PediatriaPneumologia Pediátrica

Faringoamigdalite e rinofaringite

A prova quer saber se você separa a faringoamigdalite estreptocócica das virais sem gastar antibiótico à toa — e se sabe dose, duração e o prazo que previne a febre reumática.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 4 anos apresenta há 2 dias febre (38,8 °C), odinofagia intensa e recusa alimentar. Ao exame: amígdalas hiperemiadas com exsudato, petéquias em palato, adenomegalia cervical anterior dolorosa, sem tosse e sem coriza. Considerando o agente bacteriano mais provável e a diretriz atual, qual é o antibiótico de primeira escolha?

02

Como esse tema cai

Dor de garganta e nariz escorrendo são o feijão com arroz do ambulatório de pediatria — e é exatamente por isso que caem tanto. A banca não quer saber se você decora vírus raros: quer saber se você reconhece que a imensa maioria desses quadros é viral e se resolve com soro fisiológico e antitérmico, e se você identifica, no meio deles, a única que muda de conduta — a faringoamigdalite estreptocócica, porta de entrada da febre reumática e da glomerulonefrite pós-estreptocócica.

O capítulo cobre os dois temas em espelho: a rinofaringite (o resfriado comum), em que a habilidade cobrada é não prescrever antibiótico e orientar a família; e a faringoamigdalite, em que a habilidade é decidir — por pistas clínicas, escore de McIsaac, teste rápido ou pela régua do AIDPI — quem recebe penicilina, em que dose, por quanto tempo e dentro de que prazo. No caminho, os diferenciais que a prova adora: herpangina, gengivoestomatite herpética, mononucleose (e o exantema pós-amoxicilina), abscesso periamigdaliano e difteria.

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O que muda decisão

Rinofaringite aguda: a doença mais comum da infância

O resfriado comum é uma infecção viral autolimitada de nariz e faringe — rinovírus à frente, seguido de coronavírus sazonais, vírus sincicial respiratório, parainfluenza, adenovírus e influenza. Criança pequena adoece muito: seis a oito episódios por ano é o esperado nos primeiros anos de vida, e quem frequenta creche pode passar disso, emendando um quadro no outro durante o inverno. Esse número importa porque a queixa 'meu filho vive gripado' costuma ser desenvolvimento imunológico normal + exposição, não imunodeficiência — o alerta só liga quando as infecções são graves, profundas, por germes oportunistas ou não ganham intervalo livre.

A clínica é conhecida: coriza, obstrução nasal, espirros, tosse, febre nos primeiros 2 a 3 dias e hiperemia leve de faringe. O conjunto dura em torno de uma semana, podendo se arrastar por até duas — e a tosse é o último sintoma a sair. Secreção nasal que engrossa e amarela no meio do caminho faz parte da evolução normal do resfriado e não indica antibiótico.

Tratamento é suporte: lavagem nasal com soro fisiológico, antitérmico se febre ou dor (paracetamol, dipirona ou ibuprofeno nas doses pediátricas), líquidos e retorno se piorar. Mel alivia a tosse em maiores de 1 ano — abaixo disso é contraindicado pelo risco de botulismo. Antitussígenos, descongestionantes sistêmicos e mucolíticos não têm eficácia demonstrada em crianças pequenas e somam risco: não prescreva. E antibiótico não trata nem 'previne' complicação de resfriado — só seleciona flora.

As complicações bacterianas existem, mas são minoria: a otite média aguda é a mais frequente delas, e a rinossinusite bacteriana complica 5% a 13% dos resfriados na criança — no adulto a taxa é bem menor, de 0,5% a 2%. A pista de sinusite não é radiografia (que altera até em resfriado e rinite) — é o padrão temporal: sintomas que pioram depois do 5º dia ou que persistem além de 10 dias sem melhorar, ou quadro desproporcional desde o início (febre alta + secreção purulenta por 3 dias seguidos). Guarde a regra do tempo: ela decide questão.

Faringoamigdalite: o jogo é viral × estreptocócica

Na faringoamigdalite aguda, a maioria dos casos também é viral em todas as idades — no levantamento da SBP, 40% a 50% virais, 20% a 40% bacterianos e o restante sem agente identificado. O vilão que importa é um só: o Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do grupo A, SGA), responsável por cerca de 30% das amigdalites purulentas no meio brasileiro e por todas as consequências que justificam tratar — febre reumática, glomerulonefrite, complicações supurativas.

A idade é o primeiro filtro: o pico do SGA é a idade escolar, de 5 a 15 anos. Abaixo de 3 anos, faringite estreptocócica típica é incomum e febre reumática é rara — por isso a IDSA orienta nem testar rotineiramente lactentes, e você deve desconfiar de qualquer alternativa que mande 'colher teste rápido' em bebê de 1 ano resfriado.

Pistas que puxam para viral: coriza, tosse, rouquidão, espirros, conjuntivite, diarreia, úlceras ou vesículas na boca. Pistas que puxam para estreptocócica: início súbito com febre alta, exsudato amigdaliano purulento, petéquias no palato, adenomegalia cervical anterior dolorosa, dor abdominal e vômitos, exantema escarlatiniforme — tudo isso sem tosse e sem coriza. Nenhum achado isolado fecha diagnóstico: exsudato também aparece em adenovírus e mononucleose, e metade das crianças com quadro 'clássico' não tem SGA. É essa incerteza que os escores e o teste vieram organizar.

Quando a mesma bactéria vem com exantema micropapular áspero ('pele de lixa'), palidez perioral e língua em framboesa, o nome muda para escarlatina — mas a lógica diagnóstica e o tratamento são os da faringite estreptocócica. O exantema, aliás, é uma pista a favor do SGA no escore mental de qualquer prova.

Comparação entre a orofaringe de uma faringite viral e a de uma faringoamigdalite estreptocócica.
À esquerda, hiperemia difusa leve do quadro viral; à direita, exsudato amigdaliano, petéquias no palato e adenomegalia cervical dolorosa — o trio que puxa o escore para cima.

Quadros virais com nome próprio

Herpangina (vírus Coxsackie A): pré-escolar, surtos de verão, febre alta e odinofagia com vesículas e úlceras pequenas na parte posterior da boca — pilares anteriores, palato mole, úvula. Poupa gengiva e lábios. Autolimitada; o desafio é analgesia e hidratação (a criança recusa até líquidos). Quando as lesões vêm também em mãos e pés, é a síndrome mão-pé-boca, do mesmo grupo de vírus.

Gengivoestomatite herpética (herpes-simples tipo 1, primoinfecção): lactente e pré-escolar, febre alta por vários dias e lesões na parte anterior — gengiva edemaciada e sangrante, úlceras em língua, lábios e mucosa jugal, hálito fétido, sialorreia. A localização anterior + gengivite é o que a separa da herpangina em prova. Risco real é desidratação por recusa alimentar.

Febre faringoconjuntival (adenovírus): faringite exsudativa + conjuntivite não purulenta + febre alta — o exsudato engana e leva a antibiótico desnecessário; a conjuntivite entrega o vírus.

Mononucleose infecciosa (Epstein-Barr): adolescente com odinofagia arrastada, exsudato amigdaliano, linfadenopatia generalizada (incluindo cadeias posteriores), fadiga importante, esplenomegalia e linfocitose com atipia. A pegadinha clássica: prescrever amoxicilina para essa 'amigdalite purulenta' e o paciente voltar com exantema maculopapular difuso — reação típica da associação EBV + aminopenicilina, que não é alergia verdadeira à penicilina e não contraindica uso futuro. Adolescente com 'amigdalite que não melhora com antibiótico' é mononucleose até prova em contrário.

Quem testar, quem tratar: escore, teste rápido e a régua do AIDPI

O problema prático: a clínica sozinha erra para os dois lados. A resposta internacional é estratificar com escore e confirmar com microbiologia. O escore de McIsaac (Centor modificado pela idade) soma cinco itens — febre relatada, ausência de tosse, adenomegalia cervical anterior dolorosa, edema ou exsudato amigdaliano e a faixa etária — e a atualização da IDSA de outubro de 2025 formalizou o papel dele: selecionar quem merece teste, poupando exame de quem tem probabilidade baixa. Na validação em mais de 200 mil pacientes, mesmo o escore máximo só acerta o SGA em ~55% — por isso escore alto, para a IDSA, indica testar, não fechar diagnóstico.

O teste rápido de antígeno é específico: positivo, está fechado — trate. Negativo em criança e adolescente, a IDSA manda colher cultura de orofaringe de resguardo, porque a sensibilidade do teste rápido não é perfeita e o custo de perder um SGA em quem pode fazer febre reumática é alto demais. Em adulto, a cultura de resguardo é dispensável (incidência de SGA e de febre reumática muito baixas). Dois exames que não servem para o episódio agudo: ASLO e anti-DNase B — anticorpos contam história passada, não o presente; o uso deles é dar evidência de estreptococcia prévia na investigação de febre reumática e GNPE.

E a realidade brasileira? Na maior parte das UBS não há teste rápido nem cultura em tempo útil. O documento oficial que resolve isso é o AIDPI (2 meses a 5 anos): classificação e tratamento pela clínica, sem microbiologia. Gânglios cervicais aumentados e dolorosos ou amígdalas hiperemiadas com pontos purulentos ou petéquias no palato = infecção moderada de garganta → antibiótico (penicilina benzatina em dose única), analgésico e retorno em 2 dias. Vesículas ou simples hiperemia com sinais de resfriado = infecção leve → só analgésico. Abaulamento de palato, membrana branco-acinzentada ou qualquer sinal geral de perigo = infecção grave → primeira dose de antibiótico e referência urgente. Acima dos 5 anos não há documento nacional equivalente — vale o raciocínio de escore + teste quando existir, e o tratamento empírico do quadro típico onde não existir.

Portador crônico de SGA existe e não se caça: parcela expressiva dos escolares assintomáticos carrega a bactéria na orofaringe sem risco relevante de febre reumática e com transmissão mínima. Não colha exame de quem não tem faringite aguda, não trate portador e não saia testando contactante assintomático — cada uma dessas condutas já foi alternativa errada de prova.

Tratamento da faringoamigdalite estreptocócica

Tratar serve para: (1) prevenir febre reumática — e a janela é generosa: o tratamento iniciado até o 9º dia do início do quadro mantém a proteção, então nunca há pressa que justifique antibiótico em quadro duvidoso sem avaliar; (2) prevenir complicações supurativas; (3) encurtar os sintomas em cerca de um dia; (4) cortar a transmissão — após 24 horas de antibiótico a criança pode voltar à escola. O que o tratamento não faz: prevenir glomerulonefrite pós-estreptocócica. Essa distinção decide questão todo ano.

Primeira escolha no Brasil: penicilina G benzatina intramuscular em dose única — 600.000 UI se menos de 20 kg; 1.200.000 UI se 20 kg ou mais (régua do AIDPI 2017 e da diretriz brasileira de febre reumática; a IDSA usa o corte de 27 kg — ver divergências). Resolve adesão num ato só, com custo baixo — por isso é a cara do SUS e da prova. A alternativa oral de rotina é a amoxicilina 50 mg/kg/dia (máximo 1 g/dia), por 10 dias completos — a criança melhora em 48-72 horas, mas a erradicação da orofaringe exige o curso inteiro; parar no 7º dia é resposta errada. Penicilina V oral é igualmente eficaz, mas as múltiplas tomadas diárias por 10 dias minam a adesão.

Alergia à penicilina: se a reação não foi anafilática, cefalosporina de 1ª geração (cefalexina 20 mg/kg/dose de 12/12 h, máx. 500 mg/dose, 10 dias). Se anafilaxia, macrolídeo — azitromicina 12 mg/kg 1×/dia (máx. 500 mg) por 5 dias — ou clindamicina 7 mg/kg/dose de 8/8 h (máx. 300 mg/dose) por 10 dias. Sulfametoxazol-trimetoprim não erradica o SGA da orofaringe e não é opção, por mais que seja o que há na prateleira do posto.

Completa o pacote: analgesia e antitérmico (paracetamol, dipirona ou ibuprofeno — nunca AAS em criança), corticoide não entra de rotina, e amigdalectomia não se indica apenas para reduzir frequência de amigdalites. Falha real ou recorrência precoce: reavalie o diagnóstico (mononucleose? portador + viral de repetição?) antes de escalar antibiótico; quando for mesmo recorrência bacteriana, amoxicilina-clavulanato ou cefalosporina são as opções.

Complicações e sinais de alarme

Supurativas: o abscesso periamigdaliano é o mais cobrado — adolescente com odinofagia unilateral intensa, trismo, voz abafada ('batata quente'), sialorreia e desvio contralateral da úvula com abaulamento do palato. Conduta: drenagem + antibiótico; no AIDPI, abaulamento de palato classifica como infecção grave e manda referir com urgência após a primeira dose. O abscesso retrofaríngeo prefere menores de 5 anos (o espaço retrofaríngeo involui depois): febre alta, disfagia, sialorreia, rigidez/hiperextensão cervical — pode obstruir via aérea. Otite média aguda e sinusite completam a lista.

Não supurativas: febre reumática (2 a 4 semanas após faringite não tratada — nunca após piodermite) e glomerulonefrite pós-estreptocócica (1 a 3 semanas após faringite ou piodermite, e o antibiótico não a previne). A profilaxia primária da febre reumática é exatamente o tratamento correto da faringite dentro da janela de 9 dias.

Difteria fecha os alarmes: membrana branco-acinzentada aderente em amígdalas e faringe, que sangra ao tentar descolar, halitose, toxemia e pescoço taurino em criança com vacinação incompleta. No AIDPI, membrana acinzentada = infecção grave = referir. Raríssima, mas é a razão de a caderneta vacinal entrar na anamnese de toda dor de garganta.

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Escore de McIsaac e a régua do AIDPI

Duas ferramentas para a mesma decisão — antibiótico ou não. O McIsaac organiza a probabilidade e diz quem merece teste; o AIDPI resolve a vida real da UBS sem laboratório, dos 2 meses aos 5 anos.

  1. 1Dor de garganta: procure primeiro pistas virais francas (coriza, tosse, rouquidão, conjuntivite, vesículas/úlceras). Presentes → viral: sem teste, sem antibiótico, suporte.
  2. 2Menor de 3 anos: não teste nem trate SGA de rotina — apresentação atípica e febre reumática rara. Use a régua AIDPI se houver sinais de garganta.
  3. 3Sem pistas virais: some o McIsaac (febre relatada +1, sem tosse +1, adenomegalia cervical anterior dolorosa +1, edema/exsudato amigdaliano +1, 3-14 anos +1, 15-44 anos 0, 45+ −1).
  4. 40-1 ponto → probabilidade baixa: analgesia e orientação, sem teste.
  5. 52 ou mais pontos → teste rápido; positivo = tratar; negativo em criança/adolescente = cultura de resguardo antes de liberar.
  6. 6Sem teste disponível → régua AIDPI: gânglio cervical doloroso OU pontos purulentos/petéquias no palato = tratar com benzatina; vesículas/hiperemia com resfriado = só analgésico.
  7. 7Qualquer sinal de gravidade (abaulamento de palato, membrana acinzentada, trismo, sialorreia com rigidez cervical, estridor, sinal geral de perigo) → primeira dose de antibiótico e referência urgente.

0-1 ponto — baixa probabilidade (8-14%): nem teste, nem antibiótico

Analgesia, hidratação e orientação de retorno. Testar aqui só gera falso-positivo de portador e antibiótico desnecessário.

2-3 pontos — zona do teste (23-37%): confirmar antes de tratar

Teste rápido se disponível; negativo em criança pede cultura de resguardo. É a faixa em que a clínica sozinha mais erra — e onde a régua AIDPI decide quando não há laboratório.

4-5 pontos — alta probabilidade (~55%): teste ainda assim, se houver

Mesmo o escore cheio erra em quase metade dos casos — por isso a IDSA testa até aqui. Onde o teste não existe, o quadro típico com escore alto acaba tratado empiricamente — é o desenho do AIDPI abaixo dos 5 anos e a prática assistencial acima deles.

Critério de McIsaacPontos
História de febre (> 38 °C)+1
Ausência de tosse+1
Adenomegalia cervical anterior dolorosa+1
Edema ou exsudato amigdaliano+1
Idade 3 a 14 anos+1
Idade 15 a 44 anos0
Idade 45 anos ou mais−1

Probabilidade de SGA por pontuação (validação em 206.870 pacientes, Fine 2012)

Escore de McIsaacTeste positivo para SGA
08%
114%
223%
337%
4 ou mais55%

AIDPI 2017 — problema de garganta (2 meses a 5 anos)

ClassificaçãoCritérioConduta
Infecção GRAVE de gargantaQualquer sinal geral de perigo; abaulamento de palato; membrana branco-acinzentadaPrimeira dose de antibiótico + referir URGENTEMENTE
Infecção MODERADA de gargantaGânglios cervicais aumentados e dolorosos OU amígdalas hiperemiadas com pontos purulentos ou petéquias no palatoPenicilina benzatina dose única (2ª linha: amoxicilina 10 dias) + analgésico + retorno em 2 dias
Infecção LEVE de gargantaVesículas e/ou hiperemia de garganta com sinais de resfriado comumAnalgésico; seguimento em 2 dias se persistir a dor
Não há infecção de gargantaNenhum dos sinais acimaNenhum tratamento adicional

Tratamento da faringoamigdalite estreptocócica

DrogaDoseDuração
Penicilina G benzatina IM (1ª escolha)< 20 kg: 600.000 UI · ≥ 20 kg: 1.200.000 UI (IDSA: corte em 27 kg)Dose única
Amoxicilina VO50 mg/kg/dia (máx. 1 g/dia), em 1 ou 2 tomadas10 dias
Penicilina V VOCriança: 250 mg 2-3×/dia · adolescente: 500 mg 2×/dia10 dias
Cefalexina VO (alergia não anafilática)20 mg/kg/dose de 12/12 h (máx. 500 mg/dose)10 dias
Azitromicina VO (anafilaxia)12 mg/kg 1×/dia (máx. 500 mg)5 dias
Clindamicina VO (anafilaxia)7 mg/kg/dose de 8/8 h (máx. 300 mg/dose)10 dias

ASLO e anti-DNase B não diagnosticam o episódio agudo — servem de evidência de estreptococcia prévia na investigação de febre reumática e GNPE.

Portador crônico: não testar contactante assintomático, não tratar portador — risco de febre reumática e transmissão são mínimos.

Corticoide não entra de rotina na faringite; AAS é proibido em criança.

Retorno à escola após 24 horas de antibiótico.

Sulfametoxazol-trimetoprim não erradica SGA — não é opção nem na falta de outra coisa.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Corte de peso da penicilina benzatina: 20 kg ou 27 kg?

Documentos brasileiros (AIDPI 2017; Diretriz de Febre Reumática SBC/SBP/SBR 2009): 600.000 UI abaixo de 20 kg, 1.200.000 UI a partir de 20 kg

É a régua unificada do SUS — a mesma do quadro de tratamento do AIDPI e da profilaxia primária e secundária da febre reumática, o que simplifica memorização e prescrição na rede.

Ministério da Saúde, AIDPI Criança 2017; Arq Bras Cardiol 2009;93(3 supl.4)

IDSA 2012: 600.000 UI abaixo de 27 kg, 1.200.000 UI a partir de 27 kg

O corte de 27 kg (60 libras) vem da tradição norte-americana de dosagem da benzatina e segue nas tabelas internacionais. As ampolas e as doses são as mesmas — muda só o peso em que se troca de uma para a outra.

Shulman ST et al., Clin Infect Dis 2012;55(10):e86-102

Na prova

Uma criança de 22 kg recebe 1.200.000 UI pela régua brasileira e 600.000 UI pela IDSA — é nessa faixa (20-27 kg) que a divergência aparece. Cenário de UBS, AIDPI ou diretriz nacional de febre reumática aponta o corte de 20 kg; enunciado que nomeie IDSA/AHA ou traga pesos convertidos de libras aponta 27 kg. Alternativas com os dois cortes lado a lado denunciam que a banca quer exatamente essa distinção.

Confirmar com teste antes de tratar × tratar pela clínica

IDSA (2012, reafirmado na parte 1 de 2025): confirmação microbiológica antes do antibiótico

Escore serve para escolher quem TESTAR, nunca para fechar diagnóstico — mesmo escore máximo erra em ~45%. Teste rápido positivo trata; negativo em criança exige cultura de resguardo. O objetivo é não tratar viral nem portador em país onde febre reumática é rara e teste é acessível.

Shulman ST et al., CID 2012; IDSA GAS Pharyngitis Update Part 1, 2025

AIDPI/Ministério da Saúde (2 meses a 5 anos): classificar e tratar pela clínica

Gânglio cervical doloroso ou exsudato/petéquias já classificam infecção moderada e recebem benzatina, sem exame. A causa é dupla: indisponibilidade de teste rápido e cultura na atenção primária do SUS e carga histórica de febre reumática no Brasil — o custo de deixar um SGA sem tratar supera o do antibiótico a mais.

Ministério da Saúde, AIDPI Criança — Quadros de Procedimentos, 2017

Na prova

O cenário decide: UBS sem laboratório, criança pequena, vocabulário do AIDPI ('classificar', 'infecção moderada de garganta') → conduta clínica com benzatina. Serviço com teste rápido citado no enunciado, adolescente/adulto, vocabulário de escore e cultura → fluxo IDSA. Alternativa que oferece 'colher cultura e aguardar' só faz sentido no mundo com laboratório — a presença dela revela o recorte.

Dez dias completos × esquemas curtos com cefalosporina

IDSA 2012 e diretriz brasileira de febre reumática 2009: 10 dias para betalactâmico oral

A duração validada para erradicação do SGA da orofaringe — desfecho que sustenta a prevenção de febre reumática — é de 10 dias para penicilina V, amoxicilina e cefalexina; a exceção consagrada é a azitromicina, com 5 dias por perfil farmacocinético.

Shulman ST et al., CID 2012; Arq Bras Cardiol 2009

SBP (fascículo de otorrinolaringologia pediátrica, ~2002): cefalosporinas de 2ª geração por 5 dias como equivalentes

O documento registra eficácia clínica e microbiológica de 5 dias de cefaclor, axetil-cefuroxima ou cefprozil igual à de 10 dias de amoxicilina ou benzatina em dose única, apoiado em ensaios dos anos 1990. Espectro mais largo e custo maior mantiveram o esquema fora da primeira linha.

SBP, Antimicrobianos na Prática Clínica Pediátrica, Fascículo XIV (~2002)

Na prova

Quando a questão pergunta duração de amoxicilina ou penicilina V, o número em jogo é 10 dias — e alternativa com 7 dias é distrator, não posição de diretriz. Esquema curto só entra se o enunciado nomear cefalosporina de 2ª geração ou azitromicina; a idade dos documentos (ensaios dos anos 1990, fascículo de ~2002 × diretrizes de 2009/2012) explica por que ele aparece pouco nas bancas recentes.

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Caso resolvido

Menina, 9 anos, 30 kg, trazida à UBS por febre de 39,2 °C iniciada abruptamente há 36 horas e dor de garganta intensa. Sem tosse, sem coriza. Exame: amígdalas hiperemiadas com exsudato purulento bilateral, petéquias no palato, linfonodo cervical anterior direito de 2 cm, doloroso. Restante normal. A unidade não dispõe de teste rápido nem de cultura.
achado
Febre alta súbita + exsudato amigdaliano + petéquias no palato + adenite cervical anterior dolorosa, SEM tosse nem coriza, em idade escolar — o retrato da faringoamigdalite estreptocócica.
escore
McIsaac: febre (+1), sem tosse (+1), adenomegalia dolorosa (+1), exsudato (+1), 9 anos (+1) = 5 pontos — probabilidade de SGA em torno de 55%. Pelo fluxo IDSA, mereceria teste; sem laboratório disponível e com quadro típico, trata-se empiricamente.
conduta
Penicilina G benzatina 1.200.000 UI IM em dose única (30 kg ≥ 20 kg), analgésico/antitérmico, orientação de hidratação e de retorno se piora. Alternativa oral: amoxicilina 50 mg/kg/dia por 10 dias completos.
prevenção
Tratada dentro da janela de 9 dias do início, a profilaxia primária da febre reumática está garantida. Retorno à escola após 24 horas de antibiótico. Não há necessidade de exame de controle nem de testar os irmãos assintomáticos.
07

Agora feche você

Lactente de 16 meses, em creche, chega com coriza hialina, obstrução nasal, tosse e febre de 37,9 °C há 2 dias. É o quarto episódio parecido em 6 meses. Orofaringe com hiperemia leve, sem exsudato; sem adenomegalia dolorosa; ausculta limpa. A mãe pede 'um antibiótico para cortar logo, porque toda gripe dele desce'.
achado
Coriza + tosse + hiperemia leve sem exsudato em menor de 3 anos: quadro viral franco — rinofaringite aguda. Quatro episódios em 6 meses em criança de creche está dentro do esperado (6 a 8 por ano).
interpretação
Não há indicação de teste para estreptococo (pistas virais presentes E idade abaixo de 3 anos, em que SGA e febre reumática são raros) nem de radiografia. Secreção que engrossar e amarelar nos próximos dias continua sendo evolução normal.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Amoxicilina na mononucleose — e chamar o exantema de alergia Adolescente com amigdalite exsudativa + linfadenopatia generalizada + esplenomegalia que 'reagiu à amoxicilina' com rash difuso é EBV, não alergia à penicilina. A questão quer que você rotule de alergia e contraindique betalactâmico para sempre — não caia.
  2. 2Exsudato = bacteriano Adenovírus e mononucleose dão exsudato caprichado; metade dos escores máximos não tem SGA. O exsudato soma ponto, não fecha diagnóstico — a alternativa que trata todo exsudato com benzatina ignora o próprio motivo de existirem escore e teste.
  3. 3Encurtar a amoxicilina porque melhorou Melhora clínica vem em 48-72 h; erradicação exige 10 dias completos. '7 dias' parece razoável e está errado — o único esquema curto de rotina é a benzatina em dose única (e azitromicina 5 dias no anafilático).
  4. 4Prometer que o antibiótico previne glomerulonefrite Tratar previne febre reumática (janela de 9 dias) e reduz supuração e transmissão — mas NÃO previne GNPE. A questão cruza as duas complicações não supurativas esperando que você estenda a proteção de uma para a outra.
  5. 5Caçar estreptococo em quem não deve Testar lactente resfriado, contactante assintomático ou 'controle de cura' pós-tratamento só encontra portador — que não se trata. Cada um desses cenários vira alternativa plausível; todas erradas.
  6. 6Tratar o resfriado com arsenal Antitussígeno, descongestionante sistêmico, mucolítico e antibiótico 'profilático' não têm lugar na rinofaringite da criança pequena. A resposta certa costuma ser a mais simples da lista: soro nasal, antitérmico e orientação — e mel só acima de 1 ano.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro (febre, exsudato amigdaliano, adenomegalia cervical dolorosa, ausência de tosse/coriza) preenche critérios de Centor/faringite estreptocócica por S. pyogenes. A primeira escolha é penicilina/amoxicilina, pela eficácia, custo e prevenção da febre reumática — não há resistência do S. pyogenes à penicilina. Azitromicina/macrolídeos ficam reservados a alérgicos à penicilina e há resistência crescente. Ciprofloxacino não cobre adequadamente S. pyogenes e é contraindicado como 1ª linha em crianças. Clindamicina é alternativa em falha/alergia grave, não 1ª escolha. Sulfametoxazol-trimetoprima não erradica o estreptococo do grupo A.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de cabeça: os cinco itens do McIsaac com a pontuação por idade, as quatro classificações de garganta do AIDPI com suas condutas e as doses da benzatina por peso (e o corte brasileiro × IDSA). Errou algum, releia a seção de critério.

em 30 dias

Monte sem olhar a tabela viral × estreptocócica (idade, pródromos, exsudato, adenite, tosse) e liste o que o tratamento previne — e o que não previne. Feche relendo as armadilhas e os três diferenciais com nome próprio (herpangina, gengivoestomatite, mononucleose).

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mãe traz menino de 8 anos com febre de 39 °C há dois dias e dor de garganta que piora ao engolir. Sem tosse. A UBS não tem teste rápido. Conduza a consulta: decida se ele sai com penicilina, com soro nasal — ou com encaminhamento urgente. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Faringoamigdalite e rinofaringite — Preparatório para provas | OsceLabs