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Outras EspecialidadesPsiquiatria

Transtornos de ansiedade

Duração dos sintomas, diagnóstico diferencial e manejo na APS

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 26 anos procura atendimento relatando episódios súbitos e recorrentes de intenso medo que atingem o pico em poucos minutos, acompanhados de palpitações, falta de ar, sudorese, tremores, sensação de sufocamento e medo de morrer. Os episódios ocorrem inesperadamente e ela passou a evitar sair de casa com receio de novos ataques. Avaliação cardiológica com ECG e exames normais. Qual é o diagnóstico MAIS provável?

02

Como esse tema cai

Ansiedade é sintoma, não diagnóstico. Ela aparece em quem tem hipertireoidismo, em quem toma corticoide, em quem está em abstinência de álcool e em quem simplesmente vai ser demitido na semana que vem. O trabalho da questão de prova é fazer você atravessar essa camada e chegar a um dos quadros específicos — e cada um deles se identifica por uma pergunta diferente e por um relógio diferente.

Este capítulo trata dos transtornos de ansiedade do adulto e do transtorno obsessivo-compulsivo, que anda com eles nos protocolos brasileiros mesmo tendo saído do grupo nas classificações atuais. O transtorno de estresse pós-traumático é primo próximo, tem protocolo de encaminhamento separado no SUS e aparece aqui só onde ajuda a contrastar.

A régua brasileira é curta e bem definida. O Ministério da Saúde mantém uma Linha de Cuidado dos Transtornos de Ansiedade no adulto, atualizada em 2022, e a rede usa os Protocolos de Regulação Ambulatorial de Psiquiatria Adulto do TelessaúdeRS-UFRGS com a Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul — que nasceram estaduais e viraram referência nacional de quando encaminhar. Não há PCDT de transtorno de ansiedade: quem fixa o que existe na farmácia da UBS é a Rename, e ela é bem mais estreita do que a lista de primeira linha dos protocolos.

Três coisas decidem a maioria das questões: o tempo mínimo de sintoma que cada diagnóstico exige, o que conta como "estratégia terapêutica efetiva" (dose e semanas), e o que caracteriza o caso refratário que sai da atenção primária.

03

O que muda decisão

O que transforma medo em transtorno

Medo é resposta emocional a uma ameaça iminente, real ou percebida. Ansiedade é antecipação de ameaça futura, com tensão muscular, vigilância e comportamento de cautela ou esquiva. Ambos são normais — são o alarme funcionando.

O transtorno começa quando o alarme dispara sem incêndio: a emoção surge sem estímulo externo claro, ou com intensidade, persistência e frequência desproporcionais ao estímulo que existe. E aqui está o critério que o aluno mais esquece porque parece óbvio demais para ser cobrado: é preciso haver sofrimento ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outra área importante da vida. Preocupação intensa que não atrapalha nada e não faz sofrer não fecha diagnóstico nenhum.

Duas exclusões vêm antes de qualquer nome: se os sintomas são explicáveis pelo efeito de uma substância ou por outra condição médica, o diagnóstico de transtorno de ansiedade não se aplica. E duas avaliações vêm junto com o nome, sempre: risco de suicídio e comorbidades psiquiátricas. Depressão e transtorno por uso de substâncias caminham com ansiedade na maioria dos pacientes de UBS, e é a comorbidade que muda o encaminhamento.

Cinco quadros, cinco perguntas

O diagnóstico é clínico e se faz por padrão, não por escala. O caminho mais rápido é perguntar o que a ansiedade tem de forma: ela é constante ou vem em crises? Se vem em crises, elas têm gatilho?

Preocupação excessiva com tudo, difusa, "nervos à flor da pele", sensação de estar no limite: transtorno de ansiedade generalizada. É o único da lista em que o período mínimo de seis meses é exigência formal do critério, e é por isso que a vinheta sempre informa há quanto tempo a paciente está assim.

Crises súbitas, sem motivo aparente, seguidas de medo de ter novas crises: transtorno de pânico. Crises presas a uma situação, pessoa ou objeto específico: fobia específica. Crises ligadas a medo ou constrangimento em situação social, com temor de avaliação: fobia social — na nomenclatura atual, transtorno de ansiedade social. Ansiedade diante de situações das quais seria difícil escapar ou receber auxílio (transporte coletivo, filas, multidões, sair de casa sozinho): agorafobia, que hoje é diagnóstico com vida própria e não mais um apêndice do pânico.

Nas fobias e na agorafobia o medo, a ansiedade ou a esquiva também são persistentes e em geral duram mais de seis meses, mas o corte de seis meses só é exigência estrita no transtorno de ansiedade generalizada.

Um detalhe que muda o rumo da anamnese: história de sintomas ansiosos na infância e de transtorno de ansiedade em familiares não está nos critérios, mas reforça bastante a hipótese. Vale perguntar.

O ataque de pânico não é o transtorno de pânico

Esta é a confusão que mais rende questão. Ataque de pânico é um evento: início súbito de apreensão, medo, horror ou desconforto intenso, que atinge o pico máximo em até dez minutos, com pelo menos quatro de treze sintomas somáticos ou cognitivos — palpitações, sudorese, tremores, falta de ar, sensação de asfixia, dor torácica, náusea, tontura, calafrios ou ondas de calor, parestesias, desrealização ou despersonalização, medo de perder o controle e medo de morrer.

Esse evento não é exclusivo de ninguém. Um paciente com fobia social pode ter um ataque de pânico ao ser chamado para falar em público, e um com fobia específica pode ter um dentro do avião. Ataque de pânico isolado não fecha transtorno de pânico.

O que fecha é o que vem depois: pelo menos um dos ataques tem de ser seguido, por no mínimo um mês, de preocupação persistente com novos ataques ou com as consequências deles, ou de mudança desadaptativa de comportamento relacionada aos ataques — parar de dirigir, não ficar sozinho, abandonar a academia. É o mês de antecipação, e não a crise, que carimba o diagnóstico.

Repare no par de números que a prova adora inverter: o ataque leva até dez minutos para chegar ao pico; o transtorno exige um mês de repercussão.

Antes do rótulo: o que imita ansiedade

O primeiro passo do diagnóstico, no texto do Ministério da Saúde, é excluir que os sintomas venham de outro problema clínico. A lista é longa e tem grupos que se repetem em prova: cardiovascular (síndrome coronariana aguda, arritmia, insuficiência cardíaca), endócrino (hipertireoidismo, hipoglicemia, feocromocitoma, menopausa), pulmonar (DPOC, asma, apneia do sono, embolia pulmonar) e neurológico (epilepsia, demência, enxaqueca). Anemia, delirium e insônia entram no balaio dos "diversos".

Fármacos também produzem o quadro inteiro: corticoides, broncodilatadores, simpaticomiméticos como pseudoefedrina, estimulantes como cafeína e metilfenidato, hormônios tireoidianos, antidepressivos no início do uso. E a retirada de álcool, benzodiazepínicos, sedativos e antidepressivos produz ansiedade tão convincente quanto — no paciente que "ficou muito ansioso depois que parou o remédio", a resposta costuma ser abstinência, não recaída.

Isso não significa pedir uma bateria de exames em todo mundo. A orientação brasileira é explícita ao dizer que história e exame clínico costumam ser suficientes para excluir as condições graves, e nenhum exame complementar é recomendado de rotina. Os exames se pedem pela suspeita levantada na consulta — TSH em quem tem tremor, perda de peso e taquicardia; glicemia em quem tem crises no jejum; eletrocardiograma em quem tem dor torácica e fatores de risco.

Silhueta de tronco humano com tireoide, coração, pulmões e suprarrenal destacados, ligados por linhas finas a um encéfalo estilizado no topo.
Condições clínicas que chegam ao consultório com cara de ansiedade: tireoide, coração, pulmão e suprarrenal disparam o mesmo alarme.

O TOC mudou de endereço

Obsessões são pensamentos intrusivos, recorrentes e angustiantes; compulsões são os rituais de checar, contar, limpar ou organizar que o paciente executa para aliviar a angústia. O transtorno obsessivo-compulsivo é o único do conjunto sem duração mínima de sintomas — não existe "ainda não deu seis meses" no TOC.

A mudança que a prova cobra é de classificação. O TOC foi retirado do capítulo dos transtornos de ansiedade e ganhou grupo próprio, ao lado dos transtornos relacionados, tanto no DSM-5 quanto na CID-11, onde recebeu o código 6B20. Na CID-10, que continua sendo a classificação usada para codificar atendimento e notificação no SUS, ele segue em F42, dentro do bloco dos transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes. Os protocolos brasileiros resolveram a tensão de forma pragmática: o RegulaSUS trata os dois no mesmo protocolo, mas nomeia o TOC à parte no próprio título.

O tratamento é o que mais separa o TOC dos vizinhos. Os inibidores seletivos da recaptação da serotonina continuam sendo primeira linha, mas em doses geralmente altas — mais altas do que as usadas para depressão. A psicoterapia de escolha é a terapia cognitivo-comportamental fundada em exposição e prevenção de resposta, e não a TCC genérica.

Os números da resposta ajudam a calibrar expectativa e a reconhecer distratores exagerados: entre 40% e 65% dos pacientes respondem ao psicofármaco, com redução de 20% a 40% na intensidade dos sintomas, e a taxa de remissão completa apenas com medicamento é baixa, em torno de 10%. Na orientação ao paciente, vale saber que a aflição de não executar o ritual costuma ceder sozinha entre quinze minutos e três horas — é isso que sustenta a instrução de não realizar a compulsão.

O tratamento que cabe na farmácia da UBS

Inibidores seletivos da recaptação da serotonina e inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina são primeira linha farmacológica em todos os transtornos de ansiedade e no TOC. Terapia cognitivo-comportamental é primeira linha não farmacológica — e é o tratamento de escolha isolado na fobia específica, onde a exposição resolve e o remédio só entra se a terapia não estiver disponível.

A regra de início é sempre a mesma: dose baixa, aumento gradual. Não é preciosismo. O antidepressivo piora a ansiedade nas primeiras doses, e o paciente que não foi avisado disso abandona o tratamento na primeira semana — por isso a psicoeducação sobre esse efeito é parte do tratamento, não conversa fiada.

O efeito começa a aparecer depois de cerca de duas semanas e pode levar até oito para se instalar. Segunda linha, no protocolo brasileiro, é a clomipramina: início com 25 mg, doses médias de 100 a 250 mg e máxima de 250 mg.

Aí entra o descompasso mais útil deste capítulo. O protocolo do RegulaSUS lista como primeira linha fluoxetina, paroxetina, sertralina, citalopram, escitalopram e venlafaxina, dizendo escolher por efetividade, tolerabilidade, custo e disponibilidade na atenção primária. Mas na Rename 2024, entre todos esses, o Componente Básico tem apenas a fluoxetina, 20 mg em cápsula e em comprimido. Sertralina, paroxetina, citalopram, escitalopram, fluvoxamina e venlafaxina não estão na lista nacional. O que sobra de psicofármaco no Componente Básico, além da fluoxetina, é o time dos tricíclicos — amitriptilina 25 e 75 mg, clomipramina 10 e 25 mg, nortriptilina de 10 a 75 mg — mais diazepam 5 e 10 mg e clonazepam apenas na solução oral de 2,5 mg/mL.

Na prática isso significa que o esquema padrão de uma UBS que só dispõe da lista nacional é fluoxetina 20 mg/dia como primeira linha e clomipramina como segunda, com a ressalva de que estados e municípios podem ampliar a lista por conta própria — e muitos ampliam, o que explica a sertralina existir em algumas redes e não em outras.

O benzodiazepínico tem lugar delimitado: quadros de ansiedade muito intensa, ou associado ao antidepressivo durante o período de latência dele, em torno de até três semanas. Não é tratamento de manutenção, e o próprio documento brasileiro registra a dependência do uso prolongado como o motivo. Antidepressivo não causa dependência; benzodiazepínico causa — e essa frase precisa ser dita ao paciente na consulta de início.

O relógio que decide a conduta

Quase toda questão de conduta nesse tema é uma questão de calendário. Vale decorar os quatro marcos.

Oito semanas é o que define uma tentativa. Estratégia terapêutica efetiva, no protocolo brasileiro, é monoterapia em dose efetiva média — no mínimo — por pelo menos oito semanas. Trocar de remédio na terceira semana porque "não melhorou" não conta como tentativa e é erro clássico de vinheta.

Se houve resposta parcial ao fim das oito semanas, associam-se duas intervenções: ISRS com TCC, ou ISRS com clomipramina. Se não houve resposta nenhuma, troca-se por outro fármaco de primeira linha ou pela clomipramina, por mais oito semanas.

Duas estratégias efetivas sem resposta, ou com resposta apenas parcial, é a definição de transtorno de ansiedade refratário — e refratário é indicação de encaminhamento ao serviço especializado em saúde mental. A outra indicação de encaminhamento é ideação suicida persistente que não melhora doze semanas depois de iniciado o manejo na atenção primária.

Depois que o paciente remite, o tratamento não para. A orientação nacional é manter o psicofármaco por, no mínimo, um ano após a remissão dos sintomas, e a Linha de Cuidado do Ministério da Saúde estende esse mínimo para a faixa de um a dois anos. Este capítulo adota doze meses após a remissão como o piso a ser respeitado em qualquer caso, porque é o número em que os dois documentos brasileiros coincidem; abaixo disso, o risco de recaída é o argumento contra. A retirada, no fim, é gradual — suspensão abrupta produz sintomas de descontinuação que o paciente e o médico desavisados leem como recaída.

O ritmo das consultas também está definido: reconsulta na semana seguinte ao início do fármaco, para adesão e efeitos adversos; reavaliação na quarta semana; consultas mensais se houve remissão; e, a partir do quarto mês estabilizado, a cada dois meses. Exercício físico de pelo menos 150 minutos por semana entra como parte do plano, não como conselho solto.

A crise no pronto-atendimento

O paciente que chega ao pronto-atendimento com taquicardia, dor torácica, falta de ar e sensação de morte iminente exige dois julgamentos simultâneos: excluir a emergência clínica e não transformar um ataque de pânico em investigação infinita.

A orientação brasileira nomeia o diferencial da crise de pânico no pronto-atendimento — arritmias, isquemia cerebral, doença coronariana e tireotoxicose — e afirma que a história e o exame clínico costumam bastar para excluí-las. Diante de dor torácica, o raciocínio é o da dor torácica, com o eletrocardiograma que ela pede.

Para a crise intensa ou prolongada, a primeira escolha é benzodiazepínico de ação curta por via oral. Se a via oral não estiver disponível, administra-se por via endovenosa, lentamente e com monitorização respiratória. A via intramuscular é contraindicada, por absorção errática — este é o detalhe que separa quem leu o documento de quem chutou.

Avaliação de risco de suicídio faz parte do atendimento, e o texto oficial é enfático em um ponto que o aluno tende a errar por excesso de zelo: nem todo paciente em risco de suicídio precisa ser internado. A alta é possível quando há melhora do quadro, acompanhante responsável e contrarreferência estabelecida com a atenção primária ou com a atenção psicossocial especializada.

E o que fazer no consultório sem receita: respiração diafragmática — uma mão no abdome, outra no tórax, só a do abdome se movendo, inspiração lenta pelo nariz — e a explicação de que aquele sintoma físico é o alarme disparando sem incêndio. Não é placebo; é a intervenção que faz o paciente parar de interpretar o próprio batimento cardíaco como ameaça.

04

Da queixa ansiosa à conduta: o escalonamento na atenção primária

Os protocolos brasileiros organizam o cuidado como uma escada de tentativas com prazo fixo. Cada degrau tem dose mínima e número de semanas; só quem cumpriu os dois degraus anteriores chega ao encaminhamento. Saber em que degrau o paciente da vinheta está é o que responde à pergunta.

  1. 1Confirmar sofrimento ou prejuízo funcional e excluir substância, fármaco e condição clínica que expliquem o quadro
  2. 2Nomear o transtorno pelo padrão dos sintomas e pela duração exigida (seis meses no TAG; um mês de repercussão no pânico; sem mínimo no TOC)
  3. 3Avaliar risco de suicídio e comorbidade psiquiátrica em toda consulta inicial
  4. 4Psicoeducação e plano não farmacológico: TCC se disponível, atividade física de 150 minutos por semana, manejo da respiração e do enfrentamento
  5. 5Primeira estratégia: ISRS em dose efetiva média, no mínimo, por pelo menos 8 semanas — com benzodiazepínico apenas para cobrir a latência, em torno de até 3 semanas
  6. 6Segunda estratégia: associar duas intervenções se houve resposta parcial, ou trocar o fármaco se não houve resposta — mais 8 semanas
  7. 7Duas estratégias sem resposta ou com resposta parcial: encaminhar ao serviço especializado em saúde mental
  8. 8Remitiu: manter no mínimo 12 meses após a remissão e retirar de forma gradual

Degrau 1 — monoterapia por 8 semanas

ISRS em dose efetiva média, no mínimo, mantido por pelo menos oito semanas, somado à abordagem psicoeducativa. Reconsulta na semana seguinte para adesão e efeitos adversos e reavaliação na quarta semana. Trocar antes das oito semanas não conta como tentativa.

Degrau 2 — associar ou trocar, mais 8 semanas

Resposta parcial: associam-se duas intervenções (ISRS com TCC ou ISRS com clomipramina). Ausência de resposta: troca-se por outro fármaco de primeira linha ou pela clomipramina, iniciada com 25 mg e levada a doses médias de 100 a 250 mg. O relógio recomeça em oito semanas.

Degrau 3 — refratário: encaminhar

Ausência de resposta ou resposta parcial a duas estratégias efetivas em dose terapêutica, por pelo menos oito semanas cada, é a definição de refratariedade e indica o serviço especializado. Ideação suicida persistente sem melhora doze semanas após o início do manejo encaminha por si só.

Fármaco (classe)Dose inicial (mg/dia)Dose mínima efetiva (mg/dia)Doses usuais (mg/dia)Componente Básico da Rename 2024
Fluoxetina (ISRS)202020 – 80Sim — 20 mg cápsula e comprimido
Sertralina (ISRS)25 – 505050 – 200Não
Paroxetina (ISRS)10 – 12,52020 – 40Não
Citalopram (ISRS)202020 – 40Não
Escitalopram (ISRS)101010 – 20Não
Venlafaxina (IRSN)37,57575 – 375Não
Clomipramina (tricíclico, 2ª linha)25100100 – 250 (máxima 250)Sim — 10 mg e 25 mg comprimido
Amitriptilina (tricíclico)2575100 – 300Sim — 25 mg e 75 mg comprimido

Os cinco quadros: a pergunta que discrimina e o tempo que o critério exige

DiagnósticoO que o paciente descreveDuração mínimaTratamento não farmacológico de escolha
Transtorno de ansiedade generalizadaPreocupação excessiva e difusa com tudo, tensão, sensação de estar no limite6 meses (exigência formal do critério)TCC
Transtorno de pânicoCrises súbitas, sem gatilho aparente, seguidas de medo de novas crises1 mês de preocupação ou mudança de comportamento após ao menos um ataqueTCC (primeira linha)
AgorafobiaAnsiedade com situações das quais seria difícil escapar ou receber ajudaEm geral mais de 6 mesesTCC com exposição
Fobia social (ansiedade social)Medo ou constrangimento em situações sociais, com temor de avaliaçãoEm geral mais de 6 mesesTCC (primeira linha); terapia psicodinâmica breve também é eficaz
Fobia específicaCrises presas a uma situação, pessoa ou objeto determinadoEm geral mais de 6 mesesTerapia de exposição (tratamento de escolha; fármaco só se ela não estiver disponível)
Transtorno obsessivo-compulsivoPensamentos intrusivos recorrentes e rituais de checar, contar, limpar ou organizarNão há duração mínimaTCC com exposição e prevenção de resposta

O que imita ansiedade: condições clínicas e fármacos a excluir antes do rótulo

GrupoO que procurar
CardiovascularSíndrome coronariana aguda, arritmia, insuficiência cardíaca
EndócrinoHipertireoidismo, hipotireoidismo, hipoglicemia, feocromocitoma, menopausa, doença de Cushing, cetoacidose diabética
PulmonarDPOC, asma, apneia do sono, embolia pulmonar
NeurológicoEpilepsia, tremor essencial, demência, enxaqueca
DiversosAnemia, delirium, insônia, doença do refluxo gastroesofágico, síndrome do intestino irritável
Fármacos em usoCorticoides, broncodilatadores, hormônios tireoidianos, bloqueadores de canal de cálcio, carbamazepina, antidepressivos no início, anti-histamínicos, dopaminérgicos
EstimulantesCafeína, anfetamina, metilfenidato, aminofilina, teofilina, pseudoefedrina, adrenalina, efedrina
Retirada de substânciaSuspensão de álcool, benzodiazepínicos, sedativos, narcóticos, barbitúricos e antidepressivos

O Quadro 5 do Protocolo de Regulação Ambulatorial de 2021 lista a venlafaxina dentro da frase que enumera os "inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS)". A venlafaxina é inibidora da recaptação de serotonina e noradrenalina, e o próprio Quadro 2 do mesmo documento a classifica como IRSN — assim como a TeleConduta de 2017 do mesmo grupo. A tabela deste capítulo usa a classificação correta; o que interessa para a prova é que ela permanece na primeira linha, seja qual for o rótulo da classe.

A dose usual máxima da venlafaxina difere entre dois documentos do mesmo grupo: 300 mg/dia na TeleConduta de 2017 e 375 mg/dia no Protocolo de Regulação de 2021. A tabela adota o valor do documento mais recente.

Clonazepam entra na Rename 2024 apenas como solução oral de 2,5 mg/mL; o comprimido não consta da lista nacional. Diazepam consta em comprimido de 5 e 10 mg e em solução injetável de 5 mg/mL. A ausência de um comprimido na Rename não significa que ele não exista na UBS — estados e municípios podem acrescentar itens às próprias listas.

O rastreamento populacional de ansiedade não faz parte da rotina proposta pelo Ministério da Saúde: o material da Linha de Cuidado traz um roteiro de seis perguntas de rastreio de sintomas ansiosos, sem escore nem ponto de corte, ao lado do PHQ-2 para depressão e do AUDIT-3 para álcool, que têm cortes definidos. Escalas com pontuação, como o GAD-7, existem e são úteis para seguimento, mas não são o instrumento que o documento nacional prescreve.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Benzodiazepínico no início do tratamento do transtorno de ansiedade

Uso curto para cobrir a latência do antidepressivo

Benzodiazepínicos podem ser usados em quadros de ansiedade muito intensa ou associados ao antidepressivo durante o período de latência dele, em torno de até três semanas, com a ressalva expressa de que o uso prolongado se associa a dependência.

Ministério da Saúde, Linha de Cuidado dos Transtornos de Ansiedade no adulto (atualização de 2022); TelessaúdeRS-UFRGS, TeleCondutas (2017), que os posiciona como segunda linha no TAG, na fobia social e no pânico

Não oferecer, salvo crise pontual — e nunca no pânico

No transtorno de ansiedade generalizada, o benzodiazepínico não deve ser oferecido na atenção primária nem na secundária, exceto como medida de curto prazo durante crises. No transtorno de pânico, o texto é mais duro: associam-se a pior desfecho a longo prazo e não devem ser prescritos.

NICE CG113, recomendações 1.2.25 (TAG) e 1.4.21 (pânico)

Na prova

A causa da diferença é de exequibilidade, e ela aparece no enunciado. O documento inglês constrói o cuidado em passos com terapia cognitivo-comportamental garantida antes do fármaco; onde a TCC é acessível, dá para não usar benzodiazepínico nenhum. O texto brasileiro escreve para uma UBS em que a TCC muitas vezes não existe e o antidepressivo leva de duas a oito semanas para agir — e limita o benzodiazepínico à janela dessa latência. Cenário de UBS, ESF, farmácia básica ou prova oficial do MEC costuma pedir a conduta do SUS. Menção nominal a diretriz internacional, cenário de serviço com psicoterapia disponível, ou alternativas que falam em cuidado em passos numerado revelam o recorte inglês. Quando o enunciado descreve transtorno de pânico e uma das alternativas oferece benzodiazepínico de manutenção, o distrator existe porque as duas réguas separam justamente aí.

Qual inibidor seletivo da recaptação da serotonina iniciar

Sertralina primeiro, por custo-efetividade

Se a pessoa com TAG opta por tratamento farmacológico, oferece-se um ISRS, e cabe considerar a sertralina em primeiro lugar por ser o fármaco mais custo-efetivo. Sem resposta, troca-se por outro ISRS ou por um IRSN; se ISRS e IRSN não forem tolerados, considera-se pregabalina.

NICE CG113, recomendações 1.2.22 a 1.2.24

Qualquer ISRS de primeira linha, com a lista nacional decidindo na prática

O protocolo brasileiro trata fluoxetina, paroxetina, sertralina, citalopram, escitalopram e venlafaxina como equivalentes de primeira linha, escolhidos por efetividade, tolerabilidade, custo e disponibilidade na atenção primária. Entre esses, o Componente Básico da Rename 2024 contém apenas a fluoxetina, 20 mg em cápsula e comprimido; a segunda linha, clomipramina, também está lá.

Protocolos de Regulação Ambulatorial — Psiquiatria Adulto, TelessaúdeRS-UFRGS e SES/RS (2021), Quadro 5; Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024), seção N

Na prova

A causa é de disponibilidade, não de evidência: os ISRS têm eficácia comparável entre si, e o que muda é qual deles a rede compra. A sertralina é a mais custo-efetiva no sistema inglês; no Brasil ela não está na lista nacional, embora exista em várias redes estaduais e municipais que ampliaram a própria relação. Enunciado que se passa em UBS, cita a farmácia básica ou pergunta pelo medicamento "disponível no SUS" está pedindo o item da Rename. Enunciado que menciona a NICE, o cuidado em passos ou traz pregabalina entre as alternativas está no recorte internacional — pregabalina e buspirona não constam da Rename 2024 e, num cenário de atenção básica brasileira, funcionam como distratores de disponibilidade.

Onde o transtorno obsessivo-compulsivo é classificado

Capítulo próprio, fora dos transtornos de ansiedade

O TOC integra o grupo dos transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados, separado dos transtornos de ansiedade, com código 6B20 na CID-11.

DSM-5 (American Psychiatric Association, 2014) e CID-11 (Organização Mundial da Saúde)

Dentro do bloco dos transtornos neuróticos, junto com as fobias

Na CID-10, o TOC é o F42 e permanece no bloco F40-F48, dos transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes — o mesmo bloco das fobias e do transtorno de ansiedade generalizada.

CID-10, classificação em uso para codificação de atendimento e notificação no SUS; os protocolos brasileiros mantêm ansiedade e TOC num único protocolo de encaminhamento

Na prova

A causa é de data: a CID-10 é de 1990 e continua sendo a classificação operacional do SUS, enquanto a realocação do TOC veio com o DSM-5, de 2013, e foi confirmada pela CID-11. O vocabulário denuncia o recorte — enunciado que fala em "código F42", em notificação ou em prontuário está no mundo da CID-10; enunciado que fala em "transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados" ou cita o DSM está no mundo novo. Do ponto de vista clínico a diferença não muda a conduta: ISRS em doses altas e exposição com prevenção de resposta valem nas duas classificações.

06

Caso resolvido

Mulher de 37 anos procura a UBS dizendo que "não desliga". Há cerca de dez meses preocupa-se de forma excessiva com o emprego, com a saúde dos filhos e com dinheiro, sem que nada de concreto tenha acontecido. Dorme mal, acorda com o maxilar dolorido, tem tensão na nuca e irritabilidade. Nunca teve crises súbitas de falta de ar nem medo de morrer. Deixou de ir a duas reuniões de trabalho porque não conseguia se concentrar. Não usa medicações, bebe socialmente, não fuma. Exame físico normal, sem tremor, sem bócio, frequência cardíaca de 78 bpm. TSH solicitado na consulta anterior estava normal.
achado
Preocupação excessiva e difusa, sem gatilho único e sem crises paroxísticas, com sintomas somáticos de tensão e insônia — o padrão do transtorno de ansiedade generalizada, e não do pânico ou de fobia.
duração
Dez meses de sintomas cumprem o mínimo de seis meses, que é exigência formal do critério nesse diagnóstico. É o dado que a vinheta ofereceu de propósito.
prejuízo
Faltar a reuniões por não conseguir se concentrar caracteriza prejuízo no funcionamento profissional. Sem sofrimento ou prejuízo não haveria transtorno, por mais intensa que fosse a preocupação.
exclusão
Sem uso de fármacos ansiogênicos, sem sinais de tireotoxicose e com TSH normal, as causas clínicas e medicamentosas estão razoavelmente afastadas pela história e pelo exame. Não há indicação de bateria adicional de exames.
avaliação obrigatória
Investigar risco de suicídio e comorbidade psiquiátrica — sobretudo depressão e uso de álcool — faz parte desta primeira consulta, e não de uma consulta futura.
conduta
Psicoeducação, plano de atividade física de pelo menos 150 minutos por semana, TCC se houver oferta na rede, e fluoxetina 20 mg/dia, que é o ISRS do Componente Básico. Avisar que a ansiedade pode piorar nos primeiros dias, que o efeito aparece após cerca de duas semanas e pode levar até oito, e que o remédio não será suspenso de forma abrupta.
seguimento
Reconsulta na semana seguinte para adesão e efeitos adversos, reavaliação na quarta semana e manutenção da mesma estratégia por pelo menos oito semanas antes de qualquer decisão de troca ou associação. Remitindo, mantém-se por no mínimo doze meses após a remissão, com retirada gradual.
07

Agora feche você

Homem de 29 anos, em acompanhamento na mesma UBS há cinco meses por transtorno de pânico. Recebeu fluoxetina 20 mg/dia, elevada para 40 mg/dia na quarta semana, e manteve o esquema por dez semanas, com melhora apenas parcial — os ataques caíram de quatro para dois por mês, mas ele ainda evita andar de ônibus. Foi então trocado para clomipramina, iniciada com 25 mg e titulada até 150 mg/dia, mantida por nove semanas, com o mesmo grau de resposta parcial. Não há terapia cognitivo-comportamental disponível na rede local. Nega ideação suicida atual e passada, nega uso de álcool ou outras substâncias, nunca teve internação psiquiátrica.
achado
Duas estratégias terapêuticas farmacológicas distintas, ambas em dose dentro da faixa efetiva e ambas mantidas por mais de oito semanas, com resposta apenas parcial nas duas.
o que isso caracteriza
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de transtorno de pânico quem teve um ataque de pânico O ataque é um evento com pico em até dez minutos e pelo menos quatro de treze sintomas, e ele ocorre em várias condições — inclusive na fobia social e na fobia específica. O transtorno exige, além do ataque, no mínimo um mês de preocupação com novas crises ou de mudança desadaptativa de comportamento. A vinheta que descreve uma crise única e pergunta o diagnóstico está testando exatamente isso.
  2. 2Trocar o antidepressivo na terceira ou quarta semana O efeito começa por volta de duas semanas e pode levar até oito para se instalar, e o protocolo brasileiro só considera uma tentativa válida se houve dose efetiva média, no mínimo, por pelo menos oito semanas. Trocar antes disso não gera uma segunda estratégia — gera duas primeiras tentativas malfeitas, e o paciente chega ao especialista sem nenhuma estratégia completa registrada.
  3. 3Prescrever benzodiazepínico como tratamento de manutenção Ele alivia rápido, e é justamente por isso que atrai — o paciente melhora na primeira consulta e agradece. Mas o lugar dele é a ansiedade muito intensa ou a cobertura da latência do antidepressivo, em torno de até três semanas. Uso prolongado leva a dependência, e a retirada produz ansiedade que se confunde com recaída da doença original.
  4. 4Aplicar benzodiazepínico por via intramuscular na crise Parece a via natural de quem não quer punção venosa num paciente agitado. A orientação brasileira contraindica a via intramuscular por absorção errática: a primeira escolha é a via oral com benzodiazepínico de ação curta e, se ela não estiver disponível, endovenosa lenta com monitorização respiratória.
  5. 5Pedir bateria de exames para todo paciente ansioso Excluir causa clínica é o primeiro passo do diagnóstico, mas o material do Ministério da Saúde não recomenda nenhum exame de rotina e afirma que história e exame clínico costumam bastar. Exame se pede pela suspeita levantada na consulta, não pelo rótulo da queixa.
  6. 6Internar todo paciente com ideação suicida que chega ao pronto-atendimento O texto oficial é explícito ao dizer que nem todo paciente em risco de suicídio precisa de internação. O que a avaliação define é intencionalidade, fatores de risco e de proteção; a alta é viável com melhora do quadro, acompanhante responsável e contrarreferência estabelecida com a atenção primária ou a atenção psicossocial especializada.
  7. 7Tratar TOC com a dose de ISRS que se usa na depressão No TOC, os ISRS são primeira linha em doses geralmente altas, acima das usadas para episódio depressivo, e a psicoterapia de escolha é a exposição com prevenção de resposta, não a TCC genérica. Alternativa que oferece dose de depressão ou 'TCC' sem especificar a técnica está incompleta de propósito.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: crises recorrentes e inesperadas de ansiedade intensa com sintomas físicos que atingem o pico em minutos, seguidas de preocupação persistente e evitação de novos ataques, definem transtorno de pânico. Ansiedade generalizada é preocupação crônica difusa, não crises paroxísticas. Fobia específica tem gatilho identificável. Hipertireoidismo é descartado pelos exames normais. TEPT requer evento traumático e sintomas de reexperiência/evitação relacionados a ele, ausentes aqui.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Seis meses de preocupação difusa é TAG; um mês de repercussão depois do ataque é transtorno de pânico; TOC não tem duração mínima. Ataque de pânico: pico em até 10 minutos, pelo menos 4 de 13 sintomas. Estratégia terapêutica efetiva = dose efetiva média, no mínimo, por pelo menos 8 semanas. Duas estratégias sem resposta ou com resposta parcial = refratário = encaminhar. Fluoxetina 20 mg é o único ISRS do Componente Básico da Rename 2024.

em 30 dias

Reconstrua o escalonamento inteiro sem olhar: excluir causa clínica e medicamentosa, nomear o transtorno pela duração, avaliar risco de suicídio, psicoeducação mais TCC quando existir, ISRS por 8 semanas, associar ou trocar por mais 8, encaminhar se refratário, manter no mínimo 12 meses após a remissão e retirar gradualmente. Depois refaça a lista do que imita ansiedade por grupo de órgão e por fármaco, incluindo a retirada de álcool e de benzodiazepínico. Por fim, revise o que muda no pronto-atendimento: benzodiazepínico de ação curta por via oral, endovenosa lenta com monitorização se a oral não for possível, intramuscular contraindicada.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 32 anos chega à UBS relatando que, há quatro meses, teve a primeira crise: estava no supermercado quando o coração disparou, faltou ar, as mãos formigaram e ela teve certeza de que ia morrer. Passou em vinte minutos. Desde então já foi duas vezes ao pronto-socorro, fez eletrocardiograma e exames de sangue normais, e agora evita sair sozinha e não entra mais em ônibus lotado. Diz que vive com medo de que aconteça de novo. Colha a história, separe o ataque do transtorno, exclua o que imita e proponha a conduta possível na atenção primária. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Transtornos de ansiedade — Preparatório para provas | OsceLabs