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Otite média aguda na criança

Otite média aguda na infância

A prova não pergunta o que é otite. Pergunta qual achado fecha o diagnóstico, quem fica sem antibiótico, qual dose e por quantos dias — e a régua brasileira responde diferente da americana nos quatro pontos.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente, 15 meses, previamente hígido, apresenta há 2 dias febre até 38,8 °C, irritabilidade e choro noturno, precedidos por 4 dias de coriza hialina. Ao exame otoscópico da orelha direita: membrana timpânica abaulada, opaca e hiperemiada, com perda dos referências anatômicos. Sem otorreia. Restante do exame sem alterações. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

A otite média aguda da criança não tem PCDT no SUS. A régua nacional vem de dois lugares, e saber qual deles está sendo cobrado resolve metade das questões: o algoritmo do AIDPI Criança, do Ministério da Saúde, de 2017, que classifica "problema de ouvido" em cinco caixas e diz exatamente o que fazer em cada uma; e as duas diretrizes que a Sociedade Brasileira de Pediatria e a ABORL-CCF escreveram para o Projeto Diretrizes AMB/CFM em 2005, uma de diagnóstico e outra de tratamento. Fora do Brasil, o documento mais cobrado é o da Academia Americana de Pediatria, de 2013 — e ele discorda do brasileiro em quase todos os números que a prova pede.

As perguntas se repetem. Qual achado fecha o diagnóstico e qual não fecha. Quem recebe antibiótico e quem fica de analgésico com retorno marcado. Qual antibiótico, em que dose e por quantos dias. E o que fazer com a criança que não melhorou em 48 a 72 horas, com a que continua com líquido no ouvido depois do tratamento e com a que apareceu com tumefação atrás da orelha.

Duas confusões custam questão com frequência. A primeira é tratar hiperemia de membrana como diagnóstico: a criança que chora e tem febre congestiona a membrana, e a hiperemia isolada quase não move a probabilidade. A segunda é confundir os três quadros que compartilham a mesma orelha — otite média aguda, otite média com efusão e otite externa —, que têm achado, conduta e prazo diferentes.

03

O que muda decisão

O diagnóstico mora na membrana, não na dor

Otite média aguda é infecção do ouvido médio com efusão — líquido atrás da membrana timpânica — instalada de forma aguda. Sem efusão não há otite média aguda, e é por isso que o diagnóstico não se faz pela queixa: faz-se olhando a membrana. A diretriz americana escreve isso como regra negativa explícita: não se deve diagnosticar otite média aguda em criança sem efusão no ouvido médio, demonstrada por otoscopia pneumática ou timpanometria.

O achado que decide é o abaulamento. A diretriz brasileira de diagnóstico, de 2005, publicou as razões de verossimilhança de cada sinal otoscópico, e a distância entre eles é grande: membrana abaulada tem razão de verossimilhança positiva de 51 (intervalo de confiança de 95%: 36 a 73); membrana opaca, 34 (28 a 42); membrana imóvel, 31 (26 a 37); membrana hemorrágica, 8,4 (6,7 a 11); membrana retraída, 3,5 (2,9 a 4,2); mobilidade apenas prejudicada, 4,0 (3,4 a 4,7). A hiperemia sozinha tem 1,4 (1,1 a 1,8) — praticamente não muda a probabilidade. Membrana de aspecto normal tem razão de verossimilhança de 0,2, o que a torna um bom argumento contra o diagnóstico.

Traduzido em probabilidade: numa população em que 20% das crianças com queixa de ouvido têm otite média aguda, o abaulamento leva a probabilidade para 94%; abaulamento com membrana opaca ou imóvel, para praticamente 100%. Já uma membrana abaulada mas com cor e mobilidade normais deixa a probabilidade em 76%. A leitura prática é curta: o abaulamento carrega o diagnóstico sozinho, e os outros sinais só o reforçam.

A diretriz americana transformou isso em critério: diagnostica-se otite média aguda em criança com abaulamento moderado a intenso da membrana, ou com otorreia de início recente não atribuível a otite externa. Abaulamento discreto só fecha o diagnóstico se vier acompanhado de dor de ouvido iniciada há menos de 48 horas, ou de eritema intenso da membrana.

O algoritmo brasileiro chega ao mesmo lugar por um caminho mais econômico. O AIDPI define "otoscopia alterada" como membrana timpânica opaca ou hiperemiada com abaulamento ou perfuração. A ordem das palavras importa: o abaulamento (ou a perfuração) é o que fecha; a cor é o adjetivo. Ler como se "opaca" bastasse sozinha contraria a própria tabela de razões de verossimilhança do documento brasileiro de 2005, em que a hiperemia isolada vale 1,4.

Otite média com efusão é o outro quadro: líquido no ouvido médio sem sinais inflamatórios agudos, tipicamente com membrana retraída ou opaca, imóvel, sem dor e sem febre. Não é otite média aguda, não recebe antibiótico e é a causa mais comum de "otite que não sara" no retorno. Otite externa é o terceiro: a dor piora à tração do pavilhão e à pressão sobre o trago, o canal está edemaciado e a membrana, quando visível, está íntegra e móvel.

Cortes sagitais do ouvido: à esquerda, membrana timpânica fina em posição neutra e cavidade média aerada; à direita, efusão purulenta empurrando a membrana lateralmente e apagando os marcos ossiculares.
O abaulamento é o achado que fecha o diagnóstico (razão de verossimilhança positiva 51). A hiperemia sozinha, sem abaulamento, quase não muda a probabilidade (1,4).

Dor de ouvido: quanto ela vale, e quanto ela não vale

A otalgia é o sintoma que mais aproxima o diagnóstico, mas não o fecha. A diretriz brasileira de 2005 registra razão de verossimilhança positiva de 3,0 a 7,3 para a dor de ouvido — o que, numa prevalência de 20%, leva a probabilidade pós-teste para uma faixa de 43% a 65%. Suspeita dos pais de que a criança está com dor de ouvido tem razão de verossimilhança de 3,4. São números úteis para pedir otoscopia, e insuficientes para prescrever.

Dentro de um resfriado, a dor de ouvido ganha peso. Em criança com infecção de vias aéreas superiores, o sintoma mais associado à otite média aguda é a otalgia: risco relativo de 8,5 abaixo dos 2 anos e de 47 acima dos 2 anos — com 15% de falsos positivos. Em menores de 4 anos com infecção de vias aéreas superiores, a dor de ouvido multiplica por 7,5 a probabilidade do diagnóstico, e a prostração, por 1,3.

Em criança que ainda não fala, a dor se apresenta como comportamento: levar a mão à orelha, puxar ou esfregar a orelha, irritabilidade e sono fragmentado. A diretriz americana usa esses equivalentes na própria definição do critério diagnóstico de abaulamento discreto. Vale lembrar o que eles não são: puxar a orelha isoladamente, sem qualquer outro achado, é sinal fraco e não sustenta o diagnóstico.

É essa fragilidade que explica a caixa mais mal compreendida do algoritmo brasileiro. Quando há dor de ouvido mas não há secreção purulenta e a otoscopia é normal ou não pôde ser feita, o AIDPI classifica como "possível infecção aguda do ouvido": analgésico, nenhum antibiótico e retorno em dois dias, com orientação dos sinais de retorno imediato. O documento acrescenta uma nota curta e decisiva ao pé do quadro: sempre que for possível, utilize o otoscópio. O portão da espera, na régua brasileira, é a incerteza diagnóstica — não a idade nem a gravidade.

Quem causa, e a conjuntivite que entrega o agente

Os três agentes bacterianos que importam são Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae não tipável e Moraxella catarrhalis, quase sempre em cima de uma infecção viral que já desarrumou a tuba auditiva. A coinfecção viral é regra, não exceção, e é uma das razões pelas quais o antibiótico rende menos do que a intuição sugere.

Há um sinal clínico que aponta o agente com força incomum. A diretriz brasileira de 2005 registra que a presença de conjuntivite purulenta multiplica por 9,5 a probabilidade de o agente ser Haemophilus influenzae; conjuntivite purulenta em criança com mais de 1 ano, por 11; e conjuntivite purulenta com história prévia de otite, por 13. É a síndrome otite-conjuntivite, e ela tem consequência prática: como boa parte dos Haemophilus não tipáveis produz betalactamase, a presença de conjuntivite purulenta é um dos gatilhos que fazem a diretriz americana trocar a amoxicilina isolada por um antibiótico com cobertura contra betalactamase.

Dois outros preditores etiológicos aparecem no mesmo documento. Alterações importantes da membrana timpânica multiplicam por 5,8 a probabilidade de pneumococo; alterações importantes da membrana com temperatura retal de 38 °C ou mais, por 3,6. Em menores de 2 anos, a contagem de leucócitos e de neutrófilos é significativamente maior nos casos por pneumococo do que nos casos por Haemophilus ou de cultura negativa. Nada disso muda a conduta inicial, mas explica por que a criança com febre alta e membrana muito alterada é a que menos se beneficia de esperar.

Um detalhe que a prova gosta de inverter: a miringite bolhosa não define etiologia viral. A diretriz brasileira é explícita — a etiologia da miringite aguda é semelhante à da otite média aguda em menores de 2 anos. O documento americano vai na mesma direção, citando série de 82 casos de miringite bolhosa com 97% de culturas bacterianas positivas, predominando pneumococo.

Por outro lado, boa parte das crianças resolve sem antibiótico porque a bactéria some sozinha. Nos estudos com timpanocentese seriada citados pela diretriz americana, entre as crianças não tratadas, 19% das com pneumococo e 48% das com Haemophilus já haviam clareado a bactéria dois a sete dias depois. Cerca de 75% das infecções por Moraxella catarrhalis curam bacteriologicamente mesmo tratadas com amoxicilina, um antibiótico ao qual ela não é sensível. É esse pano de fundo que sustenta as estratégias de espera.

A régua brasileira: as cinco caixas do AIDPI

O AIDPI não pergunta "a criança tem otite média aguda?". Pergunta se a criança está com problema de ouvido e, em caso afirmativo, faz duas perguntas e dois exames: está com dor de ouvido? há secreção no ouvido e, se há, há quantos dias? Observar se há secreção purulenta; palpar atrás das orelhas procurando tumefação dolorosa. A resposta cai em uma de cinco classificações, e cada uma tem conduta fechada.

A caixa vermelha é a mastoidite: tumefação e/ou vermelhidão dolorosa ao toque atrás da orelha. Conduta: primeira dose de um antibiótico recomendado, analgésico se houver dor e referência urgente ao hospital. Não se trata em casa, não se aguarda resposta, não se marca retorno.

A caixa que recebe antibiótico é "infecção aguda do ouvido": secreção purulenta visível no ouvido há menos de 14 dias, ou otoscopia alterada. Conduta: antibiótico por oito dias, analgésico se houver dor, secar o ouvido com uma mecha se houver secreção, retorno em dois dias e orientação dos sinais de retorno imediato. Repare que basta um dos dois achados — a otorreia purulenta recente dispensa a otoscopia, e a otoscopia alterada dispensa a otorreia.

A caixa que não recebe antibiótico é "possível infecção aguda do ouvido": dor no ouvido, sem otorreia e sem otoscopia alterada. Conduta: analgésico se houver dor, retorno em dois dias e sinais de retorno imediato. É a mesma criança que, com otoscópio na mão e membrana abaulada, mudaria de caixa e receberia antibiótico. O algoritmo não está dizendo que a criança está bem: está dizendo que, sem o achado, não se prescreve.

A caixa que engana é "infecção crônica do ouvido": secreção purulenta visível há 14 dias ou mais. Conduta: secar o ouvido com uma mecha, retorno em cinco dias e sinais de retorno imediato. Não há antibiótico sistêmico nessa caixa do algoritmo, e o intervalo de retorno é maior. Questão que oferece "amoxicilina por dez dias" para uma otorreia de três semanas está oferecendo a conduta da caixa errada.

A quinta caixa é "não há infecção do ouvido": sem dor e sem secreção purulenta notada. Nenhum tratamento adicional.

A duração merece um parágrafo próprio porque o documento tem duas leituras possíveis. O quadro de classificação diz, na coluna de tratamento, "antibiótico recomendado por oito dias"; a nota de rodapé do quadro de antibióticos repete: para infecção aguda de ouvido, usar antibiótico oral durante oito dias. O cabeçalho da tabela de doses, porém, traz "durante 7 dias" — que é a duração genérica daquela coluna, compartilhada com a pneumonia. Onde os três textos se cruzam, o que vale para o ouvido é oito dias, porque é o número que aparece nos dois lugares específicos do ouvido.

Antibiótico: qual, quanto e por quantos dias

A primeira linha brasileira é amoxicilina, 50 mg/kg/dia, de 8 em 8 horas — ou de 12 em 12 horas na formulação BD —, por oito dias. A segunda linha do AIDPI é amoxicilina com clavulanato ou eritromicina. A tabela de volumes usa a suspensão de 250 mg/5 mL, que é a mesma apresentação de 50 mg/mL que a Rename 2024 financia no Componente Básico.

Não dobrar a dose é uma decisão brasileira com evidência atrás. A diretriz de tratamento de 2005 responde à pergunta de forma direta: o uso de dose alta de amoxicilina não confere melhor resposta clínica, menor recorrência nem menos eventos adversos que a dose padrão, com grau A de evidência; e não há diferença de resposta clínica entre 90 mg/kg/dia e 40 a 45 mg/kg/dia em crianças maiores de 3 meses. O mesmo documento registra que a amoxicilina está indicada no primeiro episódio de otite média aguda e que não há diferença entre duas ou três tomadas diárias.

A escolha do antibiótico também é uma decisão de política antimicrobiana, e a Rename 2024 deixa isso legível. Amoxicilina 50 mg/mL suspensão oral e amoxicilina com clavulanato de potássio 50 mg/mL + 12,5 mg/mL suspensão oral estão no Componente Básico e são classificadas como Acesso na régua AWaRe. Azitromicina 40 mg/mL pó para suspensão oral, claritromicina 50 mg/mL grânulo para suspensão oral e estolato de eritromicina 25 mg/mL e 50 mg/mL suspensão oral também estão na lista e também são financiadas pelo Componente Básico — mas classificadas como Alerta. Ou seja: as alternativas existem na prateleira do SUS; o que sustenta a amoxicilina como primeira escolha é a categoria AWaRe, não a falta de opção.

Quando trocar de antibiótico de saída. A diretriz americana lista três gatilhos para começar já com cobertura contra betalactamase: a criança recebeu amoxicilina nos últimos 30 dias; há conjuntivite purulenta concomitante; ou há história de otite média aguda recorrente sem resposta à amoxicilina. Fora desses três, e sem alergia à penicilina, a escolha é amoxicilina isolada.

Sobre a azitromicina, a diretriz brasileira de 2005 é ambígua de propósito, e a ambiguidade é informativa. Nos primeiros três dias de tratamento, a azitromicina tem mais falha terapêutica que a amoxicilina (odds ratio 1,6); depois de 30 dias, tem menos (odds ratio 0,88). Ela provoca menos eventos adversos gastrintestinais — é preciso tratar 8 a 10 crianças com azitromicina em vez de amoxicilina para evitar um evento adverso. Não é um antibiótico proibido; é um antibiótico cuja vantagem é tolerância, não eficácia precoce.

A analgesia não é acessório. A diretriz americana a coloca como recomendação forte e independente da decisão sobre antibiótico: o manejo da otite média aguda deve incluir avaliação da dor e, havendo dor, tratamento para reduzi-la. A diretriz brasileira de 2005 registra superioridade do ibuprofeno sobre placebo na resolução da dor. A Rename 2024 financia, no Componente Básico, paracetamol 200 mg/mL solução oral e ibuprofeno 50 mg/mL suspensão oral — as duas apresentações pediátricas necessárias estão disponíveis.

E há o que não se faz. Descongestionantes e anti-histamínicos não são recomendados na otite média aguda pelo pequeno benefício e pelo risco aumentado de efeitos adversos; a diretriz brasileira vai além e registra que os anti-histamínicos são contraindicados, porque prolongam o tempo de líquido no ouvido médio. Tratamento de cinco dias com anti-histamínico ou corticoide associado ao antibiótico não melhora o resultado. A recomendação britânica repete a mesma orientação em uma linha: explique que descongestionantes e anti-histamínicos não ajudam nos sintomas.

Quando não melhora — e quando não é mais otite

O prazo de reavaliação brasileiro é dois dias; o americano é 48 a 72 horas do início dos sintomas. São a mesma ideia com relógios ligeiramente diferentes: a criança que piora ou que não melhora nesse intervalo precisa ser reavaliada, e a diretriz americana pede explicitamente que se determine se é necessária mudança de terapia.

Mudar para quê depende do que já foi usado. Quem falhou com amoxicilina isolada vai para um esquema com cobertura contra betalactamase — amoxicilina com clavulanato é o caminho disponível no Brasil, e está na Rename como suspensão oral de 50 + 12,5 mg/mL no Componente Básico. Vale registrar que cefdinir, cefuroxima e cefpodoxima, que a diretriz americana lista como alternativas, não constam da Rename 2024; a alternativa oral cefalosporínica financiada pelo SUS na atenção básica é a cefalexina, que não é escolha para otite.

Antes de chamar de falha, é preciso saber o que é falha. Efusão persistente depois do tratamento é a regra, não a exceção: duas semanas após tratamento bem-sucedido, 60% a 70% das crianças ainda têm líquido no ouvido médio; um mês depois, 40%; três meses depois, 10% a 25%. Efusão sem sintomas agudos é otite média com efusão, exige acompanhamento e não exige antibiótico. Membrana ainda opaca e imóvel numa criança sem dor e sem febre no décimo dia não é tratamento que falhou.

Perfuração espontânea com otorreia também confunde. Quando a membrana rompe, a dor costuma aliviar de repente e aparece secreção — o quadro parece piorar e na prática descomprimiu. Isso não é indicação de troca de antibiótico nem de referência: pelo algoritmo brasileiro, otorreia purulenta há menos de 14 dias é justamente o achado que classifica como infecção aguda do ouvido, com antibiótico por oito dias e mecha para secar o ouvido.

A diretriz americana também não recomenda reavaliação de rotina de todas as crianças em 10 a 14 dias: reavalia-se quem tem sintomas graves, quem é pequeno, quem tem otite recorrente ou quando a família pede.

Mastoidite e o que tira a criança da unidade básica

A mastoidite aguda é a complicação que a prova cobra porque muda o cenário de atendimento inteiro. O sinal do algoritmo brasileiro é objetivo e não exige exame de imagem para ser suspeitado: tumefação e/ou vermelhidão dolorosa ao toque atrás da orelha. Clinicamente, o processo mastóideo empurra o pavilhão auricular para fora, para a frente e para baixo, apagando o sulco retroauricular.

A conduta do AIDPI para a mastoidite tem três partes e nenhuma delas é esperar: dar a primeira dose de um antibiótico recomendado, dar analgésico em caso de dor e referir urgentemente ao hospital. A primeira dose antes da transferência é o detalhe que costuma ser removido nas alternativas erradas.

A lista britânica de encaminhamento hospitalar amplia o mesmo raciocínio para as demais complicações: infecção sistêmica grave, mastoidite, meningite, abscesso intracraniano, trombose de seio venoso e paralisia do nervo facial. São quadros raros — a própria diretriz britânica registra que complicações agudas como mastoidite são raras com ou sem antibiótico —, mas cada um deles é motivo isolado de hospital.

Duas armadilhas de exame físico ficam aqui. Linfonodo retroauricular aumentado e doloroso não é mastoidite: é linfonodo, móvel, sem apagar o sulco e sem deslocar o pavilhão. E a criança com otite média aguda e paralisia facial periférica ipsilateral não é caso de corticoide ambulatorial: é complicação supurativa e vai para o hospital.

Manequim infantil visto de trás e de lado com tumefação eritematosa retroauricular, apagamento do sulco e deslocamento do pavilhão para fora, à frente e para baixo.
Mastoidite: a tumefação retroauricular apaga o sulco e desloca o pavilhão. O achado do algoritmo é tumefação e/ou vermelhidão dolorosa ao toque atrás da orelha — primeira dose do antibiótico e referência urgente.

Otite de repetição, tubo de ventilação e o que previne

Otite média aguda recorrente tem definição numérica na diretriz americana: três episódios em 6 meses, ou quatro episódios em 1 ano com pelo menos um nos últimos 6 meses. É esse número que autoriza discutir tubo de ventilação — e o documento o classifica como opção, não como recomendação.

O que a mesma diretriz recusa é a profilaxia antibiótica contínua: não se deve prescrever antibiótico profilático para reduzir a frequência de episódios em criança com otite média aguda recorrente. É uma recomendação negativa explícita, e questão que oferece "amoxicilina em dose profilática por três meses" está oferecendo exatamente o que o documento desaconselha.

A prevenção que sobra é a que já está na caderneta e na rotina da puericultura: vacinação conforme o Calendário Nacional — a conjugada pneumocócica e a vacina contra influenza reduzem episódios —, aleitamento materno, e afastamento da exposição à fumaça de tabaco. São medidas de puericultura, não de consultório de otorrinolaringologia, e é por isso que aparecem em questão de atenção primária.

Uma última distinção que a prova cobra por escrito: episódio novo depois de intervalo livre de sintomas é recorrência; sintoma que nunca cedeu dentro do mesmo mês é persistência ou falha. Recorrência com intervalos livres volta a ser tratada como primeiro episódio, com amoxicilina; falha dentro do curso pede cobertura contra betalactamase.

04

Classificar o problema de ouvido e decidir a conduta

O caminho abaixo é o do AIDPI Criança de 2 meses a 5 anos, que é a régua brasileira do SUS para "problema de ouvido". As tabelas seguintes trazem, na ordem: as cinco classificações com a conduta de cada uma; o volume de amoxicilina por peso; e o confronto dos três documentos que a prova costuma misturar.

  1. 11 · Há tumefação ou vermelhidão dolorosa ao toque atrás da orelha? Se sim, é mastoidite: primeira dose do antibiótico, analgésico e referência urgente ao hospital. Pare aqui.
  2. 22 · Há secreção purulenta saindo do ouvido? Conte há quantos dias. Menos de 14 dias classifica como infecção aguda do ouvido; 14 dias ou mais classifica como infecção crônica, e a conduta deixa de ser antibiótico e passa a ser higiene com mecha e retorno em cinco dias.
  3. 33 · Sem otorreia, faça a otoscopia. Membrana opaca ou hiperemiada com abaulamento ou perfuração também classifica como infecção aguda do ouvido.
  4. 44 · Há dor mas a otoscopia é normal ou não pôde ser feita? A caixa é possível infecção aguda do ouvido: analgésico, sem antibiótico, retorno em dois dias e sinais de retorno imediato.
  5. 55 · Fechada a infecção aguda do ouvido: amoxicilina 50 mg/kg/dia de 8 em 8 horas por oito dias, analgésico se houver dor, mecha para secar o ouvido se houver secreção, retorno em dois dias.
  6. 66 · No retorno, ou antes se piorar: sem melhora em 48 a 72 horas, troque para cobertura contra betalactamase. Líquido no ouvido médio sem dor e sem febre não é falha e não pede antibiótico.

Membrana normal — razão de verossimilhança 0,2

Translúcida, cabo do martelo visível em posição oblíqua, processo curto proeminente e cone de luz íntegro no quadrante anteroinferior. Argumenta contra o diagnóstico: reduz a probabilidade a um quinto.

Membrana retraída — razão de verossimilhança 3,5

Cabo do martelo horizontalizado e processo curto muito saliente, cone de luz encurtado ou fragmentado. Fala de disfunção tubária e de efusão, não de infecção aguda: sem dor e sem febre, é otite média com efusão.

Membrana abaulada — razão de verossimilhança 51

Abaulada para fora como uma cúpula, opaca, relevos do martelo apagados e cone de luz ausente. É o achado que fecha o diagnóstico sozinho: numa prevalência de 20%, leva a probabilidade a 94%.

Abaulamento com perfuração e otorreia — dispensa o otoscópio

A membrana rompeu e drena secreção purulenta. A dor costuma aliviar de repente. Pelo algoritmo brasileiro, otorreia purulenta há menos de 14 dias já classifica como infecção aguda do ouvido, mesmo sem otoscopia.

AchadoClassificação (AIDPI Criança, 2017)Conduta
Tumefação e/ou vermelhidão dolorosa ao toque atrás da orelhaMastoiditePrimeira dose de um antibiótico recomendado; analgésico em caso de dor; referir urgentemente ao hospital
Secreção purulenta visível no ouvido há menos de 14 dias, ou otoscopia alterada (membrana opaca ou hiperemiada com abaulamento ou perfuração)Infecção aguda do ouvidoAntibiótico por oito dias; analgésico em caso de dor; secar o ouvido com mecha se houver secreção; retorno em dois dias; sinais de retorno imediato
Dor no ouvido, sem secreção purulenta e sem otoscopia alteradaPossível infecção aguda do ouvidoAnalgésico em caso de dor; sem antibiótico; retorno em dois dias; sinais de retorno imediato
Secreção purulenta visível no ouvido há 14 dias ou maisInfecção crônica do ouvidoSecar o ouvido com mecha; retorno em cinco dias; sinais de retorno imediato
Sem dor de ouvido e sem secreção purulenta notadaNão há infecção do ouvidoNenhum tratamento adicional

Amoxicilina na infecção aguda do ouvido — volume por peso (AIDPI Criança, 2017)

PesoAmoxicilina 250 mg/5 mL (50 mg/mL), volume por dose
4 a 7 kg2,0 a 3,5 mL
8 a 11 kg4,0 a 5,5 mL
12 a 15 kg6,0 a 7,5 mL
16 a 19 kg8,0 a 9,5 mL
20 a 24 kg10 a 12 mL

Três documentos, três respostas: quem trata, com que dose e por quantos dias

DocumentoQuem recebe antibióticoAmoxicilinaDuração
AIDPI Criança — Ministério da Saúde, 2017Quem tem otorreia purulenta há menos de 14 dias ou otoscopia alterada, em qualquer idade da faixa. Dor isolada, sem esses achados, não recebe.50 mg/kg/dia, de 8 em 8 horas (de 12 em 12 horas na formulação BD)8 dias
American Academy of Pediatrics — 2013Todos com sinais graves a partir de 6 meses (otalgia moderada a intensa, ou otalgia há 48 horas ou mais, ou temperatura ≥ 39 °C) e toda otite bilateral não grave dos 6 aos 23 meses. Observação com retorno garantido é opção na otite unilateral não grave dos 6 aos 23 meses e em qualquer otite não grave a partir de 24 meses.80 a 90 mg/kg/dia, em duas tomadas10 dias em menores de 2 anos e nos casos graves; 7 dias dos 2 aos 5 anos; 5 a 7 dias a partir dos 6 anos
NICE NG91 — Reino Unido, 2018, atualizada em 2022Nenhum antibiótico ou receita de reserva como ponto de partida. Receita imediata para quem está sistemicamente muito mal, tem sinais de doença mais grave ou alto risco de complicação; nos que têm otorreia, ou nos menores de 2 anos com otite bilateral, as três estratégias ficam abertas.Dose fixa por faixa etária, três vezes ao dia: 125 mg de 1 a 11 meses; 250 mg de 1 a 4 anos; 500 mg de 5 a 17 anos5 a 7 dias

Duração no AIDPI: o quadro de classificação e a nota de rodapé do quadro de antibióticos dizem oito dias para a infecção aguda do ouvido; o cabeçalho da tabela de doses traz sete dias, que é a duração genérica daquela coluna, compartilhada com a pneumonia. O número específico do ouvido, repetido em dois lugares, é oito dias.

A ordem das palavras na definição de otoscopia alterada é determinante: membrana opaca ou hiperemiada COM abaulamento ou perfuração. A hiperemia isolada tem razão de verossimilhança positiva de 1,4 e não fecha diagnóstico; o abaulamento tem 51.

Os cortes de 39 °C e de 48 horas de dor pertencem à diretriz americana e definem "sinais graves" lá. O algoritmo brasileiro não usa temperatura nem tempo de dor para escolher a caixa: usa otorreia, tempo de otorreia e otoscopia.

Disponibilidade no SUS (Rename 2024, Componente Básico): amoxicilina 50 mg/mL e amoxicilina + clavulanato 50 + 12,5 mg/mL suspensões orais, ambas AWaRe Acesso; azitromicina 40 mg/mL, claritromicina 50 mg/mL e estolato de eritromicina 25 e 50 mg/mL, todas AWaRe Alerta; paracetamol 200 mg/mL solução oral e ibuprofeno 50 mg/mL suspensão oral. Cefdinir, cefuroxima e cefpodoxima, alternativas listadas no documento americano, não constam da Rename 2024.

As duas faixas de dose de amoxicilina não se uniformizam porque respondem a perguntas diferentes: 50 mg/kg/dia é a dose com que o algoritmo brasileiro trata a infecção; 80 a 90 mg/kg/dia é uma dose escolhida por farmacodinâmica contra pneumococo com resistência intermediária à penicilina, e o próprio documento americano a ancora em dados de sensibilidade norte-americanos.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quem fica sem antibiótico na otite média aguda não grave

AIDPI Criança, Ministério da Saúde (2017): o portão da espera é a incerteza diagnóstica

Toda criança classificada como infecção aguda do ouvido recebe antibiótico, em qualquer idade da faixa de 2 meses a 5 anos, unilateral ou bilateral, com ou sem febre. Quem fica sem antibiótico é quem tem dor de ouvido sem otorreia purulenta e sem otoscopia alterada — a caixa "possível infecção aguda do ouvido" —, com analgésico e retorno em dois dias. A régua não é a gravidade: é o achado. E o documento pede otoscópio sempre que for possível, justamente porque o achado é o que muda a caixa.

Manual de Quadros de Procedimentos — AIDPI Criança: 2 meses a 5 anos. Ministério da Saúde / OPAS / UNICEF, 2017.

American Academy of Pediatrics (2013): o portão da espera é idade, lateralidade e gravidade

Antibiótico para todos os quadros graves a partir de 6 meses (otalgia moderada a intensa, otalgia há 48 horas ou mais, ou temperatura de 39 °C ou mais) e para toda otite bilateral não grave dos 6 aos 23 meses. Na otite unilateral não grave dos 6 aos 23 meses, e em qualquer otite não grave a partir de 24 meses, cabe prescrever ou oferecer observação, em decisão compartilhada com a família — com a exigência de haver mecanismo que garanta o retorno e o início do antibiótico se a criança piorar ou não melhorar em 48 a 72 horas.

Lieberthal AS et al. The Diagnosis and Management of Acute Otitis Media. Pediatrics. 2013;131(3):e964–e999, Key Action Statements 3A a 3D.

NICE NG91 (2018, atualizada em 2022): não prescrever é o ponto de partida

A estratégia padrão é nenhum antibiótico ou receita de reserva, a ser usada se os sintomas não começarem a melhorar em três dias ou piorarem a qualquer momento. Receita imediata fica reservada a quem está sistemicamente muito mal, tem sinais de doença mais grave ou alto risco de complicação; nas crianças com otorreia e nas menores de 2 anos com otite bilateral, as três estratégias permanecem abertas. O documento justifica a régua registrando que a maioria melhora em três dias sem antibiótico e que complicações agudas como mastoidite são raras com ou sem antibiótico.

NICE guideline NG91 — Otitis media (acute): antimicrobial prescribing, recomendações 1.1.1 e 1.1.8 a 1.1.14.

Na prova

A causa da diferença é o desenho e o cenário de cada ferramenta. O AIDPI é um algoritmo de triagem para atenção primária com acesso irregular a otoscópio e retorno não garantido, e por isso ele desloca a decisão para o achado objetivo: quem tem o achado trata; quem não tem, volta em dois dias. A observação com decisão compartilhada exige otoscopia confiável e retorno assegurado, condições que a diretriz americana lista como pré-requisito explícito. Três marcas identificam o recorte no enunciado. O vocabulário: "infecção aguda do ouvido" e "possível infecção aguda do ouvido" são nomes de caixa que só existem no AIDPI; "observação com decisão compartilhada", "48 a 72 horas", 39 °C e a divisão unilateral × bilateral só existem no documento americano; "receita de reserva" só no britânico. O cenário: UBS, agente de saúde, quadro de procedimentos, criança de 2 meses a 5 anos apontam para a régua nacional; ambulatório de pediatria com otoscopia pneumática e decisão compartilhada aponta para a régua americana. E as alternativas: um distrator que oferece observar por 48 a 72 horas um lactente de 10 meses com otite unilateral não grave só faz sentido no mundo americano, e denuncia o recorte da questão. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Dose da amoxicilina: 50 mg/kg/dia ou 80 a 90 mg/kg/dia

Dose padrão — AIDPI 2017 e Projeto Diretrizes AMB/CFM 2005

O quadro de tratamento do AIDPI prescreve amoxicilina 50 mg/kg/dia, de 8 em 8 horas, com a tabela de volume por peso na suspensão de 250 mg/5 mL. A diretriz brasileira de tratamento responde diretamente à pergunta da dose dobrada: o uso de dose alta não confere melhor resposta clínica, menor recorrência nem menos eventos adversos que a dose padrão, com grau A de evidência; e não há diferença de resposta clínica entre 90 mg/kg/dia e 40 a 45 mg/kg/dia em crianças maiores de 3 meses.

AIDPI Criança, Ministério da Saúde, 2017; e Otite Média Aguda na Infância: Tratamento, Projeto Diretrizes AMB/CFM — SBP e ABORL-CCF, 2005.

Dose alta — American Academy of Pediatrics (2013)

Amoxicilina 80 a 90 mg/kg/dia, divididos em duas tomadas. O documento ancora a escolha em farmacodinâmica: a dose alta atinge, no líquido do ouvido médio, concentrações acima da concentração inibitória mínima de todos os sorotipos de pneumococo com resistência intermediária à penicilina (CIM de 0,12 a 1,0 µg/mL) e de muitos dos altamente resistentes (CIM ≥ 2 µg/mL), por uma fração maior do intervalo entre doses. Os dados de sensibilidade que sustentam a decisão são norte-americanos: cerca de 83% dos isolados de pneumococo sensíveis à dose regular e 87% à dose alta.

Lieberthal AS et al. Pediatrics. 2013;131(3):e964–e999, seção Bacterial Susceptibility to Antibiotics e Key Action Statement 4A.

Na prova

A causa é epidemiológica antes de ser clínica: dobrar a dose é uma decisão desenhada contra um perfil local de sensibilidade do pneumococo, e o documento americano diz isso com todas as letras ao citar as próprias faixas de CIM e os próprios percentuais de sensibilidade. A revisão brasileira, olhando desfecho clínico e não farmacocinético, não encontrou diferença. Some-se a data: a leitura brasileira é de 2005, a americana é de 2013, e o cenário vacinal antipneumocócico mudou nos dois países desde então. Para identificar o recorte, olhe três coisas. O enunciado que fala em concentração inibitória mínima, pneumococo de resistência intermediária ou uso recente de antibiótico está no corpo internacional. O enunciado que descreve UBS, quadro de procedimentos, tabela de volume por peso ou classificação por caixa está no corpo brasileiro. E, nas alternativas, a presença de "90 mg/kg/dia divididos em duas tomadas" ao lado de "50 mg/kg/dia de 8 em 8 horas" é o par que denuncia qual dos dois mundos a questão está testando.

Por quantos dias tratar

Oito dias para todos — AIDPI Criança (Ministério da Saúde, 2017)

O quadro de classificação determina antibiótico recomendado por oito dias para a infecção aguda do ouvido, e a nota de rodapé do quadro de antibióticos repete o número. Não há estratificação por idade nem por gravidade: uma única duração para toda a faixa de 2 meses a 5 anos.

Manual de Quadros de Procedimentos — AIDPI Criança: 2 meses a 5 anos, Ministério da Saúde / OPAS / UNICEF, 2017.

Duração escalonada por idade e gravidade — American Academy of Pediatrics (2013)

Curso padrão de 10 dias em menores de 2 anos e em crianças com sintomas graves, porque vários estudos favorecem os 10 dias sobre cursos mais curtos nessa faixa. Sete dias dos 2 aos 5 anos com quadro leve ou moderado. Cinco a sete dias a partir dos 6 anos com quadro leve a moderado. O documento registra que a duração ótima é incerta e que os 10 dias vieram, historicamente, do tratamento da faringotonsilite estreptocócica.

Lieberthal AS et al. Pediatrics. 2013;131(3):e964–e999, seção Duration of Therapy.

Cinco a sete dias para todas as idades — NICE NG91 (2018, atualizada em 2022)

A tabela de escolha de tratamento traz amoxicilina em dose fixa por faixa etária — 125 mg de 1 a 11 meses, 250 mg de 1 a 4 anos, 500 mg de 5 a 17 anos, três vezes ao dia — sempre por 5 a 7 dias. A alternativa na alergia à penicilina é claritromicina, também por 5 a 7 dias.

NICE guideline NG91 — Otitis media (acute): antimicrobial prescribing, recomendação 1.2.1 e tabela 1.

Na prova

As três durações têm causas diferentes e não se uniformizam. O AIDPI padroniza uma duração única porque é um algoritmo de decisão rápida, desenhado para ser aplicado sem estratificação etária fina — simplicidade é parte do desenho da ferramenta. A diretriz americana estratifica porque encontrou vantagem dos 10 dias especificamente em menores de 2 anos. A britânica encurta como política de exposição antimicrobiana, dentro de um guia cujo objetivo declarado é limitar o uso de antibiótico e reduzir resistência. Repare também na diferença de unidade: o britânico prescreve dose fixa em miligramas por faixa etária, e os outros dois prescrevem por quilo — isso é diferença de produto e de prática de prescrição, não de eficácia, e sozinha já identifica o documento. Nas alternativas, "10 dias" para um lactente aponta o corte americano; "5 a 7 dias" aponta o britânico; "8 dias" é um número que só aparece no AIDPI e, quando surge entre as opções, indica que a questão está no corpo brasileiro.

A alternativa quando a amoxicilina não serve

AIDPI Criança (2017): segunda linha é amoxicilina com clavulanato ou eritromicina

O quadro de antibióticos nomeia a amoxicilina como primeira linha e traz duas segundas linhas, com tabela de volume por peso para cada uma: amoxicilina com clavulanato, na mesma dose de 50 mg/kg/dia de amoxicilina, e eritromicina 50 mg/kg/dia de 6 em 6 horas.

Manual de Quadros de Procedimentos — AIDPI Criança: 2 meses a 5 anos, Ministério da Saúde / OPAS / UNICEF, 2017.

American Academy of Pediatrics (2013): betalactâmico com cobertura contra betalactamase

A troca não é para macrolídeo, e sim para um antibiótico com cobertura adicional contra betalactamase, indicado quando a criança usou amoxicilina nos últimos 30 dias, tem conjuntivite purulenta concomitante ou tem otite recorrente sem resposta à amoxicilina. As opções listadas incluem amoxicilina com clavulanato em dose alta (90 mg/kg/dia de amoxicilina com 6,4 mg/kg/dia de clavulanato), cefdinir 14 mg/kg/dia e cefuroxima 30 mg/kg/dia.

Lieberthal AS et al. Pediatrics. 2013;131(3):e964–e999, Key Action Statements 4B e 4C.

NICE NG91 (2018, atualizada em 2022): claritromicina na alergia à penicilina

A alternativa de primeira escolha para alergia ou intolerância à penicilina é claritromicina, em dose por faixa de peso, por 5 a 7 dias; eritromicina fica reservada para quando um macrolídeo é necessário na gestação. O documento não usa macrolídeo como resgate de falha, e sim como substituto por alergia.

NICE guideline NG91 — Otitis media (acute): antimicrobial prescribing, tabela 1.

Na prova

Duas causas se somam aqui, e as duas são brasileiras. A primeira é disponibilidade: cefdinir, cefuroxima e cefpodoxima, que a diretriz americana lista, não constam da Rename 2024 — a alternativa oral que o SUS financia para essa indicação é a amoxicilina com clavulanato 50 + 12,5 mg/mL suspensão. A segunda é política antimicrobiana: a Rename 2024 classifica amoxicilina e amoxicilina com clavulanato como Acesso na régua AWaRe, e azitromicina, claritromicina e estolato de eritromicina como Alerta — todas estão na lista, e é a categoria, não a falta de estoque, que ordena a escolha. Há ainda um dado brasileiro que impede tratar macrolídeo como equivalente: a diretriz de 2005 registra maior falha terapêutica da azitromicina nos três primeiros dias em relação à amoxicilina (odds ratio 1,6), com menos eventos adversos gastrintestinais (é preciso tratar 8 a 10 crianças para evitar um). Nas alternativas, uma opção que oferece cefalosporina de terceira geração oral pelo nome comercial ou uma cefalosporina inexistente na rede sinaliza enunciado copiado do corpo internacional.

06

Caso resolvido

Otávio, 14 meses, 10 kg, é levado à UBS pela mãe às 9h. Há três dias tem coriza e tosse; desde ontem à noite chora muito, leva a mão à orelha direita e dormiu mal. Hoje de manhã a mãe percebeu que o travesseiro estava molhado e que sai um líquido amarelado da orelha direita. Temperatura axilar 38,2 °C, ativo e reativo, mama bem, sem sinais de perigo geral. À inspeção, secreção purulenta no conduto direito; à palpação, região retroauricular indolor, sem tumefação e com sulco preservado dos dois lados. A otoscopia à esquerda mostra membrana translúcida com cone de luz íntegro.
achado
Secreção purulenta visível no ouvido direito, com início hoje — portanto há menos de 14 dias. Esse achado sozinho já classifica, e dispensa a otoscopia do lado afetado: o conduto cheio de secreção frequentemente impede ver a membrana, e o algoritmo previu isso.
achado
Região retroauricular sem tumefação e sem vermelhidão dolorosa ao toque, sulco preservado, criança ativa e sem sinais de perigo geral. Está afastada a caixa vermelha — não é mastoidite e não há indicação de referência.
classificação
Infecção aguda do ouvido, à direita. Repare que a melhora súbita da dor relatada pela mãe hoje de manhã, junto com o aparecimento da secreção, é a história típica de perfuração espontânea da membrana: o quadro parece ter piorado e na verdade descomprimiu.
conduta
Amoxicilina 50 mg/kg/dia por oito dias. Aos 10 kg, o quadro de volume por peso do AIDPI dá 4,0 a 5,5 mL por dose da suspensão de 250 mg/5 mL, de 8 em 8 horas. Analgésico para a dor — paracetamol 200 mg/mL solução oral ou ibuprofeno 50 mg/mL suspensão oral, ambos no Componente Básico da Rename 2024.
conduta
Secar o ouvido com mecha, tantas vezes quantas forem necessárias, e ensinar a mãe a fazê-lo. Nada de instilar líquido no conduto nem tampá-lo com algodão úmido.
conduta
Retorno em dois dias, com orientação dos sinais de retorno imediato: piora da dor, febre que não cede, criança que fica prostrada ou não aceita líquidos, e qualquer inchaço ou vermelhidão atrás da orelha.
seguimento
Se no retorno a criança estiver melhor mas ainda com secreção, completa-se o curso e observa-se. Se estiver igual ou pior 48 a 72 horas depois do início, a conduta é reavaliar e trocar para cobertura contra betalactamase — amoxicilina com clavulanato 50 + 12,5 mg/mL. Efusão residual sem dor e sem febre semanas depois é otite média com efusão e não pede novo antibiótico.
07

Agora feche você

Mesma UBS, dois meses depois. Helena, 3 anos, 15 kg, chega com a avó. Há dois dias está com dor no ouvido esquerdo, sem febre aferida em casa, brincando normalmente e comendo bem. Não há secreção saindo do ouvido, nem hoje nem antes. Temperatura axilar 37,4 °C. A palpação retroauricular é indolor dos dois lados. Há otoscópio na unidade e a otoscopia é possível: à esquerda, a membrana está hiperemiada, sem abaulamento, com o cabo do martelo visível e o cone de luz presente; à direita, normal. A avó chegou pedindo "o antibiótico do ouvido", que foi o que receitaram para a irmã de Helena no mês passado.
achado
Dor de ouvido há dois dias, sem secreção purulenta, sem tumefação retroauricular, criança em bom estado geral.
achado
Otoscopia com hiperemia isolada: sem abaulamento e sem perfuração, com relevos do martelo visíveis e cone de luz presente.
classificação
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Fechar o diagnóstico por hiperemia da membrana É o erro mais comum e o mais fácil de cobrar. A hiperemia isolada tem razão de verossimilhança positiva de 1,4 — a criança que chora e tem febre congestiona a membrana por conta própria. Quem carrega o diagnóstico é o abaulamento (51). O AIDPI escreve "opaca ou hiperemiada com abaulamento ou perfuração", e o "com" governa a frase inteira.
  2. 2Prescrever antibiótico sistêmico para otorreia de três semanas Secreção purulenta há 14 dias ou mais classifica como infecção crônica do ouvido, cuja conduta no algoritmo é secar o ouvido com mecha e retorno em cinco dias — não antibiótico oral, e não retorno em dois dias. O corte de 14 dias e o intervalo de retorno mudam juntos, e a alternativa errada costuma trocar exatamente esses dois.
  3. 3Tratar efusão persistente como falha terapêutica Duas semanas depois de tratamento bem-sucedido, 60% a 70% das crianças ainda têm líquido no ouvido médio; 40% em um mês; 10% a 25% em três meses. Sem dor e sem febre, isso é otite média com efusão: acompanha-se, não se prescreve. Repetir antibiótico por membrana ainda opaca no décimo dia é tratar o achado esperado.
  4. 4Confundir otite externa com otite média aguda Na otite externa a dor piora à tração do pavilhão e à pressão sobre o trago, o conduto está edemaciado e a membrana, quando visível, está íntegra e móvel. É esse sinal — dor à manipulação do pavilhão — que separa os dois quadros à beira do leito, e a diretriz americana o usa na própria definição de otorreia diagnóstica: otorreia de início recente NÃO atribuível a otite externa.
  5. 5Chamar linfonodo retroauricular de mastoidite Linfonodo aumentado atrás da orelha é móvel, não apaga o sulco retroauricular e não desloca o pavilhão. Mastoidite é tumefação e/ou vermelhidão dolorosa ao toque atrás da orelha, com apagamento do sulco e deslocamento do pavilhão para fora, para a frente e para baixo — e vai para o hospital depois da primeira dose do antibiótico.
  6. 6Transferir o caso de mastoidite sem dar a primeira dose A conduta do AIDPI tem três partes, e as alternativas erradas costumam apagar a primeira: dar a primeira dose de um antibiótico recomendado, dar analgésico em caso de dor e referir urgentemente ao hospital. Encaminhar sem antibiótico é conduta incompleta.
  7. 7Prescrever anti-histamínico ou descongestionante junto A diretriz brasileira de 2005 é explícita: descongestionantes e anti-histamínicos não são recomendados pelo pequeno benefício e pelo risco de efeitos adversos, e os anti-histamínicos são contraindicados na otite média aguda porque prolongam o tempo de líquido no ouvido médio. Cinco dias de anti-histamínico ou corticoide associados ao antibiótico não melhoram o resultado.
  8. 8Manter amoxicilina isolada em quem tem conjuntivite purulenta Conjuntivite purulenta com otite multiplica por 9,5 a chance de o agente ser Haemophilus influenzae — por 11 se a criança tem mais de 1 ano e por 13 se há história prévia de otite. Como boa parte dos Haemophilus não tipáveis produz betalactamase, essa é uma das três situações em que a diretriz americana começa já com cobertura contra betalactamase, ao lado do uso de amoxicilina nos últimos 30 dias e da otite recorrente sem resposta.
  9. 9Oferecer antibiótico profilático contínuo para otite de repetição A diretriz americana traz recomendação negativa explícita: não se deve prescrever antibiótico profilático para reduzir a frequência de episódios em criança com otite média aguda recorrente. Recorrência com definição numérica — três episódios em 6 meses, ou quatro em 1 ano com um nos últimos 6 meses — abre discussão sobre tubo de ventilação, e mesmo aí como opção, não como recomendação.
  10. 10Somar as durações de documentos diferentes Oito dias é do AIDPI; 10, 7 e 5 a 7 dias por faixa etária são da diretriz americana; 5 a 7 dias para todos é da britânica. Não existe uma duração média entre elas. Identifique o documento pelo vocabulário do enunciado antes de escolher o número.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O diagnóstico de otite média aguda (OMA) exige abaulamento da membrana timpânica (sinal mais específico) associado a sinais de inflamação aguda e, frequentemente, precedido de infecção viral de vias aéreas superiores — exatamente o quadro descrito (abaulamento, opacidade, hiperemia, febre e irritabilidade após coriza), tornando correta a otite média aguda. Na otite externa há dor à tração do pavilhão/tragus e edema do conduto, com membrana normal. Na otite com efusão há líquido atrás da membrana SEM sinais inflamatórios agudos (sem abaulamento intenso/hiperemia/febre). A miringite bolhosa cursa com bolhas na membrana, não com abaulamento difuso, e aqui não foram descritas bolhas. A mastoidite apresentaria dor, edema e desvio do pavilhão retroauricular, ausentes no caso.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Qual achado otoscópico fecha o diagnóstico de otite média aguda, e qual é a razão de verossimilhança dele? Por que a hiperemia isolada não fecha? Quais são as cinco classificações de problema de ouvido do AIDPI e o que define cada uma? Qual caixa recebe antibiótico e por quantos dias? Qual caixa tem dor mas não recebe antibiótico, e em quantos dias ela volta? O que muda quando a otorreia tem 14 dias ou mais?

em 30 dias

Dose e intervalo da amoxicilina no AIDPI, e o volume por dose para uma criança de 10 kg. Em que três situações a diretriz americana começa já com cobertura contra betalactamase. As três durações de tratamento (brasileira, americana e britânica) e a causa de cada uma. O que é a síndrome otite-conjuntivite e o que ela muda. Quanto tempo a efusão persiste após tratamento bem-sucedido e por que isso não é falha. Os achados de mastoidite e as três partes da conduta. A definição numérica de otite recorrente e por que profilaxia antibiótica contínua não entra.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 13 meses trazido à UBS com choro, mão na orelha e febre há um dia, no terceiro dia de um resfriado. Classifique o problema de ouvido, decida se entra antibiótico e explique à mãe o que observar até o retorno. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Otite média aguda na infância – Otite média aguda na criança — Preparatório para provas | OsceLabs