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Clínica MédicaPneumologia

Hipertensão pulmonar e cor pulmonale

Classificar o grupo, confirmar a hemodinâmica por cateterismo, excluir doença tromboembólica crônica com cintilografia e proteger o ventrículo direito enquanto se define o tratamento.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 66 anos com dispneia progressiva há 6 meses após tromboembolismo pulmonar tratado. Ecocardiograma mostra pressão sistólica de artéria pulmonar de 62 mmHg com disfunção de ventrículo direito. Cintilografia de ventilação e perfusão mostra múltiplos defeitos segmentares de perfusão com ventilação preservada. Qual o diagnóstico?

02

Como esse tema cai

O objeto é a circulação pulmonar do adulto quando ela deixa de ser um circuito de baixa pressão: como se suspeita, como se confirma, em que grupo o paciente cai — porque é o grupo que decide o tratamento — e o que se faz quando o ventrículo direito falha de vez. O cor pulmonale entra junto porque é a consequência anatômica e funcional da mesma pressão: hipertrofia e dilatação do ventrículo direito causadas por doença do pulmão ou da sua vasculatura, com o coração esquerdo fora da explicação.

A fronteira mais estreita é com o tromboembolismo pulmonar, e ela precisa ficar dita com todas as letras. A fase aguda — probabilidade pré-teste, dímero D, angiotomografia, classe de risco de morte precoce, decisão de trombolisar — está no capítulo de tromboembolismo pulmonar desta mesma apostila e não se repete aqui. O que atravessa a fronteira e vem para cá são duas coisas: a sequela, ou seja, a hipertensão pulmonar tromboembólica crônica, que é o grupo 4 e nasce meses depois do evento tratado; e a leitura hemodinâmica do cor pulmonale agudo, isto é, o que a sobrecarga súbita faz com um ventrículo direito que não teve tempo de hipertrofiar. Diagnóstico e tratamento do trombo agudo continuam lá; a dobradiça está no paciente que já foi tratado e continua com dispneia.

Também ficam de fora, com endereço: a insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, a descompensação aguda com edema de pulmão e as cardiomiopatias, que estão na apostila de Cardiologia e explicam o grupo 2 — o mais comum de todos, e o que a investigação encerra antes do cateterismo; a esclerose sistêmica com o seu rastreio anual, que é da apostila de Reumatologia e chega aqui já com o achado na mão; a doença pulmonar obstrutiva crônica e as doenças intersticiais, que têm capítulo próprio nesta apostila e sustentam o grupo 3; e a esquistossomose, que está na apostila de Infectologia e é, no Brasil, uma causa de doença do grupo 1 que quase nenhum texto estrangeiro lembra.

O tema rende porque tem dois números concorrentes escritos no mesmo documento oficial e uma fisiologia que inverte a intuição de beira de leito. O paciente está hipotenso, com jugular ingurgitada e fígado grande, e a resposta reflexa — correr soro — é exatamente a que o piora.

03

O que muda decisão

A definição desceu, o acesso não desceu junto

Hipertensão pulmonar é uma condição hemodinâmica, não um achado de ecocardiograma. O protocolo nacional de 2023 escreve o corte atual: pressão arterial pulmonar média acima de 20 mmHg, medida por cateterismo cardíaco direito. Foi uma descida deliberada, herdada do sexto simpósio mundial, em relação aos 25 mmHg que valeram por décadas — e ela ampliou a população que tem a doença sem ampliar, na mesma proporção, a população que tem tratamento.

Só a pressão média não basta, porque ela não diz onde está o obstáculo. É a combinação de três medidas que separa os territórios. Doença pré-capilar: pressão média acima de 20 mmHg, pressão de oclusão da artéria pulmonar menor ou igual a 15 mmHg e resistência vascular pulmonar aumentada — o problema mora no leito arterial pulmonar. Doença pós-capilar: pressão de oclusão acima de 15 mmHg, o que joga a explicação para as câmaras esquerdas. E a forma combinada, com pressão de oclusão acima de 15 mmHg mas resistência vascular também alta, em que a congestão de trás não explica sozinha a magnitude da pressão.

A resistência vascular pulmonar é onde o documento brasileiro fica ambíguo, e a ambiguidade é do próprio texto, não da leitura. Na seção de definições, a doença pré-capilar exige resistência igual ou maior que 3 unidades Wood. Nos critérios de inclusão para o tratamento medicamentoso específico, o mesmo documento pede resistência maior que 2 unidades Wood — e, junto com ela, pressão média igual ou acima de 25 mmHg. O motivo está escrito: a maioria dos ensaios clínicos com os fármacos disponíveis recrutou pacientes pela régua antiga, e o protocolo não quis pagar tratamento numa faixa que nenhum estudo testou.

A consequência prática é uma faixa de ninguém. O paciente com pressão média entre 21 e 24 mmHg tem hipertensão pulmonar pela definição e não tem indicação de terapia específica pelo protocolo: a orientação literal é monitorização cuidadosa. Não é contradição por descuido — é a diferença entre o que define uma doença e o que uma agência de saúde aceita financiar. Quem estuda só a definição erra a conduta; quem estuda só o critério de inclusão erra o diagnóstico.

Um lembrete que evita metade dos erros: cateterismo cardíaco direito é obrigatório para confirmar hipertensão arterial pulmonar e doença tromboembólica crônica, e o protocolo atribui à falha dessa confirmação a principal causa de excesso de diagnóstico e de tratamento. Ecocardiograma estima probabilidade; ele não fecha o diagnóstico nem autoriza a primeira receita.

Cinco grupos, e o grupo é que manda no tratamento

A classificação em cinco grupos não é taxonomia decorativa: ela existe porque o mesmo número de pressão pede condutas opostas conforme o mecanismo. O grupo 1 é a hipertensão arterial pulmonar propriamente dita, com perda e remodelação obstrutiva do leito arterial — idiopática, hereditária, induzida por fármacos e toxinas, e associada a doença do tecido conjuntivo, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, hipertensão portal, cardiopatia congênita e esquistossomose. O grupo 2 é a doença do coração esquerdo. O grupo 3 é a doença pulmonar crônica ou a hipóxia. O grupo 4 é a obstrução de artérias pulmonares, com a forma tromboembólica crônica à frente. O grupo 5 reúne mecanismos multifatoriais ou mal esclarecidos.

Metade dos casos de hipertensão pulmonar na América do Sul é do grupo 2, e esse dado muda a ordem da investigação. Quando o ecocardiograma mostra átrio esquerdo aumentado, disfunção diastólica ou valvopatia esquerda relevante, a investigação de hipertensão pulmonar pode parar ali: o alvo do tratamento passa a ser a doença cardíaca esquerda. Prescrever vasodilatador pulmonar nesse paciente não corrige a causa e ainda pode aumentar o fluxo contra um átrio que já não drena, com risco de congestão.

No grupo 3 vale o mesmo veto por outro motivo. Não existe terapia específica para a hipertensão pulmonar associada a doença pulmonar, e o vasodilatador tem um efeito indesejado próprio: ao dilatar vasos que irrigam áreas mal ventiladas, ele desfaz a vasoconstrição hipóxica que protegia a troca gasosa e pode piorar a oxigenação. O que se trata no grupo 3 é a doença de base, com oxigenoterapia quando indicada.

A régua brasileira de oxigenoterapia contínua, escrita no protocolo de hipertensão pulmonar, é pressão parcial de oxigênio arterial consistentemente menor ou igual a 60 mmHg ou saturação menor ou igual a 90% em repouso — e, no exercício, suplementação para manter a saturação acima de 88% a 90%. O número de repouso não é o mesmo decorado para a doença obstrutiva crônica.

Há uma associação que os textos estrangeiros esquecem e a prova brasileira não. O protocolo nacional lista a prevalência de hipertensão pulmonar por condição associada, e a esquistossomose hepatoesplênica aparece com 7,7% — mais que a hipertensão portal de candidatos a transplante hepático, com 7,2%, e muito mais que a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, com 0,5%. A esclerodermia lidera, com até 27%. Num país endêmico, dispneia progressiva com hepatoesplenomegalia e contato com água doce é hipertensão arterial pulmonar do grupo 1 até prova em contrário.

O ventrículo direito é uma bomba de volume que odeia pressão

O ventrículo direito nasceu para bombear o mesmo débito do esquerdo contra um sexto da pressão. Sua parede é fina, sua reserva contrátil é pequena e ele tolera muito melhor um aumento de volume do que um aumento de pós-carga. Quando a resistência do circuito pulmonar sobe devagar, ao longo de anos, ele hipertrofia e se adapta — e esse é o cor pulmonale crônico. Quando sobe de repente, como na embolia pulmonar maciça, não há tempo de adaptação: a câmara dilata, a parede se estira e a função despenca com pressões que um ventrículo hipertrofiado suportaria sem queixa. Essa é a razão fisiológica de o cor pulmonale agudo ser assunto do capítulo de tromboembolismo pulmonar e o crônico ser assunto daqui.

A falência do ventrículo direito não é um evento único, é um circuito que se realimenta. A dilatação empurra o septo interventricular para a esquerda — o que a ecocardiografia descreve como retificação septal — e o ventrículo esquerdo, comprimido, enche menos. Menos enchimento significa menos débito sistêmico, e menos débito significa menos pressão na raiz da aorta. Como a artéria coronária direita perfunde o ventrículo direito ao longo de todo o ciclo cardíaco, e não apenas na diástole, a queda da pressão sistêmica reduz diretamente a oferta de sangue ao músculo que está trabalhando mais. O ventrículo isquemia, contrai pior, dilata mais, e o circuito fecha.

Duas consequências saem daí, e as duas contrariam o reflexo de quem está à beira do leito. A primeira: sustentar a pressão arterial sistêmica não é cosmética, é perfusão coronariana do ventrículo que está falindo. A segunda: acrescentar volume a uma câmara já dilatada aumenta o estiramento, piora a retificação septal e reduz ainda mais o enchimento esquerdo. O paciente fica mais hipotenso depois do soro, e não menos.

Tudo que aumenta a resistência vascular pulmonar aperta o mesmo parafuso. Hipoxemia, hipercapnia e acidose são vasoconstritores pulmonares diretos — corrigi-los é conduta hemodinâmica, não apenas respiratória. A pressão positiva intratorácica faz duas coisas ruins ao mesmo tempo: reduz o retorno venoso e aumenta a resistência do circuito pulmonar pela distensão alveolar. Por isso a ventilação mecânica invasiva, num paciente com falência do ventrículo direito e hipotensão, é um procedimento de risco alto — a indução anestésica e a primeira insuflação já provocaram parada em pacientes assim.

Diagrama circular com cinco estações ligadas por setas no sentido horário: câmara direita dilatada com o septo empurrado para a esquerda, câmara esquerda comprimida, vaso de calibre reduzido, artéria sobre a parede direita estreitada, e parede direita em sofrimento — fechando de volta na dilatação.
O circuito que se realimenta: a câmara direita dilata, o septo retifica, a esquerda enche menos, o débito e a pressão sistêmica caem, a perfusão da própria parede direita diminui e a contração piora. Cada seta explica por que soro piora e por que vasopressor entra cedo.

O que o exame físico entrega antes de qualquer exame

A semiologia da hipertensão pulmonar é a semiologia da câmara direita sob pressão, e ela é razoavelmente específica quando procurada de propósito. O protocolo nacional lista os achados: elevação ou retração paraesternal esquerda, segunda bulha aumentada, terceira bulha de ventrículo direito, pressão venosa jugular elevada com onda anormal, pulsos de baixo volume, hepatomegalia, ascite, edema periférico e sopro de regurgitação tricúspide.

A hiperfonese do componente pulmonar da segunda bulha é o sinal mais precoce e o mais esquecido: traduz o fechamento sob pressão alta da valva pulmonar e costuma aparecer antes de qualquer edema. A palpação do impulso paraesternal esquerdo entrega a hipertrofia da câmara direita sem custo nenhum.

O sopro sistólico da regurgitação tricúspide tem um recurso de identificação que a prova gosta: ele aumenta na inspiração profunda, porque a inspiração aumenta o retorno venoso e, com ele, o volume regurgitado. Essa é a manobra de Rivero-Carvallo, e ela é o que separa um sopro sistólico do lado direito de um sopro mitral, que não se comporta assim. O correspondente venoso é o refluxo hepatojugular: compressão sustentada do quadrante superior direito com a cabeceira elevada, procurando elevação mantida da coluna jugular.

A congestão do lado direito tem consequências que aparecem no laboratório e são lidas como outra doença. O fígado congesto dói à palpação, pode pulsar quando a regurgitação tricúspide é importante, e devolve transaminases elevadas, bilirrubina de predomínio direto e alargamento do tempo de protrombina. Isso é congestão, não hepatite: a conduta é descongestionar e melhorar o débito, não investigar sorologia viral em primeiro lugar. A ascite e o edema que sobe até as coxas contam a mesma história.

O pulso paradoxal, medido com o esfigmomanômetro, e a queda da pressão de pulso avisam que o débito está baixo. Quando o paciente relata síncope — sobretudo síncope ao esforço, que é o momento em que o débito não consegue subir —, o achado deixa de ser semiológico e passa a ser prognóstico: síncope marca doença avançada e entra na estratificação de risco como sinal de alto risco.

A ordem dos exames, e por que a cintilografia não pode ser pulada

A investigação começa barata. A radiografia de tórax mostra abaulamento do tronco da artéria pulmonar e preenchimento do espaço retroesternal pela câmara direita. O eletrocardiograma mostra sobrecarga de câmaras direitas, desvio do eixo para a direita, onda P apiculada e bloqueio de ramo direito. Nenhum dos dois fecha nada, e a radiografia normal não exclui a doença.

A prova de função pulmonar tem um papel que costuma passar em branco: ela ajuda a dizer se a doença é vascular pura ou parenquimatosa. Na doença vascular isolada espera-se, no máximo, restrição leve, com capacidade vital forçada acima de 70% do previsto e volume expiratório forçado no primeiro segundo acima de 60%, ao lado de uma queda desproporcional da difusão de monóxido de carbono, com frequência abaixo de 60% do previsto. Espirometria quase normal com difusão muito baixa aponta para o vaso, não para o parênquima.

O ecocardiograma é o exame de triagem e classifica a probabilidade de hipertensão pulmonar a partir da velocidade de regurgitação tricúspide somada a sinais de sobrecarga: dilatação da câmara direita, retificação septal, veia cava inferior dilatada sem colapso inspiratório, derrame pericárdico. É também o exame que encerra a investigação quando encontra a explicação no coração esquerdo.

A cintilografia de ventilação e perfusão é o passo que não se pula, e a razão é escrita no protocolo: ela é necessária para excluir doença tromboembólica crônica, e a angiotomografia convencional não a substitui, por ter menor sensibilidade para essa forma. A frase inverte a intuição de quem aprendeu que tomografia é sempre melhor do que cintilografia. Aqui não é: a doença crônica organiza-se na parede do vaso, e o mapa de perfusão enxerga o que o contraste não delineia. Cintilografia normal afasta o grupo 4; cintilografia com defeitos segmentares de perfusão e ventilação preservada exige seguir com angiografia pulmonar em centro de referência.

Descartados o coração esquerdo, a doença pulmonar e a obstrução arterial, o que sobra é grupo 1 e grupo 5, e aí entram as pesquisas de condição associada: doença do tecido conjuntivo, vírus da imunodeficiência humana, hepatopatia e hipertensão portal, esquistossomose, cardiopatia congênita e a lista de fármacos e toxinas. O cateterismo direito vem no fim, para medir e para realizar o teste de vasorreatividade quando a suspeita é de forma idiopática, hereditária ou induzida por fármacos.

Vasorreatividade, três vias e o que o SUS entrega

O teste de vasorreatividade aguda é feito no próprio cateterismo, com óxido nítrico inalatório, iloprosta inalatória ou epoprostenol intravenoso, e só faz sentido na hipertensão arterial pulmonar idiopática, hereditária ou induzida por fármacos. O critério de resposta é duplo e precisa dos dois braços: queda de pelo menos 10 mmHg na pressão média da artéria pulmonar e alcance de um valor absoluto igual ou menor que 40 mmHg, com manutenção ou elevação do débito cardíaco. Metade do critério não serve.

O que a resposta positiva muda é o primeiro degrau do tratamento: esses pacientes recebem bloqueador de canal de cálcio em dose alta — nifedipino ou anlodipino — e são reavaliados em três a seis meses. Se atingirem critérios de baixo risco, mantêm a monoterapia; se não sustentarem a resposta, passam a ser tratados como se o teste fosse negativo. Bloqueador de canal de cálcio em dose alta fora dessa indicação é perigoso: no paciente não vasorreator ele derruba a pressão sistêmica sem baixar a resistência pulmonar.

Fora dos vasorreatores, três vias fisiopatológicas concentram o arsenal. A via do óxido nítrico, alcançada pelos inibidores da fosfodiesterase 5 — sildenafila no protocolo nacional. A via da endotelina, com ambrisentana e bosentana. E a via da prostaciclina, com iloprosta. O protocolo brasileiro trabalha com esses fármacos e com o selexipague em determinadas linhas.

A lógica de combinação inverteu-se em relação ao que se ensinava há dez anos. Hoje a monoterapia inicial é a exceção, com indicações listadas: vasorreator estável em classe funcional baixa, paciente estável há muitos anos em monoterapia, idoso acima de 75 anos com múltiplos fatores de risco para insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, suspeita de doença venoclusiva pulmonar, doença muito leve e impossibilidade de combinação. Para o resto, a terapia dupla inicial é a regra, preferencialmente um inibidor da fosfodiesterase 5 com um antagonista do receptor de endotelina, e a tripla entra quando a dupla não leva o paciente ao baixo risco.

Duas armadilhas de segurança moram nessa seção. A primeira é a doença venoclusiva pulmonar e a hemangiomatose capilar: difusão muito reduzida, com frequência abaixo de 50%, hipoxemia grave e tomografia com linhas septais, opacidades em vidro fosco centrolobulares e linfonodo mediastinal aumentado. Nesses pacientes o vasodilatador pode precipitar edema pulmonar. A segunda é a gestação, contraindicada na hipertensão arterial pulmonar pelo risco materno; e a bosentana reduz a eficácia do contraceptivo oral, o que obriga a dois métodos associados.

Grupo 4: a sequela que se cura com bisturi

A hipertensão pulmonar tromboembólica crônica é a única forma potencialmente curável de hipertensão pulmonar, e por isso ela é a que não pode passar despercebida. O mecanismo não é o trombo agudo que ficou: é material tromboembólico que se organizou e fibrosou na parede da artéria, transformando obstrução aguda em estenose fixa, somada a uma arteriopatia dos vasos pequenos que não estavam obstruídos.

A prevalência escrita no protocolo nacional é de 5,1% depois de embolia pulmonar. O gatilho da investigação é clínico e simples: dispneia que persiste ou que aparece meses depois de um episódio de embolia pulmonar tratado, com anticoagulação já concluída ou em curso. É aqui que a fronteira com o capítulo de tromboembolismo pulmonar se fecha — lá o paciente é agudo e a pergunta é confirmar e graduar; aqui o paciente já foi tratado e a pergunta é se sobrou doença.

A sequência de exames é cintilografia de ventilação e perfusão primeiro, cateterismo direito para confirmar o perfil pré-capilar, e angiografia pulmonar — convencional ou por ressonância — para definir a anatomia e a acessibilidade cirúrgica. O encaminhamento a centro de referência não é formalidade: a decisão entre operar e não operar depende de quem opera.

O tratamento de escolha na doença proximal acessível é a tromboendarterectomia pulmonar, que remove o material organizado junto com a íntima. Para a doença distal inacessível ou para a hipertensão residual após a cirurgia existem a angioplastia pulmonar por balão e o tratamento medicamentoso em centro especializado.

A anticoagulação nesse grupo tem regra própria e é a parte mais cobrada. O protocolo brasileiro preconiza anticoagulação contínua a partir da suspeita diagnóstica, mantida no pós-operatório da tromboendarterectomia independentemente do sucesso do procedimento, e mantida também em quem não opera. Os antagonistas da vitamina K são os mais usados nas séries, com alvo de razão normalizada internacional entre 2,0 e 3,0 — número diferente do alvo que o mesmo documento sugere para a anticoagulação eventual da forma idiopática do grupo 1, que é de 1,5 a 2,5.

A crise: quando o ventrículo direito desiste

A descompensação aguda do ventrículo direito é o desfecho que leva o paciente com hipertensão pulmonar à terapia intensiva, e ela quase nunca acontece sozinha. Existe um desencadeante, e procurá-lo é a primeira conduta, não a última. A infecção é o gatilho mais frequente — pneumonia, infecção urinária, infecção de cateter —, seguida de arritmia com perda da contribuição atrial, interrupção ou falha de adesão à terapia específica, anemia, gestação, cirurgia e embolia sobreposta. Tratar a crise sem tratar o gatilho é enxugar gelo.

O reconhecimento é clínico e laboratorial ao mesmo tempo. Piora rápida da classe funcional, síncope, edema que sobe, dor em hipocôndrio direito por distensão da cápsula hepática, oligúria. No laboratório, lactato subindo, saturação venosa central caindo abaixo de 70%, peptídeo natriurético muito acima do valor ambulatorial do próprio paciente, creatinina subindo por congestão venosa renal e provas hepáticas alteradas por congestão. A comparação com o valor prévio do mesmo paciente vale mais do que o valor absoluto.

A sequência de suporte tem uma ordem, e a ordem importa. Primeiro, corrigir o que aumenta a resistência pulmonar: hipoxemia, hipercapnia e acidose. Segundo, a volemia — e aqui o reflexo precisa ser contido. No paciente congesto, com jugular ingurgitada e cava dilatada, a conduta é balanço negativo com diurético, não expansão. Volume só se houver evidência real de hipovolemia, em alíquota pequena e com reavaliação imediata, porque o ventrículo dilatado responde à sobrecarga piorando.

Terceiro, a pressão de perfusão. A noradrenalina entra cedo e não por hábito: manter a pressão sistêmica é manter a perfusão coronariana do ventrículo direito, e sem isso nenhum inotrópico funciona. Quarto, o acoplamento: com a pressão sustentada e o débito ainda baixo, entra um inotrópico inodilatador — dobutamina ou milrinona —, que aumenta a contratilidade e reduz a resistência pulmonar, ao custo de vasodilatação sistêmica que o vasopressor precisa cobrir. Quinto, o vasodilatador pulmonar inalatório, como óxido nítrico ou iloprosta, que baixa a resistência pulmonar sem derrubar a pressão sistêmica, porque age onde há ventilação.

E há o que não fazer. Não introduzir bloqueador de canal de cálcio na crise. Não suspender a terapia específica oral que o paciente já usava, porque a retirada abrupta provoca rebote. Não intubar por reflexo: a pressão positiva reduz retorno venoso e aumenta a pós-carga do ventrículo direito, e o momento da indução é de risco máximo. Quando a intubação for inevitável, ela se faz com a hemodinâmica já sustentada e por quem tem experiência. Em paralelo, aciona-se o centro de referência para discutir suporte circulatório mecânico e transplante — a estratificação de alto risco é, por si, indicação de avaliação por equipe de transplante pulmonar.

Risco, seguimento e as medidas que não são medicamento

A hipertensão arterial pulmonar é acompanhada por estratificação de risco, não por sintoma isolado, e o alvo terapêutico é levar e manter o paciente na faixa de baixo risco. A avaliação simplificada que o protocolo brasileiro adapta reúne classe funcional pela classificação da Organização Mundial da Saúde, distância percorrida no teste de caminhada de seis minutos e peptídeo natriurético, reavaliados a cada três a seis meses. Critérios hemodinâmicos agravantes incluem pressão de átrio direito acima de 14 mmHg e índice cardíaco reduzido.

A classe funcional é reavaliada em todas as consultas — é o parâmetro mais barato e o que mais move a decisão de escalonar terapia. Quem sai de classe II para classe III sob tratamento não está estável, mesmo com imagem inalterada.

As medidas não medicamentosas têm peso real e caem em prova por serem esquecidas. Restrição de sódio abaixo de 2,4 g por dia, sobretudo com disfunção da câmara direita. Diurético para congestão e retenção hídrica. Oxigenoterapia contínua nos cortes já citados. Correção da deficiência de ferro, comum na forma idiopática, relatada em cerca de 43% desses pacientes e associada a pior capacidade de exercício mesmo sem anemia. Reabilitação supervisionada em pacientes estáveis, sem mudança de tratamento nos últimos dois meses.

Digitálico tem efeito agudo demonstrado sobre contratilidade e débito, mas efetividade de longo prazo desconhecida; e não há dado robusto que sustente inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina, betabloqueador ou ivabradina nesses pacientes. Tratar a câmara direita com o arsenal da câmara esquerda não tem respaldo.

Por fim, o encaminhamento. A atenção primária tem papel definido no protocolo: suspeitar cedo e encaminhar rápido. O paciente de alto risco vai para avaliação por equipe de transplante pulmonar, e cuidados paliativos entram no planejamento quando apropriado, sem que isso signifique abandonar o tratamento específico.

Onde a prova costuma armar o vão

Três vãos concentram as questões. O primeiro é o dos números concorrentes: 20 contra 25 mmHg, e 2 contra 3 unidades Wood. O enunciado que pergunta se o paciente tem hipertensão pulmonar quer a definição; o que pergunta se ele tem indicação de terapia específica pelo protocolo nacional quer o critério de inclusão. As duas perguntas parecem a mesma e não são.

O segundo é o do exame que confirma. Ecocardiograma com pressão sistólica estimada alta é probabilidade, e prescrever a partir dele é o excesso que o protocolo nomeia. Sem pressão de oclusão medida no cateterismo não há como separar grupo 1 de grupo 2.

O terceiro é o da cintilografia. Existe uma geração inteira convencida de que a angiotomografia substitui a cintilografia em qualquer cenário de embolia. Para o trombo agudo, substitui e melhora; para a doença crônica organizada, não substitui, e o protocolo escreve isso. Dispneia persistente depois de embolia tratada, com tomografia normal, ainda pede o mapa de perfusão.

O quarto vão é o da fisiologia da crise. O vocabulário aprendido para o choque — expandir, depois vasopressor — se aplica ao ventrículo esquerdo e falha aqui. O enunciado clássico descreve hipotensão com jugular ingurgitada e oferece soro entre as opções; quem não internalizou que o ventrículo direito dilatado piora com volume erra com convicção.

E um quinto, específico do Brasil: a esquistossomose. Enunciado com hepatoesplenomegalia, varizes esofágicas, contato com água doce em área endêmica e dispneia progressiva não é apenas hipertensão portal — é candidato a hipertensão arterial pulmonar do grupo 1, com prevalência de 7,7% na forma hepatoesplênica segundo o próprio protocolo nacional.

04

Os números que decidem

Tudo que decide conduta neste tema é numérico, e quase todos os números têm um vizinho parecido que resolve outra pergunta. A tabela separa o que define do que autoriza.

A ordem da crise

Gatilho primeiro — infecção, arritmia, interrupção da droga. Depois, corrigir hipoxemia, hipercapnia e acidose. Depois, volemia, quase sempre para menos. Depois, vasopressor para sustentar a perfusão coronariana da câmara direita. Só então o inotrópico inodilatador e o vasodilatador pulmonar inalatório.

O grupo decide o remédio

Terapia específica vasodilatadora tem lugar nos grupos 1 e 4. No grupo 2 o alvo é o coração esquerdo, e o vasodilatador pode congestionar. No grupo 3 não há terapia específica, e o vasodilatador pode piorar a oxigenação ao desfazer a vasoconstrição hipóxica.

Cintilografia antes de tomografia

Para excluir doença tromboembólica crônica, a cintilografia de ventilação e perfusão é obrigatória e a angiotomografia convencional não a substitui. É o inverso do que vale na embolia aguda, e a inversão é onde o vão se abre.

Congestão não é hepatite

Transaminases altas, bilirrubina direta elevada e tempo de protrombina alargado num paciente com jugular ingurgitada, fígado doloroso e ascite são congestão do lado direito. A conduta é descongestionar e melhorar o débito, não abrir investigação hepatológica primeiro.

Cortes hemodinâmicos e funcionais

PerguntaCorteFonte
Existe hipertensão pulmonar?Pressão média da artéria pulmonar acima de 20 mmHg, medida por cateterismo direitoProtocolo nacional de 2023; diretriz europeia de 2022
É pré-capilar?Pressão de oclusão menor ou igual a 15 mmHg com resistência vascular pulmonar elevadaProtocolo nacional de 2023
Cabe terapia específica pelo protocolo brasileiro?Grupo 1 confirmado por cateterismo, com pressão média igual ou acima de 25 mmHg, oclusão menor ou igual a 15 mmHg e resistência maior que 2 unidades WoodProtocolo nacional de 2023, critérios de inclusão
O teste de vasorreatividade foi positivo?Queda de pelo menos 10 mmHg na pressão média até valor absoluto igual ou menor que 40 mmHg, com débito mantido ou maiorProtocolo nacional de 2023
Cabe oxigenoterapia contínua?Pressão parcial de oxigênio menor ou igual a 60 mmHg ou saturação menor ou igual a 90% em repousoProtocolo nacional de 2023
Qual o alvo de anticoagulação?Razão normalizada internacional de 2,0 a 3,0 na doença tromboembólica crônica; de 1,5 a 2,5 quando se opta por anticoagular a forma idiopáticaProtocolo nacional de 2023
A difusão sugere doença vascular pura?Capacidade vital forçada acima de 70%, volume expiratório no primeiro segundo acima de 60% e difusão de monóxido de carbono abaixo de 60% do previstoProtocolo nacional de 2023
Há risco de edema pulmonar com vasodilatador?Difusão frequentemente abaixo de 50%, hipoxemia grave e vidro fosco centrolobular com linhas septaisProtocolo nacional de 2023

Cateterismo cardíaco direito é obrigatório para confirmar hipertensão arterial pulmonar e doença tromboembólica crônica. O protocolo nacional atribui à ausência dessa confirmação a principal causa de diagnóstico e tratamento em excesso.

Metade dos casos sul-americanos de hipertensão pulmonar tem origem no coração esquerdo. Quando o ecocardiograma explica o quadro pela câmara esquerda, a investigação de hipertensão pulmonar pode ser encerrada ali.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O limiar que define a doença e o limiar que libera o medicamento não são o mesmo, dentro do mesmo documento

Definição: acima de 20 mmHg

A diretriz europeia de 2022, seguindo a proposta do sexto simpósio mundial, define hipertensão pulmonar por pressão arterial pulmonar média acima de 20 mmHg e caracteriza o componente pré-capilar por pressão de oclusão menor ou igual a 15 mmHg somada a resistência vascular pulmonar acima de 2 unidades Wood. O protocolo brasileiro adota o limiar de 20 mmHg na seção de definições, mas exige resistência igual ou maior que 3 unidades Wood para chamar o quadro de pré-capilar.

Humbert M, et al. 2022 ESC/ERS Guidelines for the diagnosis and treatment of pulmonary hypertension. Eur Heart J. 2022;43(38):3618-3731; e Portaria Conjunta nº 10/2023, seção de definições hemodinâmicas.

Tratamento: igual ou acima de 25 mmHg

O mesmo protocolo brasileiro, nos critérios de inclusão para tratamento medicamentoso específico, exige pressão média igual ou acima de 25 mmHg, pressão de oclusão menor ou igual a 15 mmHg e resistência maior que 2 unidades Wood. O texto justifica: os ensaios clínicos dos fármacos disponíveis recrutaram pela régua antiga, e pacientes com pressão média entre 21 e 24 mmHg devem ser monitorizados com cautela em vez de tratados.

Portaria Conjunta nº 10, de 18 de julho de 2023 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Pulmonar, critérios de inclusão e seção de tratamento medicamentoso específico.

Na prova

Leia o verbo do enunciado antes de escolher o número. Quando a pergunta é sobre diagnóstico ou classificação hemodinâmica, o corte é 20 mmHg. Quando a pergunta cita o protocolo do Ministério da Saúde, fala em dispensação, acesso ou indicação de terapia específica, o corte é 25 mmHg. Um enunciado que traz pressão média de 22 mmHg com oclusão de 10 e resistência de 3 unidades Wood não está pedindo diagnóstico — está pedindo justamente a faixa em que existe doença e não existe indicação de droga.

Anticoagular ou não a hipertensão arterial pulmonar idiopática

Pode ser considerada, com alvo baixo

O protocolo brasileiro registra a alta prevalência de lesões trombóticas em exames post-mortem de pacientes com a forma idiopática e afirma que o anticoagulante oral pode ser considerado nas formas idiopática, hereditária e por anorexígenos, com alvo de razão normalizada internacional entre 1,5 e 2,5, e que a decisão deve ser individualizada após análise de risco e benefício.

Portaria Conjunta nº 10/2023 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Pulmonar, item de terapia de suporte, anticoagulante oral.

Não é recomendação de rotina

A diretriz europeia de 2022 não sustenta anticoagulação oral de rotina na hipertensão arterial pulmonar idiopática, apoiada em dados observacionais conflitantes e no risco hemorrágico, e reserva a anticoagulação obrigatória e permanente para a forma tromboembólica crônica.

Humbert M, et al. 2022 ESC/ERS Guidelines for the diagnosis and treatment of pulmonary hypertension. Eur Heart J. 2022;43(38):3618-3731, seção de tratamento de suporte.

Na prova

A divergência é só do grupo 1. Na doença tromboembólica crônica as duas fontes convergem e não há espaço para dúvida: anticoagulação contínua desde a suspeita, mantida depois da cirurgia e por prazo indefinido, com alvo de 2,0 a 3,0. Se o enunciado descrever forma idiopática e oferecer anticoagulação como conduta obrigatória, desconfie — a palavra do protocolo é considerar, não indicar.

O corte de oxigenoterapia contínua não é o mesmo que o da doença obstrutiva crônica

Menor ou igual a 60 mmHg

O protocolo brasileiro de hipertensão pulmonar indica oxigenoterapia contínua quando a pressão parcial de oxigênio arterial é consistentemente menor ou igual a 60 mmHg ou a saturação arterial é menor ou igual a 90% em repouso, e durante o exercício orienta suplementação para manter a saturação acima de 88% a 90%.

Portaria Conjunta nº 10/2023 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Pulmonar, item de oxigenoterapia.

Menor ou igual a 55 mmHg

Na doença pulmonar obstrutiva crônica a régua clássica de oxigenoterapia domiciliar prolongada é mais restritiva, com pressão parcial de oxigênio menor ou igual a 55 mmHg em repouso, ou entre 56 e 59 mmHg na presença de sinais de repercussão como cor pulmonale, policitemia ou sobrecarga de câmaras direitas.

Diretriz europeia de 2022 para hipertensão pulmonar, seção de doença pulmonar associada, e o capítulo de doença pulmonar obstrutiva crônica desta apostila.

Na prova

Preste atenção em qual doença o enunciado põe no centro. Se o paciente é definido pela hipertensão pulmonar, o número que o protocolo nacional escreve é 60 mmHg. Se o paciente é definido pela doença obstrutiva e a hipertensão pulmonar aparece como repercussão, o número é 55 mmHg, com a faixa intermediária de 56 a 59 valendo quando há sinal de sobrecarga direita — e cor pulmonale é exatamente esse sinal.

06

Caso resolvido

Mulher de 41 anos, com hipertensão arterial pulmonar idiopática diagnosticada há seis anos por cateterismo direito, em terapia oral dupla e acompanhamento em centro de referência, é internada na terapia intensiva. Há cinco dias tem disúria e urina turva; há três dias a dispneia, antes aos esforços, passou a ocorrer em repouso; teve dois episódios de síncope ao levantar. Ao exame: pressão arterial 82 por 54 mmHg, frequência cardíaca 128 bpm, saturação de 88% em máscara com reservatório, jugulares ingurgitadas a 45 graus, refluxo hepatojugular presente, sopro sistólico em foco tricúspide que aumenta na inspiração, fígado a 5 cm do rebordo e doloroso, ascite e edema até as coxas. Laboratório: lactato 4,8 mmol/L, saturação venosa central 48%, peptídeo natriurético 2.840 pg/mL contra 640 no último controle ambulatorial, creatinina 2,2 mg/dL contra 0,8 há um mês, aspartato aminotransferase 268 U/L, bilirrubina total 3,4 mg/dL de predomínio direto, razão normalizada internacional 1,8, leucócitos 19.600/mm3 com 12% de bastões, urina com nitrito e esterase positivos. Angiotomografia sem falha de enchimento, com tronco pulmonar de 38 mm.
Passo 1
Nomeie o quadro antes de agir. Trata-se de falência aguda do ventrículo direito em paciente com hipertensão arterial pulmonar do grupo 1, com todos os marcadores de baixo débito reunidos: lactato alto, saturação venosa central de 48%, creatinina e provas hepáticas subindo por congestão venosa, peptídeo natriurético mais de quatro vezes acima do valor basal do próprio paciente. A angiotomografia sem falha de enchimento afasta embolia sobreposta, que era o diferencial obrigatório.
Passo 2
Encontre o desencadeante, porque sem ele nada estabiliza. Disúria de cinco dias, urina com nitrito e esterase positivos, leucocitose com desvio e febre: infecção urinária é o gatilho, e infecção é a causa mais frequente de descompensação nesses pacientes. Colher urocultura e hemoculturas e iniciar antimicrobiano faz parte do tratamento hemodinâmico, não é conduta paralela.
Passo 3
Decida a volemia contra o reflexo. Jugulares ingurgitadas, refluxo hepatojugular presente, fígado doloroso, ascite e edema ascendente compõem congestão sistêmica evidente. Não se expande. A conduta é balanço negativo com diurético de alça, monitorizando débito urinário horário e função renal — e entendendo que a creatinina de 2,2 mg/dL aqui é congestão renal, que costuma melhorar com a descongestão, e não indicação para infundir volume.
Passo 4
Sustente a perfusão e só depois o acoplamento. Noradrenalina para restaurar a pressão de perfusão coronariana do ventrículo direito, que é o que permite ao músculo isquêmico voltar a contrair. Com a pressão sustentada e o débito ainda baixo, acrescente inotrópico inodilatador — dobutamina ou milrinona — e vasodilatador pulmonar inalatório, que reduz a resistência pulmonar sem derrubar a pressão sistêmica. Em paralelo, corrija hipoxemia e acidose, que são vasoconstritores pulmonares.
Passo 5
Proteja o que não pode piorar e chame quem decide o próximo degrau. Mantenha a terapia oral específica, porque a suspensão abrupta provoca rebote. Evite a intubação enquanto for possível, pela queda de retorno venoso e pelo aumento da pós-carga direita que a pressão positiva impõe. E acione o centro de referência: paciente em alto risco tem indicação de avaliação por equipe de transplante pulmonar e de discussão sobre suporte circulatório mecânico.
07

Agora feche você

Homem de 58 anos, ex-tabagista de 20 maços-ano, é encaminhado da unidade básica por dispneia progressiva há oito meses, hoje aos pequenos esforços. Teve embolia pulmonar segmentar há dois anos, tratada com anticoagulante oral por seis meses, com boa recuperação inicial. Refere agora edema de membros inferiores e um episódio de tontura ao subir escada. Ao exame: segunda bulha hiperfonética em foco pulmonar, impulso paraesternal esquerdo palpável, jugulares ingurgitadas, fígado a 3 cm do rebordo. Espirometria com capacidade vital forçada de 82% do previsto e volume expiratório forçado no primeiro segundo de 78%, com difusão de monóxido de carbono de 46% do previsto. Ecocardiograma: velocidade de regurgitação tricúspide de 3,8 m/s, ventrículo direito dilatado com retificação septal, ventrículo esquerdo com fração de ejeção de 62%, átrio esquerdo normal, veia cava inferior dilatada sem colapso. Angiotomografia de tórax realizada há um mês descrita como sem falhas de enchimento.
Passo 1
Leia a prova de função pulmonar como quem procura o território da doença. Escreva o que significam, juntos, a espirometria quase normal e a difusão em 46% do previsto, e diga por que essa combinação aponta para o vaso e não para o parênquima. Depois diga o que esse mesmo par de números faria você suspeitar se a difusão estivesse abaixo de 50% com hipoxemia grave e vidro fosco centrolobular na tomografia.
Passo 2
Use o ecocardiograma para eliminar um grupo inteiro. Liste os achados que afastam a hipertensão pulmonar por doença do coração esquerdo neste paciente e explique por que essa exclusão precisa vir antes de qualquer discussão de tratamento. Em seguida, diga o que ainda falta para transformar probabilidade ecocardiográfica em diagnóstico.
Passo 3
Decida o próximo exame e defenda a escolha contra a objeção óbvia. A angiotomografia de um mês atrás foi descrita como normal. Escreva por que isso não encerra a investigação da forma tromboembólica crônica, qual exame o protocolo nacional torna necessário para excluí-la, e o que você faria em seguida se ele mostrasse defeitos segmentares de perfusão com ventilação preservada.
Passo 4
Trate a anticoagulação como decisão, não como detalhe. Este paciente parou o anticoagulante há um ano e meio. Diga o que muda na indicação e no alvo de razão normalizada internacional se o diagnóstico for confirmado como forma tromboembólica crônica, e compare com o que o protocolo escreve para a forma idiopática do grupo 1 — inclusive quanto ao tempo de tratamento.
Passo 5
Monte o plano completo. Diga a quem encaminhar e por quê, qual é o tratamento de escolha se a doença for proximal e acessível, quais são as opções quando ela não for, e o que este paciente recebe enquanto espera: oxigenoterapia com qual corte, diurético com qual objetivo, e o que você orienta sobre atividade física e sobre restrição de sódio.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Correr soro no paciente hipotenso com jugular ingurgitada É o erro mais caro do tema, e ele parece diligência porque copia o reflexo do choque hipovolêmico. O ventrículo direito dilatado responde à sobrecarga de volume aumentando o estiramento, acentuando a retificação septal e reduzindo ainda mais o enchimento do ventrículo esquerdo. O paciente fica mais hipotenso depois da expansão. A conduta na crise congestiva é balanço negativo, e vasopressor entra antes de qualquer alíquota generosa de cristaloide.
  2. 2Fechar o diagnóstico e prescrever a partir do ecocardiograma Pressão sistólica pulmonar estimada em 62 mmHg no ecocardiograma é probabilidade alta, não diagnóstico. Sem cateterismo direito não há pressão de oclusão medida, e sem pressão de oclusão não se separa a doença arterial da congestão do coração esquerdo. O protocolo nacional nomeia a falha de confirmação invasiva como principal causa de excesso de diagnóstico e de tratamento.
  3. 3Trocar a cintilografia pela angiotomografia na suspeita de doença crônica Vale o contrário do que vale na embolia aguda. O protocolo escreve que a angiotomografia convencional não substitui a cintilografia de ventilação e perfusão para o diagnóstico da forma tromboembólica crônica, por ter sensibilidade menor. Tomografia normal em paciente com dispneia persistente depois de embolia tratada não encerra a investigação.
  4. 4Prescrever vasodilatador pulmonar no grupo 2 ou no grupo 3 Terapia específica vasodilatadora não é indicada na hipertensão pulmonar por doença do coração esquerdo nem por doença pulmonar. No grupo 2 o alvo é a cardiopatia esquerda. No grupo 3 não existe terapia específica, e o vasodilatador ainda pode piorar a oxigenação ao desfazer a vasoconstrição hipóxica que protegia a relação entre ventilação e perfusão.
  5. 5Dar bloqueador de canal de cálcio sem teste de vasorreatividade positivo O bloqueador em dose alta só se aplica à forma idiopática, hereditária ou induzida por fármacos com teste positivo — queda de pelo menos 10 mmHg até valor absoluto igual ou menor que 40 mmHg, com débito mantido. No não vasorreator ele derruba a pressão sistêmica sem baixar a resistência pulmonar, e a queda de pressão sistêmica é justamente o que compromete a perfusão do ventrículo direito.
  6. 6Suspender a terapia oral específica quando o paciente descompensa A retirada abrupta de sildenafila, bosentana ou ambrisentana no paciente internado provoca efeito rebote sobre a resistência vascular pulmonar e piora a crise. A droga oral se mantém sempre que a via digestiva permitir, e o suporte intravenoso e inalatório é acrescentado sobre ela, não no lugar dela.
  7. 7Intubar por reflexo diante da hipoxemia A pressão positiva intratorácica reduz o retorno venoso e aumenta a resistência do circuito pulmonar pela distensão alveolar, e a indução anestésica retira o tônus simpático que estava sustentando a pressão. A intubação num paciente com falência do ventrículo direito e hipotensão é procedimento de risco elevado, feito depois de estabilizar a hemodinâmica e por profissional experiente.
  8. 8Ler as provas hepáticas alteradas como doença do fígado Transaminases na casa das centenas, bilirrubina de predomínio direto e tempo de protrombina alargado num paciente com hepatomegalia dolorosa, jugular ingurgitada e ascite traduzem congestão hepática por falência direita. Investigar sorologia viral antes de descongestionar atrasa a conduta que resolve os dois problemas.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dispneia persistente após embolia tratada, com hipertensão pulmonar e defeitos de perfusão segmentares com ventilação normal, é hipertensão pulmonar tromboembólica crônica — condição potencialmente curável pela endarterectomia pulmonar, o que torna o diagnóstico obrigatório de se buscar. A cintilografia continua sendo o exame de rastreamento de escolha, mais sensível que a angiotomografia para a doença crônica. A forma idiopática cursa com cintilografia sem defeitos segmentares.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Hipertensão pulmonar é pressão média acima de 20 mmHg por cateterismo direito; pré-capilar exige oclusão menor ou igual a 15 mmHg com resistência elevada. Cinco grupos, e o grupo decide o tratamento: vasodilatador específico só nos grupos 1 e 4. O protocolo nacional só autoriza terapia específica com pressão média igual ou acima de 25 mmHg. Cintilografia de ventilação e perfusão é obrigatória para excluir a forma tromboembólica crônica, e a angiotomografia não a substitui. Na crise: caçar o gatilho, corrigir hipoxemia e acidose, evitar volume, noradrenalina cedo, depois inodilatador e vasodilatador inalatório.

em 30 dias

O que os documentos não escrevem juntos: o protocolo brasileiro define a doença acima de 20 mmHg e libera o medicamento acima de 25, porque os ensaios usaram a régua antiga — entre 21 e 24 mmHg a orientação literal é monitorizar. O teste de vasorreatividade tem critério duplo, queda de 10 mmHg até valor absoluto igual ou menor que 40 mmHg com débito mantido, e só ele autoriza bloqueador de canal de cálcio em dose alta. Anticoagulação é contínua desde a suspeita na forma tromboembólica crônica, com alvo de 2,0 a 3,0, e apenas considerada na idiopática, com alvo de 1,5 a 2,5. No Brasil, esquistossomose hepatoesplênica tem 7,7% de hipertensão pulmonar e cai no grupo 1. E a fisiologia que resume tudo: a coronária direita perfunde a câmara direita no ciclo inteiro, então sustentar a pressão sistêmica é sustentar o músculo que está falindo.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher jovem com hipertensão arterial pulmonar idiopática em terapia oral dupla, internada na terapia intensiva com dispneia em repouso, síncope, edema ascendente e dor em hipocôndrio direito, depois de cinco dias de sintomas urinários. Colha a história procurando o desencadeante e a adesão à terapia específica, examine o pescoço, o precórdio e o fígado com as manobras que separam o lado direito do esquerdo, e conduza as decisões que o caso cobra: o que fazer com o volume, quando entra o vasopressor, o que se acrescenta depois dele e por que a ventilação com pressão positiva é a última escolha. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hipertensão pulmonar e cor pulmonale — Preparatório para provas | OsceLabs