Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Síndrome compartimental abdominal: a bexiga mede, a disfunção nova decide

Hipertensão intra-abdominal e síndrome compartimental abdominal: medir, graduar e decidir a descompressão

O abdome tenso da vinheta não decide nada, e o exame físico acerta pouco mais que uma moeda lançada ao ar. Quem decide é um número que se obtém pela bexiga, com o paciente em decúbito dorsal e ao fim da expiração — e a diferença entre hipertensão intra-abdominal e síndrome compartimental não está nesse número, está na disfunção de órgão que apareceu depois dele. Este capítulo põe em ordem a medida, os quatro graus, a escada clínica que vem antes da faca e o momento em que só reabrir resolve.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Sobre a monitorização da pressão intra-abdominal em pacientes críticos, considerando as condições em que a aferição está recomendada, assinale a alternativa correta.

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da pressão dentro da cavidade abdominal: como ela se mede, o que separa uma pressão alta de uma síndrome, o que se faz antes de abrir e o que só a abertura resolve. A cena é quase sempre a mesma, e quase sempre num paciente que já está internado — o terceiro dia de pós-operatório de uma laparotomia longa, o grande queimado no fim da reposição, o pancreático da segunda semana, o politraumatizado que voltou da mesa com a parede apenas coberta. O abdome está tenso, a diurese caiu e o ventilador começou a exigir pressões maiores para entregar o mesmo volume.

Ficam de fora os assuntos que já têm capítulo próprio nesta coleção e que a vinheta costuma trazer junto: o controle do foco na sepse abdominal, a reposição e a transfusão do choque hemorrágico, a perda de domicílio da hérnia gigante, o fechamento por etapas da gastrosquise e da onfalocele, a cronologia da necrose pancreática infectada e a fórmula de reposição do queimado. Fica de fora também, e por motivo mais forte, a síndrome de compartimento de membro: o nome é quase o mesmo, o mecanismo se parece, e o tratamento não é o mesmo — abrir uma fáscia de perna não descomprime uma cavidade.

O que sobra é a decisão em si, e ela é curta. Existe um número, ele tem um método de obtenção que é sempre o mesmo, e existe uma pergunta que o transforma em diagnóstico: apareceu disfunção de órgão que não existia antes? Enquanto a resposta for não, o tratamento é clínico e tem cinco degraus. Quando a resposta é sim e a pressão se mantém, o tratamento é uma laparotomia que não repara nada — apenas abre.

03

O que muda decisão

A pressão que não tem para onde ir

O abdome é uma caixa de paredes complacentes e teto móvel. Enquanto a complacência aguenta, acrescentar volume quase não muda a pressão; esgotada a complacência, cada mililitro a mais cobra muito mais milímetros de mercúrio que o anterior. É por isso que a piora costuma parecer súbita depois de horas de aparente estabilidade: a curva não é reta, e o paciente atravessa o joelho dela sem avisar.

No adulto saudável a pressão da cavidade é próxima de zero. No paciente crítico, com a parede tensa e o intestino cheio, espera-se mantê-la entre cinco e sete milímetros de mercúrio — e esse já é o valor de referência que interessa, porque é sobre ele que se calcula tudo o mais.

A grandeza que traduz o dano é a pressão de perfusão abdominal, que é a pressão arterial média menos a pressão da cavidade. Essa subtração é a fisiopatologia inteira: uma pressão arterial média confortável deixa de ser confortável quando a cavidade come vinte e cinco milímetros dela. Perfundir órgão dentro de uma caixa pressurizada é uma conta de diferença, não de valor absoluto, e quem só olha a pressão arterial não vê o que sobra.

Os órgãos cobram em ordem previsível. O rim é o primeiro e cobra por dois caminhos ao mesmo tempo — a veia renal é comprimida e a perfusão cai —, e é por isso que a queda da diurese antecede o resto. O diafragma sobe e o pulmão passa a ser ventilado contra uma caixa torácica que encolheu, de modo que a pressão de platô sobe sem que o pulmão tenha adoecido. O retorno venoso diminui pela compressão da veia cava, e o débito cardíaco cai apesar de o coração estar íntegro. O intestino isquemia, a barreira se rompe e a translocação alimenta a inflamação que produziu o edema — o círculo se fecha sobre si mesmo. E, mais acima, a pressão intracraniana sobe, porque a drenagem venosa cerebral também depende de a caixa abaixo do diafragma não estar cheia.

Duas entidades, um número e uma palavra

Hipertensão intra-abdominal é uma medida: pressão da cavidade sustentada ou repetida em doze milímetros de mercúrio ou mais. Só isso. Não exige sintoma, não exige disfunção, não exige abdome tenso ao exame.

Síndrome compartimental abdominal é uma medida mais uma consequência: pressão acima de vinte milímetros de mercúrio, sustentada, associada a disfunção de órgão que apareceu depois — com ou sem queda da pressão de perfusão abaixo de sessenta. A palavra que carrega o diagnóstico é nova. Um paciente que já dialisava e continua dialisando não ganhou disfunção nova; um paciente que urinava e parou, ganhou.

A consequência prática dessa definição é que a síndrome não é um patamar de pressão que se atravessa, é um encontro entre um número e um evento clínico. Existe paciente com pressão de vinte e oito e função preservada, que tem hipertensão de grau alto e não tem síndrome; e existe paciente com pressão de vinte e dois que abriu insuficiência renal, e esse tem. O tratamento se decide pelo par, nunca por um dos dois isolado.

O limiar tem uma sutileza que a literatura brasileira não resolveu. Um mesmo artigo nacional define a síndrome, na introdução, como pressão sustentada igual ou maior que vinte, e, na discussão, como pressão sustentada maior que vinte. A diferença cabe num sinal e vale um grau inteiro: vinte é o teto do segundo grau, de modo que a redação com igualdade faz a síndrome começar dentro do grau dois, enquanto a redação sem igualdade a faz começar no grau três. O mesmo artigo pontua como correta a resposta de que a síndrome começa no grau três — isto é, cobra a leitura estrita e imprime, algumas páginas antes, a leitura larga.

Essa mesma distinção organiza o vocabulário de uma terceira entidade que aparece nas fontes mais recentes: quando a pressão elevada num compartimento passa a repercutir sobre outros — o crânio, o tórax, os membros — fala-se em quadro policompartimental. O nome é útil para lembrar que a cavidade abdominal não é um sistema isolado, e que a pressão que reduz a perfusão do rim é a mesma que dificulta a drenagem venosa cerebral.

Os quatro graus, e o degrau que a prova cobra

A graduação é aritmética e não muda: grau um, de doze a quinze; grau dois, de dezesseis a vinte; grau três, de vinte e um a vinte e cinco; grau quatro, acima de vinte e cinco. São quatro faixas de quatro ou cinco milímetros cada, e a última é aberta.

O grau, sozinho, não indica operação. O que indica operação é a síndrome, e a síndrome exige a disfunção. Essa é a frase que separa quem estudou de quem decorou uma tabela: a régua numérica gradua a hipertensão, e é a clínica que promove a hipertensão a síndrome.

O quanto isso é sabido foi medido. Num hospital universitário terciário de referência estadual em trauma, com trinta e oito médicos entrevistados entre residentes e especialistas de cirurgia, terapia intensiva, emergência e clínica médica, pouco mais da metade — cinquenta e dois vírgula seis por cento — soube classificar corretamente os quatro graus. Uma proporção parecida, cinquenta e sete vírgula nove por cento, apontou o grau três como o início da síndrome.

Vale ler esses dois números juntos com um terceiro do mesmo levantamento: oitenta e um vírgula seis por cento dos entrevistados respondeu que não mede a pressão da cavidade, e a razão declarada não foi descrença no método nem falta de tempo — foi a inexistência de protocolo do serviço. Nenhum dos entrevistados considerou que medir, quando indicado, seria perda de tempo. O obstáculo, portanto, é organizacional antes de ser técnico.

Convém guardar também o que a graduação não é. Ela não é um relógio: subir de grau não implica que o paciente esteja piorando em alguma outra frente que não a pressão, e descer de grau depois de uma paracentese não significa que a disfunção já regrediu. Ela também não substitui a pressão de perfusão abdominal, que é a conta que diz quanto sobra para o órgão: dois pacientes com o mesmo grau e pressões arteriais médias diferentes têm perfusões diferentes, e é a diferença, não o grau, que explica por que um urina e o outro não.

A medida é pela bexiga, e o zero fica na linha axilar média

Medir a pressão diretamente exigiria puncionar a cavidade. A bexiga resolve o problema porque, com pouco líquido dentro, sua parede se comporta como membrana passiva: ela não gera pressão própria e transmite a da cavidade. Daí a via transvesical ser o padrão adotado pelo consenso internacional — barata, pouco invasiva e disponível em qualquer unidade que tenha sonda, seringa e régua.

A técnica é uma sequência de detalhes, e cada detalhe existe para eliminar um erro. O paciente fica em decúbito dorsal a zero grau, porque cabeceira elevada aumenta a pressão medida — a manobra que previne aspiração falseia a medida para cima. A bexiga é esvaziada por completo antes de instilar, porque urina residual soma volume que não é da cavidade. Instilado o soro, espera-se de trinta segundos a um minuto para o líquido equalizar no sistema fechado. A leitura se faz ao fim da expiração e com o abdome relaxado, porque contração de parede e inspiração empurram o valor para cima.

O zero da régua vai na linha axilar média, que é a referência hidrostática da cavidade; deslocar esse zero desloca todas as medidas do paciente na mesma direção, e a tendência ao longo do dia — que é o que interessa — some. Com a coluna de água estabilizada, a leitura sai em centímetros de água e precisa ser convertida para milímetros de mercúrio.

O protocolo brasileiro oferece a conversão de duas formas na mesma frase: multiplicar por zero vírgula setenta e quatro, ou dividir por um vírgula trinta e seis. As duas não dão exatamente o mesmo número — divergem em pouco mais de meio por cento —, e no limiar de vinte milímetros a diferença é de pouco mais de um décimo de milímetro. Não muda conduta nenhuma, e é justamente por isso que vale saber: o que muda conduta é o método da coleta, não a casa decimal da conversão.

Paciente deitado completamente plano no leito, com sonda vesical ligada a um sistema coletor fechado, seringa instilando pequeno volume de solução por um portal lateral e coluna líquida vertical ao lado de uma régua cuja marca inferior é alinhada por uma linha tracejada horizontal à linha axilar média do tórax.
A aferição pela bexiga em quatro detalhes, e cada um existe para eliminar um erro: decúbito dorsal a zero grau, porque cabeceira elevada empurra a medida para cima; bexiga esvaziada por completo antes de instilar o pequeno volume, porque urina residual soma pressão que não é da cavidade; leitura ao fim da expiração, com o abdome relaxado; e a marca zero da régua na linha axilar média, que é a referência hidrostática da cavidade.

Quanto se instila, e por qual sonda

O volume instilado tem dono e tem motivo. Volume grande demais faz a própria bexiga contribuir com pressão, e a medida sai superestimada — o que empurra para cima um número que decide reoperação. Volume pequeno demais pode não formar coluna suficiente para transmitir, embora os estudos citados nas fontes brasileiras mostrem que abaixo do padrão a diferença é pequena.

O consenso internacional fixou vinte e cinco mililitros de solução salina. O protocolo brasileiro publicado para terapia intensiva propõe vinte mililitros. A distância é pequena e cai dentro da faixa que a literatura descreve como sem efeito relevante, mas convém saber que existem duas cifras circulando em texto nacional.

No mesmo levantamento de trinta e oito médicos, a via foi o item mais bem sabido de todos: oitenta e nove vírgula quatro por cento apontou a via transvesical, contra sete vírgula nove por cento que apontou a via gástrica. Já o volume correto foi conhecido por menos da metade — quarenta e quatro vírgula sete por cento —, e mais de um terço indicou volume acima do padrão, exatamente o erro que superestima. Saber por onde medir e não saber quanto instilar é o retrato de um procedimento que se delega sem se conferir.

A sonda também divide opinião. O protocolo nacional descreve a medida intermitente com sonda de duas vias, puncionando com agulha o portal lateral do coletor para instilar o soro — e reconhece que, por exigir troca do sistema coletor a cada repetição, o método é pouco prático para monitorização longa. O mesmo protocolo indica a sonda de três vias quando se quer acompanhar de forma contínua, com uma via dedicada à medida. A crítica publicada na mesma revista é mais dura: considera a punção do portal contraindicada pelo risco de infecção e registra que conselhos regionais de enfermagem a proscrevem.

Quem se mede, e a partir de quando

Os fatores de risco cobrem quase toda a terapia intensiva cirúrgica, e é por isso que a triagem por fator de risco funciona mal. São cinco famílias: necessidade de reanimação volêmica, como choque e grande queimado; aumento do conteúdo da cavidade, como ascite volumosa, hemoperitônio e pancreatite aguda; distensão de víscera oca, como gastroparesia, íleo e pseudo-obstrução; sepse com disfunção orgânica; e insuficiência respiratória aguda, sobretudo a secundária à síndrome do desconforto respiratório agudo.

Como a lista é larga, a proposta brasileira inverte a lógica: em vez de escolher quem medir, mede-se todo paciente que entra na unidade intensiva, na admissão e seis horas depois. Duas medidas, porque uma só informa um valor e duas informam uma tendência. Quem tiver valor elevado passa a monitorização mais frequente.

Esse desenho recebeu uma objeção nominal na mesma revista, e ela é clinicamente relevante: encerrar o acompanhamento quando as duas primeiras medidas ficam abaixo de doze é perigoso, porque o balanço hídrico positivo — que é o principal produtor de hipertensão da cavidade — se acumula depois do primeiro dia. A recomendação alternativa é tratar a medida como mais um sinal vital, aferido até a alta da unidade.

Há ainda a exigência de repetição antes de chamar de síndrome. A crítica publicada sustenta que o diagnóstico não se fecha sem que as pressões se repitam altas, com disfunção associada, por três medidas consecutivas a cada seis horas — e o motivo é fisiológico: tosse e manobra de Valsalva produzem picos transitórios que podem chegar a valores altíssimos sem significar coisa alguma. Uma medida isolada elevada é um sinal para repetir, não uma indicação para operar.

Quanto vale a pena medir tanto: estudos internacionais citados nas fontes brasileiras encontram hipertensão da cavidade em cerca de metade dos pacientes críticos, com prevalência duas vezes maior sob ventilação mecânica — e associam a presença dela a aumento de mortalidade em vinte e oito e noventa dias.

O exame físico erra, e há número para isso

A tentação de dispensar a medida é grande, porque o abdome tenso e distendido parece evidente. O número diz o contrário: a acurácia do exame físico para apontar pressão elevada é de cerca de cinquenta por cento. Metade. Palpar a parede não identifica a metade dos pacientes que têm o problema, e a razão é anatômica — a parede complacente do paciente sedado e relaxado acomoda pressão sem endurecer proporcionalmente.

Vale notar como esse dado foi escrito em texto nacional. A crítica publicada afirma que o exame tem probabilidade de diagnóstico menor que a de lançar uma moeda e pedir cara ou coroa, e em seguida oferece como cifra os mesmos cinquenta por cento — que é exatamente a probabilidade da moeda, não menos que ela. O contraexemplo está dentro da própria frase. O ponto clínico permanece: um método que acerta metade não decide reoperação.

A oligúria é o sinal precoce clássico, e ela aparece antes das repercussões respiratória e hemodinâmica porque o rim é o primeiro a perder perfusão. No levantamento com trinta e oito médicos, só a via de aferição foi mais bem sabida do que ela, com setenta e um vírgula um por cento apontando-a corretamente; os demais dividiram-se entre acidose metabólica, exame físico e hipoxemia.

A armadilha da oligúria é o reflexo que ela dispara. Diante de pouca urina, o impulso é repor volume. Só que, aqui, o volume é a causa — e cada bolus adicional sobe a pressão que já está impedindo o rim de funcionar. Reconhecer que a oligúria pode ser mecânica, e não hipovolêmica, é o que separa o tratamento de sua caricatura.

A ventilação lê a pressão errada, e há como corrigir

Metade da pressão da cavidade se transmite ao tórax pelo diafragma. Isso significa que todos os números de pressão medidos no tórax de um paciente com abdome hipertenso estão contaminados, e contaminados na mesma direção: para cima.

A correção é a pressão transmural, e sua forma é sempre a mesma — o valor medido menos metade da pressão da cavidade. A pressão de platô transmural é o platô medido menos metade da pressão intra-abdominal; a pressão venosa central transmural e a pressão de oclusão da artéria pulmonar transmural seguem a mesma subtração.

Sem essa correção, produzem-se dois erros simétricos e ambos caros. O primeiro é ler platô alto como pulmão rígido e reduzir volume corrente de um pulmão que está apenas comprimido por baixo. O segundo é ler pressão venosa central alta como paciente cheio e suspender volume de um paciente que pode estar hipovolêmico — porque a caixa abdominal está empurrando o número para cima ao mesmo tempo que reduz o retorno venoso de verdade.

O leitor atento percebe a ironia: a mesma pressão que provoca a disfunção também falsifica os parâmetros com que se costuma avaliar essa disfunção. É mais um argumento para medir a pressão da cavidade cedo — sem o valor dela, não se pode nem sequer corrigir os outros.

Há ainda um efeito de mão dupla que costuma passar despercebido. A ventilação com pressão positiva e valores altos de pressão expiratória final positiva empurra o diafragma para baixo e soma pressão à cavidade, de modo que o ventilador não apenas lê errado a pressão abdominal como também contribui para ela. Em paciente com abdome já hipertenso, subir pressão expiratória final positiva para corrigir oxigenação pode agravar justamente o problema mecânico que está prejudicando a oxigenação — e o recrutamento alveolar, que costuma ser a resposta seguinte, precisa ser pesado com esse dado em mãos.

A escada clínica que vem antes da faca

Identificada hipertensão da cavidade, existe um conjunto de medidas clínicas cujo objetivo é impedir que ela vire síndrome. São quatro frentes, e elas atacam quatro causas diferentes do mesmo número.

A primeira é corrigir o balanço hídrico positivo: compensar o excesso de líquido usado na fase de choque, considerar diurético, considerar coloide e solução hipertônica em vez de mais cristaloide, e considerar hemodiálise ou ultrafiltração quando o rim já não retira. A segunda é melhorar a complacência da parede: otimizar sedação e analgesia, considerar bloqueio neuromuscular, evitar cabeceira acima de trinta graus e otimizar a ventilação. A terceira é esvaziar a víscera oca: sonda nasogástrica em sifonagem, descompressão retal, procinéticos e, em último caso, interrupção da dieta enteral. A quarta é drenar o líquido livre: paracentese de alívio ou drenagem percutânea guiada por imagem.

Essa quarta frente merece destaque porque resolve casos que pareciam cirúrgicos. Coleção única, delimitada e com janela segura pode ser drenada por punção, com a pressão caindo e a disfunção regredindo sem que a cavidade seja aberta. É a razão de a tomografia entrar na avaliação: não para diagnosticar a síndrome, que é diagnóstico de número e clínica, mas para procurar líquido drenável.

Duas dessas medidas contrariam hábitos arraigados, e por isso caem em prova. Manter a cabeceira elevada é rotina de prevenção de pneumonia associada à ventilação — e é também um gesto que sobe a pressão medida e a pressão real. Repor volume diante de oligúria é reflexo de qualquer plantão — e é o oposto do indicado quando a oligúria é compressiva. Nos dois casos, a conduta correta exige saber que a caixa está pressurizada, o que exige, de novo, ter medido.

Descomprimir: o que a laparotomia resolve e o que ela cobra

Quando a hipertensão se sustenta e há disfunção nova, o tratamento é a laparotomia descompressiva. Ela não é o último recurso de uma escalada infinita: é o tratamento definitivo da síndrome, e as medidas clínicas dos parágrafos anteriores existem para evitar chegar até aqui, não para adiar indefinidamente quem já chegou.

Antes de operar, convém classificar. Na síndrome primária, a causa está na própria cavidade — obstrução intestinal, abscesso, hematoma —, e a operação trata o órgão-alvo além de aliviar a pressão. Na síndrome secundária, a causa está fora da cavidade, tipicamente a reanimação volêmica maciça do queimado ou do politraumatizado, e não há órgão a reparar: a operação existe apenas para abrir espaço.

Um detalhe de técnica vale a prova inteira. Ao terminar qualquer laparotomia num paciente de risco, o cirurgião fecha a parede com cuidado e confere se a pressão realmente caiu antes de levar o paciente à unidade intensiva. Se não caiu, o abdome não deve ser fechado — o fechamento seria a causa da próxima síndrome. Essa conferência intraoperatória é o que transforma a descompressão de resgate em prevenção.

O abdome que fica aberto exige um curativo, e o padrão atual é a terapia por pressão negativa. Ela mantém a cavidade em sistema fechado e aspirativo, remove secreção e mediadores continuamente, previne a lateralização progressiva da aponeurose e facilita as reabordagens. O preço é conhecido e deve ser dito na mesma frase: fístula enteroatmosférica, perda de domicílio da cavidade e hérnia ventral residual. O fechamento posterior costuma exigir técnicas de separação de componentes, e a tela entra tarde, para não ser implantada em campo contaminado.

Existe uma exceção de cronograma que vale memorizar, porque é justamente o tipo de detalhe que separa duas alternativas plausíveis. Na pancreatite aguda, a regra é adiar a intervenção sobre a necrose infectada e preferir a abordagem em degraus, começando pela drenagem. A síndrome compartimental rompe esse cronograma: hipertensão sustentada com disfunção nova exige descompressão independentemente da semana de doença.

O controle de danos que produz a pressão

A operação abreviada e a pressão da cavidade são o mesmo assunto visto de dois lados. A cirurgia de controle de danos fragmenta a operação em etapas: primeiro controlar hemorragia e contaminação com o mínimo necessário — tamponar, grampear extremidades, lavar —, sem reconstruir nada; depois fechar a parede temporariamente e levar o paciente à terapia intensiva para corrigir a fisiologia; só então retornar para o reparo definitivo. O abdome deixado fechado apenas por curativo é o mesmo abdome que pode desenvolver hipertensão nas horas seguintes.

O que essa estratégia tenta interromper tem nome, e o nome mudou de tamanho. A literatura clássica e a maior parte das revisões brasileiras falam em tríade letal: hipotermia, acidose metabólica e coagulopatia. Uma coorte brasileira recente escreve tétrade, acrescentando a hipocalcemia à lista. O paciente é o mesmo; o número de elementos que a fonte enumera é que difere, e vale reconhecer os dois quando aparecerem.

As cifras nacionais ajudam a dimensionar. Numa coorte de um pronto-socorro de referência do Sul, entre quase setecentas laparotomias por trauma abdominal, menos de uma em cada dez terminou como operação abreviada, e a mortalidade desse subgrupo ficou perto de seis em cada dez, com predomínio de mecanismo penetrante. Numa série mais antiga de trinta e nove pacientes de um hospital universitário, a mortalidade chegou a quase oito em cada dez, com a maioria dos óbitos nas primeiras vinte e quatro horas e a hemorragia como causa em mais da metade.

A indicação, porém, é menos objetiva do que parece. Um estudo prospectivo com quarenta e seis pacientes perguntou ao cirurgião, logo após cada operação, por que ele havia escolhido abreviar, e comparou a resposta com os dados registrados. Instabilidade hemodinâmica e lesões de alta complexidade responderam pela maioria das justificativas, e alterações hemodinâmicas ou laboratoriais confirmaram a escolha em cerca de dois terços dos casos. No restante, a decisão foi tomada sem que os parâmetros objetivos a acompanhassem — e há registro de pacientes operados por essa via sem alteração alguma. Abreviar quem não precisava não é neutro: o fechamento temporário em lesões menos graves aumenta a morbidade do grupo.

Fecha-se assim o círculo que dá sentido a este capítulo. O mesmo hospital universitário que publicou a série de trinta e nove operações abreviadas, sem que a expressão pressão intra-abdominal apareça uma única vez no texto, publicou doze anos depois que quatro em cada cinco de seus médicos não medem essa pressão, e que a razão é a falta de protocolo do serviço. A operação que cria a condição estava consolidada; a medida que a diagnostica, não. É por isso que a régua deste capítulo é tão curta e tão insistente: medir, graduar, subir a escada clínica e reconhecer o momento em que só reabrir resolve.

04

Quatro faixas, e o que cada uma autoriza fazer

A coluna vertical à esquerda é a mesma nos quatro cartões: é a âncora, e representa a coluna, que não se move. O que muda de um cartão para o outro é o quanto a parede abaula para a direita a partir dessa âncora. Os círculos à direita, fora da âncora, marcam os órgãos que já começaram a cobrar. Repare que o quarto cartão traz um traço interrompido: é a única faixa em que a abertura entra como resposta esperada mesmo antes de a clínica piorar mais.

Primeiro grau: doze a quinze — medir de novo e corrigir o balanço

Pressão sustentada de doze a quinze milímetros de mercúrio, sem disfunção nova. Não é síndrome e não se opera. A conduta é repetir a medida em intervalo curto para ver a tendência, corrigir o balanço hídrico positivo e revisar sedação, analgesia e posição da cabeceira. Nesta faixa a maior parte do ganho vem de parar de fazer o que sobe a pressão.

Segundo grau: dezesseis a vinte — esvaziar víscera oca e procurar líquido drenável

Pressão de dezesseis a vinte milímetros de mercúrio. Ainda é hipertensão, e o teto desta faixa é o ponto exato em que a literatura nacional se divide sobre onde começa a síndrome. A conduta acrescenta sonda nasogástrica em sifonagem, descompressão retal, procinéticos e a busca ativa por coleção drenável por punção. A monitorização passa a ser frequente.

Terceiro grau: vinte e um a vinte e cinco — a disfunção nova decide a mesa

Pressão de vinte e um a vinte e cinco milímetros de mercúrio. Aqui a pergunta muda: apareceu disfunção que não existia? Se apareceu e a pressão se mantém em medidas consecutivas, o diagnóstico é síndrome compartimental abdominal e a descompressão cirúrgica é fortemente recomendada. Se não apareceu, mantém-se a escada clínica com vigilância estreita da diurese e dos parâmetros do ventilador.

Quarto grau: acima de vinte e cinco — abrir, e planejar o abdome que fica aberto

Pressão acima de vinte e cinco milímetros de mercúrio. A disfunção costuma já estar instalada, e a decisão prática é a laparotomia descompressiva com fechamento temporário por terapia de pressão negativa. A partir daqui o planejamento inclui as reabordagens, o momento do fechamento definitivo e a hérnia ventral que ficará — e a tela entra tarde, nunca em campo contaminado.

A tabela gradua a hipertensão, não a síndrome. Nenhum grau, por si, faz diagnóstico de síndrome compartimental: é preciso somar disfunção de órgão que não existia antes. Por isso o terceiro cartão pergunta em vez de mandar.

Medida isolada não gradua. Picos transitórios de tosse e de manobra de Valsalva atingem valores altos sem significado, e por isso o diagnóstico pede repetição em medidas consecutivas, separadas por algumas horas, e não uma leitura única elevada.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Por qual sonda e com quanto volume se instila a bexiga para medir

Sonda de duas vias, punção do portal do coletor e vinte mililitros

É o método intermitente descrito no protocolo brasileiro proposto para terapia intensiva, escolhido por ser executável com material disponível em qualquer unidade: sonda comum, seringa, agulha, equipo e régua de punção venosa central. O próprio texto reconhece a limitação de exigir troca do sistema coletor a cada repetição.

Rev Col Bras Cir. 2020;47:e20202415, seção sobre aferição da pressão intra-abdominal.

Sonda de três vias, sem punção, e vinte e cinco mililitros

É a posição da carta ao editor publicada na mesma revista, assinada por quem presidiu a sociedade internacional que fixou o consenso. Sustenta que o padrão é a via intravesical por sonda de três vias com instilação de vinte e cinco mililitros, e que a medida com sonda de duas vias e punção do portal está contraindicada pelo risco de infecção e é proscrita por conselhos regionais de enfermagem.

Rev Col Bras Cir. 2021;48:e20202838, carta ao editor sobre protocolos de mensuração.

Na prova

Enunciado que descreve a técnica passo a passo costuma estar cobrando o que é invariável — decúbito dorsal, bexiga vazia, leitura ao fim da expiração e zero na linha axilar média — e não a cifra do volume. Se duas alternativas diferem apenas no número de mililitros, releia procurando qual delas erra um dos passos invariáveis; é quase sempre por ali que a questão se decide.

Até quando se mede, e se existe medida verdadeiramente contínua

Duas medidas normais encerram a vigilância, e existe monitorização contínua

O protocolo brasileiro propõe medir na admissão da unidade intensiva e seis horas depois, encerrando o seguimento quando as duas ficam abaixo do limiar, e prevê monitorização contínua por sonda de três vias com via dedicada para quem tiver valor elevado.

Rev Col Bras Cir. 2020;47:e20202415, fluxograma de vigilância e seção de monitorização.

Mede-se como sinal vital até a alta, e contínua é impossível

A carta ao editor sustenta que encerrar o seguimento com duas medidas baixas é conselho perigoso, porque a hipertensão pode surgir ao longo da primeira semana, e recomenda aferir até a alta da unidade. Argumenta ainda que medida contínua é impossível pelo método padrão, já que ele exige manter líquido instilado na bexiga, incompatível com o cateter aberto para débito urinário.

Rev Col Bras Cir. 2021;48:e20202838, carta ao editor sobre protocolos de mensuração.

Na prova

Quando a alternativa fala em suspender a vigilância porque as medidas iniciais vieram normais, desconfie: o produtor da pressão é o balanço hídrico acumulado, e ele age depois do primeiro dia. Enunciado que descreve paciente estável na admissão e piora no terceiro dia está montando exatamente esse cenário.

Quantos elementos tem a cascata fisiológica que a operação abreviada interrompe

Três elementos: hipotermia, acidose metabólica e coagulopatia

É a redação clássica, reproduzida pelas revisões brasileiras de 2007 e de 2013 e pelo estudo prospectivo de indicações de 2018, e é a que a maior parte dos textos de trauma emprega ao explicar por que a operação completa é a operação errada nesses pacientes.

Rev Col Bras Cir. 2013;40(2):142-51, resumo; e Rev Col Bras Cir. 2018;45(1):e1474, introdução.

Quatro elementos, somando a hipocalcemia

É a redação adotada pela coorte de 2022 de um pronto-socorro de referência do Sul, que nomeia a cascata com quatro componentes e inclui a hipocalcemia entre eles ao descrever o que a estratégia tenta interromper e corrigir.

Rev Col Bras Cir. 2022;49:e20223390, introdução.

Na prova

Alternativa que lista a cascata é quase sempre distinguível pelo que ela deixa de fora, não pelo tamanho: acidose, hipotermia e coagulopatia estão em todas as redações. Se uma opção acrescenta mais um elemento metabólico, ela não está necessariamente errada — confira antes se o erro não está em algum dos três clássicos ter sido trocado.

06

Caso resolvido

Homem de sessenta e oito anos está no terceiro dia de pós-operatório de laparotomia mediana por peritonite fecal secundária a diverticulite perfurada. Permanece em ventilação mecânica na unidade intensiva, sedado, sem drogas vasoativas desde a véspera. Nas últimas doze horas evoluiu com queda progressiva da diurese, agora em torno de dez mililitros por hora apesar de reposição generosa, e a equipe de ventilação registra aumento da pressão de platô sem mudança de parâmetros. Ao exame, o abdome está distendido e tenso, com curativo limpo e sem sinais flogísticos. A pressão venosa central subiu de oito para dezesseis. A creatinina dobrou em relação à do dia anterior e o balanço acumulado desde a admissão é de mais de nove litros positivos.
O que a cena reúne, e por que não é hipovolemia
Estão presentes ao mesmo tempo três sinais que apontam para uma mesma caixa pressurizada: oligúria que não responde a volume, aumento da pressão de platô sem doença pulmonar nova, e pressão venosa central que subiu enquanto o débito caía. Some-se o fator de risco mais forte de todos, o balanço acumulado muito positivo depois de uma peritonite. Ler isso como hipovolemia levaria a repor mais volume, que é o mecanismo que produziu o quadro.
O que se faz primeiro, e não é abrir
A primeira medida é obter o número. Decúbito dorsal a zero grau, bexiga esvaziada, instilação do volume padrão de solução salina pela via transvesical, espera para equalizar, leitura ao fim da expiração com o abdome relaxado e zero da régua na linha axilar média. Sem essa medida não há como distinguir uma síndrome compartimental de uma injúria renal aguda de outra causa, e também não há como corrigir os números do tórax.
Como se interpreta o valor que voltar
Suponha vinte e três milímetros de mercúrio, confirmados em medidas consecutivas. Isso é hipertensão de terceiro grau. Como existe disfunção que não existia antes — a diurese caiu e a creatinina dobrou —, o diagnóstico deixa de ser apenas hipertensão e passa a ser síndrome compartimental abdominal. A pressão de perfusão abdominal deve ser calculada subtraindo esse valor da pressão arterial média, e é ela, não a pressão arterial isolada, que diz o quanto sobra para o rim.
O que se corrige antes de decidir a mesa
Enquanto se organiza a decisão cirúrgica, aplicam-se as medidas clínicas que podem reduzir a pressão em horas: baixar a cabeceira, otimizar sedação e analgesia e considerar bloqueio neuromuscular para ganhar complacência de parede; passar sonda nasogástrica em sifonagem e considerar descompressão retal e procinético; e atacar o balanço positivo com diurético ou ultrafiltração. Uma tomografia entra aqui com objetivo definido: procurar coleção delimitada com janela segura, porque uma drenagem percutânea pode resolver sem abrir.
A interpretação dos parâmetros do ventilador
O platô medido está contaminado pela pressão que vem de baixo. O valor que interessa é o transmural, que é o platô medido menos metade da pressão da cavidade. O mesmo desconto se aplica à pressão venosa central, e é ele que explica por que um paciente pode ter esse número alto e ainda assim não estar hipervolêmico do ponto de vista do coração. Sem essa correção, a tendência é reduzir volume corrente de um pulmão que está apenas comprimido.
Quando a decisão vira operação, e o que se planeja junto
Se a pressão se mantiver alta em medidas consecutivas e a disfunção não regredir com as medidas clínicas e a drenagem, a conduta é a laparotomia descompressiva. Ela não repara nada: abre. A parede não é fechada ao fim do procedimento; recebe curativo com terapia por pressão negativa, que mantém a cavidade em sistema fechado, remove secreção e previne a lateralização da aponeurose. Já se planeja, desde essa operação, o calendário de reabordagens, o momento do fechamento definitivo e a hérnia ventral residual — cuja correção com tela é tardia, para não implantar prótese em campo contaminado.
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Agora feche você

Mulher de trinta e quatro anos, vítima de colisão em alta velocidade, foi submetida a laparotomia por trauma abdominal fechado com laceração hepática de grau alto e avulsão mesentérica. A equipe optou por operação abreviada: tamponamento do fígado com compressas, ressecção do segmento roto de delgado com as extremidades grampeadas e sem reconstrução, lavagem da cavidade e fechamento apenas da pele. Chegou à unidade intensiva hipotérmica, acidótica e com tempo de coagulação alargado, e recebeu aquecimento ativo, hemocomponentes e correção metabólica. Trinta horas depois está normotérmica, com gasometria corrigida e coagulação em recuperação, mas o débito urinário caiu à metade nas últimas seis horas, o abdome está mais tenso do que no fim da operação e o ventilador exige pressões maiores para o mesmo volume corrente. A pressão arterial média está em setenta e a equipe pergunta se a paciente já pode voltar à mesa para o reparo definitivo.
Passo 1
A decisão de abreviar foi tomada com base em quê, e por que reconstruir o intestino na primeira operação teria sido a escolha errada nesta paciente especificamente?
Passo 2
Que conta se faz com a pressão arterial média e a pressão da cavidade para dizer quanto de perfusão sobra para o rim, e por que olhar apenas a pressão arterial média engana neste momento?
Passo 3
A queda do débito urinário aparece antes das repercussões respiratória e hemodinâmica. Que mecanismo explica essa ordem, e por que responder a ela com mais volume pioraria o quadro?
Passo 4
O ventilador exige pressões maiores para o mesmo volume corrente. Que correção transforma esse número medido em um número interpretável, e que erro de conduta ela evita?
Passo 5
Antes de indicar a reabertura por pressão, que medidas clínicas podem reduzir a pressão da cavidade em poucas horas, e qual delas entra em conflito direto com uma rotina de prevenção de pneumonia?
Passo 6
A paciente já corrigiu temperatura, acidez e coagulação, que era o motivo de ter interrompido a operação. Que pergunta ainda precisa ser respondida com um número antes de decidir se o retorno à mesa é para reparo definitivo ou para descompressão, e o que muda no fechamento da parede conforme a resposta?
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a síndrome do abdome como se fosse a do membro Os dois quadros compartilham nome, mecanismo e lógica — conteúdo que cresce dentro de continente que não cede —, e param de se parecer na hora do tratamento. No membro, a operação é a abertura da fáscia do compartimento acometido. No abdome, é a laparotomia com fechamento temporário, e nenhuma incisão de parede feita como se fosse fasciotomia resolve. A confusão também contamina a leitura de enunciado: descrição de dor desproporcional, parestesia e dor ao estiramento passivo pertence ao membro, enquanto oligúria, queda de retorno venoso e aumento de pressão de via aérea pertencem à cavidade.
  2. 2Chamar de síndrome uma pressão alta sem disfunção nova Um paciente com pressão de vinte e oito e função renal, respiratória e hemodinâmica preservadas tem hipertensão de quarto grau e não tem síndrome compartimental. A palavra que fecha o diagnóstico é a disfunção que apareceu depois, e ela precisa ser nova: piora de uma insuficiência renal que já existia é achado ambíguo e exige comparar com a linha de base do paciente, não com o valor de referência do laboratório. Em prova, alternativa que indica descompressão apenas pelo número, sem mencionar órgão que passou a falhar, costuma ser a errada.
  3. 3Aceitar o abdome tenso como prova, ou como ausência de prova O exame físico acerta cerca de metade das vezes, e erra nas duas direções. Abdome tenso e distendido é escrito em vinheta de temas muito diferentes — diverticulite, cirrose com ascite, obstrução, sepse — e não é específico. Mais perigoso é o inverso: parede que se deprime com facilidade no paciente sedado e sob bloqueio neuromuscular não exclui pressão elevada, justamente porque a sedação aumentou a complacência da parede sem reduzir o conteúdo. O achado do exame serve para lembrar de medir; não serve para dispensar a medida nem para substituí-la.
  4. 4Deixar a técnica falsear o número Quatro descuidos sobem o valor medido, e todos são comuns. Cabeceira elevada, que é rotina para prevenir aspiração, aumenta a pressão aferida. Bexiga não esvaziada antes da instilação soma volume que não é da cavidade. Volume instilado acima do padrão faz a própria bexiga contribuir com pressão. Leitura durante inspiração ou com o abdome contraído captura o pico e não o repouso. Some-se o zero da régua fora da linha axilar média, que desloca todas as medidas do paciente na mesma direção e apaga a tendência — que é justamente o dado que a segunda medida existe para revelar.
  5. 5Responder à oligúria com mais volume Diante de pouca urina, o reflexo é repor. Quando a oligúria é compressiva, cada bolus sobe a pressão que está impedindo o rim de funcionar, e o paciente piora exatamente por causa do tratamento. O sinal de alerta é a oligúria que persiste apesar de reposição já generosa, num paciente com abdome distendido e balanço acumulado positivo. Nessa situação a conduta se inverte: o alvo passa a ser retirar líquido — diurético, ultrafiltração, paracentese de alívio, drenagem percutânea — e não acrescentar.
  6. 6Ler os números do tórax sem descontar o abdome Cerca de metade da pressão da cavidade sobe para o tórax. Sem a correção transmural, que é o valor medido menos metade da pressão intra-abdominal, o platô elevado é lido como pulmão rígido e a pressão venosa central elevada é lida como paciente cheio. As duas leituras levam a condutas erradas e opostas entre si: reduzir volume corrente de um pulmão apenas comprimido e suspender volume de um paciente que pode estar hipovolêmico. A correção só é possível para quem tem o valor da pressão da cavidade em mãos — mais um motivo para medir cedo.
  7. 7Fechar a parede sem conferir se a pressão caiu Ao terminar uma laparotomia em paciente de risco, fechar por hábito é o erro que fabrica a síndrome do dia seguinte. A conferência da pressão antes de deixar a sala é um gesto de segundos e muda o desfecho: se o fechamento não reduziu a pressão, o abdome deve permanecer aberto com curativo apropriado. O raciocínio simétrico vale para a pancreatite aguda — a regra é adiar a intervenção sobre a necrose infectada, mas hipertensão sustentada com disfunção nova rompe esse cronograma e exige descompressão independentemente da semana de doença.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Os fatores de risco reconhecidos formam cinco famílias e cobrem quase toda a terapia intensiva cirúrgica: necessidade de reanimação volêmica, aumento do conteúdo da cavidade, distensão de víscera oca, sepse com disfunção orgânica e insuficiência respiratória aguda. É justamente por a lista ser tão larga que protocolos nacionais propõem medir todo paciente na admissão da unidade em vez de triar por fator de risco. Restringir a aferição ao pós-operatório de urgência deixa de fora o queimado, o pancreático e o séptico. Limitar ao trauma ignora que a maioria dos casos de terapia intensiva não é traumática. E condicionar a medida ao achado de parede tensa é o pior recorte de todos, porque o exame físico acerta cerca de metade das vezes e a parede do paciente sedado acomoda pressão sem endurecer.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Hipertensão intra-abdominal é pressão sustentada de doze milímetros de mercúrio ou mais, e nada além disso. Síndrome compartimental abdominal é pressão acima de vinte, sustentada, mais disfunção de órgão que apareceu depois — a palavra nova é o que fecha o diagnóstico. Os graus vão de doze a quinze, de dezesseis a vinte, de vinte e um a vinte e cinco e acima de vinte e cinco, e nenhum deles, sozinho, indica operar. A medida é pela bexiga: decúbito dorsal a zero grau, bexiga esvaziada, solução salina instilada, leitura ao fim da expiração com o abdome relaxado e zero da régua na linha axilar média; o resultado sai em centímetros de água e se converte para milímetros de mercúrio. A pressão de perfusão abdominal é a pressão arterial média menos a pressão da cavidade. A oligúria é o sinal precoce, e o exame físico acerta cerca de metade das vezes, o que o desqualifica como substituto da medida.

em 30 dias

Antes da faca vêm quatro frentes: corrigir o balanço hídrico positivo, melhorar a complacência da parede com sedação, analgesia, bloqueio neuromuscular e cabeceira baixa, esvaziar víscera oca com sonda em sifonagem e procinético, e drenar líquido livre por paracentese ou punção guiada — esta última resolve casos que pareciam cirúrgicos. Metade da pressão da cavidade sobe para o tórax, e por isso platô e pressão venosa central precisam da correção transmural, que é o valor medido menos metade da pressão intra-abdominal. Quando a pressão se sustenta e há disfunção nova, o tratamento é a laparotomia descompressiva, que não repara nada e deixa a parede aberta sob terapia de pressão negativa, com fístula enteroatmosférica e hérnia ventral como preço conhecido. Ao terminar qualquer laparotomia em paciente de risco, confira se a pressão caiu antes de fechar. Na pancreatite aguda a regra é adiar a intervenção sobre a necrose infectada, e a síndrome compartimental é a exceção que rompe esse cronograma.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Este capítulo se aprende de verdade num atendimento de beira de leito, com o paciente já internado e sedado, em que o exame do abdome não vai decidir nada e a decisão depende de pedir um número que ninguém ofereceu — e em que reconhecer que a oligúria daquele paciente é mecânica, e não hipovolêmica, muda a prescrição inteira antes de qualquer imagem. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hipertensão intra-abdominal e síndrome compartimental abdominal – Síndrome compartimental abdominal: a bexiga mede, a disfunção nova decide — Preparatório para provas | OsceLabs