue breve dos ferimentos abertos com solução salina em caso de sujidade grosseira. Depois, cobrir os ferimentos e as extremidades ósseas com curativo estéril, avaliar pulso periférico, perfusão, sensibilidade e mobilidade, imobilizar, e reavaliar os mesmos quatro parâmetros depois da imobilização.

A imobilização tem duas ênfases no texto: o retorno à posição anatômica, exceto se houver dor significativa ou resistência ao reposicionamento, e a escolha da técnica apropriada. O documento britânico diz a mesma coisa em uma linha — o membro deve ser realinhado e imobilizado — e acrescenta, no padrão 4, que a avaliação vascular e neurológica deve ser repetida sistematicamente, em particular após manobras de redução e após a aplicação de talas. É o mesmo cuidado escrito por duas mãos: realinhar é uma manobra que pode mudar a perfusão, para melhor ou para pior, e por isso o exame vem antes e depois.

Duas instruções do protocolo brasileiro raramente aparecem nas questões e são exatamente as que separam quem leu o documento. A primeira é a proibição de recolocar o osso exposto para dentro do ferimento. A segunda é o que fazer quando ele volta sozinho: se as extremidades ósseas se retraírem para dentro da ferida durante a imobilização, registra-se essa informação na ficha de atendimento, que segue para a equipe do hospital. Não se puxa o osso de volta para fora, e não se omite o fato — porque quem vai desbridar precisa saber que houve trânsito de fora para dentro.

O curativo, a lavagem e a tala: onde as réguas se separam

O curativo úmido que seis das dezoito questões do acervo cobram tem fonte britânica, não brasileira. O padrão 8 do documento de 2017 determina que, antes do desbridamento formal, a ferida seja manipulada apenas para remover contaminação grosseira e permitir fotografia, e então coberta com gaze embebida em salina e filme oclusivo. O protocolo brasileiro do pré-hospitalar diz curativo estéril, sem qualificar como úmido. Em prova nacional a alternativa do curativo estéril úmido continua sendo a melhor porque as concorrentes são piores — deixar ao ar, aplicar antisséptico tópico, suturar —, mas o aluno deve saber que o adjetivo veio de fora.

A lavagem é divergência aberta entre documentos oficiais. O mesmo padrão 8 britânico afirma que lavagens fora do ambiente de centro cirúrgico não estão indicadas. O protocolo brasileiro autoriza considerar enxágue breve com solução salina diante de sujidade grosseira. Os dois textos estão em vigor e tratam do mesmo momento do atendimento. A leitura que concilia é de escopo: o britânico proíbe a lavagem que substitui o desbridamento; o brasileiro autoriza a remoção de sujidade que impede até o curativo. Nenhum dos dois autoriza jato sob pressão ou água oxigenada.

A tala tem uma regra que a prova cobra e um motivo que ela raramente explicita. Imobiliza-se englobando as articulações proximal e distal ao foco, e não o foco isolado, porque osso longo fraturado gira em torno das articulações vizinhas: sem elas na imobilização, o foco continua móvel. E imobiliza-se com tala, não com gesso circular fechado, por duas razões independentes: o gesso fechado impede a inspeção da ferida e a reavaliação neurovascular seriada, e não acomoda o edema das horas seguintes.

Sobre esse último ponto convém desfazer um raciocínio que parece lógico e é falso: a ferida da fratura exposta não descomprime os compartimentos. A abertura da pele é pontual e a fáscia permanece íntegra; a alta energia que abriu a pele é a mesma que produz edema muscular. Fratura exposta e síndrome compartimental convivem, e a norma britânica trata a síndrome compartimental como uma das duas situações que exigem desbridamento imediato, ao lado da contaminação pesada. Dor desproporcional depois da imobilização é sinal de reavaliar, não de tranquilizar.

04

Do enunciado ao grau, e do grau à conduta

Duas perguntas diferentes com dois caminhos diferentes. A primeira é o grau, e ela se resolve por energia, partes moles e vaso — não por centímetros. A segunda é a conduta, e a parte que acontece na emergência é igual nos cinco graus; o que o grau muda vem depois.

  1. 1Confirme que é fratura exposta: comunicação do foco com o meio externo. O protocolo brasileiro entra antes disso — ferimento com exposição óssea, ou ferimento sem exposição acompanhado de deformidade, crepitação, encurtamento ou alteração sensitiva, vascular ou motora.
  2. 2Trate como trauma antes de tratar como fratura: a avaliação primária vem primeiro, e sangramento externo se controla com curativo compressivo estéril. Torniquete só para hemorragia exsanguinante que a compressão não conteve.
  3. 3Registre pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade — antes de qualquer manobra. Esse é o exame que vai ser comparado depois.
  4. 4Cubra a ferida com curativo estéril, embebido em solução fisiológica na régua britânica. Remova sujidade grosseira; não faça lavagem sob pressão, não use água oxigenada, não sature a ferida com antisséptico e não suture.
  5. 5Realinhe o membro e imobilize com tala englobando as articulações proximal e distal. A exceção ao realinhamento é dor significativa ou resistência ao reposicionamento. Gesso circular fechado, não.
  6. 6Não recoloque o osso exposto para dentro. Se ele se retrair sozinho durante a imobilização, registre o fato na ficha que vai com o paciente.
  7. 7Reavalie pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade depois da imobilização, e a cada nova manobra. Membro que perdeu pulso após o realinhamento é urgência vascular; membro que reperfundiu deixou de ter lesão arterial que exija reparo.
  8. 8Inicie antibiótico endovenoso o mais cedo possível, idealmente na primeira hora do trauma, e verifique a situação antitetânica com a mesma pressa. O esquema depende da régua adotada pelo serviço.
  9. 9Encaminhe para desbridamento no centro cirúrgico. Imediato se a contaminação for agrícola, aquática ou por esgoto, ou se houver síndrome compartimental ou isquemia arterial; nas demais fraturas isoladas de alta energia, em até 12 horas; nas de baixa energia, em até 24 horas.
redacao original: o vao em 1 cmtipo I: menor que 1 cmtipo II: maior que 1 cm1,0 cmsem grau nas duas redacoes0,9 cm cai no I . 1,1 cm cai no IIo numero 10 cm nao esta em nenhum dos dois artigos

O vão de um centímetro

A redação original define tipo I como ferida menor que um centímetro e tipo II como laceração maior que um centímetro. Exatamente 1,0 cm não pertence a nenhum dos dois, e a diretriz de 2022 reproduz a lacuna sem corrigi-la. Enunciado que mede a ferida escolhe medidas que caem claramente de um lado — 0,8 cm e 1,5 cm, não 1,0 cm.

chance de infeccao profunda por hora de atrasodobro12 h21,35 h24 hmodeloleitura linearo prazo da norma cai depois do ponto de duplicacao

O relógio e o ponto de duplicação

Razão de chances de 1,033 por hora de atraso até o desbridamento. Doze horas dão 1,476; vinte e quatro dão 2,180. As chances dobram em 21,35 horas: 21 horas dão 1,977 e não dobram, 22 horas dão 2,043 e dobram. O prazo máximo da norma fica depois do ponto de duplicação do modelo que a sustenta.

A célula sem prazo

A regra de desbridamento cruza energia alta ou baixa com lesão isolada ou não, o que dá quatro células. Três recebem prazo: imediato na contaminação pesada e no comprometimento vascular, 12 horas na alta energia isolada, 24 horas em todas as demais de baixa energia. Alta energia em paciente não isolado — o politraumatizado — não recebe prazo nenhum.

O que não muda com o grau

Controle da hemorragia, avaliação neurovascular antes e depois de qualquer manobra, curativo estéril sobre a ferida, realinhamento e tala englobando as articulações vizinhas, analgesia, antibiótico endovenoso precoce e verificação da situação antitetânica. Nada disso espera o grau, e o grau definitivo só sai no centro cirúrgico.

Os cinco graus na letra dos artigos originais

GrauDefinição publicadaO que decideFonte
Tipo IFerida menor que 1 cm e limpaTamanho e limpezaGustilo e Anderson, 1976
Tipo IILaceração maior que 1 cm sem lesão extensa de partes moles, retalhos ou avulsõesAusência de lesão extensa — definido por exclusãoGustilo e Anderson, 1976
Tipo III (redação de 1976)Lesão grave de partes moles, fratura segmentar ou amputação traumáticaGravidade da lesão, não tamanho da feridaGustilo e Anderson, 1976
Tipo IIIACobertura de partes moles adequada sobre o osso apesar de laceração extensa ou retalhos, ou trauma de alta energia independentemente do tamanho da feridaCobertura preservada, ou alta energia sozinhaGustilo, Mendoza e Williams, 1984
Tipo IIIBPerda extensa de partes moles com descolamento periosteal e exposição óssea, em geral com contaminação maciçaDescolamento do periósteo — é o que obriga a retalhoGustilo, Mendoza e Williams, 1984
Tipo IIICFratura exposta associada a lesão arterial que exige reparoA artéria precisar de reparo, não o pulso estar ausenteGustilo, Mendoza e Williams, 1984

Desfechos observados na série que criou os subtipos (1976-1979)

SubtipoSepse de feridaAmputaçãoLeitura
IIIA4%0%Cobertura preservada protege leito e membro
IIIB52%16%Lidera a infecção: leito sem periósteo não esteriliza
IIIC42%42%Lidera a amputação: o vaso ameaça o membro, não o leito
A ordem de sepse contraria a ordem anunciadaA de amputação a obedeceUma escala ordenada por um desfecho não fica ordenada para o outro

Antibiótico no tipo III: três réguas vigentes

RéguaEspectroDuraçãoContaminação por solo
Gustilo 1984 e diretriz norte-americana de trauma de 2011 — a régua do gabarito brasileiroCefalosporina de 1ª geração somada a cobertura para Gram-negativos (aminoglicosídeo, dose única diária)72 h após o trauma, ou até 24 h após a cobertura de partes molesAcrescentar penicilina cristalina
Diretriz de sociedade de infecção cirúrgica, 2022Recomenda contra ampliar além de Gram-positivos (nível 2C)Não mais que 24 h após o trauma, sem sinais de infecção ativa (nível 1C)Não endossa ampliação sistêmica; endossa antibiótico local quando há perda óssea
Protocolo institucional norte-americano, 2026Piperacilina-tazobactam 4,5 g a cada 8 hAté 72 h, sem passar de 24 h após o fechamento da feridaPiperacilina-tazobactam em monoterapia; metronidazol nos tipos I e II

Os prazos, e de onde cada um vem

MomentoPrazoDocumento
Antibiótico endovenosoO mais cedo possível, idealmente em 1 hora do traumaPadrão 2 do documento britânico de 2017
Desbridamento — contaminação agrícola, aquática ou por esgotoImediatoPadrão 12
Desbridamento — síndrome compartimental ou isquemia arterialImediatoPadrão 12
Desbridamento — demais fraturas isoladas de alta energia12 horasPadrão 12
Desbridamento — demais fraturas de baixa energia24 horasPadrão 12
Desbridamento — alta energia em paciente não isoladoSem prazo nomeadoLacuna da redação do padrão 12
Cobertura definitiva de partes moles72 horas do traumaPadrão 14
Amputação primária tardia, quando indicada72 horas do traumaPadrão 17

A contagem do antibiótico e a do desbridamento correm a partir do trauma, não da chegada ao hospital. Enunciado que informa quantas horas se passaram desde o acidente está oferecendo o dado que aciona o prazo.

O tipo II é o único grau definido pelo que não há: laceração maior que um centímetro sem lesão extensa de partes moles, sem retalhos e sem avulsões. É por isso que ele quase nunca é gabarito e quase sempre é distrator.

Lesão arterial que exige reparo é o critério do IIIC. Membro que reperfunde após o realinhamento não preenche o critério, e é por isso que reduzir e alinhar vem antes de decidir sobre o vaso.

A ferida da fratura exposta não descomprime os compartimentos: a fáscia continua íntegra. Síndrome compartimental é uma das duas condições que exigem desbridamento imediato na norma britânica.

Colher cultura na entrada não orienta a profilaxia. Na série de 1976, 111 das 158 culturas iniciais cresceram bactéria e apenas 4 pacientes infectaram; o germe que infecta costuma ser hospitalar e posterior.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Espectro e duração do antibiótico na fratura exposta tipo III

Ampliar para Gram-negativos e manter até 72 horas

Cefalosporina de primeira geração somada a aminoglicosídeo no tipo III, com penicilina cristalina quando há contaminação por solo, mantida por 72 horas após o trauma ou até 24 horas depois da cobertura de partes moles. A justificativa histórica é a virada de 24% para 77% na proporção de infecções por Gram-negativos entre as séries de 1961-1975 e 1976-1979.

Gustilo, Mendoza e Williams, J Trauma 1984; e diretriz de manejo de antibiótico profilático em fratura exposta, J Trauma 2011 (recomendação de nível II)

Não ampliar, e parar em 24 horas

No tipo III, antibiótico por não mais que 24 horas após o trauma na ausência de sinais de infecção ativa, em recomendação 1C, e recomendação contra ampliar a cobertura além de Gram-positivos, em 2C. Revisões sistemáticas citadas pela diretriz não encontraram diferença de infecção entre menos de 24 horas e mais de 72 horas de profilaxia, inclusive no subgrupo de tipo III.

Surgical Infection Society, Surg Infect 2022;23(9):817-828

Trocar o esquema por um betalactâmico de espectro ampliado

Piperacilina-tazobactam 4,5 g a cada 8 horas como agente do tipo III, com metronidazol em vez de penicilina para solo nos tipos I e II, apoiado em coortes que mostraram menos infecção profunda e menos retorno ao centro cirúrgico com esse esquema do que com cefazolina isolada ou cefazolina com aminoglicosídeo.

Protocolo institucional de profilaxia em fratura exposta, Orlando Regional Medical Center, aprovado em maio de 2026

Na prova

Quando o enunciado cita explicitamente a recomendação histórica de 1984/2011, o gabarito pode trazer cefalosporina de primeira geração, aminoglicosídeo e penicilina para solo. Quando cita a Surgical Infection Society de 2022, espera-se profilaxia dirigida a Gram-positivos e duração de no máximo 24 horas no tipo III sem infecção ativa. Sem fonte nominal, a resposta clinicamente segura é iniciar antibiótico endovenoso precocemente e seguir o protocolo institucional atualizado — não escolher um esquema apenas porque apareceu em uma publicação vigente.

O relógio do desbridamento: quanto atraso custa infecção

Cada hora conta, e o efeito é mensurável

Em 364 pacientes com 459 fraturas expostas e 46 infecções profundas, nos graus II e III cada hora de atraso até o desbridamento associou-se a razão de chances de 1,033, com intervalo de confiança de 95% de 1,010 a 1,057. Tíbia, grau mais alto e contaminação também pesaram.

Hull e colaboradores, Bone Joint J 2014;96-B(3):379-384

Além de 24 e de 48 horas o atraso não apareceu no desfecho

Em 96 fraturas diafisárias expostas de tíbia estratificadas por tempo até a cirurgia, as taxas de infecção foram 13,3% abaixo de 24 horas, 17,2% entre 24 e 48 horas e 9,1% acima de 48 horas, com p de 0,70; as de reoperação foram 29,8%, 31,0% e 22,7%, com p de 0,80. O grupo mais atrasado teve a menor taxa de infecção, e os autores concluem que a classificação previu complicação melhor que o relógio.

Heckmann e colaboradores, Eur J Orthop Surg Traumatol 2022;32(5):953-958

Na prova

As duas coortes foram publicadas e nenhuma foi retratada — é divergência, não erro de uma delas. O avaliador não cobra o litígio: cobra o prazo da norma, que é imediato na contaminação pesada e no comprometimento vascular, 12 horas na fratura isolada de alta energia e 24 horas nas de baixa energia. Diante de alternativa que ofereça esperar 48 ou 72 horas, a resposta continua sendo não, porque a régua da prova é a norma e não a coorte que a contesta. O que a divergência muda é a confiança com que se diz que seis horas é um limite biológico: esse número não está em nenhum dos dois estudos.

Lavar a ferida antes do centro cirúrgico

Fora do centro cirúrgico não se lava

Antes do desbridamento formal a ferida deve ser manipulada apenas para remover contaminação grosseira e permitir fotografia, e então coberta com gaze embebida em salina e filme oclusivo. O texto afirma que lavagens fora do ambiente de centro cirúrgico não estão indicadas.

Padrão 8 do documento britânico de fraturas expostas, dezembro de 2017

Enxágue breve com salina diante de sujidade grosseira

O quarto passo da conduta autoriza considerar limpeza ou enxágue breve dos ferimentos abertos com solução salina quando há sujidade grosseira, antes de cobrir com curativo estéril.

Protocolos de intervenção do serviço de atendimento móvel de urgência, Ministério da Saúde, 2ª edição, 2016 — protocolos AT20 e BT13

Na prova

Os dois documentos tratam do mesmo momento e o aluno precisa saber que a divergência existe, sem transformá-la em dúvida na hora de marcar. O que nenhum dos dois autoriza é o que as alternativas erradas costumam oferecer: jato sob pressão, água oxigenada, antisséptico no leito da ferida e sutura primária. Alternativa que remove sujidade grosseira e cobre com curativo estéril está de acordo com as duas réguas; alternativa que lava a ferida extensamente na sala de emergência, com nenhuma.

06

Caso resolvido

Homem de 31 anos, motociclista, colide contra um poste a caminho do trabalho e chega ao pronto-socorro 50 minutos depois, trazido pelo serviço de urgência. Está consciente, com pressão arterial de 124x78 mmHg e frequência cardíaca de 98 bpm. Na face anteromedial da perna direita há um ferimento transverso de 0,9 cm, de bordas limpas, por onde saiu sangue escuro; não há sujidade visível nem desvitalização aparente. Pulsos pedioso e tibial posterior presentes e simétricos, enchimento capilar de 2 segundos, sem déficit motor ou sensitivo. A radiografia mostra fratura segmentar da diáfise da tíbia, com um terceiro fragmento livre. Não há outras lesões. O paciente tem cartão de vacinas e a última dose de vacina antitetânica foi há três anos.
A régua sobre a pele diz tipo I
Ferida de 0,9 cm, limpa, sem desvitalização, com perfusão e neurologia preservadas. Pela tabela dos centímetros que circula nos materiais de prova, essa fratura seria tipo I, e o antibiótico seria cefazolina isolada.
O artigo original diz outra coisa
A redação de 1976 define tipo III como lesão grave de partes moles, fratura segmentar ou amputação traumática. Fratura segmentar entra no tipo III pela própria letra do artigo, sem depender do tamanho da ferida. E a redação de 1984 define o IIIA como cobertura adequada apesar de lesão extensa, ou trauma de alta energia independentemente do tamanho da ferida — colisão de motocicleta contra objeto fixo é alta energia.
As duas portas do IIIA levam ao mesmo lugar
Nesse caso as duas se abrem: a fratura é segmentar e o mecanismo é de alta energia. A cobertura de partes moles sobre o osso está preservada, o que exclui o IIIB; não há lesão arterial a reparar, o que exclui o IIIC. O grau provisório é IIIA — provisório porque o definitivo sai no centro cirúrgico, depois do desbridamento.
A conduta da primeira hora não depende do grau
Curativo estéril sobre a ferida, realinhamento e tala englobando joelho e tornozelo, analgesia, antibiótico endovenoso o mais cedo possível — a norma britânica marca a primeira hora contada do trauma, e já se passaram 50 minutos. A vacina antitetânica está em dia há três anos e a conduta antitetânica segue a régua do ferimento, tratada em capítulo próprio.
O grau muda o que vem depois
Na régua que a prova brasileira cobra, o tipo III acrescenta cobertura para Gram-negativos ao esquema. E o prazo do desbridamento passa a ser o de fratura isolada de alta energia: até 12 horas do trauma, e não as 24 horas das de baixa energia. Classificar como tipo I aqui erraria o antibiótico e dobraria o prazo.
O que sobra de aprendizado
O enunciado ofereceu três dados de graduação — tamanho da ferida, mecanismo e traço da fratura — e só o primeiro apontava para baixo. Quando os dados discordam, os que estão na letra do artigo mandam. Ferida pequena não é sinônimo de fratura pequena.
07

Agora feche você

Mulher de 44 anos, trabalhadora rural, tem a perna esquerda prensada por um implemento agrícola e chega à unidade de pronto atendimento 90 minutos depois. Está consciente, com pressão arterial de 118x76 mmHg e frequência cardíaca de 104 bpm. Há ferimento de 9 cm na face lateral da perna, com desvitalização extensa de partes moles, terra e restos vegetais no leito da ferida e exposição de osso; a musculatura vizinha cobre o foco em quase toda a extensão, e a equipe cirúrgica descreve, depois, cobertura suficiente sem necessidade de retalho. Pulsos distais presentes e simétricos, sem déficit neurológico. Radiografia com fratura cominutiva da diáfise da tíbia. A unidade não tem ortopedista e a paciente será transferida. Descreva o grau, o prazo do desbridamento e a conduta local até a transferência.
Primeiro o grau
Separe os três critérios do tipo III: cobertura preservada apesar de lesão extensa aponta para um subtipo; descolamento periosteal com necessidade de retalho aponta para outro; artéria que precise de reparo aponta para o terceiro. Diga qual deles o caso preenche e quais exclui, e note que a extensão da ferida não foi o dado decisivo.
Depois o relógio
A regra de prazo do desbridamento tem uma linha de exceção que antecede as de 12 e 24 horas. Identifique qual característica desta ferida aciona essa linha e diga o prazo que ela impõe. Repare que essa característica também é a que, na régua do gabarito brasileiro, acrescenta um terceiro agente ao esquema antimicrobiano.
Depois a mão na perna
Liste a sequência: o que se faz com o sangramento, o que se faz com a sujidade grosseira, com que se cobre a ferida, o que se imobiliza além do foco, o que se examina antes e depois da imobilização, e o que se registra na ficha caso o osso se retraia sozinho.
Por fim, a transferência
Diga o que precisa estar feito antes de a ambulância sair e o que pode esperar o serviço de destino. Uma das medidas tem prazo contado em horas a partir do trauma e noventa minutos já se passaram.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Classificar pelo centímetro quando o enunciado deu a energia A régua de 1 a 10 centímetros para o tipo II e mais de 10 para o tipo III não está em nenhum dos dois artigos originais. O texto de 1984 define o IIIA incluindo alta energia independentemente do tamanho da ferida. Quando o enunciado descreve colisão em alta velocidade, prensamento por implemento agrícola ou queda de altura, a energia já resolveu o grau — a fita métrica vem depois, e às vezes não vem.
  2. 2Chamar de IIIB o que só tem ferida grande O que define o IIIB não é a extensão da ferida nem a contaminação: é a perda de partes moles com descolamento periosteal e osso exposto, isto é, um leito que não vai granular e por isso exige retalho. Ferida de 12 centímetros com desvitalização extensa mas com cobertura óssea suficiente é IIIA, por mais impressionante que seja a descrição.
  3. 3Ler pulso ausente como IIIC automático O critério publicado é lesão arterial que exige reparo. Deformidade angulada grave pode ocluir o vaso por dobra ou compressão e reperfundir ao realinhamento — e nesse caso não houve artéria a reparar. A conduta imediata diante do pé frio e sem pulso é reduzir e alinhar, reavaliar, e então acionar a equipe vascular se a isquemia persistir.
  4. 4Achar que a ferida aberta protege do compartimento A abertura cutânea é pontual e a fáscia segue íntegra; a energia que abriu a pele é a que produz o edema. Dor desproporcional, dor ao estiramento passivo e parestesia depois da imobilização pedem reavaliação e medida de pressão, não tranquilização. A norma britânica trata a síndrome compartimental como uma das condições que exigem desbridamento imediato.
  5. 5Discutir o grau quando o enunciado já o afirmou O grau definitivo é atribuído pelo cirurgião no centro cirúrgico, depois do desbridamento. Quando a questão declara o grau e pergunta a conduta, o grau é premissa. Vale o inverso também: quando a questão pede o grau, a conduta não está sendo cobrada, e alternativa que mistura grau correto com conduta errada existe justamente para punir a leitura apressada.
  6. 6Confundir a proibição do osso com a obrigação de puxá-lo de volta Não se recoloca deliberadamente o osso exposto para dentro do ferimento. Mas quando as extremidades ósseas se retraem sozinhas durante o realinhamento, o protocolo brasileiro não manda reexpor: manda registrar o ocorrido na ficha de atendimento, para que a equipe que vai desbridar saiba que houve trânsito de fora para dentro.
  7. 7Somar antibiótico ao gesso circular Gesso circular fechado sobre fratura exposta impede a inspeção da ferida, impede a reavaliação neurovascular seriada e não acomoda o edema. A imobilização é com tala, englobando as articulações proximal e distal ao foco — imobilizar só o foco deixa o osso girar em torno das articulações vizinhas.
  8. 8Tratar as três réguas de antibiótico como uma só Fontes históricas, diretriz de sociedade e protocolos institucionais chegam a esquemas diferentes. Isso não autoriza escolher qualquer um. Na prática, usa-se o protocolo vigente da rede, com stewardship e ajuste ao cenário; em prova, identifica-se a fonte citada. O erro é apresentar a recomendação histórica como padrão clínico universal ou declarar que esquemas discordantes são intercambiáveis.
  9. 9Esperar a cultura para começar o antibiótico A cultura da entrada tem correlação limitada com o germe que virá a infectar, que costuma ser hospitalar. Na série que criou a classificação, sete em cada dez culturas iniciais cresceram bactéria e a infecção clínica ficou em 2,5%. Esperar o resultado atrasa a única medida com prazo em horas e não responde à pergunta que se quis fazer.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O que caracteriza o Gustilo IIIB é a necessidade de retalho para cobertura de partes moles — não o tamanho da ferida, que aqui é de 8 cm. Somada à contaminação ambiental grosseira e ao mecanismo de alta energia, a perda de cobertura define o tipo IIIB. Para fraturas tipo III a profilaxia deve ampliar a cobertura para Gram-negativos, associando cefalosporina de 1ª geração (Gram-positivos) a um aminoglicosídeo. O tipo II (ferida 1–10 cm sem lesão extensa de partes moles) e o tipo IIIA (cobertura óssea adequada apesar da lesão extensa) estão descartados pela necessidade de retalho. O tipo IIIC exige lesão arterial que requer reparo — aqui o pulso está presente. O tipo I (ferida <1 cm limpa) não corresponde ao quadro.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite os cinco graus pela letra dos artigos, e não pela tabela dos centímetros: menor que 1 cm e limpa; maior que 1 cm sem lesão extensa, retalhos ou avulsões; cobertura adequada apesar de lesão extensa ou alta energia independentemente do tamanho da ferida; perda extensa com descolamento periosteal e osso exposto; lesão arterial que exige reparo. Depois recite os quatro prazos e o que aciona cada um: imediato na contaminação agrícola, aquática ou por esgoto e no comprometimento vascular; 12 horas na fratura isolada de alta energia; 24 horas nas de baixa energia; 72 horas para a cobertura definitiva de partes moles. Termine dizendo em voz alta o que exatamente 1,0 cm é pela redação original.

em 30 dias

Reconstrua as três réguas do antibiótico no tipo III sem consultar, dizendo de cada uma o espectro, a duração e o que ela faz com a contaminação por solo — e diga qual delas o avaliador brasileiro usa. Depois refaça a conta do relógio: razão de chances de 1,033 por hora, quanto dá em 12 e em 24 horas, em quantas horas dobra, e por que o intervalo de confiança do estudo não escolhe entre os dois prazos que ele é usado para justificar. Feche listando as quatro células do cruzamento energia e lesão isolada, apontando a que ficou sem prazo.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 29 anos é trazido ao pronto-socorro após colisão de motocicleta em via urbana, há 40 minutos. Está consciente e queixa-se de dor intensa na perna esquerda, onde há ferimento com saída de sangue e deformidade angular. Conduza o atendimento: faça a avaliação inicial de trauma, examine o membro antes e depois de qualquer manobra, decida o que fazer com a ferida e com a imobilização, e defina o esquema antimicrobiano, o prazo do desbridamento e o que precisa estar resolvido antes da transferência. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Fraturas expostas, princípios de imobilização e classificação de… – Fraturas expostas e a classificação de Gustilo — Preparatório para provas | OsceLabs