Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Profilaxia de tromboembolismo venoso

A prova não pergunta se o paciente vai trombosar: entrega um paciente e uma cirurgia e cobra a decisão — mecânica, farmacológica, as duas ou nenhuma, com dose, momento e por quantos dias.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 58 anos, será submetido a colectomia laparotômica eletiva por adenocarcinoma de cólon sigmoide. Antecedentes: hipertensão controlada, sem histórico de sangramento ou trombose. Peso 80 kg, IMC 27 kg/m². Exames pré-operatórios sem alterações da coagulação. A equipe classifica o paciente como de ALTO risco para tromboembolismo venoso (cirurgia oncológica abdominal de grande porte). Além da deambulação precoce, qual é a medida profilática MAIS adequada a ser instituída no perioperatório?

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Como esse tema cai

Este capítulo é sobre prevenir. O tromboembolismo pulmonar que já aconteceu e derrubou a pressão é choque obstrutivo e está tratado no capítulo dos quatro tipos de choque, nesta mesma apostila — lá a pergunta é trombólise; aqui a pergunta é a heparina que não foi prescrita três dias antes.

O eixo é uma decisão só, e ela é sempre a mesma: dado este paciente e esta cirurgia, profilaxia mecânica, farmacológica, as duas ou nenhuma — e por quanto tempo. Tudo o que vem a seguir existe para responder essa frase. O aluno costuma chegar à prova sabendo metade da conta: pesa o risco de trombose, esquece o risco de sangramento, e erra a questão em que o paciente tem plaqueta de 38 mil ou uma úlcera péptica sangrando.

Um aviso que muda a forma de estudar o tema: não existe protocolo federal brasileiro de tromboprofilaxia hospitalar. Os seis Protocolos Básicos de Segurança do Paciente do Ministério da Saúde não incluem TEV, e o único PCDT nacional sobre prevenção de TEV é o de gestantes com trombofilia. Quem padroniza no Brasil é sociedade de especialidade — o consenso da SBACV-sp de 2019 para o risco e as doses, a diretriz da Sociedade Brasileira de Anestesiologia de 2020 para o neuroeixo, e a diretriz perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024 para quem já é anticoagulado. É desses três documentos que saem quase todos os números deste capítulo.

A prova cobra o tema em cinco perguntas que se repetem: em que faixa de risco está este paciente, qual droga e qual dose, o que muda quando o rim ou o peso saem do padrão, quantas horas entre a heparina e a raquianestesia, e por quantos dias a profilaxia continua depois que ele vai para casa. Todas as cinco têm resposta numérica.

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O que muda decisão

A pergunta é dupla: quanto trombosa e quanto sangra

Toda decisão de profilaxia é uma subtração entre dois riscos. De um lado, a chance de o paciente formar trombo — que na cirurgia depende de três coisas: idade, porte e duração do procedimento, e os fatores de risco que ele carregava antes de entrar. Do outro, a chance de a anticoagulação profilática provocar hemorragia. Quando o primeiro risco é maior, prescreve-se droga. Quando o segundo é maior, prescreve-se compressão. Quando os dois são altos, prescreve-se compressão agora e droga assim que o risco hemorrágico ceder — e essa troca, que é a parte que quase ninguém escreve na prescrição, é exatamente o que a questão bem feita cobra.

Vale a pena guardar a magnitude do problema, porque ela justifica o rigor: o tromboembolismo venoso é a principal causa evitável de mortalidade em pacientes hospitalizados, e 60 a 70% dos casos em pacientes cirúrgicos são adquiridos dentro do hospital. Sem profilaxia, a incidência varia enormemente com o procedimento — até 50% em cirurgia ortopédica de grande porte, até 37% em cirurgia oncológica e cerca de 20% em cirurgia geral. Profilaxia bem feita com heparina de baixo peso molecular reduziu o risco de trombose venosa profunda em 59% e o de embolia pulmonar fatal em 63%, com sangramento significativo em 3% dos casos numa revisão de 33 ensaios randomizados.

O risco também não termina quando a anestesia acaba. O risco de TEV após um procedimento cirúrgico é maior até 12 semanas depois e pode persistir por até um ano. Traduzindo para a prática: a alta hospitalar não é o fim da janela de risco, e é por isso que existe profilaxia estendida — o assunto de uma seção inteira mais adiante.

Uma nota de método antes dos números. Este capítulo trata o paciente cirúrgico e o paciente clínico juntos porque a prova mistura os dois no mesmo enunciado — o senhor que caiu, fraturou o quadril e ficou três dias esperando vaga é clínico na segunda-feira e cirúrgico na quinta. Os escores são diferentes, mas a lógica é uma só, e as doses de alto risco acabam coincidindo.

Balança de dois pratos: em um prato, uma veia com trombo; no outro, uma seringa e uma poça de sangue, representando a decisão entre risco de trombose e risco de sangramento.
A prescrição de profilaxia é a subtração entre dois riscos. Quem só pesa um dos pratos erra os dois extremos: deixa sem heparina quem precisava e anticoagula quem já estava sangrando.

Caprini: o escore do paciente cirúrgico

No paciente cirúrgico, o consenso brasileiro adota a escala de Caprini. Ela soma pontos de quatro colunas e classifica em quatro faixas: escore 0 é risco muito baixo, 1 a 2 é baixo, 3 a 4 é moderado e 5 ou mais é alto. Os riscos estimados de TEV sem profilaxia associados a essas faixas são de 0,5%, 1,5% e 3% para as três primeiras — e é justamente por serem números pequenos que a decisão nas faixas de baixo não é dar heparina a todo mundo.

O que mais pontua é o que mais aparece na vinheta. Cinco pontos, cada um sozinho suficiente para jogar o paciente em alto risco: acidente vascular cerebral há menos de um mês, artroplastia, fratura de quadril ou pelve, politraumatismo e trauma raquimedular. Três pontos: idade acima de 75 anos, história prévia de TEV, história familiar de TEV e as trombofilias — fator V de Leiden, mutação da protrombina 20210A, anticoagulante lúpico, anticorpos anticardiolipina, homocisteína elevada e trombocitopenia induzida por heparina.

Dois pontos: idade de 61 a 74 anos, câncer, cirurgia maior com mais de 45 minutos, laparoscopia com mais de 45 minutos, artroscopia, imobilização gessada, cateter venoso central e restrição ao leito por mais de 72 horas. Um ponto: idade de 41 a 60 anos, cirurgia menor, cirurgia maior no último mês, obesidade, varizes, edema de membros inferiores, doença pulmonar grave e DPOC, infarto, insuficiência cardíaca, sepse no último mês, gravidez ou pós-parto no último mês, uso de hormônio e perda fetal de repetição. Repare no efeito prático: um paciente de 65 anos com câncer submetido a uma laparotomia de duas horas já soma 6 pontos sem nenhuma comorbidade adicional.

A conduta escalonada é a razão de existir do escore, e é ela que a prova cobra. Escore 0: deambulação precoce, sem droga. Escore 1 a 2: profilaxia mecânica. Escore 3 a 4 com baixo risco de sangramento: profilaxia farmacológica. Escore 5 ou mais com baixo risco de sangramento: profilaxia farmacológica, podendo-se associar a mecânica. E em qualquer faixa, se o risco de sangramento for alto, o método é apenas mecânico até que esse risco desapareça.

Pádua: o escore do paciente clínico

No paciente clínico internado, o escore é outro: o de Pádua. O gatilho para avaliar, segundo o consenso brasileiro, é ter mais de 40 anos, pelo menos um fator de risco e mobilidade reduzida — passar metade do dia sentado ou deitado, excluído o sono — há pelo menos três dias.

Os itens de 3 pontos são quatro: neoplasia em atividade, TVP ou embolia pulmonar prévias, mobilidade reduzida e trombofilia conhecida. Trauma ou cirurgia nos últimos 30 dias vale 2. Valem 1 ponto: idade acima de 70 anos, insuficiência cardíaca ou respiratória, infarto ou AVC isquêmico, infecção aguda ou distúrbio reumatológico, IMC acima de 30 e tratamento hormonal. O corte é 4 pontos: com 4 ou mais, o risco de TEV sem profilaxia é de 11% e o paciente recebe profilaxia farmacológica; abaixo disso o risco é de 0,3% e a conduta é estimular a deambulação, sem quimioprofilaxia.

Repare em quanto pesa a mobilidade: um senhor de 72 anos internado por pneumonia e acamado já soma 3 (mobilidade) + 1 (idade) + 1 (infecção aguda) = 5 pontos, sem precisar de câncer nem de trombofilia. Esse é o paciente da enfermaria que a prova coloca na vinheta para ver se o candidato lembra que profilaxia não é assunto exclusivo do centro cirúrgico.

O outro prato da balança: o risco de sangramento

Contraindicam a profilaxia farmacológica, segundo o fluxograma reproduzido no consenso brasileiro: sangramento ativo, úlcera péptica ativa, hipertensão não controlada acima de 180 por 110 mmHg, coagulopatia (plaquetopenia ou RNI acima de 1,5), alergia ou plaquetopenia induzida por heparina, insuficiência renal com clearance abaixo de 30 mL/min, cirurgia craniana ou ocular nas últimas duas semanas e coleta de líquido cefalorraquidiano nas últimas 24 horas. A punção epidural há menos de 12 horas entra na mesma lista — o assunto tem seção própria adiante.

No paciente oncológico, a lista de alto risco de sangramento é mais específica e vale decorar porque cai: plaquetas abaixo de 50.000/mm³, hemorragia ativa, neoplasia de trato gastrintestinal ou geniturinário (incluindo bexiga e portadores de cateteres de nefrostomia ou ureterais), lesões agudas de mucosa do trato gastrintestinal como úlcera, esofagite, gastrite e colite, e lesões do sistema nervoso central.

A consequência prática dessa lista é uma frase única: risco alto de sangramento não cancela a profilaxia, troca o método. O paciente vai para compressão pneumática intermitente e é reavaliado — porque a maioria dessas contraindicações é transitória. A plaqueta sobe, a úlcera para de sangrar, a pressão é controlada. Quando isso acontece e o risco de trombose persiste, a profilaxia química entra. Prescrever compressão no primeiro dia e nunca mais revisitar a decisão é o erro real da enfermaria, e é a resposta escondida de muitas questões.

Profilaxia mecânica: a única opção de quem sangra — e quem não pode usá-la

A profilaxia mecânica combate a estase. Ela inclui deambulação precoce, exercícios de bomba de panturrilha, elevação dos membros, meia elástica de compressão graduada e compressão pneumática intermitente com botas infláveis sequenciais em tornozelo, panturrilha e coxa. Dois números da compressão pneumática costumam cair: as pressões devem ficar entre 35 e 55 mmHg, e o dispositivo precisa permanecer ligado pelo menos 18 horas por dia para ter eficácia. Bota desligada durante o banho, a fisioterapia e a visita não cumpre 18 horas — e o efeito depende disso.

É a única opção em duas situações: quando existe sangramento ativo e quando o risco hemorrágico é alto. É também a opção do risco baixo pelo Caprini (1 a 2 pontos), em que a evidência para droga não compensa o risco. Entre os métodos, a diretriz americana de hematologia de 2019 sugere compressão pneumática intermitente em vez de meia elástica de compressão graduada — recomendação condicional com evidência de qualidade muito baixa, mas é a hierarquia que aparece nas alternativas.

A profilaxia mecânica também tem contraindicações, e essa é a metade esquecida do assunto. Meia de compressão graduada e compressão pneumática são contraindicadas em fratura exposta, insuficiência arterial periférica grave, insuficiência cardíaca grave e úlceras ou infecções nas pernas. O paciente arteriopata grave com pé isquêmico não recebe bota de compressão: comprimir uma perna que já não recebe sangue arterial piora a isquemia. Se esse paciente também não pode receber heparina, o caso vira discussão individualizada — e é aí, só aí, que se cogita filtro de veia cava temporário, que o consenso brasileiro admite no pré-operatório de quem não pode ser anticoagulado, mantido por até 14 dias.

As drogas e as doses que a prova cobra

Heparina não fracionada, dose profilática: 5.000 UI por via subcutânea, duas a três vezes ao dia. Na cirurgia geral de risco moderado, o esquema do consenso brasileiro é 5.000 UI iniciadas 2 horas antes do procedimento e mantidas de 12 em 12 horas. No alto risco, as mesmas 5.000 UI 2 horas antes, mantidas de 8 em 8 horas. A eliminação é renal, mas a heparina não fracionada não precisa de ajuste de dose — essa é a propriedade que a torna a droga do paciente com rim ruim.

Heparina de baixo peso molecular: no Brasil a disponível é a enoxaparina. Dose profilática de 20 mg por via subcutânea uma vez ao dia para o paciente de baixo a moderado risco cirúrgico, e 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia para o de alto risco. No esquema cirúrgico de alto risco, os 40 mg são iniciados 12 horas antes da cirurgia e mantidos de 24 em 24 horas depois. No paciente clínico de alto risco pelo Pádua, são 40 mg uma vez ao dia direto, sem dose pré-operatória por motivos óbvios.

Fondaparinux: 2,5 mg por via subcutânea uma vez ao dia, com uma ressalva cirúrgica importante — a primeira dose só deve ser administrada 6 horas após a cirurgia, pelo risco aumentado de sangramento. É alternativa útil em quem teve trombocitopenia induzida por heparina.

Os anticoagulantes orais diretos têm lugar delimitado. Na profilaxia após grande cirurgia ortopédica eles são reconhecidos, com rivaroxabana 10 mg por via oral uma vez ao dia e dabigatrana 220 mg por dia, iniciados 6 horas após o procedimento. Fora da ortopedia, o consenso brasileiro é explícito: não existem evidências do uso de anticoagulantes orais diretos em pacientes cirúrgicos não ortopédicos, nem para profilaxia em pacientes clínicos hospitalizados. Uma alternativa que aparece como distrator: aspirina não é método isolado de profilaxia na literatura ortopédica brasileira.

Onde a prova pega: rim e peso

A heparina de baixo peso molecular tem excreção predominantemente renal e se acumula quando o clearance cai. Com clearance entre 30 e 50 mL/min, mantém-se enoxaparina 40 mg por dia, mas com controle da atividade antifator Xa — ou troca-se por heparina não fracionada 5.000 UI de 8 em 8 ou de 12 em 12 horas, ou reduz-se o fondaparinux à metade da dose. Com clearance abaixo de 30 mL/min, a escolha é heparina não fracionada 5.000 UI de 8 em 8 ou de 12 em 12 horas; se ainda assim se optar por enoxaparina, a dose cai para 20 mg por dia com controle de antifator Xa. Abaixo de 10 mL/min, o consenso considera a profilaxia farmacológica contraindicada.

Guarde a frase que resolve metade das questões de rim: no renal crônico, a droga é a heparina não fracionada, porque ela não precisa de ajuste. A heparina de baixo peso molecular não é proibida, mas exige monitorização do antifator Xa — exame que a maior parte dos hospitais brasileiros não tem à mão, e essa indisponibilidade é parte da resposta prática.

No obeso, o problema é o inverso: dose padrão de menos. Entre IMC de 30 e 40, um estudo retrospectivo não encontrou diferença de eficácia entre o regime padrão e o aumentado — a dose usual serve. Acima de IMC 40, o regime aumentado reduziu eventos trombóticos em 48% sem aumentar sangramento, e as doses recomendadas para o obeso mórbido com função renal preservada são: enoxaparina 40 mg de 12 em 12 horas, heparina não fracionada 7.500 UI de 8 em 8 horas ou fondaparinux 2,5 mg de 12 em 12 horas. Acima de IMC 50, a sugestão sobe para enoxaparina 60 mg de 12 em 12 horas.

No extremo oposto, o paciente magro tem atividade antifator Xa inversamente proporcional ao peso: com IMC abaixo de 18 kg/m² ou peso total abaixo de 55 kg, a literatura sugere reduzir a enoxaparina para 30 mg ao dia — apresentação que não existe no Brasil, o que faz com que na prática se use 20 mg em dose única diária. É um detalhe nacional que a prova brasileira pode explorar.

A hora da dose e a regra do neuroeixo

Momento de início, no esquema brasileiro: heparina não fracionada 2 horas antes da incisão; enoxaparina de alto risco 12 horas antes; fondaparinux somente 6 horas depois. Na cirurgia ortopédica, a heparina de baixo peso molecular começa 12 horas antes e é reiniciada 6 a 12 horas após o procedimento, e os anticoagulantes orais diretos começam 6 horas após. Na cirurgia oncológica, o consenso brasileiro é direto: a profilaxia deve ser iniciada no pré-operatório, com enoxaparina 40 mg 10 a 12 horas antes ou heparina não fracionada 5.000 UI 2 a 4 horas antes.

Agora a parte de segurança, que tem números próprios e que os protocolos cirúrgicos precisam combinar com a anestesia: hematoma espinal é a complicação que transforma uma profilaxia de rotina em paraplegia. Pelos intervalos da diretriz brasileira de anestesia regional, entre a última dose e a punção do neuroeixo devem passar 4 a 6 horas para heparina não fracionada (subcutânea profilática ou endovenosa), 12 horas para enoxaparina em dose profilática, 24 horas para enoxaparina em dose terapêutica, 36 a 42 horas para fondaparinux e 72 horas para rivaroxabana.

Os mesmos intervalos valem para retirar o cateter peridural — e com fondaparinux ou rivaroxabana em uso a orientação é não instalar cateter. Para reiniciar a droga depois da punção ou da retirada do cateter: 1 hora para heparina não fracionada, 4 horas para enoxaparina, 6 horas para rivaroxabana e 12 horas para fondaparinux. A diretriz cardiológica brasileira reforça a mesma regra pelo outro lado, ao exigir pelo menos 6 horas após a retirada do cateter peridural para a próxima dose de anticoagulante oral direto.

A aritmética de enfermaria que decorre disso é simples e é onde o erro acontece: enoxaparina prescrita às 22 horas e raquianestesia marcada para as 8 horas dão 10 horas de intervalo — faltam 2. Ou a punção espera até as 10 horas, ou a dose noturna não é administrada. E há uma consequência que a diretriz cardiológica torna explícita: qualquer operação que exija anestesia neuroaxial ou peridural conta como procedimento de alto risco de sangramento na hora de programar a suspensão dos anticoagulantes orais.

Duração: a alta não encerra a profilaxia

No paciente clínico hospitalizado, a resposta é curta e contraintuitiva: a tromboprofilaxia não deve se estender além do período de internação. Há recomendação contrária a essa extensão. Ou seja, o senhor da pneumonia recebe enoxaparina enquanto está acamado no hospital e vai para casa sem receita de heparina.

No cirúrgico, depende do procedimento — e é aqui que moram os números que a prova cobra. Cirurgia oncológica abdominal ou pélvica: no mínimo 7 a 10 dias; nos portadores de fatores de risco adicionais (mobilidade reduzida, obesidade, TEV prévio), a profilaxia medicamentosa deve ser estendida para 4 semanas. Artroplastia de joelho e de quadril: duração mínima de 10 a 14 dias, com evidência de benefício de profilaxia estendida de 30 a 42 dias. Fratura de quadril: até o 35º dia de pós-operatório. Trauma raquimedular: 8 semanas. Cirurgia bariátrica: enoxaparina 40 mg duas vezes ao dia por 10 dias no esquema citado pelo consenso brasileiro, com a maior parte dos autores estendendo por 2 semanas após a alta.

A justificativa fisiológica de estender é a mesma nos dois cenários de maior peso: em cirurgia oncológica abdominal e pélvica a incidência de TVP chega a 29%, e no obeso a maioria dos eventos tromboembólicos ocorre depois da alta hospitalar. Contar apenas os dias de internação é subestimar sistematicamente a janela de risco.

Há um jeito prático de não errar isso na prescrição, e ele também é o jeito de não errar na prova: escrever a data de término junto com a droga. 'Enoxaparina 40 mg SC 1x/dia até 28/08' é uma prescrição que sobrevive à troca de plantonista; 'enoxaparina 40 mg SC 1x/dia' é uma prescrição que termina no dia da alta, por acidente.

Quem já usa anticoagulante e vai operar: a ponte

Antes de suspender qualquer coisa, uma pergunta: o procedimento realmente exige interrupção? Alguns têm risco mínimo de sangramento e podem ser feitos com o paciente anticoagulado — implante de marca-passo ou desfibrilador, angiografia coronária, procedimentos dentários menores (extração de até dois dentes, restaurações, próteses, endodontia, limpezas e implantes), cirurgia de catarata, procedimentos dermatológicos menores e artrocentese ou injeção intra-articular.

Quando a interrupção é necessária, o esquema da varfarina é fixo: suspender 5 dias antes e conferir RNI abaixo de 1,5 — medindo na véspera, para haver tempo de reverter com 1 a 2 mg de vitamina K por via oral se o valor estiver alto. A pergunta seguinte é se cabe ponte, e ela depende exclusivamente do risco tromboembólico. Ponte indicada: prótese valvar mecânica; fibrilação atrial com CHADS2 de 5 ou 6, AVC ou AIT há menos de 3 meses, ou doença valvar reumática; TEV recente ou trombofilia grave (deficiência de proteína C, proteína S ou antitrombina, ou anticorpos antifosfolípide). Ponte não indicada: fibrilação atrial com CHADS2 de até 2 sem AVC ou AIT prévios, e TEV há mais de 12 meses. No meio — CHADS2 de 3 ou 4, TEV de 3 a 12 meses, trombofilia leve ou neoplasia ativa — a decisão é individual, indicada apenas em casos específicos.

Feita a ponte, os números são estes: heparina não fracionada ou de baixo peso molecular em dose plena quando o RNI cai abaixo de 2; suspender a heparina não fracionada 4 a 6 horas antes do procedimento e a de baixo peso molecular 24 horas antes; no pós-operatório, reiniciar heparina plena e varfarina pelo menos 24 horas depois, suspendendo a heparina só quando o RNI voltar à faixa terapêutica; em cirurgias de alto risco hemorrágico, a heparina de baixo peso molecular só volta 48 a 72 horas depois. No paciente de baixo risco tromboembólico, sem ponte, a varfarina é reiniciada 12 a 24 horas após o procedimento, e a heparina que ele recebe no perioperatório é a profilática, se indicada — não a plena.

Por que não fazer ponte em todo mundo: no estudo BRIDGE, 1.884 pacientes foram randomizados, e a ponte não reduziu eventos trombóticos de forma significativa, mas aumentou os sangramentos maiores. A leitura da diretriz brasileira é que a população estudada tinha risco trombótico médio baixo (CHA2DS2 médio de 2,3), o que preserva a indicação nos pacientes de risco alto — mas a conclusão explícita é que a ponte não deve ser realizada indiscriminadamente.

Com anticoagulante oral direto, não se faz ponte — o início de ação rápido e a meia-vida curta tornam a ponte desnecessária. O esquema do estudo PAUSE, incorporado à diretriz brasileira: suspender 1 dia antes se o procedimento tem baixo risco de sangramento e 2 dias antes se tem alto risco. Exceção da dabigatrana com clearance abaixo de 50 mL/min: 2 dias no baixo risco e 4 dias no alto. Edoxabana: 24 horas no baixo risco e 48 a 72 horas no alto. E o elo com o tema deste capítulo: em paciente ou procedimento de alto risco de TEV, inicia-se heparina de baixo peso molecular em dose profilática 12 horas após a cirurgia, se a hemostasia estiver adequada, suspendendo-a quando o anticoagulante oral for reintroduzido.

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As quatro faixas de Caprini e a conduta de cada uma

A escala de Caprini soma pontos de quatro colunas (1, 2, 3 e 5 pontos) e devolve uma faixa. A faixa não é rótulo: cada uma tem uma conduta diferente, e a diferença entre elas é exatamente o que a questão cobra. Os cards abaixo vão do risco muito baixo ao alto; a tabela seguinte traz a dose de cada situação e os dois ajustes que a prova adora — rim e peso.

  1. 11. Avalie TODO paciente internado. No cirúrgico, some o Caprini; no clínico com mais de 40 anos, mobilidade reduzida há 3 dias ou mais e ao menos um fator de risco, some o Pádua.
  2. 22. Some o risco de sangramento antes de escolher a droga: sangramento ativo, úlcera péptica ativa, plaquetas abaixo de 50.000, RNI acima de 1,5, hipertensão acima de 180 por 110 mmHg, clearance abaixo de 30 mL/min, cirurgia craniana ou ocular há menos de 2 semanas, coleta de líquor há menos de 24 horas.
  3. 33. Escolha o método pela combinação das duas contas: risco muito baixo, deambulação; risco baixo, mecânica; risco moderado ou alto com sangramento baixo, farmacológica (associando mecânica no alto); qualquer risco com sangramento alto, mecânica isolada.
  4. 44. Confira as contraindicações da mecânica antes de prescrever bota: fratura exposta, insuficiência arterial periférica grave, insuficiência cardíaca grave, úlcera ou infecção na perna.
  5. 55. Ajuste a dose pelo clearance de creatinina e pelo IMC ANTES de assinar a prescrição, não depois do primeiro sangramento.
  6. 66. Acerte o relógio: heparina não fracionada 2 horas antes, enoxaparina 12 horas antes, fondaparinux só 6 horas depois. Se há neuroeixo programado, respeite 4 a 6 horas (HNF), 12 horas (enoxaparina profilática) ou 24 horas (enoxaparina terapêutica) entre a dose e a punção ou a retirada do cateter.
  7. 77. Escreva a DATA DE TÉRMINO na prescrição: internação (clínico), 7 a 10 dias ou 4 semanas (oncológico abdominal/pélvico), 10 a 14 ou 30 a 42 dias (artroplastia), 35 dias (fratura de quadril), 8 semanas (trauma raquimedular).
  8. 88. Reavalie diariamente. Contraindicação transitória que passou (plaqueta subiu, sangramento parou) obriga a trocar a mecânica pela química enquanto o risco de trombose persistir.

Muito baixo — Caprini 0

Risco estimado de TEV em torno de 0,5%. Deambulação precoce, preferida à profilaxia medicamentosa. Sem heparina e sem bota: neste paciente a droga adiciona risco de sangramento sem benefício proporcional.

Baixo — Caprini 1 a 2

Risco estimado em torno de 1,5%. Profilaxia mecânica, preferida à farmacológica: meia elástica de compressão graduada ou compressão pneumática intermitente, esta última ligada pelo menos 18 horas por dia, com pressões entre 35 e 55 mmHg.

Moderado — Caprini 3 a 4

Risco estimado em torno de 3%. Com baixo risco de sangramento, profilaxia farmacológica: heparina não fracionada 5.000 UI 2 horas antes e de 12 em 12 horas, ou enoxaparina 20 mg por dia. Com risco de sangramento alto, apenas mecânica.

Alto — Caprini 5 ou mais

Com baixo risco de sangramento, profilaxia farmacológica em dose de alto risco — enoxaparina 40 mg 12 horas antes e depois a cada 24 horas, ou heparina não fracionada 5.000 UI 2 horas antes e de 8 em 8 horas — podendo-se associar a mecânica. Com sangramento alto, mecânica isolada até o risco ceder.

SituaçãoEnoxaparina (HBPM)Heparina não fracionadaDetalhe que decide a questão
Cirurgia geral, risco moderado (Caprini 3 a 4)20 mg SC 1x/dia5.000 UI SC 2 h antes, depois 12/12 hRisco de sangramento baixo é pré-requisito; se alto, só mecânica
Cirurgia geral, alto risco (Caprini 5 ou mais)40 mg SC 12 h antes, depois 24/24 h5.000 UI SC 2 h antes, depois 8/8 hPode associar mecânica; fondaparinux 2,5 mg/dia só 6 h APÓS a cirurgia
Paciente clínico, Pádua 4 ou mais40 mg SC 1x/dia5.000 UI SC 8/8 hFondaparinux 2,5 mg/dia é alternativa; não estender após a alta
Cirurgia oncológica (internação cirúrgica)40 mg SC 10 a 12 h antes, depois 1x/dia5.000 UI SC 2 a 4 h antes, depois 8/8 hInício pré-operatório e mecânica associada, nunca mecânica isolada salvo contraindicação
Grande cirurgia ortopédica40 mg SC 12 h antes; reiniciar 6 a 12 h apósNão é primeira linha isolada na ortopediaRivaroxabana 10 mg VO 1x/dia iniciada 6 h após é a alternativa oral
Clearance de creatinina 30 a 50 mL/min40 mg SC 1x/dia com controle de antifator Xa5.000 UI SC 8/8 h ou 12/12 hFondaparinux com 50% da dose
Clearance de creatinina abaixo de 30 mL/min20 mg SC 1x/dia com controle de antifator Xa5.000 UI SC 8/8 h ou 12/12 h — droga preferidaHNF não precisa de ajuste renal; abaixo de 10 mL/min a profilaxia farmacológica é contraindicada
IMC entre 30 e 40 kg/m²40 mg SC 1x/dia (dose padrão)5.000 UI SC 8/8 hSem diferença de eficácia entre dose padrão e aumentada nessa faixa
IMC acima de 40 kg/m² (obeso mórbido)40 mg SC 12/12 h7.500 UI SC 8/8 hFondaparinux 2,5 mg SC 12/12 h; regime aumentado reduziu eventos em 48% sem mais sangramento
IMC acima de 50 kg/m²60 mg SC 12/12 h7.500 UI SC 8/8 hSugestão baseada em revisão, não em ensaio randomizado
Peso abaixo de 55 kg ou IMC abaixo de 18 kg/m²30 mg SC 1x/dia (na prática 20 mg, por indisponibilidade da apresentação)5.000 UI SC 12/12 hAtividade antifator Xa é inversamente proporcional ao peso: dose cheia sangra mais

O corte do escore de Pádua: o consenso brasileiro imprime 'escore > 4' para alto risco, mas o escore original de Barbar (2010), que ele próprio referencia, define alto risco como 4 pontos ou mais (11% de TEV) e baixo risco como menos de 4 (0,3%). Este capítulo usa 4 ou mais, porque é o corte da fonte primária — e a diferença não é acadêmica: mobilidade reduzida (3) mais idade acima de 70 anos (1) fecham exatamente 4.

Compressão pneumática intermitente ligada 6 horas por dia não é profilaxia: a eficácia depende de pelo menos 18 horas diárias, com pressões entre 35 e 55 mmHg.

Dose profilática não é dose de tratamento. Enoxaparina 1 mg/kg de 12 em 12 horas, ou 1,5 mg/kg por dia, é tratamento — e exige 24 horas de intervalo para o neuroeixo, não 12.

Filtro de veia cava não é profilaxia de rotina. O consenso brasileiro admite o filtro temporário no pré-operatório de quem não pode receber anticoagulação, mantido por até 14 dias; a diretriz americana de hematologia de 2019 sugere CONTRA o uso de filtro como profilaxia de TEV.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Escore formal ou avaliação clínica por fatores de risco

Escore somado: Caprini no cirúrgico, Pádua no clínico

O consenso da SBACV-SP reproduz as duas tabelas e amarra a conduta à faixa: Caprini 0 é deambulação, 1 a 2 é mecânica, 3 a 4 e 5 ou mais são farmacológica; Pádua 4 ou mais é farmacológica. A vantagem é a reprodutibilidade — dois médicos diante do mesmo paciente chegam à mesma prescrição.

SBACV-SP, Consenso e Atualização na Profilaxia e no Tratamento do TEV (2019), capítulos de pacientes cirúrgicos e clínicos

Avaliação clínica por lista de fatores, sem somar pontos

O fluxograma da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, reproduzido no mesmo consenso, dispensa a soma: paciente com 40 anos ou mais e mobilidade reduzida, tendo qualquer fator de risco da lista (AVC, câncer, infecção, UTI, obesidade, TEV prévio, trombofilia, gestação, hormônio, varizes, entre outros) e nenhuma contraindicação, recebe profilaxia farmacológica.

Projeto Diretrizes AMB/CFM, Tromboembolismo Venoso: Profilaxia em Pacientes Clínicos, adaptado na Figura 1 do consenso SBACV-SP (2019)

Na prova

O recorte se identifica pelo enunciado. Vinheta que entrega os itens pontuáveis um a um — idade, porte da cirurgia em minutos, câncer, trombofilia — ou que cita 'Caprini' e 'Pádua' nominalmente está no mundo do escore, e as alternativas costumam trazer faixas numéricas. Vinheta de enfermaria que descreve o paciente sem nenhum número pontuável ('acamado há três dias por pneumonia') está no mundo do fluxograma por fatores, e as alternativas falam em conduta, não em pontuação. Um distrator que oferece 'calcular o escore de Wells' denuncia outra coisa: Wells é probabilidade diagnóstica de trombose já instalada, não risco de desenvolvê-la.

Início da profilaxia na cirurgia oncológica abdominal e pélvica

Início pré-operatório — consenso brasileiro, seguindo a ASCO

A profilaxia deve ser iniciada no pré-operatório, com qualidade de evidência intermediária e força de recomendação moderada. Na prática: enoxaparina 40 mg de 10 a 12 horas antes da cirurgia, ou heparina não fracionada 5.000 UI de 2 a 4 horas antes, mantidas depois.

SBACV-SP (2019), capítulo de profilaxia no paciente com câncer, reproduzindo as recomendações da ASCO 2019

Início pós-operatório — American Society of Hematology

A ASH registra que outras diretrizes sugerem iniciar a anticoagulação antes da operação e faz recomendação diferente: sugere o início pós-operatório, com recomendação condicional de manter a prevenção por um mês depois. Na mesma diretriz, prefere heparina de baixo peso molecular à não fracionada no cirúrgico oncológico.

American Society of Hematology, diretrizes de TEV em pacientes com câncer (documento-resumo oficial)

Na prova

As duas posições convergem na duração (cerca de um mês) e divergem apenas no relógio da primeira dose. Sinais do recorte: enunciado que menciona anestesia neuroaxial programada, ou que descreve a decisão sendo tomada já no pós-operatório imediato, empurra a discussão para o mundo do início tardio; enunciado que cita a sociedade brasileira, a ASCO, ou que descreve o paciente sendo preparado na véspera com prescrição pré-anestésica, aponta o corpo brasileiro. Se uma alternativa oferecer 'iniciar 12 horas antes' e outra 'iniciar 12 horas após', o enunciado tem que ter dito qual documento está sendo cobrado — se não disse, o cenário SUS e a menção a documento nacional inclinam a leitura.

Duração da profilaxia estendida: 10 a 14 dias ou 4 a 6 semanas

Duração mínima de 7 a 14 dias — piso dos documentos brasileiros

No oncológico abdominal e pélvico, o tempo de profilaxia deve ser de no mínimo 7 a 10 dias; na artroplastia, a duração mínima é de 10 a 14 dias. O prolongamento fica condicionado à presença de fatores de risco adicionais (mobilidade reduzida, obesidade, TEV prévio) e sempre pesado contra o risco hemorrágico.

SBACV-SP (2019), capítulos de pacientes cirúrgicos e de pacientes com câncer

Extensão para 4 a 6 semanas — literatura ortopédica brasileira e ASH

A revisão ortopédica brasileira coloca a artroplastia de quadril em no mínimo 4 semanas, a de joelho em 10 a 14 dias podendo chegar a 35, e a fratura de quadril até o 35º dia. A ASH de 2019 sugere profilaxia estendida de 19 a 42 dias em vez de curta de 4 a 14 dias, com recomendação condicional. No oncológico abdominal e pélvico com fatores de risco, o próprio consenso brasileiro estende para 4 semanas, com base no ENOXACAN II.

Leme e Sguizzatto, Rev Bras Ortop (2012); ASH 2019, prevenção de TEV em cirúrgicos hospitalizados (Blood Adv 2019;3:3898-3944)

Na prova

Os dois números convivem porque respondem a perguntas diferentes: 10 a 14 dias é o piso que ninguém discute, 30 a 42 dias é o teto com benefício demonstrado em artroplastia. Sinais do recorte nas alternativas: se uma opção oferece 'até a alta hospitalar' junto de artroplastia ou câncer abdominal, ela está no mundo do paciente CLÍNICO, cuja profilaxia realmente não se estende além da internação — e essa transposição indevida é o distrator mais comum do tema. Enunciado que descreve alta no 3º dia após artroplastia e pergunta a receita está cobrando o mundo da extensão.

Anticoagulante oral direto na profilaxia após grande cirurgia ortopédica

DOAC preferido à heparina de baixo peso molecular — ASH 2019

Na artroplastia de quadril e de joelho, a diretriz americana de hematologia sugere anticoagulante oral direto em vez de heparina de baixo peso molecular — recomendação condicional, com evidência de qualidade moderada, a mais alta entre as comparações de droga dessa diretriz. A mesma diretriz sugere aspirina ou anticoagulante como alternativas aceitáveis entre si nessa população.

ASH 2019, prevenção de TEV em pacientes cirúrgicos hospitalizados (Blood Adv 2019;3:3898-3944)

HBPM como padrão, DOAC como alternativa — documentos brasileiros

A literatura ortopédica brasileira coloca enoxaparina 40 mg por dia como primeira linha, com rivaroxabana 10 mg e dabigatrana como alternativas, e recusa a aspirina como método isolado. O consenso vascular brasileiro aceita o DOAC iniciado 6 horas após o procedimento na ortopedia, mas afirma que fora dela não há evidência para uso em cirúrgicos.

Leme e Sguizzatto, Rev Bras Ortop (2012); SBACV-SP (2019), capítulo de pacientes cirúrgicos

Na prova

A causa do afastamento brasileiro é econômica e de disponibilidade, não de mérito científico: rivaroxabana tem registro nacional para essa indicação desde 2013, mas os anticoagulantes orais diretos não foram incorporados ao SUS — a Conitec avaliou apixabana, rivaroxabana e dabigatrana em 2016 e foi unânime contra a incorporação, e eles seguem fora dos componentes da assistência farmacêutica na Rename 2024, enquanto heparina não fracionada e enoxaparina são insumos hospitalares padronizados. Como identificar o recorte: cenário de hospital público, alta pelo SUS ou menção a dispensação em farmácia básica aponta o corpo brasileiro; cenário de centro terciário, menção nominal à ASH ou alternativa que contrapõe aspirina a anticoagulante (comparação que só existe na diretriz americana) aponta o corpo internacional.

Dose de heparina de baixo peso molecular no obeso e na cirurgia bariátrica

Esquema escalonado por IMC — consenso brasileiro

Acima de IMC 40, enoxaparina 40 mg de 12 em 12 horas; acima de IMC 50, 60 mg de 12 em 12 horas. Para o obeso mórbido com função renal preservada, a tabela do consenso traz heparina não fracionada 7.500 UI de 8 em 8 horas, enoxaparina 40 mg de 12 em 12 horas ou fondaparinux 2,5 mg de 12 em 12 horas. Na bariátrica especificamente, 40 mg duas vezes ao dia por 10 dias.

SBACV-SP (2019), capítulos de pacientes clínicos, de pacientes especiais e de pacientes cirúrgicos

Ausência de esquema definido — editorial do Jornal Vascular Brasileiro

Os regimes publicados em bariátrica vão de 30 mg de 12 em 12 horas a 60 mg de 12 em 12 horas por 14 a 15 dias, com risco de sangramento semelhante entre 40 e 60 mg; não há definição para IMC entre 30 e 40 nem acima de 60, e faltam estudos de escalonamento de dose e comparação entre agentes. A maioria dos autores estende a profilaxia por 2 semanas após a alta, já que a maior parte dos eventos no obeso ocorre depois dela.

Yoshida WB, J Vasc Bras. 2017;16(2):85-87

Na prova

Questão que fornece o IMC e pede a dose está pedindo o esquema escalonado — os cortes de 40 e de 50 são a chave, e o distrator clássico é manter 40 mg uma vez ao dia em quem tem IMC de 47. Questão que descreve a alta de um paciente bariátrico e pergunta a conduta está no terreno da extensão pós-alta e da profilaxia mecânica associada. Enunciado que usa expressões como 'ausência de consenso' ou 'evidência limitada' está sinalizando o segundo corpo — e nele a conduta defensável passa por deambulação precoce, compressão pneumática e reavaliação, sem cravar miligramas.

06

Caso resolvido

Mulher de 72 anos, com adenocarcinoma de cólon sigmoide, é internada para colectomia esquerda aberta eletiva, com duração prevista de 3 horas. Hipertensa, IMC de 32 kg/m², sem sangramento digestivo, sem TEV prévio. Plaquetas 260.000/mm³, RNI 1,1, creatinina 1,4 mg/dL com clearance estimado de 45 mL/min. A cirurgia está marcada para as 8 horas da manhã, sob anestesia geral com peridural contínua para analgesia. A equipe pergunta o que prescrever hoje à noite.
escore
Caprini somado: idade de 61 a 74 anos (2) + câncer (2) + cirurgia maior com mais de 45 minutos (2) + obesidade (1) = 7 pontos. Faixa de ALTO risco, que começa em 5.
risco de sangramento
Baixo. Plaquetas acima de 50.000, RNI abaixo de 1,5, sem hemorragia ativa, sem lesão de mucosa gastrintestinal sangrante e sem cirurgia craniana ou ocular recente. A neoplasia é colorretal, mas sem sangramento ativo — o que a lista oncológica marca é sangramento, não a topografia isolada.
método
Alto risco de TEV com baixo risco de sangramento: profilaxia farmacológica, associando a mecânica. No cirúrgico oncológico, os métodos mecânicos entram associados, nunca como monoterapia, salvo contraindicação à droga.
droga e dose
Enoxaparina 40 mg por via subcutânea, iniciada de 10 a 12 horas antes da cirurgia — ou seja, na noite anterior, por volta das 20 horas — e depois a cada 24 horas. O clearance de 45 mL/min está na faixa de 30 a 50: mantém-se os 40 mg, com controle de antifator Xa se disponível. O IMC de 32 não muda a dose: a faixa de 30 a 40 usa dose padrão.
neuroeixo
A dose das 20 horas e a punção peridural das 8 horas dão 12 horas exatas — o intervalo mínimo para enoxaparina profilática. A dose seguinte só entra 4 horas após a punção, e a retirada do cateter peridural exige novas 12 horas desde a última dose.
duração
Cirurgia oncológica abdominal: mínimo de 7 a 10 dias. Como ela tem fatores de risco adicionais (obesidade, idade), a profilaxia é estendida para 4 semanas, com a data de término escrita na receita de alta.
07

Agora feche você

Homem de 74 anos, artroplastia total de joelho eletiva marcada para amanhã às 8 horas, sob raquianestesia. IMC de 31 kg/m², hipertenso, sem sangramento, plaquetas 210.000/mm³. Creatinina 2,1 mg/dL, com clearance estimado de 26 mL/min. A prescrição de hoje, feita pelo plantonista, traz: enoxaparina 40 mg por via subcutânea às 22 horas. Compressão pneumática intermitente não foi prescrita.
escore
Caprini: artroplastia sozinha vale 5 pontos, e cada item de 5 pontos já joga o paciente na faixa alta. Somam-se ainda idade de 61 a 74 anos (2) e obesidade (1): total de 8 pontos, alto risco.
achado que muda a droga
Clearance de 26 mL/min. A heparina de baixo peso molecular tem excreção predominantemente renal e se acumula abaixo de 30 mL/min; a heparina não fracionada não precisa de ajuste de dose e é a droga preferida nesse cenário.
achado que muda o horário
Entre a dose das 22 horas e a raquianestesia das 8 horas há 10 horas de intervalo. O mínimo exigido entre enoxaparina em dose profilática e punção de neuroeixo é de 12 horas.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pesar só o risco de trombose e ignorar o de sangramento A vinheta traz um Caprini alto e o candidato prescreve heparina sem ler que as plaquetas estão em 38.000 ou que a úlcera péptica está sangrando. Alto risco de sangramento não cancela a profilaxia — troca o método para mecânico. O erro simétrico é igualmente comum: prescrever bota e nunca mais reavaliar, deixando o paciente sem quimioprofilaxia depois que a plaqueta subiu e o sangramento parou.
  2. 2Achar que filtro de veia cava é profilaxia Filtro não previne trombose: ele intercepta o êmbolo depois que ela já se formou. O consenso brasileiro admite o filtro temporário no pré-operatório de quem não pode ser anticoagulado, mantido por até 14 dias; a diretriz americana de hematologia de 2019 sugere contra o filtro como profilaxia. Alternativa que oferece filtro para um paciente que apenas tem risco alto, sem contraindicação absoluta à anticoagulação e sem trombose diagnosticada, é distrator.
  3. 3Reduzir a dose 'porque o paciente é idoso' Idade não é critério de redução de dose. O paciente idoso recebe as doses habituais, e o que modifica a conduta é a função renal — por isso a diretriz organiza a escolha por faixas de clearance, e não por décadas de vida. Reduzir empiricamente entrega ao paciente o pior dos dois mundos: dose insuficiente para prevenir e ainda assim capaz de sangrar.
  4. 4Prescrever a dose noturna e mandar para a raqui de manhã Entre enoxaparina profilática e punção de neuroeixo são 12 horas; entre enoxaparina terapêutica e punção são 24; com heparina não fracionada bastam 4 a 6. E os mesmos intervalos valem para RETIRAR o cateter peridural, não só para instalá-lo. Hematoma espinal é raro e catastrófico, e a conta que o previne é aritmética de relógio, não julgamento clínico.
  5. 5Aplicar a regra do paciente clínico ao paciente cirúrgico É verdade que no clínico hospitalizado a profilaxia não se estende além da internação. Transportar essa frase para a artroplastia ou para a colectomia oncológica inverte a resposta: nesses, o risco maior está justamente depois da alta, e a profilaxia segue por 4 semanas (câncer abdominal com fatores de risco), 30 a 42 dias (artroplastia) ou até o 35º dia (fratura de quadril).
  6. 6Fazer ponte de heparina em todo paciente anticoagulado Ponte é para alto risco tromboembólico: prótese valvar mecânica, fibrilação atrial com CHADS2 de 5 ou 6, AVC ou AIT há menos de 3 meses, doença valvar reumática, TEV recente ou trombofilia grave. Em fibrilação atrial com CHADS2 de até 2 sem AVC prévio, não se faz ponte — no estudo BRIDGE ela não reduziu eventos trombóticos e aumentou sangramento maior. E com anticoagulante oral direto não existe ponte: suspende-se 1 dia antes (baixo risco de sangramento) ou 2 dias antes (alto risco).
  7. 7Confundir dose profilática com dose de tratamento Enoxaparina 40 mg por dia é profilaxia; 1 mg/kg de 12 em 12 horas é tratamento. A troca aparece disfarçada em alternativas de questão de perioperatório: o paciente em ponte de heparina recebe dose PLENA porque está substituindo a anticoagulação da varfarina, enquanto o paciente de baixo risco tromboembólico que não faz ponte recebe apenas a dose profilática, se indicada.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Paciente de alto risco (cirurgia oncológica abdominal de grande porte) tem indicação clara de profilaxia farmacológica, sendo a HBPM (enoxaparina) em dose profilática a opção de escolha (opção correta). Profilaxia mecânica isolada é reservada a pacientes com alto risco de sangramento ou contraindicação ao anticoagulante, não sendo a medida ideal isolada em alto risco tromboembólico. AAS não é a droga de escolha para profilaxia de TEV em cirurgia abdominal geral. Warfarina não é usada como profilaxia perioperatória de rotina (início lento, difícil ajuste, risco de sangramento). A ausência de história prévia não afasta a indicação — o risco decorre do procedimento e da condição oncológica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: as quatro faixas de Caprini com a conduta de cada uma; os quatro itens de 5 pontos e os quatro itens de 3 pontos do escore de Pádua; e a linha de dose de enoxaparina para cinco situações — cirurgia geral de alto risco, clearance abaixo de 30, IMC acima de 40, IMC acima de 50 e peso abaixo de 55 kg. Depois recite os cinco números de relógio: 2 horas (heparina não fracionada antes da incisão), 12 horas (enoxaparina antes da cirurgia e antes do neuroeixo), 6 horas (fondaparinux e DOAC depois da cirurgia), 4 horas (reinício da enoxaparina após a punção) e 18 horas por dia (compressão pneumática).

em 30 dias

Pegue três vinhetas de perioperatório de provas anteriores e, antes de olhar as alternativas, escreva quatro linhas para cada uma: faixa de risco e escore usado, risco de sangramento, método com droga e dose ajustada por rim e peso, e data de término da profilaxia. Depois compare com o gabarito e verifique especificamente onde você errou — se foi na conta do escore, no lado do sangramento, no ajuste de dose ou na duração. Feche revisando o quadro da ponte: quem faz, quem não faz, os 5 dias da varfarina, o RNI abaixo de 1,5 e o esquema de 1 ou 2 dias dos anticoagulantes orais diretos.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 68 anos internada na véspera de uma gastrectomia subtotal por adenocarcinoma gástrico. Hipertensa, IMC de 41 kg/m², creatinina 1,6 mg/dL. Refere um episódio de melena há duas semanas, já investigado, sem sangramento desde então. A cirurgia está marcada para amanhã de manhã e será feita sob anestesia geral com cateter peridural. Faça a avaliação de risco de tromboembolismo venoso, pese o risco de sangramento, decida o método, a droga, a dose ajustada e o horário da primeira administração, e defina por quantos dias a profilaxia deve continuar depois da alta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Profilaxia de tromboembolismo venoso — Preparatório para provas | OsceLabs