77 min de leitura

Outras EspecialidadesOrtopedia

Pé e tornozelo eletivos: o calcanhar que dói no primeiro passo e o dedo que empurra o vizinho

Fascite plantar, hálux valgo e critérios de encaminhamento

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 45 anos refere dor na região medial do calcanhar direito há cinco meses. A dor é máxima nos primeiros passos ao levantar da cama, melhora depois que ele caminha alguns minutos e volta a piorar no final do dia, quando fica muito tempo em pé. Nega dor que o acorde à noite e nega rigidez matinal prolongada. Esse padrão temporal indica:

02

Como esse tema cai

Dor no calcanhar e joanete doloroso são duas das queixas mais comuns do ambulatório de pé, e as duas compartilham um vício de raciocínio: existe um achado de imagem chamativo, fácil de ver e fácil de nomear, que não é a causa do sintoma. No calcanhar é o esporão. No antepé é o ângulo. Quem trata a imagem trata a coisa errada e ainda perde o paciente para a frustração, porque o achado permanece lá depois de qualquer tratamento bem-sucedido.

As duas condições também compartilham um relógio longo. O calcanhar melhora com alongamento diário e mudança de carga em prazo medido em meses, não em semanas; o hálux valgo doloroso não regride com órtese e o que se decide na consulta é se aquele paciente tem indicação de correção cirúrgica. Nos dois casos o erro mais caro é prometer resultado rápido: paciente que espera duas semanas de melhora abandona o tratamento na terceira.

O que se cobra do médico generalista aqui é reconhecível: o padrão temporal da dor, que separa mecânico de inflamatório e manda ou não investigar espondiloartrite; a manobra que reproduz o sintoma; o encurtamento da panturrilha, que é o fator perpetuador mais tratável dos dois quadros; e o limiar do encaminhamento, que em pé eletivo é escrito em falha documentada de tratamento, não em graus.

03

O que muda decisão

A dor do primeiro passo: o padrão que já é meio diagnóstico

A fascite plantar tem uma história tão característica que vale mais do que qualquer exame: dor na região medial do calcanhar, máxima nos primeiros passos ao levantar da cama ou depois de um período sentado, que melhora ao caminhar por alguns minutos e volta a piorar ao final do dia ou após tempo prolongado em pé. Esse é o padrão mecânico, e ele tem explicação: em repouso a fáscia acomoda-se encurtada, e a carga súbita reestira o tecido degenerado na inserção.

O contraste com o padrão inflamatório é o que separa duas doenças completamente diferentes. A entesite das espondiloartrites dói em repouso, acorda o paciente na madrugada, apresenta rigidez matinal prolongada que não melhora com o movimento inicial e vem acompanhada de outras entesites, de dor lombar de ritmo inflamatório, de história de uveíte, psoríase ou doença inflamatória intestinal. Perguntar se a dor melhora quando ele começa a andar leva cinco segundos e reclassifica o caso.

O exame confirma o que a história já disse. A dor é reproduzida à palpação da tuberosidade medial do calcâneo, ponto de origem da fáscia, e não no meio do coxim nem na face posterior do calcanhar, onde dói a tendinopatia insercional do tendão calcâneo. Um dedo no lugar certo vale mais do que uma ultrassonografia.

Dois fatores de risco têm sustentação melhor do que os demais: a limitação da dorsiflexão do tornozelo e o índice de massa corporal elevado em pessoas que não são atletas. Em quem corre, o fator dominante é a mudança de carga — aumento rápido de volume, troca de piso, troca de calçado. Sempre pergunte o que mudou nas semanas anteriores ao início: quase sempre mudou alguma coisa, e essa informação é metade do tratamento.

O nome mente: não é inflamação, é degeneração

O sufixo do nome consagrado promete inflamação, e o tecido examinado ao microscópio não a mostra. Espécimes de fáscia plantar retirados de pacientes operados por dor crônica no calcanhar descrevem degeneração mixoide, necrose de colágeno e hiperplasia angiofibroblástica — o mesmo padrão das tendinopatias crônicas —, sem infiltrado inflamatório significativo. Daí a proposta de chamar o quadro de fasciose, ou fasciopatia.

Isso não é preciosismo de nomenclatura, porque o nome dirige o tratamento. Se o problema fosse inflamação, o anti-inflamatório oral e o corticoide seriam tratamento causal e resolveriam. Sendo degeneração por sobrecarga repetida em tecido pouco vascularizado, o que reverte o processo é a modificação da carga e o estímulo mecânico controlado — alongamento e progressão de carga —, ao longo de meses.

A consequência prática é a conversa com o paciente. Ele chega esperando um remédio que resolva em uma semana, muitas vezes já tendo tomado dois ciclos de anti-inflamatório sem resultado duradouro. Explicar que o tecido está degenerado, e não inflamado, transforma a adesão ao alongamento diário de tarefa chata em tratamento principal — e a adesão é o fator que mais separa quem melhora de quem não melhora.

Vale a mesma ressalva em sentido inverso. Dizer que não há inflamação não significa que analgesia não tenha lugar: o paciente precisa conseguir caminhar para reeducar a carga. O analgésico é adjuvante que viabiliza o tratamento; ele não é o tratamento.

O molinete: por que o dedão muda a dor do calcanhar

A aponeurose plantar corre do calcâneo às bases dos dedos e funciona como o cabo de um molinete. Quando os dedos são estendidos — o que acontece naturalmente na fase final do apoio, quando o calcanhar já saiu do chão —, a aponeurose enrola-se em torno das cabeças dos metatarsos, encurta a distância entre as extremidades do arco e o eleva. É o mecanismo que transforma um pé flexível em uma alavanca rígida na hora de impulsionar.

Desse mecanismo sai a manobra de exame. Com o tornozelo em posição neutra, quem examina estende passivamente o hálux e observa se o gesto reproduz a dor na região medial do calcanhar. A manobra tem boa especificidade e sensibilidade limitada: quando positiva, ajuda muito; quando negativa, não afasta o diagnóstico.

O mesmo mecanismo explica dois achados aparentemente desconexos. Explica por que a dor é máxima no primeiro passo — a fáscia acomodada em posição curta durante o sono é tensionada de repente. E explica por que pacientes com o hálux limitado, seja por artrose da articulação do primeiro raio, seja por deformidade, podem sobrecarregar a fáscia de maneira diferente e responder pior ao tratamento habitual.

Dois painéis com o mesmo pé em corte sagital simplificado sobre o solo. À esquerda, o dedo maior alinhado ao solo, faixa plantar frouxa e arco mais baixo. À direita, o dedo maior estendido, faixa esticada e enrolada sobre a cabeça do primeiro metatarso, arco mais alto e mais curto, com uma marca na inserção inferior do calcâneo.
O mecanismo de molinete descrito por Hicks: estender os dedos enrola a aponeurose plantar em torno das cabeças dos metatarsos, encurta a distância entre as extremidades do arco e o eleva, convertendo o pé numa alavanca rígida para a impulsão. É esse mesmo mecanismo que a manobra de exame usa — a extensão passiva do dedo maior tensiona a fáscia e reproduz a dor na inserção medial do calcâneo — e é ele que explica por que a dor é máxima no primeiro passo, quando um tecido acomodado em posição curta durante o sono é reestirado de uma vez.

O esporão está presente em pés que não doem

A imagem de perfil do calcâneo mostra com frequência uma projeção óssea plantar, e ela é responsável por boa parte dos tratamentos equivocados dessa doença. O esporão calcâneo plantar origina-se na inserção do flexor curto dos dedos, num plano mais profundo do que a aponeurose, e cresce ao longo da linha de tração, no eixo do osso — não perpendicular à pele, como uma agulha que espeta o coxim.

Dois fatos desmontam a explicação intuitiva. O achado está presente numa parcela relevante de pessoas sem qualquer dor no calcanhar, o que impede que ele seja causa suficiente. E pacientes que melhoram completamente com tratamento conservador continuam com o esporão exatamente do mesmo tamanho na radiografia de controle, o que impede que ele seja causa necessária.

A leitura correta é que o esporão é marcador de tração crônica naquela região, e não gerador de dor. Ele acompanha o processo, como uma cicatriz acompanha uma ferida antiga. Isso muda o que se diz ao paciente: a frase útil é que o osso extra não é o problema e não será retirado, e que a dor sai sem que ele saia.

A radiografia, então, para que serve? Para o que a história levantou como dúvida — traço de fratura por estresse do calcâneo, lesão lítica, alterações do retropé que expliquem a sobrecarga. Não é exame de rotina para confirmar fascite plantar, cujo diagnóstico é clínico. Quando se pede ultrassonografia, o achado que sustenta a hipótese é o espessamento da fáscia na inserção, tipicamente a partir de quatro milímetros contra cerca de três no pé normal, somado à perda do padrão fibrilar.

A panturrilha curta é o fator perpetuador mais tratável

A dorsiflexão limitada do tornozelo é o fator de risco com melhor sustentação, e ela tem duas origens possíveis que exigem tratamentos diferentes. O gastrocnêmio cruza duas articulações — origina-se acima do joelho e insere-se no calcâneo pelo tendão calcâneo —, enquanto o sóleo cruza apenas o tornozelo. Fletir o joelho relaxa o gastrocnêmio e não relaxa o sóleo.

O teste explora exatamente isso. Meça a dorsiflexão do tornozelo com o joelho estendido e depois com o joelho fletido, mantendo o retropé em posição neutra. Se a dorsiflexão melhora de forma nítida com o joelho fletido, a restrição é do gastrocnêmio. Se permanece limitada nas duas posições, a restrição está no sóleo ou no próprio tendão, e o alongamento precisa ser feito com o joelho fletido para alcançá-lo.

A consequência mecânica do encurtamento é direta: com menos dorsiflexão disponível, o calcanhar sai do chão mais cedo na marcha, a carga migra para o antepé e a fáscia trabalha mais e por mais tempo em cada passo. É o mesmo mecanismo que agrava a metatarsalgia do hálux valgo, o que faz dessa medida um exame comum aos dois quadros do capítulo.

Por isso o alongamento entra como tratamento e não como conselho genérico. O alongamento específico da fáscia plantar — sentado, com o tornozelo em dorsiflexão e os dedos estendidos com a mão, sustentando cada repetição — mostrou desempenho superior ao alongamento apenas do tríceps sural em ensaio randomizado com pacientes de dor crônica no calcanhar. Na prática se faz os dois, começando pelo específico, várias vezes ao dia, inclusive antes do primeiro passo da manhã, ainda sentado na cama.

O que a diretriz sustenta: carga, órtese e tempo

A diretriz de prática clínica dedicada à dor no calcanhar organiza o tratamento em recomendações graduadas, e as com melhor sustentação são pouco glamorosas: terapia manual, alongamento da fáscia e do tríceps sural, órtese plantar com apoio do arco medial, imobilização noturna em pacientes cujo sintoma dominante é a dor do primeiro passo, e educação com controle de peso quando aplicável.

Sobre a órtese, um ponto costuma surpreender: as pré-fabricadas e as sob medida apresentam desempenho semelhante nos desfechos de dor a curto prazo. Isso importa no serviço público, onde a palmilha sob medida pode custar meses de espera. Comece pela pré-fabricada com apoio do arco medial e amortecimento do retropé, e reserve a confecção individual para o pé com deformidade estrutural que a de prateleira não acomoda.

A imobilização noturna funciona pelo mesmo raciocínio do primeiro passo: mantendo o tornozelo próximo do neutro durante o sono, ela impede que a fáscia acomode em posição curta. O incômodo faz muitos pacientes abandonarem, e por isso ela rende mais quando indicada especificamente a quem descreve a dor matinal como o pior sintoma.

Falta a informação que mais organiza a expectativa: a maioria dos casos resolve dentro de aproximadamente doze meses com tratamento conservador consistente. Dizer isso na primeira consulta é o que evita a peregrinação por infiltrações sucessivas. Marque o retorno em três meses, com a instrução explícita de que a melhora esperada nesse intervalo é parcial — e que parcial, aqui, é sinal de que o caminho está certo.

A infiltração compra semanas e pode custar o arco

A infiltração local de corticosteroide reduz a dor a curto prazo, e é essa a razão pela qual ela é tão pedida — pelo paciente e, muitas vezes, pelo médico que quer entregar alívio. O efeito é de semanas, e ele não altera o processo degenerativo que produziu a dor.

O custo está descrito e não é raro o suficiente para ser ignorado. Séries de rupturas da fáscia plantar após infiltração documentam o desfecho: com a fáscia rompida, o arco longitudinal medial perde o seu principal tirante, o antepé se afasta do retropé, e a carga migra para a coluna lateral do pé. O paciente troca uma dor tratável no calcanhar por uma dor difícil no meio do pé, e essa segunda não tem tratamento conservador com a mesma eficácia.

Some-se a atrofia do coxim gorduroso do calcâneo, que retira a almofada natural entre o osso e o solo. É uma sequela pouco reversível, e ela explica por que a segunda e a terceira infiltrações costumam render menos que a primeira: parte do que dói já não é a fáscia.

A leitura razoável é a de recurso pontual, com indicação estreita e limite claro: dor incapacitante que impede a execução do próprio tratamento, uma aplicação, e retorno ao programa de alongamento e carga na sequência. Paciente que chega pedindo a terceira infiltração para participar de uma prova esportiva em um mês está pedindo exatamente o que não se deve dar — e a conversa que troca a infiltração por um plano de meses é parte do atendimento, não uma negativa.

Quando o calcanhar não é fáscia

Quatro alternativas mudam completamente a conduta e todas se distinguem à beira do leito. A fratura por estresse do calcâneo dói à compressão medial e lateral simultânea do osso, e não à palpação de um ponto na inserção; costuma vir depois de aumento abrupto de carga, dói também em repouso e piora progressivamente, e é a razão pela qual a ressonância entra quando a dúvida existe.

A síndrome do túnel do tarso e a compressão do primeiro ramo do nervo plantar lateral produzem parestesia, queimação e dor irradiada para a planta, com percussão positiva atrás do maléolo medial. O detalhe que separa é a qualidade da dor: fáscia dói ao apoio e no ponto; nervo formiga, queima e irradia.

A entesite da espondiloartrite já apareceu aqui pelo ritmo — dor de repouso, noturna, com rigidez matinal que não cede ao movimento inicial —, e vem acompanhada de outras entesites e de manifestações extra-articulares. Diante desse conjunto, o caminho é reumatológico, e a fáscia é apenas o lugar onde a doença sistêmica se manifestou.

A atrofia do coxim gorduroso dói mais no centro da região de apoio do calcanhar, é mais frequente no idoso e em quem recebeu infiltrações, e piora em superfícies duras e com pés descalços. O tratamento é de proteção — calçado com amortecimento, palmilha com alívio central — e não de alongamento.

Some-se a radiculopatia da raiz sacral, que projeta dor na região posterior da perna e na planta, com sinais neurológicos correspondentes, e o quadro se completa. A regra prática é econômica: dor localizada, mecânica, com primeiro passo pior e ponto medial doloroso é fáscia; qualquer desvio desse conjunto pede outra investigação antes de mais um mês de alongamento.

Hálux valgo: o metatarso desvia e os sesamoides ficam

A deformidade que o paciente chama de joanete é um desalinhamento do primeiro raio: a falange do hálux desvia lateralmente, em direção aos outros dedos, enquanto o primeiro metatarso desvia medialmente, afastando-se do segundo. A proeminência que dói contra o calçado é a face medial da cabeça do primeiro metatarso, exposta pelo desvio, e não um osso novo que cresceu.

O detalhe que mais confunde na leitura da radiografia é o dos sesamoides. Esses dois pequenos ossos ficam presos ao aparelho tendíneo e ao ligamento intermetatarsal, e mantêm sua posição no plano do pé. Quem se move é o metatarso, que desliza medialmente por cima deles. Na imagem, o resultado parece deslocamento lateral dos sesamoides — e o raciocínio invertido custa a compreensão do que a cirurgia precisa desfazer.

A deformidade é progressiva e se retroalimenta. Com o desvio, os tendões que cruzam a articulação passam a atuar fora do eixo e acentuam o valgo; a cápsula medial se distende e a lateral encurta; e a carga que deveria passar pela cabeça do primeiro metatarso migra para as cabeças vizinhas.

É daí que sai a queixa que o paciente muitas vezes considera secundária e que costuma ser a mais incapacitante: dor plantar sob o antepé, na projeção do segundo metatarso, com sensação de pisar em pedra e calosidade. Essa metatarsalgia de transferência é consequência mecânica direta da falência do primeiro raio como receptor de carga, e ela explica por que tratar apenas a proeminência medial não resolve o pé.

Complete o exame com duas informações que mudam a cirurgia: a redutibilidade passiva do hálux, que informa se a deformidade ainda é flexível, e a mobilidade da articulação entre o primeiro metatarso e o cuneiforme, cuja instabilidade aponta o nível em que a correção precisa ser feita.

Os ângulos em carga: o que medem e o que não indicam

A avaliação radiográfica do hálux valgo exige o paciente em apoio, e essa exigência não é detalhe técnico. Sem carga, a deformidade se reduz parcialmente e os ângulos aparecem menores do que são; laudo feito com o pé suspenso subestima o que o cirurgião vai encontrar.

Duas medidas organizam a leitura na incidência ântero-posterior. O ângulo do hálux valgo é formado entre os eixos longitudinais da falange proximal e do primeiro metatarso; valores abaixo de cerca de quinze graus são considerados normais. O ângulo intermetatarsal é formado entre os eixos do primeiro e do segundo metatarsos; abaixo de cerca de nove graus é normal.

As faixas de gravidade combinam as duas medidas: deformidade leve com hálux valgo abaixo de vinte graus e intermetatarsal abaixo de onze; moderada entre vinte e quarenta graus de hálux valgo e entre onze e dezesseis de intermetatarsal; grave acima de quarenta e de dezesseis, respectivamente. Some a posição dos sesamoides na mesma incidência, graduada pelo quanto eles aparecem deslocados em relação à crista do primeiro metatarso.

Aqui vem o ponto que a prova gosta de cobrar por inversão: a faixa de gravidade orienta qual técnica cirúrgica corrige — quanto maior o ângulo intermetatarsal, mais proximal precisa ser a osteotomia, ou mais provável a artrodese do nível instável —, e não se o paciente deve ser operado. Ângulo grande em pé indolor não é indicação, e ângulo modesto em pé incapacitado pode ser.

A cirurgia trata dor, e o que a órtese entrega tem prazo

A indicação de correção do hálux valgo é a dor persistente, com limitação funcional, após falha do tratamento conservador bem conduzido. Não são indicação a deformidade em si, o incômodo estético isolado, nem a preocupação com progressão futura em pé assintomático — a correção profilática de pé que não dói não se sustenta, e expõe o paciente aos riscos de um procedimento que ele não precisava.

O tratamento conservador tem limite conhecido e um ensaio randomizado que o mediu. Comparando cirurgia, órtese e observação em pacientes com hálux valgo doloroso, ao final de um ano o grupo operado teve desempenho superior nos desfechos de dor; a órtese apresentou efeito aos seis meses que não se sustentou aos doze; e nenhuma das duas alternativas não cirúrgicas corrigiu a deformidade.

Isso cria a tensão prática que o candidato precisa nomear. Os protocolos de encaminhamento exigem falha documentada do tratamento conservador antes de aceitar o caso, e a evidência diz que o tratamento conservador não corrige a deformidade — ele alivia sintoma por um período. As duas coisas convivem sem contradição se o conservador for entendido como o que de fato é: alívio enquanto se decide, e teste que separa quem tolera de quem não tolera.

O que se oferece nesse período tem alvo definido. Calçado de câmara anterior larga e salto baixo reduz o atrito sobre a proeminência medial; palmilha com alívio da segunda cabeça metatarsal trata a metatarsalgia de transferência; alongamento do tríceps sural reduz a sobrecarga do antepé. A órtese separadora de silicone alivia o atrito entre os dedos e não corrige deformidade fixa — vendê-la como corretiva é o erro que produz paciente decepcionado.

Antes de encaminhar, ajuste a expectativa com uma frase que precisa ser dita: a operação trata a dor e devolve calçado, e não garante o formato do pé nem promete que ele caberá em qualquer sapato. A queixa estética é legítima e merece acolhimento; ela apenas não é, sozinha, o que sustenta a indicação.

O papel que faz o pé andar na fila

Os protocolos de encaminhamento pedem conteúdo descritivo mínimo, e em pé eletivo o item que mais falta é o mesmo nos dois quadros: o que já foi feito, por quanto tempo e com que resultado. Encaminhamento que traz apenas a hipótese e a solicitação de avaliação especializada não sustenta prioridade nenhuma.

Na dor do calcanhar, escreva o padrão temporal — primeiro passo, melhora ao caminhar, piora ao final do dia —, o ponto exato da dor, o resultado da manobra de extensão do hálux, a medida da dorsiflexão do tornozelo com o joelho estendido e fletido, e o programa realizado: qual alongamento, com que frequência, por quantos meses, com que órtese e com qual resposta. Registre também quantas infiltrações o paciente já recebeu — informação que muda a conduta do serviço de referência.

No hálux valgo, escreva a localização da dor separando a proeminência medial da região plantar do antepé, o tempo de uso de calçado até doer, a presença de calosidade sob a segunda cabeça metatarsal, a posição do segundo dedo, a redutibilidade passiva do hálux e a repercussão profissional. Anexe a radiografia em carga nas incidências ântero-posterior e de perfil: sem carga, o pedido volta ou o planejamento sai errado.

Separe, por fim, o que não é eletivo. Ferida em pé de paciente com diabetes, sinais de infecção, dor súbita com incapacidade de apoio, e a suspeita de fratura por estresse com dor em repouso progressiva não pertencem a essa fila — a última porque o tempo de descarga muda o desfecho, e as duas primeiras porque o relógio é de dias.

04

As réguas, lado a lado

Nos dois quadros existe um achado de imagem chamativo que não indica nada: no calcanhar, o esporão; no antepé, o ângulo. Quem decide é o padrão da dor, a manobra que a reproduz, a dorsiflexão disponível no tornozelo e a falha documentada do tratamento conservador.

  1. 1Dor no calcanhar: pergunte se ela é máxima nos primeiros passos e se melhora ao caminhar. Sim para as duas é padrão mecânico; dor de repouso e noturna com rigidez matinal que não cede ao movimento é padrão inflamatório e desloca a investigação para espondiloartrite.
  2. 2Palpe a tuberosidade medial do calcâneo. Dor nesse ponto sustenta fascite plantar; dor à compressão medial e lateral do corpo do calcâneo levanta fratura por estresse.
  3. 3Estenda passivamente o hálux com o tornozelo neutro: reprodução da dor apoia o diagnóstico. Manobra negativa não afasta.
  4. 4Meça a dorsiflexão do tornozelo com o joelho estendido e com o joelho fletido. Melhora com o joelho fletido indica restrição do gastrocnêmio; limitação nas duas posições aponta sóleo ou tendão calcâneo.
  5. 5Pesquise parestesia plantar e percussão atrás do maléolo medial: positiva, investigue compressão nervosa em vez de fáscia.
  6. 6Tratamento inicial da fascite: alongamento específico da fáscia plantar várias vezes ao dia, incluindo antes do primeiro passo da manhã, mais alongamento do tríceps sural, órtese com apoio do arco medial e controle de carga e de peso. Imobilização noturna quando a dor matinal domina.
  7. 7Informe o prazo: melhora parcial em três meses e resolução da maioria dos casos em cerca de doze meses com tratamento consistente.
  8. 8Radiografia não é rotina na fascite: peça quando houver dúvida com fratura por estresse, lesão óssea ou alteração estrutural do retropé. Esporão calcâneo não confirma nem indica tratamento.
  9. 9Infiltração de corticosteroide: recurso pontual para dor que impede a execução do próprio tratamento, com limite explícito. Infiltrações repetidas expõem a ruptura da fáscia e a atrofia do coxim.
  10. 10Hálux valgo: separe a dor da proeminência medial da dor plantar sob o segundo metatarso; a segunda é metatarsalgia de transferência e costuma ser a mais incapacitante.
  11. 11Solicite radiografia dos pés em carga, ântero-posterior e perfil. Sem apoio, os ângulos vêm subestimados.
  12. 12A faixa de gravidade pelos ângulos orienta qual técnica corrige, não se o paciente deve operar. A indicação é dor persistente com limitação funcional após falha do conservador.
  13. 13Enquanto aguarda: calçado de câmara anterior larga e salto baixo, palmilha de alívio da segunda cabeça metatarsal e alongamento do tríceps sural. Órtese separadora alivia atrito e não corrige deformidade fixa.
  14. 14Em todo encaminhamento de pé eletivo, escreva o que já foi feito, por quanto tempo e com que resposta — é o item que mais falta e o que mais decide a fila.

Dor no calcanhar: separando pelo padrão, antes de qualquer exame

HipótesePadrão da dorAchado que decide
Fascite plantarMecânica; máxima no primeiro passo, melhora ao caminhar, piora ao fim do diaDor na tuberosidade medial do calcâneo; extensão passiva do hálux reproduz
Fratura por estresse do calcâneoProgressiva, presente também em repouso, após aumento abrupto de cargaDor à compressão medial e lateral do corpo do calcâneo
Compressão nervosa do túnel do tarsoQueimação e parestesia irradiadas para a plantaPercussão positiva atrás do maléolo medial
Entesite de espondiloartriteInflamatória; noturna, com rigidez matinal que não cede ao movimentoOutras entesites, dor lombar inflamatória, uveíte, psoríase, doença intestinal
Atrofia do coxim gordurosoAo apoio, no centro do calcanhar, pior em piso duroIdoso, ou antecedente de infiltrações repetidas

O que a diretriz de dor no calcanhar sustenta

MedidaAlvoObservação prática
Alongamento específico da fáscia plantarReestirar o tecido antes da cargaSuperou o alongamento apenas do tríceps sural em ensaio randomizado
Alongamento do tríceps suralRecuperar dorsiflexão do tornozeloCom o joelho fletido, se a restrição não for do gastrocnêmio
Órtese com apoio do arco medialReduzir a tensão na inserçãoPré-fabricada e sob medida têm desempenho semelhante a curto prazo
Imobilização noturnaImpedir acomodação em posição curtaRende mais quando a dor matinal é o sintoma dominante
Terapia manualMobilidade do tornozelo e do retropéCompõe o programa; não substitui o alongamento diário
Controle de pesoReduzir a carga por passoFator de risco com melhor sustentação em não atletas

Hálux valgo: as duas medidas em carga e as faixas

FaixaÂngulo do hálux valgoÂngulo intermetatarsalO que a faixa decide
NormalAbaixo de cerca de 15 grausAbaixo de cerca de 9 grausNada a corrigir
LeveAbaixo de 20 grausAbaixo de 11 grausCorreção mais distal, quando houver indicação por dor
ModeradaDe 20 a 40 grausDe 11 a 16 grausTécnica intermediária; planejamento pelo cirurgião
GraveAcima de 40 grausAcima de 16 grausCorreção mais proximal ou artrodese do nível instável

O que trata o quê no hálux valgo doloroso

QueixaMedida enquanto aguardaO que ela não faz
Dor na proeminência medial contra o calçadoCâmara anterior larga, salto baixoNão reduz o ângulo
Dor plantar sob a segunda cabeça metatarsalPalmilha com alívio localizadoNão restaura a carga do primeiro raio
Sobrecarga global do antepéAlongamento do tríceps suralNão corrige deformidade fixa
Atrito entre o hálux e o segundo dedoÓrtese separadora de siliconeNão corrige deformidade; não é tratamento corretivo

O tecido da fáscia plantar dolorosa crônica mostra degeneração sem infiltrado inflamatório; o nome consagrado promete uma inflamação que a histologia não encontra, e é por isso que anti-inflamatório não resolve o processo.

O esporão calcâneo nasce na inserção do flexor curto dos dedos, existe em pés sem dor e permanece na radiografia de quem melhorou por completo.

Radiografia do pé para avaliar hálux valgo só vale em carga: sem apoio, a deformidade se reduz parcialmente e os ângulos aparecem menores.

Os sesamoides mantêm a posição enquanto o primeiro metatarso desvia medialmente sobre eles; a imagem sugere o contrário.

A faixa de gravidade do hálux valgo escolhe a técnica cirúrgica, não a indicação; quem indica é a dor persistente com falha do tratamento conservador.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A infiltração de corticosteroide na fáscia plantar vale o que custa

Sim, como recurso de curto prazo

A diretriz de prática clínica dedicada à dor no calcanhar reconhece redução de dor a curto prazo com a infiltração local, e ela permanece entre as opções disponíveis para o paciente cuja dor impede a execução do próprio programa de alongamento e de carga.

Martin RL, Davenport TE, Reischl SF, McPoil TG, Matheson JW, Wukich DK, McDonough CM. Heel Pain — Plantar Fasciitis: Revision 2014. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. 2014;44(11):A1-A33.

Não, pelo risco de ruptura e de atrofia do coxim

A série de rupturas da fáscia plantar associadas à infiltração descreve o desfecho que a troca produz: perdido o tirante do arco longitudinal medial, o antepé se afasta do retropé e a carga migra para a coluna lateral, com dor de tratamento conservador muito menos eficaz. Some-se a atrofia do coxim gorduroso, pouco reversível.

Acevedo JI, Beskin JL. Complications of plantar fascia rupture associated with corticosteroid injection. Foot & Ankle International. 1998;19(2):91-97.

Na prova

As duas leituras convivem porque falam de prazos diferentes: uma mede semanas de alívio, a outra mede sequela. Se o enunciado descreve dor incapacitante que impede o programa e nenhuma infiltração prévia, a aplicação isolada cabe. Se o enunciado conta o número de infiltrações já realizadas, esse número é a pergunta, e a resposta é reconduzir ao tratamento de meses. Enunciado que traz prova esportiva próxima como justificativa está oferecendo o motivo errado.

O tratamento não cirúrgico do hálux valgo muda alguma coisa

Alivia por um período e não corrige

O ensaio randomizado de três braços que comparou cirurgia, órtese e observação em hálux valgo doloroso encontrou efeito da órtese aos seis meses que não se sustentou aos doze, superioridade da cirurgia nos desfechos de dor ao final de um ano, e ausência de correção da deformidade em qualquer dos braços não cirúrgicos.

Torkki M, Malmivaara A, Seitsalo S, Hoikka V, Laippala P, Paavolainen P. Surgery vs orthosis vs watchful waiting for hallux valgus: a randomized controlled trial. JAMA. 2001;285(19):2474-2480.

É etapa obrigatória antes do encaminhamento

Os protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada exigem a descrição do tratamento já realizado, com tempo e resposta, como conteúdo mínimo do encaminhamento eletivo. Sem essa etapa documentada, o caso não sustenta prioridade e tende a voltar.

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Protocolos de Encaminhamento da Atenção Básica para a Atenção Especializada. Volume III — Reumatologia e Ortopedia. Brasília, 2016 — conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento.

Na prova

Não há contradição, e é isso que se cobra. O tratamento não cirúrgico é alívio com prazo e teste de tolerância, não correção — e é também requisito administrativo do encaminhamento. Enunciado que pergunta o que corrige a deformidade tem uma resposta só. Enunciado que pergunta a conduta na unidade básica quer as medidas de alívio somadas ao registro do que foi tentado e por quanto tempo.

Chamar de fascite um processo que a histologia descreve como degeneração

É degeneração, não inflamação

O estudo histopatológico de espécimes retirados de pacientes operados por dor crônica no calcanhar descreve degeneração mixoide, necrose de colágeno e hiperplasia angiofibroblástica, sem infiltrado inflamatório significativo, e propõe a designação de fasciose.

Lemont H, Ammirati KM, Usen N. Plantar fasciitis: a degenerative process (fasciosis) without inflammation. Journal of the American Podiatric Medical Association. 2003;93(3):234-237.

O nome consagrado permanece em uso

A diretriz de prática clínica mantém a designação tradicional no próprio título e organiza sob ela as recomendações de tratamento, priorizando medidas de carga e de alongamento — ou seja, adota o nome antigo com a lógica terapêutica do processo degenerativo.

Martin RL, Davenport TE, Reischl SF, McPoil TG, Matheson JW, Wukich DK, McDonough CM. Heel Pain — Plantar Fasciitis: Revision 2014. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. 2014;44(11):A1-A33.

Na prova

A divergência é de nome, e a consequência é de conduta. Se o enunciado pergunta o achado histopatológico esperado, a resposta é degeneração sem inflamação. Se pergunta o tratamento de primeira linha, a resposta é carga e alongamento — nunca ciclo prolongado de anti-inflamatório, que trataria uma inflamação que o tecido não tem. Reconhecer que o nome permanece em uso evita descartar como errada a alternativa que o utiliza.

06

Caso resolvido

Homem de 42 anos, motorista e corredor amador, chega à unidade básica com dor plantar no calcanhar direito há sete meses. A dor é medial, máxima nos primeiros passos ao levantar da cama e depois de períodos sentado ao volante, melhora um pouco depois que ele caminha e piora ao final do dia. Começou depois que ele aumentou o volume semanal de corrida de dez para vinte e cinco quilômetros e trocou de tênis na mesma semana. Nega formigamento na planta, nega dor noturna de repouso, nega dor lombar inflamatória, olho vermelho ou diarreia crônica. Já fez dois ciclos de anti-inflamatório oral, usou palmilha pré-fabricada e recebeu duas infiltrações locais de corticosteroide no ano anterior, com alívio de poucas semanas em cada uma. Vem pedindo uma nova infiltração para poder participar de uma prova daqui a um mês.
Fechar o padrão antes de tocar no pé
Dor máxima no primeiro passo, alívio parcial ao caminhar e piora ao final do dia é padrão mecânico. As negativas que ele já deu — sem dor noturna de repouso, sem rigidez matinal que não cede ao movimento, sem lombalgia inflamatória, sem uveíte e sem diarreia crônica — afastam a entesite das espondiloartrites, que é o diferencial que mudaria a especialidade.
Confirmar com o dedo e com uma manobra
Palpe a tuberosidade medial do calcâneo: é ali que dói. Comprima o corpo do calcâneo medial e lateralmente ao mesmo tempo: se doer, entra fratura por estresse na conversa. Estenda passivamente o hálux com o tornozelo em posição neutra e observe se a dor é reproduzida. E percuta atrás do maléolo medial procurando parestesia irradiada.
Medir a panturrilha, que é o que ninguém mede
Compare a dorsiflexão do tornozelo com o joelho estendido e com o joelho fletido, mantendo o retropé neutro. Se a dorsiflexão melhora nitidamente com o joelho fletido, o gastrocnêmio está curto — e esse é o fator perpetuador mais tratável do quadro, além de ser o que explica por que ele piora ao final de um dia inteiro ao volante.
Nomear o que a mudança de carga fez
Aumento de dez para vinte e cinco quilômetros semanais com troca simultânea de calçado é o gatilho descrito na história, e ele é reversível. Reduza temporariamente o volume, substitua parte do treino por atividade de baixo impacto e reintroduza a carga progressivamente. Sem essa etapa, o alongamento sozinho trabalha contra uma sobrecarga que continua acontecendo todos os dias.
Recusar a terceira infiltração, e explicar por quê
Ele já recebeu duas, com alívio de poucas semanas em cada. Uma terceira soma risco de ruptura da fáscia — que colapsa o arco e transfere carga para a coluna lateral do pé — e de atrofia do coxim, sequela pouco reversível. Diga isso com estas palavras e ofereça o que de fato trata: o programa de meses.
Prescrever o que a diretriz sustenta
Alongamento específico da fáscia plantar várias vezes ao dia, começando antes do primeiro passo da manhã, ainda sentado na cama; alongamento do tríceps sural na posição que alcança o músculo curto; órtese com apoio do arco medial e amortecimento do retropé; imobilização noturna, já que a dor matinal domina o quadro; e controle de peso.
Explicar o relógio antes de ele perguntar
Melhora parcial em três meses e resolução da maioria dos casos em cerca de doze meses com tratamento consistente. Diga também que a prova de daqui a um mês não cabe nesse plano, e negocie um alvo esportivo mais distante em vez de simplesmente proibir — quem só proíbe perde o paciente para a infiltração de outro serviço.
Definir o retorno e o que muda a rota
Retorno em três meses com o programa registrado por escrito. Antes disso, se aparecer dor em repouso progressiva, dor à compressão lateral do calcâneo ou parestesia plantar, ele volta antes — porque nesse caso a hipótese muda e a ressonância passa a ter indicação. Sem resposta em três a seis meses de tratamento bem conduzido, o encaminhamento leva o programa realizado, o tempo e a resposta.
07

Agora feche você

Mulher de 54 anos, professora, trabalha o dia inteiro em pé. Procura a unidade básica por deformidade progressiva do primeiro dedo do pé direito há mais de dez anos, com piora da dor nos últimos três. Descreve dor medial sobre a proeminência da articulação da base do dedo, que aparece cerca de uma hora depois de calçar sapato fechado, com vermelhidão e queimação no local. Refere também dor plantar sob o antepé, com sensação de pisar em pedra e um calo doloroso. Diz que o segundo dedo passou a montar sobre o primeiro e atrita no calçado. Já usou órtese separadora de silicone, palmilha pré-fabricada e anti-inflamatório oral em ciclos, com alívio apenas parcial e transitório, e hoje só consegue trabalhar de sandália aberta. Mãe e irmã têm a mesma deformidade. Nega diabetes, gota, ferida ou febre. Traz uma radiografia do pé direito realizada com a paciente deitada, sem apoio, cujo laudo descreve desvio lateral do primeiro dedo.
Primeiro
Diga o que está errado com a radiografia trazida e o que exatamente você vai solicitar no lugar dela. Explique em uma frase por que essa diferença muda o número que aparece no laudo.
Segundo
Nomeie as duas medidas angulares que organizam a avaliação e diga entre quais estruturas cada uma é traçada. Diga também o que essas faixas de gravidade decidem e o que elas não decidem.
Terceiro
Separe as duas dores que a paciente descreve, nomeando a segunda, e explique o mecanismo que liga uma à outra. Diga qual das duas costuma incapacitar mais.
Quarto
Defina a indicação: com base em quê esta paciente é ou não candidata à correção cirúrgica. Enumere o que NÃO sustenta a indicação e diga o que o ensaio randomizado de três braços mostrou sobre o tratamento não cirúrgico.
Quinto
Escreva o que a paciente recebe enquanto aguarda e o conteúdo do encaminhamento, incluindo a informação que os protocolos exigem e que é a que mais falta nos papéis devolvidos.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Atribuir a dor ao esporão visto na radiografia O esporão nasce na inserção do flexor curto dos dedos, cresce no eixo de tração do osso e existe em pés que nunca doeram. Pacientes que melhoram por completo mantêm o achado inalterado no controle radiográfico. Ele é marcador de tração crônica, não gerador de dor, e prometer ao paciente a retirada do osso é oferecer o tratamento de um achado que não é o problema.
  2. 2Tratar dor de calcanhar de ritmo inflamatório como fascite Dor que acorda de madrugada, com rigidez matinal prolongada que não melhora ao começar a andar, acompanhada de outras entesites, de dor lombar inflamatória ou de manifestações extra-articulares, não é sobrecarga mecânica. Meses de alongamento nesse paciente atrasam o diagnóstico de uma doença sistêmica. A pergunta que separa leva cinco segundos: melhora quando o senhor começa a caminhar?
  3. 3Alongar sempre com o joelho estendido O gastrocnêmio cruza duas articulações e relaxa quando o joelho flete; o sóleo, não. Se a dorsiflexão do tornozelo melhora nitidamente com o joelho fletido, a restrição é do gastrocnêmio e o alongamento com o joelho estendido é o que alcança o alvo. Se a limitação persiste nas duas posições, insistir só com o joelho estendido deixa o sóleo e o tendão intocados, e o fator perpetuador permanece.
  4. 4Repetir infiltrações porque a primeira aliviou O alívio de semanas não indica que o processo degenerativo tenha sido tratado, e cada aplicação soma risco de ruptura da fáscia e de atrofia do coxim. Rompida a fáscia, o arco perde o tirante, a carga migra para a coluna lateral e o paciente passa a ter uma dor de tratamento mais difícil do que a inicial. A terceira infiltração pedida para viabilizar uma prova esportiva é o pedido que mais custa caro.
  5. 5Pedir radiografia do pé sem carga para avaliar joanete Com o pé suspenso a deformidade se reduz parcialmente e os ângulos aparecem menores do que são. O planejamento cirúrgico feito sobre esses valores subestima o que será encontrado, e o pedido costuma voltar do serviço de referência. A frase que resolve está no papel: radiografia dos pés em carga, ântero-posterior e perfil.
  6. 6Indicar cirurgia pelo ângulo As faixas de gravidade combinam o ângulo do hálux valgo e o intermetatarsal e servem para escolher a técnica de correção — quanto maior o intermetatarsal, mais proximal a osteotomia ou mais provável a artrodese do nível instável. Elas não indicam o procedimento. Quem indica é dor persistente com limitação funcional após falha do tratamento conservador, e deformidade acentuada em pé indolor não entra em fila cirúrgica.
  7. 7Ler o deslocamento dos sesamoides ao contrário Os sesamoides mantêm sua posição, presos ao aparelho tendíneo e ao ligamento intermetatarsal, enquanto o primeiro metatarso desliza medialmente por cima deles. Na radiografia isso aparece como subluxação lateral dos sesamoides, e o raciocínio invertido faz o candidato descrever um deslocamento que não aconteceu — e perder a compreensão do que a correção precisa desfazer.
  8. 8Tratar só a proeminência medial e ignorar a planta do antepé A queixa que o paciente traz é o atrito no calçado, e a que mais incapacita costuma ser a dor plantar sob a segunda cabeça metatarsal, com calosidade e sensação de pisar em pedra. Ela é consequência mecânica da falência do primeiro raio como receptor de carga. Consulta que não examina a planta do pé perde metade do quadro e produz um encaminhamento incompleto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O conjunto descrito é o padrão mecânico clássico da fascite plantar: dor máxima no primeiro passo após repouso, alívio parcial com a deambulação inicial e recrudescência ao final do dia ou após ortostatismo prolongado. A explicação é a acomodação do tecido em posição curta durante o repouso, seguida de reestiramento súbito na retomada da carga. A entesite das espondiloartrites faz o contrário: dói em repouso, acorda o paciente e cursa com rigidez matinal que não cede ao movimento inicial, elementos que o enunciado nega explicitamente. Compressão nervosa produz queimação e parestesia irradiadas para a planta, e não dor localizada ao apoio. Fratura por estresse dói de forma progressiva, inclusive em repouso, e responde à compressão medial e lateral do corpo do osso. Artropatia subtalar dói à inversão e à eversão do retropé, e não ao primeiro passo.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória sete coisas sem abrir o texto. O padrão temporal que define a dor mecânica do calcanhar, e a pergunta única que o separa do padrão inflamatório. O ponto exato da palpação que sustenta o diagnóstico. O mecanismo de molinete e a manobra que ele justifica. As duas posições do joelho no teste da dorsiflexão e o que cada resultado aponta. Os dois motivos pelos quais o esporão não é a causa da dor. O que a infiltração compra e o que ela pode custar. E as duas medidas radiográficas do hálux valgo, com a condição sem a qual elas não valem.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva cinco cenários em voz alta antes de conferir. Corredor com dor no calcanhar há sete meses que já fez duas infiltrações e pede a terceira para uma prova em um mês: o que você oferece e com que argumento. Paciente com dor no calcanhar que piora à noite, com rigidez matinal que não cede ao caminhar: qual o próximo passo. Paciente cuja dorsiflexão do tornozelo melhora com o joelho fletido: qual músculo está curto e como isso muda a prescrição. Professora com joanete, ângulo intermetatarsal de dezessete graus e pé que não dói: encaminha ou não, e por quê. E paciente com joanete doloroso e calosidade sob a segunda cabeça metatarsal: o que você mede, o que você prescreve enquanto aguarda e o que precisa estar escrito no encaminhamento.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

No próximo paciente com dor no calcanhar, faça três coisas antes de escrever qualquer receita. Pergunte se a dor melhora depois que ele começa a caminhar: a resposta separa sobrecarga mecânica de doença inflamatória sistêmica e cabe numa linha do prontuário. Meça a dorsiflexão do tornozelo com o joelho estendido e depois com o joelho fletido, porque é essa comparação que diz qual músculo alongar e quase ninguém a faz. E conte, com o paciente, quantas infiltrações ele já recebeu — esse número muda o que você pode oferecer e é a informação que costuma sumir entre uma consulta e outra. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Pé e tornozelo eletivos: o calcanhar que dói no primeiro passo e o dedo que empurra o vizinho — Preparatório para provas | OsceLabs