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Fibrose cística

Um parêntese que o resumo do Ministério acrescentou ao próprio protocolo e que tranca o exame por seis anos, uma condutividade que é normal na tabela e já obriga exame na prosa da mesma diretriz, uma sensibilidade de 100% medida em noventa crianças, e o índice de massa corporal que é piso numa régua brasileira e teto na outra

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 2 anos com história de tosse crônica úmida, pneumonias de repetição, esteatorreia e déficit de ganho ponderal. Ao exame: FR 30 ipm, SatO2 94%, baqueteamento digital incipiente e estertores em bases. O teste do pezinho havia sido inconclusivo. Qual é o exame diagnóstico de escolha para confirmar a hipótese principal?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da fibrose cística como a prova brasileira a cobra: reconhecer o fenótipo que obriga a pedir o teste do suor, ler o número que volta contra as três faixas certas, e saber o que a triagem neonatal entrega e o que ela não entrega. O eixo é diagnóstico. A doença é multissistêmica e decorre de variantes patogênicas nos dois alelos do gene CFTR, que codifica um canal de cloreto e bicarbonato da superfície apical do epitélio; o que a vinheta descreve, quase sempre, é a soma de doença pulmonar supurativa de repetição, má absorção com esteatorreia e déficit de crescimento com apetite conservado.

Três assuntos ficam de fora. O programa de triagem neonatal como programa — as cinco etapas da lei que ampliou o painel, as demais doenças rastreadas, o prematuro, a criança transfundida — pertence ao capítulo de triagens neonatais, que descreve o painel e devolve a confirmação a quem a faz: ali se lê que tripsina imunorreativa alterada exige segunda amostra e teste do suor, e que reconhecer a necessidade da segunda etapa é o que se espera de quem recebe o resultado. O íleo meconial como abdome agudo obstrutivo do recém-nascido — enema contrastado, microcólon, decisão cirúrgica — é do capítulo de obstrução neonatal, que também cede o assunto por escrito ao registrar, na sua tabela de diferenciais, que mecônio espesso no íleo terminal é fibrose cística até prova em contrário e manda pedir teste do suor e estudo genético. E o manejo longitudinal em centro de referência, com fisioterapia, transplante e cuidados de fim de vida, não é o que a banca pede de quem está entrando na residência.

O que sobra é o que o capítulo entrega: a suspeita, o exame que confirma, o número que decide, e os quatro pontos em que as réguas brasileiras não dizem a mesma coisa. Cada um desses pontos tem consequência de alternativa.

03

O que muda decisão

O parêntese que o resumo acrescentou ao protocolo que resume

O protocolo nacional vigente é a Portaria Conjunta nº 5, de 30 de abril de 2024, e a frase que abre a seção de diagnóstico é curta: o diagnóstico é confirmado pelo teste do suor ou pela análise molecular do gene. Nenhuma idade aparece. Mais adiante, na seção que descreve o exame, o protocolo diz de que idade se trata: para a realização do teste, os indivíduos devem ter mais de duas semanas de vida e peso superior a 3 kg. Adia-se em doença aguda grave, desidratação, edema ou alteração cutânea extensa que não deixe pele sã para a coleta — e por nenhum outro motivo.

O material de consulta rápida do mesmo Ministério, publicado três meses depois, repete a frase de abertura com um acréscimo: o diagnóstico é confirmado pelo teste do suor, e entre parênteses, cloreto no suor para pacientes com a doença a partir de seis anos. O parêntese não existe no documento resumido. Lido ao pé da letra, ele tranca por quase seis anos o único exame que confirma a doença justamente na faixa em que ela mata mais — o lactente com má absorção e pneumonia de repetição.

De onde vem o seis é possível reconstruir: o número aparece três vezes no protocolo completo, sempre a respeito de outra coisa. O ivacaftor exige seis anos e pelo menos 25 kg; a combinação de elexacaftor, tezacaftor e ivacaftor exige seis anos e ao menos uma variante F508del; e a alfadornase separa em seis anos quem entra pelo diagnóstico de quem entra por doença pulmonar precoce. São três porteiros de medicamento que migraram para a linha do exame diagnóstico na hora de resumir.

A consequência para a prova é direta, porque a alternativa já existe. Vinheta: menino de 4 anos, diarreia crônica com fezes volumosas e gordurosas desde o primeiro ano, três internações por pneumonia, baqueteamento digital incipiente, peso com escore-z de menos 2,6. O aluno que memorizou o parêntese marca repetir o teste do suor apenas após os 6 anos de idade, porque o exame é pouco confiável abaixo dessa faixa — e erra: o exame é válido desde as duas semanas de vida, e o que trava a leitura naquele caso não é a idade, é a faixa em que o número caiu. Quem tem seis anos como piso é o modulador de proteína, não o diagnóstico.

Quatro em cinco: o que a triagem realmente achou em 840 mil crianças

O protocolo afirma duas coisas sobre a triagem sem quantificar nenhuma: que o índice de testes falso-positivos do algoritmo baseado em tripsina imunorreativa é bastante alto, e que a triagem negativa não exclui a doença. Existe medida brasileira das duas, publicada em 2024 sobre o serviço de referência da Bahia entre 2013 e 2017.

Foram 840.976 recém-nascidos triados e 49 diagnósticos de fibrose cística no período. Desses 49, 39 vieram da triagem e 10 chegaram por suspeita clínica, com triagem previamente negativa. A sensibilidade do protocolo naquela população foi de 79,6%, a especificidade de 99,9% e o valor preditivo positivo de 6,1%.

Vale converter o valor preditivo positivo em convocação, que é o que a família sente. Se 39 casos verdadeiros correspondem a 6,1% dos resultados positivos, o total de positivos foi de aproximadamente 639 — ou seja, cerca de 600 famílias foram chamadas de volta para uma investigação que terminou negativa. São dezesseis convocações para cada criança encontrada, quinze delas em falso alarme. Isso não condena a triagem, que antecipa o diagnóstico em anos; explica por que resultado alterado no papel-filtro nunca é diagnóstico, e por que a conversa com a família precisa dizer isso antes do segundo exame.

A conta também expõe um deslize aritmético do próprio artigo. O texto dos resultados registra especificidade de 100%, com intervalo de confiança de 100 a 100; o resumo do mesmo artigo registra 99,9%. As duas não podem valer juntas, e o valor preditivo positivo decide: 600 falsos positivos entre as 840.927 crianças sem a doença dão 99,93% — a acurácia global que o artigo publica. Especificidade de 100% e valor preditivo positivo de 6,1% são incompatíveis por construção, porque sem falso-positivo o preditivo seria 100%.

O número que muda conduta, porém, é o outro. Um em cada cinco casos daquela população não foi encontrado pela triagem. Quando a vinheta traz uma criança com fenótipo compatível e a frase a triagem neonatal foi normal, a frase não é um argumento contra a hipótese.

Treze de trinta e nove percorreram o protocolo que está escrito

O algoritmo nacional tem três degraus: primeira dosagem de tripsina imunorreativa no papel-filtro, segunda dosagem — obrigatoriamente até os 30 dias de vida —, e teste do suor para quem tiver as duas elevadas. É assim que o protocolo descreve, e é assim que a maioria das provas cobra.

Não foi assim que aconteceu. No estudo baiano, apenas 13 das 39 crianças encontradas pela triagem percorreram todas as etapas na ordem escrita. Para as outras 26, o caminho foi da primeira dosagem direto ao teste do suor. A perda na segunda etapa foi de 23,6%, e o número de segundas dosagens válidas ficou menor que o número de casos falso-positivos — a ponto de os autores registrarem que não foi possível construir a curva de desempenho da segunda dosagem, porque apenas 13 recém-nascidos a fizeram em cinco anos.

Some-se a cobertura. No mesmo estado e período houve 1.017.576 nascidos vivos e 840.976 crianças triadas: 82,6%. Combinando cobertura e sensibilidade, e assumindo que a doença não distingue quem chega ao papel-filtro de quem não chega, a fração de crianças com a doença que o programa alcançava e detectava ficava em torno de 66%. Um terço dependia de alguém, em algum consultório, reconhecer o fenótipo.

É o argumento do capítulo inteiro: a triagem reduziu a mediana de idade ao diagnóstico de quatro anos para menos de quatro meses, mas não substituiu o reconhecimento clínico — tornou-o mais raro, e por isso mais difícil.

Há um caso em que a triagem falha de modo previsível, e o protocolo o nomeia: o íleo meconial está frequentemente associado a resultado falso-negativo da tripsina imunorreativa. Recém-nascido com obstrução por mecônio espesso vai para o teste do suor e para o centro de referência independentemente do que o papel-filtro disser. O mesmo mecônio que faz o diagnóstico clínico é o que derruba o marcador bioquímico.

Mil, sete mil e meio, vinte mil: a incidência que não fecha

O protocolo abre com um parágrafo de epidemiologia que reúne, em quatro linhas, números que não convivem. Diz que a incidência brasileira varia de 1:1.000 nos estados da região Sul até 1:10.000 em São Paulo; diz, na frase seguinte, que dados da triagem neonatal de Santa Catarina mostram prevalência entre 1:6.165 e 1:3.684; e diz, um pouco antes, que cerca de 300 casos são diagnosticados por ano no país.

Santa Catarina é um estado do Sul, e a própria frase que a cita é a medida que desmente a estimativa vizinha: entre o 1:1.000 atribuído à região e o intervalo medido no estado há um fator de 3,7 a 6,2. Não é discrepância de arredondamento; é a diferença entre uma estimativa antiga de portador e uma prevalência de programa.

A aritmética fecha o argumento sem precisar sair dos documentos brasileiros. A Bahia registrou 1.017.576 nascidos vivos em cinco anos e 49 diagnósticos: um para cada 20.767 nascidos vivos, ou um para cada 17.163 se o denominador for só quem foi triado. Se a incidência nacional fosse a ponta alta citada no protocolo, aquele único estado teria produzido mais de mil casos em cinco anos — cerca de 200 por ano, dois terços do total anual do país inteiro, vindos de um estado que responde por menos de um doze avos dos nascimentos.

A régua nacional utilizável é a que a diretriz de sociedade publica: 1:7.576 nascidos vivos, com valores mais altos ao Sul. Ela é compatível com os 300 casos por ano e é a única das cifras que atravessa a conta sem estourar. O gradiente é real, e a explicação é a ancestralidade europeia mais concentrada ao Sul; o que não é real é a ponta de 1:1.000 como incidência de doença.

Para a prova a consequência vale uma linha: pedida a incidência brasileira, o número esperado é da ordem de 1:7.000 a 1:10.000. Pedida a conduta, a incidência não decide nada — decide o fenótipo à frente.

Cinquenta na prosa, sessenta na tabela, sessenta e nove no estudo, noventa no rodapé

O teste do suor tem duas leituras possíveis, e elas não são intercambiáveis. A dosagem quantitativa de cloreto é o exame diagnóstico; a condutividade é rápida, barata e considerada apenas triagem, não aceita como prova diagnóstica. Até aqui os documentos concordam.

O limiar em que a condutividade obriga a passar para a dosagem quantitativa é onde a concordância acaba. O protocolo nacional preconiza o teste quantitativo quando a condutividade for igual ou maior que 50 mmol/L. A diretriz brasileira de sociedade recomenda, no seu texto corrido, exatamente o mesmo: condutividade igual ou acima de 50 manda fazer o quantitativo. Mas a tabela de valores de referência do mesmo artigo, na página seguinte, classifica a condutividade em normal abaixo de 60, intermediária de 60 a 90 e positiva acima de 90.

O resultado é uma criança que existe. Condutividade de 55 mmol/L é normal pela tabela da diretriz e já é indicação de dosagem quantitativa pelo texto da mesma diretriz e pelo protocolo nacional. Quem decorou a tabela devolve a criança para casa; quem decorou a prosa pede o exame que confirma. O protocolo nacional, ao adotar o 50, adotou a prosa e deixou a tabela para trás — e essa é a leitura que a prova brasileira segue.

Há ainda um quarto número, e ele vem da medida. O estudo paranaense que comparou os dois métodos na mesma criança, ao mesmo tempo, sugere como melhor ponto de corte da condutividade 69,0 mmol/L, com coeficiente de concordância de 0,89 contra a coulometria. As medianas do estudo explicam por que os dois métodos não podem compartilhar corte: nas crianças com a doença, condutividade de 108 contra cloreto de 97; nas crianças sem a doença, 32 contra 12. A condutividade lê todos os íons, não só o cloreto, e por isso sempre marca acima.

A escada tem quatro degraus, e cada um responde a pergunta diferente: 50 é quando pedir o quantitativo, 60 é o teto do normal na tabela de sociedade, 69 é o corte que a medida sugeriria, e 90 é onde a mesma tabela chama de positivo. Nenhum é corte diagnóstico — esse é do cloreto, e é 60.

Duas escalas verticais de 0 a 110 milimoles por litro. Na da condutividade no suor há traços em 50, onde o texto manda pedir a dosagem quantitativa, em 60, teto do normal na tabela, em 69, corte sugerido pela medida, e em 90, positiva na tabela; a faixa de 60 a 90 é chamada de intermediária. Na do cloreto no suor há traços em 30 e 60, separando negativo abaixo de 30, inconclusivo de 30 a 59 e positivo a partir de 60. As medianas medidas aparecem marcadas: condutividade 108 e cloreto 97 nas crianças com a doença, condutividade 32 e cloreto 12 nas crianças sem a doença. Um losango em 55 na escala da condutividade é descrito como normal pela tabela e indicação de dosagem quantitativa pelo texto.
Condutividade e cloreto no suor não compartilham corte: a condutividade sempre lê acima, e o mesmo documento chama 55 de normal na tabela e de indicação de dosagem quantitativa no texto.

Cem por cento medido em noventa crianças

O mesmo estudo paranaense ensina a ler acurácia, porque publica um número que impressiona e um intervalo que o contradiz. Foram 444 crianças sem a doença e 90 com a doença, testadas pelos dois métodos simultaneamente. Todas as 90 tiveram condutividade acima de 50 mmol/L, e daí a sensibilidade de 100%.

Cem por cento em 90 crianças significa nenhuma escapou entre noventa, não nunca escapa. A regra dos três dá o contorno superior do que não se viu: com zero eventos em 90 observações, a taxa verdadeira pode chegar a 3 dividido por 90, ou 3,3%. Traduzindo, a sensibilidade compatível com aquela amostra desce até cerca de 96,7% — algo em torno de uma criança perdida a cada trinta. É excelente e não é infalível, e a diferença entre as duas frases é o que separa triagem de diagnóstico.

O artigo publica, junto do 100%, um intervalo de confiança de 93,8 a 97,8 — que não contém o próprio valor estimado, e que é, letra por letra, o intervalo da especificidade impressa na linha seguinte. E publica um valor preditivo negativo de 100% com intervalo indo até 109,4, número que uma probabilidade não alcança. São erros de composição, não de método; mas quem lê acurácia sem conferir se o intervalo contém a estimativa vai reproduzir o deslize.

Há um terceiro cuidado no mesmo parágrafo, e esse muda interpretação. O artigo diz que a taxa de falso-positivos da condutividade foi de 16,7%. Não é a fração das crianças sadias que deram positivo: essa é o complemento da especificidade, 3,8%, cerca de 17 crianças entre 444. O 16,7% é o complemento do valor preditivo positivo de 83,3%, isto é, a fração dos resultados positivos que eram falsos. As duas frações respondem a perguntas diferentes e mudam de tamanho conforme a prevalência do lugar.

Por isso o número baiano e o paranaense não se contradizem, embora pareçam: 83,3% num teste aplicado a crianças já selecionadas pela triagem e 6,1% num rastreio aplicado a todos os nascidos vivos são o mesmo fenômeno visto de dois pontos da fila.

Trinta a cinquenta e nove: a faixa que não decide, e o que se faz nela

O cloreto no suor tem três faixas, e todo o resto do capítulo diagnóstico gira em torno delas. Igual ou maior que 60 mmol/L é positivo; menor que 30 é negativo; de 30 a 59 é inconclusivo e exige encaminhamento a centro de referência para avaliação adicional. A faixa do meio não é quase normal: é a faixa em que o exame não decidiu.

O passo seguinte no inconclusivo é o teste genético, e o protocolo é explícito ao dizer que a análise molecular é preconizada para todos os indivíduos com teste do suor positivo ou inconclusivo — inclusive para quem já tem diagnóstico confirmado pelo suor, porque a variante prevê consequência clínica, orienta aconselhamento e define elegibilidade a modulador.

Quando a triagem foi positiva e a genética não fecha, existe categoria com nome e critério: síndrome metabólica relacionada ao regulador transmembrana, ou fibrose cística com triagem positiva e diagnóstico inconclusivo. O Quadro 2 do protocolo define as duas entradas: suor abaixo de 30 com duas variantes identificadas, das quais uma ou nenhuma causadora; ou suor entre 30 e 59 com apenas uma ou nenhuma variante causadora. A maioria dessas crianças permanece sem sintomas; algumas evoluem com manifestações. Repete-se o teste do suor em laboratório experiente, acompanha-se em centro de referência com frequência menor que a do caso confirmado, e oferece-se aconselhamento genético aos pais.

Há um ponto em que o protocolo brasileiro se afasta da prática internacional e explica por quê — e essa honestidade é o que o torna citável. O uso de painéis de variantes não é recomendado para pacientes brasileiros; o exame de escolha é a análise molecular completa do gene. A razão é a composição alélica: as cinco variantes mais frequentes no mundo respondem por apenas 56% dos casos brasileiros, e a própria F508del tem frequência de 50% em São Paulo e de 8% na Bahia. Um painel calibrado na Europa devolve resultado normal a um número grande de brasileiros que têm a doença, e o resultado normal de um painel não é o mesmo que ausência de variante.

Daí a regra prática que a prova cobra: suor inconclusivo pede sequenciamento completo, não painel; e com uma só variante causadora, procura-se grande deleção ou duplicação por técnica complementar. Elastase fecal abaixo de 200 mcg/g confirma insuficiência pancreática e não escolhe entre a fibrose cística e as outras causas.

Vinte e um dias ou três meses: o mesmo antibiótico em duas seções da mesma portaria

A primeira identificação de Pseudomonas aeruginosa em cultura de secreção respiratória abre uma janela de erradicação, e o protocolo oferece dois caminhos. A tobramicina inalatória, 300 mg duas vezes ao dia, é prescrita por 28 dias, podendo ser repetida até duas vezes, o que totaliza 56 ou 84 dias — os três números que aparecem juntos nos critérios de inclusão são a mesma escada de 28 em 28.

O colistimetato de sódio é onde a portaria diverge de si mesma. Na seção de tratamento, a erradicação com colistimetato inalatório se faz por 30 dias a 3 meses, em esquema sempre associado a ciprofloxacino oral. Na seção de tempo de tratamento e critérios de interrupção, doze páginas adiante, o mesmo esquema dura 21 dias, com ou sem ciprofloxacino; e é 21 dias após o término, se a bactéria voltar a ser isolada, que a dose pode subir para 2.000.000 de unidades três vezes ao dia por até três meses.

São duas divergências empilhadas num só medicamento: a duração inicial, que sai de 21 e chega a 30 dias, e o estatuto do ciprofloxacino, obrigatório numa seção e opcional na outra. O material de consulta rápida reproduz as duas versões em páginas diferentes, sem notar.

O mesmo resumo comete um deslize farmacológico que o documento completo não comete. O colistimetato é chamado ali de polimixina B. Ele é a polimixina E — nome que o protocolo completo usa corretamente ao apresentar o fármaco como agente de superfície que rompe a membrana bacteriana. A polimixina B existe, é outro medicamento, e a troca importa: um enunciado que ofereça polimixina B inalatória como conduta de erradicação está oferecendo o fármaco errado com o nome que um documento oficial imprimiu.

A régua segura é a que não muda entre as seções: tobramicina inalatória por 28 dias é a primeira tentativa de erradicação mais cobrada, e o colistimetato é a alternativa consistente. Falha de erradicação define infecção crônica, e a infecção crônica muda o alvo de eliminar para conviver, em ciclos alternados de 28 dias com e 28 dias sem.

Por quilo ou por grama de gordura: onde as duas contas se cruzam e onde uma fura o teto

A insuficiência pancreática exócrina acompanha cerca de 85% dos pacientes segundo o protocolo, e de 85% a 90% segundo o documento de sociedade. A reposição é a pancreatina, único suplemento enzimático disponível no país, em cápsulas de 10.000 e 25.000 unidades de lipase.

O protocolo nacional prescreve por quilo e por refeição: 500 a 1.000 unidades de lipase por quilo por refeição principal, ajustando para mais se a esteatorreia persistir ou o ganho ponderal não vier. E fixa dois tetos, pelo risco de colonopatia fibrosante: 2.500 unidades por quilo por refeição e 10.000 unidades por quilo por dia.

Repare que os dois tetos só coincidem em quatro tomadas por dia — 10.000 dividido por 2.500. E o quadro de recomendações do mesmo protocolo manda administrar a enzima antes das refeições e dos lanches, e repetir a dose durante a refeição se ela se prolongar por mais de 40 minutos. Três refeições, dois lanches e uma refeição demorada dão seis tomadas. Quem doseia no teto por refeição e segue a orientação de lanches ultrapassa o teto diário sem nunca ter passado do teto por refeição: o limite por tomada deixa de proteger o limite do dia assim que o número de tomadas passa de quatro.

O documento de sociedade prescreve de outro jeito, e oferece duas rotas unidas por ou. Por idade e peso: 1.000 unidades por quilo por refeição dos 1 aos 4 anos, e 500 unidades por quilo por refeição acima dos 4 anos e no adulto. Ou por gordura da dieta: 2.000 a 4.000 unidades de lipase por grama de gordura ingerida. Para o lactente até 12 meses, a régua muda de unidade outra vez — 2.000 a 4.000 unidades por 120 mL de fórmula ou leite materno.

As duas rotas coincidem num único ponto, e ele é magro. Acima de 4 anos, 500 unidades por quilo igualam 4.000 por grama quando a refeição tem um oitavo do peso corporal em gramas de gordura — 2,5 g num menino de 20 kg. Qualquer refeição mais gordurosa faz a rota da gordura passar à frente. E ela fura o teto nacional por refeição quando a gordura ultrapassa 0,625 vez o peso em quilos: para os mesmos 20 kg, 12,5 g de gordura numa refeição já dão 4.000 unidades por quilo, contra o limite de 2.500. Numa dieta com 35% a 40% da energia em lipídios e 110% a 200% do valor calórico da idade, 12,5 g de gordura numa refeição principal não é exagero: é o almoço.

Há ainda a escada que muda por rótulo. A mesma criança, na véspera e no dia seguinte ao quarto aniversário, sai de 1.000 para 500 unidades por quilo por refeição — metade da dose, por mudança de faixa etária, sem que nada tenha mudado no pâncreas. É razão para conferir resposta clínica em vez de confiar na linha da tabela.

Por fim, o veto de segurança vem em duas unidades para duas populações: acima de 10.000 unidades por quilo por dia na criança e acima de 300.000 unidades por dia no adulto. As duas réguas se cruzam exatamente em 30 kg — abaixo, aperta o limite por quilo; acima, o limite absoluto. Um adolescente de 60 kg calculado pela régua pediátrica chegaria a 600.000 unidades diárias, o dobro do teto que a mesma frase impõe ao adulto.

Vinte e dois: piso numa régua brasileira e teto na outra

Estado nutricional não é acessório na fibrose cística: desnutrição piora função pulmonar, aumenta suscetibilidade a infecção e encurta sobrevida, e o protocolo registra que crianças com peso e estatura acima da mediana têm melhor função pulmonar adiante. O que muda entre os documentos brasileiros é a direção da meta do adulto.

O protocolo nacional define estado nutricional adequado assim: até 24 meses, peso e altura iguais ou acima do percentil 50; dos 2 aos 18 anos, índice de massa corporal igual ou acima do percentil 50; e no adulto, índice de massa corporal entre 18,5 e 22 para mulheres e entre 18,5 e 23 para homens.

A diretriz brasileira de sociedade e o documento científico de pediatria dizem, com os mesmos dois números, o contrário: para adultos, a recomendação é índice de massa corporal igual ou maior que 22 para mulheres e igual ou maior que 23 para homens. Os números 22 e 23 são teto de uma faixa num documento e piso de uma recomendação nos outros dois.

A mulher de 22,5 existe e resolve a questão. Pela sociedade ela está adequada, acima do piso; pelo protocolo nacional, acima da faixa descrita como adequada. Nenhum dos dois manda emagrecê-la, e o protocolo não define conduta para quem excede a faixa. Quem responder a pergunta qual é o alvo antropométrico do adulto com fibrose cística precisa saber que a resposta esperada nas provas brasileiras é o piso de 22 e 23: é a régua das duas sociedades e a que tem sentido numa doença consumptiva, em que a normalidade populacional já é desnutrição relativa.

O sódio é o segundo ponto de afastamento, e ali a diferença é de dose. O protocolo repõe cloreto de sódio a 2,5 mEq/kg/dia em todo lactente até os dois anos, e oferece a conversão: 1 g de sal equivale a 17 mEq. Para 5 kg, isso dá 12,5 mEq por dia, ou cerca de 0,73 g de sal — perto de um oitavo de colher de chá. O documento de pediatria repõe 1 a 2 mmol/kg/dia de sódio no lactente em aleitamento de 0 a 6 meses, elevando para acima de 4 mmol/kg/dia em calor, febre, vômito, diarreia, taquipneia ou ostomia; para os mesmos 5 kg, a faixa de rotina dá 5 a 10 mmol, ou 0,29 a 0,58 g de sal.

As unidades são intercambiáveis — para o cloreto de sódio, 1 mmol equivale a 1 mEq —, e a comparação é direta: a dose nacional é 1,25 a 2,5 vezes a de rotina da sociedade, e cai entre as duas faixas desta. Há também diferença de estatuto: o protocolo repõe em todos os lactentes até dois anos, enquanto a sociedade repõe conforme risco, monitorando por fração de excreção de sódio entre 0,5% e 1,5% ou sódio urinário abaixo de 10 mmol/L. A depleção que se quer evitar tem cara de vinheta: lactente com letargia, recusa alimentar, vômitos e perda de peso, com hiponatremia, hipocloremia e alcalose metabólica — apresentação inicial que a prova gosta de vestir de gastroenterite.

04

Como decidir, do papel-filtro ao centro de referência

A sequência abaixo separa três decisões que a prova costuma embaralhar: quem investigar, qual exame confirma, e o que fazer quando o número cai na faixa que não decide. As tabelas trazem as réguas lado a lado, porque em quatro pontos os documentos brasileiros não coincidem e o enunciado costuma indicar qual deles está citando.

  1. 1Reconheça o fenótipo antes de olhar exame. A tríade que obriga a investigar é doença pulmonar supurativa de repetição, má absorção com fezes volumosas, gordurosas e fétidas, e déficit de crescimento com apetite conservado. Somam-se, isoladamente: íleo meconial, prolapso retal, pólipos nasais, pancreatite de repetição, suor salgado, baqueteamento digital, azoospermia obstrutiva e desidratação hiponatrêmica com alcalose metabólica.
  2. 2Não use a triagem neonatal negativa como argumento contra a hipótese. A sensibilidade medida do protocolo de duas dosagens de tripsina imunorreativa foi de 79,6%: um em cada cinco casos chegou por suspeita clínica com triagem prévia negativa.
  3. 3Diante de íleo meconial, peça o teste do suor e encaminhe ao centro de referência mesmo com triagem normal — essa é a manifestação classicamente associada a falso-negativo da tripsina imunorreativa.
  4. 4Peça a dosagem quantitativa de cloreto no suor por iontoforese com pilocarpina. Exigências: mais de duas semanas de vida e peso acima de 3 kg. Adie apenas em doença aguda grave, desidratação, edema ou ausência de pele sã para a coleta.
  5. 5Se o que voltou foi condutividade, ela não fecha diagnóstico. Igual ou acima de 50 mmol/L, peça o quantitativo.
  6. 6Leia o cloreto contra as três faixas: igual ou maior que 60 confirma; menor que 30 torna improvável; de 30 a 59 é inconclusivo e vai para centro de referência.
  7. 7Peça a análise molecular completa do gene em todos os casos positivos e em todos os inconclusivos — e não painel de variantes, porque as cinco variantes mais frequentes no mundo cobrem apenas 56% dos casos brasileiros.
  8. 8Se a triagem foi positiva, o suor não confirmou e a genética não fechou, classifique como caso inconclusivo pelos critérios do Quadro 2, mantenha acompanhamento em centro de referência com intensidade menor e ofereça aconselhamento genético aos pais.
  9. 9Confirmado o diagnóstico, encaminhe ao centro de referência imediatamente: o tratamento é multiprofissional e começa logo após a confirmação.
  10. 10Investigue insuficiência pancreática pela elastase fecal, com valores abaixo de 200 mcg/g indicando insuficiência — dispensável diante de sinais clínicos inequívocos de má absorção, quando a enzima é iniciada e o teste vem depois.
  11. 11Trate a primeira Pseudomonas aeruginosa isolada: tobramicina inalatória 300 mg duas vezes ao dia por 28 dias, repetível até 56 ou 84 dias. Falha de erradicação define infecção crônica.
  12. 12Marque o acompanhamento: consulta a cada dois ou três meses, cultura de secreção respiratória com intervalo máximo de três meses, espirometria a partir dos 5 anos pelo menos duas vezes ao ano, oximetria em toda consulta, teste oral de tolerância à glicose anual a partir dos 10 anos e densitometria a partir dos 8 a 10 anos.

As quatro réguas do teste do suor, e a pergunta que cada número responde

Medida e valorDocumentoO que o número decideArmadilha
Cloreto igual ou maior que 60 mmol/LProtocolo nacional 2024 e diretriz de sociedade 2017Confirma o diagnósticoÉ o único corte diagnóstico; os demais números da tabela não confirmam nada
Cloreto de 30 a 59 mmol/LProtocolo nacional 2024Inconclusivo — encaminha a centro de referência e vai para a genéticaNão é 'quase normal' nem exclui; é a faixa em que o exame não decidiu
Cloreto menor que 30 mmol/LProtocolo nacional 2024Diagnóstico improvávelCom manifestação clínica sugestiva, ainda cabe teste genético
Condutividade igual ou maior que 50 mmol/LProtocolo nacional 2024 e texto da diretriz de sociedade 2017Manda fazer a dosagem quantitativa de cloretoCondutividade nunca é prova diagnóstica, em nenhum valor
Condutividade abaixo de 60 mmol/L = normal; 60 a 90 = intermediária; acima de 90 = positivaTabela 1 da diretriz de sociedade 2017Classificação da própria tabelaConflita com o texto do mesmo artigo: 55 mmol/L é normal aqui e já obriga o quantitativo lá
Condutividade de 69,0 mmol/LEstudo paranaense de 2015, 90 crianças com a doença e 444 semMelhor corte segundo a medida, com concordância de 0,89 contra a coulometriaNão é régua oficial; explica por que os cortes dos dois métodos não podem ser iguais

Onde as réguas brasileiras não coincidem

PontoProtocolo nacional (Portaria Conjunta nº 5/2024)Diretriz e documento de sociedadeConsequência prática
Idade mínima do teste do suorMais de duas semanas de vida e peso acima de 3 kgDiretriz de 2017 executa o exame já na avaliação de 4 a 6 semanas de vidaO material de consulta rápida do próprio Ministério acrescenta 'a partir de seis anos', que não existe no protocolo nem na diretriz
Número de amostras para confirmarUma dosagem igual ou maior que 60 mmol/L é positiva; quem tem suor positivo já tem diagnóstico confirmadoDuas amostras: o valor positivo deve ser repetido com dosagem quantitativa em dia diferenteEnunciado que diz 'confirmado em segunda dosagem' está seguindo a sociedade; enunciado que fecha com uma só está seguindo o protocolo
Método do estudo genéticoAnálise molecular completa do gene; painéis de variantes não recomendados para brasileirosFigura 1 da diretriz de 2017 admite 'painéis ou sequenciamento'O protocolo diverge e explica por quê: as cinco variantes mundiais cobrem 56% dos casos brasileiros e a F508del vai de 50% em São Paulo a 8% na Bahia
Alvo antropométrico do adultoAdequado é índice de massa corporal entre 18,5 e 22 (mulheres) e entre 18,5 e 23 (homens)Adequado é índice de massa corporal igual ou maior que 22 (mulheres) e 23 (homens)Os mesmos dois números são teto num documento e piso nos outros dois
Reposição de sódio no lactente2,5 mEq/kg/dia de cloreto de sódio em todo lactente até 2 anos1 a 2 mmol/kg/dia de sódio no lactente de 0 a 6 meses conforme risco; acima de 4 mmol/kg/dia nas situações de perdaA dose nacional é 1,25 a 2,5 vezes a de rotina da sociedade e se aplica sem a individualização que esta exige
Erradicação com colistimetato inalatórioSeção de tratamento: 30 dias a 3 meses, sempre com ciprofloxacino oral. Seção de interrupção: 21 dias, com ou sem ciprofloxacinoA diretriz de sociedade não arbitra a duração nacionalA divergência é interna ao mesmo documento; a régua estável é a tobramicina inalatória por 28 dias

Pancreatina: as duas rotas, os dois tetos e onde elas se cruzam

RéguaFonteValorOnde a conta encosta no limite
Dose inicial por pesoProtocolo nacional 2024500 a 1.000 unidades de lipase por quilo por refeição principalAjusta-se para mais se persistir esteatorreia ou faltar ganho de peso
Dose por peso e idadeDocumento de pediatria 20211.000 U/kg/refeição dos 1 aos 4 anos; 500 U/kg/refeição acima de 4 anos e no adultoA mesma criança perde metade da dose por quilo ao completar 4 anos, por mudança de faixa
Dose por gordura ingeridaDocumento de pediatria 20212.000 a 4.000 unidades de lipase por grama de gorduraIguala a rota por peso, acima de 4 anos, só quando a gordura é um oitavo do peso em quilos
Lactente até 12 mesesDocumento de pediatria 20212.000 a 4.000 unidades por 120 mL de fórmula ou leite materno, ou 2.000 por grama de gorduraUnidade muda de refeição para volume de leite
Teto por refeiçãoProtocolo nacional 20242.500 unidades por quilo por refeiçãoA rota por gordura o ultrapassa quando a gordura passa de 0,625 vez o peso em quilos — 12,5 g num menino de 20 kg
Teto diárioProtocolo nacional 202410.000 unidades por quilo por dia na criança; 300.000 unidades por dia no adultoOs dois tetos por quilo coincidem em quatro tomadas ao dia; as duas populações se cruzam em 30 kg

A conversão do valor preditivo positivo em convocação: 39 casos verdadeiros a 6,1% dos positivos dão cerca de 639 resultados positivos, isto é, cerca de 600 falsos positivos e dezesseis convocações por criança encontrada. A mesma conta refuta a especificidade de 100% impressa nos resultados daquele artigo — 600 falsos positivos entre 840.927 crianças sem a doença dão 99,93%, que é a acurácia global que o próprio artigo publica.

Cobertura e sensibilidade se multiplicam: 82,6% de cobertura e 79,6% de sensibilidade deixam cerca de 66% das crianças com a doença ao alcance efetivo do programa, assumindo que a incidência não difira entre quem é triado e quem não é.

Sensibilidade de 100% em 90 crianças significa, pela regra dos três, taxa de perda de até 3 em 90 — cerca de 3,3%, ou sensibilidade verdadeira podendo descer a 96,7%. O intervalo de confiança impresso ao lado daquele 100% (93,8 a 97,8) é o da especificidade e não contém a estimativa que acompanha.

Falso-positivo tem dois sentidos no mesmo parágrafo daquele estudo: 3,8% das crianças sadias testaram positivo (complemento da especificidade), e 16,7% dos testes positivos eram falsos (complemento do valor preditivo positivo). O segundo número é o que muda com a prevalência do lugar.

Sobre a incidência: a Bahia teve 1.017.576 nascidos vivos em cinco anos e 49 diagnósticos, um para cada 20.767. Se valesse a ponta de 1:1.000 citada para a região Sul, aquele estado sozinho teria produzido mais de mil casos no período — cerca de 200 por ano, contra cerca de 300 por ano em todo o país. A régua compatível com o total nacional é 1:7.576.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Painel de variantes ou sequenciamento completo do gene no brasileiro

Painéis são aceitáveis

O fluxograma de condução dos casos com triagem neonatal positiva prevê, na etapa de estudo genético, pesquisa de variantes por painéis ou sequenciamento do gene, sem hierarquia entre os dois. É a régua da diretriz brasileira de sociedade, escrita por um grupo de dezoito especialistas e alinhada à prática internacional da época.

Athanazio RA e cols. Diretrizes brasileiras de diagnóstico e tratamento da fibrose cística. J Bras Pneumol. 2017;43(3):219-245, Figura 1 e seção Diagnóstico.

Painéis não servem ao brasileiro

O uso de painéis de variantes não é recomendado para pacientes brasileiros; o exame de escolha é a análise molecular completa do gene. A justificativa é medida e está no próprio texto: as cinco variantes mais frequentes no mundo aparecem em apenas 56% dos casos brasileiros, e a F508del vai de 50% de frequência em São Paulo a 8% na Bahia. Quando só uma variante causadora é encontrada, buscam-se grandes deleções ou duplicações por técnica complementar.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta nº 5, de 30 de abril de 2024, Anexo, item 3.3.2 (Teste genético).

Na prova

É a divergência mais fácil de identificar pelo próprio enunciado, porque o documento mais novo explica por que discorda do mais antigo — e o argumento é a composição alélica brasileira. Banca que descreve um painel comercial com resultado normal em criança com fenótipo compatível e teste do suor inconclusivo está pedindo que o candidato reconheça que painel normal não afasta a doença e que o passo é o sequenciamento completo. Enunciado que cita a diretriz de 2017 pelo nome pode aceitar painel como etapa; enunciado que cita o protocolo do Ministério, não. Na dúvida, o recorte do avaliador é o do documento com força normativa.

Uma ou duas amostras de suor para confirmar o diagnóstico

Uma dosagem basta

O resultado do teste do suor quantitativo é considerado positivo quando a dosagem de cloreto é igual ou maior que 60 mmol/L, e pacientes com teste do suor positivo já possuem diagnóstico confirmado — devendo ainda assim realizar o teste genético. Em nenhum ponto da seção o protocolo exige repetição em segunda amostra.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta nº 5, de 30 de abril de 2024, Anexo, itens 3.3.1 e 3.3.2.

São necessárias duas amostras

A dosagem de cloreto por métodos quantitativos no suor igual ou maior que 60 mmol/L, em duas amostras, confirma o diagnóstico; o fluxograma de condução mostra o teste do suor em duas amostras, e o rodapé da tabela de valores de referência determina que o resultado positivo seja repetido com dosagem quantitativa em um dia diferente.

Athanazio RA e cols. J Bras Pneumol. 2017;43(3):219-245, seção Diagnóstico, Figura 1 e rodapé da Tabela 1.

Na prova

O enunciado costuma entregar a resposta na própria vinheta. Quando ele diz 'teste do suor de 68 mmol/L, confirmado em segunda dosagem', está escrito na régua da sociedade e a pergunta seguinte não é sobre confirmar, é sobre o passo adiante — genética, centro de referência, prognóstico. Quando ele traz um único valor acima de 60 e pergunta a conduta, o avaliador está na régua do protocolo e espera que o candidato feche o diagnóstico e encaminhe. Não gaste raciocínio decidindo qual das duas é 'a certa': o que muda a alternativa é o número de amostras que a vinheta já ofereceu.

O alvo antropométrico do adulto: piso de índice de massa corporal ou faixa fechada

Faixa fechada, terminando em 22 e 23

Estado nutricional adequado no adulto é índice de massa corporal entre 18,5 e 22 kg/m² para o sexo feminino e entre 18,5 e 23 kg/m² para o masculino, ou ausência de perda de peso. Para crianças até 24 meses, peso e altura iguais ou acima do percentil 50; dos 2 aos 18 anos, índice de massa corporal igual ou acima do percentil 50.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta nº 5, de 30 de abril de 2024, Anexo, item 7.2.2 (Nutrição).

Piso de 22 e 23, sem teto

Para adultos, a recomendação é índice de massa corporal igual ou maior que 22 kg/m² para mulheres e igual ou maior que 23 kg/m² para homens. Nas crianças e adolescentes, escores z de estatura, peso e índice de massa corporal abaixo de menos 2 revelam deficiência antropométrica, e a tabela de estado nutricional adequado fixa o percentil 50 como alvo, não como limite.

Athanazio RA e cols. J Bras Pneumol. 2017;43(3):219-245, seção Tratamento gastrointestinal e nutricional; e Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 8, 22/06/2021, Tabela 2.

Na prova

Repare que os dois lados usam os mesmos numerais — 22 e 23 — em direções opostas, e é isso que o distrator explora. Enunciado que descreva uma adulta com índice de massa corporal de 22,5 e pergunte se o estado nutricional está adequado é montado sobre essa fronteira. O recorte esperado nas provas brasileiras é o das duas sociedades, porque numa doença consumptiva a meta é ficar acima da mediana populacional, e porque a faixa fechada do protocolo não vem acompanhada de nenhuma conduta para quem a excede. Identifique qual documento o enunciado citou antes de decidir.

06

Caso resolvido

Lactente de 3 meses, do sexo masculino, nascido a termo com 3.150 g, trazido ao ambulatório por baixo ganho ponderal. Desde o segundo mês evacua quatro a cinco vezes ao dia, com fezes volumosas, brilhantes e de odor fétido; mama bem e com voracidade. Teve um episódio de pneumonia aos 2 meses, tratado em regime domiciliar. Ao exame: peso no percentil 3, distensão abdominal leve, panículo adiposo reduzido, estertores esparsos em base direita, frequência respiratória de 46 ipm, saturação de 95% em ar ambiente. A mãe traz o cartão da maternidade: a triagem neonatal biológica foi colhida com 4 dias de vida e o resultado consta como normal. Não houve segunda coleta.
1. O que a triagem normal permite excluir
Nada, sozinha. A sensibilidade medida do protocolo de duas dosagens de tripsina imunorreativa numa população brasileira foi de 79,6%: um em cada cinco casos daquela série chegou por suspeita clínica com triagem prévia negativa. Além disso, esta criança não completou o protocolo — houve uma dosagem, não duas, e a segunda deveria ter sido feita até os 30 dias de vida. O caso está exatamente onde a triagem é mais frágil, e a informação relevante do cartão não é o resultado, é a etapa que faltou.
2. Que fenótipo a vinheta descreve
É a tríade completa: má absorção com esteatorreia, déficit de crescimento com apetite conservado e doença respiratória em criança de 3 meses. Apetite voraz com curva que não sobe aponta perda calórica pelas fezes, não ingestão insuficiente. Pneumonia no segundo mês de vida não é um evento banal. Somados, os três obrigam a investigar fibrose cística antes de qualquer hipótese que explique apenas um deles.
3. Qual exame pedir, e se a idade permite
Dosagem quantitativa de cloreto no suor por iontoforese com pilocarpina. As exigências do protocolo são mais de duas semanas de vida e peso acima de 3 kg — esta criança tem 3 meses e ultrapassa os 3 kg com folga. O parêntese que o material de consulta rápida do Ministério acrescentou, restringindo o exame a pacientes a partir de seis anos, não existe no protocolo nem na diretriz de sociedade; o seis é o piso de idade dos moduladores de proteína, não do diagnóstico. Repetir a tripsina imunorreativa seria voltar à triagem, que perde sensibilidade depois das primeiras semanas e não confirma em idade nenhuma.
4. O resultado volta com 52 mmol/L
Faixa inconclusiva, entre 30 e 59. O exame não confirmou nem afastou, e o passo é duplo: encaminhamento a centro de referência especializado e análise molecular completa do gene. Painel de variantes não serve aqui — as cinco variantes mais frequentes no mundo cobrem apenas 56% dos casos brasileiros, e um painel normal não afastaria nada. Se apenas uma variante causadora aparecer, procura-se grande deleção ou duplicação por técnica complementar.
5. O que se faz enquanto a genética não volta
Não se espera para tratar a má absorção. Diante de sinais clínicos inequívocos, a pancreatina é iniciada em criança em investigação diagnóstica, e a elastase fecal vem depois — o próprio protocolo prevê a inclusão de indivíduos nos primeiros meses de vida ainda em investigação, mantendo a enzima mediante sinais inequívocos de má absorção. Some-se reposição de cloreto de sódio, orientação nutricional hipercalórica e vigilância dos sinais de desidratação hiponatrêmica. E some-se a conversa: um exame na faixa do meio não é boa nem má notícia, é uma etapa, e a família precisa sair da consulta com data marcada para a próxima.
07

Agora feche você

Menino de 6 anos, 20 kg, em acompanhamento em centro de referência por fibrose cística confirmada por cloreto no suor de 84 mmol/L aos 5 meses de vida, com duas variantes causadoras identificadas ao sequenciamento completo, nenhuma delas F508del nem das listadas como de classe III. Usa pancreatina desde o diagnóstico. A mãe conta que, orientada por um material impresso, passou a calcular a enzima pela gordura da refeição, a 4.000 unidades de lipase por grama; o almoço que ela descreve tem cerca de 20 g de gordura. O menino recuperou percentil e está no percentil 40 de índice de massa corporal para a idade. Na consulta de hoje, a cultura de escarro isolou Pseudomonas aeruginosa pela primeira vez.
Passo 1
Calcule a dose que a mãe está oferecendo no almoço pelas duas rotas — por grama de gordura e por quilo de peso — e diga qual dos dois tetos do protocolo nacional essa dose encosta ou ultrapassa.
Passo 2
Diga qual é a conduta diante do primeiro isolamento de Pseudomonas aeruginosa, com fármaco, dose, via e duração, e o que define que a tentativa falhou.
Passo 3
Decida se este menino é elegível a algum modulador da proteína pelo protocolo nacional, e justifique pela idade, pelo peso e pelas variantes.
Passo 4
Liste o que precisa ser agendado a partir desta consulta, com periodicidade, considerando a idade de 6 anos.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Usar a triagem neonatal normal como se afastasse a doença A vinheta traz o lactente com esteatorreia, déficit ponderal e pneumonia de repetição, e acrescenta que a triagem neonatal foi normal. O aluno tira a fibrose cística da lista e vai para imunodeficiência, doença celíaca ou refluxo. A medida brasileira diz o contrário: um em cada cinco casos daquela população chegou por suspeita clínica com triagem prévia negativa, e o íleo meconial é justamente a manifestação classicamente associada a falso-negativo da tripsina imunorreativa. Triagem negativa reduz a probabilidade e não fecha porta nenhuma. O erro que o aluno marca é 'solicitar nova dosagem de tripsina imunorreativa' — exame de triagem que perde sensibilidade depois das primeiras semanas de vida e que não confirma nada em idade nenhuma.
  2. 2Tratar o cloreto entre 30 e 59 como resultado negativo É a armadilha mais rendosa, porque a faixa parece baixa perto do 60. Dois testes do suor com 45 e 48 mmol/L numa criança com elastase fecal de 60 mcg/g e pneumonias por Staphylococcus aureus não afastam nada: caem na faixa inconclusiva, e o passo é a análise molecular completa do gene, com encaminhamento a centro de referência. As alternativas erradas típicas são 'afastar fibrose cística e investigar doença celíaca', 'considerar confirmado pela elastase baixa' e 'repetir o teste apenas após os 6 anos'. A elastase confirma insuficiência pancreática e não escolhe etiologia; a idade não é o problema.
  3. 3Aceitar condutividade como exame diagnóstico Condutividade é rápida e barata e por isso aparece muito em vinheta de rede pública, às vezes com valores altos que parecem fechar o caso. Ela não é aceita como prova diagnóstica em valor nenhum: igual ou acima de 50 mmol/L manda fazer a dosagem quantitativa de cloreto, e o número que confirma é sempre o do cloreto. Some-se que a tabela de referência da diretriz de sociedade classifica condutividade abaixo de 60 como normal, de modo que um valor de 55 é simultaneamente 'normal' pela tabela e indicação de exame pelo texto — quem decorou a tabela devolve a criança para casa.
  4. 4Confundir a fração da manifestação com a fração da doença As duas frases circulam juntas e dizem coisas diferentes: o íleo meconial é a primeira manifestação clínica em 15% a 20% dos casos de fibrose cística, e a maioria dos recém-nascidos com íleo meconial tem fibrose cística. A primeira é a probabilidade da manifestação em quem tem a doença; a segunda é a probabilidade da doença em quem tem a manifestação. Enunciado que ofereça 'apenas 15% a 20% dos recém-nascidos com íleo meconial têm fibrose cística, portanto o teste do suor pode esperar' está invertendo o condicional para justificar uma conduta errada. Íleo meconial vai para o teste do suor sempre.
  5. 5Somar as duas rotas da enzima pancreática ou trocar uma pela outra sem conferir o teto As réguas brasileiras oferecem dose por quilo por refeição e dose por grama de gordura unidas por 'ou', e as duas só coincidem numa refeição magra. Para uma criança acima de 4 anos, 500 unidades por quilo igualam 4.000 por grama quando a gordura da refeição é um oitavo do peso em quilos. Numa dieta com 35% a 40% da energia em lipídios, a rota da gordura passa à frente e chega a furar o teto nacional de 2.500 unidades por quilo por refeição assim que a gordura ultrapassa 0,625 vez o peso — 12,5 g num menino de 20 kg. O teto que a banca cobra é sempre o mesmo par: 2.500 por quilo por refeição e 10.000 por quilo por dia, pelo risco de colonopatia fibrosante.
  6. 6Vestir a crise perdedora de sal de gastroenterite Lactente com letargia, recusa alimentar, vômitos, perda de peso e desidratação, e no laboratório hiponatremia, hipocloremia, às vezes hipocalemia, com alcalose metabólica. O aluno vê desidratação com vômito e vai para gastroenterite ou, se lembrar do padrão, para estenose hipertrófica de piloro. O que separa é a ausência de diarreia importante e a alcalose numa criança que não vomita em jato há semanas, somada aos sinais crônicos de má absorção e ao suor salgado que a mãe relata. Perda de sal pelo suor é apresentação inicial da fibrose cística, com risco de vida, e a criança precisa de reposição de sódio além da investigação.
  7. 7Prescrever polimixina B porque um documento oficial escreveu isso O material de consulta rápida do Ministério chama o colistimetato de sódio de polimixina B. Ele é a polimixina E, como o protocolo completo registra corretamente. A polimixina B existe e é outro fármaco. Enunciado que ofereça 'polimixina B inalatória' como erradicação de Pseudomonas aeruginosa na fibrose cística está oferecendo o medicamento errado, ainda que com um nome que um documento oficial imprimiu. A régua que não oscila entre seções é a tobramicina inalatória, 300 mg duas vezes ao dia por 28 dias, repetível até 56 ou 84 dias.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade pneumonias de repetição, tosse úmida crônica com má-absorção (esteatorreia) e déficit ponderal sugere fibrose cística; o teste do suor (cloreto no suor) é o exame diagnóstico de escolha/padrão. Broncoscopia avalia complicações, não firma o diagnóstico. Dosagem de imunoglobulinas investiga imunodeficiência, hipótese secundária. PPD investiga tuberculose, que não explica a esteatorreia. Espirometria não é confiável nem diagnóstica nessa idade.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória sete coisas. As três faixas do cloreto no suor, com o que cada uma manda fazer. As duas exigências para realizar o exame — idade e peso — e por que o número seis não é nenhuma delas. O que a condutividade decide e o que ela não decide, com o valor que obriga a passar ao quantitativo. A sensibilidade medida da triagem brasileira e o que ela significa diante da frase 'a triagem foi normal'. Os dois critérios do caso inconclusivo, com o valor do suor e o número de variantes em cada um. A razão pela qual painel de variantes não serve ao brasileiro, com as duas frequências da F508del que a sustentam. E os dois tetos da pancreatina, por refeição e por dia, com o motivo de segurança que os justifica.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva seis cenários antes de conferir. Lactente de 2 meses com íleo meconial resolvido cirurgicamente e triagem neonatal normal — diga a conduta e por que a triagem não muda nada. Criança de 4 anos com dois testes do suor de 45 e 48 mmol/L e elastase fecal de 60 mcg/g — diga o próximo exame e por que não é painel. Recém-nascido com condutividade do suor de 55 mmol/L — diga o que fazer e cite os dois documentos que discordam sobre esse número. Menina de 15 kg, com 3 anos, cujo almoço tem 18 g de gordura — calcule a dose de lipase pelas duas rotas e diga se ela ultrapassa algum teto. Adulta de 24 anos com fibrose cística e índice de massa corporal de 22,5 kg/m² — diga se está adequada e por qual régua. E lactente de 5 kg em reposição de cloreto de sódio — calcule a dose diária pela régua nacional, converta em gramas de sal e compare com a faixa de rotina do documento de pediatria.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Três gestos transformam este capítulo em conduta no consultório de atenção primária. O primeiro é com a pergunta: diante de criança que não ganha peso apesar de comer bem, pergunte pelas fezes com as palavras da mãe — se boiam, se são brilhantes, se deixam gordura no vaso, se o cheiro mudou. Esteatorreia relatada assim vale mais que qualquer exame de rastreio, e é o dado que a família só entrega quando alguém pergunta direito. O segundo é com o cartão da maternidade: confira não o resultado da triagem, mas se houve a segunda coleta, e em que dia de vida ela foi feita — a segunda dosagem tem prazo, os 30 dias de vida, e a perda nessa etapa é grande. O terceiro é com o pedido de exame: escreva 'dosagem quantitativa de cloreto no suor por iontoforese com pilocarpina', e não 'teste do suor', porque a segunda formulação abre espaço para o laboratório devolver uma condutividade, que não confirma nada. Se voltar um número entre 30 e 59, não diga à família que deu negativo nem que deu positivo: diga que o exame não decidiu, que existe uma etapa seguinte com nome — a análise do gene — e marque a data antes que a família saia da sala. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Fibrose cística — Preparatório para provas | OsceLabs