Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

Cerclagem: um colo de 24 mm, duas páginas, duas condutas

Cerclagem uterina: indicações por história, por ultrassom e por exame físico (insuficiência istmocervical)

O que transforma uma medida em indicação cirúrgica — e o que o mesmo manual responde de dois jeitos

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Em um exercício de interpretação, uma coorte retrospectiva de 141 cerclagens transvaginais comparou 71 procedimentos indicados por ultrassom com 70 indicados por exame físico. A idade gestacional mediana na cerclagem foi de 23,43 semanas nos dois grupos, com p de 0,561, e o parto antes de 34 semanas ocorreu em 22,54% contra 84,29%. A leitura correta desse par de resultados é:

02

Como esse tema cai

Este capítulo não repete o que o capítulo de trabalho de parto prematuro já resolve: colo curto isolado recebe progesterona vaginal, 200 mg à noite, até 36 semanas e 6 dias. Aqui a pergunta é a seguinte, e é a que a banca prefere — o que transforma uma medida em indicação cirúrgica.

Você vai sair com três coisas. A primeira é o diagnóstico de insuficiência istmocervical lido como história, não como milímetro, com o número que fecha o caso por antecedente. A segunda são as três indicações de cerclagem — por história, por ultrassom e por exame físico — com a janela em semanas de cada uma e o que cada uma exige da vinheta. A terceira é a contradição interna do documento nacional, que manda operar e medicar o mesmo colo em dois capítulos diferentes, e como reconhecer, pelo enunciado, qual dos dois o examinador abriu.

03

O que muda decisão

O colo curto é uma medida; a insuficiência istmocervical é uma história

O capítulo de trabalho de parto prematuro já resolveu o que fazer com um colo curto isolado: progesterona natural micronizada por via vaginal, 200 mg à noite, do diagnóstico até 36 semanas e 6 dias, e desde 16 semanas quando existe antecedente de parto pré-termo. Esse eixo tem dono e não se repete aqui. O que sobra sem dono é a pergunta seguinte, que a banca gosta muito mais: o que transforma uma medida em indicação cirúrgica.

A resposta começa por uma definição que quase nunca é lida com atenção. O Manual de Gestação de Alto Risco define insuficiência istmocervical como a dilatação indolor e recorrente do colo uterino, levando a perdas no segundo trimestre. Nenhum milímetro aparece na definição. Os três elementos são clínicos: a dilatação é indolor, é recorrente, e o desfecho é a perda de segundo trimestre. O manual detalha o quadro: a dilatação acontece na ausência de contrações, os sintomas são ausentes ou mínimos — dor leve em baixo ventre, sensação de peso, mudança do conteúdo vaginal, que passa de claro para muco rosado —, o exame físico mostra cervicodilatação incompatível com os sintomas referidos, o intervalo entre o início dos sintomas e o parto é curto, e o feto costuma chegar vivo ao hospital. Esse último detalhe é o que separa a insuficiência istmocervical do abortamento comum, em que o óbito precede a expulsão.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia diz a mesma coisa numa frase que vale decorar literalmente: o colo curto não faz diagnóstico de insuficiência istmocervical. A implicação existe, mas só numa direção. Um colo estruturalmente incompetente quase sempre encurta antes de dilatar, então quem tem a doença tende a ter a medida. O caminho de volta não fecha: o colo encurta por infecção ascendente, por distensão uterina, por contração, por hemorragia decidual e por causas que ninguém identifica — e nenhuma delas se corrige com sutura.

Dois círculos ligados por uma seta íntegra da insuficiência istmocervical para o colo curto e por uma seta cortada ao meio no sentido inverso.
A implicação vale numa direção só: a insuficiência istmocervical costuma encurtar o colo, mas o colo curto medido no ultrassom não devolve o diagnóstico.

A frequência ajuda a entender por que a definição é frouxa. A série brasileira mais citada sobre o assunto registra que a insuficiência istmocervical atinge cerca de 0,05 a 1,8% das gestações. Repare na amplitude: o limite superior é trinta e seis vezes o inferior. Uma doença cuja prevalência publicada varia trinta e seis vezes é uma doença sem critério objetivo — e é exatamente esse vácuo que a prova explora. A mesma fonte estima que ela responda por 16 a 20% dos abortamentos espontâneos de segundo trimestre, o que a torna, entre as causas de perda tardia, pequena em números absolutos e grande em consequência, porque é das poucas que têm tratamento.

Os fatores de risco listados pelo manual federal são quatro famílias. Trauma cervical: dilatação intempestiva do colo, aplicação de fórceps sem cervicodilatação completa, tratamento de neoplasia do colo. Malformações uterinas congênitas. Defeitos do colágeno, e aqui o manual nomeia as síndromes de Marfan e de Ehlers-Danlos. E o antecedente de encurtamento cervical em gestação anterior — com uma ressalva escrita no próprio texto, que boa parte das pacientes com encurtamento do colo não evolui com parto pré-termo, e o antecedente deve ser visto com cautela. Ou seja: o próprio documento que lista o colo curto como fator de risco avisa, na mesma linha, que ele não determina o desfecho.

As duas páginas do mesmo manual

Aqui está o achado que organiza este capítulo. O Manual de Gestação de Alto Risco traz, em dois capítulos diferentes, duas condutas diferentes para a mesma paciente.

Na seção de insuficiência istmocervical, o manual escreve que, para pacientes sem história típica, está recomendado o seguimento transvaginal do colo da 14ª à 26ª semana; se o colo estiver acima de 30 mm, o seguimento pode ser quinzenal; se estiver entre 25 e 30 mm, semanal; e abaixo de 25 mm, indica-se a cerclagem. Cinquenta páginas adiante, na seção de prematuridade, o mesmo manual escreve que o comprimento do canal cervical igual ou menor que 25 mm indica maior risco de parto pré-termo, e que nas gestantes com colo curto se recomenda progesterona natural micronizada por via vaginal, 200 mg à noite, do diagnóstico até 36 semanas e 6 dias.

Uma gestante sem antecedente obstétrico, com colo de 24 mm medido às 22 semanas, satisfaz as duas frases ao mesmo tempo. Pela primeira, opera. Pela segunda, recebe progesterona. As duas páginas pertencem ao mesmo documento, da mesma edição, do mesmo ministério.

Esquema com uma medida de 24 mm no topo se dividindo em duas colunas de larguras diferentes, a estreita levando a cerclagem e a larga a progesterona, ligadas por uma base comum.
A mesma medida de 24 mm cai em duas condutas diferentes do Manual de Gestação de Alto Risco: cerclagem no capítulo de insuficiência istmocervical, progesterona vaginal no capítulo de prematuridade.

A borda também difere. A seção de insuficiência istmocervical escreve abaixo de 25 mm, uma desigualdade estrita: 25,0 mm não entra, e cai na faixa de 25 a 30 que apenas encurta o intervalo de seguimento para semanal. A seção de prematuridade escreve igual ou menor que 25 mm, e aí 25,0 mm entra. A mesma medida exata é limite de baixo numa página e limite de cima na outra. Vinheta que traz um colo de exatos 25 mm e pergunta a conduta escolheu, deliberadamente, o ponto em que o documento não se sustenta.

E o manual não ignora a tensão: na seção de prematuridade, ao falar do seguimento seriado de quem tem antecedente de parto pré-termo, ele escreve que sinais muito sugestivos de insuficiência istmocervical podem surgir, cabendo à equipe assistencial julgar a necessidade de realizar ou não a circlagem cervical. Essa é a frase que a literatura secundária reproduz quando precisa falar de cerclagem — e ela devolve a decisão para o leitor. O ponto prático é que o próprio manual já tinha dado a régua numérica cinquenta páginas antes; ela simplesmente não está no capítulo em que o assunto é prematuridade.

Um detalhe de leitura que economiza tempo em prova e em busca de texto: o manual grafa a palavra de dois jeitos. Nas páginas de insuficiência istmocervical ele escreve cerclagem, com e; nas páginas de prematuridade e de gestação gemelar escreve circlagem, com i. As duas grafias nunca dividem a mesma página. Quem procura uma só encontra metade do que o documento diz.

As três indicações, e o número por trás de cada adjetivo

O manual federal nomeia as candidatas à cerclagem em três grupos: pacientes com história clássica e critérios de diagnóstico clínico; pacientes com história duvidosa ou fatores de risco somados a encurtamento de colo ao ultrassom; e pacientes com cervicodilatação ao exame físico. São exatamente as três indicações que a literatura internacional chama de indicada por história, indicada por ultrassom e indicada por exame físico. Reconhecer os três nomes resolve boa parte das questões, porque cada um pede uma coisa diferente da vinheta.

A indicação por história é a única que dispensa medir o colo, e é a que tem o número mais escondido. Textos secundários costumam escrever perdas de segundo trimestre indolores e repetidas — repetidas quantas? O manual responde: para pacientes com duas ou mais perdas gestacionais sugestivas, fecha-se o diagnóstico pelos antecedentes obstétricos. Duas. Não três. A distinção importa porque o critério clássico de abortamento de repetição usa outro corte, e a série brasileira do assunto registra a pergunta em voz alta: será realmente necessário que uma mulher apresente três ou mais perdas fetais para que só então passe a ser considerada de alto risco?

Fora da gestação, o manual admite dois exames auxiliares, e é honesto ao dizer que eles não são necessários. A histerossalpingografia avalia a largura do canal cervical e, principalmente, descarta malformação congênita associada. A prova da vela 8 consiste em tentar passar a vela de Hegar número 8 pelo canal cervical na segunda fase do ciclo; passagem fácil confirma o diagnóstico. Duas cautelas que o texto anota e que viram distrator: é preciso descartar gravidez, e a paciente não pode estar em uso de método contraceptivo hormonal, que falseia o teste.

O peso real desses exames na decisão é pequeno, e existe número brasileiro para isso. Na série de 123 gestações do serviço de Campinas, o antecedente obstétrico foi o indicador da cerclagem em 74,8% dos casos; 15,4% foram operadas por já terem sido operadas em gestações anteriores; conização prévia e malformação uterina responderam por 5,7%; e a prova da vela de Hegar positiva apareceu como indicador em 4,1%. Os quatro grupos somam 92, 19, 7 e 5 casos, ou seja, exatamente as 123 gestações da série, e as quatro porcentagens somam exatamente 100,0%. Três de cada quatro cerclagens brasileiras daquela casuística foram indicadas pela anamnese; uma em vinte e cinco pela vela de Hegar.

A indicação por ultrassom é a que exige as duas metades: a medida e o contexto. O manual federal exige história duvidosa ou fatores de risco somados ao encurtamento. O critério norte-americano citado na literatura brasileira pede evidência sonográfica de afunilamento cervical — orifício interno dilatado em relação ao externo — em paciente com história prévia de parto prematuro de segundo trimestre. A medida sozinha, em mulher sem história, é justamente o caso que cai nas duas páginas contraditórias da seção anterior.

A indicação por exame físico é a mais fácil de reconhecer e a mais perigosa de tratar: cervicodilatação ou protrusão de membranas na ausência de contrações e de trabalho de parto. O manual chama esse procedimento de cerclagem de urgência, admite realizá-la até 26 semanas, e avisa que ela se associa a maior risco. Antes dela é obrigatório descartar trabalho de parto e infecção. Em alguns casos pode ser necessária amniodrenagem e posição de Trendelenburg, principalmente quando há protrusão de membranas.

O que muda quando a indicação muda

Existe medida direta da diferença entre indicar por ultrassom e indicar por exame físico. Uma coorte retrospectiva de um único centro em Nanquim acompanhou 141 gestantes submetidas a cerclagem transvaginal, 71 indicadas por ultrassom e 70 por exame físico, e comparou os desfechos.

O achado que dá força à comparação é negativo: a idade gestacional na cerclagem foi a mesma nos dois grupos — mediana de 23,43 semanas, com p de 0,561. A diferença de desfecho, portanto, não vem de operar mais tarde. Vem do estado do colo na hora em que a decisão foi tomada.

Os desfechos: parto antes de 28 semanas em 8,45% do grupo indicado por ultrassom contra 47,14% do grupo indicado por exame físico; antes de 34 semanas, 22,54% contra 84,29%; sobrevida neonatal de 97,18% contra 75,71%; peso ao nascer de 2.785 g contra 1.634 g; e intervalo da cerclagem ao parto de 90,8 dias contra 37,3 dias. Corioamnionite histológica foi documentada em 12,68% do grupo de ultrassom e 35,71% do grupo de exame físico.

Esse último par explica os outros. O colo que já dilatou espontaneamente no segundo trimestre muitas vezes dilatou porque havia infecção ascendente, e a sutura não trata infecção. O grupo indicado por exame físico não é um grupo que recebeu uma operação pior: é um grupo que chegou depois, com o processo já instalado. O número mede o momento do diagnóstico, não a técnica. É por isso que o mesmo manual manda descartar infecção antes da cerclagem de urgência, e é por isso que a Federação Brasileira lista suspeita de corioamnionite entre as condições que contraindicam o procedimento de urgência, ao lado de dilatação cervical maior que 4 cm, colo muito esvaziado e vitalidade fetal comprometida.

A mesma coorte encontrou, em análise multivariada de fatores associados a parto antes de 34 semanas depois da cerclagem, que a gestação gemelar teve o maior efeito: razão de chances de 3,83, com intervalo de confiança de 95% entre 1,41 e 10,37. O intervalo é largo — a amostra tinha 30 gemelares —, mas não contém o 1, e a direção é consistente. Isso importa porque o manual federal, na seção de gestação gemelar, admite ponderar a circlagem quando há diagnóstico de incompetência istmocervical, sem qualificar o risco adicional que a gemelaridade impõe ao próprio procedimento.

Técnica: quatro nomes, e o que a prova cobra de cada um

A cerclagem é geralmente vaginal e consiste numa sutura em bolsa na transição da mucosa cervicovaginal, na altura do orifício cervical interno, evitando-se as 3 e as 9 horas — onde correm os vasos cervicais. Fio inabsorvível, agulha de grande calibre.

As duas técnicas que a prova brasileira cobra são a de McDonald e a de Shirodkar. A distinção é mecânica e cabe numa frase: a de McDonald faz apenas a sutura em bolsa; a de Shirodkar é tecnicamente mais difícil porque inclui dissecção da área paravesical, isto é, abre a mucosa para colocar o ponto mais alto. Não há evidência de superioridade de uma sobre a outra, e a mais usada é a de McDonald, por menor morbidade. O manual federal registra ainda a variante de McDonald modificada por Pontes, que acrescenta uma segunda sutura cerca de 0,5 cm abaixo da primeira.

A cronologia dos nomes cai em prova de história da medicina e ajuda a não confundir: Palmer descreveu a sua técnica em 1948, Shirodkar em 1955, McDonald em 1957 e Espinosa Flores em 1966. A técnica de Palmer é uma sutura em bolsa semelhante à de McDonald, com a diferença de que a agulha entra e sai pelo mesmo local, cuidando para que o fio não atravesse a luz do canal cervical — o que a torna apropriada para colos muito encurtados.

A escola brasileira, porém, opera outra coisa. Na casuística de Campinas, a técnica de Espinosa modificada por Bahamondes foi usada em 116 das 123 gestações, ou 94,3%; a de Palmer em 6, ou 4,9%; e a de McDonald em uma única, 0,8%. As três frequências somam exatamente 123 e exatamente 100%. A técnica de Espinosa consiste na transfixação direta dos ligamentos cardinais bilateralmente por via vaginal, sem dissecção, preferencialmente com fita cardíaca; Bahamondes acrescentou a transfixação dos lábios anterior e posterior do colo. Enunciado que descreve transfixação de paramétrios sem dissecção está falando da técnica latina, não da norte-americana.

A via abdominal, por laparotomia ou laparoscopia, cursa com maior morbidade e fica restrita a dois cenários nomeados pelo manual: ausência de condições anatômicas para a via vaginal, ou falha de um ou mais procedimentos vaginais anteriores. A Federação Brasileira nomeia a técnica abdominal de Benson-Durfee. Cerclagem abdominal proposta de primeira intenção, em colo íntegro e sem cirurgia prévia, é distrator.

O que a cerclagem não precisa, e quando o fio sai

A lista de coisas que o manual federal explicitamente dispensa é curta e rende muitos distratores, porque contraria o reflexo de quem imagina uma cirurgia obstétrica. Na cerclagem eletiva: não é necessário administrar antibióticos nem uterolíticos; não há indicação de repouso absoluto; a alta deve ser precoce, com prescrição de analgésicos. O que é necessário antes é ultrassonografia para avaliação do bem-estar e da morfologia fetal, e o rastreio de infecção vaginal por exame especular, citologia cervicovaginal e pesquisa de agente infeccioso quando indicado, tratando eventuais infecções com antecedência.

Um item que já tem dono no capítulo de isoimunização, e que aqui só precisa ser reconhecido: a cerclagem é a exceção nomeada pelo documento nacional na lista de eventos sensibilizantes — não se faz imunoprofilaxia anti-Rh por causa dela.

A janela eletiva é de 12 a 16 semanas, depois do rastreio morfológico de primeiro trimestre, e as duas fontes brasileiras concordam nesse ponto. Na série de Campinas, a idade gestacional média da cerclagem foi de 16 semanas completas, variando de 8 a 24, com 50,4% dos procedimentos realizados antes de 17 semanas.

A retirada do fio é o item em que as duas réguas brasileiras não dizem a mesma coisa. O manual federal escreve que os fios devem ser retirados ambulatorialmente no termo da gestação ou imediatamente em caso de trabalho de parto. A Federação Brasileira dá o número: ao redor de 37 semanas. Um escreve o adjetivo, o outro escreve a semana. Nas duas réguas, a retirada é antecipada por rotura de membranas, trabalho de parto ou alteração da vitalidade fetal; se a paciente tem indicação de cesariana, o fio pode sair depois do parto, com a paciente ainda anestesiada. Na rotura prematura pré-termo de membranas, o manual admite adiar a retirada apenas para completar corticoterapia — e essa palavra, apenas, é o que impede transformar o adiamento em conduta expectante indefinida.

A via de parto, diz o manual, é obstétrica. Cerclagem não é indicação de cesariana, e a série brasileira mostra por que a confusão existe: o índice de cesarianas naquela casuística foi de 40,6%, mas os próprios autores atribuem a taxa ao risco global daquelas gestações, e registram que 47,1% das cesarianas tiveram como indicação sofrimento fetal agudo detectado por cardiotocografia intraparto de rotina no serviço. O número descreve a prática do serviço, não uma regra da cerclagem.

Sobre progesterona depois da sutura, o manual federal é explícito e assimétrico: na cerclagem eletiva, a indicação é controversa e deve ser discutida com a paciente; na cerclagem de urgência, a prescrição é mais ampla. Sobre o pessário, o mesmo documento registra que o uso como forma de prolongar a gestação ainda não está bem sedimentado, faltando estudos capazes de determinar com clareza quando deve ser inserido — e vale lembrar que o pessário de prolapso genital, que tem recomendação de primeira linha em outro capítulo, é outro dispositivo, com outra finalidade.

Por que a série brasileira não prova eficácia — e o que ela prova

A maior casuística brasileira publicada sobre cerclagem eletiva descreve 123 gestações em 116 mulheres acompanhadas num serviço universitário. Vale ler o que ela mede e o que ela não pode medir, porque a leitura errada dela é um distrator clássico.

O que ela mede bem, por serem contagens simples: 73,1% das gestações tinham pelo menos um abortamento anterior, 65% tinham curetagem prévia e 48,7% tinham antecedente de parto prematuro. As complicações durante a gestação ocorreram em 69%, com trabalho de parto prematuro à frente, seguido de vaginites, rotura prematura pré-termo de membranas e óbito fetal. O índice de perdas gestacionais foi de 8,9%, correspondendo a 11 óbitos fetais, e houve 18% de partos prematuros.

O que ela não pode medir é eficácia, e os autores dizem isso: são necessários estudos prospectivos controlados para avaliar o real benefício da cerclagem. Mesmo assim, a discussão do artigo compara a taxa de sucesso de 68% nas gestações anteriores das mesmas mulheres com a de 87,9% nas gestações operadas, e lê a diferença como melhora. O problema é de construção, e é fácil de enxergar quando nomeado: as gestações anteriores são justamente as que fracassaram — é o fracasso delas que qualificou a mulher para a operação. O braço de comparação foi selecionado pelo desfecho que se quer comparar. Qualquer intervenção aplicada depois, inclusive nenhuma, exibiria melhora contra essa base.

Há um segundo par de números na mesma série que ensina a ler condicional nos dois sentidos. O antecedente de parto prematuro estava presente em 47,2% das gestantes operadas, contra 3,9% numa população controle do mesmo serviço. Lida no sentido em que foi medida, a frase é forte: quase metade de quem foi operada por insuficiência cervical já tinha parido prematuro, doze vezes a frequência da população geral daquele serviço. Lida ao contrário, ela falha: a maior parte das mulheres com parto prematuro anterior não tem insuficiência istmocervical. O número que descreve o caminho de volta é outro, e é bem menor — a própria discussão registra que o antecedente de parto prematuro espontâneo multiplica por duas vezes e meia o risco de novo parto pré-termo. Prevalência entre os operados e risco conferido pelo antecedente são grandezas diferentes, e a vinheta que oferece uma esperando a outra é armadilha deliberada.

Vale ainda uma advertência de leitura sobre desfechos perinatais nessa literatura. Na mesma série, a mortalidade perinatal aparece como 104 por mil, número muito acima do brasileiro da época — mas a coorte é de gestantes com perdas de repetição, encaminhadas para um serviço terciário. Taxa alta em coorte selecionada mede a seleção, não a intervenção. É o mesmo raciocínio que se aplica ao grupo indicado por exame físico da coorte chinesa: quando o critério de entrada é a gravidade, o desfecho ruim já estava contratado antes da primeira sutura.

04

Como decidir, em ordem

A sequência abaixo é a do manual federal, com o número que cada passo exige. Onde as fontes brasileiras divergem, as duas aparecem.

  1. 11. Leia a história antes de olhar o milímetro: perda de segundo trimestre com dilatação indolor e recorrente fecha o diagnóstico por antecedente a partir de duas perdas.
  2. 22. Com história clássica, programe a cerclagem eletiva entre 12 e 16 semanas, depois do morfológico de primeiro trimestre.
  3. 33. Sem história típica, o colo entra em seguimento transvaginal da 14ª à 26ª semana, com intervalo definido pela faixa da medida.
  4. 44. Colo curto isolado, sem história e sem fator de risco, é o campo da progesterona vaginal — e é onde as duas seções do manual federal se contradizem.
  5. 55. Dilatação ou protrusão de membranas sem contrações: cerclagem de urgência, depois de descartar trabalho de parto e infecção, respeitando o teto de idade gestacional da régua adotada.
  6. 66. Escolha a técnica pela familiaridade da equipe; guarde que McDonald é a bolsa simples e Shirodkar disseca a área paravesical.
  7. 77. Retire o fio no termo, ou antes se houver trabalho de parto, rotura de membranas ou comprometimento fetal.

As três indicações de cerclagem e o que cada uma exige da vinheta

IndicaçãoO que a vinheta precisa trazerJanelaO que NÃO é exigido
Por história (clássica)Duas ou mais perdas de segundo trimestre com dilatação indolor, sem contrações; feto costuma nascer vivo12 a 16 semanas, após rastreio morfológico de 1º trimestreMedida do colo; histerossalpingografia; prova da vela 8
Por ultrassomHistória duvidosa ou fator de risco MAIS encurtamento do colo; critério norte-americano pede afunilamento cervical com parto pré-termo de 2º trimestre prévioSeguimento transvaginal da 14ª à 26ª semanaDilatação ao toque
Por exame físico (urgência)Cervicodilatação ou protrusão de membranas SEM contrações e sem trabalho de partoAté 26 semanas pelo manual federal; até 25 semanas pela Federação BrasileiraMedida ultrassonográfica prévia

O que a medida do colo dispara, por faixa e por página do manual

MedidaSeção de insuficiência istmocervicalSeção de prematuridade
Acima de 30 mmSeguimento transvaginal quinzenalSem conduta específica
Entre 25 e 30 mmSeguimento transvaginal semanalSem conduta específica
Exatamente 25,0 mmFora do corte (o texto diz abaixo de 25 mm): seguimento semanalDentro do corte (o texto diz igual ou menor que 25 mm): progesterona
Abaixo de 25 mmIndica-se a cerclagemProgesterona micronizada vaginal, 200 mg à noite, até 36 semanas e 6 dias

Antes, durante e depois: o que o manual dispensa e o que exige

MomentoExigidoDispensado explicitamente
Antes da eletivaUltrassonografia de bem-estar e morfologia; rastreio e tratamento prévio de infecção vaginalAntibiótico de rotina; uterolítico de rotina
Depois da eletivaAlta precoce com analgésico; progesterona é decisão compartilhadaRepouso absoluto; imunoprofilaxia anti-Rh
Antes da urgênciaDescartar trabalho de parto e infecção; considerar amniodrenagem e Trendelenburg se membranas protrusasAntibiótico e uterolítico de rotina
Retirada do fioNo termo pelo manual federal; ao redor de 37 semanas pela Federação BrasileiraCesariana pelo simples fato de ter sido operada

A cerclagem é o único item nomeado como exceção na lista de eventos sensibilizantes para imunoprofilaxia anti-Rh — o detalhe é cobrado no capítulo de isoimunização e aparece aqui só para ser reconhecido.

Dilatação cervical maior que 4 cm, colo muito esvaziado, suspeita de corioamnionite e vitalidade fetal comprometida são as condições que a Federação Brasileira lista contra a cerclagem de urgência.

Contrações de trabalho de parto, sangramento e alteração do bem-estar fetal são contraindicações absolutas em qualquer indicação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Colo abaixo de 25 mm em gestante sem história típica: operar ou medicar?

Indica-se a cerclagem. O seguimento transvaginal vai da 14ª à 26ª semana e a faixa abaixo de 25 mm dispara o procedimento cirúrgico.

Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022 — seção de insuficiência istmocervical (item 4.2.6.1, diagnóstico).

Recomenda-se progesterona natural micronizada vaginal, 200 mg à noite, do diagnóstico até 36 semanas e 6 dias, com medidas de estilo de vida e vigilância de infecções; a cerclagem fica a critério da equipe assistencial.

Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022 — seção de prematuridade (capítulo 6, rastreamento e prevenção).

Na prova

As duas posições estão no mesmo documento, o que impede resolver a questão dizendo qual fonte prevalece. O que identifica o recorte é o cenário da vinheta: enunciado ambientado em pré-natal de rotina, falando de rastreio, ultrassom morfológico de segundo trimestre e prevenção de prematuridade, está na régua da progesterona; enunciado que descreva perdas anteriores, dilatação indolor ou encaminhamento a serviço de alto risco por incompetência cervical está na régua da cerclagem. Vinheta que traga colo curto e nenhum antecedente, sem qualquer outro sinal de recorte, é ambígua por construção do próprio manual.

Até que idade gestacional se pode fazer a cerclagem de urgência

Até 26 semanas. O texto acrescenta que o procedimento nessa situação se associa a maior risco e exige descartar trabalho de parto e infecção antes.

Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022 — seção de tratamento da insuficiência istmocervical.

Até 25 semanas, se a janela eletiva de 12 a 16 semanas tiver sido perdida.

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia — material sobre diagnóstico e tratamento da insuficiência istmocervical, publicado em 05/12/2018.

Na prova

A diferença é de uma semana e só decide questão que traga idade gestacional entre 25 e 26 semanas — faixa que o examinador escolhe de propósito quando quer o documento. Enunciado ambientado em serviço público, citando o manual federal ou usando o vocabulário de gestação de alto risco, tende ao teto de 26; enunciado com linguagem de sociedade e ênfase na janela eletiva perdida tende ao de 25. Fora dessa faixa estreita, as duas réguas dão a mesma resposta.

Quando retirar o fio da cerclagem

No termo da gestação, ambulatorialmente, ou imediatamente em caso de trabalho de parto; na rotura prematura pré-termo de membranas, adia-se apenas para corticoterapia.

Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022 — seção de tratamento da insuficiência istmocervical.

Ao redor de 37 semanas de gravidez, antecipando se houver rotura de membranas, trabalho de parto ou alteração da vitalidade fetal.

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia — material sobre diagnóstico e tratamento da insuficiência istmocervical, publicado em 05/12/2018.

Na prova

As duas dizem a mesma coisa clinicamente; o que muda é que uma escreve o adjetivo e a outra escreve a semana. Alternativa que ofereça 34 ou 36 semanas está fora das duas réguas brasileiras, e alternativa que mande esperar o início do trabalho de parto inverte a lógica: o fio sai antes justamente para que o colo não se rasgue quando as contrações vierem.

Cerclagem em gestação gemelar com colo curto

Medidas profiláticas devem ser ponderadas quando o colo estiver abaixo de 25 mm, entre elas repouso, progesterona e até a circlagem, se houver diagnóstico de incompetência istmocervical.

Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022 — capítulo de gestação múltipla, rastreamento e prevenção da prematuridade.

Em coorte de 141 cerclagens transvaginais, a gestação gemelar foi o fator com maior razão de chances para parto antes de 34 semanas depois do procedimento: 3,83, com intervalo de confiança de 95% de 1,41 a 10,37; os próprios autores registram que a evidência sobre a necessidade de cerclagem indicada por exame físico em gemelares é esparsa.

Huang L. et al. Effectiveness and pregnancy outcomes of ultrasound-indicated and physical examination-indicated cervical cerclage. BMC Pregnancy and Childbirth, 2024, coorte retrospectiva de centro único, Nanquim.

Na prova

O manual brasileiro condiciona a circlagem em gemelar ao diagnóstico de incompetência istmocervical, e não ao colo curto — a oração condicional entre parênteses é o detalhe que a maioria dos leitores pula. Vinheta de gemelar com colo curto e sem história de perda indolor está pedindo que se reconheça essa condicional, não que se ofereça a sutura. Se o enunciado citar literatura internacional ou falar em risco de prematuridade após a cerclagem, o recorte é o da coorte.

Progesterona depois da sutura

Na cerclagem eletiva, a indicação da progesterona é controversa e deve ser discutida com a paciente.

Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022 — tratamento da insuficiência istmocervical, cerclagem eletiva.

Na cerclagem de urgência, a prescrição de progesterona é mais ampla, podendo-se ainda orientar repouso relativo e abstinência sexual conforme o caso.

Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022 — tratamento da insuficiência istmocervical, cerclagem de urgência.

Na prova

Não é contradição, é assimetria deliberada dentro do mesmo texto, e o que a separa é a indicação que levou à sutura. Alternativa que afirme categoricamente que toda paciente cerclada recebe progesterona ignora a palavra controversa na eletiva; alternativa que negue a progesterona em qualquer cenário ignora a ampliação na urgência.

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Caso resolvido

Gestante de 27 anos, terceira gestação, nenhum filho vivo, com 13 semanas e 4 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre. Relata duas perdas anteriores, uma com 19 semanas e outra com 21 semanas. Nas duas, conta que perdeu líquido de repente, sem dor e sem contração antes, e que o bebê nasceu vivo e morreu logo depois. Entre as duas perdas fez uma curetagem. Nega cirurgia sobre o colo. Exame especular sem corrimento anormal; toque com colo posterior, fechado, de consistência habitual. Ultrassonografia morfológica de primeiro trimestre feita há quatro dias, sem malformações maiores, com comprimento do colo de 34 mm. Pergunta se pode fazer o ponto, porque uma prima fez.
Passo 1 — Feche o diagnóstico pela história, não pelo milímetro
Duas perdas de segundo trimestre, com perda de líquido súbita, sem dor e sem contração prévia, e feto nascido vivo, é a história clássica de insuficiência istmocervical. O manual federal fecha o diagnóstico por antecedente obstétrico a partir de duas ou mais perdas gestacionais sugestivas — ela tem exatamente duas, e isso basta. O colo de 34 mm não afasta nada: está acima de 30 mm, e nessa faixa a única consequência prevista seria seguimento quinzenal em quem ainda não tem diagnóstico. Ela já tem.
Passo 2 — Reconheça qual das três indicações é a dela
Esta é indicação por história clássica, o primeiro dos três grupos nomeados pelo manual. A indicação por ultrassom exigiria história duvidosa ou fator de risco somado a encurtamento, e a indicação por exame físico exigiria cervicodilatação ou protrusão de membranas. Nenhuma das duas se aplica: o toque mostra colo fechado. Distinguir isso muda a janela e o preparo.
Passo 3 — Marque a janela e o que precisa estar pronto antes
A cerclagem eletiva é feita entre 12 e 16 semanas, depois do rastreio morfológico de primeiro trimestre. Ela está com 13 semanas e 4 dias e já fez o morfológico há quatro dias, sem malformações maiores: a janela está aberta e a condição prévia, cumprida. Antes do procedimento faltam o rastreio de infecção vaginal por exame especular, citologia cervicovaginal e pesquisa de agente infeccioso quando indicado, tratando eventual infecção com antecedência. O especular já foi feito e está limpo.
Passo 4 — Não acrescente o que o manual dispensa
Antibiótico, uterolítico e repouso absoluto estão explicitamente fora. A alta deve ser precoce, com analgésico. A progesterona nessa situação é controversa pelo manual e entra como decisão compartilhada, não como prescrição automática. E, se ela for Rh negativo, não se faz imunoprofilaxia anti-Rh por causa da cerclagem: é a exceção nomeada na lista de eventos sensibilizantes.
Passo 5 — Combine desde já a saída do fio
Programe a retirada ambulatorial no termo — a Federação Brasileira escreve ao redor de 37 semanas —, e explique as três situações que antecipam: trabalho de parto, rotura de membranas e alteração da vitalidade fetal. Deixe claro que a via de parto continua sendo obstétrica, e que o ponto sair antes é o que impede o colo de rasgar se as contrações vierem cedo.
Passo 6 — Responda à pergunta que ela fez
A prima pode ter feito o ponto por outro motivo, e o motivo é o que decide. Nesta paciente a indicação é a história, não a medida. Vale dizer isso em voz alta: se ela tivesse chegado com colo curto e nenhuma perda anterior, a conversa seria outra, e o próprio documento nacional trataria o caso de dois jeitos diferentes conforme o capítulo consultado.
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Agora feche você

Duas gestantes são avaliadas no mesmo ambulatório de alto risco na mesma tarde. A primeira tem 24 anos, primeira gestação, 22 semanas e 1 dia, veio encaminhada porque a ultrassonografia morfológica de segundo trimestre mediu comprimento do colo de 25,0 mm. Não tem perda anterior, não fez cirurgia sobre o colo, está assintomática, toque com colo fechado e posterior. A segunda tem 33 anos, quarta gestação, 24 semanas e 3 dias, gemelar dicoriônica, refere sensação de peso vaginal há dois dias e aumento de secreção clara; ao especular vê-se o colo entreaberto com membranas visíveis no orifício externo, sem sangramento; não há contrações palpáveis nem dor; temperatura axilar de 36,9 graus, frequência cardíaca materna de 88 por minuto, leucócitos de 11.200 por microlitro, proteína C reativa de 8 mg/L. Ela teve um parto com 34 semanas na segunda gestação e dois partos a termo.
Passo 1
Para a primeira gestante, diga em qual faixa a medida de 25,0 mm cai em cada uma das duas seções do manual federal, citando a desigualdade que cada seção escreve, e conclua qual conduta cada uma prescreveria. Explique por que a resposta muda conforme o capítulo consultado e o que na vinheta, se houvesse, resolveria a ambiguidade.
Passo 2
Ainda para a primeira, classifique o caso segundo as três indicações nomeadas pelo manual e justifique por que ele não preenche nenhuma delas de forma completa. Diga qual informação da anamnese, se estivesse presente, transformaria o caso em indicação por ultrassom.
Passo 3
Para a segunda gestante, nomeie a indicação em que o quadro se encaixa e liste, um a um, os itens que precisam ser afastados antes de qualquer procedimento. Diga qual é o teto de idade gestacional pelo manual federal e pela Federação Brasileira, e se ela está dentro ou fora de cada um.
Passo 4
Avalie as quatro condições que a Federação Brasileira lista como impeditivas da cerclagem de urgência e diga, com os dados fornecidos, quais estão presentes, quais estão ausentes e quais não podem ser julgadas com o que se tem. Diga qual exame ou achado resolveria cada pendência.
Passo 5
Considere a gemelaridade da segunda gestante. Explique o que o manual federal escreve sobre circlagem em gestação múltipla, com atenção à oração condicional do texto, e confronte com o que a coorte de 141 cerclagens encontrou sobre gemelaridade e parto antes de 34 semanas, citando a razão de chances e o intervalo de confiança.
Passo 6
Para cada uma das duas, escreva em duas frases o que você diria à paciente sobre o que a sutura pode e o que ela não pode fazer, e programe a retirada do fio no cenário em que a cerclagem for realizada.
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar colo curto isolado como diagnóstico de insuficiência cervical A frase a decorar é a da Federação Brasileira: o colo curto não faz diagnóstico de insuficiência istmocervical. A medida é fator de risco para prematuridade por várias causas, e a maioria delas não se corrige com sutura. A implicação vale da doença para a medida, não da medida para a doença.
  2. 2Procurar a palavra com uma grafia só O manual federal escreve cerclagem, com e, nas páginas de insuficiência istmocervical, e circlagem, com i, nas de prematuridade e de gestação gemelar. As duas grafias nunca dividem a mesma página. Quem busca uma delas no documento perde metade do que ele diz — inclusive a única frase que menciona o procedimento em gemelares.
  3. 3Confundir cerclagem com a cerclagem arterial Em cardiologia pediátrica, cerclagem arterial é a operação de Jatene, a troca das grandes artérias na transposição. Mesma palavra, nada a ver: nem o órgão, nem a idade, nem o objetivo. Enunciado com recém-nascido cianótico e cerclagem arterial está em outro capítulo.
  4. 4Achar que repetidas quer dizer três O manual fecha o diagnóstico por antecedente obstétrico a partir de duas ou mais perdas gestacionais sugestivas. O corte de três perdas pertence à investigação de abortamento de repetição, que é outra régua, com outra finalidade.
  5. 5Prescrever antibiótico, uterolítico ou repouso absoluto depois da sutura O manual dispensa os três de forma explícita na cerclagem eletiva e manda dar alta precoce com analgésico. O que ele exige antes é ultrassonografia de bem-estar e morfologia e o tratamento prévio de infecção vaginal — o inverso do reflexo de medicar depois.
  6. 6Ler taxa de sucesso comparada às gestações anteriores como prova de eficácia A comparação entre 68% de sucesso nas gestações anteriores e 87,9% nas operadas usa como base justamente as gestações que fracassaram, porque é o fracasso delas que indica a operação. O braço de comparação foi selecionado pelo desfecho, e os próprios autores pedem estudos prospectivos controlados para avaliar o benefício real.
  7. 7Ler desfecho ruim de grupo grave como falha da técnica Na coorte de Nanquim, o grupo indicado por exame físico teve 84,29% de parto antes de 34 semanas contra 22,54% do grupo indicado por ultrassom, com a mesma idade gestacional mediana na cerclagem. A diferença acompanha a corioamnionite histológica, 35,71% contra 12,68%: o grupo chegou depois e com infecção instalada. O número mede o momento do diagnóstico.
  8. 8Marcar cesariana só porque houve cerclagem A via de parto é obstétrica. A taxa de 40,6% de cesarianas da série brasileira vem do risco global daquelas gestações e de cardiotocografia intraparto de rotina no serviço, com 47,1% das cesáreas indicadas por sofrimento fetal agudo — é descrição de prática local, não regra do procedimento.
  9. 9Trocar o pessário cervical pelo pessário de prolapso São dispositivos diferentes com finalidades diferentes. O pessário como forma de prolongar a gestação é registrado pelo manual como ainda não sedimentado, faltando estudos que definam quando inseri-lo; o pessário do prolapso genital tem recomendação de primeira linha em outro capítulo. A palavra é a mesma, a decisão não.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

As proporções indicam associação entre o grupo de indicação e o desfecho. Medianas de 23,43 semanas e p=0,561 não demonstram equivalência das distribuições de idade gestacional nem medem o intervalo entre início da indicação e cirurgia. Gravidade e outros confundidores podem participar da associação, mas não foram isolados por esses números. Não se pode concluir que uma técnica causou o desfecho ou que a cerclagem deva ser abandonada.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as três indicações pelo nome — por história, por ultrassom e por exame físico — e, para cada uma, o que a vinheta precisa trazer e a janela em semanas. Depois escreva as duas condutas que o manual federal dá para um colo de 24 mm sem história típica e diga em que capítulo cada uma está.

em 30 dias

Monte três colunas para um mesmo caso de colo de 25,0 mm às 22 semanas: o que diz a seção de insuficiência istmocervical, o que diz a seção de prematuridade e o que diz a Federação Brasileira. Depois refaça o exercício acrescentando à vinheta duas perdas de segundo trimestre com dilatação indolor e observe quantas das três colunas mudam de resposta.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 30 anos, com 15 semanas, chega ao ambulatório de alto risco encaminhada por duas perdas anteriores, uma com 20 e outra com 22 semanas, e traz consigo um resumo de alta antigo. Está angustiada, diz que ninguém explicou por que perdeu os dois bebês e que já ouviu que é do útero, que é da tireoide e que é azar. Colha a história dirigida às características das perdas, decida se ela tem indicação de cerclagem e por qual das três vias, explique em linguagem comum o que a sutura faz e o que ela não faz, e combine com ela a janela do procedimento e o momento de retirar o ponto. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Cerclagem uterina – Cerclagem: um colo de 24 mm, duas páginas, duas condutas — Preparatório para provas | OsceLabs