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Outras EspecialidadesPsiquiatria

Emergências psiquiátricas: o teto que acaba em uma hora e o relógio que corre ao contrário

Emergências psiquiátricas, agitação psicomotora e síndrome neuroléptica maligna

Contenção, tratamento da agitação e comunicações obrigatórias

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 40 anos, com esquizofrenia, iniciou haloperidol há 5 dias com aumento recente da dose. É trazido à emergência por familiares com febre alta, rigidez muscular acentuada ('em cano de chumbo'), alteração do nível de consciência e sudorese profusa. Ao exame: T 40,1 °C, PA 160/95 mmHg, FC 128 bpm, FR 26 ipm. Laboratório: CPK 8.500 U/L, leucocitose. Qual é o diagnóstico e a conduta MAIS adequada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata das duas emergências que dividem a mesma ampola: a agitação psicomotora, que o antipsicótico encerra, e a síndrome neuroléptica maligna, que o antipsicótico abre. Entra a aritmética da tranquilização rápida — dose, intervalo de repetição e teto diário —, o reconhecimento da síndrome contra os três quadros que a imitam, a régua da contenção física e os dois prazos de comunicação da Lei nº 10.216/2001. Sai tudo o que é manejo crônico.

O capítulo de esquizofrenia e transtornos psicóticos manda estes três assuntos para cá com todas as letras, e é dele que vem o pano de fundo de quase toda vinheta: o paciente da síndrome neuroléptica maligna costuma ser o paciente psicótico em ajuste de dose. Dele ficam a régua de tempo do diagnóstico, a escada de antipsicóticos e o critério que libera a clozapina.

Ao capítulo de transtorno afetivo bipolar e mania este devolve o número que falta. Aquele capítulo reproduz o item 8 do protocolo brasileiro, que obriga a colher história familiar ou prévia de síndrome neuroléptica maligna antes de introduzir antipsicótico, e não diz por quê. A série brasileira de dezoito casos consecutivos responde: quatro deles tinham transtorno bipolar — o segundo diagnóstico de base mais frequente, atrás apenas dos cinco de esquizofrenia. O item 8 não pergunta por educação; pergunta porque mais de um em cada cinco casos brasileiros da síndrome — quatro em dezoito, 22,2% — saiu de um paciente bipolar, e é um artigo que aquele capítulo não cita.

O manejo do delirium no idoso, dentro e fora do hospital, mora nos capítulos de geriatria e do paciente internado, e é lá que a contenção mecânica aparece com mais frequência em todo o acervo. Deste capítulo aqueles levam o teto de duas horas e o que a prática brasileira mediu contra ele. A agitação da abstinência alcoólica, em que o benzodiazepínico vem antes do antipsicótico, fica no capítulo de transtornos por uso de álcool.

A arquitetura da rede — reforma psiquiátrica, centros de atenção psicossocial e rede de atenção psicossocial — é do capítulo próprio; daqui saem apenas os dois relógios de comunicação da lei. A discussão ética da coerção e da capacidade fica em medicina legal e bioética; deste capítulo vai para lá a aritmética que faz um prazo vencer antes do outro. O mecanismo do bloqueio dopaminérgico, a acatisia e a distonia como efeitos de receptor são do capítulo de antipsicóticos do ciclo básico, e a bromocriptina como agonista dopaminérgico aparece aqui só na função que a síndrome lhe dá.

03

O que muda decisão

Uma ampola encerra uma crise e abre a outra

Quase todo material separa a agitação psicomotora da síndrome neuroléptica maligna, e a separação é um erro de arquitetura. Nas vinhetas brasileiras de prova as duas costumam ser o mesmo paciente em dois dias diferentes: o haloperidol que encerrou a agitação de segunda-feira é o que abre a rigidez de quarta. A série brasileira mais bem descrita do assunto fecha essa porta com um número que não deixa margem — dos dezoito casos consecutivos analisados, todos os dezoito estavam ligados à introdução do fármaco ou ao aumento da dose nos três meses anteriores. Nenhum surgiu do nada.

O diagnóstico daquela série foi feito pelos critérios de Levenson, publicados em 1985: exposição a antagonista dopaminérgico, rigidez muscular, hipertermia e disfunção autonômica, com o laboratório mostrando creatinofosfoquinase elevada, leucocitose e alteração de enzimas hepáticas. A tétrade que a prova cobra é essa, e ela é reconhecível de fora: alteração do estado mental, alteração motora, disautonomia e febre. Na série brasileira, o início em todos os casos incluiu alteração do estado mental — agitação ou apatia — e rigidez, com a hipertermia vindo depois.

O que a prova de fato testa é a fronteira, e são três os quadros que disputam a mesma vinheta. A síndrome serotoninérgica exige dois agentes serotoninérgicos e traz hiperreatividade neuromuscular: clônus, mioclonia e hiperreflexia, com predomínio em membros inferiores, mais midríase e diarreia. A distonia aguda aparece horas a dias depois de um antipsicótico de alta potência, é focal — torcicolo, crise oculógira —, cursa sem febre e sem elevação de creatinofosfoquinase. A hipertermia maligna pertence ao centro cirúrgico e ao gatilho anestésico, halogenados e succinilcolina. A rigidez da síndrome neuroléptica maligna é generalizada, plástica, com reflexos normais ou diminuídos — o oposto do padrão serotoninérgico.

A consequência prática é uma só, e ela é a decisão que o acervo de questões cobra mais do que qualquer outra: retirar o agente. Suporte intensivo — hidratação vigorosa para proteger o rim da mioglobinúria, resfriamento, monitorização — vem junto. O adjuvante farmacológico vem depois, e vem menos vezes do que o aluno imagina.

A permissão de repetir e o teto que a consome

A tabela de medicações intramusculares da diretriz brasileira de agitação psicomotora traz o haloperidol numa linha só, com cinco números: dose de 2,5 a 10 mg, efeito inicial em 30 minutos, meia-vida de 15 a 37 horas, pode repetir a cada 30 minutos, máximo de 30 mg em vinte e quatro horas. Duas dessas informações estão na mesma linha e só concordam dentro de um horizonte que nenhuma delas declara.

Faça a conta pelos extremos da faixa de dose. Começando com 10 mg, o teto diário comporta três aplicações: às zero, aos trinta e aos sessenta minutos. A permissão de repetir a cada meia hora se esgota em uma hora, e sobram vinte e três horas de dia sem haloperidol disponível. Começando com 2,5 mg, o mesmo teto comporta doze aplicações, a última aos trezentos e trinta minutos — cinco horas e meia de permissão. A escolha da primeira dose faz a mesma linha da mesma tabela valer entre sessenta minutos e cinco horas e meia, uma diferença de 5,5 vezes, e a linha não diz isso.

Isso só vira decisão porque a diretriz tem uma regra de sequência explícita: se for preciso repetir, use o mesmo medicamento até atingir a dose máxima diária; só então tente um medicamento diferente. Quer dizer que a primeira dose não escolhe apenas a intensidade — escolhe a hora em que você será obrigado a trocar de molécula, e trocar de molécula numa emergência psiquiátrica é justamente o que a diretriz pede para evitar, porque a polifarmácia amplia efeitos adversos.

A vinheta que aparece: homem de vinte e quatro anos, trazido pela polícia às vinte e duas horas, desescalonamento verbal fracassado, recusa a via oral. Recebe 10 mg de haloperidol intramuscular, repetidos às vinte e duas e trinta e às vinte e três horas. Às vinte e três e trinta a agitação retorna. O aluno que pede a quarta ampola está pedindo o quadragésimo miligrama de um dia de trinta. O erro não é de farmacologia — é de leitura: ele leu pode repetir a cada trinta minutos como permissão permanente, quando o teto da mesma linha já havia sido gasto em uma hora.

Gráfico com o tempo em minutos no eixo horizontal, de 0 a 360, e a dose acumulada de haloperidol intramuscular em miligramas no eixo vertical, de 0 a 30, com linha tracejada de teto em 30 miligramas em vinte e quatro horas. Uma linha em degraus de 10 em 10 miligramas, aplicada nos minutos 0, 30 e 60, atinge o teto em uma hora. Outra linha, em degraus de 2,5 miligramas a cada 30 minutos, atinge o mesmo teto no minuto 330, cinco horas e meia depois. Uma seta entre os dois pontos de chegada registra a diferença de 5,5 vezes.
A permissão de repetir a cada 30 minutos só vale enquanto o teto de 30 mg por dia durar: começando com 10 mg ela se esgota em uma hora; começando com 2,5 mg, em cinco horas e meia.

Os tetos que faltam e os que mudam de valor

Corra a coluna do teto diário nas duas tabelas parenterais da diretriz e uma molécula se destaca por ausência. O midazolam é a única que aparece com um traço no lugar do número, e aparece assim nas duas vias: intramuscular, até 15 mg, meia-vida de noventa a cento e cinquenta minutos, repetível a cada trinta minutos, teto não declarado; intravenoso, 2,5 a 10 mg, efeito em cinco minutos, repetível a cada quinze minutos, teto não declarado. Todas as outras linhas trazem um número em miligramas.

O detalhe importa porque a combinação mais rápida da tabela intramuscular é justamente haloperidol com midazolam — efeito inicial em vinte minutos, contra trinta do haloperidol isolado — e a célula de teto dessa linha diz, literalmente, trinta miligramas para o haloperidol. O teto cobre um dos dois fármacos. Levando a regra de sequência a sério e escolhendo o canto barato da faixa, 2,5 mg de haloperidol com 15 mg de midazolam a cada trinta minutos, chega-se ao teto do haloperidol na décima segunda aplicação, cinco horas e meia depois, tendo administrado 180 mg de midazolam — um número que nenhuma célula da tabela proíbe. A coluna de efeitos adversos daquela mesma linha diz sedação excessiva; a linha do midazolam isolado diz depressão respiratória.

Do outro lado está o teto que existe mas muda de valor conforme a via. O haloperidol tem 30 mg em vinte e quatro horas pela via intramuscular e 20 mg pela intravenosa, onde a dose por aplicação é de 5 mg repetível a cada trinta minutos — quatro aplicações, teto alcançado em noventa minutos. Dois terços do teto intramuscular, no mesmo fármaco e no mesmo dia. E a tabela intravenosa vem encimada pela frase de que a diretriz não recomenda a via intravenosa por questões de segurança: é uma tabela que existe para descrever o que a literatura mediu, não para autorizar.

A regra que fecha o assunto é curta e o aluno a atropela com frequência: a diretriz não recomenda misturar vias de administração, dar via oral e intramuscular ao mesmo tempo, porque a absorção e o início de efeito ocorrem em momentos diferentes e a monitorização fica impossível. E, antes de tudo isso, a preferência declarada é pela via oral sempre que possível — inclusive comprimido orodispersível e solução oral —, com a parenteral reservada à recusa ou à impossibilidade. O objetivo nomeado é acalmar sem sedar: paciente calmo e ainda responsivo, não paciente dormindo.

Dezoito brasileiros e uma régua de 1985

A série brasileira de referência reuniu dezoito pacientes consecutivos com diagnóstico estabelecido de síndrome neuroléptica maligna em dois serviços terciários de neurologia de Curitiba, ao longo de vinte e cinco anos, de 1985 a 2010. A divisão dá 0,72 caso por ano somando os dois hospitais — é esse número, e não o adjetivo rara, que diz o que a raridade significa na prática de quem atende.

Doze dos dezoito (66,67%) eram mulheres, com média de idade de 49,5 anos e faixa de 18 a 81. Os diagnósticos de base foram cinco esquizofrenias, quatro transtornos bipolares, três demências, dois delirium, duas encefalites após transplante de medula óssea, uma psicose do lúpus e uma psicose no curso de esclerose múltipla. A distribuição desmente a versão simplificada de que a síndrome é doença de paciente esquizofrênico: pouco mais de um quarto dos casos tinha esse diagnóstico, e a metade da série carregava alguma outra razão para estar recebendo um bloqueador dopaminérgico.

O laboratório da série é o achado mais útil para a prova. A creatinofosfoquinase estava significativamente elevada em dezoito de dezoito — cem por cento. A creatinina estava elevada em onze (61,1%) e a leucocitose com desvio à esquerda apareceu em onze (61,1%) também. Quer dizer: a lesão renal e o hemograma alterado, que a vinheta usa como confirmação, faltam em quase quatro de cada dez casos reais; a enzima muscular não faltou em nenhum. Uma vinheta sem creatinina alterada não afasta o diagnóstico; uma vinheta com creatinofosfoquinase normal é um problema.

O relógio da síndrome tem duas leituras que convivem sem se contradizer. A série mostra que todos os casos se ligaram a introdução ou aumento de dose nos três meses anteriores; a literatura que ela cita concentra a maioria bem mais perto do início, com 90% dentro de duas semanas do começo do antipsicótico. Três meses é a janela em que se deve procurar o gatilho na anamnese; duas semanas é onde ele quase sempre está. E há a forma menos comum, que a prova cobra por exclusão: a síndrome também ocorre após retirada abrupta de agente dopaminérgico, e nesse caso o gatilho é o inverso do habitual.

O adjuvante que a série brasileira não usou

A introdução daquele artigo descreve o tratamento em uma frase: retirada do antipsicótico ou de outro agente causador, suporte, e uso ocasional de fármacos como o agonista dopaminérgico bromocriptina e o dantroleno. Guarde o advérbio, porque o resultado do próprio artigo o quantifica.

Dos dezoito pacientes, sete (38,9%) receberam bromocriptina. Os outros onze (61,1%) receberam outros fármacos, e o artigo os nomeia: amantadina, levodopa, diazepam e pramipexol. O dantroleno não aparece em nenhum dos dezoito tratamentos. A palavra ocorre uma única vez no artigo inteiro, na lista da introdução, e some do relato do que os pacientes de fato receberam. A série é neurológica e a preferência por dopaminérgicos — amantadina, levodopa, pramipexol — reflete quem a escreveu, mas o fato permanece: o relaxante muscular que as vinheta brasileiras fazem o aluno nomear é o que aquela casuística nacional não registrou ter usado.

Isso não torna o dantroleno errado. Torna explícita a hierarquia que o acervo de questões já cobra: a intervenção comum aos dezoito foi retirada do agente mais suporte, e o adjuvante veio depois, em parte dos casos, variando com o serviço. As alternativas de prova que oferecem dantroleno e/ou bromocriptina estão certas quando a pergunta é qual adjuvante; estão erradas quando substituem a suspensão. O erro caro é o inverso do que parece: não é esquecer o dantroleno, é chegar nele antes de ter suspendido o haloperidol.

O desfecho fecha a lógica. Houve um óbito entre os dezoito, que o artigo imprime como 5,5% e que a divisão exata coloca em 5,56%, contra a estimativa de mortalidade de cerca de 10% que o mesmo artigo cita da literatura. As duas não se contradizem: com dezoito casos, um único óbito é perfeitamente compatível com uma letalidade de dez por cento — a diferença cabe inteira dentro da incerteza de um denominador desse tamanho. O que a série mostra não é que a síndrome mata menos; é que uma casuística de dezoito não tem como responder essa pergunta.

Duas linhagens de incidência na mesma folha

O mesmo artigo de cinco páginas informa a incidência da síndrome duas vezes, com números que não se parecem. Na introdução: as estimativas variam de 0,01 a 3,23 — sem unidade escrita na frase, embora o contexto seja percentual —, e a variação é atribuída aos critérios diagnósticos e às práticas de prescrição. Na discussão: estima-se que 0,5 a 1% dos pacientes expostos a antipsicóticos desenvolverão a síndrome.

A tentação é chamar isso de contradição. Antes, olhe a bibliografia de cada frase. A faixa larga cita quatro revisões publicadas entre 1993 e 2010; a faixa estreita cita o artigo original de 1960 que descreveu o haloperidol e o próprio Levenson de 1985. As duas listas de referências não compartilham um único item. Não são duas medições do mesmo objeto: são duas escolas, uma fundadora e outra revisora, e o artigo declara qual é a variável que abre a faixa — o critério diagnóstico adotado.

A diferença de amplitude conta o resto da história. De 0,01 a 3,23 há um fator de 323 vezes; de 0,5 a 1, um fator de 2. Uma estimativa que varia trezentas vezes conforme quem conta não é uma estimativa de frequência da doença, é uma medida de quanto o rótulo depende da régua. O achado que a literatura mais recente reforça vai na mesma direção: em séries que reauditaram prontuários codificados como síndrome neuroléptica maligna, a maioria esmagadora dos casos não preenchia os critérios formais quando reavaliada.

O que fazer com isso numa prova é simples e vale a pena decorar como postura, não como número: enunciado que fornece uma incidência está citando uma escola, e a alternativa correta será a que reproduz o documento que a banca invocou. Nenhum dos dois pares de números está errado. O aluno que memoriza um e rejeita o outro não está defendendo um fato — está defendendo uma bibliografia.

Os denominadores que trocam de dono

Ainda no mesmo artigo, três frases sobre a mesma coisa dão três números. O resumo diz que mais de dois terços dos casos usavam antipsicótico clássico, e imprime 68%. A discussão diz que, na amostra, 32% usavam a classe mais nova. E os resultados dizem, sem porcentagem, que oito pacientes estavam em uso de agentes mais novos. Oito de dezoito é 44,4%, não 32%.

A reconciliação está na tabela de fármacos, e ela é limpa. A tabela não conta pacientes: conta citações de fármaco. Cinco dos dezoito pacientes usavam mais de um agente ao mesmo tempo — três usavam dois, um usava três e um usava quatro —, de modo que dezoito pacientes geraram 25 citações de sete moléculas diferentes. Na tabela, os típicos somam 17 e os atípicos somam 8. Daí saem exatamente os dois números publicados: 17 sobre 25 dá 68% e 8 sobre 25 dá 32%.

Portanto 32% é uma proporção de prescrições vestida com a roupa de uma proporção de pacientes. A frase da discussão diz na nossa amostra, 32% estavam tomando essa classe mais nova, e o sujeito da frase são pacientes, não receitas. A resposta correta para a pergunta que a frase parece responder é 44,4%. É o mesmo numerador — oito — com o denominador trocado.

Há ainda uma pista de que a tabela é a versão boa. O texto corrido lista o haloperidol com dez citações; a tabela lhe dá onze. Some a lista do texto: dez de haloperidol, cinco de risperidona, três de clorpromazina, duas de levomepromazina, duas de olanzapina, uma de tioridazina e uma de quetiapina somam 24 — e o próprio parágrafo anuncia 25. A tabela, com onze de haloperidol, soma 25 e reproduz os 68% e os 32% impressos no resumo e na discussão. A prosa perdeu uma unidade num único algarismo, e é a tabela que governa. Numa prova, a armadilha se monta sozinha: pede-se a proporção de pacientes em antipsicótico atípico, o aluno lembra do 32% que leu, e responde a pergunta errada com um número verdadeiro.

Duas horas no papel, duzentas e duas acima de quatro horas

A recomendação número sete da diretriz brasileira é curta: contenções são usadas apenas com prescrição médica e por período finito, em princípio não superior a duas horas. A mesma diretriz cita, como evidência da prática nacional, um estudo transversal de um hospital psiquiátrico público de Belo Horizonte que analisou 740 contenções entre setembro de 2011 e agosto de 2012.

A distribuição de duração daquele estudo tem quatro faixas: de zero a sessenta minutos, 97 contenções (13,1%); de sessenta e um a duzentos e quarenta minutos, 228 (30,8%); acima de duzentos e quarenta minutos, 202 (27,3%); e sem informação de duração, 213 (28,8%). As quatro somam 740 e cem por cento, o que confirma que estamos lendo o denominador certo. Mas repare no que as faixas não conseguem fazer: o teto da diretriz é de 120 minutos, e a faixa do meio vai de 61 a 240 — ela atravessa o teto. As bandas da medição não têm o corte da recomendação.

A consequência é aritmética. Apenas a primeira faixa está comprovadamente dentro do teto: 97 contenções, 13,1% do total. As 228 da faixa do meio podem estar dentro ou fora, e não há como saber. No melhor cenário possível, 43,9% cumpriram a regra; no cenário verificável, 13,1%. A diretriz cita esse estudo para dizer que muitos pacientes ficaram contidos por mais de duzentos e quarenta minutos, 27,3% — e duzentos e quarenta minutos é exatamente o dobro do teto que ela própria estabelece três parágrafos adiante.

E os 27,3% são a leitura generosa. O cálculo usa 740 no denominador, o que trata as 213 contenções sem duração registrada como se fossem curtas. Entre os registros que declaram quanto tempo duraram — 740 menos 213, ou 527 —, as que passaram de quatro horas são 202, isto é, 38,3%. Mais de uma em cada três, e não pouco mais de uma em cada quatro. Convertendo em relógio: 740 contenções em trezentos e sessenta e seis dias dão uma a cada 11,9 horas; as 202 longas dão uma a cada 43,5 horas, pouco menos de dois dias. Belo Horizonte tinha 2.315.560 habitantes no Censo de 2022, e um único hospital público produziu o equivalente a 32 contenções por cem mil habitantes por ano — número que superestima a taxa, porque a clientela do hospital não se limita ao município. A técnica mais usada foi a de quatro pontos, 354 procedimentos (47,8%), seguida da de cinco pontos, 235 (31,8%).

A janela cega e a conta que não fecha

O protocolo de sinais vitais da contenção tem três momentos definidos: logo ao ser contido, aos 30 minutos e na retirada. O estudo brasileiro encontrou registro completo dos três em 40,8% dos casos — cerca de 302 das 740 contenções. As outras 438 (59,2%) chegaram ao fim com a folha incompleta.

O desenho do próprio protocolo explica parte do problema. Só o segundo momento está preso a um relógio; o terceiro está preso a um evento, a retirada. Numa contenção que vá até o teto de duas horas, isso cria um intervalo de 90 minutos sem aferição entre a segunda e a terceira checagem. Numa das 202 que passaram de quatro horas, o intervalo passa de 210 minutos. A densidade de vigilância cai exatamente à medida que o risco sobe — quanto mais longa a contenção, mais tempo sem ninguém olhar.

O que cresce nessa janela está na lista de complicações da própria diretriz: lesão ortopédica, desidratação, trombose, asfixia, morte e rabdomiólise. E o exame que enxerga rabdomiólise é a creatinofosfoquinase — a mesma enzima que a tabela de exames complementares da diretriz indica, entre outras finalidades, para a síndrome neuroléptica maligna. É, aliás, a única vez em que a síndrome é nomeada nas duas partes inteiras da diretriz brasileira de agitação: uma célula, numa tabela de laboratório, dizendo para que serve uma dosagem. O documento que ensina a sedar não ensina a reconhecer a síndrome que a sedação pode desencadear; ele só diz qual exame a enxerga.

A conta dos eventos adversos merece ser refeita à mão. O estudo informa que 56,2% dos pacientes não apresentaram nenhum evento, que para 42,6% não houve informação registrada e que 0,4% teve desidratação anotada. As três somam 99,2%, deixando oito décimos de ponto — cerca de seis das 740 — fora da itemização. Mais grave que a sobra é o denominador: 42,6% de 740 são 315 fichas sem nada escrito, restando 425 fichas que dizem alguma coisa. Dessas, 416 dizem sem eventos — ou seja, 97,9% dos documentados, não 56,2% de todos. A leitura tranquilizadora precisa de um denominador que a frase não nomeia, e a leitura preocupada — quarenta e quatro por cento tiveram algo — é, na maior parte, os quarenta e três por cento sobre quem ninguém escreveu. Os 0,4% de desidratação são três pacientes em doze meses, num serviço em que duzentas e duas contenções passaram de quatro horas.

Os dois relógios da lei, e o que muda antes das 48 horas

A Lei nº 10.216/2001 define as três modalidades num parágrafo único do artigo 6º, e a definição é por consentimento, não por gravidade: voluntária é a que se dá com o consentimento do usuário; involuntária, a que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro; compulsória, a determinada pela Justiça. Pedido da família não torna a internação voluntária — torna-a involuntária, e é o erro que mais aparece em vinheta de pais que levam o filho ao pronto-socorro.

Feita essa escolha, o artigo 8º, §1º manda a internação involuntária ser comunicada ao Ministério Público Estadual no prazo de setenta e duas horas, pelo responsável técnico do estabelecimento — e determina que o mesmo procedimento seja adotado na alta. Dois artigos adiante, o artigo 10 manda que evasão, transferência, acidente, intercorrência clínica grave e falecimento sejam comunicados pela direção do estabelecimento aos familiares ou ao representante legal e à autoridade sanitária, no prazo máximo de vinte e quatro horas.

São dois relógios com destinatários diferentes, responsáveis diferentes e prazos diferentes, e nenhum dos dois artigos menciona o outro. A aritmética é imediata: uma intercorrência ocorrida na hora X da internação vence em X mais 24; a comunicação da própria internação vence em 72. A primeira vence antes da segunda sempre que X mais 24 for menor que 72, ou seja, sempre que X for menor que 48 horas. Para qualquer intercorrência clínica grave nos dois primeiros dias de uma internação involuntária, o aviso sobre o que aconteceu com o paciente é legalmente devido antes do aviso de que o paciente foi internado.

Não é uma curiosidade de calendário: é exatamente onde a síndrome mora. O paciente chega agitado, é internado sem consentimento, recebe ou tem aumentado o antipsicótico, e a literatura coloca noventa por cento dos casos dentro de duas semanas do início — com as vinhetas brasileiras concentrando a rigidez entre vinte e quatro e quarenta e oito horas depois de a dose subir. O quadro que torna a internação juridicamente reportável pode, portanto, ser reportado depois do quadro que quase matou o paciente. Numa prova, o erro que o aluno marca é trocar os dois prazos de lugar, ou atribuir as setenta e duas horas à Justiça: as setenta e duas horas são da involuntária e o destinatário é o Ministério Público Estadual; o juiz aparece na compulsória, e a comunicação em vinte e quatro horas vai para a autoridade sanitária e para a família.

04

As réguas, em ordem de uso

Três tabelas resolvem quase toda vinheta do tema: a que diz quanto tempo dura a permissão de repetir, a que separa os quatro quadros com febre e rigidez, e a que guarda os dois prazos da lei.

  1. 1Antes de qualquer fármaco, tente o desescalonamento verbal e ofereça a via oral. A diretriz declara preferência pela via oral sempre que possível e o objetivo nomeado é acalmar sem sedar — paciente calmo e ainda responsivo.
  2. 2Escolhida a via parenteral, escolha também o horizonte. A dose inicial define quando o teto diário chega: 10 mg de haloperidol intramuscular esgotam os 30 mg do dia em uma hora; 2,5 mg os esgotam em cinco horas e meia.
  3. 3Não misture vias. Dar via oral e intramuscular ao mesmo tempo é desaconselhado porque a absorção e o início de efeito ocorrem em momentos diferentes e a monitorização fica impossível.
  4. 4Precisando repetir, esgote o mesmo fármaco até o teto diário antes de trocar de molécula. Trocar antes é polifarmácia; trocar depois é o que a diretriz manda.
  5. 5Diante de febre com rigidez em paciente que teve antipsicótico introduzido ou aumentado, pense na síndrome e olhe os reflexos: normais ou diminuídos com rigidez plástica generalizada apontam a síndrome neuroléptica maligna; aumentados, com clônus, apontam a serotoninérgica.
  6. 6Confirmada a suspeita, a primeira ação é suspender o agente. Suporte — hidratação vigorosa, resfriamento, monitorização — vem no mesmo movimento. Bromocriptina e dantroleno são adjuvantes de caso grave ou refratário, nunca substitutos da suspensão.
  7. 7Se houve contenção física, o teto é de duas horas em princípio, e os sinais vitais se aferem em três momentos: ao conter, aos 30 minutos e na retirada.
  8. 8Sendo internação involuntária, comunique ao Ministério Público Estadual em 72 horas — e lembre que qualquer intercorrência clínica grave tem prazo próprio de 24 horas, para a autoridade sanitária e para a família.

O teto diário e quanto tempo ele dura

Esquema e viaDose por aplicaçãoRepetir a cadaTeto em 24 hQuando o teto chega
Haloperidol, intramuscular2,5 a 10 mg30 min30 mg60 min se a primeira dose for de 10 mg; 5 h 30 min se for de 2,5 mg
Haloperidol, intravenoso5 mg30 min20 mg90 min — e a diretriz desaconselha esta via
Haloperidol com midazolam, intramuscular2,5 mg mais 7,5 a 15 mg30 min30 mg, só para o haloperidol5 h 30 min com 2,5 mg, tendo dado até 180 mg de midazolam
Haloperidol com prometazina, intramuscular2,5 a 10 mg mais 25 a 50 mg30 min30 mg e 100 mg60 min na dose máxima dos dois
Midazolam isolado, intramuscularaté 15 mg30 minnão declaradonão há teto a alcançar

Quatro quadros com febre e rigidez

QuadroGatilhoAchado motorReflexosCreatinofosfoquinase
Síndrome neuroléptica malignaantipsicótico introduzido ou com dose aumentadarigidez plástica generalizada, em cano de chumbonormais ou diminuídosmuito elevada — 18 de 18 na série brasileira
Síndrome serotoninérgicadois agentes serotoninérgicos associadosclônus e mioclonia, predomínio em membros inferioresaumentadosnormal ou pouco elevada
Distonia agudaantipsicótico de alta potência, horas a diasespasmo focal: torcicolo, crise oculógiranormaisnormal
Hipertermia malignahalogenados e succinilcolina, em centro cirúrgicorigidez com trismonormaismuito elevada

Dois prazos na mesma lei

EventoArtigoPrazoQuem comunicaA quem
Internação involuntária, e também sua altaart. 8º, §1º72 horasresponsável técnico do estabelecimentoMinistério Público Estadual
Intercorrência clínica grave, acidente, evasão, transferência, falecimentoart. 1024 horasdireção do estabelecimentofamiliares ou representante legal, e autoridade sanitária
Internação compulsóriaart. 9ºsem prazo próprio na leideterminada pelo juiz competenteo juiz decide considerando as condições de segurança

A creatinofosfoquinase esteve elevada em dezoito de dezoito na série brasileira; creatinina e leucocitose, em onze de dezoito cada. Vinheta sem alteração renal não afasta o diagnóstico.

O midazolam é a única molécula das tabelas parenterais sem teto declarado em vinte e quatro horas, nas duas vias. Na combinação com haloperidol, o teto anunciado cobre apenas o haloperidol.

O haloperidol tem 30 mg por via intramuscular e 20 mg por via intravenosa no mesmo período de vinte e quatro horas — e a diretriz desaconselha a via intravenosa.

Duzentos e quarenta minutos, a faixa que o estudo brasileiro usa como corte superior, é o dobro do teto de duas horas que a própria diretriz recomenda.

A modalidade da internação se define pelo consentimento do usuário, não pela gravidade nem por quem pediu. Pedido da família em paciente que recusa é internação involuntária.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é a incidência da síndrome neuroléptica maligna

De 0,01 a 3,23

A introdução da série brasileira registra que as estimativas variam de 0,01 a 3,23 conforme os critérios diagnósticos e as práticas de prescrição — um fator de 323 vezes entre os extremos.

Moscovich M et al. Neuroleptic malignant syndrome. Arq Neuropsiquiatr. 2011;69(5):751-755, introdução, citando quatro revisões publicadas entre 1993 e 2010.

De 0,5 a 1%

A discussão do mesmo artigo estima que 0,5 a 1% dos pacientes expostos a antipsicóticos desenvolverão a síndrome — um fator de 2 entre os extremos.

Moscovich M et al. Arq Neuropsiquiatr. 2011;69(5):751-755, discussão, citando o artigo original de 1960 sobre o haloperidol e Levenson (Am J Psychiatry, 1985).

Na prova

As duas frases estão no mesmo artigo de cinco páginas, e as listas de referências que as sustentam não compartilham um único item: a faixa larga vem de revisões, a estreita vem dos artigos fundadores. Não são duas medições em conflito, são duas escolas. Para identificar o recorte do avaliador, olhe o que o enunciado invoca: banca que cita a estimativa clássica está com o par 0,5 a 1%; banca que fala em variação conforme critério diagnóstico está com a faixa larga. E guarde a razão que o próprio artigo dá — o que abre a faixa é o critério adotado, não a doença.

Que proporção da série brasileira usava antipsicótico de nova geração

32% — proporção de citações de fármaco

O resumo diz que mais de dois terços dos casos usavam antipsicótico clássico (68%) e a discussão diz que 32% usavam a classe mais nova. Os dois vêm da tabela de fármacos, que conta 25 citações em 18 pacientes: 17 típicos e 8 atípicos.

Moscovich M et al. Arq Neuropsiquiatr. 2011;69(5):751-755, resumo, discussão e Tabela 2.

44,4% — proporção de pacientes

Os resultados afirmam que oito pacientes estavam em uso de agentes mais novos. Oito entre dezoito pacientes é 44,4%, porque cinco pacientes usavam mais de um fármaco simultaneamente e geraram mais de uma citação cada.

Moscovich M et al. Arq Neuropsiquiatr. 2011;69(5):751-755, seção de resultados.

Na prova

Este não é um caso de fonte contra fonte, e sim de denominador trocado dentro da mesma fonte — mesmo numerador, oito, com bases diferentes. Para identificar o que a questão pede, leia o sujeito da frase: se o enunciado pergunta por pacientes, a resposta é 44,4%; se pergunta por prescrições ou por citações de fármaco, é 32%. A pista de que a tabela é a versão boa está na aritmética: a lista do texto corrido soma 24 citações, o parágrafo anuncia 25, e só a contagem da tabela reproduz os 68% e os 32% impressos.

Que fração das contenções ultrapassa quatro horas

27,3%, sobre todas as contenções

A diretriz brasileira relata que muitos pacientes ficaram contidos por mais de 240 minutos, 27,3%. O cálculo usa as 740 contenções no denominador, incluindo as 213 fichas que não registraram duração.

Baldaçara L et al. Braz J Psychiatry. 2019;41(2):153-167, seção de técnica da contenção física, citando Braga IP et al.

38,3%, sobre as que declaram duração

A tabela descritiva do estudo original mostra 202 contenções acima de 240 minutos e 213 sem informação de duração. Excluindo as fichas mudas, o denominador cai para 527 e a fração sobe para 38,3%.

Braga IP, de Souza JC, Leite MB, Fonseca VM, da Silva EM, Volpe FM. J Bras Psiquiatr. 2016;65(1):53-59, Tabela 1.

Na prova

As 213 fichas sem duração são 28,8% do total — uma fatia maior que a própria estatística relatada. Contá-las no denominador equivale a supô-las curtas. Para farejar o recorte do avaliador, repare em qual documento o enunciado se apoia: enunciado que reproduz a diretriz traz 27,3%; enunciado que descreve a tabela do estudo original permite as duas leituras e costuma cobrar a percepção de que há registro faltando. E note o que nenhuma das duas responde: o teto recomendado é de 120 minutos, e nenhuma faixa do estudo corta nesse valor.

06

Caso resolvido

Homem de 28 anos, com esquizofrenia, é levado pelos pais ao pronto-socorro de hospital geral às 21 h de segunda-feira: abandonou a medicação há dois meses, está com delírio persecutório e ameaçou um vizinho. Recusa qualquer tratamento e nega estar doente. Sem febre, glicemia capilar 96 mg/dL, exame físico e neurológico sem alterações. O desescalonamento verbal falha e ele recusa a via oral. Recebe haloperidol 5 mg com midazolam 7,5 mg por via intramuscular às 21 h 40, com boa resposta, e é internado. Na quarta-feira às 3 h da manhã, trinta horas após a admissão e já em uso regular do antipsicótico na enfermaria, apresenta rebaixamento de consciência, temperatura axilar de 39,6 °C, rigidez generalizada em cano de chumbo, pressão oscilando entre 165/100 e 100/60 mmHg, FC 128 bpm, sudorese profusa, sem clônus e com reflexos profundos normais. Creatinofosfoquinase 8.400 U/L, leucócitos 14.500/mm³, creatinina 1,9 mg/dL, urina escurecida, líquor sem alterações.
1. A modalidade da internação, e o relógio que ela liga
O paciente recusa o tratamento e quem pede é a família: pelo parágrafo único do artigo 6º, isso é internação involuntária, e não voluntária. O artigo 8º, §1º liga um cronômetro de setenta e duas horas para comunicação ao Ministério Público Estadual pelo responsável técnico. Contado a partir de segunda às 21 h, esse prazo vence quinta-feira às 21 h.
2. O quadro de quarta-feira, e o que ele não é
Tétrade completa — hipertermia, rigidez plástica generalizada, disautonomia e alteração do nível de consciência — com creatinofosfoquinase muito elevada, leucocitose e rabdomiólise com lesão renal, em paciente que recebeu antipsicótico de alta potência há dois dias. É síndrome neuroléptica maligna. Não é serotoninérgica, porque não há agente serotoninérgico, não há clônus e os reflexos são normais em vez de aumentados. Não é distonia aguda, que é focal e cursa sem febre e sem enzima elevada. Não é meningoencefalite: o líquor é normal.
3. A primeira ação, e a ordem que ela impõe
Suspender imediatamente o haloperidol e instituir suporte: hidratação venosa vigorosa para proteger o rim da mioglobinúria, resfriamento e monitorização, com leito de terapia intensiva. Bromocriptina e dantroleno ficam para caso grave ou refratário e nunca substituem a retirada — na série brasileira de dezoito casos, a suspensão foi a única intervenção presente em todos, sete receberam bromocriptina e nenhum recebeu dantroleno.
4. O segundo relógio, e a inversão
A síndrome é uma intercorrência clínica grave: pelo artigo 10, a direção do estabelecimento deve comunicá-la aos familiares e à autoridade sanitária em vinte e quatro horas, ou seja, até quinta-feira às 3 h. A comunicação da internação ao Ministério Público só vence quinta às 21 h. A intercorrência ocorreu trinta horas após a admissão — dentro das quarenta e oito horas em que o segundo prazo vence antes do primeiro. As duas comunicações são independentes, têm destinatários e responsáveis diferentes, e ambas devem ser feitas.
5. O que deve constar da reintrodução, depois
Recuperada a função renal e normalizada a enzima, a reintrodução de antipsicótico é decisão de outro momento e de outro prontuário — e passa a exigir, em qualquer protocolo brasileiro, o registro de história prévia de síndrome neuroléptica maligna antes de nova prescrição. Este episódio é agora um antecedente que muda todas as futuras.
07

Agora feche você

Mulher de 45 anos chega ao pronto-socorro às 14 h com agitação, sudorese, tremor e diarreia, temperatura axilar de 38,7 °C, FC 118 bpm e PA 150/95 mmHg. Ao exame neurológico há hiperreflexia e clônus espontâneo, mais intenso em membros inferiores, e midríase. Faz uso de sertralina para transtorno depressivo maior e iniciou tramadol há vinte e quatro horas por lombalgia. Não usa antipsicóticos. Creatinofosfoquinase 320 U/L, com valor de referência até 195.
achado
Dois agentes serotoninérgicos associados há um dia — um inibidor seletivo da recaptação de serotonina e um opioide com ação serotoninérgica —, hiperreatividade neuromuscular com clônus e hiperreflexia de predomínio em membros inferiores, midríase, diarreia, tremor, febre baixa e disautonomia. A creatinofosfoquinase está pouco acima do valor de referência.
o que isso caracteriza
O padrão motor separa os dois quadros que a vinheta tenta confundir. A síndrome neuroléptica maligna exige um bloqueador dopaminérgico, dá rigidez plástica generalizada com reflexos normais ou diminuídos e leva a creatinofosfoquinase às casas dos milhares — nos dezoito casos da série brasileira, a enzima estava significativamente elevada em todos. Aqui não há antipsicótico, os reflexos estão aumentados, há clônus e a enzima está pouco alterada: é síndrome serotoninérgica.
conduta
Suspender os dois agentes causais, oferecer suporte com hidratação, resfriamento, monitorização e benzodiazepínico para a hiperatividade, e usar o antagonista específico de receptor 5-HT2A, a cipro-heptadina. Bromocriptina é agonista dopaminérgico e serve ao quadro de bloqueio dopaminérgico, não a este; dantroleno pertence à hipertermia maligna e aos casos graves da síndrome neuroléptica maligna; biperideno trata distonia e parkinsonismo medicamentosos; flumazenil reverte benzodiazepínico e pode precipitar convulsão.
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Onde a banca derruba

  1. 1A permissão de repetir lida como permissão permanente A vinheta dá três doses de 10 mg de haloperidol intramuscular em uma hora e pergunta a conduta seguinte. O aluno lembra que a diretriz autoriza repetir a cada 30 minutos e pede a quarta ampola. A mesma linha da mesma tabela fixa o teto em 30 mg por dia, e três doses de 10 mg já o esgotaram: a quarta seria o quadragésimo miligrama de um dia de trinta. A regra de sequência manda esgotar o fármaco e então trocar de molécula, não insistir na mesma.
  2. 2Rigidez com febre lida como efeito extrapiramidal comum O enunciado descreve rigidez em paciente que teve o antipsicótico aumentado e oferece biperideno como conduta. Biperideno trata distonia aguda e parkinsonismo medicamentoso, que são focais ou plásticos sem febre, com creatinofosfoquinase normal e sem disautonomia. Com temperatura acima de 39 graus, taquicardia, sudorese e enzima muscular na casa dos milhares, manter o antipsicótico e dar anticolinérgico é manter o agente que está matando o paciente.
  3. 3Clônus e hiperreflexia atribuídos à síndrome neuroléptica maligna A vinheta traz febre, agitação, sudorese e taquicardia — e acrescenta clônus espontâneo, hiperreflexia, midríase e diarreia, num paciente em uso de dois serotoninérgicos e sem antipsicótico. O padrão motor é o oposto: a síndrome neuroléptica maligna dá rigidez plástica com reflexos normais ou diminuídos; a serotoninérgica dá hiperreatividade neuromuscular. O antídoto específico da segunda é a cipro-heptadina, e a bromocriptina, que é agonista dopaminérgico, não tem papel num quadro que não nasceu de bloqueio dopaminérgico.
  4. 4O adjuvante colocado antes da suspensão Alternativas que oferecem dantroleno ou bromocriptina soam técnicas e atraem quem quer parecer completo. A série brasileira de dezoito casos mostra a hierarquia real: a intervenção comum a todos foi retirada do agente mais suporte; bromocriptina apareceu em sete e o dantroleno não aparece no que nenhum dos dezoito recebeu. Alternativa que inclui o adjuvante e a suspensão está correta; alternativa que traz o adjuvante mantendo o antipsicótico é a mais perigosa da questão.
  5. 5O pedido da família confundido com consentimento Pais levam o filho adulto ao pronto-socorro, ele recusa tratamento e nega estar doente, e a alternativa oferece internação voluntária porque houve consentimento formal dos responsáveis. A lei define a modalidade pelo consentimento do usuário: sem ele e a pedido de terceiro, a internação é involuntária, com comunicação ao Ministério Público Estadual em setenta e duas horas. Compulsória é só a determinada pela Justiça — nunca a decidida pelo plantonista.
  6. 6A porcentagem tranquilizadora sobre o denominador errado O enunciado informa que 56,2% dos pacientes contidos não tiveram eventos adversos e pergunta o que concluir. A frase seguinte do mesmo estudo diz que para 42,6% não houve informação registrada. Sobre as fichas que dizem alguma coisa — 425 das 740 —, os sem evento são 97,9%. Os números não descrevem segurança nem risco: descrevem documentação, e a conclusão honesta é que quatro em cada dez contenções terminaram sem nada anotado.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: hipertermia, rigidez em cano de chumbo, disautonomia, alteração de consciência e CPK muito elevada após início/aumento de antipsicótico definem síndrome neuroléptica maligna — a conduta é suspender o neuroléptico, medidas de suporte (resfriamento, hidratação) e, em casos graves, dantroleno ou bromocriptina. Síndrome serotoninérgica cursa com clônus e hiperreflexia por serotoninérgicos, não antipsicóticos, e não se mantém o agente. Catatonia não explica a CPK elevada e a disautonomia grave; aumentar antipsicótico piora a SNM. Sepse não justifica rigidez em cano de chumbo com CPK tão alta. Hipertermia maligna anestésica ocorre com anestésicos voláteis/succinilcolina, não haloperidol.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Dois relógios e um teto. O teto: haloperidol intramuscular tem 30 mg em vinte e quatro horas, e a primeira dose decide se ele acaba em uma hora (com 10 mg) ou em cinco e meia (com 2,5 mg); esgotado o fármaco, troca-se de molécula, não se repete. Os relógios: internação involuntária vai ao Ministério Público Estadual em setenta e duas horas, intercorrência clínica grave vai à autoridade sanitária e à família em vinte e quatro. Diante de febre com rigidez após antipsicótico novo ou aumentado, suspenda o agente, hidrate e resfrie; reflexos aumentados com clônus mudam o diagnóstico para serotoninérgica e o antídoto para cipro-heptadina.

em 30 dias

Refaça as contas sem consultar. Quantas aplicações de 2,5 mg cabem em 30 mg e quanto tempo isso dura repetindo a cada meia hora. Por que 240 minutos é o dobro de um teto que a mesma diretriz recomenda, e quantas das 740 contenções brasileiras estão comprovadamente dentro dele. A partir de que hora de internação uma intercorrência deixa de vencer antes da comunicação da própria internação. Quantos dos dezoito pacientes da série brasileira tinham creatinofosfoquinase elevada, quantos tinham creatinina alterada, e quantos receberam dantroleno. E por que 32% e 44,4% são o mesmo numerador com denominadores diferentes.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 32 anos é trazido pela irmã à unidade de pronto atendimento. Tem esquizofrenia e teve a dose de haloperidol aumentada há cinco dias, além de duas doses intramusculares extras numa crise de agitação anteontem. Há dois dias apresenta confusão mental, fala arrastada e sudorese intensa. Colha a história do ajuste de dose com a acompanhante, examine o tônus e os reflexos antes de pedir qualquer exame, decida o que suspender agora e explique à irmã por que a medicação que acalmou o irmão é a mesma que o adoeceu — e o que muda nas prescrições dele daqui para a frente. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Emergências psiquiátricas, agitação psicomotora e síndrome… – Emergências psiquiátricas: o teto que acaba em uma hora e o relógio que corre ao contrário — Preparatório para provas | OsceLabs