Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Terapia nutricional no cirúrgico: a via decide, e a primeira caloria cobra

Escolha da via de terapia nutricional no paciente cirúrgico, o prazo para somar a parenteral e a prevenção da síndrome de realimentação

Enquanto o intestino funciona, é ele quem alimenta. Quando deixa de funcionar, começa a correr um prazo que os documentos medem em números diferentes — e no desnutrido grave a conta inverte, porque alimentar depressa é o que faz mal.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 58 anos, submetido há 5 dias a gastrectomia total por adenocarcinoma gástrico, evolui em pós-operatório na enfermaria. Encontra-se hemodinamicamente estável, sem uso de drogas vasoativas, afebril, com dreno abdominal de baixo débito seroso. Ao exame, abdome flácido, ruídos hidroaéreos presentes, sem sinais de deiscência. A equipe posicionou sonda nasojejunal no intraoperatório. Avaliação nutricional prévia indicava desnutrição grave (perda ponderal de 14% em 3 meses, IMC 17,8 kg/m2, albumina 2,6 g/dL). Nas primeiras 48 horas de tentativa de progressão da dieta enteral pela sonda jejunal, o paciente atingiu apenas cerca de 40% da meta calórica estimada, sem intolerância digestiva. Considerando as diretrizes atuais de terapia nutricional perioperatória, qual a conduta mais adequada neste momento?

02

Como esse tema cai

A primeira pergunta da terapia nutricional cirúrgica não é quantas quilocalorias, é por onde. Ela tem resposta curta e quase sempre a mesma: se o tubo digestivo funciona e está acessível, é ele quem alimenta. O que torna o assunto cobrável é o resto — a lista, mais curta do que a intuição sugere, do que realmente impede usar o intestino; o prazo em que uma via insuficiente deixa de ser tolerável e passa a exigir a outra; e o doente em quem toda essa aritmética se inverte, porque nele o perigo não é a caloria que falta, é a que chega.

A régua brasileira aqui é de sociedade, não de norma federal, e são duas com escopos declaradamente diferentes. A Diretriz acerto de intervenções nutricionais no perioperatório, do Colégio Brasileiro de Cirurgiões com a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, responde por cirurgia geral eletiva e declara grau de recomendação e força de evidência item a item. A Diretriz brasileira de terapia nutricional no paciente grave, da mesma sociedade de nutrição, responde por terapia intensiva, e a edição mais recente não repete a anterior em pontos que decidem conduta. Para o doente em risco de realimentação, as réguas usadas no país são estrangeiras — a britânica e a norte-americana —, e elas discordam já no primeiro número.

O que se cobra neste capítulo tem cinco endereços. Primeiro, a via preferencial e a razão pela qual ela é preferencial. Segundo, o que contraindica de fato o tubo digestivo, separado do que apenas parece contraindicar. Terceiro, o prazo para somar a via venosa a uma via digestiva que não alcança a meta — o ponto em que os documentos deixam de concordar. Quarto, o teto calórico dos primeiros dias de pós-operatório, que não é o mesmo teto do doente de terapia intensiva. Quinto, o reconhecimento do doente em risco de síndrome de realimentação e a prescrição que se faz nele, que começa por não alimentar direito.

03

O que muda decisão

O intestino que funciona é o argumento inteiro

A hierarquia das vias não é preferência de escola: é a leitura que as duas diretrizes brasileiras fazem da mesma literatura. A via oral vem primeiro; não sendo possível, a enteral por sonda; e só depois a parenteral. A diretriz do perioperatório eletivo escreve que a via oral deve ser a primeira opção para a realimentação precoce, mesmo após procedimentos de grande porte, e a do doente grave sugere nutrição enteral em vez de parenteral em quem tem indicação de terapia nutricional, declarando para essa sugestão nível de evidência muito baixo — o que já diz alguma coisa sobre o tamanho da certeza que sustenta uma regra tão repetida.

A justificativa registrada é comparativa e antiga: estudos dos anos noventa mostraram que a nutrição enteral se associa a menor morbidade e menor tempo de internação do que a parenteral. O mesmo texto acrescenta a ressalva que quase nunca aparece no resumo — existem publicações que não encontraram diferença entre as duas vias, e o próprio documento levanta a hipótese de que isso se deva a modificações na formulação da parenteral. A superioridade da via digestiva é real, mas a margem encolheu conforme a bolsa venosa melhorou.

O que sustenta a preferência à beira do leito, porém, não é a metanálise: é o custo da outra via. A parenteral exige acesso venoso, em geral central, e cada acesso central carrega risco de infecção de corrente sanguínea; exige controle glicêmico apertado; e não devolve ao intestino o estímulo que o mantém trófico. Quando a cena descreve trânsito em recuperação, ruídos presentes, abdome flácido e nenhuma contraindicação, ela não está pedindo cálculo de meta — está perguntando se a discussão de via já terminou.

Há um detalhe de leitura que decide questões inteiras. A frase da diretriz não fala em intestino com peristalse audível: fala em trato gastrointestinal funcionante e acessível. Funcionante quer dizer capaz de absorver o que se oferta, e acessível quer dizer que existe caminho até um segmento capaz de absorver. Um doente sem ruídos audíveis pode ter as duas coisas; um doente com ruídos exuberantes e obstrução mecânica não tem nenhuma das duas.

Três degraus descendentes com um ícone cada: no mais alto, uma tigela com colher; no do meio, uma sonda fina entrando pelo nariz e chegando ao estômago e ao delgado; no mais baixo, uma bolsa de infusão em suporte ligada a uma veia do braço. Uma seta desce do primeiro degrau ao último.
A hierarquia das vias, na ordem em que as diretrizes brasileiras a leem: a via oral primeiro, mesmo depois de operação de grande porte; não sendo possível, a enteral por sonda; e só depois a parenteral, que cobra acesso venoso, risco de infecção de corrente sanguínea e controle glicêmico apertado, e não devolve ao intestino o estímulo que o mantém trófico.

A sonda que o cirurgião deixou já é uma decisão tomada

Boa parte das cenas de prova traz um cateter nasojejunal locado no intraoperatório, com a extremidade posicionada distalmente à anastomose. Esse dado não é enfeite: é uma decisão cirúrgica já tomada, e tomada justamente porque a equipe previu que a via oral demoraria a servir. Usar o cateter que está lá não abre discussão nova — encerra a que já tinha sido resolvida na mesa. O erro clássico é tratar a presença da anastomose como motivo para não usar a sonda que foi colocada para contorná-la.

A diretriz eletiva é explícita quanto ao momento: a realimentação oral ou enteral após operação abdominal eletiva deve ser precoce, em até vinte e quatro horas de pós-operatório, desde que o doente esteja hemodinamicamente estável — com grau de recomendação forte e força de evidência alta —, e a mesma frase acrescenta que a recomendação se aplica mesmo em casos de anastomoses digestivas. A diretriz do doente grave vai na mesma direção e registra que o uso precoce de nutrição enteral no pós-operatório reduz a incidência de deiscência de anastomose, o oposto do medo que costuma justificar o jejum.

A escolha entre posição gástrica e pós-pilórica tem regra própria, e ela não é a que o hábito sugere. A diretriz do doente grave sugere a administração em posição gástrica como padrão, e reserva o posicionamento pós-pilórico para três situações: alto risco de aspiração, intolerância à dieta não resolvida com procinéticos, e contraindicação clínica à alimentação por via gástrica. Passar a sonda além do piloro por rotina atrasa o início sem ganho demonstrado. Quando o cateter pós-pilórico já está posto, porém, a discussão some: ele resolve ao mesmo tempo o acesso e o risco.

Nas operações de grande porte de cabeça e pescoço e do trato digestivo alto — laringectomia total, esofagectomia, gastrectomia total, ressecções e derivações pancreáticas — a diretriz eletiva não espera o doente falhar na via oral: indica a enteral quando a nutrição precoce por via oral é impossível ou não recomendada. É por isso que a jejunostomia ou o cateter nasoentérico saem da sala junto com o doente nessas operações.

A lista curta do que realmente impede alimentar pelo tubo

A lista das contraindicações verdadeiras é mais curta do que a das que se inventam à beira do leito. Impedem usar o intestino: o choque não controlado, com hipoperfusão esplâncnica em curso; a obstrução mecânica; a isquemia mesentérica; a intolerância digestiva franca que não cede a procinético; e a fístula proximal de alto débito sem acesso distal. Fora disso, quase tudo que se costuma alegar não sustenta o jejum.

A diretriz do doente grave nomeia por escrito o que não contraindica. O uso de droga vasoativa, por si só, não impede iniciar nem manter a nutrição enteral; o que muda é a cautela conforme a dose sobe. A recomendação prática é começar ou recomeçar em dose trófica, da ordem de dez a vinte mililitros por hora, com acompanhamento de sinais de intolerância, desde que haja estabilidade hemodinâmica com microperfusão restabelecida e ressuscitação volêmica adequada. A edição anterior da mesma diretriz já dizia o mesmo com outras palavras, e acrescentava uma frase que continua valendo: o abdome aberto não se constitui em contraindicação ao uso de nutrição enteral.

Os gatilhos para adiar são objetivos e vale decorá-los como conjunto, porque a prova costuma dar um deles isolado e esperar que o grupo seja reconhecido. Adia-se em quem está na fase de ressuscitação volêmica; em quem está hipotenso, com pressão arterial média abaixo de sessenta milímetros de mercúrio; em quem tem sinais de intolerância do tubo digestivo; em quem tem lactato elevado com acidose metabólica grave; e em quem está com a dose de vasoativo em ascensão. Repare que a palavra que organiza a lista é ascensão, não presença: dose estável ou decrescente, com perfusão adequada, autoriza alimentar.

A ausência de ruídos hidroaéreos não entra em nenhuma dessas listas, e a distensão isolada no segundo dia de pós-operatório tampouco. Confundir recuperação gastrointestinal esperada com complicação é o que produz sonda nasogástrica desnecessária e jejum prolongado — e o jejum é ele próprio o que alimenta o íleo que se pretendia tratar.

Quatro relógios para o mesmo sessenta por cento

Quando a via digestiva funciona mas não alcança a meta, começa a correr um prazo. O limiar é consensual e fácil: sessenta por cento da meta planejada. O prazo não é. Somando o que os documentos brasileiros escrevem sobre a mesma decisão, existem quatro números diferentes, e cada um deles está no lugar certo do seu próprio texto.

A diretriz do perioperatório eletivo usa o limiar duas vezes, com relógios diferentes. Na resposta sobre terapia nutricional enteral, ela indica a sonda a quem não consegue atingir sessenta por cento da meta nutricional proposta após cinco a sete dias de pós-operatório somente com a via oral. Na resposta sobre terapia nutricional parenteral, prescreve a via venosa — isolada ou associada à enteral — quando a oferta calórica não atinge sessenta por cento da meta planejada após cinco dias. E, no texto de apoio dessa mesma resposta, registra que o início precoce da parenteral, até o terceiro dia de pós-operatório, tem sido recomendado por diretrizes de sociedades quando a enteral isolada não basta ou está contraindicada, dando o íleo prolongado como exemplo.

A diretriz do doente grave dá o quarto número, e ele aponta para o lado oposto: a nutrição parenteral suplementar não deve ser sistematicamente utilizada na primeira semana em doentes graves — e essa é uma das poucas recomendações do documento com nível de evidência alto. Um prazo de cinco dias cai dentro da primeira semana. Os dois números não podem ser obedecidos ao mesmo tempo no mesmo doente.

A saída não é escolher o número que se decorou: é ler qual documento tem jurisdição sobre o doente descrito. Enfermaria, pós-operatório eletivo, estável, sem disfunção orgânica, é território da diretriz do perioperatório, e ali o quinto dia com oferta abaixo do limiar autoriza somar a via venosa. Terapia intensiva, com vasoativo, ventilação mecânica e disfunção orgânica, é território da diretriz do doente grave, e ali a primeira semana é para insistir na via digestiva e corrigir o que a limita, não para abrir uma bolsa.

O mesmo número, duas forças de recomendação — e a razão está escrita

A assimetria mais instrutiva do assunto não está entre documentos: está dentro de um só. As duas frases em que a diretriz eletiva escreve o limiar de sessenta por cento nascem com pesos opostos. A que indica a sonda enteral tem grau de recomendação forte e força de evidência alta. A que indica a bolsa venosa, poucas páginas adiante, tem grau fraco e força de evidência baixa. Mesmo limiar, mesmo desfecho pretendido, metade da confiança.

O documento não deixa quem lê adivinhar por quê. No parágrafo imediatamente seguinte à recomendação fraca, declara que não foram encontrados estudos aleatorizados em doentes no pós-operatório comparando parenteral isolada ou associada à enteral, nem estudos comparando o melhor período para iniciar a parenteral. A recomendação é fraca porque o lastro é inexistente, e o documento diz isso com todas as letras.

E então faz algo que vale reparar: declara fora do próprio escopo exatamente a literatura que poderia socorrê-lo. O texto registra que há estudos avaliando o momento de iniciar a parenteral em doentes cirúrgicos críticos, em terapia intensiva, mas que esses estudos fogem do escopo da diretriz. O único corpo de evidência disponível sobre o relógio da parenteral foi lido, reconhecido e posto de lado por pertencer a outra população — e o prazo de cinco dias sobreviveu assim mesmo, com o rótulo honesto de recomendação fraca.

A leitura clínica que sai daí é mais útil que o número. O limiar não está em disputa; o que está em disputa é o que se faz ao cruzá-lo. Diante de um doente que o cruzou, a pergunta produtiva não é qual prazo decorar: é por que a via digestiva não está entregando, e se essa causa é corrigível — posição da sonda, procinético, dose de vasoativo, interrupções de rotina para exames — antes de puncionar uma veia central.

O teto dos primeiros dias não é o teto do doente grave

Escolhida a via, vem a dose, e aqui há duas réguas brasileiras que respondem por populações distintas e por isso não se somam. Para o pós-operatório eletivo, a diretriz do perioperatório recomenda não mais que vinte e cinco quilocalorias por quilo por dia para a maioria dos doentes em terapia nutricional enteral nos primeiros dias, com aporte proteico de aproximadamente um grama e meio por quilo por dia. É um teto, não um alvo: a frase começa por uma negativa.

Para o doente grave, a régua é progressiva e começa mais baixo: iniciar em faixa reduzida e só alcançar o patamar pleno depois dos primeiros dias, pela razão fisiológica de que o organismo em fase aguda produz energia endógena em quantidade relevante e a oferta cheia se soma a ela em vez de substituí-la. A construção detalhada dessa progressão, com a aritmética do balanço nitrogenado e as fases da resposta metabólica, é do capítulo de resposta metabólica ao trauma desta apostila.

O sinal que resolve está sempre na cena, não na tabela. Aplicar o teto do doente estável a quem está em choque é superalimentar; aplicar a restrição do doente crítico a quem já se recuperou é prolongar um déficit sem motivo.

Do lado da fórmula, a diretriz eletiva separa formulação de via. Ela permite que a fórmula do perioperatório contenha ou não imunonutrientes, mas determina que, em doentes de maior risco submetidos a operação de grande porte, a terapia nutricional inclua imunonutrientes — arginina, ácidos graxos ômega três e nucleotídeos —, com grau de recomendação forte e evidência alta. A diretriz do doente grave, por sua vez, não recomenda glutamina enteral de rotina no crítico. As duas frases convivem porque falam de nutrientes, doentes e momentos diferentes.

A fístula proximal de alto débito inverte a regra da via

Existe uma situação cirúrgica em que a hierarquia se inverte inteira, e ela cai em prova com regularidade: a fístula enterocutânea proximal de alto débito. O doente costuma estar em pós-operatório de ressecção extensa de delgado, com efluente entérico saindo pela ferida, íleo adinâmico associado e vários dias sem aporte adequado. Ofertar dieta pela boca ou por sonda gástrica nesse cenário aumenta o débito da fístula sem alimentar o doente: o nutriente sai pelo orifício antes de ser absorvido.

A saída depende da anatomia. Se existe alça funcionante e acessível distal ao orifício, alimentar por ali continua sendo a melhor via, e a jejunostomia distal é o que torna isso possível. Se não existe — porque o orifício é proximal, o trajeto é curto ou o íleo impede a progressão —, a via venosa deixa de ser alternativa inferior e passa a ser a única capaz de entregar aporte. Aqui a parenteral não é resgate por impaciência: é indicação por anatomia.

Uma ordem precisa ser respeitada antes de qualquer bolsa. Sepse não controlada consome aporte e impede recuperação nutricional: nutrir com coleção aberta é gastar nutrição. Controle do foco vem primeiro, nutrição depois, definição da anatomia em seguida e plano operatório por último. A classificação da fístula pelo débito e o roteiro completo de manejo pertencem ao capítulo de complicações pós-operatórias desta apostila.

A mesma inversão vale, por motivos diferentes, para o doente com íleo prolongado e distensão franca em uso de vasoativo, no qual a tentativa de nutrição enteral por sonda já fracassou com resíduo elevado e vômitos. Aí não há acesso a segmento absortivo, e insistir na sonda por fidelidade à regra é confundir preferência com dogma. A frase que resolve é curta: a via digestiva é preferida quando funciona; quando não funciona, preferir é prescrever jejum.

No desnutrido grave, a primeira refeição é o evento perigoso

Há um doente em que toda a lógica anterior se inverte, e ele aparece na prova com uma assinatura reconhecível: neoplasia de esôfago ou de estômago com disfagia progressiva, perda ponderal grande em poucos meses, ingestão quase nula por muitos dias, índice de massa corporal baixo, e potássio, fósforo e magnésio já reduzidos antes de qualquer dieta. Nele o risco não é a caloria que falta: é a que entra.

A fisiologia explica o paradoxo, e é ela que dita a prescrição. O jejum prolongado desloca o metabolismo para lipídio e proteína, esvazia os estoques intracelulares de fosfato, potássio e magnésio e reduz a reserva de tiamina, ainda que a concentração plasmática desses íons pareça normal. A primeira carga de carboidrato reacende a secreção de insulina, e a insulina empurra glicose, fosfato, potássio e magnésio para dentro da célula de uma vez. O plasma, que já vinha no limite, despenca: hipofosfatemia abrupta, arritmia, fraqueza muscular respiratória, retenção hídrica e, quando a tiamina acaba como cofator, disfunção neurológica.

A consequência prática é contraintuitiva e é ela que a prova cobra: no doente em risco, atingir a meta calórica depressa é erro, e postergar a nutrição indefinidamente também é. A conduta correta é a terceira — repor eletrólitos, repor tiamina antes de qualquer caloria, e começar a alimentar em aporte deliberadamente baixo, com progressão lenta e monitorização. Nenhuma das três partes é dispensável: repor eletrólito sem baixar o aporte não protege, e baixar o aporte sem repor tiamina troca um risco por outro.

Vale marcar o detalhe que costuma passar: a tiamina entra antes da primeira caloria, e isso inclui o soro glicosado. Prescrever glicose venosa a um desnutrido grave enquanto se espera a bolsa de nutrição chegar já é a primeira carga de carboidrato, e já dispara a mesma cascata. A diretriz brasileira do doente grave chegou a registrar essa ordem — suplementar tiamina antes do início da terapia nutricional ou do aporte endovenoso com soro glicosado —, mas o fez apenas dentro do recorte do doente pós-bariátrico, e a edição mais recente não traz a palavra tiamina em lugar nenhum.

Quem está em risco, e por que o índice de massa corporal quase nunca é o critério que classifica

Duas listas de critérios circulam, e é útil saber que ambas existem porque o enunciado costuma fornecer dados que servem às duas. A britânica separa dois grupos. Basta um destes: índice de massa corporal abaixo de dezesseis; perda ponderal não intencional maior que quinze por cento nos últimos três a seis meses; ingestão nutricional escassa ou nula por mais de dez dias; níveis baixos de potássio, fosfato ou magnésio antes de alimentar. Ou então dois destes: índice de massa corporal abaixo de dezoito e meio; perda maior que dez por cento em três a seis meses; ingestão escassa ou nula por mais de cinco dias; história de abuso de álcool ou uso de fármacos como insulina, quimioterápicos, antiácidos ou diuréticos.

A norte-americana organiza os mesmos domínios em duas colunas de gravidade — risco moderado, com dois critérios, e risco significativo, com um só — e acrescenta domínios que a britânica não usa: perda de gordura subcutânea, perda de massa muscular e comorbidade de maior risco. Nos números, é mais permissiva no índice de massa corporal e mais rigorosa na perda ponderal, que já conta como significativa a partir de sete e meio por cento em três meses.

O ponto que engana está no índice de massa corporal, e ele é aritmético. Um doente com índice de exatamente dezesseis não preenche o critério britânico, que exige valor abaixo de dezesseis, e cai apenas na faixa moderada da régua norte-americana. Mas ele quase nunca chega sozinho: a mesma cena costuma trazer perda ponderal de mais de vinte por cento em três meses e ingestão quase nula por dez dias, e são esses dois dados que o colocam no topo das duas listas.

A lição vale para além deste assunto: quando uma cena empilha critérios, o número que está exatamente sobre a fronteira raramente é o que decide — ele está ali para atrair quem só olha um domínio. O trabalho é percorrer a lista inteira e contar quantos itens acendem, porque nas duas réguas o que classifica é a contagem.

Duas réguas para a primeira caloria, e um único valor cabe nas duas

Identificado o risco, a pergunta seguinte é quanto ofertar no primeiro dia, e aqui as duas réguas não coincidem. A britânica prescreve um teto: no máximo dez quilocalorias por quilo por dia, descendo a cinco quilocalorias por quilo em casos extremos, como índice de massa corporal abaixo de catorze ou ingestão desprezível por mais de quinze dias, com progressão lenta até atingir ou exceder as necessidades plenas em quatro a sete dias. A norte-americana prescreve uma faixa de partida: iniciar com cem a cento e cinquenta gramas de dextrose, ou dez a vinte quilocalorias por quilo, nas primeiras vinte e quatro horas, avançando cerca de um terço da meta a cada um ou dois dias.

As duas prescrições se tocam em um único ponto. Dez quilocalorias por quilo é, ao mesmo tempo, o teto de uma e o piso da outra: é o único valor que as duas autorizam. Abaixo dele só a britânica anda, e apenas no caso extremo; acima dele só a norte-americana. Descrever aporte inicial baixo com progressão lenta é ficar no ponto de concordância, e é por isso que essa formulação genérica resolve melhor que qualquer número isolado.

A tiamina segue a mesma geometria de discordância. A régua britânica prescreve duzentos a trezentos miligramas por via oral ao dia, imediatamente antes e durante os dez primeiros dias de alimentação, junto de complexo B e polivitamínico. A norte-americana prescreve cem miligramas antes de alimentar e cem miligramas por dia por cinco a sete dias ou mais nos casos de inanição grave e alcoolismo crônico. É a mesma vitamina, na mesma síndrome, com diferença de duas a três vezes na dose — e nenhuma das duas discute a indicação, apenas a quantidade.

A divergência que mais muda a conduta, porém, é outra. A britânica escreve que a correção prévia dos níveis plasmáticos baixos é desnecessária, e manda repor junto com a dieta: potássio, fosfato e magnésio em doses calculadas por quilo, a menos que os níveis já estejam altos. A norte-americana manda considerar segurar o início ou o aumento das calorias até que os eletrólitos estejam suplementados ou normalizados, e ainda orienta reduzir o aporte pela metade se, durante a progressão, eles ficarem difíceis de corrigir ou caírem abruptamente. Uma manda alimentar repondo, a outra manda repor para então alimentar.

A sequência que resolve à beira do leito

Reunindo o que foi construído, a decisão inteira cabe em uma sequência de perguntas, e a ordem entre elas é o que evita a maioria dos erros. A primeira pergunta não é sobre a via: é sobre o risco de realimentação. Percorrer os critérios antes de prescrever qualquer coisa custa segundos e muda a prescrição inteira, porque no doente em risco a resposta correta começa por tiamina e eletrólito, não por via de acesso.

A segunda pergunta é sobre o foco. Havendo coleção não drenada, peritonite ou sepse de foco abdominal em curso, o controle do foco antecede a nutrição — não porque a nutrição seja dispensável, mas porque ela não funciona enquanto o estímulo inflamatório está aberto. Só depois vem a terceira pergunta, que é a da via: o tubo digestivo está funcionante e acessível? Se está, é ele. Se há sonda pós-pilórica locada no intraoperatório, ela já responde à pergunta do acesso.

A quarta pergunta é de dose, e ela depende de onde o doente está. Em enfermaria, no pós-operatório eletivo, vale o teto do documento do perioperatório nos primeiros dias. Em terapia intensiva, na fase aguda, vale a régua progressiva do documento do doente grave, que começa mais baixo. A quinta e última pergunta é a do prazo: a via digestiva está entregando ao menos sessenta por cento da meta? Se não está, antes de somar a via venosa investigue por que não está, porque posição de sonda, procinético, interrupções de rotina e dose de vasoativo explicam boa parte dos déficits e todos têm correção mais barata que um acesso central.

Persistindo o déficit, a decisão de somar a parenteral depende de onde o doente está: no eletivo estável, a régua do perioperatório abre a porta ao redor do quinto dia; no crítico, a régua do doente grave manda atravessar a primeira semana. E há uma exceção que não obedece a relógio nenhum: fístula proximal de alto débito sem acesso distal, obstrução mecânica, isquemia mesentérica e choque não controlado dispensam o prazo, porque neles o intestino não está apenas lento — está indisponível.

04

Três perguntas em ordem: quem está em risco, por onde alimentar, quando somar a veia

A decisão nutricional cirúrgica erra quase sempre por ordem, não por conteúdo. Quem começa pela via esquece de rastrear risco de realimentação e mata de hipofosfatemia um doente que seria salvo por meio dia de tiamina; quem começa pela conta calórica prescreve bolsa venosa a quem tem uma sonda pós-pilórica já locada. A sequência abaixo é a mesma dos documentos, só que ordenada pelo que custa mais caro errar.

  1. 1Antes de qualquer prescrição, rastreie risco de síndrome de realimentação: índice de massa corporal, percentual de perda ponderal e em quanto tempo, dias de ingestão escassa ou nula, e potássio, fósforo e magnésio antes de alimentar. Um critério maior já basta.
  2. 2Havendo risco: reponha eletrólitos, dê tiamina antes da primeira caloria — inclusive antes de soro glicosado — e comece em aporte baixo com progressão lenta, monitorando fósforo, potássio e magnésio nos primeiros dias.
  3. 3Há foco infeccioso não controlado — coleção, peritonite, deiscência com sepse? Controle o foco primeiro. Nutrição com foco aberto não recupera estado nutricional.
  4. 4O trato gastrointestinal está funcionante e acessível? Se sim, a via é digestiva: oral sempre que possível; sonda quando a oral é impossível ou insuficiente.
  5. 5Se há sonda enteral locada no intraoperatório distal à anastomose, use-a — a decisão de acesso já foi tomada na mesa, e a anastomose não é motivo para não usá-la.
  6. 6Posição da sonda: gástrica como padrão; pós-pilórica se alto risco de aspiração, intolerância que não cede a procinético, ou contraindicação clínica à via gástrica.
  7. 7Vasoativo em dose estável ou decrescente, com perfusão adequada, não impede alimentar: comece trófico (10-20 mL/h). Adie se PAM < 60 mmHg, lactato alto com acidose grave, dose de vasoativo em ascensão, ou choque não controlado.
  8. 8A via digestiva está entregando ≥ 60% da meta? Se não, procure a causa corrigível — posição, procinético, interrupções de rotina, dose de vasoativo — antes de puncionar veia central.
  9. 9Persistindo o déficit: em pós-operatório eletivo estável, a régua do perioperatório abre a parenteral (isolada ou associada) ao redor do 5º dia; em doente grave de UTI, a parenteral suplementar não se usa sistematicamente na 1ª semana.
  10. 10Exceções que dispensam o relógio: fístula proximal de alto débito sem acesso distal, obstrução mecânica, isquemia mesentérica e choque não controlado — nelas a parenteral é indicação por anatomia ou por perfusão, não por prazo.

A hierarquia das vias, e o que a última cobra

Da esquerda para a direita: via oral, via enteral por sonda e via parenteral. As duas primeiras compartilham o mesmo tubo — a passagem de uma para a outra é uma questão de acesso, não de mudança de estratégia. A terceira é de outra natureza: exige acesso venoso, em geral central, com o risco de infecção de corrente sanguínea e o controle glicêmico que ele arrasta (alvo 140-180 mg/dL sob nutrição parenteral no doente grave).

Quatro relógios para o mesmo limiar de 60%

Linha do tempo do pós-operatório; a faixa clara cobre a primeira semana. Dentro dela caem os três prazos da diretriz do perioperatório eletivo: 3º dia (citado no texto de apoio como prática de outras sociedades), 5º dia (a recomendação própria, grau fraco) e o intervalo de 5-7 dias (o gatilho da via enteral, grau forte). A marca alta logo depois do fim da faixa é a diretriz do doente grave, que veta a parenteral suplementar sistemática na 1ª semana, com nível de evidência alto.

A primeira caloria: duas réguas que se tocam em um ponto só

Escala de oferta calórica no doente em risco de realimentação. A barra de baixo é a britânica, que estabelece teto de 10 kcal/kg/dia (e 5 kcal/kg nos casos extremos). A barra de cima é a norte-americana, que parte de 10-20 kcal/kg nas primeiras 24 h. O círculo marca 10 kcal/kg/dia: teto de uma, piso da outra, e único valor que as duas autorizam.

Os quatro prazos para somar a parenteral, e o documento de cada um

PrazoO que autorizaDocumento e força
Até o 3º dia de pós-opInício precoce da parenteral quando a enteral isolada não basta ou está contraindicada (ex.: íleo prolongado)Citado no texto de apoio da Diretriz ACERTO 2017 como recomendação de guidelines de sociedades — não é recomendação própria
Após 5 dias de pós-opOferta calórica < 60% da meta planejada, ou via digestiva impossibilitada → parenteral isolada ou associadaDiretriz ACERTO 2017, item III — grau FRACO, força de evidência BAIXA
Após 5-7 dias de pós-opNão atingir 60% da meta nutricional só com a via oral → terapia nutricional ENTERALDiretriz ACERTO 2017, item II — grau FORTE, força de evidência ALTA
Depois da 1ª semanaA nutrição parenteral suplementar não deve ser sistematicamente utilizada na primeira semana em pacientes gravesDiretriz BRASPEN do Paciente Grave 2023, item 7.2 — nível de evidência ALTO

O que contraindica, o que não contraindica e o que só manda adiar

SituaçãoEfeito sobre a via enteralFonte
Choque não controlado / hipotensão com PAM < 60 mmHgAdiar ou suspender a nutrição enteralBRASPEN 2023 (item 2.4 e corpo)
Dose de vasoativo em ASCENSÃO; lactato alto com acidose graveAdiar o inícioBRASPEN 2023 e 2018
Vasoativo em dose estável ou decrescente, perfusão adequadaNÃO contraindica — iniciar trófico, ~10-20 mL/hBRASPEN 2023 (2.4); BRASPEN 2018
Abdome abertoNÃO constitui contraindicaçãoBRASPEN 2018
Anastomose digestiva recenteNÃO contraindica — realimentação precoce em até 24 h, grau FORTE/ALTA; o uso precoce reduz deiscênciaACERTO 2017 (item 7); BRASPEN 2018
Ausência de ruídos hidroaéreos isoladaNão figura em nenhuma lista de contraindicação— (ausência nos dois documentos)
Obstrução mecânica, isquemia mesentérica, fístula proximal de alto débito sem acesso distalContraindicam: a via passa a ser parenteral por anatomiaACERTO 2017 (item III, 'via digestiva impossibilitada')

Risco de síndrome de realimentação: as duas réguas lado a lado

DomínioNICE CG32 (risco alto)ASPEN 2020 (risco significativo)
Quantos critérios bastam1 da lista maior, ou 2 da lista menor1 critério
Índice de massa corporal< 16 kg/m² (maior) · < 18,5 (menor)< 16 kg/m² (16-18,5 = risco moderado)
Perda ponderal> 15% em 3-6 meses (maior) · > 10% em 3-6 meses (menor)7,5% em 3 meses ou > 10% em 6 meses
Ingestãoescassa/nula > 10 dias (maior) · > 5 dias (menor)escassa/nula > 7 dias, ou < 50% das necessidades por > 5 dias na doença aguda
Eletrólitos pré-dietaK, P ou Mg baixos antes de alimentar (maior)níveis moderada/significativamente baixos, ou baixos recentes exigindo reposição múltipla
Domínios adicionaishistória de abuso de álcool; insulina, quimioterápico, antiácido, diurético (menor)perda de gordura subcutânea, perda de massa muscular, comorbidade grave
Primeira ofertamáximo 10 kcal/kg/dia (5 kcal/kg se IMC < 14 ou ingestão desprezível > 15 dias); plena em 4-7 dias10-20 kcal/kg ou 100-150 g de dextrose nas 24 h iniciais; avançar ~33% da meta a cada 1-2 dias
Tiamina200-300 mg/dia VO, imediatamente antes e nos 10 primeiros dias100 mg antes de alimentar; 100 mg/dia por 5-7 dias ou mais
Eletrólito antes da dietaCorreção prévia é DESNECESSÁRIA — repor junto (K 2-4 mmol/kg/d; P 0,3-0,6; Mg 0,2 EV / 0,4 VO)CONSIDERAR segurar início/aumento até suplementar ou normalizar

As duas diretrizes brasileiras têm escopos declarados e mutuamente exclusivos: a do perioperatório responde por cirurgia geral ELETIVA e a do paciente grave, por terapia intensiva. Quando o enunciado descreve pós-operatório em UTI, com vasoativo e ventilação mecânica, o doente está sob a segunda, não sob a primeira — e é aí que os prazos divergem.

A sigla NPS (nutrição parenteral suplementar) não existe na edição de 2018 da diretriz do doente grave: ela aparece na edição de 2023, que criou a pergunta e a respondeu com nível de evidência alto. Citar 'a diretriz BRASPEN' sem dizer a edição é, neste ponto, citar duas coisas diferentes.

A recomendação de iniciar parenteral no alto risco também mudou de edição: 2018 escrevia 'o mais precocemente possível'; 2023 escreve 'assim que vencida a fase de ressuscitação e estabilização iniciais'. As duas têm o mesmo nível (opinião de especialista) e relógios diferentes.

Imunonutrição e glutamina não são a mesma discussão. O ACERTO recomenda fórmula COM imunonutrientes (arginina, ômega-3, nucleotídeos) no perioperatório de alto risco, grau FORTE/ALTA; a BRASPEN 2023 NÃO recomenda glutamina enteral de rotina no crítico e contraindica glutamina parenteral na fase aguda com disfunção orgânica, renal, hepática ou instabilidade — e em doses acima de 0,5 g/kg/dia.

A palavra 'tiamina' não aparece nenhuma vez na edição de 2023 da diretriz do doente grave (0 ocorrências nos dois extratores, contra 4 na de 2018, todas na seção do pós-bariátrico). A régua da tiamina na realimentação, no Brasil, vem por empréstimo das diretrizes estrangeiras.

Duração da terapia nutricional pré-operatória: o próprio ACERTO escreve 5-10 dias na resposta sobre terapia nutricional pré-operatória e 7-14 dias na resposta sobre imunonutrientes, com 2.017 caracteres de distância entre as duas frases. Não é erro: são perguntas diferentes com literaturas diferentes — mas quem decora um número solto erra a outra.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quando somar a nutrição parenteral a uma via enteral que entrega menos de 60% da meta

Quando a via digestiva está impossibilitada para uso ou quando a oferta calórica não consegue atingir 60% da meta calórica planejada após cinco dias de pós-operatório, a terapia nutricional parenteral deve ser prescrita, isoladamente ou associada à nutrição enteral. Grau de recomendação FRACO, força de evidência BAIXA.

Diretriz ACERTO de intervenções nutricionais no perioperatório em cirurgia geral eletiva. Rev Col Bras Cir. 2017;44(6):633-648 — resposta 8, item III

A nutrição parenteral suplementar não deve ser sistematicamente utilizada, na primeira semana, em pacientes graves. Nível de evidência: alto.

Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN J 2023;38(2º Supl 2):2-46 — item 7.2

O início precoce da nutrição parenteral (até o terceiro dia de pós-operatório) tem sido recomendado em guidelines de sociedades quando a nutrição enteral isolada não é suficiente ou está contraindicada, como frente a íleo prolongado.

Diretriz ACERTO 2017 — texto de apoio da mesma resposta 8, item III, citando guidelines de sociedades

Na prova

As três frases colidem aritmeticamente: o 3º e o 5º dia caem dentro da primeira semana que a terceira posição manda preservar. A colisão, porém, é de POPULAÇÃO, e o próprio ACERTO diz isso por escrito no parágrafo seguinte ao item III: 'Há estudos que avaliaram o momento de iniciar a nutrição parenteral em pacientes cirúrgicos críticos, em terapia intensiva, mas que fogem do escopo dessa diretriz'. Ou seja, o documento do perioperatório declarou fora do seu escopo justamente a literatura que sustentaria um relógio — e por isso graduou o próprio como FRACO/BAIXA. Na prova, leia a cena antes do número: enfermaria, pós-operatório eletivo, estável, sem disfunção orgânica → régua do perioperatório, e o 5º dia com oferta abaixo de 60% autoriza somar a parenteral; UTI, vasoativo, ventilação mecânica, disfunção orgânica → régua do paciente grave, e a primeira semana é para corrigir o que limita a via enteral. Alternativa que fixa um prazo universal, sem qualificar onde o doente está, está errada nas duas réguas.

Quantas quilocalorias por quilo na primeira oferta ao doente em risco de realimentação

A prescrição para pessoas em alto risco de problemas de realimentação deve considerar iniciar o suporte nutricional em no máximo 10 kcal/kg/dia, aumentando lentamente até atingir ou exceder as necessidades plenas em 4 a 7 dias, usando apenas 5 kcal/kg/dia em casos extremos (por exemplo, IMC < 14 kg/m² ou ingestão desprezível por mais de 15 dias).

NICE CG32 — Nutrition support for adults: oral nutrition support, enteral tube feeding and parenteral nutrition, recomendação 1.4.8

Iniciar com 100-150 g de dextrose ou 10-20 kcal/kg nas primeiras 24 horas; avançar 33% da meta a cada 1 ou 2 dias. Isso inclui a glicose enteral e a parenteral.

ASPEN Consensus Recommendations for Refeeding Syndrome. Nutr Clin Pract. 2020;35(2):178-195 — Tabela 6

Na prova

As duas faixas se tocam num único valor: 10 kcal/kg/dia é o TETO de uma e o PISO da outra. Abaixo disso só a britânica anda (e só no caso extremo); acima, só a norte-americana. Por isso enunciado bem construído raramente pede o número exato — pede o PRINCÍPIO, e o princípio é 'aporte inicial baixo com progressão lenta, sob monitorização', que é onde as duas concordam. Se um número aparecer entre as opções, repare em duas coisas: se a cena descreve caso extremo (IMC muito baixo, jejum muito prolongado), a régua britânica desce a 5; e se a opção oferecer aporte pleno de 25-30 kcal/kg logo de início, ela está fora das duas réguas, porque essa é a meta a atingir depois de dias, não a oferta do primeiro dia. Vale também lembrar que a ASPEN publica, no mesmo artigo, a medida que enfraquece o critério que tabula: só cerca de 25% dos 92 doentes rotulados em risco pelos critérios NICE desenvolveram hipofosfatemia grave na realimentação (sensibilidade 50% e especificidade 76% para nutrição parenteral).

Corrigir potássio, fósforo e magnésio antes de alimentar, ou repor junto com a dieta

Fornecer suplementos orais, enterais ou intravenosos de potássio (necessidade provável 2-4 mmol/kg/dia), fosfato (0,3-0,6 mmol/kg/dia) e magnésio (0,2 mmol/kg/dia intravenoso, 0,4 oral), a menos que os níveis plasmáticos pré-alimentação estejam altos. A correção prévia dos níveis plasmáticos baixos é desnecessária.

NICE CG32, recomendação 1.4.8

Em pacientes com risco moderado a alto de síndrome de realimentação com níveis baixos de eletrólitos, deve-se considerar segurar o início ou o aumento das calorias até que os eletrólitos estejam suplementados e/ou normalizados.

ASPEN Consensus Recommendations for Refeeding Syndrome, Nutr Clin Pract. 2020;35(2):178-195 — Tabela 6, 'Initiation of calories'

Na prova

A divergência é real e muda a prescrição: uma manda alimentar repondo, a outra manda repor para então alimentar. Repare no que NENHUMA das duas diz: nenhuma manda esperar a normalização espontânea sem repor, e nenhuma manda ofertar aporte pleno. Alternativa que propõe 'postergar a nutrição por 72 horas até a normalização espontânea dos eletrólitos' está fora das duas, porque a espera passiva não corrige déficit corporal total. A opção que reúne as duas réguas — corrigir eletrólitos, repor tiamina e iniciar em aporte baixo com progressão lenta — é a que sobrevive a qualquer das duas leituras, e é essa construção que as questões brasileiras usam.

06

Caso resolvido

Homem de 58 anos, submetido há 5 dias a gastrectomia total por adenocarcinoma gástrico, em pós-operatório na enfermaria. Está hemodinamicamente estável, sem drogas vasoativas, afebril, com dreno abdominal de 30 mL de líquido seroso claro nas últimas 24 h. Ao exame, abdome flácido, ruídos hidroaéreos presentes, sem sinais de deiscência. A equipe posicionou sonda nasojejunal no intraoperatório, distal à anastomose esofagojejunal, e a dieta enteral vem correndo desde o 1º dia. A avaliação nutricional de hoje mostra que a oferta pela sonda está entregando cerca de 45% da meta calórico-proteica, apesar de progressão sem intolerância. Peso prévio estável, índice de massa corporal 24 kg/m², potássio 4,1 mEq/L, fósforo 3,4 mg/dL, magnésio 2,0 mg/dL.
o rastreio que vem antes de tudo
Antes de discutir via ou dose, percorra os critérios de risco de realimentação. Peso prévio estável, IMC 24 kg/m², sem perda ponderal relevante, sem jejum prolongado antes da internação, e potássio, fósforo e magnésio normais. Nenhum critério maior ou menor acende: este doente NÃO está em risco de síndrome de realimentação, e a prescrição não precisa começar por tiamina e aporte reduzido. Ter feito o rastreio é o que autoriza pular a etapa.
o foco
Afebril, dreno seroso claro de baixo débito, abdome flácido, sem sinais de deiscência: não há foco infeccioso a controlar. Se houvesse coleção ou sepse abdominal, a nutrição entraria depois do controle do foco — nutrir com coleção aberta não recupera estado nutricional.
a via
O trato gastrointestinal está funcionante e acessível, e o acesso já existe: a sonda nasojejunal foi locada na mesa exatamente para contornar a anastomose. A via digestiva permanece, e a presença da anastomose esofagojejunal não é motivo para suspendê-la — a diretriz do perioperatório escreve que a realimentação precoce vale mesmo em anastomoses digestivas, e a do doente grave registra que o uso precoce reduz deiscência.
a causa do déficit
Antes de acrescentar uma via, procure por que a atual não entrega. Aqui a progressão vem ocorrendo sem intolerância — sem resíduo elevado, sem vômito, sem distensão —, o que afasta as causas corrigíveis mais comuns (posição da sonda, necessidade de procinético, interrupções de rotina). O déficit de 45% é de capacidade, não de manejo.
o prazo, e qual régua manda
Doente de enfermaria, pós-operatório eletivo, estável, sem disfunção orgânica: a jurisdição é da Diretriz ACERTO, não da diretriz do paciente grave. Estamos no 5º dia com oferta abaixo de 60% da meta apesar de via enteral em progressão. É exatamente o item III: prescrever terapia nutricional parenteral associada à enteral, mantendo a sonda. Não se troca de via — soma-se.
a dose e o que monitorar
Nos primeiros dias de pós-operatório a régua do perioperatório é um TETO: não mais que 25 kcal/kg/dia para a maioria dos doentes em terapia nutricional enteral, com aporte proteico de aproximadamente 1,5 g/kg/dia. A parte parenteral completa a diferença até a meta, e a partir do momento em que ela corre, entra o controle glicêmico — a faixa de 140-180 mg/dL é a recomendada sob nutrição parenteral no doente sob cuidados intensivos, e é o parâmetro que a prova costuma cobrar junto.
07

Agora feche você

Mulher de 62 anos com neoplasia de esôfago e disfagia progressiva, internada para início de suporte nutricional antes de esofagectomia. Perdeu 14 kg — cerca de 22% do peso — nos últimos 3 meses, e está com ingestão oral quase nula há 10 dias. Índice de massa corporal 16 kg/m². PA 100x60 mmHg, FC 88 bpm, T 36,4 °C, sem sinais de infecção. Exames: potássio 3,2 mEq/L (VR 3,5-5,0), fósforo 2,1 mg/dL (VR 2,5-4,5), magnésio 1,4 mg/dL (VR 1,7-2,4). A equipe programa iniciar terapia nutricional ainda hoje.
o risco, contado item a item
Pela régua britânica, um critério maior basta — e aqui acendem dois: perda ponderal não intencional maior que 15% em 3-6 meses (22% em 3 meses) e níveis baixos de potássio, fosfato e magnésio antes de alimentar. Repare no que NÃO acende: o IMC de exatamente 16 kg/m² não preenche o critério, que exige valor ABAIXO de 16. Pela régua norte-americana, o mesmo IMC cai apenas na faixa moderada (16-18,5), mas a perda de 22% em 3 meses e a ingestão nula por mais de 7 dias já classificam como risco significativo com um critério só. Risco alto nas duas — e não foi o IMC que classificou.
o que entra antes da primeira caloria
Tiamina, e antes de qualquer aporte de carboidrato — inclusive antes do soro glicosado que se costuma pendurar enquanto a dieta não chega. A dose diverge entre as réguas (200-300 mg/dia na britânica, imediatamente antes e nos 10 primeiros dias; 100 mg na norte-americana), mas a indicação e o momento não divergem em nenhuma.
os eletrólitos: repor junto ou repor antes
Aqui as duas réguas discordam e a prova aproveita. A britânica escreve que a correção prévia dos níveis baixos é desnecessária e manda repor JUNTO com a dieta (K 2-4 mmol/kg/dia; P 0,3-0,6; Mg 0,2 EV ou 0,4 VO). A norte-americana manda CONSIDERAR segurar o início ou o aumento das calorias até que os eletrólitos estejam suplementados ou normalizados. O que nenhuma das duas autoriza é esperar passivamente a normalização espontânea sem repor.
a primeira oferta
Aporte deliberadamente baixo, com progressão lenta e monitorização. A britânica fixa teto de 10 kcal/kg/dia, chegando às necessidades plenas em 4-7 dias; a norte-americana parte de 10-20 kcal/kg nas primeiras 24 h e avança cerca de 33% da meta a cada 1-2 dias. As duas se tocam em 10 kcal/kg/dia — teto de uma, piso da outra. Ofertar 25-30 kcal/kg de imediato está fora das duas.
a via, que aqui vem por último
Só depois de resolvido o risco de realimentação a pergunta da via faz sentido — e ela se resolve como sempre: o tubo digestivo está funcionante? A disfagia é mecânica e alta, de modo que a via oral não serve, mas o intestino abaixo da lesão absorve. O acesso enteral distal à obstrução (sonda transtumoral ou jejunostomia) mantém a via digestiva. Parenteral só se não houver acesso a segmento absortivo.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Não usar a sonda que o cirurgião deixou porque há anastomose O cateter nasojejunal locado no intraoperatório com a ponta distal à anastomose foi colocado exatamente para permitir alimentar sem passar pela sutura. A Diretriz ACERTO recomenda realimentação oral ou enteral em até 24 h com grau FORTE e evidência ALTA e escreve que isso vale MESMO em anastomoses digestivas; a BRASPEN acrescenta que o uso precoce de nutrição enteral no pós-operatório reduz a incidência de deiscência. Suspender a dieta 'para repouso da anastomose' é inventar uma indicação contra o texto de duas diretrizes.
  2. 2Tratar a ausência de ruídos hidroaéreos como contraindicação A frase das diretrizes é 'trato gastrointestinal funcionante e acessível', não 'peristalse audível'. Ruído é sinal semiológico grosseiro e tardio; a decisão se apoia em ausência de obstrução, ausência de isquemia, perfusão esplâncnica adequada e tolerância à oferta. Esperar o ruído voltar para alimentar prolonga o jejum que alimenta o íleo.
  3. 3Suspender a dieta enteral porque o doente está em uso de vasoativo A BRASPEN 2023 é explícita: o uso de droga vasoativa, por si só, não contraindica iniciar nem manter a nutrição enteral. O que muda é a cautela conforme a dose sobe, e a orientação é iniciar em dose trófica (~10-20 mL/h). O que manda adiar é outra coisa: fase de ressuscitação, PAM < 60 mmHg, lactato alto com acidose grave, dose de vasoativo EM ASCENSÃO, choque não controlado. Dose estável ou decrescente com perfusão adequada autoriza alimentar.
  4. 4Passar a sonda além do piloro por rotina A posição gástrica é o padrão sugerido pela BRASPEN 2023 (nível de evidência moderado). O pós-pilórico é reservado a alto risco de aspiração, intolerância não resolvida com procinéticos e contraindicação clínica à via gástrica. Buscar o posicionamento pós-pilórico como reflexo atrasa o início da dieta sem ganho demonstrado — e o atraso é o dano.
  5. 5Decorar 'o prazo' da parenteral sem perguntar onde o doente está Não existe um prazo. Existem quatro números publicados — 3º dia, 5º dia, 5-7 dias e 'não na 1ª semana' — e cada um pertence a um documento com escopo declarado. O ACERTO responde por cirurgia geral eletiva; a BRASPEN, por terapia intensiva. Alternativa que fixa um prazo universal, sem qualificar a população, é a que a prova usa para separar quem leu de quem decorou.
  6. 6Abrir a bolsa venosa antes de procurar por que a enteral não entrega Déficit de oferta enteral tem causas baratas e frequentes: sonda mal posicionada, intolerância que responde a procinético, interrupções de rotina para exames e procedimentos, prescrição de volume abaixo da meta. Todas se corrigem sem um acesso central — que traz risco de infecção de corrente sanguínea e exige controle glicêmico (alvo 140-180 mg/dL sob nutrição parenteral no doente grave).
  7. 7Alimentar o desnutrido grave com aporte pleno para 'recuperá-lo rápido' É o erro que mata. A oferta plena (25-30 kcal/kg/dia) num doente com jejum prolongado dispara a secreção de insulina e desloca fosfato, potássio e magnésio para dentro da célula, com hipofosfatemia abrupta, arritmia e falência respiratória. O relato de caso que abre o consenso da ASPEN descreve exatamente isso: fósforo caiu de 2,7 mg/dL para 1,1 mg/dL em 20 h de nutrição parenteral e seguiu para 0,4 mg/dL sem reposição, com hipotensão, arritmia e acidose.
  8. 8Achar que eletrólito normal exclui risco de realimentação A tabela de critérios da ASPEN traz uma nota de rodapé que é a própria armadilha: os eletrólitos podem estar normais apesar de déficit corporal total, e acredita-se que isso AUMENTE o risco. Normalidade plasmática num doente com semanas de jejum mede o que ainda circula, não o que existe no compartimento intracelular esvaziado.
  9. 9Deixar a tiamina para depois de instalar a dieta A tiamina entra antes da primeira caloria — e a primeira caloria inclui o soro glicosado prescrito enquanto se aguarda a nutrição. Ambas as réguas estrangeiras colocam a tiamina antes de alimentar; elas divergem apenas na dose (200-300 mg/dia na britânica, 100 mg na norte-americana). Nenhuma das duas discute a indicação.
  10. 10Ler o índice de massa corporal como o critério que classifica o risco IMC exatamente 16 kg/m² NÃO preenche o critério britânico, que exige valor abaixo de 16, e cai só na faixa moderada da régua norte-americana (16-18,5). Quem para no IMC subestima o risco. O que classifica esse doente no topo das duas listas é a perda ponderal (> 15% em 3-6 meses na britânica; 7,5% em 3 meses na norte-americana), a ingestão escassa prolongada e os eletrólitos baixos pré-dieta.
  11. 11Alimentar antes de controlar o foco na fístula ou na coleção não drenada Desnutrição na vigência de sepse não controlada não se corrige: nutrir com coleção aberta é gastar nutrição. A ordem é controle do foco, depois nutrição, depois definição da anatomia por imagem, e só então o plano operatório. Em fístula proximal de alto débito com íleo, a via passa a ser parenteral — mas só depois de o foco estar controlado.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Nas diretrizes ESPEN/BRASPEN, a via enteral é preferencial quando o trato gastrointestinal é funcional, mas quando a EN isolada nao atinge >50-60% da meta calorico-proteica apos ~48-72h — sobretudo em paciente de ALTO RISCO nutricional / gravemente desnutrido (perda de 14%, IMC 17,8, albumina 2,6) — indica-se nutricao parenteral SUPLEMENTAR (complementar) para alcancar o alvo, mantendo a EN. Errada: manter apenas EN insuficiente perpetua o deficit calorico-proteico num desnutrido grave, com piora do desfecho. Errada: nao ha sinais de fistula/deiscencia; suspender a EN funcionante e trocar por NPT total contraria a preferencia pela via enteral. Errada: jejum de 48-72h em desnutrido grave e deleterio; nao ha indicacao de repouso da anastomose sem complicacao. Errada: apos gastrectomia total com anastomose recente, a progressao para dieta oral plena imediata e precoce e o acesso jejunal justamente protege a via enteral distal a anastomose.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite a hierarquia e a frase que a define: oral → enteral por sonda → parenteral, com a condição escrita 'trato gastrointestinal FUNCIONANTE e ACESSÍVEL' (não 'com peristalse'). Realimentação oral/enteral em até 24 h no pós-op abdominal eletivo, grau FORTE / evidência ALTA, valendo MESMO com anastomose digestiva. Posição da sonda: gástrica é o padrão; pós-pilórica só em alto risco de aspiração, intolerância que não cede a procinético ou contraindicação à via gástrica. Depois diga o que NÃO contraindica: vasoativo em dose estável ou decrescente (comece trófico, 10-20 mL/h), abdome aberto, anastomose recente, ausência de ruídos. E o que manda ADIAR: ressuscitação em curso, PAM < 60 mmHg, lactato alto com acidose grave, vasoativo em ascensão, choque não controlado.

em 30 dias

Percorra os quatro relógios do limiar de 60%: até o 3º dia (guidelines de sociedades, citado no texto de apoio do ACERTO), 5º dia (ACERTO item III — FRACO/BAIXA), 5-7 dias (ACERTO item II, gatilho da via ENTERAL — FORTE/ALTA) e 'não sistematicamente na 1ª semana' (BRASPEN 2023 item 7.2 — evidência ALTA). Diga em voz alta por que o ACERTO graduou o próprio como fraco: não achou estudos aleatorizados no pós-operatório e declarou fora do escopo os estudos de cirúrgicos críticos. Dose: teto de 25 kcal/kg/dia com ~1,5 g/kg de proteína nos primeiros dias do pós-op eletivo (ACERTO); régua progressiva e mais baixa no doente grave (BRASPEN). Realimentação: critérios NICE (1 maior: IMC < 16, perda > 15% em 3-6 meses, ingestão escassa > 10 dias, K/P/Mg baixos; ou 2 menores) e ASPEN (moderado = 2 critérios, significativo = 1). Primeira oferta: NICE teto 10 kcal/kg (5 se IMC < 14 ou jejum > 15 dias), plena em 4-7 dias; ASPEN 10-20 kcal/kg nas 24 h iniciais, avanço de ~33% a cada 1-2 dias. Tiamina antes da primeira caloria: 200-300 mg/dia (NICE) x 100 mg (ASPEN). E a colisão que muda conduta: NICE diz que corrigir eletrólito antes é desnecessário; ASPEN manda considerar segurar as calorias até normalizar.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é chamado à enfermaria de cirurgia para avaliar um homem de 45 anos no 7º dia de pós-operatório de laparotomia por trauma abdominal, com ressecção extensa de jejuno. Ele evoluiu com saída de conteúdo entérico pela ferida operatória — cerca de 900 mL nas últimas 24 h — a partir de alça jejunal proximal, com íleo adinâmico persistente e distensão abdominal. Está há vários dias sem aporte nutricional adequado. A enfermagem quer saber se reinstala a dieta pela sonda nasogástrica, que está aberta e drenando. Antes de responder, decida a ordem: o que precisa estar resolvido antes de qualquer oferta, por que a via gástrica é a pior escolha possível aqui, e em que condição uma via digestiva ainda seria viável neste doente. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Escolha da via de terapia nutricional no paciente cirúrgico, o… – Terapia nutricional no cirúrgico: a via decide, e a primeira caloria cobra — Preparatório para provas | OsceLabs