PediatriaPneumologia Pediátrica

Crupe viral e epiglotite

Laringotraqueíte aguda (crupe viral) e epiglotite

A prova quer saber se você localiza a obstrução pelo som e pela voz antes de tratar: tosse ladrante e rouquidão são subglote, voz abafada e sialorreia são supraglote — e o corticoide entra em todo crupe, inclusive no leve.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Criança de 18 meses com quadro de 3 dias de rinorreia, seguido de tosse ladrante (metálica), rouquidão e estridor inspiratório que piora à noite. Ao exame: FR 30 ipm, SatO2 96%, estridor audível apenas ao choro, sem tiragem em repouso, afebril. Qual é o diagnóstico e a conduta inicial mais apropriada?

02

Como esse tema cai

Estridor é o som de uma via aérea de grosso calibre estreitada, e a primeira decisão diante de uma criança que estrida não é qual remédio dar: é em que andar está a obstrução. Acima das cordas vocais, a via aérea não tem cartilagem, colaba fácil e gera voz abafada e sialorreia, sem rouquidão e sem tosse ladrante. Na glote e na subglote, sustentadas pela cricoide e pelos anéis traqueais, a inflamação atinge as cordas vocais e produz exatamente o oposto: rouquidão e tosse ladrante. Esse par de achados separa a supraglotite do crupe antes de qualquer exame.

O crupe viral é a doença comum: responde por 90% dos casos de estridor na infância. O tratamento tem uma medida que muda desfecho — dexametasona em dose única, em todos os graus, inclusive no leve — e uma que só ganha tempo: a adrenalina nebulizada, que age quase instantaneamente e dura cerca de duas horas. Confundir as duas é o erro que devolve a criança à emergência.

A epiglotite entrou em outro patamar depois da vacina contra o Haemophilus influenzae tipo b, mas não saiu da prova: continua sendo o cenário em que examinar a orofaringe pode fechar a via aérea, e continua puxando o resto do programa junto — calendário vacinal, notificação e quimioprofilaxia de contatos, que no Brasil têm régua escrita e recente. Este capítulo fecha três coisas que os documentos deixam ambíguas: o corte do escore de gravidade, a dose de dexametasona no crupe grave e a faixa etária que os textos brasileiros apresentam de duas maneiras.

03

O que muda decisão

O som diz o andar: a anatomia que resolve o diagnóstico

As vias aéreas superiores vão da faringe aos brônquios principais e a SBP as divide em três andares, cada um com um comportamento mecânico próprio. A via aérea supraglótica vai do nariz até logo acima das cordas vocais; não tem cartilagem, distende e colaba com facilidade e, por ter vários planos de tecido, permite que infecções se disseminem e formem abscesso rapidamente. São dela o abscesso retrofaríngeo, a supraglotite infecciosa e a difteria.

Como esse segmento colaba na pressão negativa da inspiração, o estridor supraglótico é ouvido principalmente na inspiração — na expiração a via aérea se insufla e a obstrução alivia. Quando a obstrução fica acima do esôfago e impede a deglutição, aparece sialorreia. E como as cordas vocais em geral são poupadas, a voz não fica rouca: fica abafada, a chamada voz de batata quente.

As vias aéreas glótica e subglótica vão das cordas vocais até a traqueia antes do tórax. Colabam menos, porque são sustentadas pela cartilagem cricoide e pelos anéis traqueais, mas quando obstruem geram estridor inspiratório, ou inspiratório e expiratório. A inflamação da glote compromete as cordas vocais e produz rouquidão, não abafamento — e é aqui que mora o crupe. Já a via aérea intratorácica, traqueia e brônquios principais, colaba na expiração, quando a pressão intratorácica aumenta: o estridor de obstrução intratorácica é mais audível expirando.

Um número explica por que a criança pequena descompensa depressa: a mucosa da região subglótica é pouco aderente e permite edema volumoso, e em lactentes 1 mm de edema subglótico reduz em 50% o calibre da traqueia. A subglote é a porção mais estreita da via aérea superior na criança — por isso o edema ali restringe o fluxo o bastante para gerar estridor inspiratório com uma inflamação que, em um adulto, passaria como rouquidão.

Cortes coronais da via aérea pediátrica: à esquerda, epiglote e tecidos supraglóticos edemaciados; à direita, edema circunferencial subglótico no anel cricoide com epiglote preservada.
Dois andares, dois quadros. O edema acima das cordas vocais poupa a voz e dá abafamento e sialorreia; o edema abaixo delas compromete as cordas e dá rouquidão com tosse ladrante.

Crupe viral: quem pega, quando e com que nome

Síndrome do crupe é o conjunto rouquidão, tosse ladrante, estridor predominantemente inspiratório e graus variados de desconforto respiratório. Quando a causa é viral, chama-se crupe viral; as outras causas da mesma síndrome são a traqueíte bacteriana e a difteria.

A nomenclatura acompanha a extensão do acometimento e a prova gosta de cobrá-la. Se a doença se restringe à laringe, é laringite, com rouquidão e tosse ladrante. Se pega laringe e traqueia, é laringotraqueíte, o quadro típico de crupe. Se compromete também os bronquíolos, soma tempo expiratório prolongado e sibilos, e passa a ser laringotraqueobronquite.

A laringotraqueobronquite é a causa mais comum de obstrução de vias aéreas superiores na criança e responde por 90% dos casos de estridor, embora represente apenas 1,5% a 6% das doenças do trato respiratório na infância. Os agentes são os vírus parainfluenza tipos 1, 2 e 3 à frente, seguidos de influenza A e B e do vírus sincicial respiratório; acima dos 5 anos, o Mycoplasma pneumoniae ganha importância etiológica.

A doença tem pico de incidência aos 18 meses e predomina no sexo masculino, de 1,4 a 2 vezes mais que no feminino. A maioria dos casos ocorre no outono e no inverno, mas o crupe aparece o ano todo — sazonalidade não é critério diagnóstico nem argumento para afastar a hipótese fora da estação.

Crupe que se repete muda a pergunta. Diante de episódios recorrentes, a investigação passa a mirar refluxo gastroesofágico, papilomatose recorrente de laringe, estenose laringotraqueal e anormalidades congênitas — a criança pode estar apenas descompensando, a cada infecção viral, uma via aérea que já era estreita.

A doença em dias, e o que significa a criança ficar quieta

O quadro começa banal: rinorreia clara, faringite, tosse leve e febre baixa. De 12 a 48 horas depois instalam-se os sintomas de obstrução alta, com a tosse ladrante, a rouquidão e o estridor, junto de elevação da temperatura. Os sintomas costumam se resolver em 3 a 7 dias; nos casos mais graves, a doença chega a 14 dias.

A progressão da gravidade tem uma ordem, e ela é a espinha do exame físico: aumento das frequências cardíaca e respiratória, retrações claviculares, esternais e diafragmáticas, batimento de aletas nasais, cianose, agitação psicomotora e, por fim, sonolência. A sequência importa porque o último item engana. Criança agitada com crupe está lutando; criança que para de lutar e fica sonolenta não melhorou — está entrando em falência.

Quatro situações marcam risco de falência respiratória: idade abaixo de seis meses, estridor em repouso, alteração do nível de consciência e detecção de hipercapnia. Manipulação anterior das vias aéreas superiores, como cirurgia ou intubação prévia, e doenças prévias da via aérea exigem abordagem mais cuidadosa desde o início.

A oximetria de pulso deve ser feita em toda criança com estridor, mas lida do jeito certo: saturação normal gera falsa impressão de baixo risco, porque a luz da via aérea se estreita acentuadamente antes de a criança ficar hipoxêmica. Hipoxemia documentada no crupe já é doença avançada e falência iminente, com risco de parada respiratória — e é indicação de internação em terapia intensiva. Um detalhe fino do mesmo raciocínio: crupe apenas moderado que cursa com hipoxemia provavelmente tem acometimento simultâneo das vias aéreas inferiores.

Radiografia cervical: por que não pedir

O diagnóstico do crupe é clínico, e a radiografia de pescoço é uma armadilha cara em três frentes. Primeiro, os achados clássicos de estreitamento da traqueia subglótica — sinal da ponta de lápis, ou da torre de igreja — têm pouco valor, porque podem aparecer em criança saudável apenas pelo estreitamento anatômico normal daquela região. Segundo, metade das crianças com crupe viral clinicamente evidente tem radiografia cervical normal. Terceiro, e mais grave: fazer o exame significa tirar a criança do colo, deitá-la e mexer nela.

A régua da SBP é direta: radiografia cervical normal não exclui aspiração de corpo estranho nem supraglotite, radiografia alterada não faz diagnóstico de crupe, e o exame não deve ser realizado em crianças com obstrução das vias aéreas superiores. A imagem cervical fica reservada à investigação de outra etiologia para os sintomas — corpo estranho, por exemplo — ou aos casos de evolução atípica, e nessas situações o exame é feito com a via aérea vigiada.

O mesmo raciocínio vale para a orofaringe. Diante de suspeita de obstrução supraglótica, o abaixador de língua não é exame complementar: é manobra capaz de precipitar o colapso de um segmento que já colaba sozinho na inspiração.

Tratamento do crupe: um que muda desfecho, um que ganha tempo

Antes do remédio vem a medida que não custa nada: manter a criança o mais calma possível, no colo de quem a acompanha, evitando manipulação e exames desnecessários. O choro aumenta a pressão torácica negativa, colaba ainda mais a via aérea extratorácica e transforma o fluxo laminar em turbulento, o que aumenta a resistência à entrada de ar. Uma criança chorando por causa do jaleco está fisiologicamente pior do que estava antes de você entrar.

O corticoide é o que muda desfecho. Reduz comprovadamente a gravidade dos sintomas, a necessidade e a duração da hospitalização, a necessidade de admissão em terapia intensiva e a necessidade de associar adrenalina. A ação é bifásica: além do efeito anti-inflamatório, o início rápido sugere vasoconstrição e redução da permeabilidade vascular. A droga escolhida é a dexametasona, potente e de ação longa, acima de 48 horas, em dose única, por via oral ou parenteral — dose única resolve, não há esquema de dias. A budesonida inalatória, na dose de 2 mg, reduz a gravidade em relação ao placebo e equivale à dexametasona no crupe leve e moderado.

A adrenalina nebulizada é a que ganha tempo. Age por estímulo alfa-adrenérgico, com constrição dos capilares arteriolares, e o efeito sobre o estridor e sobre os sinais de falência é quase instantâneo. O problema está na duração: cerca de 2 horas. Passado esse tempo, a criança pode voltar ao desconforto inicial — motivo pelo qual a nebulização nunca é alta imediata. As indicações são crupe moderado ou grave e criança com procedimento ou manipulação prévia da via aérea superior. A dose escrita no texto da SBP é 0,5 mL/kg de L-adrenalina 1:1000, sem diluir, até o máximo de 5 mL por dose.

O resto é o que a prova adora oferecer como distrator. Nebulização com soro fisiológico e ar umidificado é usual e não tem eficácia comprovada; se a criança se agita com o procedimento, ele deve ser desencorajado, porque o dano do choro é real e o benefício não é. A nebulização se justifica como veículo de oxigênio quando há hipoxemia. Antibiótico não trata crupe viral, doença de parainfluenza.

Uma ressalva de segurança que está na própria bibliografia do guia brasileiro: embora estudos randomizados não mostrem efeitos colaterais com uma dose de adrenalina inalatória, existe relato de criança previamente hígida, com crupe grave, que desenvolveu taquicardia ventricular e infarto do miocárdio após o uso. Repetir a cada 2 horas é possível em falência respiratória, mas é decisão de paciente monitorizado, não de rotina de sala de espera.

Observar, internar, intubar

Depois da adrenalina, a conduta é observação de 3 a 4 horas, ao fim das quais a criança pode receber alta ou ser internada. O critério de alta é clínico e simples: ausência de estridor em repouso.

A internação deve ser considerada diante de toxemia, desidratação ou incapacidade de ingerir líquidos, estridor significativo ou retrações em repouso, ausência de resposta à adrenalina ou piora clínica depois de 2 horas da administração. Hipoxemia documentada, como já dito, empurra o destino para a terapia intensiva.

A maioria das crianças com laringotraqueíte não precisa de intubação depois de adrenalina e dexametasona. Quando é necessária, o procedimento é complicado por três motivos simultâneos: a anatomia da faixa etária, a agitação psicomotora e o risco de converter uma obstrução parcial em obstrução total. Por isso a intubação eletiva de quem está fechando deve ser feita em ambiente bem controlado, pelo profissional mais experiente disponível, e com cânula traqueal 0,5 mm menor no diâmetro interno do que a calculada para a idade — a via aérea está edemaciada e o tubo do tamanho teórico não passa.

Há uma complicação que aparece justamente quando o problema se resolve: o edema pulmonar associado ao alívio da obstrução. Durante a obstrução, a pressão intratraqueal subatmosférica na inspiração torna a pressão pleural muito negativa, o que se transmite ao interstício e acumula água em volta dos vasos. Quando a obstrução é removida, a pressão intersticial sobe de forma abrupta e empurra esse líquido para dentro dos alvéolos antes que ele seja reabsorvido. Criança que piora a oxigenação logo após a intubação bem-sucedida não necessariamente teve falha do procedimento.

Epiglotite (supraglotite): a doença que a vacina empurrou para o rodapé

Com a introdução da vacina contra o Haemophilus influenzae tipo b, os casos de supraglotite infecciosa diminuíram acentuadamente. Ela permanece como diagnóstico diferencial das obstruções infecciosas das vias aéreas superiores, mas com uma característica que a separa de todo o resto: não faz síndrome do crupe.

O achado que fecha a distinção é negativo. Na supraglotite há estridor e desconforto respiratório sem rouquidão e sem tosse ladrante, porque as cordas vocais e a traqueia — origem desses dois sintomas — são justamente as estruturas poupadas. No lugar delas aparecem a voz abafada, gerada pela obstrução acima das cordas, e a sialorreia, quando a obstrução acima do esôfago impede a deglutição. Somam-se a aparência tóxica e a alteração de perfusão circulatória, típicas de doença bacteriana e ausentes no crupe viral.

A consequência prática é uma regra de ordem, não de droga: a via aérea vem antes. A criança deve permanecer na posição que escolheu, no colo do acompanhante, sem exame de orofaringe, sem ser deitada e sem procedimentos que a façam chorar — porque o tecido supraglótico não tem cartilagem, colaba com facilidade e o guia brasileiro registra que doenças dessa região têm potencial de obstruir rapidamente as vias aéreas, tornando-as letais. Quando a obstrução é iminente, vale a mesma regra da intubação do crupe: ambiente controlado, profissional mais experiente, cânula menor.

Uma leitura epidemiológica que evita conclusão apressada: no Brasil, entre 2009 e 2021, a maioria dos casos identificados de doença invasiva por Haemophilus influenzae foi por cepas não tipáveis, seguidas do sorotipo a e do sorotipo b. Ou seja, doença invasiva por Haemophilus em criança vacinada não é automaticamente falha vacinal — o sorotipo b hoje divide espaço com cepas que a vacina não cobre. A Nota Técnica Conjunta nº 154/2024 registra ainda que, como a tipagem demora, a quimioprofilaxia dos contatos é recomendada já com a confirmação inicial de doença invasiva por Haemophilus influenzae, sem esperar o sorotipo.

Traqueíte bacteriana: o crupe que não responde

A traqueíte bacteriana — também chamada crupe membranoso ou pseudomembranoso — é rara e emergiu como a principal causa de obstrução potencialmente fatal das vias aéreas superiores depois da vacinação contra o Hib. Em uma série citada pelo guia brasileiro, ela respondeu por 48% das internações em terapia intensiva por obstrução alta potencialmente fatal, seguida do crupe viral, com 46%.

Os números de proporção ajudam a calibrar a suspeita: entre os casos internados com diagnóstico de crupe, a etiologia bacteriana corresponde a 1 para cada 40 a 50 casos de crupe viral; considerando apenas as internações em terapia intensiva, a proporção sobe para 1 para cada 8.

Clinicamente, ela combina crupe e epiglotite. Depois de um pródromo viral breve, surgem tosse ladrante, rouquidão, estridor inspiratório e insuficiência respiratória — e a esses sinais de crupe grave somam-se febre alta, acima de 38,5 °C, e toxemia. O agente principal é o Staphylococcus aureus, com participação de estreptococos, Moraxella catarrhalis e Haemophilus sp., e é comum haver coinfecção viral.

A chave diagnóstica está na resposta ao tratamento, e é isso que a prova cobra: não há resposta terapêutica ao tratamento inicial com adrenalina inalatória e corticosteroide. O crupe que recebeu dexametasona e nebulização e não melhorou, com febre alta e criança toxemiada, mudou de doença. O diagnóstico definitivo é feito pela visualização da traqueia, que mostra exsudato purulento e malcheiroso bloqueando a luz, de fácil remoção e sem sangramento; as hemoculturas costumam ser negativas.

O manejo é outro: admissão em terapia intensiva, intubação em centro cirúrgico com endoscopia — que ao mesmo tempo diagnostica, trata e colhe material — e antibiótico endovenoso, com cefalosporina de segunda geração, cefuroxima, ou de terceira, ceftriaxona, como drogas únicas. A intubação costuma ser necessária por 3 a 7 dias e o cuidado com a cânula precisa ser meticuloso, porque as membranas a obstruem com frequência. Nesta doença não há lugar para corticosteroide nem para adrenalina inalatória. A taxa de internação em terapia intensiva é de 94% e a de intubação, 83%; o guia da SBP registra mortalidade entre 18% e 40%.

Prevenção: o calendário que fez a epiglotite recuar

A vacina contra o Hib chegou ao Calendário Nacional de Vacinação nos anos 1990 e desde então houve redução progressiva dos casos de doença invasiva por Hib, com destaque para as meningites. Hoje ela integra a vacina penta, combinada com difteria, tétano, pertussis de células inteiras e hepatite B.

O esquema do Calendário Nacional de Vacinação de 2026 é de três doses da penta, aos 2, 4 e 6 meses de idade, com intervalo de 60 dias entre elas e mínimo de 30 dias em situações excepcionais; a terceira dose não deve ser administrada antes dos 6 meses. Os dois reforços — aos 15 meses e aos 4 anos — são feitos com a DTP, tríplice bacteriana, e portanto não contêm componente Hib. A idade mínima para iniciar o esquema com a penta é de 6 semanas e a vacina não é aplicada a partir dos 7 anos.

Quem já teve a doença invasiva pode precisar de dose extra. A Nota Técnica Conjunta nº 154/2024 orienta que crianças que tiveram doença invasiva por Hib antes dos 2 anos e estão com esquema completo recebam, entre 6 meses e menos de 2 anos de idade, uma dose adicional de vacina com componente Hib, respeitado o intervalo mínimo de 60 dias após a última dose — porque a infecção natural nessa idade não gera anticorpos protetores de forma robusta. A vacinação começa 30 dias após o início da doença invasiva. Quem teve a doença a partir dos 2 anos com esquema completo em geral desenvolve resposta protetora e não precisa de dose adicional.

Quimioprofilaxia dos contatos: a régua brasileira de 2024

Casos secundários de meningite por Hib são raros, mas podem ocorrer mais de 30 dias depois do contato com o caso-índice — motivo pelo qual, na doença invasiva por Hib, a quimioprofilaxia pode ser feita até 30 dias após a exposição. A taxa de ataque secundária é maior entre contatos domiciliares menores de 4 anos não vacinados, e as taxas de colonização são altas justamente nesse grupo.

Recebem quimioprofilaxia: o próprio paciente, se o tratamento da doença não estiver sendo feito com cefalosporina de terceira geração, ceftriaxona ou cefotaxima; todos os contatos domiciliares, se o domicílio incluir pessoa imunocomprometida ou criança menor de 2 anos, independentemente da situação vacinal, ou criança menor de 4 anos não vacinada ou com esquema incompleto; e os demais contatos próximos que tenham, entre seus próprios contatos domiciliares, alguém nessas condições — situação em que só o contato direto do caso-índice recebe a profilaxia. Em creche e ensino infantil, entram os cuidadores diretos e as crianças menores de 4 anos da sala do caso, quando o contato ocorreu por pelo menos 5 dos 10 dias anteriores ao início dos sintomas, nas mesmas condições de idade e vacinação; se houver um segundo caso de doença invasiva por Haemophilus influenzae em até 60 dias, todos os contatos da sala recebem, independentemente da idade e da situação vacinal.

O esquema da doença invasiva por Hib é rifampicina uma vez ao dia por 4 dias: 10 mg/kg/dose para menores de 1 mês; 20 mg/kg/dose, no máximo 600 mg, de 1 mês a menos de 18 anos; 600 mg a partir dos 18 anos. Para quem tem contraindicação, intolerância ou reação adversa à rifampicina, a alternativa é ceftriaxona intramuscular ou intravenosa uma vez ao dia por 2 dias, 50 mg/kg abaixo de 12 anos e 1 grama a partir dos 12 anos.

É aqui que mora uma das confusões mais cobradas: o esquema da doença meningocócica é outro. Na doença meningocócica, a rifampicina é de 12 em 12 horas por 2 dias, 5 mg/kg/dose em menores de 1 mês e 10 mg/kg/dose, máximo 600 mg, a partir de 1 mês. Dobra a dose e some com metade das tomadas quando o agente é o Hib — e a duração passa de 2 para 4 dias. A recomendação de uso preferencial e restrito da rifampicina existe para evitar seleção de isolados resistentes; a quimioprofilaxia deve ser feita o mais precocemente possível e administrada simultaneamente a todos os contatos próximos.

04

Estridor na emergência: classificar, tratar e decidir o destino

A SBP publica um escore clínico de cinco sinais para graduar a obstrução, e a conduta muda por faixa. O escore não substitui o exame do andar da via aérea — ele entra depois que o par tosse ladrante e rouquidão já apontou a subglote.

  1. 1Localize o andar antes de tudo: tosse ladrante e rouquidão apontam glote e subglote; voz abafada, sialorreia e ausência desses dois sintomas apontam supraglote.
  2. 2Mantenha a criança no colo do acompanhante, sem exame de orofaringe e sem procedimento dispensável — choro aumenta a pressão negativa e fecha mais a via aérea.
  3. 3Faça oximetria em toda criança com estridor, lembrando que saturação normal não afasta risco e que hipoxemia já significa doença avançada.
  4. 4Some o escore e classifique em leve, moderado, grave ou ameaça à vida.
  5. 5Dexametasona em dose única em todos os graus, inclusive no leve, por via oral ou parenteral.
  6. 6L-adrenalina 1:1000 nebulizada no moderado e no grave, seguida de 3 a 4 horas de observação, porque o efeito dura cerca de 2 horas.
  7. 7Decida o destino: alta se não houver estridor em repouso; internação se houver toxemia, desidratação, estridor ou retração em repouso, ausência de resposta à adrenalina ou piora após 2 horas; terapia intensiva se houver hipoxemia ou falência iminente.
  8. 8Se não respondeu a corticoide e adrenalina, com febre alta e toxemia, saia do trilho do crupe e pense em traqueíte bacteriana.

Leve (6 pontos ou menos)

Estridor ausente ou só com agitação, sem retração e com entrada de ar normal. Dexametasona em dose única e alta para casa, com orientação de retorno.

Moderado (7 a 8 pontos)

Estridor leve em repouso, retração moderada, entrada de ar diminuída. L-adrenalina nebulizada mais dexametasona, com 3 a 4 horas de observação antes de decidir entre alta e internação.

Grave (9 pontos ou mais)

Estridor grave em repouso, retração grave, entrada de ar muito diminuída, cianose com agitação. L-adrenalina nebulizada, dexametasona na dose alta e vaga em terapia intensiva.

Ameaça à vida

Cianose em repouso, letargia e esforço respiratório que se esgota — hipoxemia documentada já é falência iminente. Via aérea em ambiente controlado, pelo profissional mais experiente, com cânula 0,5 mm menor que a calculada para a idade.

Sinal0123
EstridorAusenteCom agitaçãoLeve em repousoGrave em repouso
RetraçãoAusenteLeveModeradaGrave
Entrada de arNormalNormalDiminuídaMuito diminuída
CorNormalNormalCianótica com agitaçãoCianótico em repouso
Nível de consciênciaNormalAgitação sob estímuloAgitaçãoLetárgico

Conduta por gravidade no crupe viral (SBP, 2017)

GravidadeCorticoideAdrenalina nebulizadaDestino
LeveDexametasona 0,15 a 0,3 mg/kg, dose únicaNão indicadaAlta para casa
ModeradoDexametasona 0,3 a 0,6 mg/kg ou budesonida inalatória 2 mgL-adrenalina 1:1000, 0,5 mL/kg até 5 mLObservação por 3 a 4 horas e depois alta ou internação
GraveDexametasona 0,6 mg/kg por via intramuscularL-adrenalina 1:1000, 0,5 mL/kg até 5 mLAdmissão em terapia intensiva

O andar da via aérea e o achado que o denuncia

AndarVoz e tosseEstridorExemplos
Supraglótico (acima das cordas vocais)Voz abafada, de batata quente; sem rouquidão e sem tosse ladrante; sialorreia se a obstrução impede a deglutiçãoPrincipalmente inspiratório, porque o segmento colaba na pressão negativa da inspiraçãoSupraglotite infecciosa, abscesso retrofaríngeo, difteria
Glótico e subglóticoRouquidão e tosse ladrante, por comprometimento das cordas vocaisInspiratório, ou inspiratório e expiratórioSíndrome do crupe: crupe viral e traqueíte bacteriana
IntratorácicoSem rouquidão nem abafamento característicosMais audível na expiração, quando a pressão intratorácica colaba a via aéreaObstrução de traqueia intratorácica e brônquios principais

Crupe viral × traqueíte bacteriana (SBP, 2017)

ItemCrupe viralTraqueíte bacteriana
Idade na tabela de diferencial3 meses a 3 anosAcima de 3 anos
Instalação12 a 48 horas após o pródromoProgressiva, de 12 horas a 7 dias
Cavidade oralHiperemia de faringe, epiglote normalHiperemia de faringe e secreção purulenta
Sintomas circulatóriosNormalmente ausentesModerados a graves
Resposta a dexametasona e adrenalinaRespondeNão responde — é o que separa as duas
IntubaçãoGeralmente desnecessáriaGeralmente necessária, com cânula menor
Destino e tratamentoEnfermaria ou alta; dexametasona e adrenalina inalatóriaTerapia intensiva; assegurar via aérea e antibiótico parenteral

Quimioprofilaxia: Hib × meningococo (Nota Técnica Conjunta nº 154/2024)

SituaçãoDroga de primeira escolhaDoseIntervalo e duração
Doença invasiva por Hib, menor de 1 mêsRifampicina10 mg/kg/dose1 vez ao dia, 4 dias
Doença invasiva por Hib, de 1 mês a menos de 18 anosRifampicina20 mg/kg/dose, máximo 600 mg1 vez ao dia, 4 dias
Doença invasiva por Hib, alternativa à rifampicinaCeftriaxona intramuscular ou intravenosa50 mg/kg abaixo de 12 anos; 1 g a partir de 12 anos1 vez ao dia, 2 dias
Doença meningocócica, menor de 1 mêsRifampicina5 mg/kg/dose12 em 12 horas, 2 dias
Doença meningocócica, a partir de 1 mêsRifampicina10 mg/kg/dose, máximo 600 mg12 em 12 horas, 2 dias

O escore da SBP soma cinco sinais pontuados de 0 a 3, até 15 pontos, e o guia imprime os cortes como menor que 6 para leve, 7 a 8 para moderada e maior que 8 para grave — o que deixa o valor 6 sem categoria nenhuma. O corte que fecha a tabela sem buraco é 6 ou menos para leve, 7 e 8 para moderada e 9 ou mais para grave; nenhum caso deste capítulo pontua exatamente 6. Os cortes são desse escore específico, creditado a Rothrock na bibliografia do guia, e não valem para outras escalas de crupe, que têm faixas próprias.

A tabela de tratamento do mesmo guia imprime, no crupe grave, dexametasona 0,6 mg por via intramuscular, sem o por quilo; o texto corrido do documento é explícito ao dizer que a dose única varia de 0,15 mg/kg no crupe leve a 0,6 mg/kg no grave. A dose que fecha é 0,6 mg/kg. O documento brasileiro não fixa teto em miligramas; o guia australiano fixa 12 mg.

O guia brasileiro apresenta duas faixas etárias para o crupe viral: no texto, 1 a 6 anos com pico aos 18 meses; na tabela de diagnóstico diferencial, 3 meses a 3 anos. As duas têm funções distintas — a primeira descreve quem adoece, a segunda existe para separar o crupe viral, típico até os 3 anos, da traqueíte bacteriana, típica acima disso. As vinhetas deste capítulo ficam dentro da interseção das duas faixas.

A dose de adrenalina no texto do guia brasileiro é por quilo, 0,5 mL/kg de L-adrenalina 1:1000 sem diluir, até 5 mL; a tabela imprime apenas o teto de 5 mL. O relato de infarto do miocárdio citado na bibliografia do próprio guia ocorreu com epinefrina racêmica — a apresentação que a SBP e o guia australiano prescrevem é a L-adrenalina 1:1000.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O que fazer com estridor em repouso: referir com antibiótico ou tratar como crupe moderado

AIDPI Criança (Ministério da Saúde, 2017): estridor em repouso é critério de referência urgente

No quadro de tosse ou dificuldade para respirar, estridor em repouso — isolado, ou junto de tiragem subcostal ou de sinal geral de perigo — classifica a criança como PNEUMONIA GRAVE OU DOENÇA MUITO GRAVE. A conduta escrita é dar a primeira dose de um antibiótico recomendado, tratar a criança para evitar hipoglicemia, oferecer oxigênio se disponível e referir urgentemente ao hospital. O algoritmo não separa a causa do estridor porque é uma ferramenta de triagem para a unidade básica, sem laringoscopia e sem via aérea avançada, calibrada para não deixar passar doença bacteriana grave.

Ministério da Saúde / OPAS — AIDPI Criança: 2 meses a 5 anos, Manual de Quadros de Procedimentos, 2017.

SBP, Departamento de Emergências (2017): estridor em repouso é crupe moderado, tratado no pronto-socorro

No guia de conduta do crupe, estridor leve em repouso pontua 2 no escore e o crupe moderado é tratado com L-adrenalina nebulizada e dexametasona, com 3 a 4 horas de observação e alta se a criança ficar sem estridor em repouso. A internação é reservada a toxemia, desidratação ou incapacidade de ingerir líquidos, ausência de resposta à adrenalina ou piora depois de 2 horas. Antibiótico não faz parte do tratamento do crupe viral, que é doença de parainfluenza.

SBP, Departamento Científico de Emergências — Guia Prático de Conduta nº 1: Crupe Viral e Bacteriano, 2017.

Na prova

Os dois documentos são brasileiros e do mesmo ano, e a diferença não é de doutrina clínica: é do lugar onde a criança está e dos recursos que existem ali. Enunciado ambientado em unidade básica de saúde, que usa as palavras sinais gerais de perigo, classificar e referir, está pedindo a caixa do AIDPI, e as alternativas costumam reproduzir os nomes das classificações do algoritmo. Enunciado de pronto-socorro que descreve tosse ladrante, rouquidão, escore de gravidade e disponibilidade de nebulização está pedindo o manejo do crupe. Um distrator que oferece adrenalina nebulizada denuncia cenário hospitalar; um distrator que oferece amoxicilina e referência denuncia cenário de atenção primária. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS, e a atenção primária costuma vir na moldura do AIDPI.

Dose de dexametasona no crupe: graduada pela gravidade ou dois patamares com teto

SBP (2017): dose única graduada pela gravidade, sem teto em miligramas

A dexametasona é dada em dose única, oral ou parenteral, variando de 0,15 mg/kg no crupe leve a 0,6 mg/kg no grave, com a faixa intermediária de 0,3 a 0,6 mg/kg no moderado, onde a budesonida inalatória 2 mg é alternativa equivalente. O documento não estabelece dose máxima em miligramas.

SBP, Departamento Científico de Emergências — Guia Prático de Conduta nº 1: Crupe Viral e Bacteriano, 2017.

Royal Children's Hospital Melbourne: dois patamares e teto de 12 mg

A dexametasona é 0,15 mg/kg para crupe leve e moderado e 0,6 mg/kg, no máximo 12 mg, para crupe grave e ameaça à vida — sem faixa intermediária. A adrenalina 1:1000 nebulizada aparece no quadro de ameaça à vida e a observação mínima antes da alta é de 3 horas depois da nebulização.

The Royal Children's Hospital Melbourne — Clinical Practice Guideline: Croup (laryngotracheobronchitis).

Na prova

Os dois concordam nos extremos: 0,15 mg/kg basta no crupe leve e 0,6 mg/kg é a dose do grave. A diferença aparece no crupe moderado, onde o documento brasileiro autoriza subir a dose e o australiano mantém 0,15 mg/kg, e no teto, que só um dos dois escreve. Enunciado que cita a SBP, ou que oferece a faixa 0,3 a 0,6 mg/kg entre as alternativas, está no corpo brasileiro. Enunciado que dá o peso de um adolescente e pede a dose em miligramas está pedindo um documento com teto — sem teto declarado, a conta por quilo passaria de 12 mg. Questão que pergunta a dose do crupe leve não distingue os dois: a alternativa é a mesma nos dois mundos.

Quarta dose de Hib aos 15 meses

Calendário Nacional de Vacinação 2026 (PNI): três doses de penta, sem componente Hib nos reforços

O esquema é de três doses da vacina penta — difteria, tétano, pertussis de células inteiras, Hib e hepatite B — aos 2, 4 e 6 meses, com intervalo de 60 dias. Os dois reforços, aos 15 meses e aos 4 anos, são feitos com a DTP, que não contém o componente Haemophilus influenzae b. A criança que segue o calendário público não recebe quarta dose de Hib.

Ministério da Saúde, SVSA/DPNI — Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 2026.

Calendário da SBP 2026-2027: quarta dose aos 15 meses quando se usa pertussis acelular

A SBP mantém as três doses aos 2, 4 e 6 meses e acrescenta: quando for utilizada pelo menos uma dose de vacina combinada com componente pertussis acelular — como DTPa/Hib/VIP e DTPa/Hib/VIP/HB, disponíveis em clínicas privadas e nos CRIE —, uma quarta dose de Hib deve ser aplicada aos 15 meses de vida, para reduzir o risco de ressurgimento das doenças invasivas por Hib no longo prazo. A vacina Hib monovalente deixou de ser produzida para o mercado privado em 2024.

Sociedade Brasileira de Pediatria — Calendário de Vacinação, atualização 2026-2027.

Na prova

A linha que separa as duas posições é o produto usado, não a opinião sobre o Hib: o gatilho da quarta dose é ter recebido combinação com pertussis acelular. Enunciado que descreve criança acompanhada em unidade básica, com penta e reforços de DTP, está no calendário público e o esquema termina aos 6 meses para o Hib. Enunciado que fala em vacina hexavalente acelular, clínica privada ou CRIE traz o gatilho da quarta dose junto. Vale também o inverso como pista: alternativa que oferece reforço de Hib aos 15 meses num cenário declaradamente de PNI está descrevendo um calendário que não é o daquela criança.

06

Caso resolvido

Menino de 2 anos é levado ao pronto-socorro às 2 h da manhã. Há dois dias tem coriza clara e tosse leve; nesta noite acordou com uma tosse rouca, alta, que a mãe descreve como latido de cachorro, e um ruído para puxar o ar. Está no colo, alerta, calmo, corado. Ao exame: sem estridor enquanto está quieto, estridor inspiratório audível quando chora, sem tiragem, entrada de ar normal, temperatura axilar 37,8 °C, saturação de oxigênio 97% em ar ambiente. A voz está rouca e não há sialorreia.
achado
Tosse ladrante mais rouquidão localizam a obstrução na glote e na subglote — é síndrome do crupe, não obstrução supraglótica. A ausência de voz abafada e de sialorreia afasta o padrão da supraglotite, e o pródromo de coriza com febre baixa por dois dias é a apresentação clássica do crupe viral.
escore
Estridor apenas com agitação vale 1; retração ausente, 0; entrada de ar normal, 0; cor normal, 0; nível de consciência normal, 0. Total 1 ponto — crupe leve.
o que não fazer
Não pedir radiografia cervical: o diagnóstico é clínico, metade das crianças com crupe tem o exame normal e o achado de estreitamento subglótico aparece em criança saudável. Não prescrever antibiótico, porque a doença é viral. Não insistir em nebulização com soro fisiológico, que não tem eficácia comprovada e piora a criança se a agitar.
conduta
Dexametasona em dose única, 0,15 mg/kg, por via oral, e alta para casa. Crupe leve recebe corticoide — a dose única age por mais de 48 horas e reduz a chance de a criança voltar pior. Adrenalina nebulizada não está indicada, porque é reservada ao crupe moderado ou grave e a quem já teve manipulação prévia de via aérea.
orientação de retorno
Explicar que a tosse pode durar de 3 a 7 dias e piora à noite, e que os sinais de retorno imediato são estridor com a criança quieta, tiragem, recusa de líquidos, palidez ou cianose e sonolência fora do sono. Sonolência em criança que estava agitada não é melhora.
07

Agora feche você

Menina de 4 anos chega à emergência com história de 12 horas de febre alta, aferida em 39,4 °C em casa. Está sentada na maca, inclinada para a frente, com o queixo projetado, babando sobre a camiseta e recusando deitar. Fala pouco, e o que fala sai com voz abafada. Não tem rouquidão e a mãe é enfática: não houve tosse nenhuma. Há estridor inspiratório audível a distância, tiragem de fúrcula, palidez e tempo de enchimento capilar de 3 segundos. Saturação de 95% em ar ambiente. O residente pega o abaixador de língua e pede uma radiografia cervical.
achado
Estridor e desconforto respiratório sem rouquidão e sem tosse ladrante localizam a obstrução acima das cordas vocais: cordas e traqueia estão poupadas, e é justamente por isso que faltam os dois sintomas do crupe. A voz abafada vem da obstrução acima das cordas e a sialorreia, da obstrução acima do esôfago, que impede a deglutição.
o que o resto do exame acrescenta
Aparência tóxica e alteração de perfusão circulatória são típicas de doença bacteriana e estão ausentes no crupe viral. A criança adotou espontaneamente a posição em que consegue manter a via aérea aberta — e essa posição é informação clínica, não capricho.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir radiografia cervical para confirmar o crupe Atrai porque o sinal da torre de igreja é famoso e parece objetivo. Só que metade das crianças com crupe clínico tem radiografia normal, o estreitamento subglótico aparece em criança saudável pela anatomia da região, e o exame exige deitar e manipular quem já está com a via aérea estreitada. Radiografia normal também não exclui corpo estranho nem supraglotite.
  2. 2Tranquilizar-se com a saturação normal A oximetria deve ser feita em toda criança com estridor, mas ela é boa quando está ruim e não é garantia quando está boa: a luz da via aérea se estreita acentuadamente antes de a criança dessaturar. Hipoxemia no crupe já é doença avançada com risco de parada respiratória, e não o começo do problema.
  3. 3Mandar o crupe leve para casa só com orientação e umidificação Parece proporcional à gravidade, e é o erro mais comum. A dexametasona reduz gravidade, necessidade e duração de internação, admissão em terapia intensiva e necessidade de adrenalina — e está indicada também no crupe leve, em dose única. A nebulização com soro fisiológico ou ar umidificado, que ocupa o lugar dela na prática, não tem eficácia comprovada.
  4. 4Dar adrenalina nebulizada e liberar a criança em seguida O efeito é quase instantâneo sobre o estridor, o que dá uma falsa sensação de doença resolvida. Só que ele dura cerca de 2 horas: passado esse tempo, a criança pode voltar ao desconforto inicial. Por isso a nebulização vem acompanhada de 3 a 4 horas de observação, e a piora depois de 2 horas é critério de internação.
  5. 5Examinar a orofaringe da criança com suspeita de obstrução supraglótica O reflexo de olhar a garganta é automático em pediatria e aqui é perigoso: o tecido supraglótico não tem cartilagem, colaba na inspiração e a manobra pode fechar de vez uma via aérea que ainda estava parcialmente aberta. A criança que está sentada, inclinada para a frente e babando já escolheu a posição que a mantém viva — deitá-la para examinar desfaz isso.
  6. 6Insistir em corticoide e adrenalina no crupe que não responde Repetir a nebulização parece a escalada lógica. Mas a ausência de resposta ao tratamento inicial com adrenalina inalatória e corticosteroide é justamente o que separa a traqueíte bacteriana do crupe viral. Com febre alta acima de 38,5 °C e toxemia, a próxima medida não é outra dose: é terapia intensiva, via aérea assegurada e antibiótico parenteral — nessa doença não há lugar para corticoide nem para adrenalina.
  7. 7Usar o esquema de rifampicina do meningococo para o contato de Hib Os dois esquemas moram no mesmo documento e são trocados o tempo todo. No meningococo, rifampicina 10 mg/kg/dose de 12 em 12 horas por 2 dias; na doença invasiva por Hib, 20 mg/kg/dose uma vez ao dia por 4 dias, no máximo 600 mg. A dose dobra, a frequência cai pela metade e a duração dobra.
  8. 8Achar que doença invasiva por Haemophilus em criança vacinada é falha vacinal No Brasil, entre 2009 e 2021, a maioria dos casos identificados de doença invasiva por Haemophilus influenzae foi por cepas não tipáveis, seguidas do sorotipo a e do sorotipo b. A vacina cobre o sorotipo b; os demais circulam livremente. E como a tipagem demora, a quimioprofilaxia dos contatos é indicada já com a confirmação inicial de doença invasiva por Haemophilus influenzae.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Tosse ladrante, rouquidão e estridor inspiratório após pródromo viral definem laringotraqueíte (crupe); com estridor apenas ao choro é leve/moderada, e a dexametasona é a base do tratamento. Epiglotite cursa com toxemia, sialorreia, disfagia e ausência de tosse ladrante. Bronquiolite cursa com sibilância, não estridor. Corpo estranho tem início súbito sem pródromo. Asma não causa estridor inspiratório nem tosse ladrante.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite o par que localiza o andar: tosse ladrante mais rouquidão é subglote, crupe; voz abafada mais sialorreia sem tosse ladrante é supraglote, supraglotite. Depois, as três frases do tratamento do crupe: dexametasona em dose única em todos os graus, inclusive no leve; adrenalina nebulizada só no moderado e no grave, com 3 a 4 horas de observação porque o efeito dura cerca de 2 horas; radiografia cervical não entra.

em 30 dias

Reconstrua sem olhar: os cortes do escore da SBP (6 ou menos, 7 a 8, 9 ou mais) e o que muda em cada faixa; os critérios de internação e o que joga direto para a terapia intensiva; o achado que separa traqueíte bacteriana de crupe viral, que é a ausência de resposta a corticoide e adrenalina; o esquema da penta no calendário de 2026 e o fato de os reforços de 15 meses e 4 anos serem de DTP, sem Hib; e as duas linhas de rifampicina lado a lado — Hib 20 mg/kg uma vez ao dia por 4 dias, meningococo 10 mg/kg de 12 em 12 horas por 2 dias.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menino de 2 anos chega à emergência de madrugada com tosse rouca e alta, que começou depois de dois dias de coriza clara, e um ruído para puxar o ar que apareceu esta noite. Está no colo da mãe, alerta e corado, com estridor audível quando chora. A mãe quer saber se é preciso fazer uma radiografia e se ele vai precisar de antibiótico. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Laringotraqueíte aguda – Crupe viral e epiglotite — Preparatório para provas | OsceLabs