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Outras EspecialidadesPsiquiatria

Transtorno bipolar: o sétimo dia e as duas escadas

Transtorno afetivo bipolar e mania

Diagnóstico de mania e caminhos terapêuticos no SUS

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 40 anos, previamente hígida, é levada ao pronto-socorro pelo marido, que relata que há 4 dias ela quase não dorme, fala sem parar, gastou grande quantia comprando itens desnecessários e afirma ter recebido uma 'missão divina' de curar as pessoas. Refere aumento de energia e libido, e apresenta-se irritável quando contrariada. Há um ano teve um episódio de depressão tratado com fluoxetina, iniciada há três semanas por recidiva de sintomas depressivos. Ao exame, mostra-se eufórica, com pressão de discurso, fuga de ideias e humor expansivo. Exame físico, neurológico e laboratorial sem alterações. Considerando o diagnóstico mais provável, a conduta mais adequada em relação à medicação em uso e ao tratamento é:

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Como esse tema cai

A prova de residência cobra o transtorno afetivo bipolar por dois caminhos que quase nunca se cruzam no enunciado. O primeiro é o do diagnóstico: uma vinheta descreve alguém acelerado por alguns dias e pede o nome do quadro. O segundo é o do tratamento: a mesma pessoa já rotulada, e a pergunta é qual droga, em que combinação e por quanto tempo. Os dois caminhos são decididos por contagens — de dias, de sintomas, de níveis de recomendação e de miliequivalentes por litro —, e é por isso que o tema rende tanto: o avaliador não precisa inventar sutileza clínica, basta mudar um número.

O documento que organiza a conduta no Brasil é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I, aprovado pela Portaria nº 315, de 30 de março de 2016. Ele traz os critérios de episódio maníaco e de episódio depressivo maior, dois quadros de níveis de recomendação que reordenam a mesma farmácia conforme o polo, os esquemas de administração com faixas de dose e níveis séricos, e uma tabela de frequência de exames. Ao lado dele, a Rename 2024 diz onde cada um desses fármacos é retirado e quem paga por ele — e essa informação decide questões que parecem clínicas.

Há três eixos de erro neste capítulo, e todos são de fronteira. O primeiro é a fronteira entre mania e hipomania, que são sete dias e quatro dias, com uma exceção que apaga a contagem inteira. O segundo é a fronteira entre os dois polos: a mania se trata preferencialmente com dois fármacos e a depressão bipolar preferencialmente com um, o inverso da intuição de que gravidade pede mais droga. O terceiro é a fronteira do número do lítio — a faixa que trata, o valor a partir do qual a toxicidade sobe e o dia em que a coleta passa a valer alguma coisa.

Fica fora daqui, porque já está escrito. O episódio depressivo unipolar, com seus critérios de contagem, o piso de dose do tricíclico, a latência do inibidor seletivo e o tempo de manutenção, está em 'Transtorno depressivo maior'. A psicose primária e a régua de duração que separa o quadro breve do esquizofreniforme e da esquizofrenia, junto com a clozapina na refratariedade, estão em 'Esquizofrenia e transtornos psicóticos'. As modalidades de internação — voluntária, involuntária e compulsória —, a Lei nº 10.216, de 2001, e a comunicação ao Ministério Público em setenta e duas horas estão em 'Reforma psiquiátrica, CAPS e RAPS'. A intoxicação aguda por lítio, com os critérios de hemodiálise e o motivo pelo qual o carvão ativado é inútil diante de um íon inorgânico, está em 'Intoxicações exógenas agudas e antídotos'. O diabetes insípido nefrogênico do uso prolongado está em 'Doenças da hipófise' e o hipotireoidismo induzido, em 'Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano'. A psicose puerperal e o vínculo do periparto com a bipolaridade estão em 'Depressão pós-parto e blues puerperal'. O valproato e a lamotrigina como antiepiléticos estão em 'Epilepsia e estado de mal epiléptico', a interação da lamotrigina com o estrogênio está em 'Contracepção hormonal combinada', e a erupção grave da lamotrigina está em 'Reações de hipersensibilidade a drogas'. A avaliação do risco de suicídio na porta de emergência está no capítulo com esse nome, no nível de Internato.

Aqui entra o que é do transtorno em si: quantos dias fazem uma mania, o que a virada sob antidepressivo prova, quantas pessoas isso significa no Brasil conforme o critério adotado, como as duas escadas de fármacos se ordenam e por que se ordenam assim, em que balcão cada degrau é retirado, e quais são os relógios do lítio — o da titulação, o da coleta e o da decisão de trocar.

Uma devolução ao capítulo vizinho da depressão, que já ensina a perguntar sobre humor elevado antes de prescrever. O protocolo brasileiro traz, na Nota 1 do item 4.1, a regra que transforma aquela suspeita em diagnóstico fechado: o episódio maníaco que surge durante tratamento antidepressivo, medicamentoso ou por eletroconvulsoterapia, mas que persiste com um nível de sinais e sintomas além do efeito fisiológico desse tratamento, é evidência suficiente para um episódio maníaco e, portanto, para o diagnóstico de bipolar do tipo I. E o protocolo que aquele capítulo invoca sem nomear, ao dizer que o transtorno depressivo não tem documento nacional enquanto o bipolar do tipo I tem, é exatamente este: a Portaria nº 315, de 30 de março de 2016.

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O que muda decisão

O sétimo dia, e a internação que apaga a contagem

O episódio maníaco é definido no item 4.1 do protocolo por quatro critérios que precisam ser atendidos juntos. O critério A pede um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável, somado a aumento anormal e persistente da energia ou da atividade dirigida a objetivos, com duração mínima de uma semana, presente na maior parte do dia e quase todos os dias. O critério B exige pelo menos três dos sete sintomas da lista — autoestima inflada, redução da necessidade de sono, loquacidade, fuga de ideias, distratibilidade, aumento da atividade dirigida a objetivos e envolvimento em atividades com alto potencial de consequências dolorosas —, e quatro se o humor for apenas irritável. O critério C pede prejuízo acentuado, necessidade de hospitalização ou características psicóticas. O critério D exclui substância e condição clínica.

A hipomania não tem quadro próprio no protocolo, mas é o que sobra quando a duração fica em quatro dias e o prejuízo não é acentuado. Entre os dois há três dias de terra de ninguém — o quarto, o quinto e o sexto —, e é neles que o avaliador constrói a vinheta. Um episódio de seis dias com prejuízo moderado é hipomania; o mesmo episódio no sétimo dia é mania.

Só que o próprio critério A traz um parêntese que apaga a contagem inteira: ou qualquer duração, se a hospitalização for necessária. É a frase mais rendosa do item. O paciente que no quarto dia precisa de internação para prevenir dano a si ou a outros tem episódio maníaco, e não hipomaníaco, independentemente de quantos dias correram. A decisão de internar, tomada por razões de segurança, é também um ato diagnóstico — e a vinheta que informa a internação e depois pergunta o diagnóstico está esperando que o aluno conte dias e ignore o parêntese.

O que o sétimo dia compra não são sete dias. A Nota 2 do mesmo item diz que a ocorrência de pelo menos um episódio maníaco na vida define o transtorno bipolar do tipo I, com ou sem episódio depressivo associado. E o item 6 do protocolo exclui expressamente do seu alcance os pacientes com bipolar do tipo II e com bipolar sem outra especificação. Ou seja: o mesmo paciente, no sexto e no sétimo dia do mesmo episódio, muda de lado numa fronteira administrativa que não é clínica. Do lado de fora, um transtorno crônico sem protocolo nacional que o cubra; do lado de dentro, um protocolo cujo item 7.3.1 declara que o tempo de tratamento não pode ser previamente determinado e que manda reavaliação clínica mensal.

A aritmética disso é pouco intuitiva e vale fazer. Uma década de manutenção sob a régua do protocolo custa 120 reavaliações mensais, 20 litemias, 20 dosagens de hormônio tireotrófico, 20 de cálcio sérico e 40 pares de creatinina e ureia. O protocolo situa a idade média de surgimento do transtorno entre 17 e 21 anos; quatro décadas depois de um episódio aos 19, isso são 480 consultas e 80 litemias. Foi o sétimo dia que abriu essa conta.

A virada que não é suspeita: é diagnóstico

A vinheta mais frequente do tema não descreve mania espontânea. Descreve alguém em tratamento de um episódio depressivo que, três ou seis semanas depois de iniciar um inibidor seletivo da recaptação de serotonina, aparece eufórico, irritável, dormindo duas horas sem cansaço e gastando o que não tem. O capítulo da depressão já ensina que isso pode acontecer e que perguntar sobre humor elevado prévio é pré-requisito da prescrição. A pergunta seguinte, que é a da prova, é outra: o que exatamente esse episódio prova?

A Nota 1 do item 4.1 responde. Um episódio maníaco que surge durante tratamento antidepressivo — medicamento ou eletroconvulsoterapia — mas que persiste com um nível de sinais e sintomas além do efeito fisiológico desse tratamento é evidência suficiente para um episódio maníaco e, portanto, para o diagnóstico de bipolar do tipo I. A cláusula que decide é a da persistência. Agitação e insônia que aparecem nos primeiros dias e cedem quando a droga sai são efeito do tratamento; síndrome maníaca completa que se sustenta é doença revelada. O critério D, que exclui o quadro atribuível a substância, não se aplica justamente porque a Nota 1 abre a exceção.

A conduta vem do item 7.1, e tem duas partes na ordem certa. A primeira: antes de tratar, avaliar imediatamente risco de comportamento agressivo, risco de suicídio, grau de discernimento sobre o próprio transtorno e capacidade de aderir; e investigar mania secundária — distúrbio tireoidiano, esclerose múltipla, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, lesões corticais e subcorticais, drogas ilícitas, levodopa, corticosteroides. É por isso que a vinheta bem escrita sempre traz hormônio tireotrófico normal e toxicológico negativo: são as duas portas que o protocolo manda fechar. A segunda parte é uma frase de uma linha: antidepressivos, assim como outros medicamentos que podem estar precipitando sintomas maníacos, devem ser suspensos.

Suspender não é o tratamento — é a condição para que ele funcione. A alternativa que mantém o antidepressivo e acrescenta um antipsicótico está errada por manter o gatilho, mesmo acertando o fármaco novo. A que acrescenta um benzodiazepínico sozinho está errada por sedar sem tratar e por manter o gatilho ao mesmo tempo. E a que aumenta a dose do antidepressivo está errada porque leu a piora como resposta insuficiente, que é a leitura mais natural e a mais cara.

De porcentagem para gente: quem cabe no protocolo

O protocolo reúne quatro estimativas de prevalência que não medem a mesma coisa, e a prova costuma citar uma delas sem dizer qual. A faixa clássica entre culturas é de 0,4% a 1,6% em adultos. Uma meta-análise de 25 estudos, publicada em 2015, indica prevalência ao longo da vida de 1,06% para o tipo I. Um estudo brasileiro conduzido em São Paulo e publicado em 2005 encontrou 0,9% ao longo da vida. E estimativas que incluem o espectro mais amplo do transtorno, feitas nos Estados Unidos e nos Países Baixos, sugerem 4% a 5% da população geral.

Essas porcentagens só ficam comparáveis quando encontram um denominador. O Censo de 2022 conta 203.080.756 residentes no Brasil, dos quais 154.346.198 têm 18 anos ou mais — 76,0% do total. Aplicando cada régua a esse denominador: 0,4% são 617 mil adultos; 0,9%, cerca de 1,39 milhão; 1,06%, cerca de 1,64 milhão; 1,6%, cerca de 2,47 milhões; 4%, cerca de 6,17 milhões; e 5%, cerca de 7,72 milhões.

A amplitude é o achado. Entre a estimativa mais estreita e a mais larga há 7,1 milhões de pessoas de diferença, um fator de 12,5 vezes, e nenhuma delas está errada: elas respondem a perguntas diferentes. A régua estreita conta quem teve mania franca; a larga conta o espectro inteiro, incluindo hipomanias breves e quadros subliminares que o protocolo brasileiro não alcança.

E é exatamente aí que a conta encosta na política. O protocolo contempla apenas o tipo I e diz por quê: a Classificação Estatística Internacional de Doenças não classifica o transtorno da mesma forma que o manual diagnóstico usado para o diagnóstico, e a evidência clínica específica para o tipo II e para os demais transtornos relacionados é menor. O item 6 então exclui do protocolo o tipo II e o quadro sem outra especificação. Tomando 1,06% como a população coberta e 4% como piso do espectro, sobram cerca de 4,5 milhões de adultos com diagnóstico do espectro bipolar fora do alcance desse documento; contra o teto de 5%, sobram cerca de 6,1 milhões.

Para a prova, a leitura operacional é simples: enunciado que diz 'transtorno bipolar' sem qualificar quase sempre fala do tipo I e da régua brasileira; enunciado que traz 4% ou 5% está citando espectro e não está falando da população do protocolo.

Duas escadas, uma farmácia: por que os polos discordam

O protocolo organiza o tratamento em dois quadros de níveis de recomendação, um para cada polo, e a graça do tema está em compará-los. O Quadro 1, da mania, tem duas colunas — estabilizador e antipsicótico — porque a conduta preferencial é a combinação. Nível 1: carbonato de lítio com risperidona. Nível 2: ácido valproico com olanzapina. Nível 3: carbamazepina com haloperidol ou quetiapina. Nível 4: clozapina. O Quadro 2, da depressão bipolar, tem uma coluna só, porque ali a conduta preferencial é a monoterapia. Nível 1: carbonato de lítio. Nível 2: quetiapina. Nível 3: lamotrigina. Nível 4: as associações com fluoxetina.

A justificativa da assimetria é explícita. Na mania, a associação de um estabilizador com um antipsicótico mostrou-se mais eficaz que a monoterapia com estabilizador; a monoterapia fica reservada a contraindicações que dificultem a combinação. Na depressão bipolar, poucos fármacos têm eficácia e tolerabilidade aceitáveis, e apenas três são monoterapias de primeira linha — lítio, lamotrigina e quetiapina. Portanto: no polo mais grave, começa-se com duas drogas; no polo menos agudo, com uma. É o contrário do que o aluno espera.

Comparadas lado a lado, as duas escadas reordenam a mesma farmácia. O lítio é o único que fica no nível 1 nos dois quadros e é também a primeira escolha na manutenção — é o platô do tema, e o protocolo diz por quê: é o medicamento mais bem validado nas duas fases e o único que demonstra redução de suicidalidade e de mortalidade por todas as causas em transtornos de humor. A quetiapina sobe do nível 3 da mania, onde divide o degrau com o haloperidol, para o nível 2 da depressão. A lamotrigina não aparece na mania e é nível 3 na depressão, e a razão está no item 7.3: ela previne apenas recidivas depressivas, sem benefício na prevenção de mania, e por isso deve sempre estar associada a outro agente eficaz contra o polo maníaco durante a manutenção. Risperidona, carbamazepina e clozapina não aparecem no quadro da depressão.

Duas travas fecham as escadas. A clozapina, nível 4 da mania, só pode ser prescrita após a falha de no mínimo duas combinações de estabilizador com antipsicótico — e a mesma exigência vale na manutenção. E o antidepressivo, que na mania é o que se suspende, na depressão bipolar só entra no nível 4, apenas como fluoxetina, sempre em associação com olanzapina, lítio ou ácido valproico, e somente em refratariedade, contraindicação ou intolerância a lítio, quetiapina e lamotrigina. Na manutenção, a orientação é reduzir a dose do antidepressivo após 6 a 8 semanas de remissão e suspender sempre que possível, exceto em quem tem inúmeras recorrências depressivas.

Os prazos completam o quadro e caem tanto quanto os fármacos. O tempo de tratamento da fase aguda é de 8 a 24 semanas nos dois polos. A resposta se avalia em até 2 semanas na mania, com a combinação em dose adequada, antes de trocar de medicamento; e em 4 a 6 semanas na depressão, antes de trocar de fármaco. E, quando a combinação da mania falha, o protocolo manda avaliar qual dos dois trocar, sem exigir que se troquem ambos: falhando lítio com risperidona, é possível trocar a risperidona pela olanzapina mantendo o lítio, ou trocar o lítio pelo ácido valproico mantendo a risperidona.

O balcão muda no meio da receita

A pergunta que separa quem estudou o protocolo de quem estudou o sistema é onde o paciente retira cada comprimido. A Rename 2024 responde por apresentação, e a resposta corta o Quadro 1 ao meio.

No componente básico, financiado e dispensado no âmbito municipal, estão carbonato de lítio 300 mg comprimido, ácido valproico em cápsula, comprimido, solução oral e xarope, carbamazepina em comprimido e suspensão, haloperidol em comprimido, solução oral e solução injetável, e cloridrato de fluoxetina 20 mg. No componente especializado, com fluxo próprio e termo de esclarecimento e responsabilidade, estão risperidona em comprimidos de 1, 2 e 3 mg no grupo 1B, olanzapina de 5 e 10 mg no grupo 1A, hemifumarato de quetiapina de 25, 100, 200 e 300 mg no grupo 1A, clozapina de 25 e 100 mg no grupo 1A, e lamotrigina de 25, 50 e 100 mg no grupo 2.

Os grupos não são decoração: definem quem paga. Grupo 1A são medicamentos de aquisição centralizada pelo Ministério da Saúde, repassados às secretarias estaduais; grupo 1B, financiados pelo Ministério mediante transferência de recursos para aquisição estadual; grupo 2, sob responsabilidade financeira das próprias secretarias estaduais e do Distrito Federal.

Junte isso ao Quadro 1 e aparece o achado. O nível 1 da mania — lítio com risperidona — é uma receita única cujos dois itens vêm de componentes diferentes: um da farmácia da unidade básica, outro da farmácia do componente especializado, com processo próprio. E a escada da depressão bipolar atravessa três regimes de financiamento em três degraus: o nível 1, lítio, é básico e municipal; o nível 2, quetiapina, é federal de compra centralizada; o nível 3, lamotrigina, é grupo 2, pago pelo estado. Descer um degrau de evidência sobe um degrau de complexidade administrativa.

Há ainda um detalhe de apresentação que a Rename registra e que reconcilia com o protocolo em vez de contrariá-lo. Os comprimidos de risperidona listam, entre os documentos norteadores, o protocolo do bipolar do tipo I; a solução oral de 1 mg/mL não lista — para ela, o único norteador é o protocolo do comportamento agressivo no transtorno do espectro do autismo. Não é contradição: o item 7.5 do protocolo do bipolar arrola apenas comprimidos de 1, 2 e 3 mg. A lista de medicamentos essenciais está espelhando a forma farmacêutica que o próprio protocolo previu.

Os relógios do lítio, que não se encontram

O item 7.6 dá o esquema do carbonato de lítio em quatro linhas que precisam ser lidas juntas. Dose inicial de 300 mg/dia, em dose única à noite. Faixa de 300 a 1.800 mg/dia conforme o nível sérico. Incremento de 300 mg a cada 2 dias até chegar a 900 mg. Dose máxima de 1.800 mg/dia. E uma nota: o nível sérico deve ser dosado com uso contínuo de dose estável por pelo menos 5 a 7 dias e com intervalo de 12 horas entre a última administração e a coleta.

Monte o calendário e o problema aparece sozinho. No primeiro dia, 300 mg. No terceiro, 600. No quinto, 900 — a dose-alvo da titulação. A partir do quinto dia começa a contar a estabilidade exigida, de modo que a primeira litemia legítima nasce entre o décimo e o décimo segundo dia. Enquanto isso, o item que manda avaliar a resposta e decidir sobre troca de medicamento dá prazo de até duas semanas, contadas do início.

Sobram de dois a quatro dias entre o dia em que o número pode existir e o dia em que a decisão precisa ser tomada — e isso supondo que o laboratório devolva o resultado no mesmo dia. É por isso que a alínea que exige avaliar a resposta 'com o tratamento combinado em dose adequada' não é retórica: 'dose adequada' é um número, e esse número tem data de nascimento.

Gráfico em degraus da dose de lítio: 300 mg no dia 1, 600 no dia 3 e 900 no dia 5. Um colchete marca a exigência de 5 a 7 dias de dose estável, uma faixa entre os dias 10 e 12 marca a primeira litemia legítima e uma linha no dia 14 marca o prazo de decisão, com folga de 2 a 4 dias.
A titulação só chega a 900 mg no quinto dia e a litemia exige 5 a 7 dias de dose estável: o primeiro número legítimo nasce entre o décimo e o décimo segundo dia, e a decisão de trocar vence no décimo quarto.

A consequência prática é a leitura correta da combinação. Do primeiro ao décimo dia, o paciente maníaco está sob um fármaco cuja faixa terapêutica ninguém ainda mediu. Quem sustenta o controle nesse intervalo é o antipsicótico — e é uma das razões pelas quais o nível 1 da mania é uma dupla, e não o lítio sozinho. A combinação não cobre apenas mais mecanismo: cobre a janela cega da titulação.

Duas coletas erradas derrubam questão. A colhida cedo demais — por exemplo no sexto ou sétimo dia, dois dias depois de alcançar 900 mg — viola a exigência de 5 a 7 dias de dose estável e volta subestimada; trocar o lítio com base nela é trocar por causa de um artefato de coleta. E a colhida no horário errado: como a dose é única à noite e a regra pede 12 horas, a janela é da manhã seguinte. O paciente que tomou o comprimido pela manhã e coletou na manhã seguinte entregou uma amostra de 24 horas, que também vem baixa e pelo mesmo tipo de motivo.

A faixa, a margem e o que fica fora dela

O protocolo fixa o nível sérico terapêutico do lítio em 0,6 a 1,2 mEq/L, faixa única, sem distinguir fase aguda de manutenção nem faixa etária. Acima dela, dois patamares: o risco de toxicidade aumenta consideravelmente acima de 1,5 mEq/L, e a litemia acima de 3,5 mEq/L é potencialmente fatal.

A margem entre tratar e intoxicar é o número que vale memorizar: do teto terapêutico de 1,2 ao limiar de 1,5 há 0,3 mEq/L, isto é, 25% acima do teto. A faixa que trata tem 0,6 de largura; a margem de segurança acima dela tem metade disso. É a definição operacional de janela estreita, e explica por que o protocolo transforma o monitoramento em obrigação e não em recomendação.

Os sintomas de toxicidade listados são perda de equilíbrio, diarreia profusa, vômitos, anorexia, fraqueza, ataxia, visão borrada, zumbido, poliúria, tremor grosseiro, contrações musculares, irritabilidade e agitação; em casos mais graves, sonolência, psicose, desorientação, convulsões, coma e insuficiência renal. Vale separar dois tremores que a vinheta usa para desempatar: o tremor fino está na lista de efeitos adversos comuns e convive com nível terapêutico; o tremor grosseiro está na lista de toxicidade.

O protocolo nomeia os três grupos de fármacos que elevam o nível sérico e manda evitar a associação: diuréticos, inibidores da enzima conversora da angiotensina e anti-inflamatórios não esteroidais — além de qualquer condição que altere a função renal. É por isso que a vinheta clássica sempre traz uma introdução recente de tiazídico, ou de anti-inflamatório para lombalgia, ou uma gastroenterite com desidratação: o gatilho está sempre escrito no enunciado, e reconhecê-lo é metade da resposta.

Os efeitos adversos que não são intoxicação também caem, e três deles devolvem o aluno a capítulos vizinhos: hipotireoidismo, exacerbação de psoríase e acne. Somam-se náusea, vômitos, dor epigástrica, boca seca, gosto metálico, diarreia, ganho de peso, cansaço e cefaleia. As contraindicações absolutas do lítio são insuficiência renal grave, bradicardia sinusal, arritmias ventriculares graves, insuficiência cardíaca congestiva e hipersensibilidade ao fármaco.

O calendário de exames, e a inversão que ele esconde

Antes de qualquer fármaco do protocolo, o item 8 obriga uma avaliação comum: idade, medidas antropométricas com peso, altura, circunferência abdominal e do quadril, três medidas de pressão arterial em datas diferentes, colesterol total e frações, triglicerídeos, glicemia de jejum e hemograma; mais história familiar ou prévia de síndrome neuroléptica maligna quando se vai usar antipsicótico, de suicídio, de obesidade, de hipertensão e de diabetes. Antes do lítio, acrescentam-se hormônio tireotrófico, creatinina e ureia. Antes do ácido valproico, função hepática. Antes da carbamazepina, função hepática com aminotransferases, creatinina, ureia e eletrólitos. Antropometria e pressão se repetem aos 3, 6 e 12 meses.

A Tabela 1 distribui os exames de seguimento em quatro cadências. Para o lítio: creatinina e ureia trimestrais; hormônio tireotrófico, cálcio sérico e litemia semestrais. Para o ácido valproico: hemograma e função hepática trimestrais, nível sérico semestral. Para a carbamazepina: hemograma, função hepática, creatinina, ureia e eletrólitos mensais nos três primeiros meses, nível sérico semestral, e o mesmo painel repetido anualmente. Para a lamotrigina: hemograma e função hepática anuais, e nada além disso. Para os antipsicóticos: glicemia de jejum e perfil lipídico trimestrais no primeiro ano, depois glicemia, perfil lipídico e eletrocardiograma anuais, com prolactina apenas quando houver sintoma compatível — queda de libido, alteração menstrual, impotência ou galactorreia.

A inversão que a tabela esconde: sob lítio, a creatinina é medida com o dobro da frequência da litemia — quatro vezes por ano contra duas. O exame que detecta o dano é pedido mais vezes que o exame que detecta a causa. Faz sentido de vigilância, porque a função renal é o que muda o nível sérico e não o contrário, mas contraria a intuição de quem imagina o nível da droga como o exame mais frequente do esquema.

A clozapina é o degrau que quebra a escala. Ela exige hemograma semanal durante as 18 primeiras semanas e, depois disso, mensal enquanto durar o uso. São 18 hemogramas semanais mais 7 a 8 mensais no restante do primeiro ano: 25 a 26 hemogramas em doze meses, contra o único hemograma anual da lamotrigina. Uma década de clozapina soma cerca de 134 hemogramas; uma década de lamotrigina, 10. Descer do nível 3 ao nível 4 do quadro da mania multiplica a vigilância laboratorial por mais de treze — e é por isso que a trava de duas combinações falhadas antes da clozapina existe.

Gravidez: a escada que o aluno inverte

A associação entre lítio e anomalia de Ebstein é tão repetida que vira reflexo, e o reflexo erra sob esta régua. No item de contraindicações do protocolo, a gravidez aparece entre as contraindicações relativas do lítio, ao lado do hipotireoidismo; as absolutas do lítio são renais e cardíacas.

O ácido valproico é o oposto: gravidez é contraindicação absoluta, e o protocolo escreve o motivo entre parênteses, 'é teratogênico', ao lado de insuficiência hepática grave e doenças do ciclo da ureia. A carbamazepina traz uma formulação mais fina: contraindicação absoluta para mulheres no primeiro trimestre, isto é, um status que muda com o calendário obstétrico. E a lamotrigina fecha a escada por baixo, com absolutas restritas a hipersensibilidade e prejuízo de função hepática, e a linha das relativas registrando que não existem.

A ordem, portanto, é: valproico absoluto sempre, carbamazepina absoluta no primeiro trimestre, lítio apenas relativo, lamotrigina sem relativa alguma. Um enunciado que ofereça 'suspender o lítio imediatamente por gravidez confirmada e substituir por valproato' está invertendo a escada inteira, e é uma inversão que soa plausível.

Duas frases fecham o item e valem como conduta de rotina. A primeira: todo medicamento do protocolo deve ser administrado com cautela em mulheres com potencial de engravidar, e os riscos gestacionais de cada um devem ser discutidos com a paciente — o cuidado não começa no teste positivo. A segunda vem do item 10: as especificidades do cuidado a mulheres em idade fértil são apresentadas pelo próprio protocolo como o exemplo mais claro da necessidade de matriciamento, envolvendo as equipes de pré-natal, justamente pelos efeitos teratogênicos de alguns fármacos e pelo risco elevado de complicações perinatais.

Quem entra, quem sai, e onde o cuidado acontece

Os critérios de inclusão do item 5 começam pelo óbvio — apresentar os critérios diagnósticos do tipo I — e seguem por duas exigências que não são clínicas e que por isso surpreendem. Em paciente sob internação psiquiátrica hospitalar, ou com grave prejuízo funcional que exija institucionalização ou implique perda de autonomia, é necessária a presença de um familiar ou responsável legal. Em paciente cronicamente asilado, é requerida a presença de um funcionário da instituição disponível e capaz de manejar estressores do ambiente de forma contínua. São condições de rede, escritas dentro de um protocolo de medicamento.

Os critérios de exclusão do item 6 são dois. O primeiro é diagnóstico: ficam de fora o tipo II e o quadro sem outra especificação. O segundo é de seguimento: fica de fora quem tem diagnóstico do tipo I somado a impossibilidade de adesão ao tratamento e ao acompanhamento contínuo. Vale ler esse segundo critério ao lado do item 10, que manda o gestor observar as condições de boa adesão apresentadas pelo paciente e por seu familiar ou responsável.

O encaminhamento à emergência psiquiátrica tem lista própria, logo após os critérios diagnósticos: risco de suicídio agudo, agitação psicomotora, auto ou heteroagressividade, risco de exposição moral ou sintomas psicóticos. No controle emergencial da agitação, os antipsicóticos são os medicamentos mais indicados, e o protocolo registra uma preferência que contraria a prática apressada: sempre que possível, oferecer primeiro a via oral, porque a evidência sugere que o medicamento oral pode ser tão eficaz quanto o intramuscular; a injeção é alternativa para quando a via oral não pode ser usada. Em idosos, em instabilidade clínica e em intoxicação por substâncias, doses menores, intervalos maiores e monitoração mais rigorosa dos sinais vitais.

Por fim, o registro. O diagnóstico é clínico e feito pelos critérios do manual diagnóstico, mas o registro segue a Classificação Estatística Internacional de Doenças, nos códigos F31.1 a F31.7 — maníaco sem e com sintomas psicóticos, depressivo leve ou moderado, depressivo grave sem e com sintomas psicóticos, misto e em remissão. São dois sistemas para o mesmo paciente, e o próprio protocolo reconhece que eles não classificam o transtorno da mesma forma. Para a prova, isso significa que a pergunta 'qual o código' e a pergunta 'qual o diagnóstico' são respondidas por documentos diferentes.

O cuidado é compartilhado, e o protocolo nomeia os pontos: atenção básica, núcleos de apoio à saúde da família, centros de atenção psicossocial e serviços hospitalares de referência com leitos de saúde mental, articulados na rede de atenção psicossocial. A atenção básica tem papel declarado como essencial pela identificação precoce e pelo encaminhamento ágil — o que combina com o dado epidemiológico do próprio texto: o transtorno costuma começar por um episódio depressivo, os sintomas depressivos são mais frequentes ao longo do curso que os maníacos, e é para eles que o paciente procura ajuda.

04

Como decidir, do sétimo dia ao balcão da farmácia

A sequência abaixo separa quatro decisões que a prova costuma embaralhar: se o episódio é maníaco, o que fazer com o antidepressivo que estava em curso, qual degrau de qual quadro se aplica, e quando o número do lítio passa a valer. As tabelas trazem os dois quadros lado a lado e o calendário de exames com as cadências corrigidas, porque é ali que o enunciado costuma trocar uma palavra.

  1. 1Conte os dias, mas leia o parêntese antes. Sete dias de humor elevado ou irritável com aumento de energia fazem episódio maníaco; quatro dias sem prejuízo acentuado ficam na hipomania. Se houve necessidade de hospitalização, qualquer duração serve — e a contagem deixa de importar.
  2. 2Confira o número de sintomas do critério B pelo tipo de humor. São três dos sete se o humor está elevado ou expansivo, e quatro se o humor é apenas irritável. Vinheta de paciente só irritado com três sintomas não fecha o critério.
  3. 3Feche as duas portas que o protocolo manda fechar antes de rotular: mania secundária a condição clínica geral — distúrbio tireoidiano, esclerose múltipla, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, lesões corticais e subcorticais — e a substâncias, incluindo drogas ilícitas, levodopa e corticosteroides.
  4. 4Se o quadro surgiu sob antidepressivo, pergunte se ele persiste além do efeito fisiológico do tratamento. Persistindo, isso é evidência suficiente para episódio maníaco e firma o tipo I. E o antidepressivo, assim como qualquer outro medicamento que possa estar precipitando, deve ser suspenso.
  5. 5Um episódio maníaco na vida basta para o tipo I, com ou sem depressão associada. Registre em F31.1 a F31.7 conforme o episódio atual, ainda que o diagnóstico tenha sido feito por outro sistema classificatório.
  6. 6Na mania, trate com combinação: estabilizador mais antipsicótico. Nível 1 é lítio com risperidona. Monoterapia só quando alguma contraindicação dificultar a combinação. Reserve a clozapina para depois da falha de pelo menos duas combinações.
  7. 7Na depressão bipolar, trate preferencialmente em monoterapia. Nível 1 é o lítio; nível 2, quetiapina; nível 3, lamotrigina. A fluoxetina só aparece no nível 4, sempre associada a olanzapina, lítio ou ácido valproico, e apenas em refratariedade, contraindicação ou intolerância aos três de cima.
  8. 8Marque os prazos no calendário: fase aguda de 8 a 24 semanas nos dois polos; avaliar resposta em até 2 semanas na mania e em 4 a 6 semanas na depressão antes de trocar; na manutenção, reduzir a dose do antidepressivo após 6 a 8 semanas de remissão.
  9. 9Ao iniciar o lítio, monte o relógio: 300 mg à noite, incremento de 300 mg a cada 2 dias até 900 mg, dose estável por 5 a 7 dias e coleta 12 horas após a última tomada. A primeira litemia legítima cai entre o décimo e o décimo segundo dia; até lá quem sustenta o controle é o antipsicótico.
  10. 10Leia a litemia contra três marcas: terapêutica de 0,6 a 1,2 mEq/L, risco de toxicidade consideravelmente maior acima de 1,5, e potencialmente fatal acima de 3,5. Procure no enunciado o que subiu o nível: diurético, inibidor da enzima conversora da angiotensina, anti-inflamatório não esteroidal ou perda de função renal.
  11. 11Antes de marcar a alternativa, confira onde a vinheta se passa e de onde vem o fármaco. Lítio, ácido valproico, carbamazepina, haloperidol e fluoxetina são do componente básico; risperidona, olanzapina, quetiapina, clozapina e lamotrigina são do componente especializado, com termo de esclarecimento e responsabilidade.
  12. 12Em mulher com potencial de engravidar, ordene as contraindicações antes de trocar qualquer coisa: ácido valproico é absoluto, carbamazepina é absoluta no primeiro trimestre, lítio é apenas relativo, e a lamotrigina não registra relativas.

A margem que define janela estreita

A faixa terapêutica do lítio no protocolo tem 0,6 mEq/L de largura, de 0,6 a 1,2. A distância entre o teto dessa faixa e o valor a partir do qual o risco de toxicidade aumenta consideravelmente, 1,5, é de apenas 0,3 mEq/L — metade da largura da faixa útil, ou 25% acima do teto. Mais adiante, 3,5 mEq/L é descrito como potencialmente fatal, quase três vezes o teto terapêutico. Toda a arquitetura de monitorização do protocolo existe para administrar esses 0,3.

Um dia de calendário, uma vida de protocolo

O sexto e o sétimo dia do mesmo episódio separam hipomania de mania, e com isso o tipo II do tipo I. O tipo II está entre os critérios de exclusão do protocolo; o tipo I é toda a sua população. Como o tempo de tratamento não pode ser previamente determinado e a reavaliação é mensal, cada década do lado de dentro corresponde a 120 consultas, 20 litemias e 40 pares de creatinina e ureia. E a internação necessária dispensa a contagem: no quarto dia, a decisão de internar já move o paciente de lado.

A receita que atravessa dois balcões

O nível 1 da mania é carbonato de lítio com risperidona. O lítio 300 mg é do componente básico, retirado na rede municipal; a risperidona em comprimido é do componente especializado, grupo 1B, com fluxo e termo próprios. Uma única prescrição, dois sistemas de financiamento. Na depressão bipolar a escada atravessa três: básico no nível 1, grupo 1A de compra centralizada no nível 2, grupo 2 estadual no nível 3.

Os dois quadros de níveis de recomendação, lado a lado, e de onde vem cada fármaco

FármacoMania (Quadro 1)Depressão bipolar (Quadro 2)Componente e grupo (Rename 2024)
carbonato de lítioNível 1 — estabilizadorNível 1 — monoterapiaBásico
risperidonaNível 1 — antipsicóticonão constaEspecializado, grupo 1B
ácido valproicoNível 2 — estabilizadorNível 4, com fluoxetinaBásico
olanzapinaNível 2 — antipsicóticoNível 4, com fluoxetinaEspecializado, grupo 1A
carbamazepinaNível 3 — estabilizadornão constaBásico
haloperidolNível 3 — antipsicóticonão constaBásico
quetiapinaNível 3 — antipsicóticoNível 2 — monoterapiaEspecializado, grupo 1A
lamotriginanão constaNível 3 — monoterapiaEspecializado, grupo 2
clozapinaNível 4, após 2 combinações falhadasnão constaEspecializado, grupo 1A
fluoxetinasuspender se estiver em usoNível 4, sempre associadaBásico

Calendário de exames de seguimento (Tabela 1 do protocolo)

MedicamentoMensalTrimestralSemestralAnual
Lítiocreatinina e ureiahormônio tireotrófico, cálcio sérico, litemia
Ácido valproicohemograma e função hepática (aminotransferases)ácido valproico sérico
Carbamazepinahemograma, função hepática, creatinina, ureia e eletrólitos, nos 3 primeiros mesescarbamazepina séricahemograma, função hepática, creatinina, ureia e eletrólitos
Lamotriginahemograma e função hepática
Antipsicóticosglicemia de jejum e perfil lipídico (primeiro ano)glicemia de jejum, perfil lipídico e eletrocardiograma
Clozapina (regra própria)hemograma mensal após as 18 primeiras semanashemograma semanal nas 18 primeiras semanas de tratamento

Prevalência aplicada ao denominador do Censo de 2022 (154.346.198 adultos com 18 anos ou mais)

Régua adotadaPrevalênciaAdultos no Brasil
Faixa clássica entre culturas, piso0,4%cerca de 617 mil
Estudo brasileiro de São Paulo, 20050,9%cerca de 1,39 milhão
Meta-análise de 25 estudos, 2015 — tipo I1,06%cerca de 1,64 milhão
Faixa clássica entre culturas, teto1,6%cerca de 2,47 milhões
Espectro amplo, piso4%cerca de 6,17 milhões
Espectro amplo, teto5%cerca de 7,72 milhões

O parêntese do critério A é a frase mais cobrada do item: 'ou qualquer duração, se a hospitalização for necessária'. Ele transforma a decisão de internar em ato diagnóstico.

São três sintomas do critério B com humor elevado ou expansivo e quatro se o humor for apenas irritável — a diferença passa despercebida em vinheta de paciente irritado.

O nível sérico do lítio só vale com dose estável por 5 a 7 dias e coleta 12 horas após a última tomada; como a dose é única à noite, a coleta é matinal.

Sob lítio, creatinina e ureia são trimestrais e a litemia é semestral: o exame do dano é pedido com o dobro da frequência do exame da causa.

A lamotrigina previne apenas recidivas depressivas e não tem benefício contra mania; na manutenção, deve estar sempre associada a outro agente eficaz contra o polo maníaco.

Na agitação do paciente maníaco, o protocolo pede que se ofereça primeiro a via oral sempre que possível; a via intramuscular é alternativa para quando a oral não puder ser usada.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é a faixa-alvo do lítio na manutenção

Régua brasileira: faixa única de 0,6 a 1,2

O nível sérico terapêutico é de 0,6 a 1,2 mEq/L, faixa única, sem distinguir tratamento agudo de manutenção nem faixa etária, com risco de toxicidade aumentando consideravelmente acima de 1,5 mEq/L. É essa a faixa que governa a dispensação e o seguimento no sistema público brasileiro.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I, Portaria SAS/MS nº 315/2016, item 7.6 (esquemas de administração) e item 8 (monitorização).

Régua britânica: 0,6 a 0,8, com teto móvel

A orientação do National Institute for Health and Care Excellence é manter a concentração sérica entre 0,6 e 0,8 mmol/L para a maioria, subindo para 0,8 a 1,0 mmol/L em quem já recaiu em uso de lítio ou tem sintomas subliminares com prejuízo funcional. O British National Formulary trabalha com 0,4 a 1,0 mmol/L, preferindo a ponta inferior na manutenção e em idosos. Na prática medida, a mediana observada foi de 0,60 mmol/L, com 19,2% dos resultados abaixo e 6,1% acima da faixa adotada no estudo.

Parfitt C e cols. BMC Psychiatry. 2021;21:37, seções de introdução e discussão, com 46.555 requisições em 3.371 pessoas de três regiões do Reino Unido, 2012 a 2018.

Na prova

As unidades não são o problema: para o lítio, cátion monovalente, 1 mEq/L equivale a 1 mmol/L, e os números são diretamente comparáveis. A divergência é real e mora só na faixa de 1,0 a 1,2 — terapêutica no Brasil, acima do teto nas duas réguas britânicas. Fora dela, as duas concordam: 0,8 é terapêutico em qualquer uma, 2,3 é tóxico em qualquer uma, e 3,1 pede diálise em qualquer uma. Enunciado de prova brasileira que cita faixa terapêutica sem nomear diretriz está usando 0,6 a 1,2; enunciado que menciona uma diretriz internacional pelo nome muda a régua com ela. E nenhuma das duas governa o tipo II no Brasil, que o protocolo nacional exclui do seu alcance.

De quanto em quanto tempo se dosa a litemia na manutenção

Brasil: semestral, com creatinina trimestral

A Tabela 1 do protocolo coloca a litemia na coluna semestral, ao lado do hormônio tireotrófico e do cálcio sérico, e reserva a coluna trimestral para creatinina e ureia. O nível sérico é dosado com dose estável por 5 a 7 dias e 12 horas após a última administração.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I, Portaria SAS/MS nº 315/2016, item 8, Tabela 1, adaptada de Ng e cols., Bipolar Disorders, 2009.

Reino Unido: trimestral no primeiro ano

A orientação britânica é monitorização semanal até estabilizar a linha de base, depois trimestral durante o primeiro ano de tratamento, passando a semestral apenas para menores de 65 anos sem alterações que afetem a concentração. O dado real mostra que nem lá a régua é cumprida: houve pico nítido de reteste em 12 semanas e nenhum pico aos 6 meses, e entre os que estavam com concentração de 0,4 a 0,99 mmol/L, 69,4% dos exames foram pedidos fora da frequência esperada — 36,7% antes de 11 semanas, 22,5% entre 14 e 22 semanas e 10,2% depois de 27 semanas.

Parfitt C e cols. BMC Psychiatry. 2021;21:37, resultados e discussão sobre intervalos de reteste.

Na prova

A régua brasileira começa onde a britânica termina: o que aqui é a cadência de rotina, lá é a cadência do paciente já estabilizado e com menos de 65 anos. Questão brasileira que pergunta periodicidade de exame sob lítio está cobrando a Tabela 1 — creatinina e ureia trimestrais, litemia semestral —, e a alternativa que oferece litemia trimestral costuma ser o distrator escrito na régua estrangeira. Vale reter também que o estudo britânico não mede a régua: mede a distância entre ela e a prática, o que é uma terceira coisa e não serve de gabarito de conduta.

Qual população o número de prevalência está contando

Tipo I estrito: cerca de 1%

Meta-análise de 25 estudos de diferentes países, publicada em 2015, indica prevalência ao longo da vida de 1,06% para o tipo I; o estudo brasileiro conduzido em São Paulo e publicado em 2005 encontrou 0,9% ao longo da vida. Aplicados aos 154.346.198 adultos do Censo de 2022, são cerca de 1,64 milhão e 1,39 milhão de pessoas.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I, item 2, referências 9 e 10; denominador do Censo Demográfico 2022, IBGE, tabela 9514.

Espectro amplo: 4% a 5%

Estimativas que incluem o espectro mais amplo do transtorno, obtidas nos Estados Unidos e nos Países Baixos, sugerem prevalências de 4% a 5% da população geral; a faixa clássica entre culturas fica em 0,4% a 1,6% em adultos. Sobre o mesmo denominador, 4% a 5% são 6,17 a 7,72 milhões de adultos brasileiros.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I, item 2, referências 6, 7 e 8; mesmo denominador do Censo de 2022.

Na prova

As duas posições estão no mesmo documento e não se contradizem: declaram populações diferentes. A distância entre a menor e a maior é de 12,5 vezes, ou cerca de 7,1 milhões de adultos, e quem decide qual vale é o critério que o enunciado adotou. Enunciado que fala em 'transtorno bipolar do tipo I' ou invoca o protocolo brasileiro está na régua de cerca de 1%; enunciado que traz 4% ou 5% está citando espectro e, portanto, uma população que o protocolo nacional expressamente exclui — o que faz do número um dado de saúde pública, não um critério de acesso.

06

Caso resolvido

Mulher de 27 anos, professora, em uso de sertralina 100 mg/dia há sete semanas por episódio depressivo maior iniciado quatro meses antes, com boa adesão. Há nove dias a família nota humor eufórico alternando com irritabilidade, redução do sono para duas horas por noite sem sensação de cansaço, discurso acelerado, três projetos iniciados ao mesmo tempo e gastos que consumiram o salário do mês. Ao exame psíquico, vigil e orientada, logorreica, com fuga de ideias e autoestima inflada, sem alucinações ou delírios. Exame físico e neurológico sem alterações; hormônio tireotrófico de 2,1 microunidades por mililitro, eletrólitos normais, toxicológico de urina negativo. O prejuízo funcional é importante e há indicação de internação. Não faz outro medicamento e não há gravidez.
1. O episódio fecha critério de mania?
Fecha. O critério A pede período distinto de humor elevado, expansivo ou irritável com aumento de energia por no mínimo uma semana: são nove dias. O critério B pede três sintomas com humor elevado e há pelo menos cinco — redução da necessidade de sono, loquacidade, fuga de ideias, autoestima inflada e envolvimento em atividades com alto potencial de consequências dolorosas. O critério C está satisfeito pelo prejuízo acentuado e pela indicação de internação. Repare que o parêntese da hospitalização seria dispensável aqui: a duração já bastava sozinha.
2. O critério D não derruba tudo, já que há antidepressivo em uso?
Não derruba, e é a Nota 1 do item 4.1 que resolve. Um episódio maníaco que surge durante tratamento antidepressivo mas persiste com um nível de sinais e sintomas além do efeito fisiológico desse tratamento é evidência suficiente para episódio maníaco e, portanto, para o diagnóstico do tipo I. Nove dias de síndrome completa e sustentada, com prejuízo e indicação de internação, não são o efeito farmacológico transitório de um inibidor seletivo: são a doença que a droga revelou. Antes de fechar, o item 7.1 exige afastar mania secundária, o que a vinheta já fez com hormônio tireotrófico normal, eletrólitos normais, exame neurológico sem alterações e toxicológico negativo.
3. Qual é o diagnóstico e como ele se registra?
Transtorno afetivo bipolar do tipo I. Pela Nota 2, um único episódio maníaco na vida basta, com ou sem episódio depressivo associado — aqui há os dois. O diagnóstico é feito pelos critérios do manual diagnóstico, mas o registro segue a classificação internacional de doenças: episódio atual maníaco sem sintomas psicóticos corresponde a F31.1. Se houvesse delírio de grandeza ou alucinação, seria F31.2.
4. O que fazer com a sertralina?
Suspender. O item 7.1 determina que antidepressivos, assim como outros medicamentos que possam estar precipitando sintomas maníacos, sejam suspensos. Esse é o primeiro gesto e não é opcional: qualquer conduta que mantenha a sertralina mantém o gatilho, ainda que acrescente o antimaníaco correto por cima.
5. Qual esquema iniciar, e por que dois fármacos?
O nível 1 do Quadro 1: carbonato de lítio como estabilizador e risperidona como antipsicótico. A conduta preferencial na mania é a combinação, que se mostrou mais eficaz que a monoterapia com estabilizador, e a monoterapia fica reservada a contraindicações que dificultem a associação — que não existem aqui. Há um segundo motivo, de calendário: o lítio começa com 300 mg à noite e sobe de 300 em 300 a cada dois dias até 900 mg, e o primeiro nível sérico legítimo só nasce entre o décimo e o décimo segundo dia. Nos primeiros dias, quem sustenta o controle é o antipsicótico.
6. Que exames pedir antes de começar?
O bloco comum do item 8: idade, medidas antropométricas com peso, altura e circunferências abdominal e do quadril, três medidas de pressão arterial em datas diferentes, colesterol total e frações, triglicerídeos, glicemia de jejum e hemograma; mais história familiar ou prévia de síndrome neuroléptica maligna, já que vai entrar antipsicótico, além de suicídio, obesidade, hipertensão e diabetes. Como entra lítio, acrescentam-se hormônio tireotrófico, creatinina e ureia — o hormônio já está na vinheta, os dois renais faltam. E, sendo mulher em idade fértil, o protocolo pede que os riscos gestacionais de cada fármaco sejam discutidos com ela.
7. Quando reavaliar, e o que a reavaliação decide?
A fase aguda dura de 8 a 24 semanas, mas a resposta se avalia em até duas semanas com a combinação em dose adequada, antes de trocar qualquer coisa. Não havendo resposta ou havendo intolerância, troca-se apenas um dos dois: dá para trocar a risperidona pela olanzapina mantendo o lítio, ou o lítio pelo ácido valproico mantendo a risperidona. A clozapina só entra depois de falharem pelo menos duas combinações diferentes de estabilizador com antipsicótico.
8. Onde a família retira os dois comprimidos?
Em dois lugares. O carbonato de lítio 300 mg é do componente básico da assistência farmacêutica, retirado na rede municipal. A risperidona em comprimido é do componente especializado, grupo 1B — financiada pelo Ministério da Saúde mediante repasse para aquisição estadual, com fluxo próprio e termo de esclarecimento e responsabilidade. Avisar isso na alta faz parte da prescrição: é a diferença entre a paciente sair com as duas drogas e sair só com uma.
07

Agora feche você

Homem de 41 anos, com transtorno afetivo bipolar do tipo I diagnosticado aos 22, eutímico há três anos em uso de carbonato de lítio 900 mg à noite, acompanhado na unidade básica. Comparece à consulta de rotina trazendo exames pedidos há dez dias por outro serviço. Conta que iniciou hidroclorotiazida há três semanas para hipertensão, e que na última semana teve dois dias de diarreia com pouca ingestão de líquidos. Refere tremor nas mãos que 'sempre teve', mas que piorou, e diz ter esbarrado em móveis duas vezes. A litemia foi colhida às 15 horas de ontem; o resultado é de 1,6 mEq/L. Creatinina de 1,5 mg/dL, contra 0,9 mg/dL registrada há um ano. Hormônio tireotrófico de 12,4 microunidades por mililitro, com tiroxina livre baixa. Não há febre nem sinais focais.
Passo 1
Diga se a litemia de 1,6 mEq/L pode ser lida como está, justificando pelas duas condições que o protocolo impõe à coleta — e diga em que sentido o horário informado distorce o resultado, para cima ou para baixo, sabendo que a dose é única à noite.
Passo 2
Situe 1,6 mEq/L nas três marcas do protocolo e nomeie, dos sinais descritos na vinheta, quais estão na lista de efeitos adversos comuns e quais estão na lista de sintomas de toxicidade. Separe os dois tremores.
Passo 3
Aponte, entre os três grupos de fármacos que o protocolo manda evitar por elevarem o nível sérico, qual foi introduzido aqui — e diga qual segundo fator, também presente na vinheta, empurra o nível na mesma direção.
Passo 4
O hormônio tireotrófico de 12,4 com tiroxina livre baixa corresponde a qual efeito adverso listado do lítio, e a qual cadência da Tabela 1 esse exame pertence? Diga também com que frequência creatinina e ureia deveriam ter sido dosadas neste paciente e qual das duas cadências é a mais frequente.
Passo 5
Escreva a conduta imediata em três itens, dizendo o que se suspende, o que se corrige e o que se redosa; e explique por que o encaminhamento deste caso não é o mesmo de um paciente em crise maníaca, apesar de os dois envolverem o mesmo fármaco.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Contar os dias e ignorar o parêntese A vinheta traz um homem de 24 anos no quinto dia de humor expansivo, dormindo duas horas, gastando a poupança da família e com certeza de ter sido escolhido para uma missão; informa, quase de passagem, que a equipe indicou internação por risco a si e a terceiros. O aluno conta cinco dias, lembra que mania exige uma semana, e conclui hipomania. O critério A tem um parêntese que resolve o caso: qualquer duração serve se a hospitalização for necessária. É episódio maníaco, e um episódio maníaco na vida basta para o tipo I. O erro que o aluno marca é 'transtorno afetivo bipolar do tipo II, em episódio hipomaníaco' — que ainda por cima exige um episódio depressivo maior associado, e a vinheta pode nem trazer.
  2. 2Tratar a mania com estabilizador sozinho porque o lítio é o padrão-ouro O enunciado descreve mania franca sem uso prévio de medicação e pergunta a conduta farmacológica. Como o protocolo elogia o lítio em três parágrafos — mais bem validado, único a reduzir suicidalidade e mortalidade por todas as causas —, a alternativa 'iniciar carbonato de lítio em monoterapia' parece a resposta que o texto quer. Mas o item 7.1 é explícito: a conduta mais eficaz para a mania é a associação de um estabilizador com um antipsicótico, mais eficaz que a monoterapia com estabilizador, e a monoterapia fica reservada a contraindicações que dificultem a combinação. O erro que o aluno marca é a monoterapia com lítio. Vale a inversão simétrica: na depressão bipolar, a preferência é justamente a monoterapia, e ali a alternativa combinada é que erra.
  3. 3Trocar o lítio por uma litemia colhida cedo demais Paciente internado por mania, lítio iniciado com 300 mg e titulado de 300 em 300 a cada dois dias; no sexto dia, litemia de 0,4 mEq/L, abaixo da faixa terapêutica. A alternativa que sugere trocar o lítio pelo ácido valproico por resposta insuficiente parece disciplinada. Só que a dose-alvo de 900 mg foi alcançada no quinto dia, e o protocolo exige uso contínuo de dose estável por pelo menos 5 a 7 dias antes de dosar: o número do sexto dia não mede o esquema, mede a titulação. O erro que o aluno marca é a troca de fármaco. A conduta é aguardar a coleta válida, que cai entre o décimo e o décimo segundo dia, sem esquecer que a avaliação formal de resposta se faz em até duas semanas com a combinação em dose adequada.
  4. 4Colher a litemia no horário que der A vinheta informa, sem destacar, que o paciente toma o comprimido pela manhã e que o sangue foi colhido no dia seguinte, também pela manhã. A regra é intervalo de 12 horas entre a última administração e a coleta, e o protocolo prescreve dose única à noite — de modo que a coleta correta é matinal para quem toma à noite. Uma amostra de 24 horas volta mais baixa que o real, e quem a lê como subdose aumenta a dose de um fármaco de janela estreita. O erro que o aluno marca é 'aumentar a dose para 1.200 mg/dia'. A conduta é repetir a coleta na janela certa antes de mexer em qualquer coisa.
  5. 5Inverter a escada da gravidez Paciente com bipolar do tipo I estável em lítio descobre gravidez de sete semanas, e o enunciado pede a conduta. A associação entre lítio e anomalia de Ebstein é tão automática que a alternativa 'suspender o lítio e substituir por ácido valproico' soa cuidadosa. Sob a régua do protocolo, ela inverte a escada: a gravidez é contraindicação relativa para o lítio e absoluta para o ácido valproico, que o texto adjetiva de teratogênico; a carbamazepina é absoluta no primeiro trimestre; a lamotrigina não registra contraindicações relativas. O erro que o aluno marca é a troca pelo valproato. O protocolo trata o caso como exemplo de matriciamento com a equipe de pré-natal, e não como decisão isolada de quem prescreve.
  6. 6Prescrever inibidor seletivo isolado na depressão bipolar Homem com tipo I documentado chega em episódio depressivo, e a alternativa oferece sertralina ou fluoxetina em monoterapia, com a justificativa de que o polo atual é depressivo. Duas coisas derrubam: o único antidepressivo do protocolo é a fluoxetina, e ela só aparece no nível 4, sempre associada a olanzapina, lítio ou ácido valproico, e apenas em refratariedade, contraindicação ou intolerância a lítio, quetiapina e lamotrigina. O erro que o aluno marca é a monoterapia antidepressiva. A resposta esperada é o nível 1 do Quadro 2, que é o próprio lítio — e num paciente já em lítio, o degrau seguinte é a quetiapina.
  7. 7Achar que o protocolo cobre todo mundo que tem bipolaridade A vinheta descreve uma mulher com episódios depressivos recorrentes e um episódio hipomaníaco de cinco dias sem prejuízo marcante, e pergunta sobre acesso a quetiapina pelo componente especializado invocando o protocolo do transtorno afetivo bipolar. O quadro é do tipo II, e o item 6 exclui expressamente do protocolo o tipo II e o quadro sem outra especificação; a justificativa declarada é a menor disponibilidade de evidência clínica específica. O erro que o aluno marca é 'sim, pelo protocolo do transtorno afetivo bipolar'. Um segundo critério de exclusão costuma passar batido no mesmo item: também fica de fora quem tem o diagnóstico somado a impossibilidade de adesão ao tratamento e ao acompanhamento contínuo.
  8. 8Ler a agitação como indicação automática de injeção Paciente maníaco agitado, ainda capaz de cooperar, e a alternativa oferece haloperidol intramuscular de imediato. O protocolo é claro na direção contrária: sempre que possível, medicamentos por via oral devem ser oferecidos primeiro, porque a evidência sugere que podem ser tão eficazes quanto os agentes intramusculares, ficando a injeção como alternativa para quando a via oral não puder ser utilizada. O erro que o aluno marca é a via injetável de primeira linha. Em idoso, em instabilidade clínica ou em intoxicação por substâncias, some-se a orientação de doses menores, intervalos maiores e monitoração mais rigorosa dos sinais vitais.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro atual é um episódio maníaco (humor expansivo/irritável, redução da necessidade de sono, pressão de discurso, fuga de ideias, aumento de energia, gastos excessivos, delírio de grandeza) que, associado ao episódio depressivo prévio, define transtorno afetivo bipolar. O uso de antidepressivo (fluoxetina) pode ter precipitado a virada maníaca, devendo ser suspenso e iniciado estabilizador de humor (lítio, valproato) e/ou antipsicótico. Manter ou aumentar a fluoxetina agrava a mania. Psicoterapia isolada é insuficiente para episódio maníaco agudo, que exige tratamento farmacológico.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória oito coisas. Os dois limiares de duração — sete dias para mania, quatro para hipomania — e o parêntese que os apaga. Os números do critério B: três sintomas com humor elevado, quatro se apenas irritável. Os quatro níveis do Quadro 1, em duas colunas, começando por lítio com risperidona. Os quatro níveis do Quadro 2, em coluna única, começando por lítio e terminando nas associações com fluoxetina. As três marcas da litemia: 0,6 a 1,2 terapêutico, acima de 1,5 risco de toxicidade consideravelmente maior, acima de 3,5 potencialmente fatal. As duas condições da coleta: dose estável por 5 a 7 dias e 12 horas da última tomada. As cadências da Tabela 1 para o lítio: creatinina e ureia trimestrais, hormônio tireotrófico, cálcio e litemia semestrais. E os prazos: fase aguda de 8 a 24 semanas, resposta avaliada em até 2 semanas na mania e em 4 a 6 semanas na depressão.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva sete cenários antes de conferir. Homem no quinto dia de humor expansivo que precisa ser internado — diga o diagnóstico e o dispositivo do critério A que o sustenta. Mulher em sertralina há seis semanas que vira e mantém a virada — diga o que a persistência prova e qual é o primeiro gesto farmacológico. Paciente maníaco virgem de tratamento — diga o nível 1 do quadro certo, com as duas drogas, e por que não é uma só. Litemia de 0,4 no sexto dia de titulação — diga por que o número não vale e em que dia ele passa a valer. Paciente com tipo I em lítio que engravida — ordene as quatro contraindicações de gravidez do protocolo, da absoluta à inexistente. Depressão bipolar em paciente já em lítio — diga o degrau seguinte e onde ele é retirado. E mulher com hipomania de cinco dias e depressões recorrentes pedindo quetiapina pelo componente especializado — diga qual item do protocolo responde e o que ele responde. Depois, converta uma prevalência em pessoas: 1,06% sobre 154.346.198 adultos, e diga quantos milhões sobram fora do protocolo se a régua adotada for 4%.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Quatro gestos transformam este capítulo em conduta. O primeiro é de anamnese e vale para todo paciente deprimido antes da primeira receita: pergunte por um período passado de humor elevado com as palavras da família, não com as do manual — se houve uma temporada em que ele dormia pouco e acordava disposto, falava mais que o habitual, começou várias coisas ao mesmo tempo, gastou o que não tinha, e se as pessoas próximas notaram que ele estava 'diferente do normal'. Esse é o dado que o paciente minimiza e o acompanhante entrega. O segundo é com o antidepressivo em curso quando a virada aparece: suspender vem antes de acrescentar, porque manter o gatilho enquanto se trata o efeito é a conduta que perpetua o episódio. O terceiro é com o pedido de exame: escreva no pedido de litemia o horário da última tomada e a data em que a dose foi estabilizada, porque sem esses dois dados o laboratório devolve um número que ninguém consegue interpretar — e um número mal colhido é pior que nenhum, já que aparenta autorizar uma mudança de dose. O quarto é com a receita e a farmácia: antes de entregá-la, diga à família quais itens saem na unidade básica e quais exigem o fluxo do componente especializado, porque a alta de uma mania costuma vir com duas drogas de dois balcões diferentes, e a interrupção do estabilizador por causa da burocracia do segundo é uma das formas mais silenciosas de recaída. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Transtorno afetivo bipolar e mania – Transtorno bipolar: o sétimo dia e as duas escadas — Preparatório para provas | OsceLabs