Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

Trabalho de parto e partograma

Mecanismo e fases clínicas do trabalho de parto (partograma)

A prova quase nunca pergunta o que é o partograma. Ela entrega uma parturiente com hora, dilatação e altura da apresentação e cobra a decisão: esperar, romper a bolsa, iniciar ocitocina ou chamar o obstetra.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Gestante de 30 anos, na 39ª semana, é admitida na maternidade em trabalho de parto. Ao exame, colo com dilatação de 5 cm, esvaecido, com contrações uterinas rítmicas de 3 em 10 minutos. Segundo a evolução clínica clássica, em qual período do trabalho de parto essa paciente se encontra? Assinale a alternativa correta.

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Como esse tema cai

Trabalho de parto é um tema de relógio. Quase toda questão entrega uma hora, uma dilatação, uma altura de apresentação e um padrão de contrações, e pergunta o que fazer agora. O erro que reprova não é desconhecer a fisiologia — é acelerar. A parturiente que ainda não chegou aos 4 cm é mandada para casa e vira internação; a que cruzou a linha de alerta é levada para a cesariana antes da amniotomia; a que está no segundo período passivo é empurrada a fazer força uma hora antes da hora. Cada um desses passos tem um número escrito num documento brasileiro, e a banca cobra o número.

O documento é a Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal, aprovada pela Portaria SAS/MS nº 353, de fevereiro de 2017. Ela tem 195 recomendações numeradas e é o que o Ministério da Saúde publica hoje na página de protocolos e diretrizes. É um documento adaptado do guideline britânico do NICE de 2014 — e essa filiação explica, sozinha, quase todas as diferenças entre a régua brasileira e a da OMS, que reescreveu suas recomendações de parto em 2018, um ano depois. Onde este capítulo diz "a Diretriz Nacional", é dela que se trata.

O recorte aqui é a gestante de risco habitual, feto único, cefálico, a termo, em trabalho de parto espontâneo. Indução de parto, cesariana, fórceps e vácuo, cardiotocografia intraparto e distócia de ombro têm capítulos próprios e não são invadidos — o que entra deles aqui é só o gatilho: o momento em que a Diretriz manda parar de conduzir e chamar quem opera.

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O que muda decisão

O diagnóstico que decide a internação: fase de latência ou trabalho de parto estabelecido

A Diretriz Nacional separa duas coisas que a linguagem cotidiana mistura. Fase de latência do primeiro período é o tempo, não necessariamente contínuo, em que há contrações uterinas dolorosas E alguma modificação cervical, incluindo apagamento e dilatação até 4 cm. Trabalho de parto estabelecido é quando há contrações uterinas regulares E dilatação cervical progressiva a partir dos 4 cm.

Repare no que essa segunda definição faz: ela junta duas exigências. Contração regular sozinha não fecha o diagnóstico, e dilatação de 4 cm encontrada num toque isolado também não — o que fecha é a progressão. Uma mulher com 4 cm parada há seis horas e contrações irregulares não está em trabalho de parto estabelecido; está em pródromo.

A consequência prática é a conduta de porta. Se a mulher procura a maternidade e não está em trabalho de parto estabelecido, com 3 cm ou menos de dilatação, a Diretriz manda ter em mente que ela pode estar tendo contrações dolorosas sem mudança cervical, oferecer apoio e analgesia adequada se necessário, e encorajá-la a permanecer ou retornar para casa, levando em conta a distância até o local do parto e o risco de o parto acontecer sem assistência. Com 4 cm ou mais de dilatação, admitir para assistência.

Esse é o ponto mais cobrado do tema inteiro, porque é contraintuitivo para quem aprendeu na enfermaria a internar toda gestante que chega contraindo. A internação precoce não é neutra: os estudos citados na própria Diretriz mostram que admitir na fase de latência aumenta uso de ocitocina, peridural, monitoração eletrônica contínua e cesariana, sem ganho em desfecho neonatal.

Os períodos do parto e o que muda em cada um

O primeiro período vai do início do trabalho de parto estabelecido até a dilatação completa. O segundo vai da dilatação completa até o nascimento. O terceiro vai do nascimento até a expulsão da placenta e das membranas. A prática brasileira ainda nomeia um quarto período, a primeira hora após a dequitação, em que se vigia o globo de segurança de Pinard e o sangramento — a Diretriz Nacional não o define como período, mas manda observação rigorosa da coloração, da respiração, da sensação de bem-estar e da perda sanguínea logo após a dequitação.

Cada período tem uma pergunta própria. No primeiro, a pergunta é se o colo está dilatando. No segundo, é se a apresentação está descendo e rodando. No terceiro, é se a placenta descolou e se o útero contraiu. Questão que confunde os períodos costuma fazê-lo justamente aí: oferece uma parada de descida com dilatação completa e espera que o candidato aplique a régua do primeiro período, que já não vale.

O segundo período tem uma subdivisão que a Diretriz define com todas as letras e que vale ponto. Fase inicial ou passiva: dilatação total do colo sem sensação de puxo involuntário, ou parturiente com analgesia e cabeça fetal ainda relativamente alta na pelve. Fase ativa: dilatação total do colo com cabeça do bebê visível, contrações de expulsão, ou esforço materno ativo após a confirmação da dilatação completa na ausência de contrações de expulsão. Todos os relógios do segundo período correm a partir do início da fase ativa — não a partir do toque que encontrou 10 cm.

Estática fetal: o vocabulário que a vinheta usa para esconder a resposta

Antes de ler um partograma é preciso ler a frase que descreve o feto. Situação é a relação entre o maior eixo do feto e o maior eixo do útero: longitudinal, transversa ou oblíqua. Apresentação é a região fetal que ocupa a área do estreito superior: cefálica, pélvica ou córmica. Atitude é o grau de flexão da cabeça — na apresentação cefálica fletida, que é a normal, o ponto de referência é o lambda, ou occipital.

Posição é o lado materno para o qual o dorso fetal está voltado, direito ou esquerdo. Variedade de posição é a combinação do ponto de referência fetal com um ponto da pelve materna, e é o que aparece escrito no partograma: OEA para occípito-esquerda-anterior, ODA para occípito-direita-anterior, OP para occípito-púbica, os para occípito-sacra. As variedades anteriores, OEA e ODA, são as mais frequentes na insinuação e as de melhor prognóstico. A occípito-sacra persistente é a que prolonga o segundo período e a que mais frequentemente termina em parto instrumental.

Essa nomenclatura não é enfeite: a vinheta que diz "ODP, De Lee -1, dilatação 8 cm, sem progressão da descida há duas horas" está descrevendo uma variedade posterior alta, e a conduta correta depende de reconhecer que a rotação ainda não aconteceu.

Altura da apresentação: De Lee, Hodge e o que significa estar insinuada

A altura da apresentação é medida em centímetros acima ou abaixo do plano das espinhas isquiáticas. As espinhas são o zero de De Lee. Acima delas os valores são negativos, de -1 a -5; abaixo, positivos, de +1 a +5. É uma escala ordinal de verdade, e é a que o círculo do partograma acompanha.

Insinuação é a passagem do maior diâmetro da apresentação pelo estreito superior da bacia, e clinicamente corresponde ao plano 0 de De Lee. O sistema de Hodge diz a mesma coisa por outro caminho, em quatro planos: o I plano vai da borda superior da sínfise púbica ao promontório; o II passa pela borda inferior da sínfise; o III passa pelas espinhas isquiáticas; o IV, pela ponta do cóccix. A equivalência que a prova cobra é uma só: plano 0 de De Lee igual a III plano de Hodge igual a apresentação insinuada.

Apresentação cefálica alta, em -3 ou acima, ou móvel em uma nulípara, é um dos gatilhos que a Diretriz Nacional lista para transferir a mulher para uma maternidade hospitalar ou solicitar assistência de obstetra. Não é uma curiosidade anatômica: é critério de encaminhamento.

O mecanismo do parto: seis tempos, e o que cada um resolve

O mecanismo do parto é a sequência de movimentos passivos que o feto executa para vencer um canal que muda de eixo. A cabeça entra na pelve num diâmetro e sai em outro, e cada tempo do mecanismo existe para resolver uma incompatibilidade geométrica específica.

Insinuação: a cabeça flete ao máximo, trocando o diâmetro occipitofrontal, de cerca de 12 cm, pelo suboccipitobregmático, de cerca de 9,5 cm, e se orienta num dos diâmetros oblíquos do estreito superior, que são os maiores. É por isso que a flexão é parte da insinuação e não um tempo à parte: sem fletir, o diâmetro que se apresenta não cabe.

Descida: movimento contínuo que acompanha todos os demais e que é o que o círculo do partograma registra. Rotação interna: já na escavação, o occipital roda em direção à sínfise púbica, levando a sutura sagital do diâmetro oblíquo para o anteroposterior, porque o estreito inferior tem seu maior diâmetro no sentido anteroposterior. É a rotação que transforma uma OEA em OP.

Desprendimento cefálico: com o occipital apoiado sob a sínfise púbica — o hipomóclio —, a cabeça deflete e o períneo é distendido, saindo sucessivamente bregma, fronte, face e mento. Restituição e rotação externa: livre da pelve, a cabeça desfaz a torção do pescoço e roda de volta para o lado onde estava o dorso, movimento que acompanha a rotação interna dos ombros para o diâmetro anteroposterior. Desprendimento dos ombros: sai primeiro o ombro anterior, sob a sínfise, e depois o posterior, deslizando pelo períneo; a seguir, o restante do corpo.

A prova cobra a ordem e cobra qual movimento explica qual achado. Cabeça que aparece na vulva e recua entre as contrações não é distocia — é insinuação com desprendimento ainda incompleto. Cabeça que desprende e não roda de volta, com sinal da tartaruga, é distocia de ombro, e aí o capítulo é outro.

Sequência de seis cortes sagitais da pelve materna mostrando a cabeça fetal em insinuação com flexão, descida, rotação interna, desprendimento por deflexão e rotação externa com descida dos ombros.
Os tempos do mecanismo do parto na apresentação cefálica fletida: flexão e insinuação, descida, rotação interna, deflexão com hipomóclio na sínfise púbica, restituição e rotação externa, desprendimento dos ombros.

Quanto tempo dura: os números da Diretriz Nacional

A Diretriz Nacional não dá um teto rígido para o primeiro período, dá uma distribuição. O trabalho de parto ativo dura, em média, 8 horas nas primíparas, e é pouco provável que dure mais de 18 horas. Nas multíparas dura, em média, 5 horas, e é pouco provável que dure mais de 12 horas.

A redação importa. "É pouco provável que dure mais de 18 horas" não é o mesmo que "deve ser interrompido em 18 horas". A Diretriz é explícita ao construir a conduta em cima de progresso, não de duração: o que dispara intervenção é a falha de progresso, definida em centímetros por hora de observação, e não o relógio de parede.

Para o segundo período, a Diretriz separa o que a literatura mede do que ela recomenda como limite operacional. Os limites de tempo encontrados nos estudos para a duração normal da fase ativa do segundo período são de cerca de 0,5 a 2,5 horas nas primíparas sem peridural e de 1 a 3 horas com peridural; nas multíparas, até 1 hora sem peridural e 2 horas com peridural. Já a conduta é outra régua: na maioria das nulíparas o parto deve ocorrer em até 3 horas do início da fase ativa do segundo período, e a falha de progresso é confirmada quando esse período ultrapassa 2 horas; nas multíparas, o parto em até 2 horas, com falha confirmada acima de 1 hora.

O terceiro período é considerado prolongado após 30 minutos. E, quando se optou por conduta fisiológica, placenta não dequitada 1 hora após o parto obriga a mudar para conduta ativa.

O partograma: o que ele é, quando abre e o que se registra

O partograma é o registro gráfico da evolução do parto em função do tempo. A Diretriz Nacional é direta na recomendação 94: um partograma com linha de ação de 4 horas deve ser utilizado para o registro do progresso do parto, no modelo da OMS ou equivalente. Não é sugestão, é a régua nacional em vigor.

Abre-se o partograma no momento em que a parturiente é admitida na fase ativa. Abrir na fase de latência é o erro operacional mais comum e o mais caro: como a linha de alerta parte do ponto de abertura com inclinação de 1 cm por hora, um partograma aberto com 2 cm faz a curva real da dilatação cruzar a linha de alerta sem que exista qualquer distocia, e o gráfico passa a sugerir intervenção onde há apenas fase de latência.

No gráfico, o triângulo marca a dilatação cervical e o círculo marca a altura da apresentação em planos de De Lee, com a variedade de posição anotada junto. A partir do ponto de abertura traça-se a linha de alerta, na inclinação de 1 cm por hora; a linha de ação é paralela a ela, deslocada 4 horas para a direita. A faixa entre as duas linhas é a zona em que se investiga e se corrige — não a zona em que se opera.

As observações que a Diretriz manda registrar no primeiro período são específicas: frequência das contrações uterinas de 1 em 1 hora, pulso de 1 em 1 hora, temperatura e pressão arterial de 4 em 4 horas, frequência da diurese, e exame vaginal de 4 em 4 horas — ou antes disso, se houver preocupação com o progresso do parto ou a pedido da mulher, sempre após palpação abdominal e avaliação de perdas vaginais. O toque de 4 em 4 horas é número de prova: quem responde "de hora em hora" está descrevendo a monitoração das contrações, não a do colo.

As distocias que o gráfico nomeia — e o nome que a Diretriz usa no lugar delas

A nomenclatura clássica das distocias do partograma é de livro-texto brasileiro, não de documento oficial, e continua sendo cobrada com esses nomes. Fase ativa prolongada é a dilatação que progride abaixo de 1 cm por hora, com a curva cruzando a linha de alerta; a causa mais frequente é contratilidade uterina insuficiente. Parada secundária da dilatação é a mesma dilatação encontrada em dois toques sucessivos separados por pelo menos 2 horas, e levanta a suspeita de desproporção. Parto precipitado, ou taquitócito, é dilatação e expulsão completadas em 4 horas ou menos, e associa-se a hipertonia, sofrimento fetal agudo e lacerações. Período pélvico prolongado é a descida que ocorre, mas lentamente, prolongando o segundo período. Parada secundária da descida é a apresentação na mesma altura em dois toques separados por pelo menos 1 hora após a dilatação completa.

A Diretriz Nacional não usa nenhum desses cinco nomes. Ela trabalha com uma expressão única, falha de progresso, e a define por critério operacional em vez de por rótulo. Isso não é detalhe de estilo: se o enunciado cita a Diretriz Nacional ou descreve um serviço do SUS seguindo protocolo do Ministério, a alternativa que responde é a que descreve a conduta escalonada, não a que acerta o nome da distocia.

Vale registrar o que o gráfico não diz. Cruzar a linha de alerta não indica cesariana, nem sozinho indica ocitocina. Ele indica reavaliação — e o primeiro passo dessa reavaliação, na Diretriz, não é nem droga nem cirurgia.

Falha de progresso no primeiro período: a cascata inteira, com os relógios

A Diretriz constrói a conduta em degraus, e a questão de prova costuma parar em um deles. Primeiro, a suspeita: considerar falha de progresso quando a dilatação cervical avança menos que 2 cm em 4 horas nas primíparas; nas multíparas, menos que 2 cm em 4 horas ou um progresso lento do trabalho de parto. Junto com o número, a Diretriz manda pesar a descida e a rotação do polo cefálico e as mudanças na intensidade, duração e frequência das contrações — e também o ambiente, o apoio recebido e o estado emocional da mulher.

Diante da suspeita, o passo é a amniotomia, se as membranas estiverem íntegras, explicando à mulher que o procedimento encurta o trabalho de parto em cerca de 1 hora e pode aumentar a intensidade e a dor das contrações. Tendo sido feita a amniotomia ou não, realiza-se novo exame vaginal 2 horas depois: a falha de progresso está confirmada se a dilatação progrediu menos que 1 cm nesse intervalo.

Confirmada a falha, a mulher passa aos cuidados de médico obstetra, que revisa o caso e decide sobre as opções, incluindo ocitocina. Se as membranas ainda estiverem íntegras nesse ponto, aconselha-se a amniotomia e repete-se o toque 2 horas depois, independentemente do estado das membranas. Analgesia peridural deve ser oferecida, se disponível, sempre que a ocitocina for indicada.

Usada a ocitocina, os incrementos de dose não podem ser mais frequentes que a cada 30 minutos, e a dose é aumentada até haver 4 a 5 contrações em 10 minutos. O toque de reavaliação é feito 4 horas após o início da infusão: se a dilatação aumentou 2 cm ou mais, segue-se observando o progresso; se aumentou menos que 2 cm, é preciso uma revisão obstétrica adicional para avaliar a necessidade de cesariana.

Somando: entre a primeira suspeita e a primeira conversa sobre cesariana existem, no mínimo, uma amniotomia, dois toques de reavaliação e 4 horas de ocitocina bem titulada. Alternativa que pula direto de "não dilatou" para "indicar cesariana" está errada por atalho, não por conteúdo.

Segundo período: quando esperar, quando fazer força e quando chamar quem opera

Confirmada a dilatação completa em mulher sem analgesia regional, se não houver puxo, a Diretriz manda uma nova avaliação mais aprofundada em 1 hora para identificar em que fase do segundo período ela está. Em mulheres com analgesia regional, após a confirmação da dilatação completa, o puxo deve ser adiado por pelo menos 1 hora — ou mais, se a mulher desejar —, exceto se ela quiser fazer força ou se a cabeça do bebê já estiver visível; passada essa hora, ela deve ser ativamente incentivada a puxar durante as contrações.

Nas mulheres sem analgesia, apoia-se o puxo espontâneo e evitam-se os puxos dirigidos. Quando o puxo espontâneo é ineficaz, ou a pedido da mulher, o que se oferece são estratégias de suporte: mudança de posição, esvaziamento da bexiga, encorajamento. A manobra de Kristeller não deve ser realizada — a Diretriz é categórica, e a alternativa que a oferece como auxílio no expulsivo é sempre distratora.

O prolongamento se suspeita antes de se confirmar. Nas nulíparas, suspeita-se quando o progresso em rotação ou descida não é adequado após 1 hora de segundo período ativo; nas multíparas, após 30 minutos. Nos dois casos, faz-se amniotomia se as membranas estiverem intactas. Um obstetra deve avaliar a mulher com prolongamento confirmado antes do uso de ocitocina, e depois dessa avaliação inicial a revisão se mantém a cada 15 a 30 minutos.

A confirmação da falha de progresso do segundo período — mais de 2 horas de fase ativa na nulípara, mais de 1 hora na multípara — dispara o encaminhamento a médico treinado em parto vaginal operatório, se o nascimento não for iminente. O parto instrumental, com vácuo-extrator ou fórceps, é considerado quando há prolongamento do segundo período ou quando não há segurança quanto ao bem-estar fetal; a escolha do instrumento depende das circunstâncias clínicas e da experiência de quem opera. Se o parto vaginal não for possível, cesariana.

Duas recomendações do cuidado perineal caem com frequência e são fáceis: não se recomenda massagem perineal durante o segundo período, e a episiotomia não é de rotina no parto vaginal espontâneo. Compressas mornas no períneo, essas sim, podem ser consideradas.

Terceiro período: conduta ativa, 10 UI e o relógio do cordão

A Diretriz define conduta ativa como um conjunto de três componentes: uso rotineiro de uterotônico, clampeamento e secção precoce do cordão, e tração controlada do cordão após sinais de separação placentária. A conduta fisiológica é o oposto ponto a ponto: sem uterotônico de rotina, clampeamento após a parada da pulsação, expulsão da placenta por esforço materno.

A conduta ativa é a recomendada, porque se associa a menor risco de hemorragia e de transfusão. Os números que a Diretriz manda informar à mulher são estes: com conduta ativa, cerca de 13 em 1.000 têm hemorragia maior que 1 litro e 14 em 1.000 recebem transfusão; com conduta fisiológica, 29 em 1.000 e 40 em 1.000, respectivamente. Náusea e vômito, por outro lado, são mais frequentes na conduta ativa, cerca de 100 em 1.000 contra 50 em 1.000. Se uma mulher de baixo risco de hemorragia pós-parto pedir conduta expectante, a escolha dela deve ser apoiada.

A execução tem ordem e tem dose. Administrar 10 UI de ocitocina por via intramuscular após o desprendimento da criança, antes do clampeamento e corte do cordão; a ocitocina isolada é preferível à associação com ergometrina, por ter menos efeitos colaterais. Depois da ocitocina, pinçar e seccionar o cordão — não antes de 1 minuto do nascimento, a menos que haja necessidade de reanimação neonatal, e antes de 5 minutos, para que a tração controlada seja possível dentro da conduta ativa. Se a mulher pedir clampeamento após 5 minutos, apoiar sua escolha. A tração controlada do cordão só é feita depois da ocitocina e depois dos sinais de separação placentária.

Ocitocina injetada na veia umbilical não deve ser usada de rotina. E mudar de conduta expectante para ativa é obrigatório em duas situações: hemorragia, ou placenta não dequitada 1 hora após o parto.

O que a Diretriz manda não fazer de rotina

Uma parte considerável das questões deste tema não pergunta o que fazer, mas o que deixou de ser feito. A lista brasileira é curta e vale decorar: enema não deve ser realizado de forma rotineira durante o trabalho de parto; tricotomia pubiana e perineal também não; amniotomia precoce, associada ou não à ocitocina, não deve ser realizada de rotina em mulheres que estejam progredindo bem; a manobra de Kristeller não deve ser realizada no segundo período; a episiotomia não é de rotina no parto vaginal espontâneo; spray de lidocaína no períneo não é recomendado; massagem perineal durante o segundo período não é recomendada.

No lado do que se recomenda ativamente: encorajar a mulher a se movimentar e a adotar as posições mais confortáveis; desencorajar a posição supina, o decúbito dorsal horizontal e a semi-supina no segundo período; apoiar o puxo espontâneo; considerar compressas mornas no períneo.

Note o padrão. Todas as intervenções proscritas foram, um dia, rotina de sala de parto — e é exatamente por isso que o distrator soa familiar e plausível. A vinheta que descreve enema e tricotomia na admissão não está pedindo que se complete a rotina; está testando se o candidato sabe que ela caiu.

Os gatilhos de transferência: quando o parto sai da mão de quem o acompanha

A Diretriz Nacional lista, na recomendação 95, as condições que obrigam a transferir a mulher para maternidade hospitalar ou a solicitar assistência de médico obstetra, a menos que os riscos da transferência superem os benefícios. Vale a pena guardar os cortes numéricos, porque eles aparecem em vinheta com sinais vitais escritos.

Do lado materno: pulso acima de 120 bpm em duas ocasiões com 30 minutos de intervalo; pressão sistólica de 160 mmHg ou mais, ou diastólica de 110 mmHg ou mais, em uma única medida; sistólica de 140 mmHg ou mais, ou diastólica de 90 mmHg ou mais, em duas medidas consecutivas com 30 minutos de intervalo; proteinúria de fita de 2 cruzes ou mais somada a uma única medida de 140 por 90 mmHg; temperatura de 38 °C ou mais em uma medida, ou de 37,5 °C ou mais em duas ocasiões consecutivas com 1 hora de intervalo; qualquer sangramento vaginal que não seja a eliminação do tampão; mecônio significativo; dor diferente da dor das contrações; progresso lento confirmado do primeiro ou do segundo período; pedido de analgesia regional; e qualquer emergência obstétrica.

Do lado fetal: apresentação anômala, incluindo apresentação de cordão; situação transversa ou oblíqua; apresentação cefálica alta, em -3 de De Lee ou acima, ou móvel em nulípara; suspeita de restrição de crescimento ou macrossomia; suspeita de anidrâmnio ou poli-hidrâmnio; frequência cardíaca fetal abaixo de 110 ou acima de 160 bpm; desacelerações à ausculta intermitente.

Na presença de mecônio significativo — verde escuro ou preto, grosso, tenaz, com grumos —, a Diretriz exige que profissionais treinados em suporte avançado de vida neonatal estejam presentes no momento do parto.

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Do toque de admissão à decisão de cesariana

O fluxo abaixo é a cascata da Diretriz Nacional lida em ordem de relógio, do primeiro toque até o momento em que a cesariana entra na conversa. Os cards destrincham a única escala verdadeiramente ordinal do tema — a altura da apresentação em planos de De Lee, que é o que o círculo do partograma registra. A primeira tabela reúne todos os relógios em um lugar só; a segunda traz os nomes clássicos das distocias, que a Diretriz não usa mas a prova cobra; a terceira fixa o vocabulário da estática fetal.

  1. 1Toque de admissão. Contrações dolorosas com modificação cervical até 4 cm é fase de latência: acolher, oferecer apoio e analgesia se necessário e, com 3 cm ou menos, encorajar a mulher a permanecer ou voltar para casa, considerando a distância até a maternidade. Contrações regulares com dilatação progressiva a partir de 4 cm é trabalho de parto estabelecido: admitir para assistência.
  2. 2Abra o partograma nesse toque de admissão na fase ativa — nunca antes. Marque a dilatação com triângulo e a altura da apresentação, em planos de De Lee, com círculo, anotando a variedade de posição.
  3. 3Trace a linha de alerta a partir do ponto de abertura, com inclinação de 1 cm por hora. A linha de ação corre paralela, deslocada 4 horas para a direita.
  4. 4Registre, ao longo do primeiro período: contrações de 1 em 1 hora, pulso de 1 em 1 hora, temperatura e pressão arterial de 4 em 4 horas, diurese, e toque vaginal de 4 em 4 horas ou antes, se houver preocupação com o progresso ou a pedido da mulher.
  5. 5Suspeita de falha de progresso: dilatação menor que 2 cm em 4 horas na primípara; na multípara, o mesmo ou progresso lento com mudança do padrão das contrações. Avalie junto descida, rotação e dinâmica uterina — e o ambiente e o apoio que a mulher está recebendo.
  6. 6Diante da suspeita, amniotomia se as membranas estiverem íntegras, explicando que ela encurta o parto em cerca de 1 hora e pode aumentar a dor. Novo toque em 2 horas, tendo sido feita a amniotomia ou não.
  7. 7Progresso menor que 1 cm nesse toque de 2 horas confirma a falha. A partir daqui a assistência passa a médico obstetra, que decide sobre a ocitocina; peridural é oferecida junto, se disponível.
  8. 8Com ocitocina: incrementos não mais frequentes que a cada 30 minutos, até 4 a 5 contrações em 10 minutos. Toque 4 horas após o início. Aumento de 2 cm ou mais: seguir observando. Aumento menor que 2 cm: revisão obstétrica adicional para avaliar a necessidade de cesariana.
  9. 9Dilatação completa: distinga a fase passiva da fase ativa do segundo período. Sem analgesia e sem puxo, reavalie em 1 hora. Com peridural, adie o puxo por pelo menos 1 hora, salvo desejo da mulher ou cabeça visível.
  10. 10No segundo período ativo, suspeite de prolongamento se não houver progresso de rotação ou descida após 1 hora na nulípara ou 30 minutos na multípara — e faça amniotomia se as membranas estiverem intactas. Confirme a falha acima de 2 horas na nulípara e de 1 hora na multípara, e encaminhe a quem faz parto vaginal operatório se o nascimento não for iminente.
  11. 11Nascida a criança: conduta ativa do terceiro período. 10 UI de ocitocina intramuscular após o desprendimento e antes do clampeamento; secção do cordão não antes de 1 minuto e antes de 5 minutos; tração controlada só após a ocitocina e os sinais de separação placentária. Terceiro período prolongado após 30 minutos.

Acima de −3: alta e móvel

O polo cefálico não alcançou o estreito superior e escapa à palpação bimanual. Em nulípara, apresentação cefálica alta em −3 de De Lee ou acima, ou móvel, é um dos gatilhos que a Diretriz Nacional lista para transferência a maternidade hospitalar ou solicitação de assistência de obstetra.

−2 a −1: ajustada, ainda não insinuada

A cabeça já se acomodou no estreito superior e se orienta num diâmetro oblíquo, mas o maior diâmetro ainda não o ultrapassou. É o trecho em que a flexão máxima acontece e em que a variedade de posição registrada no partograma começa a ter valor prognóstico.

0 de De Lee: insinuada

O maior diâmetro da apresentação transpôs o estreito superior e o ponto mais baixo alcança o plano das espinhas isquiáticas. É a definição clínica de insinuação e corresponde ao III plano de Hodge. Daqui em diante o partograma passa a medir descida, não mais só dilatação.

+1 a +3: descida e desprendimento iminente

A apresentação ultrapassou as espinhas e distende o períneo; é aqui que a rotação interna se completa e o occipital se apoia sob a sínfise púbica para a deflexão. Apresentação parada na mesma altura em dois toques separados por 1 hora, com dilatação completa, é o que o livro-texto chama de parada secundária da descida.

MarcoNulípara / primíparaMultíparaO que a Diretriz Nacional manda fazer
Duração do primeiro período ativoMédia de 8 horas; pouco provável que passe de 18 horasMédia de 5 horas; pouco provável que passe de 12 horasNada, por si só — a duração isolada não indica intervenção; o gatilho é a falha de progresso
Suspeita de falha de progresso no primeiro períodoDilatação menor que 2 cm em 4 horasDilatação menor que 2 cm em 4 horas, ou progresso lento com mudança do padrão das contraçõesAmniotomia se as membranas estiverem íntegras e novo toque em 2 horas
Confirmação da falha de progressoProgresso menor que 1 cm no toque feito 2 horas depoisMesmo critérioAssistência por obstetra, decisão sobre ocitocina e oferta de peridural
Resposta à ocitocinaToque 4 horas após o início da infusão: aumento menor que 2 cmMesmo critérioRevisão obstétrica adicional para avaliar a necessidade de cesariana
Duração medida da fase ativa do segundo período0,5 a 2,5 horas sem peridural; 1 a 3 horas com periduralAté 1 hora sem peridural; 2 horas com periduralÉ a distribuição observada nos estudos, não o limite de conduta
Prazo esperado para o nascimento no segundo períodoAté 3 horas do início da fase ativaAté 2 horas do início da fase ativaSuspeitar de prolongamento sem progresso de rotação ou descida após 1 hora (nulípara) ou 30 minutos (multípara), com amniotomia se as membranas estiverem intactas
Confirmação de falha de progresso no segundo períodoMais de 2 horas de fase ativaMais de 1 hora de fase ativaEncaminhar a médico treinado em parto vaginal operatório, se o nascimento não for iminente
Terceiro períodoProlongado após 30 minutosProlongado após 30 minutosConduta ativa com 10 UI de ocitocina IM; na conduta fisiológica, placenta não dequitada em 1 hora obriga a mudar para conduta ativa

As cinco distocias que o livro-texto nomeia no partograma

Nome clássicoO que o gráfico mostraCritérioCausa que costuma estar por trás
Fase ativa prolongadaA curva de dilatação cruza a linha de alerta e se aproxima da linha de açãoDilatação progredindo abaixo de 1 cm por horaContratilidade uterina insuficiente — é a distocia que mais responde a amniotomia e ocitocina
Parada secundária da dilataçãoA curva de dilatação vira uma linha horizontalMesma dilatação em dois toques sucessivos separados por 2 horas ou maisDesproporção cefalopélvica ou variedade de posição desfavorável
Parto precipitado (taquitócito)Curva de dilatação e curva de descida muito verticalizadasDilatação e expulsão completadas em 4 horas ou menosHipertonia e taquissistolia, espontâneas ou por ocitocina; risco de sofrimento fetal agudo e lacerações
Período pélvico prolongadoA curva de descida progride, mas com inclinação pequenaDescida lenta após a dilatação completa, prolongando o segundo períodoContratilidade insuficiente, puxo ineficaz ou analgesia sem correção de posição
Parada secundária da descidaA curva de descida vira uma linha horizontal com dilatação já completaMesma altura da apresentação em dois toques separados por 1 hora ou maisDesproporção ou rotação interna incompleta — é a que mais frequentemente termina em parto instrumental ou cesariana

Estática fetal: o vocabulário que a vinheta usa

TermoO que descreveComo aparece escrito
SituaçãoRelação entre o maior eixo fetal e o maior eixo uterinoLongitudinal, transversa ou oblíqua
ApresentaçãoRegião fetal que ocupa a área do estreito superiorCefálica, pélvica ou córmica
AtitudeGrau de flexão da cabeça sobre o troncoFletida (o normal, ponto de referência lambda), defletida de 1º, 2º ou 3º grau
PosiçãoLado materno para o qual o dorso fetal está voltadoDireita ou esquerda
Variedade de posiçãoPonto de referência fetal combinado ao ponto da pelve maternaOEA, ODA, OP, OS, OET, ODT e as variedades posteriores
Altura da apresentaçãoDistância em centímetros ao plano das espinhas isquiáticasDe −5 a +5 de De Lee; 0 é a insinuação

Equivalência que cai em prova: plano 0 de De Lee é igual ao III plano de Hodge e é igual a apresentação insinuada. Os quatro planos de Hodge são, em ordem: I, da borda superior da sínfise púbica ao promontório; II, pela borda inferior da sínfise; III, pelas espinhas isquiáticas; IV, pela ponta do cóccix.

Os nomes das cinco distocias vêm do livro-texto brasileiro, não da Diretriz Nacional. A Diretriz não usa nenhum deles — trabalha só com a expressão falha de progresso e com os critérios numéricos da primeira tabela. Enunciado que cita o Ministério da Saúde ou descreve serviço do SUS cobra a conduta escalonada, não o rótulo.

Intervenções que a Diretriz proscreve de rotina: enema, tricotomia pubiana e perineal, amniotomia precoce em quem progride bem, manobra de Kristeller, episiotomia no parto vaginal espontâneo, spray de lidocaína no períneo e massagem perineal no segundo período. Todas já foram rotina de sala de parto — por isso soam plausíveis como alternativa.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Em que dilatação começa a fase ativa do primeiro período

A partir de 4 cm — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, Ministério da Saúde, 2017

A recomendação 91 define trabalho de parto estabelecido como contrações uterinas regulares somadas a dilatação cervical progressiva a partir dos 4 cm, e reserva a fase de latência para a modificação cervical até 4 cm. Desse corte decorre a conduta de porta da recomendação 90: com 3 cm ou menos não se admite de rotina; com 4 cm ou mais, admite-se. O documento é uma adaptação do guideline britânico do NICE de 2014.

Ministério da Saúde, Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017, recomendações 90 e 91.

A partir de 5 cm — Organização Mundial da Saúde, recomendações de cuidados intraparto, 2018

A recomendação 5 da OMS define o período latente como contrações dolorosas com mudanças cervicais variáveis e progressão mais lenta da dilatação até 5 cm, e o período ativo como contrações regulares e dolorosas com apagamento substancial e dilatação mais rápida de 5 cm até a dilatação completa. A recomendação 9 acrescenta o corolário: o trabalho de parto pode não acelerar naturalmente antes de 5 cm, e intervenções para acelerá-lo antes desse limiar não são indicadas com condições materna e fetal tranquilizadoras.

OMS, WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience, 2018, recomendações 5 e 9.

A partir de 6 cm — dados de Zhang, comentados pela FEBRASGO em 2017

A coorte de Zhang descreve aceleração da dilatação apenas após 6 cm, com o trecho de 4 a 6 cm podendo levar até 10 horas em curso normal. O texto da FEBRASGO que apresenta esses dados registra também a ressalva: o estudo carece de validação adequada e de evidência suficiente quanto à segurança materna e perinatal do corte de 6 cm.

Marcolin AC, FEBRASGO, 2017, comentando Zhang et al. (2002 e 2010).

Na prova

A causa da diferença é de data e de origem: o documento brasileiro em vigor é de 2017 e foi adaptado do NICE de 2014, portanto antecede a revisão da OMS de 2018 — não se trata de o Brasil discordar da evidência, e sim de a régua nacional não ter sido reescrita depois dela. O recorte da questão costuma se anunciar sozinho. Enunciado que cita nominalmente o Ministério da Saúde, a Diretriz Nacional, a Rede Cegonha ou descreve uma maternidade do SUS trabalha com 4 cm, e a conduta de porta com 3 cm aparece entre as alternativas. Enunciado que cita a OMS, fala em experiência positiva de parto ou em Labour Care Guide trabalha com 5 cm. Alternativa que oferece 6 cm num cenário brasileiro sem citar fonte estrangeira está importando um corte que nenhum dos dois documentos oficiais adota. Régua geral: prova oficial do MEC tende a conduta SUS; em outras bancas, quem denuncia o recorte são as alternativas.

A linha de alerta de 1 cm por hora e o futuro do partograma

Partograma com linha de ação de 4 horas, obrigatório — Ministério da Saúde, 2017

A recomendação 94 é taxativa: um partograma com linha de ação de 4 horas deve ser utilizado para o registro do progresso do parto, no modelo da OMS ou equivalente. O capítulo de evidências do próprio documento reconhece que faltam estudos comparando partogramas com e sem linha de alerta, e que os ensaios disponíveis comparando linhas de ação de 2, 3 e 4 horas não mostraram diferença consistente em cesariana ou desfecho neonatal — a linha de 2 horas apenas aumentou intervenções para estimular o trabalho de parto.

Ministério da Saúde, Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017, recomendação 94 e seção 13.4.

Limiar de 1 cm por hora abandonado — Organização Mundial da Saúde, 2018, e Labour Care Guide, 2020

A recomendação 7 da OMS afirma que o limiar de 1 cm por hora durante o primeiro período ativo, tal como representado pela linha de alerta do partograma, é impreciso para identificar mulheres em risco de desfechos adversos, e por isso não é indicado para essa finalidade. A recomendação 8 acrescenta que uma velocidade de dilatação menor que 1 cm por hora, isoladamente, não deve ser indicação rotineira de intervenção obstétrica. Em 2020 a OMS lançou o Labour Care Guide, que substitui as linhas de alerta e de ação por limites de tempo definidos para cada centímetro de dilatação, com a fase ativa começando em 5 cm.

OMS, recomendações de cuidados intraparto, 2018, recomendações 7 e 8; OMS, WHO Labour Care Guide, 2020.

Na prova

A causa aqui é de evidência e de data, e não de custo: os dados que derrubaram o 1 cm por hora são posteriores ao documento brasileiro. O enunciado se entrega pelo vocabulário. "Linha de alerta", "linha de ação", "4 horas" e "cruzou a linha" só existem no mundo do partograma clássico que a Diretriz Nacional mantém; "limites por centímetro de dilatação" e "Labour Care Guide" só existem no mundo da OMS pós-2020. Um distrator vale por si: alternativa que trata o cruzamento da linha de alerta como indicação de cesariana está errada nos dois mundos ao mesmo tempo — no brasileiro porque o passo seguinte é amniotomia e reavaliação em 2 horas, no da OMS porque a velocidade lenta sozinha não indica intervenção.

Qual é a duração aceitável do primeiro período ativo

Média de 8 horas e limite improvável de 18 horas em primíparas — Ministério da Saúde, 2017

A recomendação 92 descreve a duração do trabalho de parto ativo como uma distribuição, contada a partir dos 4 cm: média de 8 horas nas primíparas, sendo pouco provável que ultrapasse 18 horas, e média de 5 horas nas multíparas, sendo pouco provável que ultrapasse 12 horas. Não é um teto de conduta — a intervenção, no mesmo documento, é disparada pelo critério de falha de progresso em centímetros por intervalo, não pelo total de horas.

Ministério da Saúde, Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017, recomendação 92.

Geralmente até 12 horas em primíparas e 10 horas em multíparas — Organização Mundial da Saúde, 2018

A recomendação 6 afirma que a duração do primeiro período ativo, contada de 5 cm até a dilatação completa, geralmente não se estende além de 12 horas nas primíparas e além de 10 horas nas multíparas. A OMS acrescenta que não há duração padrão estabelecida para o período latente e que a decisão de intervir diante de um primeiro período aparentemente prolongado não pode ser tomada com base apenas na duração.

OMS, WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience, 2018, recomendação 6.

Na prova

Os números parecem contraditórios e não são comparáveis diretamente: partem de dilatações diferentes — 4 cm no documento brasileiro, 5 cm no da OMS — e têm naturezas diferentes, um descrevendo média com limite improvável e o outro um teto usual. Reconhecer isso vale mais que decorar os quatro números soltos. Na prática da questão: se a vinheta traz o cronômetro rodando desde os 4 cm e cita documento brasileiro, os pares são 8 e 18 horas para primípara, 5 e 12 para multípara; se traz 5 cm e cita a OMS, os pares são 12 e 10 horas. E, em qualquer dos dois mundos, alternativa que indica intervenção só porque o relógio estourou contraria o texto explícito das duas fontes, que condicionam a conduta ao progresso e não à duração.

06

Caso resolvido

Primigesta de 24 anos, 39 semanas e 2 dias, risco habitual, chega à maternidade às 8h referindo contrações dolorosas desde a madrugada. Ao exame: bom estado geral, PA 118 x 74 mmHg, pulso 88 bpm, temperatura 36,6 °C, dinâmica uterina de 3 contrações em 10 minutos, batimentos cardíacos fetais de 140 bpm à ausculta intermitente. Toque: colo centralizado, apagado em 70%, dilatação de 4 cm, bolsa íntegra, apresentação cefálica fletida, OEA, De Lee −1. É admitida e o partograma é aberto. Às 12h, novo toque: dilatação de 5 cm, De Lee −1, bolsa íntegra, dinâmica de 2 contrações em 10 minutos, BCF 142 bpm, mãe confortável e deambulando.
achado
Contrações regulares com dilatação progressiva a partir de 4 cm: trabalho de parto estabelecido, e a admissão está correta. O partograma é aberto nesse toque, com o triângulo em 4 cm e o círculo em −1 de De Lee, variedade OEA.
achado
Entre 8h e 12h a dilatação avançou 1 cm em 4 horas. O critério da Diretriz Nacional para suspeitar de falha de progresso na primípara é dilatação menor que 2 cm em 4 horas — está preenchido. A curva cruzou a linha de alerta, que parte dos 4 cm às 8h com inclinação de 1 cm por hora.
leitura
Cruzar a linha de alerta não é indicação de cesariana nem, por si, de ocitocina. O que o gráfico está dizendo é que o caso saiu do curso esperado e precisa de reavaliação — e há dois elementos que sustentam uma causa corrigível: dinâmica uterina caiu para 2 contrações em 10 minutos e a bolsa segue íntegra.
conduta
Amniotomia, com as membranas íntegras, explicando à mulher que o procedimento tende a encurtar o trabalho de parto em cerca de 1 hora e pode aumentar a intensidade e a dor das contrações. Manter o apoio, a liberdade de movimento e a analgesia se solicitada, e reavaliar com toque vaginal em 2 horas — tendo sido feita a amniotomia ou não.
conduta
Às 14h, se a dilatação tiver progredido 1 cm ou mais, o caso segue em acompanhamento. Se progrediu menos que 1 cm, a falha de progresso está confirmada: assistência por médico obstetra, discussão de ocitocina com oferta de peridural, incrementos de dose não mais frequentes que a cada 30 minutos até 4 a 5 contrações em 10 minutos, e novo toque 4 horas após o início da infusão.
armadilha
Nada aqui indica cesariana. Ela só entra na conversa depois do toque das 4 horas de ocitocina, e mesmo assim como revisão obstétrica adicional para avaliar a necessidade — não como conduta automática. Uma vinheta que oferece cesariana às 12h está oferecendo um atalho de três degraus.
07

Agora feche você

Secundigesta de 31 anos, um parto vaginal anterior, 40 semanas, em trabalho de parto espontâneo, com analgesia peridural instalada. Às 15h20 o toque confirma dilatação completa, apresentação cefálica em De Lee +1, variedade occípito-esquerda-anterior. Ela não refere puxo involuntário e a cabeça do bebê não é visível. Batimentos cardíacos fetais de 138 bpm, sem desacelerações à ausculta intermitente. Às 16h20 a paciente passa a referir vontade de fazer força e é encorajada a puxar durante as contrações; nesse momento o toque mostra De Lee +2, mesma variedade. Às 17h05 o toque mostra De Lee +2, occípito-esquerda-anterior, sem alteração da rotação nem da descida. Membranas rotas desde as 13h. BCF 140 bpm.
achado
Às 15h20 há dilatação completa sem puxo involuntário, com analgesia regional e cabeça ainda não visível: é a fase inicial ou passiva do segundo período. Com peridural, a Diretriz Nacional manda adiar o puxo por pelo menos 1 hora, salvo desejo da mulher ou cabeça visível — foi o que se fez.
achado
A fase ativa do segundo período começa às 16h20, com o esforço materno ativo. É desse marco que correm todos os relógios do segundo período — e não das 15h20.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Abrir o partograma na fase de latência Atrai porque parece cuidado: quanto antes começar a registrar, melhor. Mas a linha de alerta parte do ponto de abertura com inclinação de 1 cm por hora. Um partograma aberto com 2 cm faz a curva real da dilatação cruzar a linha de alerta sem qualquer distocia, e o gráfico passa a pedir intervenção onde só existe fase de latência. O partograma abre na admissão em fase ativa.
  2. 2Tratar o cruzamento da linha de alerta como indicação de cesariana A palavra alerta sugere gravidade e a linha desenhada sugere limite ultrapassado. Só que, na Diretriz Nacional, o passo imediato diante de suspeita de falha de progresso é amniotomia com as membranas íntegras e novo toque em 2 horas. Entre esse ponto e a primeira conversa sobre cesariana há ainda a confirmação da falha, a avaliação por obstetra, a ocitocina titulada e um toque 4 horas depois.
  3. 3Contar o segundo período a partir da dilatação completa É a armadilha mais elegante do tema, porque exige atenção a duas horas escritas na vinheta. Os prazos de 3 horas na nulípara e 2 horas na multípara, e as confirmações de falha acima de 2 horas e de 1 hora, correm a partir do início da fase ativa do segundo período — puxo involuntário, cabeça visível ou esforço materno ativo. A fase passiva, especialmente longa em quem tem peridural, não entra na conta.
  4. 4Internar toda gestante que chega contraindo Atrai porque é o que a rotina do serviço faz e porque parece mais seguro. A Diretriz Nacional manda encorajar a mulher com 3 cm ou menos a permanecer ou retornar para casa, considerando a distância até a maternidade e o risco de parto sem assistência. Os dados citados no próprio documento mostram que admitir na latência aumenta ocitocina, peridural, monitoração contínua e cesariana, sem ganho neonatal.
  5. 5Confundir plano de De Lee com plano de Hodge As duas escalas medem a mesma coisa por réguas diferentes, e a vinheta troca uma pela outra sem avisar. A equivalência que resolve é única: 0 de De Lee é o III plano de Hodge é apresentação insinuada. Quem responde que a insinuação corresponde ao II plano de Hodge está descrevendo a borda inferior da sínfise púbica, um plano acima das espinhas isquiáticas.
  6. 6Oferecer Kristeller como auxílio no expulsivo A alternativa aparece com roupagem de gentileza — 'auxiliar a expulsão com pressão no fundo uterino' — e ainda hoje é praticada em muitos serviços. A recomendação 118 da Diretriz Nacional é uma frase seca: a manobra de Kristeller não deve ser realizada no segundo período do trabalho de parto. Não há cenário no documento em que ela seja aceitável.
  7. 7Trocar a ordem do terceiro período A sequência da conduta ativa tem ordem fixa e a questão costuma embaralhá-la: ocitocina 10 UI intramuscular após o desprendimento da criança e antes do clampeamento; depois pinçar e seccionar o cordão, não antes de 1 minuto e antes de 5 minutos; só então tração controlada, e apenas após sinais de separação placentária. Tracionar o cordão antes da ocitocina ou antes dos sinais de descolamento inverte a lógica inteira do procedimento.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A paciente com colo em dilatação progressiva (5 cm) e contrações rítmicas está no primeiro período do trabalho de parto, o período de dilatação, que vai do início do trabalho de parto até a dilatação completa (10 cm). O segundo período (expulsivo) começa na dilatação completa e termina com a saída do feto. O terceiro período (dequitação) corresponde à expulsão da placenta. O quarto período (Greenberg) é a primeira hora pós-dequitação, de observação hemostática. Não existe 'período de latência pós-parto' nessa classificação.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números na ordem em que a questão os usa. Admissão: 3 cm ou menos, encorajar a permanecer ou voltar para casa; 4 cm ou mais com dilatação progressiva e contrações regulares, trabalho de parto estabelecido, admitir. Partograma: abre na fase ativa, linha de alerta com inclinação de 1 cm por hora a partir do ponto de abertura, linha de ação 4 horas à direita; triângulo é dilatação, círculo é altura em De Lee. Registro no primeiro período: contrações de 1 em 1 hora, pulso de 1 em 1 hora, temperatura e PA de 4 em 4 horas, toque de 4 em 4 horas. Duração do primeiro período ativo: primípara média 8 horas, pouco provável passar de 18; multípara média 5 horas, pouco provável passar de 12. Falha de progresso no primeiro período: suspeita com menos de 2 cm em 4 horas; amniotomia se bolsa íntegra e toque em 2 horas; menos de 1 cm confirma; obstetra e ocitocina com incrementos não mais frequentes que 30 minutos até 4 a 5 contrações em 10 minutos; toque 4 horas após o início, e aumento menor que 2 cm leva a revisão obstétrica para avaliar cesariana. Segundo período: com peridural, adiar o puxo por pelo menos 1 hora; suspeitar de prolongamento sem progresso após 1 hora na nulípara e 30 minutos na multípara; confirmar falha acima de 2 horas na nulípara e 1 hora na multípara; parto esperado em até 3 horas e 2 horas do início da fase ativa. Terceiro período: prolongado após 30 minutos; conduta ativa com 10 UI de ocitocina IM antes do clampeamento; cordão seccionado não antes de 1 minuto e antes de 5 minutos; trocar conduta fisiológica por ativa se houver hemorragia ou se a placenta não dequitar em 1 hora.

em 30 dias

As decisões, não os números. Primeiro: o que dispara intervenção é o progresso, nunca o relógio isolado — as duas fontes, brasileira e da OMS, dizem isso com todas as letras, e a alternativa que interrompe o parto porque estourou o tempo está errada nos dois mundos. Segundo: entre a suspeita de falha de progresso e a cesariana existem quatro degraus obrigatórios — amniotomia, reavaliação em 2 horas, ocitocina titulada, reavaliação em 4 horas —, e a questão quase sempre testa se você pula algum. Terceiro: o corte da fase ativa denuncia a fonte da questão — 4 cm é Diretriz Nacional de 2017 adaptada do NICE, 5 cm é OMS de 2018, 6 cm são os dados de Zhang sem validação de segurança; o cenário SUS puxa para o corte brasileiro. Quarto: os relógios do segundo período correm do início da fase ativa, não da dilatação completa. Quinto: o mecanismo do parto tem uma ordem — flexão e insinuação, descida, rotação interna, deflexão com hipomóclio na sínfise, restituição e rotação externa, desprendimento dos ombros —, e cada tempo resolve uma incompatibilidade de diâmetro. Sexto: a lista do que não se faz de rotina (enema, tricotomia, amniotomia precoce em quem progride bem, Kristeller, episiotomia, spray de lidocaína, massagem perineal) vale tantos pontos quanto a lista do que se faz.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Primigesta de 24 anos, 39 semanas, risco habitual, admitida com 4 cm de dilatação, bolsa íntegra e apresentação cefálica em De Lee −1; quatro horas depois o toque mostra 5 cm, dinâmica de 2 contrações em 10 minutos e a curva do partograma cruzando a linha de alerta — centro obstétrico de maternidade do SUS — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Mecanismo e fases clínicas do trabalho de parto – Trabalho de parto e partograma — Preparatório para provas | OsceLabs