Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Os quatro tipos de choque

Classificação e diferenciação dos tipos de choque (hipovolêmico, cardiogênico, distributivo, obstrutivo)

Este capítulo não trata nenhum choque em particular: ele ensina a descobrir qual é. A prova entrega um paciente hipotenso sem diagnóstico e cobra a grade que separa os quatro — pré-carga, débito, resistência e saturação venosa — mais a mão que sente a extremidade e o olho que vê a jugular.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 58 anos, tabagista, dá entrada no pronto-atendimento com dispneia súbita e dor torácica. PA 78/50 mmHg, FC 128 bpm, turgência jugular, bulhas hipofonéticas e pulso paradoxal. A radiografia mostra área cardíaca aumentada em 'moringa'. O ECG evidencia baixa voltagem e alternância elétrica. Qual a conduta imediata mais adequada?

02

Como esse tema cai

Os outros capítulos desta coleção tratam choques com nome e sobrenome: o hemorrágico do trauma, com suas quatro classes e a transfusão maciça; o séptico, com o pacote de 1 hora; a insuficiência cardíaca descompensada, com os quatro perfis hemodinâmicos. Este capítulo trata do momento anterior a todos eles — o paciente hipotenso na porta, sem diagnóstico, e a pergunta que precisa ser respondida antes de qualquer conduta: de que tipo de choque é este.

A resposta muda tudo o que vem depois. Três dos quatro tipos começam com volume; um deles piora com volume. Três se resolvem com droga e tempo; um se resolve com uma agulha, uma faca ou um trombolítico, e nenhuma droga substitui isso. Errar a categoria não atrasa o tratamento: aplica o tratamento errado.

O que a prova cobra aqui é uma grade de quatro variáveis — pré-carga, débito cardíaco, resistência vascular sistêmica e saturação venosa central — mais um exame físico de trinta segundos que antecipa boa parte dessa grade sem nenhum cateter. Cobra também as três causas obstrutivas que matam em minutos, e a conduta completa de dois choques distributivos que não têm capítulo em lugar nenhum: o anafilático e o neurogênico.

Um aviso de calibragem antes de começar. A classificação em quatro tipos é internacional. O documento oficial brasileiro que reconhece choque à beira do leito — o protocolo AC16 do SAMU 192 — organiza a tabela por causa, com quatro colunas: hipovolêmico, neurogênico, cardiogênico e séptico. Duas dessas colunas são subtipos de distributivo, e o obstrutivo não aparece: suas causas estão no mesmo manual, mas como protocolos próprios, ao lado do trauma. Não é erro, é organização de quem atende dentro da ambulância. Mas muda o vocabulário que um enunciado de cenário brasileiro usa, e isso vale ponto.

03

O que muda decisão

Choque é perfusão, não pressão

A definição da força-tarefa europeia de terapia intensiva é curta e vale decorar: choque é uma forma generalizada e ameaçadora à vida de insuficiência circulatória aguda, associada a utilização inadequada de oxigênio pelas células. Repare no que não está escrito. Não há um número de pressão arterial na definição. Não há sequer a palavra hipotensão.

Isso não é preciosismo acadêmico, é a armadilha mais cobrada do tema. O organismo defende a pressão arterial até o fim, fechando a periferia, e é perfeitamente possível estar em choque com sistólica de 110 mmHg. O paciente que já não urina, que está confuso e cuja mão está fria e pegajosa está em choque, e quem espera a pressão cair para dar o nome perde a fase em que o tratamento ainda funciona.

O consenso resolve isso apontando três órgãos acessíveis sem exame nenhum — as três janelas de perfusão. A pele: fria, úmida, pegajosa, rendilhada, acrocianótica. O rim: débito urinário abaixo de 0,5 mL/kg/h. E o cérebro: obnubilação, desorientação, confusão. Duas dessas três janelas se abrem com a mão e com a conversa, e nenhuma delas depende de esfigmomanômetro.

O quarto elemento é bioquímico. O statement 11 (nível 1, qualidade de evidência baixa) manda medir lactato em todo caso de suspeita de choque, e o statement 12 registra que o lactato costuma estar acima de 2 mmol/L nos estados de choque. O lactato não diz qual é o tipo — ele diz que existe. E, a partir da diretriz europeia de 2025, o tempo de enchimento capilar deixou de ser um detalhe de exame e virou monitorização formal da perfusão cutânea, ao lado da temperatura da pele e do rendilhado.

Uma consequência prática que a prova adora: uma questão pode descrever um paciente com pressão normal, lactato de 4 mmol/L, diurese caindo e extremidades frias, e perguntar a conduta. Quem responde acompanhar e repetir a pressão errou. Já está em choque.

Três de fluxo baixo e um de fluxo alto

A frase que organiza o capítulo inteiro está no statement 3 do consenso europeu, e é o melhor investimento de memória do tema: dos quatro mecanismos de choque, três produzem estados de fluxo baixo — hipovolêmico, cardiogênico e obstrutivo — e um produz um estado hipercinético, de fluxo alto: o distributivo.

É uma divisão binária antes de ser uma classificação quádrupla, e ela se resolve com a mão. Nos três de fluxo baixo, o débito cardíaco caiu, e o organismo responde da única forma que sabe: fecha a periferia. Extremidade fria, úmida, pegajosa, pálida ou cianótica, enchimento capilar acima de 2 segundos. No distributivo, o débito cardíaco está normal ou alto e o que falhou foi o tônus do vaso: o sangue está circulando, e circulando demais, só que pelo lugar errado. Extremidade quente, pele rosada, enchimento capilar preservado.

Essa é exatamente a tabela do protocolo AC16 do SAMU 192, que separa hipovolêmico, cardiogênico e séptico — todos com pele fria, úmida e pegajosa, enchimento capilar acima de 2 segundos e consciência alterada — do neurogênico, que é pele quente e seca, coloração rosada, enchimento capilar normal abaixo de 2 segundos, frequência cardíaca diminuída e paciente alerta, lúcido e orientado.

Duas ressalvas honestas antes de confiar demais na mão. A primeira: o séptico aparece na tabela brasileira como pele fria e rendilhada, e não como pele quente. Isso porque a tabela é do pré-hospitalar, e o séptico que chega de ambulância costuma já estar na fase em que a vasoconstrição compensatória fechou a periferia. O choque quente é uma fase do distributivo, não um rótulo permanente. A segunda: o distributivo perde volume para o interstício por aumento de permeabilidade, então ele tem um componente hipovolêmico real embutido. Choque puro existe no livro; no paciente, existe choque com mecanismo dominante.

Mesmo assim, a divisão vale. Diante de um hipotenso sem diagnóstico, sentir a extremidade resolve metade do problema em três segundos, e resolve antes de qualquer exame chegar.

Quatro repetições do mesmo circuito circulatório esquemático, cada uma com um ponto de falha diferente destacado: reservatório vazio e circuito colapsado; bomba dilatada com fluxo fraco; obstrução externa comprimindo um segmento, com distensão a montante e vazio a jusante; e circuito inteiro dilatado e frouxo com fluxo rápido.
O mesmo circuito, quatro pontos de falha. Perdeu o conteúdo (hipovolêmico), perdeu a bomba (cardiogênico), alguém bloqueou o cano (obstrutivo) ou o cano perdeu o tônus (distributivo). Toda a grade hemodinâmica das próximas páginas é a leitura de qual destes quatro desenhos o paciente está reproduzindo.

A grade hemodinâmica: quatro variáveis que fecham o diagnóstico

A grade completa está na tabela do bloco de critérios, e é o coração deste capítulo. Aqui vale entender por que cada seta aponta para onde aponta, porque quem entende não precisa decorar quatro colunas.

Pré-carga, medida como pressão venosa central ou pressão de oclusão da artéria pulmonar. Ela responde a uma pergunta só: a pressão que enche o coração está alta ou baixa. No hipovolêmico ela é baixa porque o volume saiu do leito. No distributivo ela é baixa ou normal porque o leito aumentou de tamanho e o mesmo volume passou a caber folgado. No cardiogênico ela é alta porque a bomba não consegue esvaziar o que recebe e o sangue represa para trás. E no obstrutivo ela é alta porque existe um bloqueio mecânico e tudo o que está a montante dele se congestiona.

Débito cardíaco. Baixo nos três primeiros, pelas três razões que já vimos: falta conteúdo, falta bomba, falta passagem. Alto ou normal no distributivo — e essa é a chave que abre o quarto tipo. O paciente distributivo tem coração forte e sangue suficiente circulando rápido, e ainda assim está em choque, porque o problema não é a quantidade que circula, é o destino dela.

Resistência vascular sistêmica. Alta nos três de fluxo baixo, porque a vasoconstrição é a resposta compensatória universal à queda de débito. Baixa — e é o único caso — no distributivo, porque a resistência baixa é a própria doença, e não uma resposta a ela. Se você só pudesse medir uma variável, seria esta: é a única que aponta um tipo de forma isolada.

Saturação venosa central. Ela mede o que sobrou de oxigênio no sangue que voltou dos tecidos, e o normal fica acima de 70%. Nos três de fluxo baixo ela cai, porque o sangue passa devagar pelo tecido e o tecido extrai mais de cada hemácia. No distributivo ela sobe, ou fica normal apesar do lactato alto, porque o sangue passa rápido demais e por atalhos: chega ao coração ainda oxigenado, sem ter entregado nada. Um paciente com lactato alto e saturação venosa central alta é a assinatura do distributivo — não é falha de entrega, é falha de extração.

Duas honestidades sobre a grade, que a prova também cobra. A primeira: ela não separa cardiogênico de obstrutivo. Pré-carga alta, débito baixo, resistência alta e saturação venosa baixa descrevem os dois com igual precisão, e nenhuma combinação de números resolve. Quem resolve é a imagem — pericárdio, ventrículo direito, pulmão. A segunda: a saturação venosa central alta com lactato alto é, nas palavras do próprio consenso europeu, de utilidade limitada, porque uma medida central preservada pode esconder hipoperfusão regional. Ela sugere o distributivo; não o prova.

O exame físico decide mais do que o monitor

A boa notícia é que três das quatro variáveis da grade têm equivalente clínico, e o equivalente clínico chega antes do cateter. A jugular substitui a pré-carga. A extremidade substitui a resistência. A pressão de pulso substitui o volume sistólico.

A jugular é o achado mais econômico do tema. Turgência jugular a 45 graus significa pressão de enchimento alta, e pressão de enchimento alta em um paciente hipotenso restringe o diagnóstico a dois: cardiogênico ou obstrutivo. Jugular colabada em paciente hipotenso significa pressão de enchimento baixa, e restringe a hipovolêmico ou distributivo. Um olhar no pescoço divide os quatro em dois pares.

Cruze isso com a extremidade e a grade se fecha sozinha. Jugular estufada com extremidade fria: cardiogênico ou obstrutivo. Jugular colabada com extremidade fria: hipovolêmico. Jugular colabada com extremidade quente: distributivo. Jugular estufada com extremidade quente é a combinação rara e vale desconfiar de choque misto — o séptico com disfunção miocárdica, por exemplo.

A pressão de pulso é o terceiro sinal e o mais desperdiçado. Ela é a diferença entre a sistólica e a diastólica, e reflete o volume que o coração ejeta a cada batida. Nos três de fluxo baixo ela estreita, porque o volume sistólico caiu e a vasoconstrição sustentou a diastólica. No distributivo ela alarga, porque a vasodilatação derruba a diastólica enquanto a sistólica se mantém. Pressão de 90 por 40 mmHg em um paciente febril é uma pressão de pulso de 50 mmHg: é distributivo escrito com números.

Restam dois sinais que valem por si. O enchimento capilar acima de 2 segundos, que o protocolo brasileiro usa como corte formal e que a diretriz europeia de 2025 promoveu a monitorização. E a frequência cardíaca, que sobe em todos os tipos — com uma única exceção, que é justamente por isso a exceção mais cobrada de todo o assunto: o choque neurogênico, cuja frequência cardíaca está diminuída.

A ultrassonografia à beira do leito: o que ela acrescenta e o que ela não resolve

O statement 14 do consenso europeu (nível 2, qualidade moderada) diz, com todas as letras, que quando a avaliação hemodinâmica é necessária a ecocardiografia é a modalidade preferida para avaliar inicialmente o tipo de choque, em vez de tecnologias mais invasivas — e registra que a informação é obtida rapidamente, em geral em menos de 2 minutos, mesmo por médicos com treinamento mínimo. A diretriz europeia de 2025 manteve a ecocardiografia como primeira modalidade de imagem para definir o tipo de choque, agora como recomendação graduada.

A organização mais usada à beira do leito é a mnemônica bomba, tanque e canos, do protocolo de ultrassonografia rápida no choque. A bomba é o coração: existe derrame pericárdico com colapso de câmaras, o ventrículo esquerdo contrai bem ou está dilatado e parado, o ventrículo direito está dilatado e empurrando o septo. O tanque é o volume: a veia cava inferior está fina e colaba por completo à inspiração, ou está plena e sem variação. Os canos são o resto: aorta, veias profundas, pulmão.

Traduzindo para os quatro tipos. Ventrículo esquerdo pequeno, hipercontrátil, esvaziando por completo a cada sístole, com cava fina e colabável, é volume faltando — hipovolêmico ou distributivo. Ventrículo esquerdo dilatado, hipocontrátil, com cava plena, é cardiogênico. Cava plena com um achado mecânico associado é obstrutivo, e o achado nomeia a causa: derrame pericárdico com colapso diastólico de átrio e ventrículo direitos é tamponamento; ventrículo direito dilatado com desvio septal em paciente chocado é tromboembolismo pulmonar até prova em contrário; ausência de deslizamento pleural com hipotensão é pneumotórax hipertensivo.

E o que a ultrassonografia não resolve. Ela não distingue séptico de anafilático de neurogênico — os três desenham a mesma imagem hipercinética, e quem separa é a história: febre e foco, exposição a alérgeno com urticária, trauma com déficit neurológico. Ela também não substitui a decisão sobre volume: mesmo com a cava colabada, o statement 31 continua mandando preferir variáveis dinâmicas a estáticas para prever resposta a fluido.

Obstrutivo: os três que matam em minutos

O choque obstrutivo é o mais raro dos quatro e o mais urgente, e a razão é a mesma: nenhuma droga o trata. Existe um obstáculo mecânico entre o coração e o resto do corpo, e alguém precisa removê-lo com as mãos. Volume e vasopressor compram minutos e nada mais — e a prova costuma testar exatamente isso, oferecendo uma alternativa que expande volume e reavalia quando o certo era puncionar.

Tamponamento cardíaco. O líquido no pericárdio impede o enchimento diastólico, e a assinatura é a tríade de Beck: hipotensão, turgência jugular e abafamento das bulhas. A tríade completa é minoria; o par hipotensão mais jugular estufada com pulmão limpo já basta para agir. Some pulso paradoxal e atividade elétrica sem pulso com QRS estreito e o quadro fecha. A imagem mostra derrame com colapso diastólico das câmaras direitas. A conduta imediata é esvaziar o pericárdio — pericardiocentese, janela pericárdica ou toracotomia, conforme o cenário. O detalhe técnico está no capítulo de trauma torácico grave desta coleção; aqui interessa reconhecer que o padrão hemodinâmico é obstrutivo e que volume é ponte, nunca tratamento.

Pneumotórax hipertensivo. O ar que entra e não sai empurra o mediastino e estrangula o retorno venoso. A assinatura é hipotensão com turgência jugular, mas com o pulmão gritando: murmúrio vesicular abolido de um lado, hipertimpanismo à percussão, desconforto respiratório grave. O desvio de traqueia é sinal tardio e não se espera por ele. E não se espera pela radiografia: o diagnóstico é clínico e a descompressão por agulha vem antes da imagem, seguida de drenagem torácica. Na ultrassonografia, a ausência de deslizamento pleural resolve em segundos.

Tromboembolismo pulmonar de alto risco. O coágulo obstrui a via de saída do ventrículo direito, que dilata, e o esquerdo passa a receber pouco. A assinatura é hipotensão com jugular estufada e pulmão limpo à ausculta, hipoxemia desproporcional ao exame e taquicardia. A diretriz europeia de 2019 define a instabilidade hemodinâmica do TEP em três formas: parada cardíaca; choque obstrutivo, que é sistólica abaixo de 90 mmHg ou necessidade de vasopressor para manter 90 mmHg somada a hipoperfusão de órgão-alvo; e hipotensão persistente, que é sistólica abaixo de 90 mmHg ou queda de pelo menos 40 mmHg por mais de 15 minutos sem outra causa identificável.

A conduta do TEP de alto risco é anticoagulação com heparina não fracionada — reservada justamente ao instável ou a quem aguarda reperfusão — e trombólise sistêmica, recomendação classe I. O esquema preferido é o rtPA em 100 mg infundidos em 2 horas, preferível às infusões prolongadas de estreptoquinase e uroquinase. O preço está registrado na própria diretriz: a metanálise de trombólise mostrou 9,9% de sangramento grave e 1,7% de hemorragia intracraniana. O benefício é maior quando a trombólise começa em até 48 horas do início dos sintomas, mas ainda existe entre 6 e 14 dias. Se a trombólise falhar — o que acontece em cerca de 8% dos casos de alto risco — ou estiver contraindicada, a embolectomia cirúrgica é classe I e o tratamento por cateter é classe IIa.

O fio que costura os três: turgência jugular com hipotensão e um pulmão que denuncia a causa. Pulmão limpo com hipoxemia grave é TEP. Pulmão abolido e hipertimpânico de um lado é pneumotórax hipertensivo. Pulmão limpo com bulhas abafadas é tamponamento. Três perguntas de estetoscópio separam os três, e as três respostas levam a procedimentos diferentes.

Três cortes torácicos lado a lado: coração comprimido por derrame pericárdico circunferencial com colapso das câmaras direitas; hemitórax cheio de ar com pulmão colapsado e mediastino desviado para o lado oposto; e trombo na bifurcação da artéria pulmonar com ventrículo direito dilatado abaulando o septo sobre um ventrículo esquerdo pequeno.
Os três obstrutivos. Todos dão hipotensão com jugular estufada, e nenhum melhora com droga. O estetoscópio separa os três: bulhas abafadas com pulmão limpo, murmúrio abolido com hipertimpanismo, ou pulmão limpo com hipoxemia desproporcional.

Anafilático: adrenalina intramuscular na coxa, e tudo o que vem depois

O choque anafilático é distributivo por vasodilatação maciça e aumento de permeabilidade — o paciente perde tônus e perde plasma para o interstício ao mesmo tempo. Mas ele tem uma particularidade que o separa de todos os outros choques deste capítulo: existe uma droga que reverte o mecanismo inteiro, e o único erro que mata é atrasá-la.

O diagnóstico é clínico e os critérios da World Allergy Organization, reproduzidos pelo documento da Sociedade Brasileira de Pediatria, são dois. O primeiro: início agudo, em minutos a poucas horas, com envolvimento de pele ou mucosa — urticária generalizada, prurido, rubor, edema de lábios, língua ou úvula — somado a pelo menos um de três achados: comprometimento respiratório, redução da pressão arterial ou sintomas de disfunção de órgão-alvo, ou sintomas gastrintestinais graves. O segundo critério dispensa a pele: início agudo de hipotensão, broncoespasmo ou envolvimento laríngeo após exposição a alérgeno conhecido ou altamente provável, mesmo sem manifestação cutânea. Hipotensão, aqui, é queda de mais de 30% da pressão basal daquela pessoa, ou sistólica abaixo de 90 mmHg em adultos e crianças acima de 10 anos, ou abaixo de 70 mmHg mais duas vezes a idade em anos nas crianças menores.

A adrenalina é a primeira linha, e cada palavra da prescrição é cobrada. Adrenalina 1:1000, ou seja, 1 mg/mL, na dose de 0,01 mg/kg, com máximo de 0,5 mg no adulto — 0,5 mL da ampola — e máximo de 0,3 mg na criança. Via intramuscular. Sítio: região anterolateral do terço médio da coxa, que é o músculo vasto lateral. Repetir a cada 5 a 15 minutos conforme a gravidade e a resposta. O protocolo brasileiro chega ao detalhe da agulha: preparar de preferência em seringa de 1 mL e injetar com agulha 25 x 7, considerando 30 x 8 em obesidade ou hipertrofia.

Por que não endovenosa em bolus, que é a alternativa que a banca oferece. Porque a via intramuscular no vasto lateral atinge nível sérico alto rapidamente, com uma margem de segurança larga, enquanto o bolus endovenoso concentra dois riscos: erro de diluição, já que a ampola de anafilaxia é 1:1000 e a endovenosa exige 1:10.000, e toxicidade cardiovascular direta — taquiarritmia, hipertensão grave, isquemia miocárdica. Por isso o protocolo do Ministério da Saúde reserva a via endovenosa apenas aos casos de choque iminente ou já estabelecido, e mesmo aí manda fazer infusão lenta de adrenalina 1:10.000, obtida diluindo 1 mL em 9 mL, com titulação guiada por monitorização de frequência e ritmo. O documento da Sociedade Brasileira de Pediatria é ainda mais restritivo: diluições de 1:10.000 ou 1:100.000 só por via endovenosa em parada cardiorrespiratória ou em hipotensão profunda que não respondeu à expansão de volume nem a múltiplas injeções intramusculares.

A posição é conduta, não conforto, e tem nome próprio. Decúbito dorsal com membros inferiores elevados. O protocolo do SAMU escreve a proibição com todas as letras: não permitir que o paciente sente ou se levante bruscamente, nem colocá-lo em posição vertical, pelo risco de morte súbita — a síndrome da veia cava e do ventrículo vazio. Com o leito vascular dilatado e o volume represado na periferia, sentar o paciente esvazia o ventrículo e ele para. A única exceção é a dispneia ou o vômito, que pedem posição de conforto.

O resto do pacote inicial. Oxigênio suplementar se a saturação cair abaixo de 94% — e vale a observação do documento pediátrico de que a necessidade de mais de uma dose de adrenalina anda junto da saturação abaixo de 95%. Expansão volêmica com solução salina 0,9%, 1 a 2 litros rapidamente no adulto, o que corresponde a 5 a 10 mL/kg nos primeiros 5 a 10 minutos; na criança, 5 a 10 mL/kg nos primeiros 5 minutos e 30 mL/kg na primeira hora. Intubação orotraqueal precoce diante de rouquidão, edema de língua, estridor, edema de orofaringe ou angioedema — porque a via aérea que ainda está pérvia pode não estar em cinco minutos, e intubar edema instalado é outro problema. E salbutamol inalatório para o broncoespasmo residual, 1 jato para cada 2 kg de peso até o máximo de 10 jatos, a cada 15 a 20 minutos.

Duas populações mudam a conduta. Quem usa betabloqueador tende a apresentar quadros mais graves e pode não responder adequadamente à adrenalina: o protocolo brasileiro manda usar atropina se houver bradicardia persistente e brometo de ipratrópio inalatório no broncoespasmo resistente. E o diagnóstico diferencial que mais confunde é a reação vasovagal, que também dá hipotensão e sudorese — mas com bradicardia e sem urticária ou angioedema, ao passo que a anafilaxia cursa com taquicardia, e só bradicardiza na iminência da falência cardiorrespiratória.

O último ponto é a alta, e ele é cobrado porque parece burocrático e não é. Reações bifásicas ocorrem entre 8 e 12 horas depois do episódio agudo, em até 10% dos casos. Por isso a observação clínica é de no mínimo 6 a 8 horas nos casos leves e de 24 a 48 horas nos graves. Na alta: plano de ação por escrito em linguagem clara, identificação portátil com o diagnóstico, notificação da escola quando for criança, encaminhamento ao alergista, suspensão de medicamentos que atrapalham o tratamento de um próximo episódio — betabloqueadores e inibidores da enzima conversora de angiotensina — e a prescrição do autoinjetor de adrenalina, disponível em doses fixas de 0,1 mg para lactentes, 0,15 mg para crianças até 30 kg e 0,3 mg para crianças maiores e adultos, aplicado na face anterolateral da coxa, por cima da roupa para não perder tempo, com segunda dose 5 a 10 minutos depois se não houver melhora.

Neurogênico: o único choque que não taquicardiza

O choque neurogênico é distributivo por perda de tônus simpático. Uma lesão medular acima do nível torácico médio interrompe a via simpática que sai da medula, e o resultado é vasodilatação generalizada sem a taquicardia compensatória — porque a fibra que aceleraria o coração é justamente a que foi cortada. Sobra o vago, sem oposição, e o coração desacelera.

A tabela do protocolo AC16 do SAMU 192 o separa do hipovolêmico ponto a ponto, e é a comparação mais rentável de todo o capítulo. Hipovolêmico: pele fria, úmida e pegajosa, coloração pálida ou cianótica, enchimento capilar acima de 2 segundos, frequência cardíaca aumentada, nível de consciência alterado. Neurogênico: pele quente e seca, coloração rosada, enchimento capilar normal abaixo de 2 segundos, frequência cardíaca diminuída, paciente alerta, lúcido e orientado. Cinco linhas, cinco oposições.

Por que confundir os dois é grave, e é grave nas duas direções. Se você atribui ao neurogênico a hipotensão de um politraumatizado que na verdade está sangrando, você para de procurar a hemorragia e ele morre da causa que você deixou de tratar. E se você trata como hipovolêmico um neurogênico verdadeiro, você despeja litros em um paciente cujo problema é tônus vascular: a pressão não sobe porque o continente cresceu, você segue infundindo, e o resultado é edema pulmonar e hemodiluição sem nenhum ganho de perfusão.

A regra que resolve o dilema é a do próprio protocolo brasileiro, escrita nos protocolos AC16 e AT4: no atendimento pré-hospitalar, a conduta mais segura diante de um paciente traumatizado em choque é considerar a causa como hemorrágica até prova em contrário. Neurogênico é diagnóstico de exclusão em trauma. E, pior, os dois coexistem com frequência: quem quebra a coluna torácica no mesmo acidente costuma ter quebrado outras coisas. A bradicardia não afasta hemorragia; ela apenas explica por que a taquicardia esperada não apareceu.

A conduta é a única do capítulo que combina volume moderado com vasopressor precoce, e a ordem importa. Volume primeiro, porque o compartimento realmente está relativamente vazio para o novo tamanho do leito — mas volume com teto, porque o buraco não é de conteúdo. Em seguida, vasopressor com ação alfa para devolver o tônus perdido, que é a noradrenalina. Bradicardia sintomática pede suporte cronotrópico, com atropina. E há dois cuidados que a prova gosta: o paciente com lesão medular alta perde também a termorregulação e se torna praticamente poiquilotérmico, então aquecimento ativo é conduta e não conforto; e a coluna permanece imobilizada durante tudo isso.

Uma armadilha de nomenclatura fecha a seção, e ela cai. Choque neurogênico e choque medular não são a mesma coisa. Choque neurogênico é um fenômeno circulatório: hipotensão com bradicardia por perda de tônus simpático. Choque medular é um fenômeno neurológico: a perda transitória de toda a atividade reflexa abaixo da lesão, com flacidez e arreflexia, que nada diz sobre a pressão arterial. Um paciente pode ter os dois, um só, ou nenhum, e a alternativa que troca os nomes é distrator clássico.

Cardiogênico: o único em que volume é o veneno

Os critérios hemodinâmicos que definem o choque cardiogênico são três, e valem número. Hipotensão: sistólica abaixo de 90 mmHg ou PAM abaixo de 65 mmHg mantida por pelo menos 30 minutos, ou necessidade de vasopressor para sustentar a pressão acima disso. Congestão: pressões de enchimento do ventrículo esquerdo elevadas. Hipoperfusão de órgão: alteração do estado mental, pele fria e pegajosa, oligúria ou lactato elevado. Quando há cateter, os cortes herdados do ensaio SHOCK completam o quadro: índice cardíaco de 2,2 L/min/m² ou menos e pressão de oclusão da artéria pulmonar acima de 15 mmHg.

A gradação em cinco estágios, do A ao E, também aparece em prova: A é o paciente em risco; B é o começo, com hipotensão ou taquicardia mas ainda sem hipoperfusão; C é o choque clássico, com hipoperfusão instalada; D é o que deteriora apesar do tratamento; e E é o extremo, refratário. A utilidade prática do estágio B é ser o único momento em que dá para agir antes de o choque existir.

O que muda na conduta em relação aos outros três é uma coisa só, e é a coisa mais importante deste capítulo. Nos outros três, a primeira medida envolve volume: no hipovolêmico o volume é o tratamento, no distributivo o volume acompanha o vasopressor, e no obstrutivo o volume é ponte enquanto alguém prepara o procedimento. No cardiogênico o volume é o veneno — o ventrículo já está cheio e falhando, e cada mililitro acrescido vira pressão retrógrada e edema pulmonar sem ganho de débito. Aqui a primeira medida é encontrar e tratar a causa da falha de bomba, e sustentar a bomba enquanto isso.

A escolha da droga tem evidência direta e vale saber o nome do ensaio. O OptimaCC comparou adrenalina e noradrenalina no choque cardiogênico pós-infarto tratado com angioplastia: o efeito sobre a pressão e sobre o índice cardíaco foi semelhante, mas o braço da adrenalina teve incidência maior de choque refratário, mais acidose lática, mais taquicardia e arritmia e pior perfusão da mucosa gástrica. O estudo foi interrompido precocemente por segurança, com 57 dos 80 pacientes previstos. Antes dele, uma análise de subgrupo de 2010 já mostrara mortalidade em 28 dias maior com dopamina do que com noradrenalina justamente nesse grupo. Traduzindo para a prova: no choque cardiogênico, a noradrenalina é o vasopressor de partida, e a alternativa que abre com dopamina ou com adrenalina é o distrator.

Uma exceção importante fecha a seção, porque ela quebra a regra do volume e é cobrada exatamente por isso: o infarto de ventrículo direito. Ele é um choque cardiogênico que se comporta como obstrutivo — hipotensão com turgência jugular e pulmão limpo — e é o único cardiogênico que quer volume, porque o ventrículo direito falho precisa de pré-carga para empurrar sangue através do pulmão, e nitrato ou diurético nesse paciente derruba a pressão. O reconhecimento e o manejo detalhados estão no capítulo de infarto com supradesnivelamento desta coleção; aqui basta guardar que hipotensão com jugular estufada e pulmão limpo em contexto de infarto inferior não é tamponamento nem embolia.

E o resto da conduta do cardiogênico — os quatro perfis hemodinâmicos, quente ou frio, congesto ou seco, e a decisão entre diurético, vasodilatador e inotrópico — está no capítulo de insuficiência cardíaca aguda descompensada. Este capítulo entrega o cardiogênico até o ponto em que ele deixa de ser um diagnóstico diferencial e passa a ser um tratamento.

Quando o choque é misto — e ele frequentemente é

Os quatro tipos são categorias de mecanismo, não caixas exclusivas, e o paciente real costuma preencher mais de uma. O séptico com disfunção miocárdica induzida pela sepse tem distributivo e cardiogênico ao mesmo tempo, o que explica a jugular estufada com extremidade quente. O politraumatizado com tamponamento e hemorragia tem obstrutivo e hipovolêmico, e drenar o pericárdio sem repor sangue não resolve. O anafilático tem distributivo por vasodilatação e hipovolemia real por extravasamento capilar, e é por isso que o protocolo brasileiro observa que o choque vasogênico da anafilaxia pode exigir ressuscitação fluídica mais agressiva.

Há ainda o efeito do tempo, que a vinheta de prova costuma esconder. O choque muda de aparência ao longo do atendimento. O distributivo que chega quente fica frio quando a vasoconstrição compensatória se instala — é por isso que a tabela do pré-hospitalar brasileiro descreve o séptico com pele fria e rendilhada, e não com pele quente. O hipovolêmico bem reposto pode ficar hipercinético. E o paciente que responde a volume e depois volta a piorar está dizendo que o mecanismo dominante mudou, ou que nunca foi o que se pensou.

O que fazer com isso é simples e vale como regra final: trate o mecanismo dominante, reavalie logo, e use a imagem como árbitro. Se o paciente não respondeu como o mecanismo previsto mandava responder, o mecanismo estava errado — e refazer a grade custa dois minutos de ultrassom, enquanto insistir na hipótese errada custa o paciente.

04

A grade hemodinâmica dos quatro tipos

Esta é a tabela que o capítulo inteiro serve. Leia-a por coluna para reconhecer um tipo, e por linha para entender o que cada variável está medindo. Os quatro cartões abaixo mostram o mesmo padrão em forma de gráfico: quatro barras, na ordem pré-carga, débito cardíaco, resistência vascular sistêmica e saturação venosa central, cada uma acima ou abaixo da linha do normal. Repare desde já que os cartões do cardiogênico e do obstrutivo são quase idênticos: a grade hemodinâmica não separa esses dois, e isso é informação, não falha.

  1. 11. Reconheça que é choque sem esperar a hipotensão: pele fria ou rendilhada, débito urinário abaixo de 0,5 mL/kg/h, confusão. Meça lactato — acima de 2 mmol/L confirma.
  2. 22. Sinta a extremidade. Fria e pegajosa aponta para os três de fluxo baixo (hipovolêmico, cardiogênico, obstrutivo). Quente e seca aponta para distributivo.
  3. 33. Olhe a jugular a 45 graus. Estufada restringe a cardiogênico ou obstrutivo. Colabada restringe a hipovolêmico ou distributivo.
  4. 44. Calcule a pressão de pulso. Estreitada indica volume sistólico baixo; alargada, com diastólica baixa, indica vasodilatação.
  5. 55. Confira a frequência cardíaca. Aumentada em todos os tipos — exceto no neurogênico, que é o único com frequência diminuída.
  6. 66. Se a jugular está estufada, procure a causa mecânica antes de tudo: bulhas abafadas (tamponamento), murmúrio abolido com hipertimpanismo (pneumotórax hipertensivo), pulmão limpo com hipoxemia desproporcional (TEP).
  7. 77. Faça a ecocardiografia à beira do leito: ela é a primeira modalidade recomendada para definir o tipo de choque e dá a resposta em menos de 2 minutos. Bomba, tanque e canos.
  8. 88. Trate o mecanismo dominante: volume no hipovolêmico e no distributivo; desobstrução mecânica no obstrutivo; suporte da bomba e reperfusão no cardiogênico — e no cardiogênico, volume não é tratamento.
  9. 99. Vasopressor quando a pressão não sustenta: noradrenalina como padrão, com a exceção do choque anafilático, cuja droga é a adrenalina intramuscular na coxa.
  10. 1010. Alvo inicial de PAM de pelo menos 65 mmHg, individualizado: mais baixo no sangramento não controlado sem lesão cerebral, possivelmente mais alto no hipertenso crônico.
  11. 1111. Reavalie. Se o paciente não respondeu como o mecanismo previsto mandava, refaça a grade — o mecanismo estava errado ou mudou.

Hipovolêmico

Perdeu conteúdo. Pré-carga baixa, débito baixo, resistência alta, saturação venosa central baixa. Extremidade fria, jugular colabada, pressão de pulso estreitada. Volume é o tratamento, e o tratamento definitivo é estancar a perda. As classes I a IV do hemorrágico estão no capítulo de choque hemorrágico no trauma.

Cardiogênico

Perdeu a bomba. Pré-carga alta, débito baixo, resistência alta, saturação venosa central baixa. Extremidade fria, jugular estufada, congestão pulmonar. É o único dos quatro em que volume piora o quadro. Noradrenalina como vasopressor de partida; a exceção que quer volume é o infarto de ventrículo direito.

Obstrutivo

Alguém bloqueou o cano. Padrão hemodinâmico praticamente igual ao do cardiogênico — quem separa é a imagem, não o número. Extremidade fria, jugular estufada, e um pulmão que denuncia a causa. Nenhuma droga trata: tamponamento pede pericárdio esvaziado, pneumotórax hipertensivo pede agulha, TEP de alto risco pede trombólise.

Distributivo

O cano perdeu o tônus. Pré-carga baixa ou normal, débito alto, resistência baixa, saturação venosa central normal ou alta apesar do lactato alto — é falha de extração, não de entrega. Extremidade quente, jugular colabada, pressão de pulso alargada. Séptico tem capítulo próprio; anafilático e neurogênico estão neste.

ParâmetroHipovolêmicoCardiogênicoObstrutivoDistributivo
MecanismoVolume saiu do leitoBomba falhouBloqueio mecânico ao fluxoTônus vascular perdido
Estado de fluxoBaixoBaixoBaixoAlto (hipercinético)
Pré-carga (PVC / pressão de oclusão)BaixaAltaAltaBaixa ou normal
Débito cardíacoBaixoBaixoBaixoAlto ou normal
Resistência vascular sistêmicaAltaAltaAltaBaixa
Saturação venosa central (normal > 70%)BaixaBaixaBaixaNormal ou alta
Temperatura da peleFria, úmida, pegajosaFria, úmida, pegajosaFria, úmida, pegajosaQuente e seca na fase inicial; fria quando a periferia fecha
Coloração da pelePálida, cianosePálida, cianosePálida, cianoseRosada; o séptico pode chegar pálido e rendilhado
Enchimento capilarAcima de 2 sAcima de 2 sAcima de 2 sAbaixo de 2 s no início
Turgência jugularColabadaEstufadaEstufadaColabada
Pressão de pulsoEstreitadaEstreitadaEstreitadaAlargada (diastólica baixa)
Frequência cardíacaAumentadaAumentadaAumentadaAumentada — exceto no neurogênico, que é diminuída
Ausculta e pulmãoLimpoCongestão / estertoresLimpo no TEP e no tamponamento; abolido e hipertimpânico no pneumotórax hipertensivoLimpo, salvo broncoespasmo na anafilaxia
Ecocardiografia à beira do leitoVE pequeno e hiperdinâmico; cava fina e colabávelVE dilatado e hipocontrátil; cava plenaDerrame com colapso de câmaras direitas, ou VD dilatado, ou ausência de deslizamento pleural; cava plenaVE hiperdinâmico; sem achado obstrutivo
Primeira medidaVolume e estancar a perdaTratar a causa da falha de bomba e sustentar a bomba — volume não é tratamentoDesobstruir mecanicamente; volume é apenas ponteVolume mais vasopressor mais tratamento da causa
Onde este assunto se aprofundaCapítulo de choque hemorrágico no traumaCapítulo de IC aguda descompensada e edema agudo de pulmãoNeste capítulo, seção do obstrutivo; detalhe técnico no capítulo de trauma torácico graveSéptico: capítulo de sepse. Anafilático e neurogênico: neste capítulo

A grade não separa cardiogênico de obstrutivo. Pré-carga alta, débito baixo, resistência alta e saturação venosa baixa descrevem os dois com a mesma precisão. Quem separa é a imagem: pericárdio, ventrículo direito e pulmão. Se uma questão der só os números e pedir para escolher entre os dois, ela está mal escrita ou existe um achado clínico escondido no enunciado.

A saturação venosa central alta com lactato alto sugere distributivo, mas o próprio consenso europeu registra que essa combinação é de utilidade limitada, porque uma medida central preservada pode esconder hipoperfusão regional. Ela aponta o caminho; não fecha o diagnóstico.

A tabela oficial brasileira (protocolo AC16 do SAMU 192) não usa estas quatro categorias: ela lista hipovolêmico, neurogênico, cardiogênico e séptico. Dois desses são distributivos e o obstrutivo não tem coluna — suas causas aparecem no mesmo manual como protocolos próprios (pneumotórax hipertensivo e tamponamento cardíaco), e o tromboembolismo pulmonar sequer tem protocolo dedicado. Enunciado com vocabulário de pré-hospitalar brasileiro tende a usar a nomenclatura por causa.

O choque quente é uma fase, não um rótulo. O distributivo que demora a ser atendido chega com a periferia fechada e engana a mão do examinador — é por isso que o documento brasileiro descreve o séptico como pele fria e rendilhada.

A frequência cardíaca sobe em todos os tipos, com uma exceção: o neurogênico. Bradicardia com hipotensão e pele quente em vítima de trauma é perda de tônus simpático, não hemorragia — mas hemorragia pode estar acontecendo ao mesmo tempo, e a bradicardia não a afasta.

A direção da pré-carga classifica; o valor absoluto não guia reposição. Saber que a PVC está alta ou baixa separa os pares de tipos. Escolher infundir ou não infundir com base em um número-alvo de PVC é outra coisa, e é justamente o que as recomendações desaconselham (ver o bloco de divergências).

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A pressão venosa central serve para medir pré-carga?

A PVC isolada não guia reposição e nenhum valor absoluto é alvo

O consenso da força-tarefa europeia de terapia intensiva, de 2014, é explícito em duas recomendações de nível 1 com qualidade de evidência moderada: medidas comuns de pré-carga como a PVC ou a pressão de oclusão da artéria pulmonar não devem, isoladamente, ser usadas para guiar a reposição de fluidos (statement 28); e não se deve mirar nenhum valor absoluto de pressão ou volume de enchimento ventricular (statement 29). A justificativa registrada é a correlação ruim entre PVC e resposta a fluido — indivíduos normais têm PVC muito baixa sem precisar de volume, e parte dos pacientes com PVC alta ainda se beneficia de mais fluido. O mesmo documento manda preferir variáveis dinâmicas às estáticas (statement 31) e fazer prova de volume quando a decisão de infundir é tomada (statement 32).

Cecconi M, De Backer D, et al. Consensus on circulatory shock and hemodynamic monitoring. ESICM. Intensive Care Med. 2014, statements 28, 29, 31 e 32

A PVC deve ser medida quando há cateter, e a tendência carrega informação

A diretriz da mesma sociedade publicada em 2025 inclui, entre as suas 50 recomendações, uma declaração de boa prática de que a PVC deve ser medida quando o paciente já tem cateter venoso central. A revisão de monitorização hemodinâmica no choque cardiogênico registra a mesma nuance por outro caminho: a medida em ponto único não é recomendada como marcador de pré-carga por suas limitações como parâmetro estático, mas a monitorização contínua fornece informação sobre a tendência do estado volêmico — e a PVC alta permanece útil como marcador do lado congestivo, não do lado da resposta a fluido.

Monnet X, Messina A, et al. ESICM guidelines on circulatory shock and hemodynamic monitoring. Intensive Care Med. 2025; e Hamzaoui O, Boissier F. Hemodynamic monitoring in cardiogenic shock. Journal of Intensive Medicine

Na prova

As duas posições respondem a perguntas diferentes, e o enunciado revela qual está sendo feita. Se a questão pede para CLASSIFICAR o tipo de choque, a PVC entra como direção — alta separa cardiogênico e obstrutivo de hipovolêmico e distributivo — e essa leitura não é contestada por nenhuma das duas posições. Se a questão pede para DECIDIR infundir volume, o corpo internacional desde 2014 desautoriza o número absoluto e pede variável dinâmica ou prova de volume. Registre os anos, porque a distância entre 2014 e 2025 é o que produz alternativas de eras diferentes na mesma questão: enunciado que oferece um valor numérico de PVC como alvo de ressuscitação reproduz a prática anterior a 2014; enunciado que fala em elevação passiva das pernas, variação de pressão de pulso ou prova de volume está no corpo atual. Cenário de terapia intensiva com cateter já instalado e linguagem de tendência aponta a leitura de 2025.

Corticoide na anafilaxia: continua no protocolo ou saiu?

Permanece na sequência, depois da adrenalina e do volume

O protocolo AC33 do SAMU 192, do Ministério da Saúde, mantém a hidrocortisona na abordagem medicamentosa da anafilaxia, por via endovenosa ou intraóssea, na dose de 5 a 10 mg/kg com máximo de 100 mg. A posição no protocolo é informativa: ela aparece sob a rubrica na persistência do quadro clínico, isto é, depois da adrenalina intramuscular, do oxigênio e da expansão volêmica, e ao lado do salbutamol — nunca como medida inicial.

Ministério da Saúde. Protocolos SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolo AC33 (elaboração 2014, revisão 2015)

Tradicionalmente administrado, mas com pouca ou nenhuma ação no quadro agudo

O documento do Departamento Científico de Alergia da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2021, escreve textualmente que os corticosteroides, quer por via oral quer parenteral, são tradicionalmente administrados, porém têm pouca ou nenhuma ação no tratamento agudo da anafilaxia. Na tabela de agentes terapêuticos do mesmo documento, o glicocorticoide aparece com duas ressalvas explícitas: padronização de doses não estabelecida, e a prevenção de reações bifásicas registrada com ponto de interrogação. O documento também não atribui papel definido aos anti-histamínicos no quadro agudo.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Alergia. Anafilaxia: atualização 2021, Guia Prático de Atualização nº 6

Na prova

As duas posições concordam no que mais cai: corticoide nunca é a primeira medida e nunca substitui a adrenalina. A alternativa que abre o tratamento da anafilaxia com corticoide ou anti-histamínico é errada nos dois mundos, e é o distrator mais frequente do tema. A divergência real é estreita — se o corticoide continua ou não na sequência — e o recorte se identifica pela data e pelo vocabulário. Enunciado de cenário pré-hospitalar brasileiro, com dose de hidrocortisona em mg/kg e menção a protocolo do SAMU, está no corpo do Ministério da Saúde de 2014-2015. Enunciado que pergunta o que previne a reação bifásica, ou que cita posicionamento recente de sociedade de alergia, está no corpo de 2021, em que o benefício é questionado. Registre a diferença de anos: são sete anos entre os dois documentos, e o brasileiro oficial é o mais antigo dos dois.

O alvo pressórico é o mesmo nos quatro tipos de choque?

PAM de pelo menos 65 mmHg como alvo inicial

O statement 22 do consenso europeu (nível 1, qualidade de evidência baixa) recomenda mirar inicialmente uma PAM de pelo menos 65 mmHg. É o número de partida, aplicável ao choque ainda não caracterizado, e é o valor que aparece na maioria dos enunciados que não especificam contexto.

Cecconi M, De Backer D, et al. Consensus on circulatory shock and hemodynamic monitoring. ESICM. Intensive Care Med. 2014, statement 22

Alvo individualizado, mais alto em quem tem hipertensão de base

O mesmo consenso recomenda, em nível 1 com qualidade moderada, individualizar a pressão-alvo durante a ressuscitação do choque (statement 21), e sugere, em nível 2 com qualidade moderada, uma PAM mais alta em pacientes sépticos com história de hipertensão e naqueles que mostram melhora clínica com pressão mais alta (statement 24). A lógica é de autorregulação: o rim e o cérebro cronicamente hipertensos perfundem mal em faixas que um normotenso tolera.

Cecconi M, De Backer D, et al. Consensus on circulatory shock and hemodynamic monitoring. ESICM. Intensive Care Med. 2014, statements 21 e 24

Alvo mais baixo tolerado enquanto o sangramento não está controlado

O statement 23 (nível 2, qualidade baixa) sugere tolerar nível pressórico mais baixo em pacientes com sangramento não controlado por trauma, na ausência de lesão craniana grave — é o fundamento da hipotensão permissiva. O protocolo brasileiro do SAMU traduz o mesmo espírito em números operacionais de pré-hospitalar: repor cristaloide com o objetivo de manter a sistólica acima de 80 mmHg, e acima de 90 mmHg quando há traumatismo cranioencefálico.

Cecconi M, De Backer D, et al. ESICM. Intensive Care Med. 2014, statement 23; e Ministério da Saúde, Protocolos SAMU 192, protocolos AC16 e AT4

Na prova

Não há contradição entre as três: existe um número de partida e duas correções de contexto, e é o contexto do enunciado que diz qual das três está sendo cobrada. Choque indiferenciado, sem comorbidade nem sangramento descritos, aponta o valor de partida de 65 mmHg. Vinheta que faz questão de informar hipertensão de longa data, ou que descreve melhora da diurese e do sensório quando a pressão sobe, aponta a individualização para cima. Vinheta de trauma com sangramento ainda não controlado e sem lesão cerebral aponta a tolerância a pressão mais baixa — e a menção explícita a traumatismo cranioencefálico cancela essa tolerância. As próprias alternativas denunciam o recorte: quando uma delas oferece um alvo único e rígido para qualquer choque, o enunciado está testando se o candidato sabe que o alvo depende do tipo.

06

Caso resolvido

Mulher de 58 anos chega à emergência com dispneia súbita e mal-estar iniciados há 40 minutos. Fez artroplastia de joelho há 12 dias e está em repouso domiciliar. Ao exame: consciente, ansiosa, referindo sensação de desmaio. Frequência cardíaca 128 bpm, pressão arterial 78 por 56 mmHg, frequência respiratória 32 irpm, saturação 86% em ar ambiente e 91% em máscara não reinalante, temperatura axilar 36,4 °C. Extremidades frias e pálidas, enchimento capilar de 4 segundos. Turgência jugular a 45 graus. Ausculta pulmonar limpa e simétrica, sem estertores. Bulhas taquicárdicas, sem sopros, não abafadas. Sem edema pulmonar à radiografia. Lactato de 4,6 mmol/L. Diurese de 15 mL na última hora.
achado
As três janelas de perfusão estão abertas: pele fria e pálida com enchimento capilar de 4 segundos, débito urinário de 15 mL/h em paciente de porte médio (abaixo de 0,5 mL/kg/h) e sensação de desmaio. Lactato de 4,6 mmol/L confirma. É choque, e não apenas hipotensão.
achado
Extremidade fria e pegajosa coloca o caso na família dos três estados de fluxo baixo — hipovolêmico, cardiogênico ou obstrutivo — e exclui, à partida, o padrão hipercinético do distributivo. A ausência de febre e de foco infeccioso reforça.
achado
Turgência jugular a 45 graus significa pressão de enchimento alta. Isso elimina o hipovolêmico e restringe o diagnóstico a dois: cardiogênico ou obstrutivo. Um olhar no pescoço eliminou metade da grade.
achado
Pressão de pulso de 22 mmHg (78 menos 56): estreitada, coerente com volume sistólico baixo, e mais um argumento contra o distributivo, que alargaria a pressão de pulso.
achado
Aqui a grade hemodinâmica para de ajudar: cardiogênico e obstrutivo compartilham pré-carga alta, débito baixo e resistência alta. Quem decide é o pulmão. Ausculta limpa, sem estertores, e radiografia sem edema afastam a congestão que o cardiogênico produziria com essa pressão de enchimento.
achado
Pulmão limpo com hipoxemia grave e desproporcional ao exame, mais jugular estufada, mais fator de risco recente (artroplastia há 12 dias, imobilização), desenham o obstrutivo por tromboembolismo pulmonar. Bulhas não abafadas e murmúrio simétrico afastam as outras duas causas obstrutivas.
conduta
Ecocardiografia à beira do leito imediatamente — é a primeira modalidade recomendada para definir o tipo de choque e responde em menos de 2 minutos. O achado esperado é ventrículo direito dilatado com desvio septal e cava inferior plena, sem derrame pericárdico e com deslizamento pleural presente nos dois lados.
classificação
Sistólica de 78 mmHg com hipoperfusão de órgão instalada preenche a definição de choque obstrutivo da diretriz europeia de embolia pulmonar. É TEP de alto risco — a categoria que não espera angiotomografia para começar a ser tratada quando o paciente não tolera o transporte.
conduta
Anticoagulação com heparina não fracionada, que é a forma reservada ao paciente instável ou à espera de reperfusão, e trombólise sistêmica, recomendação classe I: rtPA 100 mg em 2 horas, esquema preferível às infusões prolongadas de estreptoquinase e uroquinase. O risco assumido está documentado: 9,9% de sangramento grave e 1,7% de hemorragia intracraniana na metanálise da própria diretriz.
conduta
Volume com parcimônia e vasopressor cedo. O obstrutivo aceita fluido apenas como ponte — encher um ventrículo direito já dilatado piora o desvio septal e reduz ainda mais o enchimento do esquerdo. Noradrenalina para sustentar a pressão enquanto a trombólise faz efeito, com alvo inicial de PAM de pelo menos 65 mmHg.
conduta
Plano B definido desde já: se a trombólise falhar — o que ocorre em cerca de 8% dos casos de alto risco, julgado por instabilidade persistente e disfunção de ventrículo direito inalterada — a embolectomia cirúrgica é classe I, e o tratamento dirigido por cateter é classe IIa.
07

Agora feche você

Mulher de 34 anos é levada ao pronto-socorro 15 minutos depois de ser picada por uma vespa no jardim. Chegou andando e está sentada na cadeira da triagem. Refere prurido intenso, sensação de garganta fechando e tontura. Ao exame: urticária generalizada com placas em tronco e membros, edema de lábios e de língua, voz levemente rouca, estridor discreto. Frequência cardíaca 118 bpm, pressão arterial 82 por 44 mmHg, frequência respiratória 28 irpm, saturação 92% em ar ambiente. Extremidades quentes e rosadas, enchimento capilar de 1 segundo. Jugulares colabadas. Sibilos difusos à ausculta. Está em uso de atenolol por enxaqueca. Pesa 60 kg.
achado
Extremidade quente e rosada com enchimento capilar abaixo de 2 segundos e jugular colabada: padrão hipercinético, com pré-carga baixa e resistência vascular baixa. É choque distributivo, e a mão do examinador já o disse antes de qualquer exame.
achado
Pressão de pulso de 38 mmHg com diastólica de 44 mmHg — alargada às custas de uma diastólica derrubada. É a assinatura numérica da vasodilatação, e o oposto do estreitamento dos três choques de fluxo baixo.
achado
O primeiro critério diagnóstico da World Allergy Organization está preenchido: início agudo com envolvimento de pele e mucosa (urticária generalizada, edema de lábios e língua) somado a comprometimento respiratório (estridor, sibilos, rouquidão) e a redução da pressão arterial. O agente é conhecido e a exposição foi há 15 minutos.
achado
Taquicardia com urticária afasta o principal diagnóstico diferencial, a reação vasovagal, que cursa com bradicardia e sem manifestação cutânea. A bradicardia na anafilaxia só aparece na iminência da falência cardiorrespiratória.
achado
Dois detalhes do enunciado mudam a conduta e não são decorativos: a paciente está sentada, e usa betabloqueador.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Esperar a hipotensão para chamar de choque A definição de choque não contém um número de pressão arterial: é insuficiência circulatória com utilização inadequada de oxigênio pelas células. Sistólica de 110 mmHg com pele fria, diurese abaixo de 0,5 mL/kg/h, confusão e lactato acima de 2 mmol/L é choque, e a vinheta que descreve exatamente isso está testando se você espera a pressão cair. As três janelas — pele, rim e cérebro — abrem antes do esfigmomanômetro.
  2. 2Tratar todo choque com volume Três dos quatro tipos começam com volume; o cardiogênico piora com ele, porque o ventrículo já está cheio e falhando, e cada mililitro vira pressão retrógrada. No obstrutivo, volume não é erro mas é ilusão: melhora transitoriamente e adia o único tratamento que funciona, que é mecânico. A alternativa que expande volume e reavalia diante de jugular estufada costuma ser o distrator mais caro da questão.
  3. 3Adrenalina endovenosa em bolus na anafilaxia A via é intramuscular, no vasto lateral — região anterolateral do terço médio da coxa —, com adrenalina 1:1000, 0,01 mg/kg, máximo de 0,5 mg no adulto e 0,3 mg na criança, repetível a cada 5 a 15 minutos. O bolus endovenoso concentra dois riscos: erro de diluição, porque a ampola da anafilaxia é 1:1000 e a via endovenosa exige 1:10.000, e toxicidade cardiovascular direta. A via endovenosa é reservada ao choque iminente ou estabelecido, em infusão lenta e titulada.
  4. 4Deixar o anafilático sentar ou levantar O protocolo do Ministério da Saúde escreve a proibição: não permitir que o paciente sente ou se levante bruscamente, nem colocá-lo em posição vertical, pelo risco de morte súbita — a síndrome da veia cava e do ventrículo vazio. A posição é decúbito dorsal com membros inferiores elevados, e a única exceção é dispneia ou vômito, que pedem posição de conforto. É conduta com o mesmo peso da droga.
  5. 5Atribuir a hipotensão do politraumatizado ao choque neurogênico No trauma, a conduta mais segura é considerar o choque como hemorrágico até prova em contrário — está escrito nos protocolos AC16 e AT4 do SAMU 192. Neurogênico é diagnóstico de exclusão, e os dois coexistem com frequência, porque quem fratura a coluna torácica no acidente costuma ter fraturado mais coisas. A bradicardia explica por que a taquicardia esperada não apareceu; ela não afasta a hemorragia.
  6. 6Confundir choque medular com choque neurogênico Choque neurogênico é circulatório: hipotensão com bradicardia e pele quente por perda de tônus simpático. Choque medular é neurológico: perda transitória de toda a atividade reflexa abaixo da lesão, com flacidez e arreflexia, sem nada dizer sobre a pressão arterial. O paciente pode ter os dois, um só ou nenhum, e a alternativa que troca os nomes é distrator clássico.
  7. 7Usar a PVC como número-alvo de reposição A direção da pré-carga classifica o tipo de choque: alta separa cardiogênico e obstrutivo de hipovolêmico e distributivo. Mas o valor absoluto não decide se cabe volume — as recomendações desde 2014 são de nível 1 em desautorizar tanto a PVC isolada como guia de reposição quanto qualquer alvo numérico de pressão de enchimento, em favor de variáveis dinâmicas e da prova de volume. Classificar e decidir infusão são perguntas diferentes.
  8. 8Achar que a grade separa cardiogênico de obstrutivo Os dois têm pré-carga alta, débito baixo, resistência alta e saturação venosa central baixa. Nenhuma combinação de números resolve, e uma questão que peça essa distinção sempre esconde um achado clínico no enunciado: congestão pulmonar aponta cardiogênico; pulmão limpo com hipoxemia grave aponta TEP; bulhas abafadas apontam tamponamento; murmúrio abolido com hipertimpanismo aponta pneumotórax hipertensivo. Procure o pulmão.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é de tamponamento cardíaco (hipotensão, turgência jugular, bulhas abafadas — tríade de Beck —, pulso paradoxal, alternância elétrica e cardiomegalia em moringa). Correta: o tratamento definitivo do tamponamento com instabilidade hemodinâmica é a pericardiocentese de urgência. Betabloqueador reduziria a taquicardia compensatória e precipitaria colapso hemodinâmico. Os achados apontam derrame pericárdico, não TEP; trombólise seria inadequada e perigosa. A expansão volêmica é apenas medida de ponte temporária; não resolve a compressão e não substitui a drenagem.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória as quatro linhas centrais da grade — pré-carga, débito cardíaco, resistência vascular sistêmica e saturação venosa central — para os quatro tipos, e depois confira. Em seguida, escreva de memória a prescrição completa da adrenalina na anafilaxia: concentração, dose em mg/kg, teto do adulto e da criança, via, sítio anatômico e intervalo de repetição. Por último, liste as três causas obstrutivas com o achado de ausculta que denuncia cada uma.

em 30 dias

Pegue cinco vinhetas de hipotensão de provas antigas e, antes de ler as alternativas, decida o tipo de choque usando apenas três dados: temperatura da extremidade, jugular e pressão de pulso. Depois confira se a alternativa correta é compatível com a categoria que você escolheu. Revise também: os critérios hemodinâmicos do cardiogênico (sistólica, tempo, índice cardíaco, pressão de oclusão), as três formas de instabilidade hemodinâmica no TEP com o esquema de trombólise, a tabela do AC16 que separa neurogênico de hipovolêmico linha a linha, e os tempos de observação da anafilaxia.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 41 anos dá entrada trazido pelo resgate após colisão de moto. Está consciente e orientado, conversando com você. Pressão arterial 84 por 52 mmHg, frequência cardíaca 54 bpm, frequência respiratória 20 irpm, saturação 97%. Extremidades quentes e secas, coloração rosada, enchimento capilar de 1 segundo. Refere que não sente as pernas. Há deformidade em coxa direita e escoriações no abdome. O choque é neurogênico, hemorrágico, ou os dois? Conduza o atendimento e decida. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Classificação e diferenciação dos tipos de choque – Os quatro tipos de choque — Preparatório para provas | OsceLabs