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Clínica MédicaPneumologia

Sarcoidose no adulto: o granuloma sem necrose e a decisão de não tratar

Sarcoidose pulmonar no adulto: o granuloma sem necrose, a avaliação obrigatória ao diagnóstico e a indicação de corticoide

Reconhecer a doença granulomatosa que não é infecciosa, excluir tuberculose sem tratá-la às cegas e saber quem fica sem corticoide

01

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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos com quadro de dispneia e tosse seca há 2 meses, associada a eritema nodoso e artralgias. Exame: PA 118x74 mmHg, FC 84 bpm, FR 18 ipm, SatO2 96%. Radiografia de tórax evidencia linfonodomegalia hilar bilateral simétrica com infiltrado reticular difuso. A dosagem de enzima conversora de angiotensina está elevada. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

O recorte é a sarcoidose do adulto e a decisão que ela impõe a quem recebe um granuloma no laudo: reconhecer uma doença granulomatosa que não é infecciosa, num país em que a primeira hipótese diante de granuloma é tuberculose. O eixo do capítulo não é o diagnóstico da sarcoidose pelo especialista — é o intervalo entre a imagem sugestiva e o tratamento: o que precisa ser excluído, o que se pede uma única vez, quem espera e quem recebe corticoide.

Fica de fora, com endereço: a fibrose pulmonar idiopática, o padrão usual na tomografia e os antifibróticos, que estão no capítulo de doenças pulmonares intersticiais desta mesma apostila; o nódulo pulmonar solitário e a massa de mediastino, com suas vias de biópsia, que pertencem à cirurgia torácica; e o esquema, os prazos e os critérios de falência da tuberculose, que estão no capítulo de tuberculose pulmonar. A silicose e a beriliose entram aqui apenas como causas conhecidas de inflamação granulomatosa que precisam cair antes de o nome ser escrito.

O tema rende porque combina duas coisas raras na mesma doença: um achado de imagem que aparece muito e decide pouco — a adenomegalia hilar bilateral — e um nome que quase sempre vem depois de uma exclusão. Quem estuda pela imagem erra; quem estuda pela sequência de exclusões acerta.

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O que muda decisão

O granuloma que não necrosa, e por que isso ainda não fecha nada

A sarcoidose é uma doença sistêmica definida pela presença, no exame anatomopatológico, de granulomas de células epitelioides não caseosos. A definição é curta e a frase seguinte da diretriz brasileira é a que importa: o diagnóstico só pode ser estabelecido após a exclusão de causas conhecidas de inflamação granulomatosa. Não existe achado patognomônico. O granuloma sem necrose é condição necessária e insuficiente, e é exatamente esse desnível que o tema explora.

O granuloma sarcoide é compacto, bem formado, de aparência uniforme e sem necrose caseosa. Ocasionalmente exibe necrose ou degeneração fibrinoide central de intensidade mínima a moderada — o que já desfaz a ideia de que ausência absoluta de necrose seja regra.

Onde os granulomas se distribuem explica o resto do texto. Eles se alojam junto ao tecido linfático: perivascular, peribrônquico e peribronquiolar, subpleural e nos septos interlobulares. Essa distribuição perilinfática faz os nódulos nessas localizações serem altamente sugestivos na tomografia de alta resolução, e é também o que faz a biópsia transbrônquica render tanto — a agulha entra por onde a doença mora.

O ponto que muda a conduta no Brasil está escrito na norma federal, não no texto da sociedade. O Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose registra que a identificação histológica de granuloma com necrose de caseificação é compatível com tuberculose, e que a de um granuloma sem necrose deve ser interpretada com cuidado e à luz dos achados clínicos, porque outras doenças granulomatosas, como a sarcoidose e a silicose, podem ter essa apresentação. Em outro trecho o mesmo manual escreve que, na sarcoidose, não há necrose nos granulomas, e que costumam aparecer linfonodomegalias hilares e comprometimento de pele, olhos e articulações.

Repare no que a norma faz e no que ela não faz. Ela nomeia a sarcoidose e descreve o achado que separa as duas doenças. Depois disso, ela para: não diz para onde encaminhar, não diz o que pedir, não fixa prazo de observação e não escreve regra de conduta para o médico que está com esse laudo na mão. Em trezentas e sessenta e seis páginas, a palavra sarcoidose aparece cinco vezes, sempre como item de lista de diferenciais. A decisão que sobra é inteiramente clínica.

Esquema de um segmento pulmonar com agregados celulares arredondados dispostos ao longo do brônquio e da artéria, junto ao septo interlobular e sob a pleura, sem ocupar o interior dos alvéolos.
Os agregados se alojam junto ao tecido linfático: em torno de brônquios e vasos, nos septos interlobulares e sob a pleura. É por morar aí que a lesão fica ao alcance da agulha que entra pelo brônquio.

Mais de nove em cada dez têm tórax, e um em cada três tem outro órgão

O envolvimento pulmonar e dos linfonodos intratorácicos ocorre em mais de nove em cada dez casos. É por isso que a doença é assunto de pneumologia mesmo sendo sistêmica, e é por isso que a radiografia de tórax entra tão cedo. Achados radiológicos na ausência de sintomas aparecem em cerca de um terço a três quintos dos casos — ou seja, uma fração grande dos pacientes é descoberta por um exame pedido para outra coisa.

Quando há sintomas, eles são pulmonares e pouco específicos: desconforto torácico, tosse, sibilos e dispneia. Escarro hemático, estertores em velcro e baqueteamento digital são raros — e essa raridade é útil, porque são justamente os achados da fibrose pulmonar idiopática. Febre, sudorese noturna, astenia e perda de peso ocorrem em cerca de dois quintos dos pacientes, e é aqui que a sobreposição incomoda: são os mesmos quatro sintomas que o manual federal chama de assinatura da tuberculose.

Mais de um terço dos pacientes tem envolvimento fora do pulmão, e qualquer órgão pode ser afetado. A pele é atingida em cerca de um décimo a um quarto dos casos. O eritema nodoso é a lesão cutânea mais comum, mas o exame anatomopatológico dele não mostra granulomas: é lesão inespecífica. As lesões específicas são máculas, pápulas, placas, nódulos subcutâneos, alopécia, lúpus pérnio e infiltração de cicatrizes e tatuagens — e o lúpus pérnio é altamente característico.

Os olhos são acometidos em cerca de um décimo a um quinto dos pacientes, e a lesão mais comum é a uveíte anterior, que pode preceder em vários anos qualquer outro achado — por isso a diretriz manda avaliar todo paciente recém-diagnosticado por oftalmologista experiente, tenha ou não queixa ocular. O fígado é o exemplo oposto: granulomas aparecem na biópsia hepática em até quatro quintos dos casos, quase sempre sem sintoma, com a fosfatase alcalina como alteração mais frequente.

O coração é o órgão que muda o prognóstico. As manifestações vêm de arritmia ou de disfunção ventricular esquerda; o eletrocardiograma pode mostrar bloqueio atrioventricular e bloqueio de ramo, sobretudo do direito. A sarcoidose cardíaca e a neurológica têm mortalidade da ordem de um décimo a um sexto e indicam doença crônica com necessidade de tratamento contínuo. A mortalidade geral da doença fica entre um e cinco por cento, e as mortes são respiratórias, cardíacas ou do sistema nervoso central.

Cinco degraus num raio-X simples, e a chance de a doença ir embora sozinha

O estadiamento de Scadding tem cinco degraus e uma característica que a maioria esquece: ele se define na radiografia simples de tórax, não na tomografia. Do zero ao quatro, a escada vai de radiografia normal com doença em dois outros órgãos até fibrose do parênquima, passando por adenomegalia isolada, adenomegalia com parênquima e parênquima sem adenomegalia.

O que faz o estadiamento valer a pena não é descrever a imagem — é prever a remissão espontânea. No estádio I, a chance de a doença regredir sozinha vai de pouco mais da metade a nove em cada dez pacientes. No II, cai para algo entre dois quintos e sete décimos. No III, para entre um décimo e três décimos. No IV, praticamente desaparece, restando apenas melhora parcial. A remissão espontânea ocorre em até metade dos pacientes e costuma acontecer nos primeiros seis meses.

Daí sai a regra que organiza o tema inteiro: o estádio não mede gravidade, mede chance de remissão. Confundir os dois é o erro que produz tratamento desnecessário, e o descolamento entre imagem e função demonstra por quê. Alterações funcionais são mais frequentes nos estádios II, III e IV, mas ocorrem em até um quinto dos casos sem nenhum infiltrado radiográfico; na direção contrária, entre três e cinco décimos dos casos com extensas alterações do parênquima têm função normal.

A espirometria também não é o que o nome da família de doenças sugere: pode ser normal ou mostrar qualquer distúrbio ventilatório. O envolvimento e a distorção das vias aéreas produzem obstrução ao fluxo com frequência, e as séries publicadas variam tanto que o distúrbio restritivo aparece de quase nada a quase tudo, e o obstrutivo, de menos de um vigésimo a dois terços. Chamar a sarcoidose de doença restritiva e parar aí é erro de leitura.

Para acompanhar, a diretriz aponta a capacidade vital forçada como o melhor índice de evolução, acima da difusão e dos demais parâmetros de troca gasosa. E acrescenta uma observação fina: mudanças na extensão das lesões na radiografia simples são mais expressivas que mudanças de estádio, e se associam mais à variação da função. Quando a extensão radiográfica e a função discordam, é a difusão que ganha peso.

Onde a agulha entra, e o que ela rende em cada degrau

A biópsia transbrônquica é o principal método diagnóstico da sarcoidose pulmonar e está indicada em todos os estádios. O rendimento depende de três coisas: estádio radiográfico, técnica e número de fragmentos. A diretriz é explícita quanto ao terceiro — a acurácia é maior quando se retiram pelo menos quatro fragmentos. É um número operacional, que a equipe controla, e entra na conversa com o broncoscopista antes do exame.

O rendimento por estádio surpreende quem espera uma escada. No estádio I, com a doença nos linfonodos e não no parênquima, a biópsia transbrônquica pode ultrapassar metade dos casos. Nos estádios II e III, com lesão parenquimatosa, passa de quatro quintos. No estádio IV, com fibrose estabelecida, cai para cerca de três quintos. O melhor rendimento está no meio da escada, não no topo nem na base.

Biópsias endobrônquicas aumentam esse rendimento, especialmente quando há tosse persistente ou mucosa brônquica alterada — dois sinais de cabeceira que mudam o pedido feito ao broncoscopista. E a punção aspirativa de linfonodo guiada por ultrassom, endobrônquico ou endoscópico transesofágico, é a alternativa menos invasiva à mediastinoscopia justamente nos estádios em que há adenomegalia.

O tamanho dessa diferença está medido. Num estudo prospectivo citado pela diretriz, a taxa diagnóstica da punção de linfonodo guiada por ultrassom endobrônquico nos estádios I e II foi de quase a totalidade e de quase nove décimos, contra pouco menos de um terço e metade para a biópsia transbrônquica nos mesmos estádios. É uma inversão completa da ordem: onde a transbrônquica rende menos, a punção guiada rende mais. O limite é de disponibilidade, não de indicação.

A biópsia pulmonar cirúrgica fica reservada a casos selecionados, quando as outras possibilidades se esgotaram e não há sítio extrapulmonar de acesso mais fácil. A diretriz escreve o inverso com mais peso: a cirúrgica não deve ser realizada quando o quadro clínico e radiológico é típico, quando o lavado ou a transbrônquica já fecharam o diagnóstico, ou quando há doença fibrosante estável com repercussão mínima. Pulmão terminal, disfunção acentuada e alto risco cardiovascular são contraindicações.

As portas que dispensam o tecido, e por que elas são poucas

O diagnóstico se estabelece pela associação de três critérios: quadro clínico e radiográfico compatível; granulomas não caseosos no estudo histológico; e exclusão de doenças que produzam achados semelhantes — tuberculose, micoses, beriliose, pneumonite de hipersensibilidade e reações granulomatosas locais. O terceiro é o que mais trabalho dá, e o único que o médico brasileiro não pode abreviar.

Há situações em que o diagnóstico é aceito sem confirmação tecidual, e a diretriz as lista. A primeira é a síndrome de Löfgren: adenopatia hilar bilateral, eritema nodoso, artralgia e febre. A segunda é a síndrome de Heerfordt: uveíte, paralisia facial e aumento das glândulas parótidas. A terceira são achados típicos na radiografia ou na tomografia somados a um lavado broncoalveolar com razão entre os dois principais subtipos de linfócito T acima de três e meio. A quarta é o mapeamento com gálio mostrando os padrões descritos como panda, com captação anormal em glândulas lacrimais e parótidas, e lambda, com captação em gânglios mediastinais.

A razão dos linfócitos do lavado merece o número por extenso, porque é assimétrica: acima de três e meio, ela tem sensibilidade em torno de pouco mais da metade e especificidade acima de nove décimos. Serve para confirmar, não para excluir. E o lavado, na sarcoidose, mostra predominância de linfócitos — o mesmo achado da pneumonite de hipersensibilidade, em que a razão costuma estar reduzida. É a direção da razão, não a linfocitose, que separa as duas.

Como a sarcoidose é sistêmica, o diagnóstico fica mais seguro quando há sinais de envolvimento granulomatoso em pelo menos dois órgãos — e a confirmação histológica não é usualmente exigida no segundo. Quando o envolvimento é pulmonar isolado, a combinação de adenomegalia, nódulos parenquimatosos de distribuição linfática e infiltrado nos lobos superiores reforça o diagnóstico.

A enzima conversora da angiotensina é o marcador mais disponível no Brasil e o mais mal usado. Está elevada em cerca de quatro quintos dos casos de doença aguda e em apenas um quinto dos crônicos; valores de três vezes o limite superior são muito sugestivos; a especificidade fica em torno de nove décimos e a sensibilidade, entre três e quatro quintos. Na beira do leito: valor alto ajuda, valor normal não exclui nada.

A lista que se pede uma vez, no dia em que o nome é escrito

Diferente de quase tudo em pneumologia, a sarcoidose tem um protocolo de avaliação inicial fechado, para ser pedido uma única vez, logo depois que o diagnóstico é firmado. Ele não é um cardápio de exames possíveis: é a lista do que se pede em todo paciente, porque a doença é sistêmica e porque vários órgãos são atingidos em silêncio.

A lista começa fora do laboratório: história com exposição ocupacional e ambiental e exame físico detalhado. Exposição não é pergunta protocolar aqui — profissionais de saúde, professores, bombeiros e agricultores aparecem entre as ocupações associadas, e mofo, pássaros, inseticidas e metais entre as exposições. A mesma pergunta exclui beriliose e pneumonite de hipersensibilidade.

Vêm em seguida a radiografia simples e a tomografia de alta resolução do tórax, e a função pulmonar completa: espirometria, medida da capacidade de difusão e avaliação da troca gasosa após o exercício. Note que a difusão e o exercício são parte do pedido inicial, não exames de segunda linha — é a extensão do estudo funcional que dá a linha de base contra a qual a evolução vai ser julgada depois.

No sangue e na urina, a lista pede hemograma completo; bioquímica com cálcio sérico, enzimas hepáticas, ureia e creatinina; urina de rotina; urina de vinte e quatro horas para calciúria; e imunoeletroforese de proteínas. A calciúria de vinte e quatro horas é o item mais esquecido da lista e o mais específico da doença: a hipercalciúria é mais comum que a hipercalcemia, e é dela que vêm a nefrocalcinose e a nefrolitíase.

Fecham a lista a avaliação cardíaca — eletrocardiograma, Holter e ecocardiograma, os três como rotina —, o exame oftalmológico e o teste tuberculínico. O paciente com palpitação, síncope, dor torácica ou sinais de insuficiência cardíaca vai além disso, com ressonância ou tomografia por emissão de pósitrons, em que o padrão de realce pelo gadolínio ajuda a separar a sarcoidose cardíaca da fibrose isquêmica. E é o último item da lista — o teste tuberculínico — que abre o problema brasileiro do capítulo.

O cálcio vem do próprio granuloma, e é por isso que a vitamina D não entra

O distúrbio do cálcio da sarcoidose não vem da paratireoide nem do osso: vem do granuloma. Macrófagos alveolares ativados e os próprios granulomas produzem calcitriol fora do controle habitual. O resultado é hipercalcemia em cerca de um vigésimo dos pacientes e hipercalciúria em cerca de um décimo — a segunda é o dobro da primeira.

A consequência renal segue direto dessa aritmética. A insuficiência renal da sarcoidose decorre em geral das alterações do metabolismo do cálcio, com nefrocalcinose ou nefrolitíase; a nefrite granulomatosa existe, mas é apresentação rara. Quem pede só o cálcio sérico e o vê normal não exclui o problema — a calciúria de vinte e quatro horas é o exame que enxerga a metade escondida, e por isso ela está na lista inicial.

Daí sai uma das poucas contraindicações práticas do tema, e ela é contraintuitiva. O paciente com sarcoidose tem massa óssea menor, e o corticoide sistêmico agrava essa perda — a reação automática seria repor cálcio e vitamina D. A diretriz avisa que essa reposição é complicada pelos níveis elevados de vitamina D endógena e pode resultar em hipercalcemia ou hipercalciúria. O gesto que protege o osso pode precipitar a pedra e a lesão renal.

A prevenção óssea exige duas leituras. A diretriz brasileira de 2012 propõe bifosfonato quando o corticoide sistêmico ultrapassa três meses e desaconselha suplementação automática de cálcio e vitamina D por causa da produção extrarrenal de calcitriol. Recomendações mais recentes para osteoporose induzida por glicocorticoide individualizam o antirreabsortivo conforme risco de fratura, densitometria, idade, dose e duração previstas. Em prova, observe qual régua foi nomeada; na prática, calcule o risco e monitore cálcio sérico e urinário antes de suplementar.

Neste paciente, hipercalcemia e possível comprometimento renal tornam inadequada a reposição empírica de cálcio ou vitamina D. Deve-se medir calciúria de 24 horas, 25-hidroxivitamina D e, quando necessário, 1,25-di-hidroxivitamina D; orientar hidratação e evitar excesso de sol e suplementos. Se o risco de fratura justificar antirreabsortivo, a função renal e as contraindicações do fármaco precisam ser avaliadas.

O mesmo teste, dois leitores: o tuberculínico do pneumologista e o do programa

O teste tuberculínico está na lista de avaliação inicial da sarcoidose porque a exclusão da tuberculose é um dos três critérios diagnósticos. Mas o mesmo teste tem um leitor oficial no Brasil, e ele lê outra coisa. O Manual federal escreve que se considera positivo o resultado igual ou maior que cinco milímetros, e negativo o menor que cinco — e que uma reação positiva não confirma tuberculose ativa, assim como uma negativa não a exclui.

A frase seguinte do manual resolve o mal-entendido: a prova tuberculínica reativa, isoladamente, indica apenas infecção, não doença. Num país em que uma fatia grande da população adulta tem infecção latente, um teste reativo no paciente com adenomegalia hilar bilateral não é evidência a favor de tuberculose ativa — é ruído de fundo. Quem trata a tuberculose por causa desse resultado está tratando a prevalência, não o paciente.

Há um segundo dispositivo da norma que fecha a armadilha. O próprio manual reconhece a categoria da tuberculose pulmonar sem confirmação bacteriológica, definida por critério clínico, e a trata como caso para todos os efeitos. A categoria existe por uma boa razão de saúde pública: o país não pode esperar cultura para tratar quem tem tuberculose. Mas ela também é a porta pela qual o paciente com sarcoidose entra em seis meses de rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol.

O tamanho desse desvio está medido em duas coortes brasileiras do mesmo serviço, separadas por nove anos. Na primeira, com cem pacientes, o diagnóstico foi tardio na maioria; entre os tardios, um quarto havia recebido diagnóstico de tuberculose e um quinto havia sido tratado por três meses ou mais, contra nenhum do grupo precoce. Na segunda, o tratamento para tuberculose foi prescrito a quarenta e quatro dos duzentos pacientes antes do diagnóstico de sarcoidose — e a seção de métodos registra que nenhum diagnóstico bacteriológico foi confirmado na coorte.

A consequência não é apenas de tempo perdido: no primeiro estudo, os pacientes de diagnóstico tardio chegaram com capacidade vital e volume expiratório no primeiro segundo significativamente menores que os de diagnóstico precoce. E o que a diretriz manda fazer no caso duvidoso é o oposto: diante de adenomegalia intratorácica isolada em região de alta prevalência de tuberculose, o paciente deve ser acompanhado de perto, sem tratamento, e a amostra é retirada pelo método menos invasivo se houver sintomas ou deterioração.

Quem não se trata, e por que esperar é conduta e não omissão

A frase que organiza o tratamento está escrita sem rodeio: a terapia não é indicada em todos os casos. Em cerca de dois terços dos pacientes a evolução é boa; o terço restante precisa de tratamento crônico. Distinguir os dois grupos na avaliação inicial é difícil, e é essa dificuldade que torna a observação conduta legítima, não desculpa.

Duas regras negativas fazem o trabalho pesado. A primeira: pacientes assintomáticos com sarcoidose em estádio I, com ou sem eritema nodoso, e testes de função pulmonar normais não devem ser tratados. A segunda, mais ampla: devido aos efeitos adversos, o uso rotineiro de corticoide sistêmico em pacientes minimamente sintomáticos ou assintomáticos deve ser desencorajado. Some a isso a chance de remissão espontânea do estádio I, que chega a nove em cada dez, e a espera deixa de ser tímida.

Há ainda um argumento farmacológico que o texto registra antes de qualquer prescrição: a doença tem altas taxas de remissão espontânea, o corticoide tem o potencial de induzir recaídas e o uso prolongado leva a efeitos colaterais sérios. Tratar cedo não é neutro — pode trocar uma doença que ia embora por uma que volta quando o remédio sai.

As indicações positivas, quando aparecem, são específicas e não admitem espera: dispneia com limitação de atividades; lesões desfigurantes de pele; sintomas sistêmicos que prejudicam a qualidade de vida; doença parenquimatosa com disfunção relevante; alteração radiográfica importante, sobretudo se progressiva; piora funcional documentada; sarcoidose cardíaca; sarcoidose do sistema nervoso central; doença ocular não controlada com tratamento tópico; hipercalcemia acentuada; hipercalciúria persistente, especialmente com nefrocalcinose e disfunção renal; nefrite intersticial granulomatosa; envolvimento hepático grave; e envolvimento de medula óssea com pancitopenia.

Reduza a lista à sua lógica e ela cabe numa frase: trata-se órgão vital ameaçado, função caída, sintoma que incapacita — nunca uma imagem. O envolvimento ocular não responsivo ao tratamento tópico, a doença neurológica, a miocárdica e a hipercalcemia são as situações em que o texto diz que o tratamento não deve ser postergado. Fora delas, observar antes de tratar deve ser considerado, e o bom prognóstico tem marcadores próprios: doença com menos de dois anos, adenopatia hilar isolada, paralisia isolada do sétimo par, edema periarticular e ausência de sintomas.

Quando o corticoide entra, ele fica um ano — e não entra sozinho

Os corticoides são as drogas de escolha, e prednisona e prednisolona são as mais usadas. Não existem estudos de dose e resposta na sarcoidose, o que explica por que a recomendação é uma faixa e não um número. A dose inicial sugerida fica entre vinte e quarenta miligramas por dia, diariamente ou em dias alternados, por um período de um a três meses, com reavaliação obrigatória ao fim desse período.

Nos respondedores, a redução é gradual até uma dose de manutenção entre cinco e dez miligramas por dia, e o tratamento se mantém por no mínimo doze meses; em alguns pacientes vale continuar por dois anos para prevenir recaída. Doses altas, da ordem de um miligrama por quilograma ao dia, ficam tradicionalmente reservadas aos casos com risco de vida ou de perda de função vital — sarcoidose cardíaca, neurológica ou ocular grave. O esquema em dias alternados é tão efetivo quanto o diário.

A ausência de melhora após três meses é um marco de decisão, e a diretriz lista as cinco leituras possíveis dele: doença já em fase fibrótica irreversível, aderência ruim, dosagem inadequada, resistência ao tratamento — ou outro diagnóstico. A quinta hipótese é a que reabre o capítulo inteiro, porque o paciente que não melhora com corticoide pode ser o paciente cuja doença granulomatosa nunca foi sarcoidose.

A recaída é a regra da retirada, não a exceção. A maioria ocorre até seis meses depois da interrupção, mas um quinto delas acontece depois de um ano — o que obriga a manter seguimento além do prazo confortável. Entre os que precisam da medicação por cinco anos ou mais, dois terços recaem quando o tratamento sai, e em um terço dos casos a recaída aparece num sítio diferente do inicial.

Duas coisas entram junto com o corticoide. A primeira é o bifosfonato, no lugar da suplementação de cálcio e vitamina D. A segunda é a alternativa para quando a manutenção necessária ultrapassa dez miligramas por dia ou surgem efeitos colaterais importantes: metotrexato é o fármaco mais usado nessa situação, com azatioprina, leflunomida, micofenolato, ciclofosfamida, inibidores do fator de necrose tumoral alfa, talidomida e antimaláricos na segunda linha. Cerca de um terço dos pacientes precisa de tratamento por mais de dois anos.

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Do granuloma sem necrose à decisão de tratar ou observar

A sequência tem cinco degraus e o primeiro não é pedir tomografia. Primeiro se confirma que o granuloma não tem necrose de caseificação; depois se exclui, uma a uma, as causas conhecidas de inflamação granulomatosa; depois se estadia na radiografia simples, porque é ela que prevê remissão; depois se pede a lista única de avaliação sistêmica; e só então se decide entre observar e tratar. Os cards trazem os pontos em que a decisão vira; o fluxo, a ordem; e as tabelas, os dois números que a sequência consome — o rendimento da biópsia por estádio e a chance de remissão espontânea por estádio.

  1. 1Leia a necrose antes de ler o resto do laudo. Granuloma com necrose de caseificação é compatível com tuberculose; sem necrose, o Manual federal manda interpretar com cuidado, porque sarcoidose e silicose entram. Nenhuma das duas leituras encerra o caso.
  2. 2Exclua, nominalmente, as causas conhecidas de inflamação granulomatosa: tuberculose, micoses, beriliose, pneumonite de hipersensibilidade, reações granulomatosas locais. A anamnese ocupacional e ambiental é parte dessa exclusão, não um adorno da história.
  3. 3Estadie na radiografia simples, não na tomografia — o estadiamento de Scadding foi definido nela. Estádio 0: radiografia normal com doença em dois outros órgãos. I: adenomegalia hilar ou mediastinal. II: adenomegalia mais parênquima. III: parênquima sem adenomegalia. IV: fibrose.
  4. 4Peça a avaliação inicial completa uma única vez: radiografia e tomografia de alta resolução; espirometria, difusão e troca gasosa após exercício; hemograma; cálcio sérico, enzimas hepáticas, ureia e creatinina; urina de rotina; calciúria de 24 horas; imunoeletroforese de proteínas; eletrocardiograma, Holter de 24 horas e ecocardiograma; exame oftalmológico; teste tuberculínico.
  5. 5Decida pela função e pelo órgão, nunca pela imagem. Estádio I assintomático com função normal não se trata. Corticoide de rotina no mínimo sintomático é desencorajado. Trate dispneia limitante, disfunção parenquimatosa relevante, piora funcional, coração, sistema nervoso central, olho não controlado com tópico, hipercalcemia acentuada, rim, fígado grave, medula com pancitopenia e lesão de pele desfigurante.

Necrose separa, mas não fecha

Granuloma COM necrose de caseificação é compatível com tuberculose; granuloma SEM necrose obriga a interpretar à luz do quadro clínico, porque sarcoidose e silicose têm essa mesma histologia. A ausência de necrose não é diagnóstico — é o começo da exclusão.

O estádio prevê remissão, não gravidade

Estádio I remite espontaneamente em 55 a 90% dos casos; II em 40 a 70%; III em 10 a 30%; IV em 0 a 5%, com melhora apenas parcial. Metade dos pacientes remite, em geral nos primeiros seis meses. Estádio alto não autoriza tratar; função caída e órgão vital ameaçado autorizam.

A agulha rende mais no meio da escada

Biópsia transbrônquica com pelo menos quatro fragmentos: acima de 50% no estádio I, acima de 80% nos estádios II e III, cerca de 60% no IV. Onde há adenomegalia e pouco parênquima, a punção guiada por ultrassom endobrônquico inverte a ordem: 97% e 88% nos estádios I e II, contra 31% e 50% da transbrônquica.

O tuberculínico não decide aqui

O corte federal é 5 mm, e o próprio Manual escreve que reação positiva indica infecção, não doença. Num país de alta prevalência de infecção latente, teste reativo em paciente com adenomegalia hilar bilateral não move a probabilidade de tuberculose ativa. O que move é bacteriologia — e ela precisa ser buscada.

O cálcio é feito pelo granuloma

Macrófagos e granulomas produzem calcitriol: hipercalcemia em 5% e hipercalciúria em 10%. Por isso a urina de 24 horas entra na avaliação inicial e por isso não se repõe cálcio e vitamina D em quem vai usar corticoide — o bifosfonato substitui a suplementação em todo tratamento sistêmico com mais de três meses.

Estádio de Scadding: o que a radiografia mostra e o que ela prevê

EstádioRadiografia simples de tóraxRemissão espontânea
0Exame normal, com doença evidenciada em pelo menos dois outros órgãos extrapulmonaresDepende dos órgãos envolvidos
IAdenomegalia hilar/mediastinal55 a 90%
IIAdenomegalia hilar/mediastinal e lesões no parênquima40 a 70%
IIILesões no parênquima, sem adenomegalia e sem fibrose10 a 30%
IVSinais de fibrose no parênquima0 a 5%, com melhora parcial

Onde a amostra vem de cada estádio

MétodoEstádio IEstádios II e IIIEstádio IV
Biópsia transbrônquica (mínimo 4 fragmentos)Acima de 50%Acima de 80%Cerca de 60%
Punção de linfonodo guiada por ultrassom endobrônquico97%88% no estádio IINão é o método
Biópsia cirúrgicaSó se tudo mais falhouSó se tudo mais falhouContraindicada na fibrosante estável

Os percentuais de remissão espontânea e a definição dos estádios saem da Tabela 1 das Diretrizes de Doenças Pulmonares Intersticiais da SBPT, J Bras Pneumol. 2012;38(supl.2), capítulo 13, adaptada de Scadding. A tabela é explícita quanto ao suporte: radiografia simples de tórax.

Os rendimentos da biópsia transbrônquica por estádio e a comparação com a punção guiada por ultrassom endobrônquico (97% e 88% contra 31% e 50% nos estádios I e II) estão no mesmo capítulo 13, seção de diagnóstico, referenciados a estudo prospectivo citado pela diretriz.

A lista de avaliação inicial é o Quadro 1 do capítulo 13, adaptado de declaração internacional sobre sarcoidose; as indicações de tratamento são o Quadro 2, adaptado de Baughman e colaboradores. O corte de 5 mm do teste tuberculínico e a frase de que reação positiva indica infecção, não doença, são do Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2ª edição atualizada, 2019.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O estadiamento de Scadding foi definido na radiografia simples, e a coorte brasileira o aplicou à tomografia

O estádio se lê na radiografia simples

As Diretrizes de Doenças Pulmonares Intersticiais da SBPT, de 2012, escrevem que o estadiamento radiográfico definido por Scadding baseia-se nas alterações observadas na radiografia simples de tórax, e é sobre esse suporte que a Tabela 1 associa cada estádio à chance de remissão espontânea.

Diretrizes de Doenças Pulmonares Intersticiais da SBPT. J Bras Pneumol. 2012;38(supl.2):S1-S133, capítulo 13, seção Envolvimento pulmonar e Tabela 1.

A coorte estadiou pela tomografia

A coorte brasileira de 200 pacientes publicada em 2022 no mesmo periódico registra, na seção de métodos, que as imagens torácicas foram classificadas segundo o sistema Scadding de estadiamento com base nos achados da tomografia computadorizada. Os percentuais de estádio dessa coorte, portanto, não são comparáveis, item a item, com os da tabela de 2012.

Castro MDC, Pereira CAC, Soares MR. J Bras Pneumol. 2022;48(1):e20210366, seção Métodos.

Na prova

O enunciado brasileiro quase sempre entrega a tomografia, porque é o exame que a rede pede — mas o estádio, quando é cobrado, é o de Scadding, e o vocabulário denuncia o suporte: adenomegalia hilar bilateral isolada é estádio I qualquer que seja o método. Se o enunciado der só tomografia e pedir o estádio, responda pelo padrão descrito, sem inventar um estádio tomográfico que não existe. E se o enunciado pedir a chance de remissão espontânea, ela vem da tabela de 2012, que é de radiografia simples: o número não muda de dono porque o exame mudou.

Quanto tempo é diagnóstico tardio: dois estudos do mesmo serviço, duas réguas diferentes

Tardio é seis meses ou mais

O estudo de 2013, com 100 pacientes, dividiu a amostra em diagnóstico precoce (menos de 6 meses até o diagnóstico) e tardio (6 meses ou mais), e encontrou 41 precoces contra 59 tardios — a maioria da amostra ficou do lado tardio por essa régua.

Rodrigues MM, Coletta ENAM, Ferreira RG, Pereira CAC. J Bras Pneumol. 2013;39(5):539-546, seção Métodos e Resultados.

Tardio é mais de doze meses

O estudo de 2022, com 200 pacientes e o mesmo autor sênior, adotou mais de 12 meses como corte de diagnóstico tardio, e encontrou 43% de casos tardios, com mediana de 12 meses de sintomas até o diagnóstico. Com o corte dobrado, a proporção de tardios caiu — o que não significa que o atraso tenha diminuído.

Castro MDC, Pereira CAC, Soares MR. J Bras Pneumol. 2022;48(1):e20210366, seções Métodos e Resultados.

Na prova

Quando o enunciado citar percentual de diagnóstico tardio, veja qual corte ele está usando antes de comparar com qualquer número decorado — a diferença entre 59% e 43% aqui é de régua, não de melhora do país. O dado que atravessa as duas réguas e não depende do corte é outro, e é ele que vale guardar: nos dois estudos, uma fração grande dos pacientes recebeu tratamento para tuberculose antes do diagnóstico de sarcoidose.

A avaliação cardíaca inicial: o texto completo pede três exames, o resumo do mesmo ano pede avaliação cardíaca

Três exames, nominalmente

O Quadro 1 do capítulo de sarcoidose das diretrizes completas escreve, sob o item de avaliação cardíaca, eletrocardiograma, Holter de 24 horas e ecocardiograma; e o corpo do texto reforça que os três devem ser feitos como rotina em todos os pacientes na época do diagnóstico.

Diretrizes de Doenças Pulmonares Intersticiais da SBPT. J Bras Pneumol. 2012;38(supl.2):S1-S133, capítulo 13, Quadro 1 e seção Coração.

Avaliação cardíaca, sem nomear

O resumo oficial das mesmas diretrizes, publicado no mesmo ano e no mesmo periódico, lista entre os procedimentos necessários em todo paciente com diagnóstico recente apenas avaliação oftalmológica e cardíaca, teste de função pulmonar, radiografia de tórax, tomografia de alta resolução, hemograma, bioquímica sérica, avaliação do metabolismo do cálcio, teste tuberculínico e urina de rotina — sem nomear os três exames do coração e sem citar a calciúria de 24 horas.

Baldi BG, Pereira CAC, Rubin AS, et al. J Bras Pneumol. 2012;38(3):282-291, seção Sarcoidose.

Na prova

Duas listas do mesmo grupo, no mesmo ano, com granularidade diferente: quem estudou pelo resumo responde avaliação cardíaca e erra a alternativa que pede Holter de 24 horas. Guarde a lista longa, porque é ela que sustenta as alternativas específicas — e note que os dois itens que somem no resumo, o Holter e a calciúria de 24 horas, são exatamente os dois que procuram doença silenciosa.

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Caso resolvido

Mulher de 44 anos, professora, nunca tabagista, procura a unidade básica por tosse seca há cinco meses, cansaço e dois episódios de nódulos dolorosos e avermelhados nas pernas. Perdeu 3 kg. Nega febre alta com calafrio. Ao exame, ausculta pulmonar sem alterações, sem baqueteamento digital, sem linfonodo periférico palpável. A radiografia de tórax mostra alargamento hilar bilateral e simétrico, sem infiltrado no parênquima. Hemograma normal, cálcio sérico 9,4 mg/dL, creatinina 0,8 mg/dL. Foi encaminhada para broncoscopia; a biópsia transbrônquica mostrou granulomas epitelioides bem formados, sem necrose de caseificação, e a pesquisa de bacilos álcool-ácido resistentes no fragmento foi negativa. Espirometria e capacidade de difusão normais.
Passo 1
Nomeie o achado antes da doença. Granuloma epitelioide bem formado, sem necrose de caseificação, é a histologia da sarcoidose — e também da silicose e de outras granulomatoses. O Manual federal de tuberculose diz exatamente isso: granuloma sem necrose deve ser interpretado à luz do quadro clínico. A ausência de necrose afasta a tuberculose como leitura automática, mas não a exclui: é o começo da exclusão, não o fim.
Passo 2
Complete a exclusão nominalmente. Anamnese ocupacional e ambiental dirigida (professora, sem exposição a berílio, sílica, mofo, aves ou metais), pesquisa de micobactéria no fragmento negativa, e ausência de exposição que sustente pneumonite de hipersensibilidade ou beriliose. Só depois disso o nome sarcoidose pode ser escrito, porque o terceiro critério diagnóstico é a exclusão de causas conhecidas de inflamação granulomatosa.
Passo 3
Reconheça a síndrome. Adenopatia hilar bilateral com eritema nodoso, artralgia e sintomas constitucionais compõem a síndrome de Löfgren — uma das situações em que o diagnóstico pode ser aceito sem confirmação tecidual, e que tem boa evolução em cerca de 80% dos casos. Aqui a biópsia já foi feita e confirma; a síndrome, além do diagnóstico, entrega o prognóstico.
Passo 4
Estadie e peça a lista única. Adenomegalia hilar isolada, sem lesão de parênquima, é estádio I de Scadding, com 55 a 90% de chance de remissão espontânea. Peça, uma vez: tomografia de alta resolução, função pulmonar completa com difusão e troca gasosa após exercício, hemograma, cálcio sérico, enzimas hepáticas, ureia e creatinina, urina de rotina, calciúria de 24 horas, imunoeletroforese de proteínas, eletrocardiograma, Holter de 24 horas, ecocardiograma, exame oftalmológico e teste tuberculínico.
Passo 5
Decida por função e órgão, não por imagem. Estádio I, sem dispneia limitante, com espirometria e difusão normais, sem hipercalcemia, sem envolvimento cardíaco, neurológico ou ocular: não se trata. Conduta é observação clínica e funcional programada, com reavaliação em alguns meses, porque a remissão espontânea costuma ocorrer nos primeiros seis meses. Se o teste tuberculínico vier reativo, isso indica infecção latente e não autoriza tratar tuberculose ativa nem adiar o diagnóstico já firmado.
07

Agora feche você

Homem de 52 anos, pedreiro, é encaminhado de outra unidade com relatório de que iniciou esquema para tuberculose pulmonar há quatro meses, por critério clínico, após radiografia com alargamento hilar bilateral e infiltrado reticulonodular em lobos superiores, tosse seca e emagrecimento. Duas baciloscopias de escarro foram negativas; o teste rápido molecular não foi realizado; a prova tuberculínica veio com 12 mm. Não houve melhora clínica nem radiológica no quarto mês. Traz agora laudo de biópsia transbrônquica feita antes do encaminhamento, com granulomas epitelioides sem necrose de caseificação e pesquisa negativa para bacilos. Refere visão borrada no olho direito há três semanas. Cálcio sérico 11,2 mg/dL, creatinina 1,4 mg/dL.
Passo 1
Liste, um a um, os elementos deste caso que sustentavam o diagnóstico de tuberculose e diga qual deles, isoladamente, é suficiente. Depois releia o que o Manual federal escreve sobre reação tuberculínica de 12 mm e sobre granuloma sem necrose de caseificação, e diga qual dos dois achados foi usado como prova e não podia ter sido.
Passo 2
Escreva, nas suas palavras, o que a ausência de melhora clínica e radiológica no quarto mês significa neste paciente. Separe as leituras possíveis — aderência, resistência, dose — daquela que o próprio texto de sarcoidose lista em quinto lugar, e explique por que ela é a mais provável aqui.
Passo 3
Estadie o comprometimento torácico pela descrição da radiografia e diga qual é a chance de remissão espontânea desse estádio. Em seguida, explique por que esse número, sozinho, não decide a conduta deste paciente — e nomeie os dois achados extratorácicos do caso que mudam a decisão.
Passo 4
Interprete o cálcio de 11,2 mg/dL com a creatinina de 1,4 mg/dL. Diga de onde vem o cálcio alto na sarcoidose, qual exame da avaliação inicial mediria a metade escondida desse distúrbio, e por que a reposição de cálcio e vitamina D estaria contraindicada neste paciente mesmo que ele vá receber corticoide.
Passo 5
Monte a conduta completa: o que fazer com o esquema antituberculose em curso, quais indicações de tratamento sistêmico este paciente preenche entre as do Quadro 2, qual a dose inicial e por quanto tempo, quando reavaliar, o que precisa entrar junto com o corticoide por causa do osso, e qual encaminhamento não pode esperar.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar com corticoide o estádio I assintomático de função normal É o erro mais caro do tema porque parece diligência. A diretriz escreve que pacientes assintomáticos em estádio I, com ou sem eritema nodoso e com função pulmonar normal, não devem ser tratados; e que o uso rotineiro de corticoide sistêmico no paciente mínimo ou assintomático deve ser desencorajado. Some a isso a chance de 55 a 90% de remissão espontânea nesse estádio e o corticoide vira risco puro, sem benefício esperado.
  2. 2Tratar tuberculose por causa do granuloma sem necrose, sem bacteriologia O Manual federal permite o diagnóstico de tuberculose pulmonar por critério clínico, sem confirmação bacteriológica — e essa porta, legítima em saúde pública, é a que desvia o paciente com sarcoidose. Nas duas coortes brasileiras, 20% do grupo de diagnóstico tardio de 2013 e 44 dos 200 pacientes de 2022 receberam tratamento para tuberculose antes do diagnóstico correto, e a segunda registra que nenhum diagnóstico bacteriológico foi confirmado na coorte.
  3. 3Ler teste tuberculínico reativo como prova de tuberculose ativa O corte federal é 5 mm, e o próprio Manual escreve que a prova tuberculínica reativa, isoladamente, indica apenas infecção e não é suficiente para o diagnóstico de tuberculose doença. O teste está na avaliação inicial da sarcoidose por causa do critério de exclusão, não como confirmação. Reação positiva num paciente com adenomegalia hilar bilateral e granuloma sem necrose não fecha nada.
  4. 4Repor cálcio e vitamina D para proteger o osso de quem vai usar corticoide Na sarcoidose o calcitriol é produzido pelos próprios macrófagos e granulomas, e a suplementação pode precipitar hipercalcemia ou hipercalciúria. A recomendação escrita é outra: bifosfonato para todos os pacientes tratados com corticoide sistêmico por mais de três meses, independentemente do resultado da densitometria inicial, com reavaliação anual da perda óssea.
  5. 5Confundir estádio radiográfico com gravidade da doença O estádio prevê remissão, não função. Até 20% dos pacientes sem qualquer infiltrado radiográfico têm função pulmonar alterada, e de 30 a 50% dos casos com extensas alterações do parênquima têm função normal. Quem trata pelo estádio trata imagem; a decisão de tratar depende de sintoma, de função e de órgão vital ameaçado.
  6. 6Chamar eritema nodoso de lesão específica da sarcoidose O eritema nodoso é a lesão cutânea mais comum na doença, mas seu exame anatomopatológico não revela granulomas — é lesão inespecífica. Biopsiar eritema nodoso para diagnosticar sarcoidose é procedimento perdido. As lesões que mostram granuloma são outras: máculas, pápulas, placas, nódulos subcutâneos, lúpus pérnio e infiltração em cicatriz ou tatuagem.
  7. 7Dispensar o exame oftalmológico porque o paciente não tem queixa ocular A uveíte anterior é a lesão ocular mais comum e pode preceder em vários anos qualquer outro achado da doença. Por isso a diretriz manda que todo paciente com diagnóstico recente seja avaliado por oftalmologista experiente, independentemente de sintoma. Doença ocular não controlada com tratamento tópico é, além disso, uma das indicações de corticoide sistêmico que não admitem espera.
  8. 8Encerrar o corticoide em três meses porque o paciente melhorou A reavaliação de 1 a 3 meses serve para decidir se houve resposta, não para suspender. Nos respondedores a dose é reduzida gradualmente até 5 a 10 mg/dia e o tratamento se mantém por no mínimo 12 meses. A maioria das recaídas ocorre até 6 meses depois da interrupção, 20% delas depois de um ano, e em um terço dos casos a recaída aparece em um sítio diferente do inicial.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade de linfonodomegalia hilar bilateral simétrica, eritema nodoso e artralgias (síndrome de Löfgren), com ECA elevada em mulher jovem, é altamente sugestiva de sarcoidose. Tuberculose ganglionar tende a linfonodomegalia assimétrica, muitas vezes com necrose, e sintomas consumptivos. Linfoma de Hodgkin cursa com massa mediastinal, sintomas B e linfonodos frequentemente assimétricos. Silicose exige exposição ocupacional e mostra nódulos com calcificação em casca de ovo. Histoplasmose disseminada ocorre mais em imunossuprimidos, com quadro sistêmico grave.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Granuloma sem necrose de caseificação é sarcoidose só depois da exclusão: tuberculose, micoses, beriliose, pneumonite de hipersensibilidade. Estadiamento de Scadding na radiografia simples, e ele prevê remissão espontânea (I: 55 a 90%; II: 40 a 70%; III: 10 a 30%; IV: 0 a 5%), não gravidade. Biópsia transbrônquica com pelo menos 4 fragmentos rende acima de 80% nos estádios II e III. Avaliação inicial única, com calciúria de 24 horas, Holter de 24 horas, ecocardiograma, exame oftalmológico e teste tuberculínico. Estádio I assintomático com função normal não se trata.

em 30 dias

A chave que os documentos não escrevem junto: o Manual federal de tuberculose descreve o granuloma sem necrose e para ali, sem regra de conduta; a diretriz da sociedade escreve a regra — acompanhar de perto, sem tratamento, na adenomegalia intratorácica isolada de região de alta prevalência —, e duas coortes brasileiras do mesmo serviço, separadas por nove anos, medem quantas vezes o país faz o contrário: tratamento para tuberculose em 20% do grupo tardio de 2013 e em 44 de 200 pacientes em 2022, sem nenhuma confirmação bacteriológica na coorte. Quando o corticoide entra, entra por sintoma, função ou órgão vital: 20 a 40 mg/dia por 1 a 3 meses, redução até 5 a 10 mg/dia, mínimo de 12 meses, bifosfonato obrigatório acima de 3 meses de uso e metotrexato quando a manutenção passa de 10 mg/dia.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Adulto encaminhado com tosse seca arrastada, cansaço e uma radiografia com alargamento hilar bilateral, já em uso de esquema para tuberculose iniciado por critério clínico e sem melhora. Colha a história com atenção à exposição ocupacional e ambiental, procure ativamente os sinais fora do pulmão — pele, olho, gânglio periférico, parótida — e conduza a decisão sobre manter ou suspender o esquema em curso, sobre o que pedir na avaliação inicial e sobre tratar ou observar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Sarcoidose pulmonar no adulto – Sarcoidose no adulto: o granuloma sem necrose e a decisão de não tratar — Preparatório para provas | OsceLabs