Ginecologia e ObstetríciaPré-natal, rastreios e intercorrências clínicas da gestação

Exames do pré-natal

Exames laboratoriais e sorologias do pré-natal por trimestre

O painel completo, trimestre a trimestre: o que se pede, em que semana, e o que cada alteração dispara. A prova cobra o exame que falta no quadro e a conduta diante do resultado — as duas coisas saem do mesmo mapa.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Gestante de 33 anos, com 10 semanas de gestação, comparece à unidade de saúde. O médico solicita os exames de rotina do primeiro trimestre, incluindo a sorologia para prevenção da transmissão vertical de uma infecção tratável com penicilina benzatina. Qual dos exames a seguir faz parte da rotina de pré-natal com essa finalidade? Assinale a alternativa correta.

02

Como esse tema cai

Este é o capítulo do mapa. Pré-natal, na prova, quase nunca aparece como uma pergunta sobre uma doença: aparece como um quadro com um buraco (qual exame falta neste trimestre?) ou como um resultado solto pedindo conduta (o que se faz com isso?). As duas versões dependem da mesma coisa — saber o que se pede, em que semana, por quê, e o que a alteração dispara.

O painel vem da Caderneta Brasileira da Gestante (Ministério da Saúde, 2026), que é a lista oficial vigente do que o SUS oferece no pré-natal de risco habitual. O que fazer com o resultado alterado vem do Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022), que é quem detalha corte, titulação e esquema. Onde os dois documentos discordam entre si — e discordam em três pontos — o bloco de divergências mostra os dois lados.

Sífilis na gestação e diabetes mellitus gestacional têm capítulo próprio nesta apostila. Aqui eles são apenas linha da tabela: o momento da coleta e para onde o resultado reagente ou alterado encaminha. Tudo o que não tem capítulo próprio — hemograma, tipagem e Coombs, urina e urocultura, HIV, hepatites, toxoplasmose, citologia, estreptococo do grupo B e as ultrassonografias — está desenvolvido aqui.

03

O que muda decisão

O calendário: captação até a 12ª semana, sete consultas, e nenhuma alta

O pré-natal deve começar o quanto antes, preferencialmente até a 12ª semana. O número que se decora é o piso: no mínimo sete consultas, intercaladas entre médico e enfermeiro, mais no mínimo uma consulta odontológica. É esse o direito assegurado pela Portaria GM/MS nº 5.350/2024, que instituiu a Rede Alyne, e é ele que a caderneta imprime.

A distribuição não é decorativa, e ela é mais cobrada que o total. Até 28 semanas, consultas mensais. Da 28ª à 36ª semana, quinzenais. A partir da 36ª semana, semanais. O calendário adensa exatamente onde o risco se concentra: pré-eclâmpsia, restrição de crescimento e trabalho de parto prematuro não se distribuem uniformemente pela gestação, e a vigilância acompanha a curva.

Repare no que essa distribuição faz com o número. Uma gestante captada na 10ª semana e seguida até o termo passa de sete consultas com folga — chega a nove ou dez. O piso de sete é o que se cobra do serviço quando a captação foi tardia, não a meta do acompanhamento. E não existe alta do pré-natal: o acompanhamento segue até o parto e entra no puerpério, com no mínimo duas consultas puerperais, uma na primeira semana após a saída da maternidade e outra em torno de 30 dias depois do parto.

Sangue: o corte de hemoglobina que muda na gestação

O hemograma é pedido duas vezes: no primeiro e no terceiro trimestre. O que interessa dele é a hemoglobina, e o corte não é o mesmo da mulher fora da gestação. O protocolo brasileiro de anemia por deficiência de ferro (Ministério da Saúde, 2024) é explícito: hemoglobina abaixo de 13 g/dL em homens, abaixo de 12 g/dL em mulheres e abaixo de 11 g/dL em gestantes e crianças.

O corte cai porque a diluição é esperada. Na gestação, o volume plasmático expande mais do que a massa eritrocitária; a hemoglobina desce por hemodiluição fisiológica, e usar o corte de 12 g/dL rotularia como anêmica uma gestante normal. Usar 11 g/dL numa não gestante faz o erro inverso — deixa passar anemia real. É a mesma pegadinha em dois sentidos.

Achada a anemia, a gravidade decide o nível de atenção. O Manual de Gestação de Alto Risco estratifica: hemoglobina entre 9 e 11 g/dL é anemia leve a moderada e coloca a gestante em risco intermediário — trata-se e acompanha-se na própria atenção primária. Hemoglobina abaixo de 9 g/dL, ou anemia refratária ao tratamento, é alto risco e encaminha para o pré-natal especializado.

No mesmo primeiro trimestre entra a eletroforese de hemoglobina, e a caderneta reserva campo específico para registrar o resultado: padrão AA, heterozigose (as, AC) ou homozigose (SS, SC). O que muda com cada um é diferente. A heterozigose — o traço falciforme — não adoece a gestante, mas muda o aconselhamento, porque coloca em pauta a investigação do parceiro e o risco para a criança. A homozigose é doença falciforme e tira a gestação do risco habitual.

A OMS chega ao mesmo lugar por outro caminho: a recomendação B.1.1 de 2016 diz que o hemograma completo é o método para diagnosticar anemia na gestação e que, onde não houver hemograma, o hemoglobinômetro à beira do leito é preferível à escala de cor de hemoglobina. É uma recomendação escrita para serviços sem laboratório — no Brasil, ela vale como argumento de que a triagem não pode ser adiada por falta de estrutura.

Bandeja de coleta com tubo de sangue, frasco de urina, cassete de teste rápido e swab em meio de transporte.
As quatro portas de entrada do painel do pré-natal: sangue, urina, teste rápido feito na própria consulta e swab de cultura. Quase tudo o que a prova cobra sai de uma dessas quatro.

Tipagem, Rh e Coombs indireto: um rastreio que existe para disparar a anti-D

Tipagem sanguínea ABO e fator Rh são pedidas na primeira consulta, em todas as gestantes. Mas só um resultado muda alguma coisa no seguimento: o Rh negativo. É ele que aciona o segundo exame, o teste de Coombs indireto, que a caderneta lista explicitamente como sendo para gestantes com fator Rh negativo.

A periodicidade do Coombs indireto é o primeiro ponto em que os dois documentos do Ministério não dizem a mesma coisa. O painel da caderneta pede o Coombs indireto no primeiro trimestre e, se negativo, repete no segundo e no terceiro. O Manual de Gestação de Alto Risco pede na primeira visita e manda repetir mensalmente. Na prática, o que a prova cobra é a lógica: enquanto o Coombs indireto for negativo, a gestante não está sensibilizada e o objetivo é impedir que ela sensibilize.

Impedir é a imunoglobulina anti-D. Na gestante Rh negativa não sensibilizada, a dose é de 300 microgramas, e os momentos são três: na 28ª semana de gestação; até 72 horas após o parto de recém-nascido Rh positivo ou de fator Rh desconhecido; e até 72 horas após qualquer evento com risco de sensibilização. A lista de eventos é curta e vale decorar — sangramento vaginal materno, abortamento, gestação ectópica ou molar, procedimento invasivo intrauterino, cirurgia fetal, óbito fetal, versão cefálica externa e trauma abdominal. No Brasil existem apresentações de 250 e de 300 microgramas, e a falha da profilaxia é de 1,5%.

Uma armadilha mora logo depois da injeção: não se repete o Coombs indireto depois de aplicada a anti-D. O teste pode positivar por causa da própria imunoglobulina — os títulos pós-profilaxia raramente passam de 1:4, excepcionalmente de 1:8, e podem se manter detectáveis por 8 a 12 semanas. Ler isso como sensibilização é um erro que já mudou conduta em plantão.

Coombs indireto positivo encerra o rastreio e abre a investigação. Faz-se a pesquisa e a titulação dos anticorpos irregulares para saber qual antígeno está envolvido e em que título. O número que separa os mundos é 1:16: títulos de anti-D iguais ou maiores que 16 se associam a risco de anemia fetal moderada a grave, e a avaliação passa para o Doppler da artéria cerebral média — pico de velocidade sistólica acima de 1,5 múltiplo da mediana indica anemia fetal moderada ou grave, com sensibilidade de 86% e especificidade de 71%. Daí em diante o assunto é do capítulo de isoimunização; aqui o que importa é que o rastreio existe para disparar a profilaxia, e que ele para de servir no instante em que a gestante já está sensibilizada.

Urina e urocultura: por que a bacteriúria assintomática se trata na gestante

Urina tipo I e urocultura com antibiograma são pedidas no primeiro e no terceiro trimestre. É o par de exames que produz a inversão de conduta mais cobrada do pré-natal: bacteriúria assintomática, fora da gestação, não se trata; na gestante, trata-se sempre.

A razão é mecânica antes de ser microbiológica. A progesterona relaxa a musculatura lisa do trato urinário e o útero em crescimento comprime os ureteres; o resultado é estase, e a bactéria que estava apenas colonizando a bexiga ganha caminho para subir. A pielonefrite acomete 1% a 2% das gestações, é mais frequente no segundo e no terceiro trimestres e obriga hospitalização. Mas o desfecho que sustenta a recomendação da OMS não é nem esse: o esquema antibiótico é recomendado para todas as gestantes com bacteriúria assintomática para prevenir bacteriúria persistente, parto prematuro e baixo peso ao nascer.

O método importa. A OMS é específica: urocultura de jato médio é o método recomendado para diagnosticar bacteriúria assintomática na gestação, e, onde não houver cultura disponível, o Gram do jato médio feito no local é preferível à fita reagente. A fita perde casos, e o caso perdido aqui não é um incômodo urinário — é um parto prematuro.

O tratamento é guiado pelo antibiograma, respeitando o risco teratogênico. O manual brasileiro traz três esquemas: fosfomicina 3 g em dose única; nitrofurantoína 100 mg de 6 em 6 horas por 5 dias; cefalexina 500 mg de 6 em 6 horas por 7 dias. A OMS formula sua recomendação como um regime de sete dias — a diferença é real e vale conhecer, mas os dois documentos concordam no essencial, que é tratar.

O passo que quase ninguém executa é o controle de cura: nova urocultura duas semanas depois do tratamento. E, se aparecer um segundo episódio, a conduta muda de patamar — indica-se antibioticoprofilaxia até o parto, com nitrofurantoína 100 mg por dia ou cefalexina 250 a 500 mg por dia. Depois de 37 semanas, troca-se a nitrofurantoína pela cefalexina, por causa do risco de icterícia neonatal.

Um achado da urocultura vale por dois exames. Estreptococo do grupo B isolado na urina, em qualquer contagem, durante a gestação em curso, é fator de risco anteparto e já indica antibioticoprofilaxia intraparto — independentemente do que a cultura vaginal e endoanal de 36 semanas venha a mostrar, e mesmo que essa cultura nem seja colhida. É a única situação em que a urocultura decide uma conduta de sala de parto.

Para fechar, a contagem de episódios estratifica: até dois episódios de infecção urinária ou um episódio de pielonefrite mantêm a gestante em risco intermediário; três ou mais infecções baixas, ou duas ou mais pielonefrites, levam ao alto risco.

Os quatro testes rápidos: HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C

Na primeira consulta saem os quatro, e a caderneta permite explicitamente resolver cada um por teste rápido ou por sorologia convencional: teste rápido para sífilis ou VDRL/RPR; teste rápido para HIV ou anti-HIV I e II; teste rápido para hepatite B ou HBsAg; teste rápido para hepatite C ou anti-HCV.

No terceiro trimestre, dois voltam: HIV e sífilis. Hepatite B e hepatite C não se repetem na rotina. E existe uma terceira janela, que é o parto ou o pós-parto imediato: teste rápido de HIV e teste rápido de sífilis ou VDRL/RPR em todas as parturientes, mais hepatite B e hepatite C naquelas que não foram testadas no pré-natal. A gestante sem pré-natal não é uma exceção do sistema — ela tem um ponto de coleta previsto no protocolo.

O teste rápido não é apenas uma comodidade, e é isso que a prova cobra quando pergunta o que ele muda no fluxo da atenção primária. Ele fecha o ciclo dentro da mesma consulta: coleta, resultado e conduta acontecem na UBS, sem depender de transporte de amostra, de fila de laboratório e de um retorno que pode não acontecer. Na sífilis, essa diferença é a distância entre iniciar penicilina benzatina hoje e iniciar em três semanas — e três semanas, na transmissão vertical, é muito tempo.

Hepatite C merece um parágrafo próprio porque é onde o material de estudo envelhece. A testagem universal de hepatite C na gestante foi incorporada ao SUS pela Portaria SCTIE/MS nº 32, de 19 de agosto de 2020, com o exame previsto principalmente para a primeira consulta de pré-natal, junto com os que já eram feitos para HIV, sífilis e hepatite B. Ela está no painel do primeiro trimestre e no painel do parto da caderneta vigente. Qualquer texto que diga que hepatite C só se testa na gestante com fator de risco é anterior a 2020.

Duas entradas mais recentes completam o quadro. O teste para HTLV está no painel do primeiro trimestre — resultado reagente encaminha ao protocolo de transmissão vertical, que é o que define a conduta materna e a orientação sobre aleitamento. E há dois exames condicionais, que dependem de onde a gestante vive e do que ela conta: teste para doença de Chagas (teste rápido e sorologia IgG) em casos suspeitos, e teste para malária (gota espessa ou teste rápido) nas regiões endêmicas — este último previsto nos três trimestres, não uma vez só.

O que cada resultado reagente dispara, em uma linha: sífilis vai para o capítulo próprio, com estadiamento e penicilina benzatina; HIV vai para a profilaxia da transmissão vertical em serviço especializado; hepatites B e C vão para confirmação e para o protocolo de transmissão vertical, com o tratamento materno da hepatite C feito depois do parto.

Toxoplasmose: a única sorologia do painel cuja leitura é graduada

A sorologia de toxoplasmose — IgG e IgM — é pedida no primeiro trimestre. Diferente do resto do painel, ela não se lê como reagente ou não reagente: são quatro cenários, e cada um tem conduta própria.

Cenário 1 — IgG e IgM não reagentes. A gestante é suscetível. Não há o que tratar; há o que orientar e o que repetir. A orientação é higienodietética: não comer carne crua ou malpassada, dar preferência a carnes congeladas, não comer ovos crus, beber somente água filtrada ou fervida, usar luvas para manipular carne crua e terra, não usar a mesma faca para carne e vegetais, lavar bem frutas e verduras, evitar contato com gatos e com o que possa ter fezes de gato. A repetição existe para pegar a soroconversão — e é aqui que os dois documentos do Ministério divergem, no bloco abaixo.

Cenário 2 — IgG reagente e IgM não reagente. Infecção pregressa, adquirida há pelo menos seis meses. Não se repete a sorologia, mantêm-se as orientações. Uma ressalva importa: se essa sorologia foi colhida tarde na gestação, ela não exclui uma infecção aguda ocorrida no início, porque a IgM já teria caído.

Cenário 3 — IgM reagente e IgG não reagente. Inicia-se espiramicina imediatamente e repete-se a sorologia em duas a três semanas. Se a IgG continuar não reagente, era IgM falso-positiva: suspende-se a espiramicina e a gestante volta a ser conduzida como suscetível. Se a IgG positivar, é soroconversão, e a infecção aguda está confirmada. A espiramicina é macrolídeo, concentra-se na placenta e reduz a transmissão vertical em 60% a 70%; o comprimido é de 500 mg e a dose diária é de 3 gramas, dois comprimidos de 8 em 8 horas.

Cenário 4 — IgM e IgG reagentes. Interpreta-se como infecção aguda e inicia-se medicação. É o único cenário em que o teste de avidez entra — e ele só entra porque a IgM, sozinha, não fecha nada: a sensibilidade dela vai de 93,3% a 100%, mas a especificidade varia de 77,5% a 99,1%, e a IgM pode permanecer positiva em títulos baixos por vários anos depois da infecção. Falso-positivo e IgM residual são o mesmo problema visto de dois ângulos.

O teste de avidez mede o percentual de ligação da IgG ao antígeno do parasita. Anticorpo de alta avidez é anticorpo maduro, produzido há mais de 12 a 16 semanas. Daí sai a regra de tempo, que é o número mais cobrado deste tema: a avidez só resolve com idade gestacional de até 16 semanas. Abaixo de 16 semanas, alta avidez exclui com segurança infecção adquirida na gestação em curso — suspende-se a espiramicina e a gestante é mantida no pré-natal de risco habitual. Avidez baixa ou intermediária, nessa mesma faixa, é infecção aguda: mantém-se a espiramicina e encaminha-se ao serviço de referência.

Acima de 16 semanas, a avidez não tem autonomia para definir o tempo da infecção. Alta, baixa ou indeterminada, a conduta é a mesma — conduz-se como infecção aguda. Pedir avidez no segundo ou no terceiro trimestre é gastar exame para não mudar nada. Não existe valor percentual universal para separar alta de baixa: os pontos de corte dependem do kit comercial, e o laudo tem de trazer a classificação.

Confirmada a infecção materna, a investigação fetal é por amniocentese com PCR do líquido amniótico, que é o padrão-ouro, com sensibilidade de 92% e especificidade de 100%. Ela se faz a partir de 18 semanas e, preferencialmente, quatro semanas depois da data estimada da infecção materna, para não colher antes de o parasita atravessar a placenta. Antes de qualquer procedimento invasivo, é obrigatório conhecer as sorologias de sífilis, hepatites B e C e HIV e a tipagem sanguínea materna — e, na Rh negativa, programar a imunoglobulina anti-D antes do procedimento. E vale o alerta inverso: ultrassonografia não rastreia toxoplasmose congênita. Os achados aparecem tarde, e esperar por eles atrasa o tratamento.

Glicemia e TOTG: aqui, só o momento

Na primeira consulta, glicemia em jejum — ou, se a gestante já chega com mais de 24 semanas, o teste oral de tolerância à glicose com 75 g direto. No segundo trimestre, o TOTG 75 g, preferencialmente entre 24 e 28 semanas. No terceiro trimestre, glicemia em jejum novamente.

Só isso é assunto deste capítulo. Os valores de corte, a diferença entre diabetes gestacional e diabetes diagnosticado na gestação, os esquemas alternativos por viabilidade financeira, as metas glicêmicas e o manejo estão no capítulo de diabetes mellitus gestacional desta mesma apostila.

Fica aqui apenas a armadilha de calendário, que é de painel e não de doença: a gestante que aparece pela primeira vez com 26 semanas não faz glicemia de jejum para depois ver. Ela já entra pelo TOTG, porque a janela do rastreamento é essa, e uma glicemia de jejum normal nesse momento não substitui o teste.

Citologia oncótica: a gestação é oportunidade, não contraindicação

Na caderneta vigente, o rastreamento do câncer do colo do útero — exame citopatológico ou teste molecular para HPV — não está no quadro de exames por trimestre. Ele está na lista dos exames realizados por indicação clínica. A leitura correta disso não é que a gestante não colhe: é que ela não colhe por estar grávida, e sim por estar com o rastreio devido.

As diretrizes do INCA são explícitas nos dois pontos que a prova cobra. Primeiro: gestantes têm o mesmo risco que não gestantes de apresentar câncer do colo do útero ou suas lesões precursoras, e o rastreamento deve seguir a mesma faixa etária e a mesma periodicidade das demais mulheres. Segundo, com recomendação de grau A: a procura ao serviço de saúde para o pré-natal deve sempre ser considerada uma oportunidade de rastreamento. Para muitas mulheres, o pré-natal é o único contato regular com o serviço de saúde em anos.

A técnica muda pouco, e não no sentido que se costuma imaginar. No ciclo grávido-puerperal, a junção escamocolunar está exteriorizada na ectocérvice na maioria das vezes, o que na prática dispensaria a coleta endocervical. Ainda assim, o INCA registra que a coleta de espécime endocervical não parece aumentar o risco sobre a gestação quando se usa técnica adequada. O que se evita na gestante é a curetagem endocervical; ao escovado endocervical não há objeção.

O que muda mesmo é a conduta depois da alteração, não a coleta. A colposcopia pode ser realizada em qualquer época da gestação. A biópsia é segura, sem risco de eventos adversos sobre a gestação, com apenas maior probabilidade de sangramento — e se faz apenas quando há suspeita de lesão invasiva. As lesões de alto grau detectadas na gestação têm risco mínimo de progressão para invasão e algum potencial de regressão após o parto, de modo que o procedimento excisional, quando indicado, é adiado para 90 dias depois do parto. E não há contraindicação ao parto vaginal por causa do achado citológico.

A frase 'não se colhe citologia em gestante' é falsa, e é justamente por soar prudente que ela sobrevive nas alternativas.

Estreptococo do grupo B: o exame que não está no painel do SUS

A colonização materna vaginal e anorretal pelo estreptococo do grupo B é o principal fator de risco para doença neonatal precoce. O rastreio, quando adotado pelo serviço, é feito por cultura vaginal e retal entre 36 0/7 e 37 6/7 semanas; a coleta nos dois sítios aumenta a sensibilidade e uma cultura recente representa melhor a colonização no parto.

A profilaxia intraparto é indicada em quatro situações centrais: cultura positiva nesta gestação; bacteriúria por estreptococo do grupo B em qualquer contagem nesta gestação; filho anterior com doença invasiva precoce por estreptococo do grupo B; ou estado desconhecido no parto associado a trabalho de parto antes de 37 semanas, rotura de membranas por 18 horas ou mais, ou temperatura intraparto de 38 °C ou mais.

Raça ou cor da pele não é indicação de profilaxia. Esse marcador apareceu em estratégias históricas de risco, mas não deve ser usado para decidir antibiótico. A decisão atual se apoia em cultura, história obstétrica, bacteriúria e fatores intraparto objetivos.

Cultura negativa obtida dentro da janela de validade em geral dispensa profilaxia motivada apenas por prematuridade ou rotura prolongada. Ela não apaga as indicações independentes: bacteriúria por estreptococo do grupo B na gestação atual ou filho anterior com doença invasiva continuam indicando profilaxia. Febre intraparto exige avaliação e tratamento de possível infecção intra-amniótica, não apenas a leitura mecânica do protocolo de EGB.

Cesárea programada antes do trabalho de parto, com membranas íntegras, não exige profilaxia específica contra estreptococo do grupo B, mesmo com cultura positiva. A antibioticoprofilaxia cirúrgica habitual da cesariana é outra intervenção e não deve ser confundida com esta.

Colonização vaginal ou retal não é tratada durante a gestação, porque pode reaparecer. A bacteriúria muda duas decisões: qualquer contagem garante profilaxia no parto; quando sintomática ou em contagem que preenche critério de bacteriúria assintomática, também recebe tratamento durante a gestação e controle conforme o capítulo de infecção urinária.

A primeira escolha intraparto é penicilina G intravenosa; ampicilina é alternativa. Em alergia com baixo risco de anafilaxia, usa-se cefazolina. Se o risco de anafilaxia for alto, clindamicina só é opção quando o isolado é sensível e o laboratório realizou o teste apropriado; se a sensibilidade é desconhecida ou há resistência, usa-se vancomicina ajustada ao peso e à função renal conforme o protocolo local.

Quatro horas de antibiótico antes do nascimento oferecem a maior proteção e definem profilaxia adequada em muitos algoritmos neonatais, mas duas horas já reduzem a carga bacteriana. Não se atrasa parto indicado ou intervenção obstétrica necessária apenas para completar quatro horas.

Corte esquemático em perfil mostrando a coleta do swab no terço inferior da vagina e no canal anal.
A cultura para estreptococo do grupo B só rende se o swab passar pelos dois sítios: terço inferior da vagina, sem espéculo, e canal anal, ultrapassando o esfíncter. Coleta só vaginal perde casos.

Ultrassonografia: uma, e o que ela responde

O painel de rotina do Ministério da Saúde traz uma ultrassonografia obstétrica, idealmente entre 7 e 12 semanas de gestação. Uma. Não há morfológica de segundo trimestre nem ultrassonografia de crescimento na lista do risco habitual; Doppler obstétrico e cardiotocografia anteparto aparecem apenas entre os exames complementares do pré-natal de alto risco, e ainda assim por critério clínico.

Vale entender por que isso não é uma lista incompleta, e sim uma escolha. Ultrassonografia obstétrica responde a três perguntas diferentes, e cada uma tem a sua janela.

Datação é o que a janela de 7 a 12 semanas compra, e é a mais barata das três em consequência. Quanto mais precoce a medida, menor o erro da estimativa — e a idade gestacional bem fixada é o alicerce de tudo o que vem depois: o limite de prematuridade, o diagnóstico de restrição de crescimento, a definição de pós-datismo, o momento de indicar o parto. Quando a datação pela ultrassonografia precoce discorda da data da última menstruação, é ela que passa a valer como referência, e a idade gestacional é refeita — é exatamente para isso que o exame foi posto nessa janela. A caderneta traz campo para registrar as duas lado a lado — idade gestacional pela DUM e pela USG — exatamente porque é preciso saber depois qual foi adotada.

Morfologia é a segunda pergunta: rastreio de anomalias estruturais, que exige um feto maior e mais formado. Um exame feito entre 7 e 12 semanas não responde por isso. Crescimento é a terceira: peso fetal estimado e percentil no terceiro trimestre — e está fora do painel de risco habitual, entrando quando há suspeita clínica, como altura uterina discordante.

A OMS chega no mesmo número e escolhe outra janela: uma única ultrassonografia antes de 24 semanas, justificada não só por estimar a idade gestacional, mas também por melhorar a detecção de anomalias fetais e de gestação múltipla e reduzir indução de parto por pós-datismo. E a mesma diretriz é explícita no que não fazer de rotina: Doppler de rotina não é recomendado, e cardiotocografia anteparto de rotina não é recomendada em gestação sem indicação. Quando a alternativa da questão oferece Doppler ou cardiotocografia para uma gestante de risco habitual assintomática, ela está oferecendo algo que os dois corpos de recomendação rejeitam.

04

O painel, trimestre a trimestre

A tabela abaixo é o instrumento central deste capítulo: cada exame, em que trimestre entra, e o que a alteração dispara. O painel é quase todo binário — reagente ou não reagente, alterado ou normal. A exceção é a toxoplasmose, cuja leitura é graduada pelo teste de avidez de IgG: os três cartões, logo depois do fluxo, mostram essa gradação, que é a única escala real dentro do painel.

  1. 1Captação até a 12ª semana: na primeira consulta sai o painel inteiro do 1º trimestre, com os quatro testes rápidos resolvidos ali mesmo, e a ultrassonografia é pedida para a janela de 7 a 12 semanas.
  2. 2Entre 24 e 28 semanas: TOTG 75 g; e o Coombs indireto, se a gestante for Rh negativa com resultado negativo antes.
  3. 3Na 28ª semana: imunoglobulina anti-D 300 µg na Rh negativa não sensibilizada — e, a partir daqui, um Coombs indireto positivo não pode ser lido como sensibilização, porque a própria imunoglobulina positiva o teste.
  4. 43º trimestre: repetem-se hemograma, glicemia em jejum, urina tipo I com urocultura, HIV e sífilis; e a toxoplasmose, se a gestante for suscetível.
  5. 5Entre 36 0/7 e 37 6/7 semanas: cultura vaginal e endoanal para estreptococo do grupo B, nos serviços que adotam o rastreio universal.
  6. 6No parto: teste rápido de HIV e de sífilis em todas as parturientes; hepatite B e hepatite C nas que não foram testadas no pré-natal.

Avidez baixa (até 16 semanas)

Pouca IgG ligada ao antígeno: anticorpo jovem, produzido há pouco tempo. Com IgM e IgG reagentes abaixo de 16 semanas, considera-se infecção aguda — mantém-se a espiramicina e encaminha-se ao serviço de referência em gestação de alto risco.

Avidez intermediária (até 16 semanas)

Ligação parcial: o teste não consegue afastar que a infecção seja da gestação em curso. Conduz-se como avidez baixa — infecção aguda, espiramicina mantida e encaminhamento. Intermediária não é meio-termo de conduta: é o mesmo desfecho da baixa.

Avidez alta (até 16 semanas)

Toda a IgG firmemente ligada: anticorpo maduro, produzido há mais de 12 a 16 semanas — ou seja, antes desta gestação. Abaixo de 16 semanas, exclui com segurança infecção na gestação em curso: suspende-se a espiramicina e a gestante segue no pré-natal de risco habitual. Acima de 16 semanas, este mesmo resultado não muda nada.

Exame1º trimestre / 1ª consulta2º trimestre3º trimestreO que a alteração dispara
Hemograma (hemoglobina e hematócrito)SimSimHb < 11 g/dL é anemia na gestação. Entre 9 e 11 g/dL: risco intermediário, tratada na APS. Abaixo de 9 g/dL ou refratária: alto risco.
Eletroforese de hemoglobinaSimHeterozigose (AS, AC): aconselhamento e investigação do parceiro. Homozigose (SS, SC): doença falciforme, sai do risco habitual.
Tipagem sanguínea ABO e fator RhSimRh negativo aciona o Coombs indireto e programa a imunoglobulina anti-D.
Coombs indireto (só se Rh negativo)SimSe negativo no 1ºSe negativo no 1ºNegativo: anti-D 300 µg na 28ª semana, até 72 h pós-parto de RN Rh positivo e até 72 h após evento sensibilizante. Positivo: titulação — ≥ 1:16 leva ao Doppler de artéria cerebral média.
Glicemia em jejumSim (ou TOTG 75 g direto, se já > 24 semanas)SimAlterada: capítulo de diabetes mellitus gestacional.
TOTG 75 gSim, preferencialmente 24 a 28 semanasAlterado: capítulo de diabetes mellitus gestacional.
Teste rápido para sífilis ou VDRL/RPRSimSim (e no parto, em todas)Reagente: capítulo de sífilis na gestação — estadiamento, penicilina benzatina e notificação.
Teste rápido para HIV ou anti-HIV I e IISimSim (e no parto, em todas)Reagente: profilaxia da transmissão vertical e seguimento em serviço especializado.
Teste rápido para hepatite B ou HBsAgSimNo parto, se não feito antesReagente: protocolo de transmissão vertical, que define a conduta materna e a do recém-nascido.
Teste rápido para hepatite C ou anti-HCVSim (universal desde 2020)No parto, se não feito antesReagente: confirmação e protocolo de transmissão vertical; tratamento materno após o parto.
Sorologia para toxoplasmose (IgG e IgM)SimRepete se suscetívelRepete se suscetívelIgM reagente: espiramicina. Avidez só decide com IG ≤ 16 semanas — ver os cartões acima.
Teste para HTLVSimReagente: protocolo de transmissão vertical, incluindo a orientação sobre aleitamento.
Urina tipo I e urocultura com antibiogramaSimSimBacteriúria assintomática: tratar sempre, com controle de cura em 2 semanas. Estreptococo do grupo B na urina, em qualquer contagem: profilaxia intraparto garantida.
Ultrassonografia obstétricaSim, idealmente 7 a 12 semanasDatação: se discordar da DUM, a idade gestacional é refeita pela USG precoce. Doppler e cardiotocografia só no alto risco.
Teste para malária (gota espessa ou rápido)Região endêmicaRegião endêmicaRegião endêmicaPositivo: tratamento imediato conforme a espécie.
Teste para doença de Chagas (rápido e IgG)Caso suspeitoReagente: seguimento materno e investigação do recém-nascido.
Citopatológico ou teste molecular para HPVSe o rastreio estiver devidoSe o rastreio estiver devidoSe o rastreio estiver devidoAlterado: colposcopia em qualquer época; biópsia só na suspeita de invasão; procedimento excisional 90 dias após o parto.
Cultura vaginal e endoanal para estreptococo do grupo B36 0/7 a 37 6/7 semanas, onde o serviço rastreiaPositiva: profilaxia intraparto. Estado desconhecido: profilaxia se parto < 37 semanas, membranas rotas ≥ 18 h ou febre ≥ 38 °C. Filho anterior com doença invasiva ou bacteriúria por EGB nesta gestação indicam profilaxia independentemente da cultura.

Consultas: mínimo de sete, intercaladas entre médico e enfermeiro, mais no mínimo uma odontológica. Mensais até 28 semanas, quinzenais da 28ª à 36ª, semanais a partir da 36ª. No puerpério, no mínimo duas — uma na primeira semana após a alta da maternidade e outra em torno de 30 dias.

Há uma quarta coluna implícita, que é o parto e o pós-parto imediato: teste rápido de HIV e de sífilis ou VDRL/RPR em todas as parturientes, mais hepatite B e hepatite C nas que não testaram no pré-natal. É a rede que pega a gestante sem pré-natal.

Exames complementares do pré-natal de alto risco, por critério clínico: contagem de plaquetas, proteinúria de 24 horas, ureia, creatinina e ácido úrico, eletrocardiograma, ultrassom obstétrico com Doppler e cardiotocografia anteparto. Nenhum deles é rotina no risco habitual.

Outros exames por indicação clínica, além da citologia: teste para tuberculose, TSH, proteinúria em fita, teste para clamídia e gonorreia, parasitológico de fezes e exame de secreção vaginal.

Vacinas do pré-natal, para não confundir com exames: são cinco de rotina — hepatite B (completar as três doses), dTpa a partir da 20ª semana em toda gestação, vírus sincicial respiratório a partir da 28ª, influenza da temporada e covid-19 —, mais dT quando o esquema exigir. As janelas, o que muda conforme o cartão e o que fica para o puerpério estão no capítulo de calendário vacinal.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Rastreio do estreptococo do grupo B: cultura universal, triagem por fatores de risco, e em que semana coletar

Rastreio universal por cultura entre 36 0/7 e 37 6/7 semanas — Ministério da Saúde (Manual de Gestação de Alto Risco, 2022) e ACOG (2019)

Todas as gestantes fazem cultura de material vaginal e endoanal na janela de 36 0/7 a 37 6/7 semanas. A janela é calculada pela validade do exame: a cultura vale cinco semanas, o que cobre nascimentos até pelo menos 41 0/7 semanas, com valor preditivo de 95% a 98%. O argumento contra a alternativa é de sensibilidade — a triagem por fatores de risco identifica apenas 60% a 67% das gestantes colonizadas.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 39, itens 39.3 e Quadro 2; ACOG Committee Opinion nº 782, 2019.

Triagem por fatores de risco — mesmo manual do Ministério (item 39.2) e painel de rotina da Caderneta Brasileira da Gestante (2026), que não lista a cultura

A cultura para estreptococo do grupo B não consta do quadro de exames de rotina do pré-natal de risco habitual na caderneta vigente. O próprio manual reserva a triagem por fatores de risco para a gestante que entra em trabalho de parto sem cultura prévia e para os locais em que o rastreio não faz parte do protocolo assistencial, e registra que a melhor estratégia ainda não está completamente definida, porque nenhuma delas previne todos os casos de sepse neonatal precoce. A causa da diferença é de oferta e de organização da rede, não de discordância científica sobre a doença.

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta Brasileira da Gestante, 2026, item 4.2.1; Manual de gestação de alto risco, 2022, item 39.2 e Quadro 1.

Janela de 35 a 37 semanas — CDC (2010), ainda impressa em protocolos locais e material de estudo antigo

A janela clássica de coleta era 35 a 37 semanas. Ela foi deslocada para 36 0/7 a 37 6/7 semanas em 2019, quando o ACOG substituiu a parte obstétrica da diretriz do CDC de 2010, justamente para que os cinco semanas de validade da cultura alcançassem os nascimentos de até 41 0/7 semanas. Muitos protocolos municipais brasileiros ainda reproduzem a janela antiga.

CDC. Prevention of Perinatal Group B Streptococcal Disease, 2010, cuja parte obstétrica foi substituída pelo ACOG Committee Opinion nº 782, 2019.

Na prova

O cenário denuncia o recorte. Enunciado de UBS, de painel da caderneta, ou gestante que chega em trabalho de parto sem cultura, trabalha no terreno da triagem por fatores de risco — e aí um único fator basta para indicar a profilaxia. Enunciado que já entrega o resultado de uma cultura de 36 semanas, ou que nomeia o manual do Ministério ou o ACOG, trabalha no terreno do rastreio universal. A janela citada no enunciado datou o documento: 35 a 37 semanas vem do texto de 2010; 36 0/7 a 37 6/7 vem de 2019 em diante. E há um distrator que não pertence a nenhum dos dois mundos: qualquer alternativa que ofereça tratar com antibiótico a gestante colonizada durante o pré-natal está fora — a profilaxia é sempre intraparto.

Piso de acompanhamento do pré-natal: sete consultas ou oito contatos

Mínimo de sete consultas — Ministério da Saúde (Caderneta Brasileira da Gestante, 2026, ancorada na Portaria GM/MS nº 5.350/2024)

No mínimo sete consultas de pré-natal, intercaladas entre médico e enfermeiro, mais no mínimo uma consulta odontológica, com captação preferencialmente até a 12ª semana. A distribuição é por fase e não por semana cravada: mensal até 28 semanas, quinzenal da 28ª à 36ª e semanal a partir da 36ª — o que faz o número real superar sete sempre que a captação é precoce.

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta Brasileira da Gestante, 2026, itens 1.2 e 4.1.4; Portaria GM/MS nº 5.350, de 12 de setembro de 2024.

Mínimo de oito contatos — Organização Mundial da Saúde (2016)

Oito contatos programados, nas semanas 12, 20, 26, 30, 34, 36, 38 e 40 — um no primeiro trimestre, dois no segundo e cinco no terceiro. A OMS subiu de quatro visitas, do modelo focado dos anos 1990, para oito contatos, depois de evidência de que o modelo de quatro se associa a mais mortes perinatais. A troca da palavra visita por contato é deliberada: marca que se espera vínculo ativo, e não apenas o número de vezes em que a gestante foi vista.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO recommendations on antenatal care for a positive pregnancy experience, 2016 — modelo de oito contatos.

Na prova

Cenário de UBS, de indicador do SUS, de caderneta ou de pré-natal no SUS puxa o piso brasileiro de sete. Enunciado que nomeia a OMS, que usa a palavra contatos em vez de consultas, ou que lista as semanas 12-20-26-30-34-36-38-40, está no corpo internacional. A forma de escrever a periodicidade também entrega: mensal, quinzenal e semanal é a formulação brasileira; semanas cravadas são a formulação da OMS. Se o enunciado citar quatro visitas, ele está descrevendo o modelo focado que a própria OMS abandonou em 2016.

Em que semana cabe a única ultrassonografia da rotina

Entre 7 e 12 semanas — Ministério da Saúde (Caderneta Brasileira da Gestante, 2026)

Uma ultrassonografia obstétrica no primeiro trimestre, idealmente entre 7 e 12 semanas. A janela privilegia a datação, que é o que o exame precoce faz com o menor erro, e que sustenta depois toda decisão de prematuridade, restrição de crescimento e pós-datismo. O preço da escolha está explícito: nessa idade gestacional o exame não responde pela morfologia fetal, e o painel de risco habitual não prevê um segundo exame que responda.

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta Brasileira da Gestante, 2026, item 4.2.1.

Uma ultrassonografia antes de 24 semanas — Organização Mundial da Saúde (2016, recomendação B.2.4)

Também uma única ultrassonografia, mas com janela mais larga, e justificada por quatro objetivos ao mesmo tempo: estimar a idade gestacional, melhorar a detecção de anomalias fetais, detectar gestação múltipla e reduzir indução de parto por pós-datismo. A janela até 24 semanas permite que o mesmo exame único seja realizado perto das 20 semanas e cubra também a morfologia. A mesma diretriz não recomenda Doppler de rotina nem cardiotocografia anteparto de rotina.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO recommendations on antenatal care for a positive pregnancy experience, 2016 — recomendações B.2.3, B.2.4 e B.2.5.

Na prova

Os dois documentos falam em um exame só — o que muda é a semana e, com ela, a pergunta que o exame consegue responder. Enunciado que cobra datação, discordância com a data da última menstruação ou correção da idade gestacional está na janela precoce brasileira. Enunciado que cobra detecção de anomalia estrutural com um exame único está na janela da OMS. E uma alternativa que ofereça três ultrassonografias de rotina — morfológica de primeiro trimestre, morfológica de segundo trimestre e crescimento no terceiro — está descrevendo a prática do setor suplementar, não o painel de risco habitual do SUS.

De quanto em quanto tempo se repete a sorologia de toxoplasmose na gestante suscetível

Mensal, no máximo a cada dois meses — Ministério da Saúde (Manual de Gestação de Alto Risco, 2022)

A gestante com IgG e IgM não reagentes deve repetir a sorologia idealmente todos os meses ou, no máximo, com intervalo de dois meses, para detectar precocemente uma soroconversão. O intervalo curto se justifica pelo que se ganha ao detectar cedo: a espiramicina reduz a transmissão vertical em 60% a 70%, e quanto mais tarde ela entra, menor o benefício.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 21, Cenário 1.

Uma repetição por trimestre — Ministério da Saúde (Caderneta Brasileira da Gestante, 2026)

O quadro de exames de rotina lista o teste para toxoplasmose no segundo e no terceiro trimestre para a gestante cuja IgG não foi reagente — ou seja, uma repetição por trimestre, e não mensal. É o intervalo que a oferta de exame na atenção primária sustenta de forma universal, e é o que está impresso na caderneta que a gestante carrega.

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta Brasileira da Gestante, 2026, item 4.2.1, quadros do 2º e do 3º trimestre.

Na prova

Os dois documentos são do mesmo Ministério e discordam em nível diferente: o painel da caderneta organiza a oferta mínima garantida; o manual descreve o intervalo clinicamente desejável. Enunciado que descreve a rotina da UBS e o que está impresso na caderneta trabalha com a repetição trimestral. Enunciado que fala em detectar soroconversão precocemente, ou que já traz uma soroconversão detectada entre duas coletas próximas, trabalha com o intervalo mensal. Existe ainda um distrator comum aos dois mundos: qualquer alternativa que mande repetir a sorologia de uma gestante com IgG reagente e IgM não reagente está errada nos dois — essa é infecção pregressa e não se repete.

Imunoglobulina anti-D anteparto na 28ª semana

Anti-D 300 µg na 28ª semana — Ministério da Saúde (Manual de Gestação de Alto Risco, 2022)

Para a gestante Rh negativa não sensibilizada, com Coombs indireto negativo, a profilaxia é imperativa e tem três momentos: 300 µg na 28ª semana; até 72 horas após o parto de recém-nascido Rh positivo ou de fator Rh desconhecido; e até 72 horas após evento com risco de sensibilização. A falha da profilaxia é de apenas 1,5%.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, item 14.5.

Profilaxia anteparto apenas em contexto de pesquisa — Organização Mundial da Saúde (2016, recomendação C.3)

A diretriz de pré-natal da OMS classifica a profilaxia anteparto com imunoglobulina anti-D em 28 e 34 semanas, na gestante Rh negativa não sensibilizada, como recomendação restrita a contexto de pesquisa rigorosa. O alcance da ressalva é estreito e precisa ser lido com cuidado: ela atinge apenas a dose anteparto de rotina, e não a dose pós-parto nem a dose após evento sensibilizante, que permanecem consenso.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO recommendations on antenatal care for a positive pregnancy experience, 2016 — recomendação C.3.

Na prova

A divergência é só sobre a dose anteparto de rotina. Enunciado brasileiro, de UBS ou de maternidade do SUS, com gestante Rh negativa e Coombs indireto negativo chegando à 28ª semana, está no terreno da profilaxia anteparto. Uma alternativa que negue a dose até 72 horas após o parto de recém-nascido Rh positivo, ou a dose após sangramento, abortamento ou procedimento invasivo, está fora dos dois documentos ao mesmo tempo. E cuidado com o distrator técnico que costuma acompanhar essa questão: repetir o Coombs indireto depois de aplicada a anti-D, porque o teste pode positivar pela própria imunoglobulina, com títulos que raramente passam de 1:8 e podem durar de 8 a 12 semanas.

06

Caso resolvido

Ana, 27 anos, G2P1A0, chega à UBS para a primeira consulta de pré-natal com 10 semanas pela data da última menstruação. Não tem queixas. Na gestação anterior, parto vaginal a termo, sem intercorrências; não sabe informar se recebeu alguma injeção depois do parto. Traz apenas um teste de farmácia positivo.
o painel da primeira consulta
Saem, na mesma consulta: hemograma, eletroforese de hemoglobina, tipagem ABO e fator Rh, glicemia em jejum, urina tipo I com urocultura, sorologia para toxoplasmose (IgG e IgM), teste para HTLV, e os quatro testes rápidos — HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C, resolvidos ali mesmo. A ultrassonografia obstétrica é solicitada para a janela de 7 a 12 semanas, ou seja, para agora.
tipagem
A Rh negativo, Coombs indireto negativo. Ela não está sensibilizada, e isso programa duas coisas: repetir o Coombs indireto enquanto for negativo e aplicar imunoglobulina anti-D 300 µg na 28ª semana, além da dose até 72 horas após o parto se o recém-nascido for Rh positivo. O fato de não saber sobre a gestação anterior não muda a conduta atual — o Coombs negativo já diz que não houve sensibilização.
hemograma
Hemoglobina 10,4 g/dL. Abaixo de 11 g/dL é anemia na gestação — o corte é mais baixo que o da mulher não gestante por causa da hemodiluição fisiológica. Entre 9 e 11 g/dL é anemia leve a moderada: trata-se e acompanha-se na própria atenção primária, sem mudar o nível de atenção. A eletroforese volta com padrão AA.
urocultura
Escherichia coli, 100.000 UFC/mL, sem qualquer sintoma urinário. É bacteriúria assintomática, e na gestante ela se trata — a mesma cultura numa não gestante não seria tratada. Antibiótico conforme o antibiograma, e nova urocultura duas semanas depois do fim do tratamento, como controle de cura.
toxoplasmose
IgG e IgM não reagentes: suscetível. Não há o que tratar, há o que orientar — carne bem passada, água filtrada ou fervida, luvas para manipular terra e alimentos crus, cuidado com fezes de gato — e há o que repetir: a sorologia volta ao longo da gestação, para pegar uma eventual soroconversão.
ultrassonografia
Comprimento cabeça-nádega compatível com 11 semanas e 2 dias, contra 10 semanas pela última menstruação. Nessa janela, a datação pela ultrassonografia é a mais confiável, e a idade gestacional é corrigida. É dela que sairão depois o limite de prematuridade, o percentil de crescimento e a definição de pós-datismo — e é por isso que a caderneta pede o registro das duas idades gestacionais lado a lado.
o que já está agendado
Entre 24 e 28 semanas, o TOTG 75 g. Na 28ª semana, a imunoglobulina anti-D. No terceiro trimestre, repetem-se hemograma, glicemia em jejum, urina com urocultura, HIV e sífilis — e a toxoplasmose, porque ela é suscetível. No parto, teste rápido de HIV e de sífilis. Ao todo, com captação na 10ª semana e o calendário mensal-quinzenal-semanal, ela chega ao termo com bem mais que as sete consultas do piso.
07

Agora feche você

Marta, 31 anos, primigesta, faz a primeira consulta de pré-natal com 22 semanas — chegou tarde ao serviço. A sorologia de toxoplasmose colhida naquele dia volta com IgG reagente e IgM reagente. Ela está assintomática, e a ultrassonografia feita no mesmo dia não mostra alterações fetais.
achado
IgG e IgM reagentes, com 22 semanas de idade gestacional. IgM reagente, isoladamente, não prova infecção recente: a especificidade do teste varia de 77,5% a 99,1%, e a IgM pode permanecer positiva em títulos baixos por vários anos depois de uma infecção antiga.
a oferta do laboratório
O laboratório avisa que ainda tem soro da mesma amostra e oferece acrescentar o teste de avidez de IgG. Vale pedir?
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Usar o corte de hemoglobina da mulher não gestante Atrai porque 12 g/dL é o número que se decorou primeiro, e ele está certo — fora da gestação. Na gestante o corte é 11 g/dL, mais baixo porque a hemodiluição fisiológica é esperada. O erro custa caro nos dois sentidos: com 12 g/dL rotula-se como anêmica uma gestante normal; com 11 g/dL numa não gestante, deixa-se passar anemia real.
  2. 2Repetir o Coombs indireto depois de aplicada a imunoglobulina anti-D Parece zelo e é o contrário. O teste pode positivar por causa da própria imunoglobulina, com títulos que raramente passam de 1:4 ou 1:8 e que podem persistir de 8 a 12 semanas. Lido como sensibilização, esse resultado transforma uma gestante protegida em investigação de doença hemolítica perinatal que não existe.
  3. 3Pedir teste de avidez de IgG no segundo ou no terceiro trimestre Atrai porque a avidez é o exame que resolve a dúvida da IgM — só que ela resolve numa janela. Acima de 16 semanas, alta, baixa ou indeterminada, a conduta é a mesma: infecção aguda. Pedir depois disso é gastar exame e, pior, arriscar que um resultado de alta avidez seja lido como tranquilizador quando não é.
  4. 4Não tratar bacteriúria assintomática porque a gestante está assintomática A regra da não gestante é forte e generaliza mal. Na gestação, a estase por relaxamento ureteral e compressão uterina transforma colonização em pielonefrite, e o desfecho que se previne tratando não é só a infecção alta — é bacteriúria persistente, parto prematuro e baixo peso ao nascer.
  5. 5Adiar a citologia oncótica porque a paciente está grávida Soa prudente, e é justamente por isso que sobrevive. As diretrizes do INCA são de grau A no sentido oposto: gestantes têm o mesmo risco, seguem a mesma faixa etária e periodicidade, e a procura ao serviço para o pré-natal deve ser considerada uma oportunidade de rastreamento. O que se adia é o procedimento excisional, para 90 dias após o parto — não a coleta.
  6. 6Tratar com antibiótico a gestante com cultura positiva para estreptococo do grupo B Parece coerente com o resto da medicina: achou bactéria, trata. Aqui não. Não se usa antibiótico para estreptococo do grupo B na grávida colonizada fora do trabalho de parto — a colonização é transitória e volta. A profilaxia é intraparto, com penicilina G endovenosa iniciada ao diagnóstico do trabalho de parto ou após a rotura das membranas.
  7. 7Dizer que hepatite C só se testa na gestante com fator de risco Era verdade e deixou de ser em 2020, quando a Portaria SCTIE/MS nº 32 incorporou a testagem universal ao SUS. Hoje o anti-HCV ou teste rápido está no painel do primeiro trimestre e no do parto. É a informação que mais envelhece em apostila antiga de pré-natal.
  8. 8Confundir o piso de sete consultas com o total esperado Sete é o mínimo assegurado, não a meta. Uma gestante captada na 12ª semana e seguida pelo calendário — mensal até 28 semanas, quinzenal até 36, semanal depois — passa de sete com folga. O número sete responde à pergunta sobre o direito e o indicador; a distribuição responde à pergunta sobre a conduta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O VDRL é o teste sorológico de rotina no pré-natal para rastreamento da sífilis, cujo tratamento na gestante com penicilina benzatina previne a sífilis congênita (transmissão vertical). A colonoscopia não faz parte da rotina de pré-natal. A dosagem de TSH avalia a função tireoidiana, sem relação com penicilina. A cintilografia tireoidiana é contraindicada na gestação e não é rastreamento infeccioso. A eletroneuromiografia não tem indicação no pré-natal de rotina.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Painel do 1º trimestre, de memória: hemograma, eletroforese de hemoglobina, tipagem ABO e Rh (mais Coombs indireto se Rh negativo), glicemia em jejum, urina tipo I com urocultura, toxoplasmose IgG e IgM, HTLV, e os quatro testes rápidos — HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C — mais a ultrassonografia de 7 a 12 semanas. No 3º trimestre repetem-se hemograma, glicemia, urina com urocultura, HIV e sífilis. Cinco números: Hb < 11 g/dL define anemia; anti-D 300 µg na 28ª semana e até 72 horas após o parto; avidez de IgG só decide até 16 semanas; TOTG 75 g entre 24 e 28 semanas; cultura para estreptococo do grupo B entre 36 0/7 e 37 6/7 semanas.

em 30 dias

Agora o que a alteração dispara. Hb entre 9 e 11 g/dL: risco intermediário, tratado na APS; abaixo de 9 g/dL: alto risco. Coombs indireto positivo: titulação, e ≥ 1:16 leva ao Doppler de artéria cerebral média. Bacteriúria assintomática: tratar sempre, com urocultura de controle em duas semanas; segundo episódio indica profilaxia até o parto, trocando nitrofurantoína por cefalexina depois de 37 semanas. Toxoplasmose: IgG reagente com IgM não reagente não se repete; IgM reagente é infecção aguda até prova em contrário, e a prova em contrário só existe abaixo de 16 semanas, na forma de alta avidez. Estreptococo do grupo B na urina, em qualquer contagem, já garante profilaxia intraparto. E as três divergências que valem ouro: sete consultas do Ministério contra oito contatos da OMS; ultrassonografia de 7 a 12 semanas do Ministério contra uma única antes de 24 semanas da OMS; rastreio universal de estreptococo do grupo B no manual do Ministério contra a ausência da cultura no painel da caderneta.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 28 anos, G1P0, comparece à UBS para a primeira consulta de pré-natal com 9 semanas de idade gestacional pela data da última menstruação. Assintomática, sem comorbidades, sem uso de medicações. Traz exames de um laboratório particular feitos há uma semana: tipagem A negativo, Coombs indireto negativo, hemoglobina 10,2 g/dL, urocultura com Streptococcus agalactiae 50.000 UFC/mL e sorologia para toxoplasmose com IgG reagente e IgM reagente. Conduza a consulta: complete o painel do primeiro trimestre, interprete cada resultado trazido e programe o que ainda falta até o parto. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Exames laboratoriais e sorologias do pré-natal por trimestre – Exames do pré-natal — Preparatório para provas | OsceLabs