Outras Especialidades › Psiquiatria
Risco de suicídio: quatro relógios e um artigo vetado
Avaliação de risco, proteção imediata e prazos de notificação
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Mulher, 34 anos, é trazida ao pronto-socorro pelo marido após ele encontrar bilhete de despedida. Ela relata que há dois meses vem se sentindo sem esperança, com insônia terminal e anedonia. Diz que planejou ingerir os comprimidos anti-hipertensivos do pai, guardou as cartelas em uma gaveta e escolheu um dia em que estaria sozinha em casa. Nega tentativas prévias. Ao exame, encontra-se lúcida, colaborativa, sem sinais de intoxicação, PA 122x78 mmHg, FC 82 bpm, SatO2 98%. Nega uso de álcool ou drogas. Com base na estratificação de risco de suicídio, qual característica desta paciente indica risco ELEVADO e justifica prioridade no manejo?
Como esse tema cai
O capítulo cobre a pessoa que chega com ideação, plano ou tentativa de suicídio, e as três decisões que a prova cobra dela: estratificar o risco pelo conteúdo do relato, escolher o ponto de atenção e cumprir os papéis legais — notificação de violência autoprovocada e, quando houver internação involuntária, comunicação ao Ministério Público. Cobre também o sigilo: o que o obriga a ceder e o que ele continua protegendo, inclusive diante dos pais de um paciente adolescente.
Não cobre o tratamento farmacológico do episódio depressivo, que tem capítulo próprio; nem a estrutura da rede psicossocial e a reforma psiquiátrica, que têm outro; nem a agitação psicomotora e a síndrome neuroléptica maligna, que ficam no capítulo de emergências psiquiátricas; nem o manejo da intoxicação por paracetamol, que é de toxicologia. Quando a vinheta traz suicídio junto de uma dessas, ela quase sempre está cobrando a outra coisa.
O recorte é tão jurídico quanto clínico, e isso é deliberado. Quatro instrumentos brasileiros respondem à pergunta "em quanto tempo notificar", e nenhum deles responde igual: uma lei de 1975, um decreto de 1976, uma portaria de 2014 e a lei de 2019 que instituiu a política nacional. A prova cobra o dever, o destinatário e, quando cobra número, cobra o da portaria.
Por fim, um vício de leitura que este capítulo desfaz logo na primeira seção: na maioria das vinhetas de prova a palavra suicídio aparece para ser descartada, não para ser cobrada. Reconhecer a diferença entre a menção afirmada e a menção negada resolve, sozinha, boa parte das questões em que o tema aparece de passagem.
O que muda decisão
A palavra que quase sempre está lá para ser descartada
Antes de qualquer régua clínica, um hábito de leitura. Em uma varredura das questões de trilha de prova do acervo, o radical de suicídio aparece no enunciado de 65 vinhetas — e em 51 delas ele aparece negado: "nega ideação suicida", "sem risco de suicídio", "não há risco de suicídio". A palavra está ali porque a banca precisa fechar a porta, não porque vai cobrar aquilo. Quem lê a palavra e liga o alarme perde tempo e, pior, marca a alternativa de segurança em uma questão que estava cobrando escolha de antidepressivo, tipo de ponto de atenção ou antídoto.
A negação tem função: ela libera o manejo ambulatorial. Uma vinheta de episódio depressivo moderado que diz "sem ideação suicida" está avisando que o destino não é a emergência e que a resposta esperada mora no tratamento e no seguimento. Retirar essa frase mudaria a resposta inteira. Por isso a negação vale como dado positivo: ela é a afirmação de que o eixo do risco foi checado e veio limpo.
O inverso também vale. Quando a vinheta gasta linhas descrevendo bilhete de despedida, corda já preparada, cartelas guardadas em gaveta ou dia escolhido para estar sozinho em casa, ela não está enfeitando: cada um desses detalhes é um degrau da escada de risco, e a pergunta vai cobrar exatamente em que degrau o paciente está. O tamanho do parágrafo dedicado ao comportamento suicida é o melhor indicador de qual é o eixo cobrado.
Há ainda um terceiro formato, que engana por outro caminho: a tentativa de suicídio como motivo da ingestão. Vinheta de mulher jovem que tomou trinta comprimidos de paracetamol em tentativa de suicídio, assintomática, com transaminases normais. Nessa família de questões o suicídio é contexto, e o que se cobra é o antídoto e o momento de iniciá-lo. Só em uma variação dessa vinheta o eixo volta a ser psiquiátrico: quando a pergunta se desloca para o que é indispensável antes da alta. Aí o eixo é psiquiátrico, não toxicológico.
A escada: ideação, plano, meio, acesso, oportunidade
A estratificação que a prova cobra não é um escore, é uma escada de cinco degraus que se sobe na entrevista. O primeiro é a ideação: pensamentos de morte, de não acordar, de que a família estaria melhor sem a pessoa. O segundo é o plano: um método nomeado. O terceiro é o meio: o método existe e está identificado. O quarto é o acesso: o meio está ao alcance — a arma guardada em casa, a cartela na gaveta, a corda já pendurada na garagem. O quinto é a oportunidade: a pessoa escolheu um momento em que estaria sozinha.
Cada degrau muda o destino, e é isso que a banca cobra. Ideação passiva sem plano, em paciente com vínculo, rede e sem tentativa prévia, é caso de atenção primária com investigação ativa, acolhimento, seguimento próximo e articulação com a rede de saúde mental. Plano estruturado com método definido já obriga a garantir que a pessoa não permaneça sozinha e a encaminhar com urgência. Plano mais acesso ao meio letal exige, na mesma consulta, uma medida física: remover o acesso ao método — retirar a arma, recolher a medicação, envolver a família nisso.
A oportunidade planejada é o degrau que a prova usa quando quer separar risco moderado de risco alto sem citar escore. Uma mulher que planejou o método, guardou o meio e escolheu o dia em que estaria sozinha está em risco alto mesmo sem tentativa prévia e mesmo lúcida, colaborativa e sem sinais psicóticos. A ausência de agitação não rebaixa o risco; em geral ela apenas torna a vinheta mais difícil, porque tira o sinal ruidoso e deixa só o conteúdo do relato.
Nenhum desses degraus é medido por instrumento na vinheta brasileira. A prova de residência não pede escala nomeada nem ponto de corte; ela pede que o candidato reconheça os degraus dentro da fala do paciente e converta isso em conduta. Marcar a alternativa que nomeia uma escala e não faz nada é o erro mais previsível deste tema.
O fator mais forte é o que a vinheta mais esconde
Quando a questão pergunta qual fator está mais fortemente associado a suicídio consumado, a resposta é tentativa prévia. A monografia da Organização Mundial da Saúde de 2014 é explícita em dois pontos diferentes do texto: escreve que uma tentativa prévia é o fator de risco isolado mais importante na população geral e, no capítulo dos fatores, que uma ou mais tentativas prévias são de longe o indicador mais forte de risco futuro. Não é desesperança, não é diagnóstico de depressão, não é sexo masculino, não é morar sozinho — todos esses aparecem como distratores plausíveis exatamente porque também são fatores de risco.
O detalhe que torna isso difícil na prática é que o fator mais forte é também o mais frequentemente ausente do prontuário. No Brasil, o campo que registra se o episódio já aconteceu outras vezes veio preenchido como ignorado em 27.332 das 124.709 notificações de violência autoprovocada de 2019, ou seja, 21,9% em branco. Em uma a cada cinco fichas, a variável que a Organização Mundial da Saúde chama de indicador mais forte simplesmente não existe.
A consequência é operacional e vale para a beira do leito: se o dado mais preditivo é o que mais falta, ele tem de ser perguntado ativamente, não esperado. Não é o paciente que traz "já tentei antes"; é o médico que pergunta se já houve tentativa, quantas, quando e por qual método. Sem essa pergunta, o déficit de informação apaga o sinal — e o caso é classificado como primeiro episódio por omissão, não por avaliação.
Vale um segundo registro do mesmo boletim: transtorno mental está presente em cerca de 80% dos casos, com depressão unipolar ou bipolar à frente, seguida de abuso e dependência de substâncias e de esquizofrenia. O número costuma ser lido como se autorizasse rastrear risco a partir do diagnóstico. Ele não autoriza: os 20% restantes não têm diagnóstico para acionar o rastreio, e é justamente essa fração que escapa de qualquer estratégia ancorada em transtorno já identificado.
Perguntar não induz, e a prova cobra isso literalmente
Existe uma família de questões cuja resposta é apenas uma frase: perguntar de forma direta, clara e acolhedora sobre pensamentos de morte ou de se matar. Ela existe porque o mito oposto ainda circula — o de que nomear o suicídio planta a ideia. O guia de implementação da Organização Mundial da Saúde de 2021 desmonta isso em uma linha dirigida a professores e cuidadores: falar de suicídio com jovens não aumenta o risco de suicídio, e ainda faz com que se sintam mais capazes de procurar ajuda.
A forma da pergunta importa mais do que parece na hora de escolher a alternativa. A conduta esperada não é aplicar questionário, não é "observar sinais indiretos", não é "aguardar que o paciente traga espontaneamente" e não é "perguntar à família antes de perguntar ao paciente". É perguntar ao próprio paciente, com palavras diretas, dentro da consulta em que a suspeita surgiu. Distratores que adiam a pergunta são todos erros do mesmo tipo.
Um segundo item dessa família aparece quando a vinheta traz frase ambígua — "às vezes acho que seria melhor não acordar", dita de forma vaga por um homem de meia-idade acompanhado por hipertensão e dislipidemia. A resposta esperada é investigar ativamente ideação, plano e meios, acolher, garantir seguimento próximo e articular a rede conforme o risco. Repare que a conduta é composta: perguntar, acolher, agendar e articular. Alternativa que faz só uma das quatro coisas costuma ser o distrator mais atraente.
Há uma assimetria útil aqui. Perguntar sobre suicídio nunca é a resposta errada de uma questão; deixar de perguntar é frequentemente o erro que a questão está testando. Diante de duas alternativas em que uma investiga o risco e a outra pula direto para conduta terapêutica, a que investiga quase sempre vence — a exceção é quando a vinheta já explicitou que o risco foi avaliado e veio negativo.
O desfecho escolhe o sexo
Este é o ponto em que a estatística brasileira parece se contradizer e não se contradiz. O boletim epidemiológico do Ministério da Saúde de setembro de 2021 registra, para 2019, uma taxa de mortalidade por suicídio de 10,7 por 100 mil entre homens e 2,9 por 100 mil entre mulheres. No mesmo documento, entre as 124.709 notificações de lesão autoprovocada do mesmo ano, mulheres são 71,3% do total.
Os dois números descrevem o mesmo fenômeno em desfechos diferentes, e vêm de registros diferentes: a mortalidade sai do sistema de informação sobre mortalidade, com causa básica codificada como lesão autoprovocada intencionalmente e sequelas dessas lesões, excluídos os menores de cinco anos; as notificações saem do sistema de agravos, filtradas por dois campos da ficha — o que pergunta se a lesão foi autoprovocada e o que registra o vínculo com a pessoa atendida. São duas populações, duas regras de inclusão e um único parágrafo de discussão que as narra como se fossem uma.
A inversão fica ainda mais nítida em escala global. A monografia da Organização Mundial da Saúde de 2014 registra que os suicídios respondem por 50% de todas as mortes violentas entre homens e por 71% entre mulheres. Isto é: mulheres morrem menos por suicídio em taxa absoluta e, ao mesmo tempo, o suicídio ocupa uma fatia maior da mortalidade violenta feminina — porque o denominador mudou de população para mortes violentas.
Para a prova, a regra prática é curta: antes de comparar sexos, identifique qual desfecho a pergunta escolheu. Se o desfecho é morte, a resposta pende para homens. Se o desfecho é tentativa, ideação ou notificação, pende para mulheres. Se o desfecho é participação na mortalidade violenta, pende de novo para mulheres. Três respostas diferentes, todas corretas, e a única variável que mudou foi o que se estava contando.
O meio mais comum é o que menos mata
Entre as notificações brasileiras de 2019, o envenenamento responde por 60,2% dos meios registrados, seguido por objeto cortante com 16,2%, enforcamento com 6,2% e arma de fogo com 0,5%. Lida sem cuidado, essa tabela sugere que o problema brasileiro é medicação em casa e que arma de fogo é irrelevante. A conclusão é falsa, e o motivo é que a tabela conta tentativas notificadas, não mortes.
A letalidade por método caminha em sentido oposto à frequência. Envenenamento é o meio mais usado e o menos letal por evento; enforcamento e arma de fogo são os menos usados e os mais letais. É por isso que a mesma tabela que dá 0,5% para arma de fogo convive com uma conduta de emergência que manda remover o acesso à arma na primeira consulta — a decisão clínica não segue a frequência, segue a letalidade condicional. O maior número da tabela é o que menos decide sozinho.
É também o que sustenta a intervenção com melhor evidência populacional. O guia de implementação da Organização Mundial da Saúde coloca a restrição de acesso aos meios como a primeira das intervenções eficazes e estima que agrotóxicos respondam por cerca de um quinto de todos os suicídios do mundo, com proibições nacionais de pesticidas altamente perigosos entre as medidas de maior efeito.
Na vinheta, isso vira uma pergunta de conduta imediata. Homem de sessenta anos com plano definido e revólver guardado em casa: a resposta esperada junta risco elevado, segurança imediata, retirada do acesso ao método, não deixar a pessoa sozinha e encaminhamento urgente. As alternativas que prescrevem antidepressivo e marcam retorno em quatro semanas erram não por serem clinicamente absurdas, mas por deixarem o meio letal onde estava.
Quatro relógios para a mesma notificação
Tentativa de suicídio é evento de notificação compulsória no Brasil. O que não existe é uma resposta única para "em quanto tempo". Quatro instrumentos respondem a essa pergunta, e o mais recente e de maior hierarquia é o único que não responde.

A Lei nº 6.259, de 1975, cria o regime de notificação compulsória e não fixa prazo. O regulamento que a acompanha, o Decreto nº 78.231, de 1976, chega a tratar do tema e escreve, no parágrafo único do artigo 14, que a notificação compulsória de doenças deverá ser realizada imediata ou posteriormente ao conhecimento do fato, por escrito e no modelo padronizado. É uma regra que abrange as duas respostas possíveis, o que equivale a não restringir nenhuma; o mesmo decreto remete a definição da urgência e do modo de notificar para cada doença, ou seja, delega o relógio para baixo.
O terceiro instrumento é o que fecha o prazo. O guia de implementação da Organização Mundial da Saúde, na ficha dedicada à vigilância brasileira de lesões intencionais, resume a linhagem em quatro passos: em 2006 uma portaria estabelece diretrizes nacionais de prevenção do suicídio; entre 2006 e 2008 o sistema de vigilância de violências e acidentes é implantado com notificação obrigatória por serviços de emergência e especializados; em 2011 outra portaria estende a obrigação a todos os serviços de saúde; e em 2014 uma nova portaria obriga as secretarias municipais de saúde a notificar tentativas de suicídio em 24 horas.
O quarto é a Lei nº 13.819, de 26 de abril de 2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. Ela define violência autoprovocada em três itens — suicídio consumado, tentativa de suicídio e ato de automutilação, com ou sem ideação suicida — e determina, no artigo 6º, que os casos suspeitos ou confirmados são de notificação compulsória pelos estabelecimentos de saúde públicos e privados às autoridades sanitárias, e pelos estabelecimentos de ensino ao conselho tutelar. Prazo, nenhum. O artigo que viria em seguida, o 8º, consta no texto sancionado como uma única palavra entre parênteses: vetado.
A costura vem no artigo 9º, que manda aplicar à nova notificação, no que couber, o disposto na lei de 1975. Fechado o círculo, a lei mais nova devolve o prazo para o decreto de 1976, que responde "imediata ou posteriormente", e o único prazo numérico do conjunto continua morando em portaria. Para a prova, a leitura segura é: a obrigação está em lei, o prazo está em portaria, e o prazo citado é de 24 horas.
Há ainda um endereço invertido dentro do mesmo artigo. O texto separa duas rotas — serviço de saúde para autoridade sanitária, escola para conselho tutelar — e, logo abaixo, no parágrafo 2º, determina que nos casos que envolverem criança ou adolescente o conselho tutelar deverá receber a notificação de que trata o inciso destinado aos estabelecimentos de saúde. Ou seja: a rota da escola vira também a rota do hospital quando o paciente é menor de idade, e a forma de fazer isso fica remetida a regulamento. O parágrafo 3º acrescenta que a notificação tem caráter sigiloso e obriga ao sigilo quem a recebe.
As setenta e duas horas que a prova cobra por escrito
O único prazo numérico que a legislação brasileira escreve em lei, para este tema, não é o da notificação: é o da internação psiquiátrica involuntária. A Lei nº 10.216, de 2001, determina no parágrafo 1º do artigo 8º que a internação involuntária deverá, no prazo de setenta e duas horas, ser comunicada ao Ministério Público Estadual pelo responsável técnico do estabelecimento — e que o mesmo procedimento deve ser adotado na alta.
Duas armadilhas moram nessa frase. A primeira é que o relógio corre duas vezes: entrada e saída. Questão que descreve a comunicação feita na admissão e pergunta o que mais é devido está cobrando a comunicação da alta. A segunda é o destinatário: é o Ministério Público Estadual, não o conselho regional de medicina, não o juiz, não a autoridade sanitária.
A mesma lei define os três tipos de internação e cada um tem um acionador diferente: voluntária, com consentimento do usuário; involuntária, sem consentimento e a pedido de terceiro; e compulsória, determinada pela Justiça. Qualquer uma delas exige laudo médico circunstanciado que caracterize os motivos, e a autorização é sempre de médico registrado no conselho regional do estado em que está o estabelecimento.
O detalhe que quase nunca aparece nas aulas está no parágrafo seguinte: o término da internação involuntária dar-se-á por solicitação escrita do familiar ou responsável legal, ou quando estabelecido pelo especialista responsável pelo tratamento. A mesma pessoa que pediu a internação pode encerrá-la por escrito. A entrada exige médico; a saída aceita duas mãos, e uma delas não é médica.
Por fim, a hierarquia que a lei impõe e a vinheta costuma inverter: o artigo 4º diz que a internação, em qualquer modalidade, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. O reflexo de prova diante de risco alto é marcar internação; a lei coloca a internação por último. As duas coisas só convivem porque, no risco alto com plano, meio e oportunidade, os recursos extra-hospitalares de fato se mostram insuficientes — e é essa justificativa, não o rótulo de risco alto, que a boa alternativa carrega.
O código que rege o sigilo e nunca escreve a palavra
O Código de Ética Médica em vigor não contém a palavra suicídio. Nenhuma vez, em 110 páginas. O que ele contém é a regra geral do sigilo, no artigo 73: é vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício da profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento por escrito do paciente. A notificação compulsória de violência autoprovocada é dever legal — e é por essa porta, e só por ela, que a notificação deixa de ser quebra de sigilo.
O mesmo capítulo trata do paciente adolescente em artigo próprio: é vedado revelar sigilo relacionado a paciente criança ou adolescente com capacidade de discernimento, inclusive aos pais ou representantes legais, salvo quando a não revelação possa acarretar dano ao paciente. A frase é feita sob medida para a vinheta da adolescente com cortes nos antebraços: o sigilo protege a adolescente do próprio responsável, mas cede quando o silêncio a machuca.
A autorização para agir contra a vontade do paciente também está no código sem que o suicídio seja nomeado. Ela aparece como exceção repetida em dois artigos distintos — o que exige consentimento antes do procedimento e o que veda desrespeitar a decisão livre do paciente sobre práticas diagnósticas e terapêuticas — e a exceção, nos dois, é a mesma: iminente risco de morte. Todo o manejo involuntário do paciente com risco alto de suicídio passa por essa expressão de três palavras, escrita para outra coisa.
O efeito prático é um endereço errado impresso: o documento que prescreve a regra de sigilo não roteia o caso. Ele diz o que é vedado e diz que há exceção por dever legal, mas não diz qual dever legal, para quem se notifica nem em quanto tempo. Quem responde essas três perguntas é a lei de 2019 e a portaria de 2014, que o código não cita — e que, por sua vez, não tratam de sigilo profissional, mas de vigilância.
O destino, degrau a degrau
A escolha do ponto de atenção é o que a maior parte das questões cobra de fato, e ela segue o degrau da escada de risco, não o diagnóstico. Episódio depressivo leve a moderado, sem ideação, em pessoa com vínculo: manejo na própria unidade básica, com abordagem psicossocial, medicamento quando indicado e seguimento. A presença de apoio matricial não desloca o caso — ao contrário, o matriciamento mantém o cuidado na atenção primária, compartilhado, em vez de encaminhar.
Ideação sem plano, com sofrimento importante e necessidade de cuidado continuado, é o degrau do centro de atenção psicossocial. Quando a vinheta traz adolescente com autolesão, isolamento e frase de desesperança, o serviço é o centro de atenção psicossocial infantojuvenil, com cuidado compartilhado e matriciamento da equipe de saúde da família — e não a internação, e não a unidade básica sozinha.
Plano estruturado com acesso ao meio é o degrau da emergência. Aqui a conduta é composta e a alternativa correta costuma listar quatro coisas: estratificar como risco elevado, garantir segurança imediata com vigilância contínua, remover o acesso ao método e encaminhar com urgência para avaliação em serviço de saúde mental ou emergência psiquiátrica. Nenhuma dessas quatro pode ser trocada por "agendar retorno".
A internação em ambiente protegido é o último degrau e a vinheta que a exige costuma trazer o pacote completo: perda recente, uso diário de álcool, método definido, meio já preparado e interrupção da tentativa por acaso. Nesse cenário a resposta esperada junta risco alto, vigilância contínua, não deixar o paciente sozinho e providenciar internação ou observação em ambiente protegido com avaliação psiquiátrica.
Um degrau que a prova brasileira gosta e que não aparece nas listas clássicas: o da alta após tentativa clinicamente resolvida. Adolescente que ingeriu paracetamol, foi manejado, está estável e assintomático não recebe alta pelo critério toxicológico. Antes da alta, avaliação do risco de suicídio e da saúde mental, com acompanhamento especializado e plano de segurança. O guia da Organização Mundial da Saúde reforça o mesmo ponto na direção oposta, ao apontar o seguimento de quem recebeu alta recentemente como uma das intervenções com efeito demonstrado sobre mortes e tentativas.
A tabela existe, o denominador não
Vale medir os números do boletim brasileiro antes de repeti-los em prova, porque três deles não fecham. O primeiro é o da repetição: 51.047 notificações registram que o evento já aconteceu outras vezes, contra 46.330 que registram que não e 27.332 ignoradas. O texto arredonda para 41% de repetição, que é 51.047 sobre o total de 124.709 — ou seja, com as 27.332 fichas em branco contadas como se fossem negativas. Retirando os ignorados do denominador, a repetição é de 52,4%. O mesmo fato vale 41% ou 52% conforme a coluna de desconhecidos entre ou não na conta, e nada na tabela avisa qual das duas foi usada.
O segundo é o do local de ocorrência. A tabela traz 104.686 casos em residência, que sobre 124.709 dão 83,9% — e é isso que a própria tabela imprime. O texto, duas linhas acima, escreve 82%. Não há denominador no documento que produza 82%: seria preciso um total de 127.666. Que o denominador do bloco é mesmo 124.709 se confirma por um segundo percentual independente da mesma coluna — escola, com 1.598 casos, dá 1,28% e vem impressa como 1,3%.
O terceiro é o mais instrutivo. No bloco de meios, o texto cita objetos perfurocortantes com 16,8% e a tabela imprime 16,2% para objeto cortante. Somando as linhas de meio, o total é 138.678, e não 124.709: a mesma coluna muda de denominador no meio da tabela, porque uma notificação pode registrar mais de um meio. Com 138.678 embaixo, os 22.421 objetos cortantes dão 16,2%, e o enforcamento confirma a régua ao dar 6,2%. Já 16,8% não sai de nenhum dos dois denominadores.
Um quarto número merece o tratamento oposto, o de reconciliação. O boletim afirma risco 3,8 vezes maior entre homens e imprime taxas de 10,7 e 2,9 por 100 mil, cuja divisão dá 3,69. Não é erro: a razão foi calculada sobre valores não arredondados, e existe um canto do intervalo de arredondamento — algo como 10,74 sobre 2,866 — em que as três publicações se sustentam ao mesmo tempo. O mesmo vale para o crescimento populacional impresso como 10,17%, quando a divisão exata dá 10,18%: truncamento, não erro.
O quinto é o que mais muda a leitura clínica. As notificações de 2019 cresceram 39,8% sobre 2018. A Lei nº 13.819 foi publicada em 26 de abril de 2019 e entrou em vigor 90 dias depois, ou seja, no fim de julho daquele ano. Um salto de quase 40% concentrado no ano em que a obrigação de notificar foi reforçada mede, antes de tudo, mudança no contador, não mudança na doença. A mortalidade, medida por outro sistema e sem essa quebra, subiu 43% em dez anos — de 9.454 óbitos em 2010 para 13.523 em 2019 — enquanto a população crescia cerca de 10%.
Do degrau ao destino, e do destino ao papel
A sequência abaixo é a que resolve a maioria das vinhetas deste tema sem precisar de escala nomeada. Ela sobe a escada de risco, escolhe o ponto de atenção e só então cuida do papel — notificação e, quando houver internação involuntária, comunicação ao Ministério Público.
- 1Leia o enunciado procurando a palavra e decida se ela está afirmada ou negada. Negada, o eixo da questão é outro: tratamento, ponto de atenção ou antídoto.
- 2Afirmada, procure tentativa prévia. É o fator isolado mais fortemente associado a suicídio consumado, e é o que a vinheta mais omite.
- 3Suba os degraus na ordem: ideação, plano nomeado, meio identificado, acesso ao meio, oportunidade planejada.
- 4Sem plano, com vínculo e rede: atenção primária, investigação ativa, acolhimento, seguimento próximo e articulação com a rede de saúde mental. Matriciamento mantém o caso na unidade básica.
- 5Com plano e sofrimento contínuo, sem acesso imediato ao meio: centro de atenção psicossocial; se criança ou adolescente, o infantojuvenil, com cuidado compartilhado.
- 6Com plano e acesso ao meio: risco elevado. Segurança imediata, não deixar a pessoa sozinha, remover o acesso ao método e encaminhar com urgência.
- 7Com plano, meio preparado e oportunidade escolhida, ou tentativa interrompida por acaso: vigilância contínua e internação ou observação em ambiente protegido, com avaliação psiquiátrica.
- 8Após tentativa clinicamente resolvida, antes da alta: avaliação de risco e de saúde mental, plano de segurança e acompanhamento especializado garantido.
- 9Notifique o caso como violência autoprovocada. Destinatário: autoridade sanitária. Se criança ou adolescente, o conselho tutelar também recebe.
- 10Se houve internação involuntária, comunique ao Ministério Público Estadual em 72 horas — e repita a comunicação na alta.
- 11Antes de assinar, confira o endereço de cada papel: sanitária para notificação, Ministério Público para internação involuntária. Trocar os dois é o erro mais cobrado do bloco legal.
Primeiro degrau: ideação sem plano
Pensamentos de morte ou de não acordar, sem método nomeado, em pessoa com vínculo e rede. Investigar ativamente ideação, plano e meios; acolher; garantir seguimento próximo; manter o cuidado na atenção primária com apoio matricial.
Segundo degrau: plano estruturado
Método nomeado e sofrimento contínuo, sem acesso imediato ao meio. Cuidado intensivo em centro de atenção psicossocial, infantojuvenil quando criança ou adolescente, compartilhado com a equipe de saúde da família.
Terceiro degrau: acesso ao meio
Método definido e disponível — arma em casa, cartela guardada. Risco elevado: segurança imediata, remover o acesso ao método, não deixar a pessoa sozinha e encaminhamento urgente ao serviço de saúde mental ou à emergência.
Quarto degrau: oportunidade ou tentativa
Dia escolhido, meio preparado, ou tentativa interrompida por acaso. Vigilância contínua e internação ou observação em ambiente protegido, com avaliação psiquiátrica; comunicação ao Ministério Público em 72 horas se involuntária.
Os quatro relógios da mesma pergunta
| Instrumento | O que diz sobre prazo | Hierarquia |
|---|---|---|
| Lei nº 6.259, de 1975 | Cria o regime de notificação compulsória e não fixa prazo | Lei ordinária |
| Decreto nº 78.231, de 1976 | Notificação realizada imediata ou posteriormente ao conhecimento do fato, por escrito e em modelo padronizado | Decreto regulamentar |
| Portaria ministerial de 2014 | Obriga a notificar tentativa de suicídio em 24 horas | Portaria |
| Lei nº 13.819, de 2019 | Torna compulsória a notificação de violência autoprovocada e não fixa prazo; o artigo seguinte foi vetado | Lei ordinária |
Dois papéis, dois destinatários, dois relógios
| Papel | Quando | Para quem | Prazo |
|---|---|---|---|
| Notificação de violência autoprovocada | Caso suspeito ou confirmado de automutilação, tentativa ou suicídio consumado | Autoridade sanitária; conselho tutelar quando criança ou adolescente | Sem prazo em lei; 24 horas por portaria |
| Comunicação de internação involuntária | Internação sem consentimento, a pedido de terceiro, e também na alta | Ministério Público Estadual | 72 horas, em lei |
A escada de risco gradua, mas não substitui a entrevista. Paciente lúcido, colaborativo, sem agitação e sem sinais psicóticos pode estar no degrau mais alto: a ausência de ruído não rebaixa o risco.
Notificação e comunicação de internação são papéis distintos, com destinatários distintos. A troca entre autoridade sanitária e Ministério Público é o erro mais frequente do bloco legal deste tema.
O prazo de 72 horas vale duas vezes na mesma internação involuntária: na admissão e na alta. Questão que descreve só a primeira comunicação costuma estar cobrando a segunda.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Em 24 horas. A ficha dedicada à vigilância brasileira de lesões intencionais, dentro do guia de implementação internacional, descreve a linhagem em quatro passos e registra que, em 2014, o ministério lançou nova portaria obrigando as secretarias municipais de saúde a notificar tentativas de suicídio em 24 horas.
Live life: an implementation guide for suicide prevention in countries, Organização Mundial da Saúde, 2021, anexo de estudos de caso, quadro 63.
Imediata ou posteriormente. O regulamento que acompanha a lei de notificação compulsória escreve, no parágrafo único do artigo 14, que a notificação deverá ser realizada imediata ou posteriormente ao conhecimento do fato, por escrito e no modelo padronizado — e remete a definição da urgência e do modo de notificar para cada doença, um a um.
Decreto nº 78.231, de 12 de agosto de 1976, artigo 14, parágrafo único, e artigo 13.
Sem prazo. A lei que institui a política nacional torna compulsória a notificação dos casos suspeitos ou confirmados de violência autoprovocada, define os três eventos que compõem essa violência, fixa destinatários e manda manter sigilo — e não escreve prazo algum. O artigo imediatamente seguinte consta do texto sancionado apenas como vetado, e o artigo 9º devolve o assunto à lei de 1975.
Lei nº 13.819, de 26 de abril de 2019, artigos 6º, 8º e 9º, texto consolidado no portal oficial da legislação.
Na prova
O avaliador brasileiro cobra a existência do dever, não a aritmética do prazo. Quando o prazo aparece escrito na alternativa, o número usado é 24 horas, que é o da portaria. Alternativa que diga "notificação semanal" para tentativa de suicídio está errada, e alternativa que negue o dever de notificar está sempre errada, porque essa parte está em lei.
Última. A lei da reforma psiquiátrica é literal: a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. O tratamento deve visar, como finalidade permanente, a reinserção social, e a lei veda internação em instituições de característica asilar.
Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, artigo 4º.
Primeira, quando há plano, meio preparado e oportunidade. As vinhetas brasileiras de risco alto — corda já pendurada, tentativa interrompida por acaso, perda recente e uso diário de álcool — têm como resposta esperada garantir vigilância contínua, não deixar o paciente sozinho e providenciar internação ou observação em ambiente protegido, com avaliação psiquiátrica.
Questões de trilha de prova do acervo, tema de risco de suicídio, medidas em 30 de agosto de 2026.
Na prova
As duas posições convivem, e o candidato precisa ver por quê: a lei não proíbe internar, ela exige que os recursos extra-hospitalares tenham se mostrado insuficientes. No risco alto com meio preparado, mostraram. A alternativa boa carrega a justificativa clínica junto com a decisão; a alternativa ruim escreve internação como reflexo do rótulo de risco alto, sem dizer o que falhou antes.
Rotas separadas. O artigo 6º divide os notificantes em dois incisos com destinatários diferentes: estabelecimentos de saúde, públicos e privados, notificam às autoridades sanitárias; estabelecimentos de ensino, públicos e privados, notificam ao conselho tutelar.
Lei nº 13.819, de 26 de abril de 2019, artigo 6º, incisos I e II.
Rotas cruzadas. O parágrafo 2º do mesmo artigo determina que, nos casos que envolverem criança ou adolescente, o conselho tutelar deverá receber a notificação de que trata o inciso destinado aos estabelecimentos de saúde, nos termos de regulamento — e o parágrafo 6º remete a regulamento a própria forma de comunicação entre conselho tutelar e autoridade sanitária.
Lei nº 13.819, de 26 de abril de 2019, artigo 6º, parágrafos 2º e 6º.
Na prova
O recorte do avaliador aqui é o destinatário, não o prazo. Se a vinheta traz adolescente com autolesão atendida em serviço de saúde, a resposta segura menciona autoridade sanitária e conselho tutelar juntos. Se traz adulto, só autoridade sanitária. Alternativa que mande o serviço de saúde notificar diretamente à polícia está errada nos dois casos.
41%. O texto do boletim escreve que a repetição do evento foi registrada em 41% dos casos, número que corresponde a 51.047 sobre o total de 124.709 notificações — isto é, com as 27.332 fichas de campo ignorado somadas ao denominador como se fossem negativas.
Boletim Epidemiológico, volume 52, número 33, Ministério da Saúde, setembro de 2021, tabela 2 e parágrafo de resultados.
52,4%. A mesma tabela discrimina 51.047 respostas afirmativas, 46.330 negativas e 27.332 ignoradas. Restringindo o denominador às fichas efetivamente preenchidas, a repetição sobe para 51.047 sobre 97.377.
Boletim Epidemiológico, volume 52, número 33, Ministério da Saúde, setembro de 2021, tabela 2, bloco de repetição do evento.
Na prova
A divergência é interna ao mesmo documento e à mesma tabela, e o que a produz é o rótulo da coluna: a tabela imprime uma única coluna de percentual e não diz que o denominador muda de bloco para bloco. Diante de qualquer proporção de vigilância, a pergunta a fazer é o que entrou no denominador — e, especificamente, se a categoria de desconhecido foi contada como resposta negativa.
Caso resolvido
- Primeiro: a palavra está afirmada
- Cartas de despedida, plano nomeado, meio preparado e interrupção por acaso. Nada aqui é negação; o eixo da questão é o risco, não o tratamento do transtorno de base.
- Segundo: suba a escada
- Ideação, sim. Plano, sim, com método nomeado. Meio, sim, e preparado. Acesso, sim, dentro da própria casa. Oportunidade, sim, interrompida por acaso. Cinco degraus de cinco.
- Terceiro: o que a calma não muda
- Estar lúcido, colaborativo e sem agitação não rebaixa nada. A graduação vem do conteúdo do relato. Perda recente e uso diário de álcool somam ao quadro.
- Quarto: o destino
- Risco alto. Vigilância contínua, não deixar o paciente sozinho e providenciar internação ou observação em ambiente protegido, com avaliação psiquiátrica. Aqui os recursos extra-hospitalares se mostram insuficientes, e é isso que sustenta a internação.
- Quinto: o papel da vigilância
- Caso de violência autoprovocada — tentativa interrompida entra na definição legal tanto quanto a consumada. Notificação à autoridade sanitária, com caráter sigiloso.
- Sexto: o papel da internação
- Se a internação for involuntária, comunicação ao Ministério Público Estadual em 72 horas pelo responsável técnico, e o mesmo procedimento quando ele receber alta.
Agora feche você
- Primeiro
- Em que degrau da escada de risco ela está, e o que falta para subir ao degrau seguinte.
- Segundo
- Qual pergunta precisa ser feita diretamente à adolescente, e por que ela não aumenta o risco.
- Terceiro
- Qual ponto de atenção recebe o caso, e o que acontece com o acompanhamento da equipe de saúde da família.
- Quarto
- O corte no antebraço, sem intenção de morrer declarada, entra ou não na definição legal de violência autoprovocada.
- Quinto
- Quem recebe a notificação neste caso, e o que o código de ética diz sobre revelar aos pais o que a adolescente contou.
Onde a banca derruba
- 1Ler a palavra e ligar o alarme Na maior parte das vinhetas de prova o suicídio aparece negado, para liberar o manejo ambulatorial. Confira se a frase afirma ou nega antes de mudar o eixo da resposta.
- 2Trocar o destinatário do papel Notificação de violência autoprovocada vai para a autoridade sanitária; comunicação de internação involuntária vai para o Ministério Público Estadual. São dois papéis, dois prazos e dois endereços.
- 3Achar que o prazo de 72 horas é o da notificação As 72 horas são da comunicação da internação involuntária, escritas na lei de 2001. A notificação da tentativa não tem prazo em lei; o número que circula, de 24 horas, vem de portaria.
- 4Esquecer que o relógio das 72 horas corre duas vezes A mesma lei manda adotar o procedimento também na alta. Vinheta que já descreveu a comunicação da admissão costuma estar cobrando a da alta.
- 5Marcar escala nomeada em vez de conduta A prova brasileira deste tema não cobra escore nem ponto de corte. Alternativa que aplica instrumento e não decide destino quase sempre é distrator.
- 6Confundir frequência do meio com letalidade do meio Envenenamento é o meio mais notificado e o menos letal por evento; arma de fogo é o menos notificado e um dos mais letais. A conduta segue a letalidade, não a frequência.
- 7Comparar sexos sem olhar o desfecho Morte pende para homens, tentativa e notificação pendem para mulheres, e participação na mortalidade violenta pende de novo para mulheres. Antes de comparar, identifique o que está sendo contado.
- 8Tratar a ausência de agitação como risco baixo Paciente lúcido, colaborativo e sem sinais psicóticos pode ter plano, meio e oportunidade. O que gradua é o conteúdo do relato, não o comportamento na sala.
- 9Adiar a pergunta direta Perguntar sobre pensamentos de morte não aumenta o risco. Alternativas que sugerem observar sinais indiretos, aguardar relato espontâneo ou perguntar antes à família são erros do mesmo tipo.
- 10Dar alta pelo critério clínico depois de uma tentativa Intoxicação resolvida não é caso resolvido. Antes da alta, avaliação de risco e de saúde mental, plano de segurança e acompanhamento especializado garantido.
- 11Assumir que 80% de transtorno mental autoriza rastrear por diagnóstico Se transtorno mental está presente em cerca de 80% dos casos, um em cada cinco não tem diagnóstico prévio para acionar qualquer rastreio ancorado nele.
- 12Repetir percentual de vigilância sem olhar o denominador Proporção de repetição muda de 41% para 52,4% conforme as fichas ignoradas entrem ou não no denominador, e o bloco de meios usa denominador maior que o de local, na mesma tabela.
Correta: a gravidade do risco de suicídio é fortemente determinada pela ideação com PLANO estruturado: método definido (comprimidos anti-hipertensivos), acesso ao meio (cartelas guardadas) e planejamento de oportunidade (dia sozinha) configuram alto risco e demandam intervenção imediata e proteção. Ausência de tentativa prévia não reduz o risco atual nem torna o relato menos confiável — o plano estruturado é o dado dominante. Mulheres tentam mais, porém homens têm maior letalidade/consumação; o sexo feminino não é o marcador de risco elevado aqui. Estabilidade clínica não autoriza alta — o risco é psiquiátrico, não hemodinâmico. Idade jovem não caracteriza menor risco; o determinante é o plano.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem, 52 anos, etilista, é levado ao pronto-socorro após tentativa de enforcamento interrompida por familiar. Chega sonolento, com hálito etílico, marcha atáxica e fala arrastada. Refere que quis morrer, mas agora minimiza o ocorrido e pede para ir embora, dizendo que estava apenas bêbado. Ao exame: PA 138x86 mmHg, FC 96 bpm, SatO2 97%, Glasgow 14, escoriação linear cervical. Familiar informa que ele fez ameaças semelhantes na última semana. Qual é a conduta mais adequada neste momento?
Correta: a intoxicação alcoólica compromete o julgamento, a fidedignidade do relato e eleva o risco impulsivo; a avaliação definitiva do risco e qualquer decisão de alta devem aguardar a sobriedade, mantendo o paciente em observação, com retirada de meios e vigilância — sobretudo após tentativa por método violento (enforcamento) e ameaças recentes. Liberar paciente intoxicado com tentativa recente é conduta insegura; a autonomia está prejudicada pela intoxicação, e termo de responsabilidade não transfere a segurança. Contenção/antipsicótico plenos não estão indicados sem agitação/agressividade que os justifiquem — é exagero terapêutico. Internação é frequentemente necessária, mas a decisão exige reavaliação após sobriedade; a compulsória sem nova avaliação inverte a ordem correta do manejo.
Adolescente de 17 anos é atendido no pronto-socorro após ingesta de 20 comprimidos de paracetamol há cerca de 2 horas, em contexto de conflito familiar. Está consciente, orientado, com náuseas leves, sinais vitais normais. Após estabilização inicial e coleta de exames, arrepende-se, chora, afirma que não quer mais morrer e implora para ir para casa com a mãe, que está presente e disposta a levá-lo. O plantonista considera que, por ter havido arrependimento e apoio familiar, poderia liberá-lo com retorno ambulatorial. Qual afirmação melhor orienta a decisão de disposição deste paciente?
Correta: Tentativa consumada por método com letalidade real (paracetamol, cujo risco hepático pode ser tardio e mascarado por sintomas iniciais leves), em adolescente, obriga avaliação psiquiátrica formal e monitorização antes de decidir disposição — o arrependimento agudo NÃO é preditor confiável de segurança. Arrependimento imediato é comum e não afasta o risco de nova tentativa. Apoio familiar é fator protetor relevante, mas não substitui a avaliação especializada na emergência. O manejo toxicológico é necessário, porém não dispensa a avaliação do risco de suicídio, que é o motivo do ato. Menor idade não reduz o risco de recorrência — tentativa prévia é um dos maiores preditores de nova tentativa.
Homem, 72 anos, viúvo há 2 meses, aposentado, é trazido à emergência pela filha, que encontrou uma carta de despedida em casa. Ele relata, de forma tranquila, que planejou se enforcar e já deixou uma corda preparada na garagem; afirma que "seria um alívio para todos". Tem antecedente de transtorno depressivo maior e vive sozinho. Ao exame, está lúcido, orientado, com humor deprimido, discurso lentificado e nega qualquer expectativa em relação ao futuro. Sinais vitais estáveis. A filha diz que não tem como monitorá-lo em tempo integral. Qual é a conduta mais adequada neste momento?
O paciente reúne múltiplos fatores de altíssimo risco: idade avançada, sexo masculino, viuvez recente, isolamento, depressão maior, plano estruturado, método de alta letalidade já preparado (corda) e ausência de ambivalência/rede de suporte efetiva. A prioridade é a proteção imediata da vida, o que exige internação hospitalar; havendo recusa, a legislação brasileira (Lei 10.216/2001) autoriza a internação involuntária. É correta. Errada: alta é inaceitável em risco iminente, e ISRS não protege de forma aguda (efeito em semanas). Errada: benzodiazepínico e alta não removem o risco e o método permanece disponível. Errada: contrato de não-suicídio não tem valor protetor e a filha não consegue vigiar. Errada: consulta eletiva deixa o paciente desprotegido no intervalo de maior risco.
Durante a avaliação de risco de suicídio de um paciente na emergência, o médico revisa os fatores associados a maior probabilidade de suicídio consumado. Entre as opções abaixo, qual é o fator MAIS fortemente associado ao risco de suicídio?
A tentativa de suicídio prévia é o preditor isolado mais robusto de suicídio futuro, aumentando o risco em várias vezes e sendo consistentemente destacada em diretrizes. Correta: Errada: mulheres tentam mais, porém homens consumam mais — o sexo masculino é o associado a maior letalidade. Errada: o risco de suicídio consumado tende a ser maior em idosos, não em jovens. Errada: fatores socioeconômicos contribuem, mas isoladamente têm peso muito menor que a tentativa prévia. Errada: tabagismo é marcador epidemiológico fraco e inespecífico, não um preditor principal.
Um homem de 34 anos é levado por familiares à Unidade de Pronto Atendimento após ter sido encontrado escrevendo cartas de despedida. Refere que há dois meses perdeu o emprego, teve o casamento desfeito e passou a beber diariamente. Diz que planejou se enforcar na garagem, onde já deixou uma corda preparada, e que só não o fez porque a filha chegou em casa. Ao exame, mostra-se hipotenaz, com discurso de desesperança e afirma que a morte seria um alívio. Nega alucinações. Considerando a estratificação do risco de suicídio, qual é a classificação e a conduta imediata mais apropriada?
O paciente reúne fatores de alto risco: plano estruturado, método definido e disponível (corda já preparada), intenção manifesta, desesperança, perda recente de vínculos e uso abusivo de álcool. Isso caracteriza RISCO ALTO, cuja conduta é proteção imediata: vigilância contínua, não deixá-lo sozinho, remover meios letais e garantir avaliação psiquiátrica com internação ou observação em ambiente seguro. Classificar como risco baixo e mandar para casa com ansiolítico subestima o risco e libera um paciente com plano e método à mão. Classificar como risco moderado e liberar aos cuidados da família é igualmente inseguro pelo mesmo motivo. Pedir tomografia e alcoolemia antes de decidir erra a prioridade: exames não devem retardar a proteção do paciente.
Mulher de 34 anos é levada ao pronto-socorro pela irmã, que a encontrou no quarto preparando uma corda. Tem diagnóstico de transtorno depressivo maior, abandonou a sertralina há dois meses e, nas últimas três semanas, apresenta insônia terminal, anedonia e desesperança. Durante a entrevista, relata que definiu o método, escolheu o horário em que ficaria sozinha em casa e já escreveu carta de despedida; afirma que "vai terminar o que começou" assim que sair do hospital. Nega uso de álcool e outras drogas. Está lúcida, orientada, sem alucinações ou delírios; exame físico sem alterações. O médico plantonista, após avaliação, indica internação psiquiátrica, mas a paciente a recusa formalmente. Qual é a conduta correta?
Trata-se de risco suicida alto e iminente (plano estruturado, método definido, letalidade alta, carta de despedida, manutenção da intenção durante a entrevista), o que caracteriza emergência psiquiátrica e indica proteção imediata em regime de internação. A Lei nº 10.216/2001 prevê a internação involuntária — aquela que se dá sem o consentimento do paciente e a pedido de terceiro — mediante laudo médico circunstanciado que motive a decisão, com comunicação obrigatória ao Ministério Público em até 72 horas (tanto da internação quanto de sua alta). Liberar a paciente é incorreto: estar lúcida e orientada não afasta o risco, e o dever de proteção à vida prevalece diante de risco iminente. A internação compulsória é a determinada pela Justiça, geralmente vinculada a contexto judicial/penal, e exigir decisão judicial prévia retardaria a proteção. Não cabe internação voluntária assinada por terceiro: o consentimento é personalíssimo, e a paciente é maior e capaz — a assinatura do companheiro não substitui o termo do próprio paciente.
Homem de 52 anos é trazido ao pronto-socorro de um hospital geral por vizinhos, após ser encontrado em casa com cortes superficiais no punho esquerdo. Está consciente, orientado, com hálito etílico e sangramento já contido. Refere dependência de álcool há 20 anos, viuvez há três meses e desemprego recente. Diz, de forma clara e reiterada, que "a vida não tem mais sentido" e que pretende usar a espingarda que guarda em casa "assim que sair daqui". Nega acompanhamento psiquiátrico prévio, recusa qualquer avaliação de saúde mental e exige alta imediata. Exame físico sem outras alterações; sinais vitais estáveis. Diante desse quadro, a conduta adequada é
Correta: o paciente reúne risco iminente (plano definido, meio letal disponível — arma de fogo —, intenção declarada, perda recente, uso de álcool, sexo masculino e meia-idade). A conduta é contenção do risco: vigilância contínua, restrição de acesso a meios e avaliação psiquiátrica; se persiste a recusa com risco de morte, a Lei 10.216/2001 autoriza a internação involuntária, que deve ser comunicada ao Ministério Público em até 72 horas. A primeira opção erra porque a autonomia não se sustenta diante de risco iminente de morte, e a alta seria omissão de socorro. A segunda erra porque sedar e devolver ao domicílio (onde está a arma) não remove o meio nem avalia o risco. A quarta erra porque a intoxicação não anula a ideação — ao contrário, o álcool é fator de risco agudo por desinibição, e a avaliação/proteção não pode ser adiada.
Homem de 34 anos é trazido à emergência pelo irmão, que o encontrou no quintal preparando uma corda no galho de uma árvore. Está desempregado há oito meses, separou-se recentemente e tem feito uso diário de destilados. Há dois anos teve internação após ingestão de soda cáustica. Ao exame, vigil, hipotenso emocionalmente, sem sinais de intoxicação aguda; afirma que "a única saída é morrer", mantém o plano e recusa qualquer tratamento ou internação, pedindo alta imediata. Assinale a conduta adequada neste momento.
Correta: coexistem ideação com plano estruturado, meio já preparado e disponível, tentativa prévia de alta letalidade, uso nocivo de álcool e perdas recentes — risco iminente. Diante da recusa, a Lei 10.216/2001 autoriza a internação involuntária por indicação médica, com comunicação ao Ministério Público em até 72 horas; enquanto isso, vigilância contínua e restrição de meios. Não existe exigência de autorização judicial prévia — a comunicação é posterior. "Contrato de não suicídio" não tem valor preditivo nem protetor e não substitui a avaliação de risco. A autonomia é relativizada quando o transtorno mental compromete a capacidade de decisão e há risco de morte iminente.
Mulher de 22 anos chega à emergência acompanhada de amiga, com cortes superficiais no antebraço esquerdo, sem sangramento ativo e sem necessidade de sutura. Está calma, colaborativa e diz que "foi só um impulso, já passou". Ao ser entrevistada a sós, relata que trancou a porta do quarto e esperou a família viajar para se ferir, que lamenta ter sido encontrada e que mantém o desejo de morrer. Tem traços de instabilidade afetiva e impulsividade, sem tentativas anteriores. Assinale o dado que melhor indica risco elevado e contraindica a alta imediata.
A avaliação do risco suicida pesa a intencionalidade, não apenas o dano físico. Planejamento com precauções contra o resgate, escolha do momento de isolamento e arrependimento por ter sobrevivido indicam intenção letal persistente — a paciente precisa de avaliação psiquiátrica e ambiente seguro antes de qualquer alta. A baixa letalidade do método não reduz o risco quando a intenção permanece alta (métodos de baixa letalidade são frequentes em jovens e antecedem tentativas graves). Traços de instabilidade afetiva e impulsividade aumentam o risco basal, mas não definem risco iminente isoladamente. E, embora as tentativas sejam mais frequentes em mulheres jovens, o suicídio consumado predomina em homens e em idosos — o dado demográfico não é o determinante aqui.
Homem de 45 anos foi admitido há 24 horas após ingerir 30 comprimidos de amitriptilina em contexto de episódio depressivo. Permaneceu monitorizado, sem arritmia ou alteração do nível de consciência, com ECG normal nas últimas 12 horas e liberação clínica. Avaliado pela psiquiatria, encontra-se arrependido, nega ideação atual, aceita tratamento, e a esposa comparece e se compromete a acompanhá-lo. A equipe opta pela alta hospitalar. Assinale a conduta mais adequada para reduzir o risco de nova tentativa nas semanas seguintes.
Correta: o período de maior risco de repetição é justamente a primeira semana após a alta. As medidas com melhor evidência são o plano de segurança escrito (sinais de alerta, estratégias de enfrentamento, contatos de emergência), a restrição de acesso a meios letais — aqui, guarda das medicações por terceiro — e o contato ativo precoce, com reavaliação em até sete dias. Reintroduzir tricíclico em grande quantidade entrega ao paciente o mesmo meio da tentativa, com estreita janela terapêutico-tóxica. Encaminhamento passivo com retorno em 90 dias deixa o intervalo de maior risco descoberto. A internação involuntária prolongada não se justifica em paciente clinicamente estável, sem ideação atual, aderente e com suporte familiar — a indicação é individualizada, não automática pelo método.
Mulher de 44 anos, em acompanhamento na Unidade Básica de Saúde por episódio depressivo moderado, em uso de sertralina há oito semanas com melhora parcial, relata à médica de família que "às vezes pensa que seria melhor não acordar", mas nega plano, método ou intenção de se matar, refere que os filhos a impedem de fazer qualquer coisa e mantém-se trabalhando. Não há tentativas prévias, uso de substâncias ou psicose. Assinale a conduta mais adequada.
Trata-se de ideação passiva de morte (desejo de não acordar), sem plano, método, intenção ou tentativas prévias, com fatores de proteção presentes (filhos, trabalho, vínculo com o serviço) — risco baixo a moderado, manejável na Atenção Primária com seguimento intensificado, restrição de acesso a meios letais, envolvimento da rede de apoio e apoio matricial do CAPS. Encaminhar à emergência para internação é desproporcional e medicaliza o cuidado sem indicação. Manter reavaliação apenas em três meses ignora o marcador de risco recém-revelado. Transferir e encerrar o vínculo na Atenção Primária contraria a lógica de cuidado compartilhado e de coordenação do cuidado pela equipe de Saúde da Família.
Mulher de 48 anos comparece à unidade básica relatando tristeza persistente, insônia e perda de interesse há alguns meses. Durante a consulta, o médico de família percebe sinais de humor deprimido e considera investigar risco de suicídio. Em relação à investigação da ideação suicida nesse contexto, qual é a conduta correta?
Perguntar diretamente sobre pensamentos de morte ou de se matar é a conduta esperada, e a razão é que o mito oposto não se sustenta: o guia de implementação internacional de 2021 registra que falar de suicídio não aumenta o risco e ainda faz com que a pessoa se sinta mais capaz de procurar ajuda. As demais opções compartilham o mesmo erro em versões diferentes: todas adiam a pergunta. Esperar relato espontâneo entrega a iniciativa a quem está em sofrimento; começar pela família rompe a relação com a paciente sem necessidade; exigir escala antes da pergunta aberta troca a entrevista por instrumento, e a prova brasileira deste tema não cobra escore nem ponto de corte; e deixar a investigação para depois do antidepressivo ignora que o risco existe agora, antes de qualquer resposta terapêutica.
Para este exercício, considere 124.709 notificações de lesão autoprovocada, das quais 71,3% em mulheres. Na mesma população e período, a taxa de mortalidade por suicídio foi de 10,7 por 100 mil entre homens e de 2,9 por 100 mil entre mulheres. Qual é a interpretação correta desses dados?
Os dados apresentados sustentam predominância feminina nas notificações e maior mortalidade masculina. Não demonstram que todas as lesões notificadas foram tentativas de suicídio, nem permitem atribuir a diferença a subnotificação ou a métodos utilizados. Uma fonte não invalida a outra por medir desfecho diferente. Uma única comparação temporal também não demonstra inversão recente do perfil.
Homem de 41 anos foi internado sem o seu consentimento, a pedido do irmão, por risco alto de suicídio, com laudo médico circunstanciado assinado por psiquiatra registrado no conselho regional do estado. Segundo a lei que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, qual providência é obrigatória?
A internação psiquiátrica involuntária deve ser comunicada ao Ministério Público Estadual em setenta e duas horas pelo responsável técnico do estabelecimento, e a lei manda adotar o mesmo procedimento quando o paciente recebe alta — o relógio corre duas vezes na mesma internação. O conselho regional de medicina não é destinatário dessa comunicação: seu papel na lei é o registro do médico que autoriza a internação. A autoridade sanitária recebe a notificação de violência autoprovocada, que é outro papel, com outro fundamento legal. Autorização judicial prévia caracteriza a internação compulsória, aquela determinada pela Justiça, e não a involuntária, que se dá sem consentimento e a pedido de terceiro. Prazo de trinta dias e dispensa da comunicação de alta não existem no texto legal.
Durante a avaliação de um paciente na emergência, o médico revisa os fatores associados a maior probabilidade de suicídio consumado. Qual é o fator mais fortemente associado a esse desfecho?
A monografia internacional de 2014 afirma o ponto duas vezes, em trechos diferentes: uma tentativa prévia é o fator de risco isolado mais importante na população geral, e uma ou mais tentativas prévias são de longe o indicador mais forte de risco futuro. Os demais itens são todos fatores de risco reais, e é justamente por isso que funcionam como distratores: sexo masculino, idade avançada, transtorno depressivo, isolamento e uso nocivo de álcool aparecem em qualquer lista de fatores, mas nenhum deles supera a tentativa prévia em força de associação. Vale lembrar que esse fator é também o que mais falta na ficha: no Brasil, o campo que registra repetição do evento veio ignorado em 21,9% das notificações de 2019, o que obriga a perguntar ativamente em vez de esperar o dado aparecer.
Homem de 60 anos é atendido na unidade básica com quadro depressivo. Refere humor deprimido há três semanas, anedonia, insônia terminal e perda de peso, e conta hoje que a vida não vale mais a pena e que pensou em se matar com o revólver que guarda em casa, tendo um plano definido. Nega uso de álcool. Qual é a conduta mais adequada?
Plano definido somado a acesso a método letal dentro de casa coloca o paciente no degrau em que a conduta deixa de ser ambulatorial: estratificar como risco elevado, garantir segurança imediata, retirar o acesso ao meio e encaminhar com urgência. A retirada da arma não é detalhe acessório, é a intervenção com melhor evidência populacional neste tema — restrição de acesso aos meios encabeça a lista de intervenções eficazes do guia internacional. As opções que prescrevem antidepressivo com retorno em quatro semanas ou que agendam avaliação de rotina erram por deixar o meio letal onde estava durante o intervalo. Aplicar escala e decidir pelo escore troca a decisão clínica por instrumento. Encaminhar ao centro de atenção psicossocial mantendo a arma em casa reconhece o risco e não remove o que o torna letal.
Adolescente de 14 anos é atendida em unidade de pronto atendimento após a mãe encontrar cortes superficiais em seus antebraços. A adolescente confirma que se cortou para aliviar o sofrimento e nega intenção de morrer. Está estável, sem indicação de internação clínica. Quanto ao dever de notificar, qual é a conduta correta?
A lei que institui a política nacional define violência autoprovocada em três itens: suicídio consumado, tentativa de suicídio e ato de automutilação, com ou sem ideação suicida — de modo que a autolesão sem intenção de morrer está expressamente incluída, e adiar ou dispensar a notificação por esse motivo contraria o texto. O destinatário no serviço de saúde é a autoridade sanitária, e há um cruzamento de rotas para menores de idade: o mesmo artigo determina que, nos casos envolvendo criança ou adolescente, o conselho tutelar deverá receber a notificação destinada aos estabelecimentos de saúde. Notificar somente ao conselho tutelar inverte os incisos, porque essa é a rota atribuída às escolas. Notificar à polícia não está previsto: a notificação tem caráter sigiloso e obriga ao sigilo quem a recebe.
Adolescente de 17 anos dá entrada no pronto-socorro após ingestão intencional de trinta comprimidos de paracetamol há quatro horas, em tentativa de suicídio. Está consciente, orientado, com sinais vitais estáveis e sem sintomas. Após o manejo clínico inicial da intoxicação, e antes de qualquer decisão sobre alta hospitalar, qual medida é indispensável?
Intoxicação resolvida não é caso resolvido. Nesta família de vinhetas o suicídio entra como motivo da ingestão, e o eixo toxicológico já foi respondido pelo manejo inicial; o que a pergunta desloca é o momento da alta, e aí a medida indispensável é a avaliação do risco e da saúde mental, com plano de segurança e seguimento especializado assegurado. Repetir exames e liberar resolve o problema hepático e devolve o paciente ao mesmo risco. Iniciar antidepressivo com retorno em trinta dias na atenção primária não corresponde ao degrau de quem acabou de tentar. Termo de responsabilidade dos pais não substitui avaliação nem seguimento. Exames de imagem e eletroencefalograma não têm indicação em paciente lúcido, orientado e sem déficit neurológico.
Mulher de 34 anos chega ao pronto-socorro trazida pelo marido, que encontrou um bilhete de despedida. Relata dois meses de desesperança, insônia terminal e anedonia. Conta que planejou ingerir os comprimidos anti-hipertensivos do pai, guardou as cartelas em uma gaveta e escolheu um dia em que estaria sozinha em casa. Nega tentativas prévias. Está lúcida, colaborativa, sem sinais psicóticos e sem agitação. O que caracteriza risco alto nesse caso?
O que gradua o risco é o conteúdo do relato, degrau a degrau: ideação expressa, método definido, meio identificado e ao alcance, e oportunidade escolhida. Estar sem tentativas prévias não protege nem agrava por si — tentativa prévia é o fator de risco isolado mais forte quando presente, mas sua ausência não rebaixa um plano já montado. Insônia e anedonia sustentam o diagnóstico do episódio depressivo, não a estratificação do risco de suicídio. Vir acompanhada não é critério de risco; se algo indica, é presença de suporte. E apresentação lúcida e colaborativa não deve ser lida como dissimulação: a ausência de agitação apenas retira o sinal ruidoso e obriga a graduar pelo que foi contado.
As notificações brasileiras de lesão autoprovocada cresceram 39,8% de 2018 para 2019. A lei que reforçou a obrigação de notificar foi publicada em 26 de abril de 2019 e entrou em vigor noventa dias depois. Medida por outro sistema, a mortalidade por suicídio subiu 43% em dez anos, de 9.454 óbitos em 2010 para 13.523 em 2019, enquanto a população crescia cerca de 10%. Qual é a leitura mais defensável do salto de 39,8%?
Notificações dependem tanto da ocorrência dos eventos quanto de seu reconhecimento e registro. A mudança legal torna plausível uma alteração de captação, mas a coincidência no calendário não identifica sua magnitude nem prova que seja a causa predominante. A mortalidade de 2010–2019 não equivale à variação anual de notificações em 2018–2019, e lesões autoprovocadas notificadas não são o mesmo desfecho que óbitos por suicídio. Também não se pode calcular letalidade sem denominadores comparáveis. Para separar os componentes seriam necessários dados adicionais e um desenho analítico apropriado.
Um residente afirma que a Lei nº 13.819, de 2019, que instituiu a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, fixa prazo de vinte e quatro horas para a notificação da tentativa de suicídio. Qual é a correção adequada a essa afirmação?
A lei de 2019 define violência autoprovocada em três itens — suicídio consumado, tentativa de suicídio e ato de automutilação, com ou sem ideação suicida — e determina que os casos suspeitos ou confirmados sejam notificados pelos estabelecimentos de saúde às autoridades sanitárias, mas não escreve prazo algum; o artigo que viria em seguida consta do texto sancionado como vetado. Ela manda aplicar, no que couber, a lei de 1975, cujo regulamento de 1976 responde que a notificação será feita imediata ou posteriormente ao conhecimento do fato, redação que abrange as duas possibilidades e não restringe nenhuma. O único número do conjunto mora em portaria: desde 2014 as secretarias municipais de saúde estão obrigadas a notificar tentativas de suicídio em vinte e quatro horas. A divisão de endereços é a leitura segura — a obrigação está em lei, o prazo está em portaria —, e negar a obrigação legal contraria o próprio texto de 2019.
Nas notificações brasileiras de lesão autoprovocada de 2019, o envenenamento respondeu por 60,2% dos meios registrados, o objeto cortante por 16,2%, o enforcamento por 6,2% e a arma de fogo por 0,5%. Um profissional conclui, a partir da tabela, que a arma de fogo é pouco relevante para a prevenção no país. Qual é a leitura correta desses números?
Os percentuais pertencem às notificações de violência autoprovocada, não à distribuição de óbitos nem a um cálculo de letalidade. A categoria não deve ser reduzida automaticamente a tentativas de suicídio, pois a intenção precisa ser avaliada. Frequência pequena na tabela não permite concluir baixa relevância preventiva. A avaliação considera a pessoa, o contexto e o acesso a meios potencialmente letais; limitar esse acesso integra as intervenções recomendadas pela OMS. Também não cabe assumir que frequência e letalidade sejam sempre inversamente proporcionais.
Sobre o risco de suicídio no idoso, qual afirmação está correta?
Idosos apresentam taxas elevadas de suicídio, com maior letalidade dos métodos e menor comunicação prévia da intenção, o que torna a pergunta direta e sistemática uma medida essencial. O temor de que perguntar induza o ato engana e persiste amplamente na prática, mas a evidência mostra o contrário: a abordagem explícita alivia e abre espaço para intervenção.
Qual é a conduta em relação à notificação e ao suporte em casos de tentativa de autoextermínio por intoxicação exógena?
Violência autoprovocada é agravo de notificação compulsória, e a avaliação em saúde mental antes da alta é parte do cuidado, com plano de segurança, envolvimento da rede de apoio e seguimento — o período imediatamente após uma tentativa é de risco elevado para nova tentativa. Estabilizar clinicamente e liberar sem essa avaliação é falha assistencial grave, e a notificação tem finalidade epidemiológica e de proteção, não punitiva.
Puérpera de 31 anos, avaliada no pronto-socorro por sintomas depressivos, relata ideação suicida com plano definido e acesso ao meio, e diz não conseguir garantir a própria segurança. Mora sozinha com o recém-nascido. Qual a conduta?
Ideação suicida com plano definido, acesso ao meio e incapacidade de garantir a própria segurança configura risco iminente e indica internação, com vigilância contínua, retirada de meios, início de tratamento e avaliação psiquiátrica; havendo recusa, a internação involuntária é legítima, com laudo circunstanciado e comunicação ao Ministério Público em até 72 horas. Como ela mora sozinha com o recém-nascido, garantir o cuidado do bebê é parte inseparável da conduta. Qualquer alta é inadequada, e o distrator mais insidioso é o do compromisso verbal de não se autoagredir, prática que não protege e não tem valor preditivo, além de transferir para a paciente uma responsabilidade que é do serviço. Prescrever benzodiazepínico e liberar sem avaliação especializada deixa o risco intacto e ainda pode desinibir. Encaminhamento eletivo com a paciente em casa é incompatível com risco imediato, e o tempo até a consulta é justamente o período de maior perigo.
Paciente adulto ingeriu cáustico em tentativa de autoextermínio. Após a estabilização clínica e o estadiamento endoscópico, qual conduta é indispensável antes da alta hospitalar?
A ingestão intencional é uma tentativa de suicídio, e a alta sem avaliação psiquiátrica e sem plano de seguimento deixa o risco maior intocado, ainda que o esôfago esteja tratado. Encaminhar somente ao gastroenterologista trata a consequência e ignora a causa. Vale lembrar que essa apresentação em adultos costuma envolver volumes maiores e lesões mais graves do que a ingestão acidental infantil.
Qual conduta é adequada para um paciente que ingeriu benzodiazepínico em tentativa de autoextermínio, já desperto e clinicamente estável após observação?
A estabilidade clínica resolve a intoxicação, não o risco que a motivou: a avaliação psiquiátrica formal com plano de seguimento e restrição de acesso a meios é parte obrigatória do atendimento. Dar alta com nova receita do mesmo tipo de fármaco entrega ao paciente o meio da próxima tentativa, e é o desfecho que a questão quer bloquear.
Ao avaliar paciente com ideação suicida no pronto-socorro, qual conduta é a mais adequada?
Perguntar de forma direta e acolhedora sobre ideação, planejamento, meios disponíveis e tentativas prévias não induz o comportamento, ao contrário do mito persistente, e é o que permite estratificar risco, restringir acesso a meios, acionar rede de apoio e definir seguimento ou internação conforme a gravidade. Evitar o tema é justamente o que impede a avaliação. Encaminhamento distante sem avaliação e prescrição isolada sem plano de segurança deixam o paciente desprotegido no período de maior risco.
Qual medida populacional tem evidencia mais consistente de reducao das taxas de suicidio?
A restricao de meios e a intervencao com melhor evidencia populacional, porque a crise suicida costuma ser transitoria e ambivalente: dificultar o acesso ao metodo no momento do impulso reduz mortes sem simplesmente deslocar para outro metodo, como mostram os dados de barreiras e de controle de pesticidas. Campanhas de midia enganam porque parecem beneficas, mas cobertura com descricao detalhada de metodo e local associa-se a efeito de contagio, o que motivou as diretrizes de comunicacao responsavel.
Homem de 47 anos, divorciado ha 3 meses, desempregado, chega ao pronto-socorro trazido pela irma. Relata que pensa em morrer todos os dias, comprou corda na semana passada e escolheu o dia. Nega tentativas previas. Bebe diariamente ha 2 anos. Qual o principal determinante da conduta imediata?
O que define risco iminente e a passagem da ideacao para o planejamento com metodo definido, meio ja obtido e data escolhida. Comprar a corda e marcar o dia e o dado mais grave da vinheta e obriga a protecao imediata, com vigilancia continua e retirada do meio. A ausencia de tentativa previa engana porque tentativa anterior e de fato o fator de risco isolado mais forte para suicidio consumado, mas sua ausencia nunca reduz um plano estruturado a baixo risco. Suporte familiar modula a intensidade da vigilancia, nao dispensa a protecao.
Mulher de 68 anos, viuva ha 1 ano, com dor cronica e cancer de mama em tratamento, refere que a vida perdeu sentido e que seria melhor nao acordar. Mora sozinha. Qual conjunto de fatores torna esse caso de risco particularmente elevado?
O risco no idoso e cumulativo e frequentemente subestimado porque a ideacao chega em linguagem indireta, como o desejo de nao acordar. Perda conjugal recente, morar sozinho, dor cronica e cancer somam-se a idade, e idosos tem menor razao entre tentativas e mortes, ou seja, tentam menos mas morrem mais. Considerar que a ausencia de tentativa previa neutraliza os demais fatores engana porque muitos idosos morrem na primeira tentativa, sem historico que sinalize o risco antecipadamente.
Adolescente de 15 anos vítima de bullying escolar apresenta cicatrizes lineares paralelas em antebraço, que refere fazer para 'aliviar a angústia', negando intenção de morrer. Qual a interpretação e conduta corretas?
Autolesão sem intenção suicida funciona como regulação emocional, mas é um dos preditores mais robustos de tentativa de suicídio nos anos seguintes — a ausência de intenção de morte no ato não autoriza tranquilidade. Tratar como busca de atenção é o julgamento moral que afasta o adolescente do cuidado. Diagnosticar transtorno de personalidade na adolescência a partir de um comportamento isolado é precipitado e estigmatizante.
Qual conjunto de fatores confere maior risco imediato de suicídio em um adolescente atendido no pronto-socorro após tentativa por ingestão medicamentosa?
A combinação de letalidade do método, premeditação, lamento por ter sobrevivido e ausência de rede de apoio define o risco alto que indica retaguarda hospitalar. Sexo feminino aumenta a frequência de tentativas, mas é o sexo masculino que concentra os óbitos por maior letalidade do método — confundir esses dois dados é erro clássico. Bullying e ansiedade são fatores contribuintes, não determinantes isolados de risco imediato.
Mulher de 22 anos e atendida apos ingestao de 20 comprimidos de paracetamol, encontrada por acaso pela colega de quarto. Deixou carta, tomou os comprimidos quando sabia que ficaria sozinha e diz que lamenta ter sobrevivido. Qual desses elementos caracteriza maior letalidade da tentativa do ponto de vista psiquiatrico?
A letalidade psiquiatrica de uma tentativa mede-se pela intencao, e os marcadores mais fortes sao as precaucoes contra o resgate, a preparacao previa como a carta e a persistencia do desejo de morrer apos o ato. Essa paciente reune os tres. O numero de comprimidos engana porque parece objetivo, mas a letalidade medica percebida pelo paciente e o que importa: muitos superestimam ou subestimam a toxicidade, e uma tentativa medicamente leve com intencao alta indica risco elevado de repeticao e de morte futura.
Sobre fatores de risco para suicidio, qual e considerado o preditor isolado mais forte de suicidio consumado?
Tentativa previa e o preditor isolado mais robusto, elevando o risco varias vezes em relacao a populacao geral, com maior densidade de risco no primeiro ano apos o evento. Por isso todo paciente que sobreviveu a uma tentativa exige seguimento ativo e contato precoce apos a alta. O sexo feminino engana porque mulheres de fato tentam mais, mas homens morrem mais por escolherem metodos de maior letalidade, e a questao pergunta por suicidio consumado. Estado civil casado e fator de protecao, e nao de risco.
Qual das afirmativas sobre a abordagem da ideacao suicida na entrevista clinica e correta?
A evidencia e consistente: perguntar de forma direta e sem rodeios nao induz nem aumenta o comportamento suicida, e sim alivia o paciente e abre espaco para o relato. O mito de plantar a ideia e a crenca que mais atrapalha o rastreamento e persiste entre profissionais. Reservar a pergunta ao psiquiatra engana porque parece cautela tecnica, mas a maioria das pessoas que morre por suicidio passou por um servico de atencao primaria ou emergencia nas semanas anteriores, e e justamente o generalista quem tem a chance de perguntar. A entrevista tambem deve ter um momento a sos, sem familiar.
Sobre a abordagem do risco de suicídio em adolescentes, assinale a alternativa correta.
A crença de que a pergunta planta a ideia é o mito mais persistente e mais nocivo da prática — a evidência mostra o contrário, que nomear alivia e abre espaço para o cuidado. A ideia de que quem fala não age é igualmente falsa: a verbalização é fator de alerta, não de tranquilidade. E ausência de plano reduz, mas não elimina o risco, sobretudo quando há impulsividade e acesso a meios.
Sobre a conduta com a imprensa e nas redes sociais diante de um suicídio de adolescente em uma comunidade escolar, qual orientação é a mais adequada do ponto de vista de saúde pública?
O efeito de contágio, também chamado de efeito Werther, é reduzido quando se omite método e local, evita-se glamourizar o ato e se oferecem canais de ajuda — é exatamente essa a recomendação de comunicação responsável. Homenagens que idealizam a pessoa e o gesto são justamente o formato mais associado ao contágio, embora pareçam acolhimento. Silenciar por completo também prejudica, porque deixa os pares sem espaço de escuta.
Adolescente de 13 anos é levado pela mãe por queda do rendimento escolar, insônia e dor abdominal recorrente há 4 meses. Nega uso de substâncias. Ao ser atendido sozinho, relata que colegas o humilham diariamente na escola e postam montagens em grupos de mensagens. Qual a conduta inicial mais adequada?
Diante de sofrimento psíquico com sintomas somáticos e vitimização por bullying, o primeiro passo é perguntar diretamente sobre ideação e planos — perguntar não induz o comportamento, e essa é a informação que define a urgência da conduta. Encaminhar sem avaliar risco é a falha que mais custa vidas nesse cenário. Investigar exaustivamente a dor abdominal antes de olhar o contexto atrasa o cuidado e reforça a somatização.
Paciente com depressao grave e ideacao suicida inicia antidepressivo. Qual orientacao de seguimento e correta?
Nas primeiras semanas pode ocorrer recuperacao da energia e da iniciativa antes da melhora do humor e da desesperanca, janela em que o paciente ganha capacidade de executar o que ja planejava. Isso justifica reavaliacao em dias, e nao em meses. Alem disso ha alerta especifico de aumento de ideacao em criancas, adolescentes e adultos jovens ate 24 anos, o que torna incorreta a afirmativa de que o risco so aumenta em idosos. Aguardar oito semanas sem contato remove exatamente a vigilancia do periodo de maior vulnerabilidade.
Homem de 55 anos com esquizofrenia, em uso irregular de medicacao, e trazido apos tentativa por precipitacao. Sobre suicidio na esquizofrenia, qual afirmativa e correta?
A clozapina tem indicacao formal para reducao de comportamento suicida recorrente na esquizofrenia e no transtorno esquizoafetivo, sendo o unico antipsicotico com essa evidencia. O risco na esquizofrenia e muito superior ao da populacao geral e concentra-se nos primeiros anos apos o diagnostico, em pacientes jovens com boa critica sobre as perdas impostas pela doenca. Atribuir tudo aos alucinatorios de comando engana porque eles existem, mas a maior parte dos suicidios ocorre em periodo de relativa lucidez, associada a desesperanca e a depressao pos-psicotica.
Homem de 30 anos com ideacao suicida passiva, sem plano, sem tentativa previa, com bom suporte familiar e que aceita tratamento. Mora com a esposa, que se compromete a acompanha-lo. Qual a conduta mais adequada?
Ideacao passiva, sem plano, com critica preservada, adesao e suporte permite manejo ambulatorial desde que estruturado: reavaliacao em dias e nao em meses, retirada de armas e de estoques de medicamento em casa e plano de seguranca escrito com sinais de alerta e telefones. O contrato de nao suicidio engana porque ainda e praticado e da sensacao de protecao, mas nao tem evidencia de reduzir desfechos e pode inclusive inibir o relato honesto do paciente. Prescrever benzodiazepinico em grande quantidade entrega um meio letal ao paciente.
Paciente sobreviveu a uma tentativa de suicidio por intoxicacao e recebeu alta hospitalar. Qual medida de seguimento tem maior evidencia de reducao de novas tentativas?
O periodo apos a alta e o de maior risco, e a intervencao com melhor evidencia e o contato ativo pelo servico, por telefone, mensagem ou visita, somado a agendamento em prazo curto e plano de seguranca escrito. Entregar lista de servicos e orientar procurar ajuda se piorar enganam porque parecem encaminhamento adequado, mas transferem para o paciente em crise a tarefa de buscar cuidado, e a maioria nao chega. Prescrever grande quantidade de comprimidos entrega um meio potencialmente letal.
O que deve constar de um plano de seguranca elaborado com paciente em risco suicida?
O plano de seguranca e um documento pratico construido com o paciente, em ordem crescente de intensidade: reconhecer sinais de alerta, usar estrategias de distracao e regulacao, acionar pessoas de confianca, acionar profissionais e servicos de emergencia, e reduzir o acesso a meios letais em casa. O contrato de nao suicidio engana porque ainda circula na pratica e parece equivalente, mas nao tem evidencia de eficacia e nao oferece ao paciente nenhuma acao concreta no momento da crise.
Homem de 24 anos e trazido apos tentativa por enforcamento interrompida pelo irmao. Encontra-se calmo, minimiza o ocorrido, diz que foi bobagem e pede alta. Qual a conduta correta?
Metodo de alta letalidade, tentativa interrompida por terceiro e minimizacao posterior formam um dos padroes mais perigosos, porque a aparente tranquilidade pode refletir decisao tomada e nao resolucao da crise. A ausencia de lesao fisica engana porque o raciocinio de emergencia tende a graduar gravidade pelo dano organico, mas em suicidologia a gravidade e dada pela intencao e pela letalidade do metodo escolhido, e sobreviver por interrupcao externa nao reduz nenhum dos dois.
Qual a orientacao correta a familiares sobre restricao de meios em domicilio para paciente com risco suicida?
A restricao de meios e uma das poucas medidas com evidencia robusta e deve ser concreta: arma de fogo fora de casa, medicacao trancada e dispensada por terceiro em quantidades pequenas, produtos toxicos inacessiveis. Manter os medicamentos com o paciente em nome da autonomia engana porque respeitar a autonomia e um valor real, mas ela esta transitoriamente comprometida na crise, e a medida e temporaria e pactuada. Esconder apenas objetos cortantes e insuficiente porque ignora os metodos de maior letalidade.
Sobre a relacao entre transtornos mentais e suicidio, qual afirmativa e correta?
Estudos de autopsia psicologica mostram que a grande maioria das mortes por suicidio ocorre em pessoas com transtorno mental diagnosticavel, frequentemente nao tratado, com destaque para depressao, transtorno bipolar, dependencia de substancias e esquizofrenia. Isso torna o tratamento adequado desses quadros uma medida preventiva. Eleger a ansiedade generalizada engana porque ansiedade de fato aumenta risco e agrava a depressao, mas ela nao lidera as associacoes com suicidio consumado.
Mulher de 19 anos com automutilacao repetida, cortes superficiais em antebracos, refere que se corta para aliviar tensao e nao para morrer. Qual a conduta e a interpretacao corretas?
A autolesao sem intencao suicida tem funcao de regulacao emocional e e fenomeno distinto da tentativa de suicidio, mas os dois se relacionam: quem se autolesiona tem risco significativamente maior de tentativa e de morte futura, o que exige avaliacao cuidadosa e tratamento, e nao banalizacao. Orientar que a familia ignore engana porque parte da ideia de nao reforcar o comportamento, mas rotular como busca de atencao afasta a paciente do cuidado e ignora o risco documentado.
Qual e o conceito de postvencao em suicidologia?
Postvencao e o cuidado dirigido aos sobreviventes enlutados por suicidio, grupo que apresenta risco aumentado de luto complicado, depressao e do proprio suicidio, e inclui tambem a equipe assistencial. E, portanto, uma acao de prevencao voltada a quem ficou. Confundir com prevencao primaria em escolas engana porque ambas envolvem comunidade e educacao, mas a postvencao se define pelo momento, depois da morte, e pelo publico, os enlutados.
Sobre a notificacao de tentativa de suicidio no Brasil, qual afirmativa e correta?
Violencia autoprovocada, incluindo a tentativa de suicidio, integra a lista de notificacao compulsoria imediata no prazo de 24 horas, e a obrigacao alcanca qualquer servico de saude, publico ou privado, nao apenas os especializados. A notificacao nao depende de consentimento porque e instrumento de vigilancia e de acionamento da rede de cuidado. Restringir ao suicidio consumado engana porque a morte de fato entra nas estatisticas de mortalidade, mas a notificacao da tentativa e o que permite intervir enquanto ha vida.
Qual e a recomendacao sobre cobertura jornalistica de casos de suicidio?
As diretrizes de comunicacao responsavel pedem que se evite detalhar metodo e local, que nao se romantize nem se sensacionalize e que toda materia inclua canais de ajuda, porque a cobertura inadequada associa-se a aumento de casos por imitacao e a adequada pode ter efeito protetor. Evitar qualquer mencao engana porque o silencio parece a medida mais segura, mas falar de forma responsavel amplia a busca por ajuda e reduz o estigma.
Sobre a epidemiologia do suicidio no Brasil, qual afirmativa e correta?
O padrao brasileiro acompanha o mundial: mulheres tentam mais, homens morrem mais, diferenca explicada sobretudo pelos metodos de maior letalidade e pela menor busca de ajuda entre homens. Achar que mulheres morrem mais engana porque elas de fato aparecem mais nas estatisticas de tentativa e nos servicos de emergencia, o que da impressao de maior mortalidade. O suicidio esta entre as principais causas de morte entre 15 e 29 anos, e ha grande disparidade regional e entre populacoes indigenas.
Qual cuidado ambiental e obrigatorio na enfermaria que recebe paciente internado por risco suicida?
A seguranca ambiental e parte do tratamento: remover cintos, cordoes, sacos plasticos e objetos cortantes, atentar para barras, chuveiros e maçanetas que sirvam de ponto de ancoragem, e ajustar o nivel de vigilancia ao risco, tudo documentado. Isolar em quarto trancado sem supervisao engana porque parece maximizar o controle, mas remove justamente a observacao e aumenta o risco. Contencao continua e desproporcional e viola o principio da menor restricao possivel.
Adolescente de 15 anos e internado apos tentativa de suicidio. Alem do tratamento individual, qual intervencao e essencial?
Na adolescencia o contexto e determinante, e as intervencoes com melhor evidencia envolvem a familia: psicoeducacao, melhora da comunicacao, retirada de meios letais de casa e investigacao ativa de bullying, violencia domestica e abuso. Manter o tratamento apenas individual engana porque a confidencialidade do adolescente e um valor importante e leva a excluir a familia, mas nesse contexto a seguranca em casa depende diretamente dos cuidadores. Afastar da escola por tempo indeterminado agrava isolamento e perda funcional.
Quais criterios indicam necessidade de internacao psiquiatrica apos tentativa de suicidio?
A decisao e clinica e considera intencao persistente, letalidade do metodo e da intencao, gravidade e descompensacao do transtorno de base, rede de suporte e possibilidade real de manter seguranca fora do hospital. Internar toda tentativa engana porque parece a conduta mais segura, mas ha tentativas de baixa intencao em pacientes com bom suporte que se beneficiam mais de manejo ambulatorial intensivo; internacao desnecessaria tem custo, estigma e risco proprio. A gravidade da lesao fisica nao mede o risco psiquiatrico.
Mulher de 31 anos e admitida apos tentativa por ingestao de organofosforado em area rural, com miose, sialorreia, broncorreia e bradicardia. Apos estabilizacao clinica com atropina, mantem-se lucida, diz que continua querendo morrer e recusa qualquer tratamento. Qual a conduta psiquiatrica?
Persistencia do desejo de morrer apos tentativa de alta letalidade, somada a recusa de cuidado, e o cenario classico de internacao involuntaria: ha risco iminente e a capacidade de decidir sobre o proprio cuidado esta comprometida pelo quadro. A alta apos normalizacao clinica engana porque o problema que motivou a admissao parece resolvido do ponto de vista toxicologico, mas o risco psiquiatrico permanece integral. Exigir decisao judicial previa confunde involuntaria com compulsoria e adia a protecao.
Qual e o periodo de maior risco de nova tentativa apos a alta hospitalar por tentativa de suicidio?
A densidade de risco e maxima logo apos a alta, com concentracao nos primeiros dias e no primeiro mes, o que fundamenta a exigencia de contato ativo precoce e consulta em prazo curto. Achar que o risco se distribui uniformemente engana porque o paciente permanece sob risco elevado por anos e essa nocao e verdadeira, mas ignora que existe um pico bem definido logo apos a saida, justamente quando o suporte hospitalar desaparece.
Sobre a avaliacao de risco suicida com escalas padronizadas, qual afirmativa e correta?
Instrumentos padronizados ajudam a nao esquecer dominios e a documentar, mas tem baixo valor preditivo individual, com muitos falsos positivos e negativos, e nenhum escore substitui o julgamento clinico construido na entrevista. Usar escore baixo para autorizar alta engana porque a objetividade numerica transmite seguranca, mas e exatamente o uso que a literatura desaconselha, ja que pacientes que minimizam sintomas pontuam baixo e podem estar em risco alto.
Sobre a articulacao com a rede apos alta de internacao por tentativa de suicidio, qual conduta e a mais adequada?
A transicao de cuidado e o ponto de maior vulnerabilidade, e o que reduz risco e a continuidade ativa: consulta ja marcada em dias, comunicacao direta entre servicos, contato do servico com o paciente e orientacao concreta a familia sobre meios. Entregar encaminhamento por escrito e encerrar engana porque cumpre o fluxo formal, mas deixa o paciente sozinho com a tarefa de acessar a rede justamente no periodo de maior risco.
Homem de 38 anos internado apos tentativa de suicidio apresenta melhora rapida do humor em 4 dias e solicita alta, dizendo estar totalmente recuperado e envergonhado do ocorrido. Qual a interpretacao correta?
A melhora dramatica em poucos dias, especialmente acompanhada de minimizacao e pressa em sair, e um padrao que exige verificacao ativa da ideacao, do plano e do acesso a meios, porque pode representar tanto resposta genuina quanto resolucao aparente em quem ja decidiu. A vergonha engana porque parece indicar critica e arrependimento, mas tambem e um dos motores do desejo de escapar do olhar da equipe e da familia. O termo de responsabilidade nao transfere nem reduz o risco.
Qual afirmativa sobre o registro em prontuario da avaliacao de risco suicida e correta?
O prontuario deve mostrar o raciocinio: o que foi perguntado, o que o paciente respondeu, quais fatores de risco e de protecao foram identificados e por que aquela conduta foi escolhida. Isso qualifica o cuidado, orienta a equipe seguinte e protege juridicamente o profissional. Evitar detalhes por medo de responsabilizacao engana porque a intuicao e de que menos escrito significa menos exposicao, mas na pratica a ausencia de registro e o que caracteriza avaliacao insuficiente.
Qual e a relacao entre transtorno de estresse pos-traumatico e risco de suicidio?
O transtorno se associa a risco aumentado de ideacao e comportamento suicida, potencializado pelas comorbidades frequentes de depressao e uso de substancias, pela culpa relacionada ao trauma e pelo prejuizo funcional, o que torna a avaliacao de risco parte da rotina em todas as consultas. Restringir a veteranos de guerra engana porque essa e a populacao historicamente mais estudada e a associacao cultural e forte, mas o risco vale para sobreviventes de qualquer trauma.
Sobre o risco de suicidio no transtorno de adaptacao, qual afirmativa e correta?
O transtorno de adaptacao aparece com frequencia elevada entre pessoas atendidas apos tentativas de suicidio, sobretudo jovens em crise aguda, o que desmonta a ideia de que se trata de um diagnostico menor sem risco. A avaliacao ativa de ideacao e plano e obrigatoria em qualquer paciente com sofrimento psiquico, mesmo sem verbalizacao espontanea, ja que a maioria nao aborda o tema se nao for perguntada.
Qual e a conduta correta quanto ao acesso a medicamentos em paciente com transtorno de personalidade borderline e historico de superdosagem?
A restricao de meios e uma das medidas com melhor evidencia de reducao de mortes, e no paciente com historico de superdosagem ela se traduz em dispensacao fracionada, escolha de agentes com melhor perfil de seguranca em superdosagem e supervisao por terceiro. Invocar a autonomia para prescrever livremente engana porque a autonomia e um valor legitimo, mas esta transitoriamente comprometida na crise e a medida e temporaria e pactuada com o paciente.
Qual situação indica internação hospitalar em paciente com risco de suicídio?
A decisão de internar se apoia na combinação entre intensidade e persistência da ideação, existência de plano e de acesso a meios, intenção mantida, sintomas psiquiátricos graves e ausência de rede de suporte capaz de garantir a segurança. Internar todo paciente que relata ideação passiva sobrecarrega o sistema, desincentiva a revelação do sintoma nas consultas seguintes e não reduz risco, sendo esse o excesso que a questão contrapõe à avaliação individualizada.
Sobre a abordagem do risco de suicídio na entrevista clínica, qual afirmativa é correta?
Perguntar de forma direta e empática sobre ideação, planejamento, acesso a meios e tentativas prévias não induz o comportamento e frequentemente alivia o paciente, além de ser a única forma de dimensionar o risco. A crença oposta é o mito que mais impede a avaliação e que a questão pretende desmontar. O risco é dinâmico, o que faz uma única negação não ser suficiente para encerrar o tema, e a avaliação cabe a todo profissional de saúde, não apenas ao especialista.
Sobre o chamado contrato de não suicídio, qual afirmativa é correta?
O contrato de não suicídio não demonstrou reduzir risco e pode gerar falsa sensação de segurança na equipe, além de inibir o paciente de revelar piora por sentir que quebraria um compromisso. A prática recomendada é o plano de segurança, construído em conjunto, identificando sinais de alerta, estratégias de enfrentamento, pessoas e serviços a acionar e medidas de restrição de acesso a meios, com registro cuidadoso e seguimento próximo.
Quais fármacos apresentam evidência específica de redução do comportamento suicida?
O lítio, nos transtornos do humor, e a clozapina, na esquizofrenia, têm evidência específica de redução de comportamento suicida, um efeito que parece ir além do controle sintomático da doença de base. Benzodiazepínicos podem, ao contrário, aumentar impulsividade e desinibição em pacientes vulneráveis, sendo o distrator mais perigoso porque a sedação transmite a impressão de proteção enquanto o risco comportamental pode aumentar.
Paciente atendido na emergência após tentativa de suicídio por ingestão de medicamentos, agora clinicamente estável. Qual conduta compõe o manejo adequado?
O manejo pós-tentativa inclui avaliar a letalidade do método e a intencionalidade, envolver a família na restrição do acesso a meios, elaborar um plano de segurança com sinais de alerta e contatos de emergência e garantir seguimento precoce, já que o período logo após a alta é o de maior risco de nova tentativa. Alta sem plano é a conduta que a estabilidade clínica engana o profissional a adotar, pois o risco psiquiátrico permanece intacto.
Qual é o período de maior risco de nova tentativa de suicídio após uma internação psiquiátrica por esse motivo?
As primeiras semanas após a alta hospitalar concentram um risco desproporcionalmente alto de nova tentativa e de suicídio consumado, o que sustenta recomendações de contato ativo e reavaliação na primeira semana, com transição de cuidado bem articulada. Presumir que a alta marca o fim do risco é o erro que explica desfechos trágicos em pacientes considerados melhorados, e é justamente por isso que a continuidade do cuidado é tratada como intervenção, e não como formalidade.
Adolescente de 16 anos apresenta cortes superficiais repetidos nos antebraços, referindo que o faz para aliviar tensão emocional e negando desejo de morrer. Qual a interpretação correta?
A autolesão sem intenção suicida costuma servir à regulação de estados emocionais intensos, à interrupção de dissociação ou à autopunição, e não deve ser confundida com tentativa de suicídio; ainda assim, é um dos preditores mais robustos de tentativa futura, o que exige avaliação cuidadosa e seguimento. Descartá-la como busca de atenção é o erro mais comum e mais danoso, pois rompe o vínculo e retira o paciente de um cuidado que reduziria justamente esse risco.
Qual é o fator de risco isolado mais fortemente associado a suicídio consumado?
A tentativa prévia é o preditor isolado mais forte de suicídio consumado, seguida de transtornos psiquiátricos, sobretudo depressão, transtorno bipolar, uso de substâncias e esquizofrenia, além de desesperança, isolamento e acesso a meios letais. O sexo feminino é o distrator natural, porque as mulheres tentam mais, mas os homens consumam mais, em razão do uso de métodos mais letais, distinção epidemiológica clássica que a questão explora.
Sobre a diferenciação entre autolesão não suicida e tentativa de suicídio, é correto afirmar que:
A intenção é o eixo que diferencia, mas a separação não autoriza tranquilidade: a autolesão repetida é um dos preditores mais consistentes de tentativa de suicídio subsequente. Julgar intenção pela gravidade da lesão é erro frequente e perigoso, porque adolescentes podem subestimar a letalidade do método escolhido — uma ingestão aparentemente pequena de paracetamol pode ser fatal, e um corte superficial pode acompanhar intenção séria.
Durante a avaliação de adolescente com depressão, sobre perguntar diretamente a respeito de ideação suicida é correto afirmar:
Perguntar diretamente permite identificar sofrimento e necessidade de proteção; não deve ser evitado pelo receio de induzir comportamento suicida. Entretanto, uma resposta isolada, inclusive uma negativa, não estima todo o risco. A avaliação considera intenção, plano, acesso a meios, comportamento prévio, estado mental e suporte. Pode ser feita pelo profissional capacitado que atende o adolescente, sem se restringir ao psiquiatra. Privacidade favorece a entrevista quando apropriada, e familiares ou responsáveis participam das medidas de segurança conforme a situação. Risco atual exige proteção e avaliação urgente.
Adolescente de 16 anos relata, a sós, que pensa em morrer quase todos os dias, já escolheu o método e guardou os comprimidos da avó no quarto. Nega tentativa prévia. A conduta imediata é:
Ideação com plano definido e acesso ao meio é risco alto e exige medidas na mesma consulta: supervisão contínua, restrição de acesso ao método e avaliação especializada imediata. Manter sigilo absoluto nessa situação é o equívoco de maior gravidade, porque o sigilo do adolescente cede quando há risco à vida. Iniciar antidepressivo sem estruturar a segurança não protege nas semanas críticas.
Adolescente de 15 anos é levada ao pronto-socorro por cortes superficiais múltiplos em antebraço. Relata que se corta há 8 meses para aliviar angústia, sem intenção de morrer. A abordagem inicial mais adequada é:
A autolesão sem intenção suicida funciona como regulação de afeto, mas é fator de risco importante para tentativa futura — por isso a avaliação estruturada de risco é obrigatória mesmo quando o adolescente nega intenção de morrer. Repreender aumenta vergonha e reduz a chance de revelação em episódios seguintes. Tratar só a ferida e dar alta perde a única janela de contato com o serviço, que costuma ser justamente o pronto-socorro.
Sobre a avaliação do risco de suicídio em adolescentes, é correto afirmar que:
O mito de que perguntar induz o ato é uma das barreiras mais custosas na prática clínica: perguntar de forma direta e acolhedora alivia o adolescente e permite avaliar letalidade e acesso a meios. Falar sobre a intenção não protege, ao contrário — comunicação de intenção é fator de risco reconhecido. A avaliação inicial é responsabilidade de qualquer médico, e o encaminhamento especializado vem depois, não no lugar dela.
Entre os fatores abaixo, o que mais fortemente prediz suicídio consumado em adolescentes é:
Tentativa prévia é o preditor isolado mais forte, especialmente no primeiro ano após o episódio, e por isso todo adolescente com história de tentativa exige plano de seguimento ativo. Conflito familiar recente e desempenho escolar são estressores frequentes e por isso enganam, mas funcionam como gatilhos e não como o marcador de maior peso. Também pesam muito acesso a meios letais, transtorno mental não tratado e uso de substâncias.
Sobre os fatores de risco para suicídio em adolescentes, é correto afirmar que:
História de tentativa prévia é o fator isolado mais robusto e obriga a vigilância prolongada, especialmente nos meses seguintes ao evento. Os demais fatores se somam e se potencializam, e o uso de substâncias aumenta o risco por desinibição e impulsividade, e não o contrário. Bullying, incluindo o virtual, tem associação bem estabelecida com ideação e tentativa, e é dado que precisa ser ativamente perguntado na consulta.
Sobre as medidas de segurança recomendadas para adolescente com risco de suicídio que receberá alta com acompanhamento ambulatorial, incluem-se:
Restringir acesso a meios letais é uma das intervenções com maior evidência de redução de mortalidade, porque muitas tentativas são impulsivas e a indisponibilidade do meio no momento crítico salva vidas. O plano de segurança escrito, construído com o adolescente, transforma orientação verbal em roteiro utilizável na crise. Isolamento social agrava o quadro, e benzodiazepínico não substitui vigilância nem tratamento da condição de base.
Qual afirmativa sobre o risco de suicídio na depressão com sintomas psicóticos está correta?
A presença de sintomas psicóticos agrava o prognóstico e eleva o risco de suicídio, sobretudo quando há delírios de ruína, culpa e negação niilista, que sustentam a convicção de que a morte é a única saída, e o risco não depende da presença de alucinações de comando. Presumir que o início do antipsicótico anula o risco é perigoso, pois a melhora da lentificação psicomotora pode preceder a remissão do desespero, período de vulnerabilidade conhecido.
Sobre a abordagem do comportamento suicida na comunicação e na mídia, a orientação técnica recomenda:
O efeito de contágio é bem documentado e especialmente relevante em adolescentes, o que fundamenta as recomendações de cobertura responsável: sem detalhar método e local, sem romantizar e sempre com informação sobre onde buscar ajuda. O extremo oposto — silêncio absoluto sobre o tema — também é inadequado, porque abordagens educativas bem conduzidas em escolas aumentam a busca por ajuda em vez de estimular o comportamento.
Sobre a abordagem familiar em adolescentes com autolesão, é correto afirmar que:
O suporte familiar é fator protetor e a família executa medidas de segurança que o adolescente sozinho não sustenta — daí sua inclusão. O que se negocia é o escopo: combina-se com o adolescente o que será compartilhado, preservando espaço de confidencialidade para temas sem risco. Punição aumenta vergonha e ocultamento, e geralmente eleva a frequência e a gravidade do comportamento em vez de reduzi-las.
Adolescente de 15 anos é atendido após tentativa de suicídio por ingestão medicamentosa. Está clinicamente estável. Qual conduta é obrigatória antes de qualquer decisão sobre alta?
A estabilização clínica é apenas metade do atendimento: toda tentativa de suicídio exige avaliação estruturada do risco, com um momento a sós com o adolescente (o que muda substancialmente o que é relatado), pesquisa de plano, letalidade, acesso a meios e suporte familiar, além de encaminhamento garantido e notificação da violência autoprovocada. Alta apenas com exames normais é o erro mais frequente e ocorre justamente porque o paciente parece bem. Termo de compromisso não tem valor preditivo nem substitui plano de segurança.
Qual dos fatores abaixo indica maior risco de suicídio em um adolescente atendido após ingestão medicamentosa?
O que estratifica risco é a intenção real de morrer: planejamento, precaução contra o resgate, escolha de método letal e arrependimento por sobreviver marcam alta letalidade e alto risco de repetição. Ato impulsivo diante de terceiros com pedido imediato de socorro sinaliza menor intenção, o que não dispensa cuidado, mas ocupa outro patamar de risco. Tentativa prévia, transtorno psiquiátrico, uso de substância, acesso a arma de fogo e história familiar de suicídio são os demais fatores maiores.
Mulher de 22 anos é levada pela irmã à Unidade Básica de Saúde após relato de que vem dizendo que a vida não tem sentido. Em consulta reservada, refere humor deprimido há quatro meses, insônia e ideação suicida com plano definido, tendo comprado medicamentos para esse fim na semana anterior. Nega uso de álcool. Está lúcida, sem sintomas psicóticos, e há familiar presente disposto a apoiá-la. Qual é a conduta mais apropriada?
Ideação suicida com plano estruturado e meio já obtido configura risco iminente e exige avaliação em serviço de urgência no mesmo dia, com transporte garantido e sem deixar a pessoa desacompanhada. Iniciar antidepressivo com retorno em trinta dias deixa a paciente desprotegida no período de maior risco. Aguardar exames posterga uma decisão que é clínica. Medidas ambientais isoladas com retorno em uma semana não cobrem o risco imediato descrito.
Gestante de 24 anos, com 18 semanas, comparece à Unidade Básica de Saúde e conta que engravidou após relação com o namorado e que a família a expulsou de casa. Ela está morando com uma amiga, não trabalha e chora durante a consulta, dizendo que não sabe se conseguirá cuidar do bebê e que pensou em desistir de tudo. Nega plano estruturado de autoextermínio, mas relata desânimo constante e insônia há um mês. A pressão arterial é de 108x66 mmHg e o exame obstétrico é normal. A conduta correta é
O sofrimento psíquico com ideação passiva exige avaliação estruturada do risco de suicídio, ativação da rede de atenção psicossocial e da assistência social e seguimento próximo na Atenção Primária, que é responsável pelo cuidado longitudinal em saúde mental. Restringir o atendimento ao pré-natal clínico ignora a principal causa de morbidade materna nesse caso. Prescrever antidepressivo sem plano de seguimento não garante segurança. Internação compulsória exige risco iminente e refratariedade, não se aplicando a quadro sem plano estruturado e com rede possível.
Adolescente de 15 anos é levada à Unidade Básica de Saúde pela mãe, que descobriu cortes superficiais nos antebraços. A jovem relata que se corta há seis meses quando fica muito angustiada, referindo alívio momentâneo, e afirma que não deseja morrer. Nega planejamento suicida, mas relata tristeza frequente, conflitos familiares e episódios de bullying na escola. Ao exame, múltiplas lesões lineares superficiais em diferentes estágios de cicatrização, sem sinais de infecção. Sinais vitais normais e restante do exame sem alterações. A conduta adequada é:
A autolesão não suicida é forma de regulação de sofrimento e, embora distinta da tentativa de suicídio, constitui fator de risco importante para comportamento suicida futuro; a conduta é acolhimento sem julgamento, avaliação estruturada do risco, tratamento das condições associadas, articulação com a rede de atenção psicossocial e com a escola, além de notificação da violência autoprovocada. Punir e vigiar aumenta a vergonha e o segredo, agravando o comportamento. Minimizar como chamar atenção é estigmatizante e perigoso. Internação é reservada a risco iminente e não é regra.
Mulher de 38 anos comparece à Unidade Básica de Saúde referindo insônia e cansaço há três meses. Durante a consulta, menciona que às vezes sente que sua família ficaria melhor sem ela. O médico percebe humor deprimido e retração social crescente. A paciente nega uso de substâncias e não tem antecedentes psiquiátricos registrados. Ao exame, encontra-se lentificada, com discurso coerente, sem sintomas psicóticos e sinais vitais normais. O profissional considera como abordar o tema sem causar dano. A conduta correta é:
Perguntar de forma direta e acolhedora sobre ideação, plano, meios e intenção é conduta recomendada e não aumenta o risco; ao contrário, alivia o paciente e permite estratificar o risco e definir o plano de cuidado, incluindo restrição de acesso a meios e envolvimento de pessoas de confiança. O mito de que falar induz o ato é uma das principais barreiras à prevenção. Encaminhar sem avaliar deixa o intervalo até a consulta especializada sem qualquer proteção. Tratar apenas a insônia e adiar três meses ignora sinais de depressão com ideação passiva de morte.
Homem de 78 anos, viúvo há um ano, mora sozinho e é acompanhado na Unidade Básica de Saúde por hipertensão e dor crônica. Nas últimas consultas, a equipe notou emagrecimento, isolamento social crescente e frases como não tenho mais o que fazer aqui. Ele tem espingarda de caça em casa, faz uso diário de álcool e teve uma tentativa de suicídio na juventude. Ao exame, humor deprimido, discurso coerente, sem sintomas psicóticos e sinais vitais estáveis. A conduta prioritária é:
Idoso do sexo masculino, viúvo, isolado, com dor crônica, uso de álcool, tentativa prévia e acesso a arma de fogo reúne múltiplos fatores de risco de suicídio, faixa etária com maior letalidade das tentativas; a prioridade é avaliar diretamente o risco, restringir meios letais, tratar a depressão e o uso de álcool e ativar a rede de apoio com seguimento próximo. Otimizar apenas a analgesia e adiar três meses ignora o risco. Exames amplos antes de abordar o risco atrasam a intervenção. Grupo de convivência é útil, mas encerrar o acompanhamento remove justamente a vigilância necessária.
Adolescente de 16 anos é levada ao pronto-socorro pela mãe após ser encontrada chorando no quarto com cortes superficiais no antebraço. Relata ideação suicida persistente há semanas, tem plano estruturado e acesso a medicamentos em casa, além de episódio de tentativa prévia há seis meses. Ao exame: lúcida, colaborativa, com humor deprimido, sem sinais de intoxicação, cortes superficiais sem sangramento ativo. A mãe pede alta imediata, dizendo que vai cuidar dela em casa. Qual é a conduta correta?
Ideação suicida com plano estruturado, acesso a meios e tentativa prévia configura alto risco, exigindo permanência em ambiente seguro, avaliação especializada, restrição de acesso a meios letais e construção de plano de segurança com a família antes de qualquer alta, além da notificação compulsória da violência autoprovocada. Dar alta pela superficialidade das lesões confunde gravidade do ferimento com risco de morte. Postergar a avaliação por dois meses deixa o período de maior risco descoberto. Tratar apenas o ferimento ignora o problema principal.
Homem de 59 anos, com hipertensão e diabetes, comparece à Unidade Básica de Saúde para renovar receitas e relata, ao final da consulta, que se sente um peso para a família, que nada mais lhe dá prazer e que já pensou que seria melhor não acordar. Perdeu o emprego há seis meses. Nega plano estruturado, mas refere ter guardado a caixa de medicamentos 'para o caso de precisar'. Mora sozinho. Ao exame: humor deprimido, discurso lentificado, sem sintomas psicóticos, sem agitação. A conduta imediata mais adequada é:
Diante de ideação suicida com desesperança e acesso a meio potencialmente letal, cabe avaliar o risco de forma direta e explícita, restringir o acesso ao meio, mobilizar a rede de suporte, garantir retorno em intervalo curto e acionar apoio matricial em saúde mental. Evitar o tema é mito prejudicial, pois perguntar sobre suicídio não induz o comportamento e permite intervir. Encaminhar e encerrar o acompanhamento rompe o vínculo, que é fator protetor. Prescrever grande quantidade de benzodiazepínico a paciente com risco entrega justamente um meio letal e não trata a depressão subjacente.
Adolescente de 15 anos é atendida na Unidade Básica de Saúde e, em consulta reservada, revela que se corta nos antebraços há oito meses quando se sente sobrecarregada, referindo alívio momentâneo da angústia. Nega intenção de morrer, mas relata desesperança, brigas familiares frequentes e queda no rendimento escolar. Ao exame: múltiplas cicatrizes lineares superficiais em antebraços, uma lesão recente sem sangramento ativo, humor deprimido, sem sintomas psicóticos, sinais vitais normais. A conduta mais adequada é:
Automutilação é marcador de sofrimento psíquico e de risco aumentado de suicídio, exigindo acolhimento sem julgamento, avaliação direta do risco, envolvimento cuidadoso da família, oferta de cuidado em saúde mental e seguimento próximo, com atenção à segurança. Comunicar a escola e colegas expõe a adolescente e rompe o sigilo sem necessidade. Ansiolítico com retorno em três meses não trata a causa nem garante segurança. Interpretar o comportamento como busca de atenção e orientar a ignorá-lo é estigmatizante e aumenta o risco de agravamento.
Adolescente de 15 anos comparece à Unidade Básica de Saúde acompanhada da mãe para consulta de rotina. Durante o atendimento em separado, relata tristeza persistente há seis meses, perda de interesse em atividades que antes gostava, insônia, queda no rendimento escolar e sentimento de inutilidade. Nega uso de substâncias. Ao ser questionada com cuidado, relata pensamentos de que seria melhor não existir, sem plano estruturado e sem tentativas prévias. Ao exame: humor deprimido, sem sinais de psicose e sem lesões autoprovocadas. Qual é a conduta mais adequada?
Diante de sintomas depressivos com ideação passiva de morte, a conduta é avaliar o risco de forma estruturada, construir plano de segurança, envolver a família com o consentimento da adolescente sempre que possível e articular o cuidado com a rede de saúde mental, mantendo seguimento próximo. Evitar perguntar sobre suicídio é mito prejudicial, pois abordar o tema reduz o risco. Comunicar a escola e a comunidade viola o sigilo. Prescrever benzodiazepínico sem avaliação e sem seguimento é inadequado e potencialmente perigoso.
Uma equipe de saúde da família identifica, no território, um homem de 42 anos com ideação suicida estruturada, com plano definido e acesso a meios, após perda do emprego e término de relacionamento. Refere insônia, desesperança e uso aumentado de álcool nas últimas semanas. Ao exame apresenta afeto deprimido, discurso de desesperança, sem sinais psicóticos e sem intoxicação aguda no momento, com rede familiar presente porém pouco informada sobre a gravidade da situação. A conduta mais adequada é:
Diante de ideação suicida com plano e acesso a meios, a conduta é avaliar o risco de forma direta e acolhedora, construir plano de segurança com restrição de acesso aos meios, envolver a rede de apoio com consentimento e articular atendimento prioritário na rede de atenção psicossocial, com notificação da tentativa quando ocorrida. Evitar perguntar sobre suicídio é mito, pois abordar o tema reduz o risco. Ansiolítico isolado com retorno tardio deixa o paciente desprotegido. Encaminhamento sem articulação frequentemente resulta em perda de seguimento.
Uma adolescente de 15 anos é levada pela mãe à unidade básica de saúde após descoberta de cortes superficiais lineares nos antebraços, feitos há semanas. Em atendimento reservado, ela relata que se corta para aliviar angústia, nega intenção de morrer, mas admite pensamentos de que a vida não vale a pena, e refere conflitos familiares e bullying na escola. Não há plano estruturado nem tentativa prévia. Qual é a conduta mais adequada?
Autolesão em adolescente exige avaliação estruturada do risco de suicídio, construção de plano de segurança com a jovem e a família, notificação da violência autoprovocada, que é compulsória, e articulação intersetorial com escola e rede de atenção psicossocial. Acionar apenas a escola para medidas disciplinares não cuida da adolescente nem reduz o risco. Prescrever antidepressivo sem avaliação de risco e sem seguimento é inseguro. Banalizar como comportamento típico da idade ignora um marcador robusto de risco futuro.
Homem, 77 anos, viúvo há 8 meses, mora sozinho, apresenta dor crônica por osteoartrite e perda auditiva. Nos últimos 2 meses reduziu contatos sociais, doou objetos pessoais e comentou com a filha que não incomodará por muito tempo. PA 138x80 mmHg, FC 72 bpm, T 36,4 °C. Exame: humor deprimido, discurso de desesperança, sem sintomas psicóticos. Faz uso de arma de fogo registrada guardada em casa. Qual a conduta mais adequada?
O idoso do sexo masculino, viúvo, isolado, com dor crônica, perda sensorial, desesperança, doação de pertences e comunicação indireta de intenção reúne múltiplos fatores de risco para suicídio consumado, e a conduta é perguntar diretamente sobre ideação e plano, restringir o acesso a meios letais, sobretudo arma de fogo, iniciar tratamento e garantir seguimento próximo com apoio familiar. A crença de que perguntar induz o ato é mito consolidado e sem respaldo. Ansiolítico com retorno em três meses é vigilância insuficiente em risco elevado. Encaminhar apenas a grupo de convivência não trata a depressão nem reduz o acesso ao meio. Atribuir tudo ao luto normal ignora a desesperança e a preparação para a morte.
Adolescente, 16 anos, é levada pela mãe após esta descobrir cortes superficiais em antebraços. A paciente relata realizar os cortes há 8 meses para aliviar tensão emocional, sem intenção de morrer, com alívio imediato após o ato. Nega ideação suicida atual ou prévia e nega planejamento. PA 106x66 mmHg, FC 76 bpm, T 36,4 °C. Exame: cicatrizes lineares superficiais paralelas, sem lesões profundas ou infectadas. Qual a conduta mais adequada?
A autolesão não suicida é comportamento distinto da tentativa de suicídio, com função de regulação emocional, mas constitui fator de risco importante para suicídio futuro, exigindo avaliação estruturada do risco, identificação e tratamento de comorbidades como depressão e transtornos de personalidade, e encaminhamento para psicoterapia com foco em regulação emocional e habilidades de tolerância ao mal-estar. Rotular como busca de atenção e orientar a ignorar é estigmatizante e perigoso. Internação compulsória não se justifica sem risco iminente. Benzodiazepínico contínuo não trata o comportamento e traz risco de desinibição e dependência. Alta sem seguimento desperdiça a oportunidade de intervenção precoce.
Mulher, 22 anos, é atendida no pronto-socorro após ideação suicida com plano, sem tentativa. Após avaliação, considera-se possível o manejo ambulatorial, com apoio familiar disponível e vínculo terapêutico estabelecido. PA 112x70 mmHg, FC 78 bpm, T 36,4 °C. Exame: humor deprimido, crítica preservada, aceita tratamento e comparece acompanhada da mãe. Qual componente é essencial no plano de segurança?
O plano de segurança é intervenção estruturada que inclui reconhecimento de sinais de alerta, estratégias de enfrentamento, contatos de apoio e serviços a acionar em crise, e tem como componente essencial a restrição do acesso a meios letais, medida com maior evidência populacional de redução da mortalidade por suicídio. Contratos de não suicídio não têm eficácia demonstrada e podem gerar falsa segurança. Prescrever antidepressivo e dar alta sem retorno agendado deixa a paciente desassistida justamente no período de maior risco. Orientar silêncio sobre o tema com a família retira uma rede de proteção fundamental. A internação involuntária não é a única conduta possível quando há crítica preservada, adesão e suporte familiar.
Adulto relata intenção de morrer hoje, plano definido e acesso imediato ao meio escolhido. Não aceita garantir que permanecerá seguro até consulta na semana seguinte. Qual estratégia responde melhor à necessidade apresentada?
Há risco atual que exige proteção e avaliação urgente, sem depender de promessa verbal. Intenção atual, plano e acesso a meios exigem medidas imediatas de segurança, avaliação e definição do ambiente de cuidado. Referência: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/5-action-steps-for-helping-someone-in-emotional-pain
Paciente após tentativa recente mantém intenção suicida e afirma que repetirá a ação ao sair. A família não consegue oferecer supervisão e o acesso a meios permanece. Qual estratégia responde melhor à necessidade apresentada?
Persistência de intenção e falta de ambiente seguro exigem cuidado protetor imediato. Intenção atual, plano e acesso a meios exigem medidas imediatas de segurança, avaliação e definição do ambiente de cuidado. Referência: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/5-action-steps-for-helping-someone-in-emotional-pain
Pessoa em crise despede-se dos familiares, informa plano suicida e possui o meio disponível. A equipe considera qual ação deve preceder seguimento ambulatorial de rotina. Qual estratégia responde melhor à necessidade apresentada?
Segurança e avaliação imediatas têm prioridade diante de intenção e preparação atuais. Intenção atual, plano e acesso a meios exigem medidas imediatas de segurança, avaliação e definição do ambiente de cuidado. Referência: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/5-action-steps-for-helping-someone-in-emotional-pain
Adolescente revela plano suicida atual e acesso a meios, pedindo sigilo absoluto. A equipe identifica risco relevante e precisa envolver proteção e suporte apropriados. Qual estratégia responde melhor à necessidade apresentada?
O cuidado imediato exige segurança e compartilhamento necessário para proteção, explicado ao paciente. Intenção atual, plano e acesso a meios exigem medidas imediatas de segurança, avaliação e definição do ambiente de cuidado. Referência: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/5-action-steps-for-helping-someone-in-emotional-pain
Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.
Criar conta grátis e continuar →Plano de revisão
em 7 dias
Escreva de memória os cinco degraus da escada de risco na ordem e, ao lado de cada um, o ponto de atenção correspondente. Depois, sem consultar, diga qual é o fator isolado mais fortemente associado a suicídio consumado e por que ele é o que mais falta na ficha. Feche dizendo, em uma frase cada, para quem vai a notificação de violência autoprovocada e para quem vai a comunicação de internação involuntária.
em 30 dias
Reconstrua a tabela dos quatro relógios com os quatro instrumentos e o que cada um diz sobre prazo, e explique em voz alta por que o mais recente é o que menos restringe. Em seguida, refaça a conta da repetição de evento pelos dois denominadores e diga qual dos dois o texto do boletim usou. Termine explicando por que a lei coloca a internação como último recurso e, ainda assim, a vinheta de risco alto com meio preparado tem internação como resposta esperada.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Uma mulher de 34 anos entra no consultório da emergência trazida pelo marido, que encontrou um bilhete de despedida em casa. Ela fala pouco, responde ao que é perguntado e diz que há dois meses não dorme bem e não sente vontade de nada. Não há agitação e não há sinais psicóticos. Conduza a entrevista: descubra em que degrau da escada de risco ela está, decida para onde ela vai e diga quais papéis precisam ser preenchidos. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
