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Outras EspecialidadesPsiquiatria

Transtornos alimentares: anorexia e bulimia

Critérios atuais, gravidade e diferenças terapêuticas

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 19 anos é levada pelos pais por perda de peso progressiva no último ano. Recusa-se a manter peso adequado, tem medo intenso de engordar, percebe-se 'gorda' apesar de estar visivelmente emagrecida e faz exercícios em excesso. IMC 15 kg/m². Ao exame: PA 84/56 mmHg, FC 44 bpm, T 35,6 °C, lanugo, amenorreia há 5 meses. Além do diagnóstico de anorexia nervosa, qual complicação POTENCIALMENTE FATAL deve ser especialmente vigiada ao se iniciar a renutrição desta paciente?

02

Como esse tema cai

Transtorno alimentar é o diagnóstico psiquiátrico que mais depende do exame físico e do laboratório — e é exatamente por isso que ele cai. A questão raramente pede o nome do quadro: pede o que ainda permite diagnosticar anorexia numa adolescente que menstrua, o que separa bulimia de anorexia purgativa quando a balança marca peso normal, qual o achado de mão e de boca que denuncia o vômito que a paciente nega, e por que a dose de fluoxetina que funciona na bulimia não é a que se usa na depressão.

O capítulo cobre os três quadros que dividem a maior parte das questões — anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar —, o critério de peso onde os dois manuais em vigor discordam, os sinais que o método de compensação deixa no corpo e no sangue, o que decide internação, o tratamento que tem evidência e o que a farmácia do SUS efetivamente entrega.

Três assuntos vizinhos ficam de fora porque já têm endereço próprio. A escolha do inibidor seletivo da recaptação da serotonina e a lógica de subir dose acima da usada na depressão estão no capítulo de transtornos de ansiedade. O manejo do fósforo, do magnésio e do potássio na síndrome de realimentação está no capítulo de distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo, e a realimentação da criança gravemente desnutrida, no capítulo de desnutrição grave na infância. A avaliação de risco de suicídio, que acompanha esses pacientes com frequência alta, está no capítulo de risco de suicídio na emergência.

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O que muda decisão

Três quadros, e o que de fato separa um do outro

A anorexia nervosa é feita de três elementos: restrição da ingesta que leva a peso significativamente baixo para a idade, o sexo, a trajetória de desenvolvimento e a saúde física; medo intenso de ganhar peso ou comportamento persistente que impede o ganho, mesmo já estando com peso baixo; e perturbação do modo como o peso e a forma do corpo são vividos, com influência indevida sobre a autoavaliação ou falta de reconhecimento da gravidade. Dois subtipos, definidos pelos últimos três meses: restritivo, quando o baixo peso vem de dieta, jejum ou exercício, e purgativo, quando há episódios recorrentes de compulsão ou de purgação.

A bulimia nervosa exige episódios recorrentes de compulsão alimentar — comer, num período delimitado, quantidade claramente maior do que a maioria comeria, com sensação de perda de controle — acompanhados de comportamentos compensatórios inapropriados recorrentes: vômito autoinduzido, laxantes, diuréticos, jejum, exercício excessivo. Compulsão e compensação precisam ocorrer, em média, ao menos uma vez por semana durante três meses, e a autoavaliação tem de estar indevidamente influenciada pela forma e pelo peso.

O transtorno de compulsão alimentar tem a compulsão com a mesma frequência mínima e o mesmo sofrimento marcante, mas não tem o comportamento compensatório. É essa ausência que fecha o diagnóstico, e é por ela que a questão costuma ser resolvida. Somam-se características que descrevem o episódio: comer mais rápido que o habitual, comer até se sentir desconfortavelmente cheio, comer grande quantidade sem fome física, comer sozinho por vergonha e sentir culpa ou nojo de si depois.

Há uma hierarquia que a prova adora e que muita gente não usa. Bulimia nervosa não se diagnostica quando o quadro ocorre exclusivamente durante episódios de anorexia nervosa. Ou seja: paciente que come compulsivamente e vomita, mas está com peso significativamente baixo, é anorexia nervosa do tipo purgativo — não bulimia. A bulímica típica tem peso normal ou acima do normal, e é justamente aí que a questão arma a pegadinha, oferecendo 'anorexia nervosa purgativa' como distrator numa paciente com IMC de 23.

Um quarto rótulo aparece com frequência crescente e vale conhecer pelo nome: a anorexia atípica, alocada entre os outros transtornos alimentares especificados. É o quadro que preenche todos os critérios de anorexia nervosa — incluindo perda de peso significativa e o medo — mas em que o peso ainda está dentro ou acima da faixa normal. A perda de peso importa mais que o valor absoluto que ela alcançou.

Uma exclusão histórica precisa ser dita em voz alta: a amenorreia deixou de ser critério de anorexia nervosa. Era exigida no DSM-IV e caiu no DSM-5. A consequência prática é dupla — o diagnóstico passou a alcançar homens, e passou a alcançar a adolescente que continua sangrando porque usa contraceptivo hormonal. Menstruação preservada não afasta nada.

Onde os dois manuais cortam o peso — e onde um deles não corta

Este é o ponto em que os dois sistemas de classificação em vigor se afastam de verdade, e é uma diferença de desenho, não de opinião sobre a doença.

O DSM-5-TR não põe número no critério de peso. O critério A fala em peso significativamente baixo no contexto da idade, do sexo, da trajetória de desenvolvimento e da saúde física. O texto corrido oferece o IMC de 18,5 kg/m² como orientação para adultos, tomado da definição de baixo peso do CDC e da Organização Mundial da Saúde, e o percentil 5 de IMC para idade em crianças e adolescentes — mas registra expressamente que alguém com IMC acima de 18,5 pode ser considerado com peso significativamente baixo se a história clínica ou outra informação fisiológica sustentar esse julgamento. O número é orientação; a decisão é clínica.

A CID-11 faz o contrário: dá um corte estrito. Anorexia nervosa depende de IMC abaixo de 18,5 kg/m² no adulto e de IMC para idade abaixo do percentil 5 na criança e no adolescente, desde que não seja explicado por outra condição de saúde nem por indisponibilidade de alimento. E subdivide o diagnóstico em dois: peso significativamente baixo, com IMC de 14 kg/m² ou mais no adulto (percentil 5 a 0,3 no menor de 18 anos), e peso perigosamente baixo, abaixo de 14 kg/m² no adulto (abaixo do percentil 0,3 no menor de 18 anos).

Qual é o custo de fixar o corte? O Registro Alemão de Anorexia Nervosa dá o tamanho. Entre 469 pacientes do sexo feminino internadas em 16 hospitais psiquiátricos infantojuvenis, com idade média de 15,2 anos, cerca de um décimo das que tinham diagnóstico de anorexia nervosa estava com IMC acima do percentil 5 — ou seja, uma em cada dez pacientes internadas por anorexia nervosa não cumpria a régua de peso que a CID-11 exige e que o DSM-5-TR sugere. Não é ruído: é o tamanho do grupo que a anorexia atípica existe para não perder.

No mesmo registro, o corte de percentil 0,3 da CID-11 dividiu a coorte em duas metades de tamanho equivalente, e os dados de alta mostraram validade limitada dos especificadores de gravidade. Guarde a direção do achado: os cortes organizam o registro e a codificação melhor do que organizam o prognóstico.

Para a prova brasileira importa saber que o registro no SUS é feito em CID — é a CID que aparece na guia, na notificação e na estatística. O manual americano governa o vocabulário dos livros e das questões; a classificação da OMS governa o código.

O corpo denuncia o método que a paciente não conta

Quase ninguém chega dizendo que vomita. O exame físico é que conta, e ele conta por dois caminhos distintos — o da restrição e o da purgação —, que podem coexistir.

A restrição prolongada produz um quadro de economia: bradicardia sinusal, hipotensão e tendência à hipotermia, pele seca, queda de cabelo, lanugo — pelo fino que reaparece no dorso e na face — e hipercarotenemia, aquele tom alaranjado nas palmas e nas plantas com escleras brancas, que é o detalhe que separa de icterícia. Edema de membros inferiores aparece com frequência e é uma armadilha para o cálculo do peso.

A purgação por vômito deixa marcas que a paciente não consegue esconder: o sinal de Russell, calosidade ou escoriação sobre as articulações metacarpofalângicas da mão dominante, feita pelo atrito repetido contra os incisivos; a perimólise, erosão do esmalte na face lingual dos dentes superiores, que o dentista costuma notar antes do médico; a hipertrofia indolor bilateral das parótidas, que dá o contorno arredondado ao ângulo da mandíbula; e petéquias na face ou hemorragia subconjuntival logo depois de um episódio, pela manobra de Valsalva.

O laboratório distingue o método melhor ainda, e é aqui que se ganha a questão difícil. Vômito recorrente perde ácido clorídrico: o resultado é alcalose metabólica hipoclorêmica com hipocalemia. Abuso de laxantes perde bicarbonato pelo trato gastrointestinal: o resultado é acidose metabólica, também com hipocalemia. O potássio baixo é comum aos dois; o que muda o endereço do diagnóstico é o pH e o bicarbonato. Amilase elevada, com predomínio da fração salivar, reforça o vômito.

Completam o quadro da desnutrição: leucopenia, anemia e trombocitopenia por hipoplasia medular, elevação de transaminases, hipoglicemia, colesterol total que paradoxalmente sobe, e o padrão tireoidiano do doente eutireóideo, com T3 baixo e TSH normal ou baixo — que não se trata com levotiroxina.

O eletrocardiograma não é opcional em quem purga. Bradicardia é a regra; o que assusta é o intervalo QT prolongado, empurrado pela hipocalemia e pela hipomagnesemia, porque é ele que fecha a ponte entre o distúrbio eletrolítico e a arritmia.

Três painéis: calosidade sobre as articulações dos dedos no dorso da mão, aumento arredondado das parótidas abaixo das orelhas com petéquias faciais, e corte dos incisivos superiores com o esmalte da face lingual erodido.
Os três achados que denunciam o vômito autoinduzido quando a paciente nega: sinal de Russell no dorso da mão dominante, hipertrofia indolor das parótidas e perimólise — a erosão do esmalte pela face lingual dos dentes superiores, poupando a face externa.

O que decide internação não é o número que você espera

A pergunta que todo mundo faz é qual IMC interna. A diretriz do NICE responde com uma proibição: não usar limiar absoluto de peso nem de IMC para decidir se admite. É uma régua por exclusão, e ela existe porque o valor absoluto é o pior preditor disponível — a paciente que caiu de 62 para 48 quilos em dois meses está em risco maior que a que vive há três anos em 45.

O que entra no lugar do número: a velocidade da perda de peso, os parâmetros de risco médico e a trajetória do estado geral. Bradicardia e prolongamento do intervalo QT são nomeados; o distúrbio hidroeletrolítico, a instabilidade hemodinâmica, a hipoglicemia e a incapacidade de manter ingesta ambulatorialmente compõem o resto.

Isso também significa que a recíproca é verdadeira e cai em prova: IMC normal não afasta gravidade. A paciente com bulimia nervosa e peso preservado que vomita várias vezes ao dia com hipocalemia e QT longo é uma emergência clínica, ainda que nenhuma régua de peso a sinalize.

Realimentar quem estava restringindo tem risco próprio. A diretriz não fixa aqui um protocolo de fósforo: exige que a equipe do serviço que trata esses pacientes seja treinada para reconhecer e manejar a síndrome de realimentação, remetendo à orientação nacional específica. O manejo dos eletrólitos está no capítulo de distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo — o que este capítulo acrescenta é quando lembrar dele: em todo paciente com restrição prolongada que vai voltar a comer.

O tratamento que tem evidência é psicológico, e tem número de sessões

A diretriz do NICE nomeia terapias específicas e diz quantas sessões cada uma tem. Decorar a terapia sem o número perde metade das questões, porque o enunciado costuma testar a duração.

Anorexia nervosa em criança e adolescente: terapia familiar focada em anorexia nervosa (FT-AN), tipicamente 18 a 20 sessões ao longo de um ano. É a primeira linha da faixa etária em que a doença mais incide — e é a resposta esperada quando o enunciado traz uma adolescente e uma família disponível. Se falhar, TCC focada em transtorno alimentar individual ou psicoterapia focada no adolescente (AFP-AN), de 32 a 40 sessões em 12 a 18 meses.

Anorexia nervosa no adulto: três opções de mesma linha — TCC focada em transtorno alimentar individual, até 40 sessões em 40 semanas, com duas sessões por semana nas primeiras duas ou três semanas; MANTRA, o modelo Maudsley, tipicamente 20 sessões, semanais nas primeiras 10; e o manejo clínico especializado de apoio (SSCM), tipicamente 20 ou mais sessões semanais conforme a gravidade. Se as três não servirem, psicoterapia psicodinâmica focal (FPT), até 40 sessões em 40 semanas.

Bulimia nervosa no adulto: começa por autoajuda guiada com sessões breves de apoio — 4 a 9 sessões de 20 minutos ao longo de 16 semanas. Se não funcionar ou não for aceitável, TCC focada em transtorno alimentar individual, até 20 sessões em 20 semanas. Em criança e adolescente, terapia familiar para bulimia (FT-BN), 18 a 20 sessões em 6 meses, com a TCC individual em 18 sessões ao longo de 6 meses como alternativa.

Transtorno de compulsão alimentar: autoajuda guiada com as mesmas 4 a 9 sessões de apoio em 16 semanas; depois, TCC focada em transtorno alimentar em grupo, 16 sessões semanais de 90 minutos ao longo de 4 meses, ou individual, 16 a 20 sessões quando o grupo não estiver disponível.

E a frase que atravessa os três diagnósticos: não oferecer medicamento como tratamento único. Vale para anorexia nervosa, para bulimia nervosa e para o transtorno de compulsão alimentar. Fármaco entra ao lado da psicoterapia, nunca no lugar dela.

Fluoxetina na bulimia: a dose que funcionou foi uma só

A bulimia nervosa é o transtorno alimentar com indicação farmacológica em bula, e a bula é específica ao ponto de resolver questão sozinha.

A dose aprovada é de 60 mg por dia, pela manhã, no adulto. A eficácia foi estabelecida em dois ensaios de 8 semanas e um de 16 semanas, e um ensaio de prevenção de recaída acompanhou por até 52 semanas pacientes do subtipo purgativo que haviam respondido — resposta definida como queda de pelo menos 50% na frequência de vômitos.

O detalhe que decide a alternativa está no desenho desses ensaios: os pacientes receberam doses fixas de 20 mg, 60 mg ou placebo, e apenas a dose de 60 mg foi estatisticamente superior ao placebo na redução da frequência de compulsão e de vômito. Vinte miligramas não bateu placebo. Não é que 60 seja melhor; é que 20 não funcionou. Doses acima de 60 mg/dia não foram sistematicamente estudadas na bulimia.

Duas restrições completam o quadro. A indicação de bulimia não é aprovada para uso em crianças — o que reforça, na faixa pediátrica, a terapia familiar como o que existe. E o efeito sobre o peso é pequeno e não é a razão de prescrever: no ensaio de 16 semanas os pacientes em 60 mg perderam em média 0,45 kg, contra ganho de 0,16 kg no placebo. Insônia apareceu em 33% com 60 mg, contra 13% com placebo, o que é motivo suficiente para dar a dose pela manhã e não à noite.

A lógica de que um transtorno pode exigir dose de inibidor da recaptação de serotonina acima da usada na depressão já foi apresentada no capítulo de transtornos de ansiedade, a propósito do transtorno obsessivo-compulsivo; aqui ela reaparece com um dado mais forte, porque a dose menor foi testada de frente e falhou.

O que a farmácia do SUS entrega — e o que ela não tem

Varrer a Rename 2024 pelo código do fármaco, e não pelo nome comercial, muda a conduta em três pontos.

O que existe e coincide com a evidência. Cloridrato de fluoxetina 20 mg, em cápsula e em comprimido, está no Componente Básico — é o medicamento da farmácia da unidade básica, sem processo. Coincidência afortunada: o único fármaco com indicação em bula para bulimia nervosa é o que está mais perto do paciente. Com uma consequência de apresentação: a Rename só tem a unidade de 20 mg, de modo que a dose que funcionou nos ensaios se prescreve como três unidades ao dia. Quem escreve 'fluoxetina 20 mg/dia' para bulimia está prescrevendo o braço do estudo que não superou o placebo.

O que existe, mas mora em outro endereço. Olanzapina, o antipsicótico mais estudado para ganho ponderal na anorexia nervosa, e topiramato, usado fora de bula na compulsão alimentar, estão no Componente Especializado — e o Componente Especializado dispensa por protocolo clínico e diretriz terapêutica, cada fármaco amarrado ao seu. Nenhum dos dois tem um protocolo de transtorno alimentar para se pendurar. Não é indisponibilidade: é endereço errado, e o pedido cai fora do fluxo antes de chegar à farmácia.

O que simplesmente não está. Lisdexanfetamina não tem nenhuma entrada no elenco — nem no Básico, nem no Estratégico, nem no Especializado. É o único fármaco com aprovação regulatória específica para transtorno de compulsão alimentar do adulto (aprovado nos Estados Unidos em 2015, para quadros moderados a graves) e é exatamente o que o SUS não financia. Régua por exclusão, e das que valem número na prova.

E o que está lá para outra coisa e não pode ser usado aqui. Bupropiona 150 mg de liberação prolongada consta do Componente Estratégico — está no elenco por causa do programa de cessação do tabagismo. É tentadora em quem quer perder peso e é justamente a que não se usa: bupropiona reduz o limiar convulsivo e é contraindicada em quem tem transtorno alimentar com purgação ou com histórico de restrição, população que chega com distúrbio eletrolítico. O medicamento estar na prateleira não é indicação.

Rastreio positivo não é diagnóstico — e a formação é o gargalo

Instrumento de triagem responde a uma pergunta diferente da que o diagnóstico responde, e transtorno alimentar é onde a confusão custa mais caro. Numa revisão sistemática de 33 estudos em universitários brasileiros — 77,5% mulheres, idade média de 21,6 anos —, o Teste de Atitudes Alimentares de 26 itens apontou 14,9% de rastreios positivos (IC 95% 12,8 a 17,2) no corte de 20 pontos, e 13,3% (IC 95% 11,3 a 15,6) no corte de 21. Os autores registram que nenhum dos estudos incluídos usou entrevista estruturada para diagnosticar.

Ou seja: esses 14,9% são a proporção que passou na triagem, não a proporção que tem a doença. A distância entre um número e outro é grande e previsível — atitudes alimentares alteradas são muito mais comuns que transtorno alimentar. Quem lê o resultado de triagem como prevalência infla o problema; quem descarta a triagem por isso perde o caso. O instrumento seleciona quem merece entrevista, e só a entrevista fecha diagnóstico.

Do outro lado do encontro, o Brasil tem um dado desconfortável e específico. Num levantamento com 259 psiquiatras brasileiros, acertaram os critérios diagnósticos 33,21% na anorexia nervosa, 29,73% na bulimia nervosa e 38,22% no transtorno de compulsão alimentar. Na recomendação terapêutica o acerto despencou: 2,7% na anorexia nervosa, contra 20,08% na bulimia e no transtorno de compulsão alimentar.

O mesmo levantamento mostra que 50,97% se declararam confiantes para diagnosticar e 37,07% para tratar, enquanto apenas 8,89% se disseram satisfeitos com a formação recebida. Vale a conta simples: metade se diz confiante para diagnosticar e cerca de um terço acerta os critérios — a confiança declarada corre à frente do acerto medido, e é por isso que este é um tema em que checar o critério escrito vale mais do que confiar na impressão.

04

Da suspeita ao encaminhamento: o caminho, as quatro faixas de gravidade e o que elas não decidem

As quatro faixas de gravidade da anorexia nervosa do DSM-5-TR são calculadas pelo IMC absoluto do adulto (nos menores de 18 anos usam-se os percentis correspondentes) e valem depois de o diagnóstico já estar feito — elas graduam, não diagnosticam. Leia os cards com a advertência da última nota: o próprio manual permite subir a faixa para refletir sintomas, incapacidade funcional e necessidade de supervisão.

  1. 1Suspeitar por comportamento, não por peso: restrição, checagem repetida do corpo, ida ao banheiro logo após as refeições, exercício que não pode ser interrompido, uso de laxante ou diurético
  2. 2Pesar e medir na consulta, calcular o IMC e — em menor de 18 anos — o percentil de IMC para idade; comparar com pesos anteriores para obter a velocidade da perda
  3. 3Perguntar diretamente sobre compulsão e sobre método compensatório, com a frequência semanal e há quanto tempo; sem esse par não se separa bulimia de transtorno de compulsão alimentar
  4. 4Aplicar a hierarquia: se há peso significativamente baixo, o diagnóstico é anorexia nervosa (subtipo purgativo se houver compulsão ou purgação), e não bulimia
  5. 5Examinar procurando o método: dorso da mão, parótidas, esmalte dentário, lanugo, carotenemia, edema; aferir pressão, frequência cardíaca e temperatura
  6. 6Pedir eletrólitos com potássio, gasometria ou bicarbonato, função renal, hemograma, transaminases, glicemia, magnésio e fósforo, e eletrocardiograma em todo paciente que purga
  7. 7Decidir internação pela velocidade da perda e pelo risco médico — bradicardia, QT prolongado, distúrbio eletrolítico —, não por um valor de IMC
  8. 8Iniciar o tratamento psicológico que cabe à idade e ao diagnóstico, e acrescentar fluoxetina 60 mg/dia pela manhã apenas na bulimia nervosa do adulto, nunca como tratamento isolado

Gravidade leve — IMC ≥ 17,0 kg/m²

Faixa mais alta da graduação, imediatamente abaixo da orientação de baixo peso de 18,5 kg/m². Junto com a moderada, concentra a maior parte dos pacientes classificados: de 56,91% a 80,52% das pessoas com anorexia, bulimia e transtorno de compulsão alimentar caem nas duas primeiras faixas.

Gravidade moderada — IMC 16,0 a 16,99 kg/m²

Um ponto de IMC abaixo da faixa leve. A graduação é aritmética e não incorpora nada além do peso: não olha frequência de purgação, não olha comorbidade, não olha o quanto o paciente perdeu para chegar ali.

Gravidade grave — IMC 15,0 a 15,99 kg/m²

Ainda acima do corte de 14 kg/m² com que a CID-11 separa peso significativamente baixo de peso perigosamente baixo. Os dois manuais graduam a anorexia pelo IMC, mas em pontos diferentes da régua.

Gravidade extrema — IMC < 15,0 kg/m²

Faixa aberta para baixo. Dentro dela ainda cabe a distinção da CID-11 em 14 kg/m², e é dela que sai a maior parte dos pacientes com bradicardia, hipotensão e distúrbio eletrolítico — mas nem essa faixa autoriza internar por número: a decisão continua sendo pela velocidade da perda e pelo risco médico.

Anorexia nervosaBulimia nervosaTranstorno de compulsão alimentar
PesoSignificativamente baixo (é o critério)Habitualmente normal ou acimaHabitualmente acima; obesidade é frequente, mas não é critério
Compulsão alimentarSó no subtipo purgativoObrigatória, em média ≥ 1×/semana por 3 mesesObrigatória, em média ≥ 1×/semana por 3 meses
Comportamento compensatórioPresente no subtipo purgativo; ausente no restritivoObrigatório, na mesma frequência da compulsãoAusente — é a ausência que fecha o diagnóstico
Regra de hierarquiaPrevalece: peso baixo com compulsão e purgação é anorexia purgativaNão se diagnostica se ocorrer só durante episódios de anorexia nervosaNão se diagnostica se houver compensação recorrente
Especificador de gravidadeIMC (DSM-5-TR e CID-11, em pontos diferentes da régua)Frequência semanal de comportamentos compensatórios (só no DSM-5)Frequência semanal de episódios de compulsão (só no DSM-5)
Fármaco com indicação em bulaNenhumFluoxetina 60 mg/dia no adultoLisdexanfetamina no adulto (ausente da Rename 2024)

O método deixa assinatura: como distinguir restrição, vômito e laxante

MétodoExame físicoÁcido-base e eletrólitosOutros exames
Restrição alimentarBradicardia, hipotensão, hipotermia, lanugo, hipercarotenemia com escleras brancas, pele seca, queda de cabelo, edemaSem padrão ácido-base próprio; hipoglicemia possívelLeucopenia, anemia, plaquetopenia; transaminases elevadas; T3 baixo com TSH normal ou baixo; colesterol total que pode subir
Vômito autoinduzidoSinal de Russell no dorso da mão dominante, hipertrofia indolor de parótidas, perimólise na face lingual dos incisivos superiores, petéquias faciais e hemorragia subconjuntivalAlcalose metabólica hipoclorêmica com hipocalemia — perde-se ácido clorídricoAmilase elevada com predomínio da fração salivar; eletrocardiograma com QT prolongado
Abuso de laxantesDesidratação, dor abdominal, alternância de hábito intestinal, edema de rebote na suspensãoAcidose metabólica com hipocalemia — perde-se bicarbonato pelo trato gastrointestinalEletrocardiograma com QT prolongado; hipomagnesemia associada
Abuso de diuréticosDesidratação, hipotensão posturalAlcalose metabólica com hipocalemia (padrão semelhante ao do vômito, sem os sinais orais e de mão)Ausência de sinal de Russell e de perimólise ajuda a diferenciar do vômito

Onde cada manual põe o número do peso na anorexia nervosa

DSM-5-TR (2022)CID-11 (OMS)
Corte de peso no critério diagnósticoNão há corte no critério; o texto oferece IMC 18,5 kg/m² como orientação no adulto e percentil 5 de IMC para idade abaixo de 18 anos, e admite diagnosticar acima de 18,5 se a história clínica sustentarCorte estrito: IMC abaixo de 18,5 kg/m² no adulto e IMC para idade abaixo do percentil 5 na criança e no adolescente, desde que não explicado por outra condição nem por indisponibilidade de alimento
Subdivisão por pesoQuatro faixas de gravidade: leve ≥ 17,0; moderada 16,0 a 16,99; grave 15,0 a 15,99; extrema < 15,0 kg/m²Duas categorias: peso significativamente baixo (IMC ≥ 14 no adulto; percentil 5 a 0,3 abaixo de 18 anos) e peso perigosamente baixo (IMC < 14; percentil < 0,3)
Gravidade na bulimia e na compulsão alimentarExiste: frequência semanal de comportamento compensatório na bulimia e de episódios de compulsão no transtorno de compulsão alimentarNão propõe especificador de gravidade por frequência para esses dois quadros
Onde pesa no BrasilGoverna o vocabulário dos livros-texto e dos enunciados de provaGoverna o código que entra na guia, na notificação e na estatística do SUS

Dois números vizinhos e de sentidos diferentes convivem neste capítulo e trocá-los custa a questão: 18,5 kg/m² é a orientação de peso do critério diagnóstico (o que define baixo peso), e 17,0 kg/m² é o teto da faixa de gravidade leve (o que gradua quem já tem o diagnóstico). Um paciente com IMC 17,5 pode ter anorexia nervosa e ser classificado como gravidade leve.

As quatro faixas do DSM-5-TR são a régua oficial, mas a evidência que as sustenta é fraca: numa revisão sistemática de 25 estudos, com até 6 na meta-análise, a maioria dos grupos de gravidade não se distinguiu na psicopatologia alimentar global (tamanho de efeito médio entre 0,02 e 0,5), e de 56,91% a 80,52% dos pacientes caíram nas faixas leve e moderada. Trata-se de resumo de congresso, com a limitação de revisão por pares que isso implica.

Nos menores de 18 anos não se usa IMC absoluto: usam-se os percentis de IMC para idade correspondentes. Esse detalhe explica por que a régua adulta erra na adolescente que ainda está crescendo — e por que cerca de uma em cada dez internadas com diagnóstico de anorexia nervosa no Registro Alemão estava acima do percentil 5.

O DSM-5-TR permite expressamente subir a faixa de gravidade para refletir sintomas clínicos, grau de incapacidade funcional e necessidade de supervisão. A faixa calculada pelo IMC é o piso, não a palavra final.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Se o critério de peso da anorexia nervosa deve ter um corte numérico

Sem corte no critério: o peso significativamente baixo é julgamento clínico (DSM-5-TR)

O critério A não traz número. O IMC de 18,5 kg/m² aparece no texto corrido como orientação para adultos, tomada da definição de baixo peso do CDC e da OMS, e o percentil 5 de IMC para idade em menores de 18 anos — mas o manual registra que peso acima de 18,5 pode ser considerado significativamente baixo se a história clínica ou outra informação fisiológica sustentar. A causa do desenho é de construto: quem perdeu 14 quilos em quatro meses está doente antes de cruzar qualquer linha, e a linha, se fosse critério, deixaria essa pessoa de fora.

DSM-5-TR (2022), conforme reproduzido e conferido por Engelhardt C et al., Eur Child Adolesc Psychiatry. 2021;30(7):1081-1094

Com corte estrito: IMC abaixo de 18,5 no adulto e percentil 5 abaixo de 18 anos (CID-11)

A classificação da OMS fixa o valor e o torna condição do diagnóstico, exigindo apenas que o baixo peso não seja explicado por outra condição de saúde nem por indisponibilidade de alimento. A causa aqui é de endereço de política: a CID é instrumento de codificação e de estatística internacional, e código precisa de limiar reprodutível entre serviços e entre países — é o que permite contar. O preço aparece no Registro Alemão de Anorexia Nervosa: entre 469 internadas, cerca de um décimo das pacientes com anorexia nervosa tinha IMC acima do percentil 5.

CID-11, conforme reproduzido e conferido por Engelhardt C et al., Eur Child Adolesc Psychiatry. 2021;30(7):1081-1094

Na prova

O vocabulário do enunciado denuncia o recorte antes das alternativas. Enunciado que fala em 'peso significativamente baixo', em subtipo restritivo ou purgativo e em faixas de gravidade leve a extrema está no corpo do manual americano. Enunciado que traz código (F50.0, 6B80), que fala em 'peso perigosamente baixo' ou que se ancora em notificação, registro e estatística está no corpo da classificação da OMS. As alternativas também entregam: se uma delas afirma que IMC de 19 exclui o diagnóstico, a questão está testando se o candidato sabe que o manual americano não fecha essa porta; se as opções são só duas categorias de peso em vez de quatro faixas, o recorte é o da OMS. Prova oficial do MEC tende a conduta e a registro do SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Se as quatro faixas de gravidade do DSM-5 servem para decidir tratamento

Servem como escala oficial e são o que a prova cobra (DSM-5-TR)

As faixas existem, têm valores fechados — leve ≥ 17,0; moderada 16,0 a 16,99; grave 15,0 a 15,99; extrema < 15,0 kg/m² — e foram incorporadas até à codificação norte-americana, que abriu um código distinto para cada uma. O próprio manual reconhece o limite ao permitir elevar a faixa para refletir sintomas clínicos, incapacidade funcional e necessidade de supervisão, o que já indica que o IMC sozinho não esgota a gravidade.

DSM-5-TR (2022), com as mesmas quatro faixas replicadas na codificação F50.01 da CID-10-CM

Não discriminam: os grupos não se separam na psicopatologia alimentar (revisão sistemática)

Revisão sistemática de 25 estudos publicados entre 2013 e julho de 2020, com até 6 na meta-análise, encontrou que a maioria dos grupos de gravidade não se distinguiu na psicopatologia alimentar global, com tamanho de efeito médio entre 0,02 e 0,5, e que de 56,91% a 80,52% dos pacientes com anorexia, bulimia e transtorno de compulsão alimentar caíram nas faixas leve e moderada — uma escala em que quatro quintos dos casos ocupam a metade de baixo separa pouco. A causa é de desenho: as faixas foram construídas por consenso a partir de um único eixo, o peso ou a contagem de episódios, e não derivadas de dados de desfecho. Os dados de alta do Registro Alemão vão na mesma direção, mostrando validade limitada dos especificadores. A limitação a registrar é que ambas as fontes são resumos de congresso.

Dang A et al., Eur Psychiatry. 2021;64(Supl. 1):S704; e Engelhardt C et al., Eur Child Adolesc Psychiatry. 2021;30(7):1081-1094

Na prova

Questão que pede o valor da faixa está testando memória da escala e se resolve pelo número. Questão que apresenta duas pacientes com IMC próximos e pergunta qual interna, ou qual tem pior prognóstico, está testando outra coisa — e aí o eixo que o enunciado descreve com detalhe (velocidade da perda, frequência de vômito, alteração eletrocardiográfica, comorbidade psiquiátrica) é o que carrega a resposta, não a faixa. Um distrator que oferece a faixa de gravidade como critério de internação denuncia que a questão quer justamente o contrário.

Tratamento farmacológico do transtorno de compulsão alimentar

Há fármaco com aprovação regulatória específica (agência norte-americana, desde 2015)

A lisdexanfetamina recebeu, em 2015, aprovação para transtorno de compulsão alimentar moderado a grave no adulto — foi o primeiro medicamento a obtê-la para essa indicação, e segue sendo o único com indicação específica em bula. A posição vale para o cenário em que existe acesso ao fármaco e à prescrição de substância sob controle especial.

Aprovação da indicação de transtorno de compulsão alimentar em adultos pela agência regulatória norte-americana, janeiro de 2015

No elenco financiado pelo SUS não há fármaco para esse fim (Rename 2024)

A varredura da Rename 2024 pelo código do fármaco não devolve nenhuma entrada de lisdexanfetamina — nem no Componente Básico, nem no Estratégico, nem no Especializado. Topiramato, usado fora de bula na compulsão alimentar, está no Componente Especializado, cuja dispensação se dá por protocolo clínico e diretriz terapêutica, e não existe protocolo de transtorno alimentar ao qual ele possa ser vinculado. A causa é de disponibilidade e de endereço da incorporação, e ela converge com a recomendação de que medicamento não seja oferecido como tratamento único no transtorno de compulsão alimentar: o que o sistema oferece — autoajuda guiada e terapia cognitivo-comportamental focada em transtorno alimentar, em grupo ou individual — é exatamente o que a diretriz coloca em primeira linha.

Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024), varredura por código ATC; e NICE NG69 (2017, atualizada em 2020)

Na prova

Cenário de unidade básica, de ambulatório do SUS ou qualquer enunciado que mencione dispensação, elenco ou protocolo puxa o corpo brasileiro, e a conduta que sobra é psicoterápica. Cenário de centro especializado, de revisão de estado da arte ou de farmacoterapia comparada admite o fármaco. A alternativa que cita lisdexanfetamina num caso ambientado em unidade básica costuma ser o distrator que testa se o candidato conhece o elenco; a que cita topiramato testa se o candidato sabe que estar na Rename não basta — é preciso haver protocolo que o vincule à indicação.

06

Caso resolvido

Núbia, 16 anos, é levada à unidade básica pela mãe, preocupada porque a filha 'sumiu de tamanho'. Era 58 kg em fevereiro e está com 44 kg em julho; mede 1,64 m. Treina corrida duas vezes ao dia e fica irritada quando alguém sugere pular um treino. Come com a família, mas serve o próprio prato, corta tudo em pedaços pequenos e deixa metade. Diz que está bem, que 'só quer ficar mais definida' e que a mãe exagera. Menstrua todo mês — usa contraceptivo oral combinado desde os 15 anos por acne. Ao exame: pressão 92 x 58 mmHg, frequência cardíaca de 46 bpm, temperatura axilar de 35,6 °C, pele seca, penugem fina no dorso, palmas com tom alaranjado e escleras brancas. Dorso das mãos sem calosidade; parótidas sem aumento; dentes íntegros.
achado
IMC atual de 16,4 kg/m² (44 kg dividido por 1,64 ao quadrado). Mas o número que mais informa é outro: 14 kg perdidos em cerca de cinco meses, quase um quarto do peso inicial. A perda rápida é o dado de risco; o IMC é só o retrato de onde ela parou.
diagnóstico
Anorexia nervosa, tipo restritivo. Estão os três elementos: restrição levando a peso significativamente baixo, comportamento persistente que impede o ganho — o treino que não pode ser interrompido, o prato controlado — e perturbação da autoavaliação com falta de reconhecimento da gravidade. Ausência de sinal de Russell, de hipertrofia parotídea e de erosão dentária afasta a purgação e define o subtipo.
a armadilha que não pegou
Núbia menstrua. Isso não conta contra nada: a amenorreia deixou de ser critério de anorexia nervosa no DSM-5, e neste caso o sangramento é de privação do contraceptivo combinado, que mascararia a amenorreia mesmo se ela existisse. Quem exige amenorreia para diagnosticar está usando um manual aposentado.
gravidade
IMC de 16,4 kg/m² cai na faixa moderada do DSM-5-TR (16,0 a 16,99). Mas ela tem 16 anos — abaixo de 18 anos a graduação usa percentil de IMC para idade, não o valor absoluto. E, de todo modo, a faixa não decide a conduta: o manual permite elevá-la para refletir sintomas e necessidade de supervisão, e a evidência que sustenta a discriminação entre faixas é fraca.
exames
Eletrólitos com potássio e magnésio, fósforo, função renal, glicemia, hemograma, transaminases e eletrocardiograma. A bradicardia de 46 bpm com hipotensão e hipotermia é a tríade da adaptação à restrição — e é o eletrocardiograma que dirá se há prolongamento do QT junto.
internação
A decisão não sai do IMC. Pesam a velocidade da perda — um quarto do peso em cinco meses — e o risco médico: frequência cardíaca de 46 bpm, pressão de 92 x 58 mmHg e temperatura de 35,6 °C. Com essa combinação, a avaliação é hospitalar até que se tenha eletrocardiograma e eletrólitos; se houver QT prolongado ou distúrbio eletrolítico, interna.
tratamento
Terapia familiar focada em anorexia nervosa (FT-AN), tipicamente 18 a 20 sessões ao longo de um ano, é a primeira linha nessa faixa etária, e a mãe presente e preocupada é o recurso que a torna viável. Nenhum fármaco tem indicação em bula para anorexia nervosa, e medicamento não se oferece como tratamento único. Se a realimentação for iniciada em ambiente hospitalar, a equipe precisa estar atenta à síndrome de realimentação desde o primeiro dia.
o que não fazer
Não prescrever levotiroxina se o T3 voltar baixo com TSH normal — é o padrão do doente eutireóideo, e ele se corrige com a recuperação nutricional. Não usar o edema que aparece na renutrição para concluir que houve ganho de peso real.
07

Agora feche você

Cíntia, 24 anos, procura a unidade básica por 'fraqueza e cãibras'. Pesa 63 kg e mede 1,66 m. Conta, depois de um tempo de conversa, que come 'demais' à noite duas ou três vezes por semana, sozinha, até passar mal, e que depois faz alguma coisa para compensar — não diz o quê. Isso acontece há uns oito meses. Ao exame: pressão 104 x 66 mmHg, frequência cardíaca de 92 bpm, mucosas secas, região abaixo das orelhas com aumento simétrico e indolor, dorso da mão direita com calosidade sobre as articulações dos dedos. O dentista a encaminhou no mês passado por desgaste do esmalte na face interna dos dentes da frente. Exames trazidos: potássio 2,8 mEq/L, cloro 92 mEq/L, bicarbonato 34 mEq/L, pH arterial 7,49, amilase total elevada.
achado
IMC de 22,9 kg/m² — peso normal. Sinal de Russell no dorso da mão dominante, hipertrofia indolor bilateral de parótidas e perimólise na face lingual dos incisivos superiores. No laboratório, hipocalemia com alcalose metabólica hipoclorêmica e amilase elevada.
diagnóstico
o método
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Exigir amenorreia para diagnosticar anorexia nervosa Era critério no DSM-IV e caiu no DSM-5. Atrai porque a associação entre anorexia e parada da menstruação é real e está em todo livro antigo. O custo é duplo: exclui homens do diagnóstico e exclui a adolescente que continua sangrando por usar contraceptivo hormonal — que é justamente a paciente que a vinheta usa para testar isso.
  2. 2Chamar de anorexia purgativa a paciente com peso normal que vomita A hierarquia é o contrário do que a intuição sugere. Anorexia nervosa do tipo purgativo exige peso significativamente baixo; sem ele, compulsão mais compensação é bulimia nervosa. Atrai porque a palavra 'purgativo' está no enunciado e puxa o olho para a alternativa que a repete.
  3. 3Usar um valor de IMC como critério de internação A diretriz proíbe expressamente usar limiar absoluto de peso ou de IMC para decidir admissão. Atrai porque um número é mais confortável que um julgamento. O que decide é a velocidade da perda e o risco médico — bradicardia, QT prolongado, distúrbio eletrolítico —, e é por isso que a bulímica de peso normal com potássio de 2,8 pode precisar de hospital enquanto uma paciente de IMC 15 estável não precisa naquele dia.
  4. 4Prescrever fluoxetina 20 mg/dia para bulimia nervosa É a dose da depressão, e ela foi testada de frente nesta doença. Nos ensaios controlados que sustentam a indicação, os pacientes receberam doses fixas de 20 mg, 60 mg ou placebo, e apenas a de 60 mg superou o placebo na redução de compulsão e de vômito. Atrai porque a apresentação disponível é de 20 mg e o hábito de prescrição vem da depressão — mas a Rename só ter a unidade de 20 mg significa três unidades por dia, não uma.
  5. 5Prescrever bupropiona a quem tem transtorno alimentar Tenta porque o paciente quer perder peso, porque a bupropiona tem fama de reduzir apetite e porque ela está na Rename — no Componente Estratégico, por causa do programa de cessação do tabagismo. Mas ela reduz o limiar convulsivo e é contraindicada em quem purga ou restringe, população que chega com distúrbio hidroeletrolítico instalado. Medicamento estar na prateleira não é indicação.
  6. 6Ler resultado de rastreio como prevalência de doença Em universitários brasileiros, 14,9% (IC 95% 12,8 a 17,2) pontuaram acima do corte no Teste de Atitudes Alimentares de 26 itens — e nenhum dos estudos incluídos usou entrevista estruturada para diagnosticar. Atrai porque o número é grande e vem com intervalo de confiança, o que dá cara de prevalência. Triagem seleciona quem merece entrevista; diagnóstico exige a entrevista.
  7. 7Tratar o T3 baixo do paciente desnutrido T3 baixo com TSH normal ou baixo, no paciente com restrição prolongada, é o padrão do doente eutireóideo — uma adaptação à privação energética, não hipotireoidismo. Atrai porque o resultado vem marcado como alterado no laudo. Levotiroxina aqui acelera o catabolismo em quem já está em déficit.
  8. 8Aceitar o peso da consulta sem olhar o edema e a hidratação Edema de membros inferiores é comum tanto na desnutrição quanto na renutrição e no rebote após suspensão de diurético ou laxante. Atrai porque o número da balança subiu e parece boa notícia. O peso que interessa é a tendência ao longo das semanas, lida junto com o exame e com o estado de hidratação.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: na renutrição de paciente gravemente desnutrida, o influxo de glicose desloca fósforo, potássio e magnésio para o intracelular, causando síndrome de realimentação — a hipofosfatemia grave pode gerar arritmias, insuficiência cardíaca e morte; a prevenção exige reintrodução calórica gradual e reposição de eletrólitos/tiamina. Cetoacidose diabética não é a complicação típica da realimentação na anorexia. Encefalopatia hepática por proteína não é o risco central. Não há uso de corticoide que justifique insuficiência adrenal. Rabdomiólise por potássio não é a complicação clássica; o distúrbio-chave é a hipofosfatemia.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Anorexia nervosa: restrição com peso significativamente baixo + medo de ganhar peso ou comportamento que impede o ganho + perturbação da autoavaliação; subtipos restritivo e purgativo. Amenorreia NÃO é mais critério. Bulimia: compulsão + compensação, ambas em média ≥ 1×/semana por 3 meses, peso normal ou acima — e não se diagnostica se ocorrer só durante anorexia. Transtorno de compulsão alimentar: compulsão SEM compensação. Peso no diagnóstico: DSM-5-TR não põe corte (18,5 kg/m² é orientação, percentil 5 abaixo de 18 anos); CID-11 corta em 18,5 no adulto e separa peso perigosamente baixo em 14. Gravidade do DSM-5-TR por IMC: leve ≥ 17,0; moderada 16,0 a 16,99; grave 15,0 a 15,99; extrema < 15,0. Vômito dá alcalose metabólica hipoclorêmica com hipocalemia; laxante dá acidose metabólica com hipocalemia.

em 30 dias

Sinais do vômito: Russell no dorso da mão dominante, parótidas aumentadas e indolores, perimólise na face lingual dos incisivos superiores, amilase salivar alta. Sinais da restrição: bradicardia, hipotensão, hipotermia, lanugo, hipercarotenemia com escleras brancas, leucopenia, transaminases altas, T3 baixo com TSH normal (não tratar). Internação: NÃO usar limiar de peso ou de IMC — decide velocidade da perda e risco médico (bradicardia, QT longo, eletrólitos). Tratamento: anorexia em menor de 18 anos, FT-AN 18 a 20 sessões em 1 ano; anorexia no adulto, TCC-TA até 40 sessões em 40 semanas ou MANTRA 20 ou SSCM 20+; bulimia no adulto, autoajuda guiada 4 a 9 sessões em 16 semanas e depois TCC-TA até 20 sessões; compulsão alimentar, autoajuda guiada e TCC-TA em grupo 16 sessões de 90 min em 4 meses. Nunca medicamento como tratamento único. Fluoxetina 60 mg/dia pela manhã só na bulimia do adulto (20 mg não superou placebo; Rename só tem 20 mg, logo 3 unidades). Lisdexanfetamina não está na Rename 2024. Topiramato e olanzapina no Componente Especializado, sem protocolo de transtorno alimentar. Bupropiona contraindicada em quem purga.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 23 anos chega à unidade básica queixando-se de fraqueza e cãibras nas pernas há duas semanas. Tem peso normal, está com a boca seca e conta, quando perguntada com jeito, que come muito à noite algumas vezes por semana e que 'dá um jeito' depois. O exame das mãos, da face e da boca já responde metade da pergunta; o potássio e a gasometria respondem a outra metade. Conduza a consulta: caracterize a compulsão e o método compensatório com frequência e duração, procure os sinais que denunciam o vômito, peça os exames que estratificam o risco imediato e defina o tratamento — lembrando que o peso normal não afasta gravidade e que a dose do fármaco aqui não é a da depressão. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Transtornos alimentares: anorexia e bulimia — Preparatório para provas | OsceLabs