Ginecologia e ObstetríciaPuerpério, aleitamento e vitalidade fetal

Cardiotocografia intraparto: duas réguas para o mesmo traçado

Avaliação da vitalidade fetal intraparto (cardiotocografia)

Uma variabilidade de exatamente 5 bpm é anormal numa classificação e normal na outra. Um padrão sinusoidal de vinte e cinco minutos é categoria III num documento e nem chega a ser patológico no outro. E a política que evita uma convulsão neonatal a cada oitocentas e treze mulheres cobra uma cesárea extra a cada cento e noventa e quatro.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 32 anos, G2P1, com 39 semanas de gestação, em trabalho de parto ativo há 6 horas, evolui com dilatação de 6 cm. A cardiotocografia mostra desacelerações que iniciam após o pico da contração, com retorno lento à linha de base e nadir tardio, repetindo-se em mais de 50% das contrações. A variabilidade está reduzida. Qual é a interpretação e a conduta inicial mais adequada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da leitura do traçado durante o trabalho de parto: os cinco parâmetros, as duas classificações que convivem no Brasil, as seis medidas de reanimação intrauterina e o momento em que a decisão deixa de ser do traçado e passa a ser do relógio. Entra também a aritmética que sustenta a escolha do método de vigilância no risco habitual.

Fica de fora a vitalidade anteparto. Traçado reativo, número de acelerações, prolongamento até quarenta minutos, perfil biofísico, variação de curto prazo e Doppler são do capítulo de restrição de crescimento fetal e vitalidade anteparto, que também guarda a advertência de que as categorias I, II e III foram feitas para o intraparto e não devem ser aplicadas fora dele.

A rotina de ausculta intermitente no risco habitual e a lista de práticas desrotinizadas pertencem ao capítulo de assistência ao parto normal e boas práticas. A sequência de manejo da taquissistolia durante indução é do capítulo de gestação prolongada e indução do parto. A decisão de via e os pré-requisitos do fórceps são do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório. Aqui entra apenas o que muda a leitura do traçado.

03

O que muda decisão

Duas réguas legítimas para o mesmo papel

O protocolo brasileiro de monitorização fetal intraparto não escolhe uma classificação: apresenta duas, lado a lado, e diz quais são as mais usadas no país. A primeira é a do NICHD/ACOG, que divide os traçados em categorias I, II e III. A segunda é a da FIGO, que os divide em normal, suspeito e patológico. Ambas observam as mesmas cinco variáveis — linha de base, variabilidade, acelerações, desacelerações e contrações — e ambas produzem três degraus. A tentação é tratá-las como sinônimos com nomes diferentes.

Não são. As duas réguas discordam sobre onde ficam as fronteiras, e discordam em pontos que a prova adora: no valor exato da variabilidade que separa o normal do reduzido, na duração que transforma uma desaceleração em prolongada, no tempo que um padrão sinusoidal precisa durar para contar, e no degrau em que cai a variabilidade acentuada. O aluno que decorou uma delas e leu a vinheta escrita a partir da outra erra sem perceber que estava lendo outro documento.

A saída não é decorar as duas em paralelo. É saber onde elas se separam — são poucos pontos — e reconhecer, pela linguagem do enunciado, qual delas o avaliador está usando. Enunciado que fala em categoria I, II ou III está no vocabulário do NICHD. Enunciado que fala em traçado normal, suspeito ou patológico está no da FIGO. Enunciado que descreve o traçado sem nomear o sistema deixa a escolha para o candidato — e é aí que o valor de fronteira decide a questão.

O valor exato de 5 bpm, que fica órfão

A variabilidade é a oscilação da linha de base, medida em janelas de dez minutos, excluídas as acelerações e desacelerações. Ela é o parâmetro mais informativo do traçado: enquanto a variabilidade estiver normal, o feto está compensado e os órgãos nobres perfundidos. É também o parâmetro em que as duas réguas se separam de forma mais afiada.

O NICHD escreve quatro faixas: ausente, quando a oscilação não é detectada a olho nu; mínima, com amplitude menor ou igual a 5 bpm; moderada ou normal, com amplitude de 6 a 25 bpm; e acentuada, com amplitude maior que 25 bpm. A FIGO escreve três: reduzida, abaixo de 5 bpm por mais de cinquenta minutos ou por mais de três minutos durante uma desaceleração; normal, de 5 a 25 bpm; e acentuada ou saltatória, acima de 25 bpm por mais de trinta minutos.

Ponha os dois textos lado a lado e o valor de exatamente 5 bpm não tem dono. Para o NICHD ele é mínimo, porque a faixa mínima inclui o 5 — menor ou igual — e a moderada só começa em 6. Para a FIGO ele é normal, porque a faixa reduzida exige ficar abaixo de 5 e a normal começa no próprio 5. O mesmo número é sinal de alarme numa régua e sinal de normalidade na outra, e a diferença está inteira na troca de um sinal de maior ou igual por um sinal de maior.

Duas escalas verticais de variabilidade em batimentos por minuto. Na do NICHD: ausente, mínima menor ou igual a 5, moderada de 6 a 25 e acentuada acima de 25. Na da FIGO: reduzida abaixo de 5, normal de 5 a 25 e acentuada acima de 25. Uma linha na altura de 5 aponta para a faixa mínima de um lado e para a normal do outro.
Uma oscilação de exatamente 5 bpm é variabilidade mínima para o NICHD, cuja faixa normal só começa em 6, e variabilidade normal para a FIGO, cuja faixa reduzida exige ficar abaixo de 5.

A FIGO acrescenta um segundo eixo que o NICHD não tem: tempo. Não basta a amplitude cair abaixo de 5 bpm; ela precisa ficar lá por mais de cinquenta minutos para o traçado ser chamado de reduzido — a menos que a queda aconteça durante uma desaceleração, quando bastam três minutos. Uma janela isolada de dez minutos com oscilação de 4 bpm já é variabilidade mínima pelo NICHD e ainda não é nada pela FIGO. O protocolo brasileiro lembra por que a exigência de tempo existe: o sono fetal dura de vinte a sessenta minutos e reverte sozinho, ou com estímulo vibroacústico ou mecânico do polo cefálico ao toque, que pode ser repetido três vezes, a cada minuto.

Antes de chamar variabilidade reduzida de hipóxia, a lista de causas alternativas precisa ser varrida: além do sono fetal, opioides, sulfato de magnésio, bloqueadores parassimpáticos, prematuridade extrema, infecção, malformação do sistema nervoso central ou do coração e dano neurológico prévio. A variabilidade ausente é descrita como padrão geralmente terminal; a mínima associa-se a acidemia sobretudo quando vem sem acelerações e com desacelerações tardias ou variáveis.

Linha de base: a bradicardia que não é patológica

A linha de base normal é de 110 a 160 bpm nas duas réguas. Taquicardia é acima de 160 bpm por pelo menos dez minutos; bradicardia é abaixo de 110 bpm por pelo menos dez minutos. Até aqui os documentos concordam. A FIGO acrescenta uma ressalva que muda a leitura: valores entre 100 e 110 bpm podem ser normais em fetos pós-termo.

E há um degrau adiante que atravessa o próprio teto. Na classificação FIGO, o critério de traçado patológico não é bradicardia — é linha de base abaixo de 100 bpm. Ou seja: uma linha de base de 105 bpm mantida por quinze minutos preenche a definição de bradicardia da mesma FIGO e, ao mesmo tempo, não preenche o critério de patológico da mesma FIGO. A faixa de 100 a 110 bpm é bradicárdica pela definição e não patológica pela classificação, e a incoerência é do documento, não da leitura.

A taquicardia isolada tem pouco valor preditivo para acidose, embora possa aparecer nas fases iniciais da resposta a um insulto hipóxico de instalação não aguda. Antes de atribuí-la ao feto, descarte febre materna — infecção ou analgesia de parto —, prematuridade, movimentação fetal excessiva, ansiedade materna, hipertireoidismo, anemia fetal, taquiarritmia fetal, que costuma passar de 200 bpm, e medicamentos como beta-adrenérgicos, bloqueadores parassimpáticos e cocaína.

A bradicardia, quando é da acidose, quase nunca chega sozinha: costuma ser precedida de variabilidade mínima ou ausente e de perda das acelerações. Bradicardia que aparece de repente, num traçado até então bom, pede outra pergunta — a de evento catastrófico: prolapso de cordão, rotura uterina, descolamento prematuro de placenta, rotura de vasa prévia, colapso ou hipotensão materna. Nesses casos o traçado não é o exame que decide; é o alarme que manda examinar a mulher.

Desacelerações: forma, atraso e mecanismo

Aceleração é o aumento abrupto, em menos de trinta segundos, de pelo menos 15 bpm sobre a linha de base, com duração de 15 segundos a 10 minutos; abaixo de 32 semanas a régua afrouxa para 10 bpm por pelo menos 10 segundos. Desaceleração é a queda. O que separa os tipos é a combinação de três coisas: a velocidade da queda, o atraso em relação à contração e a forma do desenho.

A desaceleração precoce cai e volta lentamente, em mais de trinta segundos, é simétrica e coincide com a contração: início com início, nadir com pico, recuperação com término. É a compressão do polo cefálico no fim do trabalho de parto, geralmente sem significado clínico. A desaceleração tardia tem a mesma queda lenta e a mesma simetria, mas o desenho inteiro chega atrasado — início, nadir e recuperação ocorrem depois do início, do pico e do fim da contração. É reflexo mediado por quimiorreceptores e aponta para insuficiência uteroplacentária. A desaceleração variável é o oposto na velocidade: cai e volta abruptamente, em menos de trinta segundos, com queda de pelo menos 15 bpm, e muda de aparência de contração para contração. É reflexo mediado por barorreceptores após compressão do cordão, e é a mais frequente das três.

A FIGO descreve as mesmas curvas por um atalho visual que ficou na boca do avaliador: a tardia tem forma de U e a variável tem forma de V. A régua europeia acrescenta uma tolerância que o NICHD não tem: em traçados com variabilidade reduzida e sem acelerações, uma queda de apenas 10 a 15 bpm já conta como desaceleração tardia. E define o atraso em segundos — a tardia inicia mais de vinte segundos depois do início da contração.

Recorrência é conceito de contagem, não de gravidade: recorrente é a desaceleração presente em mais de 50% das contrações em vinte minutos pelo NICHD, e em pelo menos 50% das contrações pela FIGO. Intermitente é abaixo disso. Trocar recorrente por frequente numa vinheta é o suficiente para tirar um traçado de degrau.

A desaceleração variável merece uma segunda régua, a que separa a típica da atípica. A típica traz uma pequena aceleração antes e depois da queda — o shoulder — e volta rápido à linha de base. É atípica quando recorre e progride em profundidade e duração, sobretudo se passa de sessenta segundos e a queda ultrapassa 60 bpm ou alcança os 60 bpm; quando perde o shoulder ou a variabilidade durante a queda; quando a recuperação é lenta ou não acontece; quando é seguida de taquicardia compensatória, o overshoot; ou quando tem morfologia geminada. Aí, sim, pode haver acidose. Variabilidade normal ou acelerações preservadas sugerem que o feto não está acidótico.

A desaceleração prolongada é o ponto em que os dois documentos marcam prazos que se cruzam. O NICHD a define como queda de 15 bpm por 2 a 10 minutos. A FIGO a define como queda por mais de 3 minutos. Uma queda de dois minutos e meio é prolongada para o NICHD e é apenas uma desaceleração para a FIGO. E o teto do NICHD tem consequência: passando de dez minutos, deixou de ser desaceleração e virou mudança de linha de base, ou seja, bradicardia. A FIGO, porém, lista entre os critérios de traçado patológico as desacelerações prolongadas com mais de trinta minutos — uma duração que, na régua do NICHD, já não descreve desaceleração nenhuma.

Quando o prolongamento se instala, o prognóstico piora se durar mais de cinco minutos, se houver variabilidade mínima ou ausente antes ou durante a queda, se já houve desaceleração tardia ou variável antes, se a queda passar de 60 bpm ou se a linha atingir menos de 80 bpm. Se a causa for reflexo vagal, a desaceleração prolongada costuma reverter sozinha em seis a nove minutos.

O sinusoidal e os dez minutos de ninguém

O padrão sinusoidal é regular, em forma de sino, com 3 a 5 ciclos por minuto. Nas duas réguas ele é degrau máximo: categoria III no NICHD, patológico na FIGO. A divergência está na duração exigida.

O NICHD pede que persista por vinte minutos. A FIGO pede mais de trinta minutos, e acrescenta amplitude de 5 a 15 bpm e coincidência com ausência de acelerações. Entre vinte e trinta minutos existe um traçado que é categoria III para uma régua e não é patológico para a outra — dez minutos de ninguém, exatamente onde a vinheta gosta de parar o relógio.

A FIGO ainda separa um vizinho que o NICHD não nomeia: o padrão pseudossinusoidal, de aspecto mais dentilhado, duração geralmente menor que trinta minutos, precedido e seguido de padrão normal. Reconhecer o pseudossinusoidal é o que impede que um registro curto e dentilhado seja lido como anemia fetal grave.

As três categorias, e o traçado que muda de degrau ao trocar de documento

A categoria I do NICHD é fechada: exige linha de base de 110 a 160 bpm, variabilidade moderada, ausência de desacelerações tardias ou variáveis, e admite desacelerações precoces e acelerações com ou sem. O traçado normal da FIGO pede menos itens — linha de base de 110 a 160, variabilidade de 5 a 25 bpm e ausência de desacelerações recorrentes. Os dois significam a mesma coisa: alta previsão de ausência de hipóxia ou acidose no momento do exame, sem necessidade de intervenção.

A categoria III do NICHD também é fechada, e é aqui que a diferença fica grave. Ela exige variabilidade ausente somada a desacelerações tardias recorrentes, ou a desacelerações variáveis recorrentes, ou a bradicardia — ou, alternativamente, padrão sinusoidal. É uma regra de conjunção: a variabilidade ausente sozinha não basta, e o próprio NICHD manda a variabilidade ausente sem desacelerações recorrentes para a categoria II. A FIGO não trabalha por conjunção: variabilidade reduzida sozinha já é critério de traçado patológico.

A consequência é direta. Um traçado plano, sem desacelerações e sem bradicardia, é categoria II para o NICHD e patológico para a FIGO. Não há erro de leitura: são regras diferentes, uma somando condições e outra listando alternativas.

Há um segundo desencontro, e este mora dentro de um documento só. O quadro de classificação da FIGO escreve variabilidade reduzida como critério de patológico, seco, sem prazo. O quadro de definições do mesmo protocolo, uma página antes, condiciona o rótulo reduzida a ficar abaixo de 5 bpm por mais de cinquenta minutos — ou por mais de três minutos, se a queda acontecer durante uma desaceleração. Diante de um registro de trinta minutos com oscilação invisível, a tabela de classificação já manda chamar de patológico e a tabela de definições ainda não autoriza o rótulo. A itemização não repete a régua que a própria manchete depende, e o intervalo em que as duas tabelas discordam vai de zero a cinquenta minutos, que é quase toda a vida útil de um traçado. Quem lê só o quadro das categorias não descobre que existe um relógio.

O mesmo acontece em três outras fronteiras. Desacelerações tardias recorrentes com variabilidade moderada são categoria II no NICHD, porque a categoria III exige variabilidade ausente; na FIGO, desacelerações tardias recorrentes são patológicas sem qualquer ressalva sobre a variabilidade. A variabilidade acentuada é categoria II no NICHD e patológica na FIGO. E a bradicardia sem variabilidade ausente é categoria II no NICHD, enquanto a linha de base abaixo de 100 bpm é patológica na FIGO.

O degrau do meio é o que ocupa a sala de parto. A categoria II do NICHD é definida por exclusão — é tudo que não é I nem III — e a suspeita da FIGO é definida por falta: falta uma característica de normalidade, sem que haja característica patológica. As duas descrevem baixa probabilidade de hipóxia e acidose e pedem a mesma coisa: corrigir causas reversíveis, manter monitorização e reavaliar depois das medidas de reanimação intrauterina.

No degrau máximo, a conduta muda de natureza. Corrigem-se as causas reversíveis e acrescentam-se, se disponíveis, outros métodos de avaliação da oxigenação fetal — exceto nas situações emergenciais, em que não há o que somar: descolamento prematuro de placenta, rotura uterina e prolapso de cordão. Não havendo reversão em poucos minutos, a indicação é de interrupção imediata.

Reanimação intrauterina: seis medidas com alvos diferentes

Diante de um traçado alterado, o passo não é decidir a via de parto: é tentar elucidar a causa e revertê-la. As medidas de reanimação intrauterina não são um pacote indiviso — cada uma tem um efeito próprio e reverte um tipo específico de desaceleração, e a vinheta costuma testar exatamente esse pareamento.

Reposicionar a gestante em decúbito lateral evita a compressão aorto-cava, melhora a perfusão uteroplacentária e alivia a compressão do cordão; reverte desacelerações tardias, variáveis e prolongadas. Suspender os puxos maternos diminui a compressão do polo cefálico e reverte desacelerações precoces — é a única medida com esse alvo. Suspender a ocitocina e administrar uterolítico trata a taquissistolia e reverte tardias, variáveis e prolongadas. Hidratação endovenosa corrige hipovolemia materna e melhora a perfusão. Amnioinfusão alivia a compressão de cordão e reverte variáveis e prolongadas.

A sexta medida vem com uma ressalva escrita na própria fonte. Oxigênio para a mãe tem por objetivo aumentar o aporte de oxigênio ao feto, e o benefício potencial está registrado com a marca de eficácia questionável. A ressalva é do documento; repeti-la é honestidade, não desobediência.

A contração é o quinto parâmetro e entra aqui porque é o mais corrigível de todos. O normal é de até 5 contrações em 10 minutos; a partir de 6, é taquissistolia. Note que a fronteira é de maior ou igual: cinco contrações são normais e seis já não são, sem faixa intermediária. Boa parte das desacelerações tardias que aparecem durante indução é taquissistolia disfarçada de sofrimento fetal, e a primeira conduta é retirar o agente que a produziu, não abreviar o parto.

O preço da monitorização contínua, em números

A Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal comparou cardiotocografia contínua e ausculta intermitente e publicou os resultados desfecho por desfecho. Os números permitem calcular o que a escolha custa, e o cálculo é o argumento mais forte a favor da ausculta no risco habitual.

Convulsões neonatais ocorreram em 8 de 13.072 recém-nascidos com cardiotocografia contínua e em 24 de 13.027 com ausculta intermitente — 0,06% contra 0,18%. A diferença absoluta é de 1,2 por mil: é preciso monitorar continuamente cerca de 813 mulheres para evitar uma convulsão neonatal. Cesárea por sofrimento fetal ocorreu em 133 de 14.761 contra 57 de 14.753 — 0,90% contra 0,39%. A diferença absoluta é de 5,1 por mil: uma cesárea extra por sofrimento fetal a cada 194 mulheres monitoradas.

Divida uma coisa pela outra e a política aparece inteira: para cada convulsão neonatal evitada, cerca de 4,2 cesáreas a mais por sofrimento fetal, e cerca de 14 partos vaginais instrumentais a mais pela mesma indicação. Nenhuma diferença em mortalidade neonatal, em paralisia cerebral, em encefalopatia hipóxico-isquêmica ou em admissão em terapia intensiva neonatal. É isso que a diretriz quer dizer quando escreve que a cardiotocografia aumenta a incidência de intervenções sem impacto positivo nos indicadores de morbidade e mortalidade perinatal.

Um cuidado de leitura fecha a seção, e vale para qualquer tabela desse formato. A coluna de efeito absoluto não é a subtração das duas colunas de percentual. Ela é calculada aplicando o risco relativo agrupado ao risco do grupo-controle, que é o método padrão dessas diretrizes. Nas quinze linhas da tabela, esse cálculo reproduz o valor publicado em todas as quinze; a subtração ingênua reproduz apenas dez. Na linha do parto vaginal espontâneo, a subtração dá 56 por mil e a tabela traz 62. Na linha do pH abaixo de 7,10 a divergência é pior: a subtração aponta 4 por mil a mais com a cardiotocografia, e a tabela traz 2 por mil a menos — os dois sinais se invertem, porque as duas percentagens brutas não são ponderadas e o risco relativo é. Quem tenta conferir a tabela subtraindo vai acusar de erro a linha que está certa.

O que a concordância medida diz, e o que ela desmente

O protocolo brasileiro afirma que a cardiotocografia tem baixa concordância entre observadores e nomeia dois culpados: a dificuldade de definir a variabilidade próxima de 5 bpm e a dificuldade de classificar o tipo de desaceleração. A primeira acusação se sustenta; a segunda, quando alguém foi medir, não se sustentou.

Num estudo de cem traçados intraparto classificados por seis obstetrizes segundo a régua FIGO de 2015, a concordância global ficou em kappa de 0,35 — razoável, no vocabulário do kappa. Por parâmetro, o desenho da acusação se inverte: as desacelerações foram o parâmetro de maior concordância, com kappa de 0,48, seguidas da linha de base, com 0,43; a variabilidade foi o de menor, com kappa de 0,20, no território do fraco. O parâmetro que a prosa acusava em segundo lugar é justamente o que os observadores classificam melhor.

Por categoria, a concordância acompanha a fama do método: 0,50 para o traçado normal, 0,37 para o patológico e apenas 0,25 para o suspeito. O degrau do meio, que é o que mais aparece na sala de parto, é também o que menos gente lê do mesmo jeito.

Isso conversa com a frase mais útil do protocolo brasileiro sobre o método: ele é bom para confirmar que o feto está bem e, na maioria das vezes em que sugere acidose, o feto não está acidótico — alta sensibilidade, baixa especificidade, alta taxa de falso-positivo. A leitura correta é uma condicional que só vale numa direção: traçado normal prevê ausência de acidose no momento do exame. A inversão — traçado alterado prevê acidose — é falsa, e é exatamente o erro que produz cesárea desnecessária. O nome antigo desse engano tem endereço: por isso o termo sofrimento fetal foi abandonado como rótulo de traçado alterado, substituído por situação fetal não tranquilizadora, reservando-se sofrimento para quando a acidose está confirmada.

Vale registrar um limite de construção do próprio estudo. A análise principal foi feita pelas seis obstetrizes, três com mais de cinco anos de experiência e três com menos, um desenho equilibrado por senioridade. Numa segunda avaliação, de subcategorias de desaceleração, duas das três obstetrizes seniores recusaram participar — restaram três juniores e uma sênior. O grupo dessa segunda análise foi constituído depois do desenho, por quem aceitou continuar, e por isso já não é o grupo equilibrado que a tabela de características descreve. Silêncio de participante não é dado neutro, e qualquer comparação entre experientes e novatos que se apoie nessa segunda rodada está apoiada num grupo que a recusa formou.

Quem se monitora como: o intervalo que muda de documento

A cardiotocografia contínua não é rotina no risco habitual — nem no Brasil nem nas revisões internacionais, que não demonstraram benefício robusto do uso rotineiro em parturientes de alto ou de baixo risco. A cardiotocografia de admissão, especificamente, pode aumentar a taxa de cesárea sem melhorar o resultado perinatal. Quando disponível, a monitorização contínua está sugerida nas situações de maior risco de hipóxia: alteração na ausculta intermitente, líquido meconial, bolsa rota há mais de 24 horas, febre intraparto ou corioamnionite, sangramento anteparto, uso de ocitocina ou analgesia de parto, fase ativa acima de 12 horas ou expulsivo acima de 1 hora, cesárea prévia, doença materna que afete a oxigenação fetal, pós-termo ou prematuridade, oligoâmnio, alteração no Doppler, restrição de crescimento e gestação múltipla.

Sobre o intervalo da ausculta intermitente, os dois documentos brasileiros não dizem a mesma coisa, e a diferença é de método, não de detalhe. A diretriz do Ministério da Saúde fixa um intervalo único: ausculta a cada 30 minutos, por pelo menos um minuto, antes, durante e imediatamente após uma contração, registrando como taxa única. O protocolo da Febrasgo separa por período: a cada 15 a 30 minutos no primeiro período e a cada 5 a 15 minutos no segundo, durante um minuto antes, durante e após duas contrações, com pelo menos trinta segundos após a contração.

Uma ausculta de trinta em trinta minutos no período expulsivo cumpre a diretriz nacional e descumpre o protocolo da sociedade. O aluno não precisa escolher lado: precisa reconhecer, pelo enunciado, qual dos dois está sendo cobrado — a menção a estetoscópio de Pinard, a sonar Doppler e à palpação do pulso materno para diferenciar batimentos denuncia a diretriz nacional; a separação entre primeiro e segundo períodos denuncia o protocolo da Febrasgo.

Há uma situação em que os dois convergem e que a prova cobra com frequência: a parturiente que recebe analgesia regional, no início ou em dose de resgate, faz ausculta de 5 em 5 minutos por no mínimo 30 minutos, e a alteração aí leva à instalação da cardiotocografia, junto com decúbito lateral esquerdo e avaliação das condições respiratórias e circulatórias. Persistindo anormalidade grave e não transitória, a causa deixa de ser a analgesia.

04

As réguas, em ordem de uso

Três tabelas resolvem quase toda vinheta do tema: a que define os cinco parâmetros nas duas classificações e marca onde elas se separam, a que põe os três degraus lado a lado, e a que pareia cada medida de reanimação intrauterina com a desaceleração que ela reverte.

  1. 1Leia sempre os cinco parâmetros na mesma ordem: linha de base, variabilidade, acelerações, desacelerações e contrações. Pular a dinâmica uterina é o erro que faz taquissistolia virar sofrimento fetal.
  2. 2Identifique qual régua o enunciado usa. Categoria I, II ou III é vocabulário do NICHD/ACOG. Normal, suspeito ou patológico é vocabulário da FIGO. Sem nomear o sistema, o valor de fronteira do enunciado costuma denunciar a origem.
  3. 3Classifique a desaceleração pela velocidade e pelo atraso, não pela profundidade. Queda e recuperação lentas, coincidentes com a contração, é precoce; lentas e atrasadas, é tardia; abruptas e de aparência mutável, é variável.
  4. 4Antes de agir sobre o feto, procure a causa materna reversível: taquissistolia, decúbito dorsal, hipotensão, hipóxia, febre, uso de ocitocina, analgesia recém-instalada.
  5. 5Institua as medidas de reanimação intrauterina que correspondem ao tipo de desaceleração encontrado, e não o pacote inteiro por reflexo.
  6. 6Reavalie. Traçado do degrau do meio pede reavaliação depois das medidas; traçado do degrau máximo que não reverte em poucos minutos pede interrupção.
  7. 7Diante de bradicardia súbita em traçado até então bom, mude a pergunta: examine a mulher procurando descolamento prematuro de placenta, rotura uterina, prolapso de cordão, vasa prévia ou colapso materno — nessas, não há método a somar.
  8. 8Escolhida a interrupção, a via sai deste capítulo: dilatação, altura da apresentação e pré-requisitos decidem entre parto vaginal operatório e cesárea.

Os cinco parâmetros nas duas réguas, e onde elas se separam

ParâmetroNICHD/ACOGFIGOOnde se separam
Linha de baseNormal 110-160 bpm; taquicardia acima de 160 por 10 min ou mais; bradicardia abaixo de 110 por 10 min ou maisMesmos limites; 100 a 110 bpm pode ser normal em feto pós-termoSó a FIGO abre exceção para o pós-termo — e usa 100 bpm, não 110, como corte de patológico
VariabilidadeAusente; mínima menor ou igual a 5 bpm; moderada 6 a 25 bpm; acentuada acima de 25 bpmReduzida abaixo de 5 bpm por mais de 50 min (ou mais de 3 min na desaceleração); normal 5 a 25 bpm; acentuada acima de 25 bpm por mais de 30 minO valor exato de 5 bpm: mínimo no NICHD, normal na FIGO. E só a FIGO exige duração
AceleraçõesAumento abrupto (menos de 30 s) de 15 bpm ou mais, por 15 s a 10 min; abaixo de 32 semanas, 10 bpm por 10 sMesma definiçãoSem divergência
DesaceleraçõesPrecoce: lenta e coincidente. Tardia: lenta e atrasada. Variável: abrupta (menos de 30 s), queda de 15 bpm ou mais. Prolongada: 2 a 10 minTardia em forma de U, início mais de 20 s após a contração. Variável em forma de V. Prolongada: mais de 3 minProlongada começa em 2 min no NICHD e em 3 min na FIGO. Só a FIGO aceita queda de 10 a 15 bpm como tardia quando há variabilidade reduzida sem acelerações
ContraçõesNormal até 5 em 10 min; taquissistolia com 6 ou maisMesma definiçãoSem divergência: 5 é normal, 6 já é taquissistolia
Padrão sinusoidal3 a 5 ondas regulares por minuto, forma de sino, pequena amplitude, persistindo por 20 minAmplitude 5 a 15 bpm, 3 a 5 ciclos por minuto, por mais de 30 min, com acelerações ausentes; pseudossinusoidal dura menos de 30 minEntre 20 e 30 minutos o traçado é categoria III para um documento e não é patológico para o outro

Os três degraus, lado a lado

DegrauNICHD/ACOGFIGOConduta
TranquilizadorCategoria I: exige todos — linha de base 110-160, variabilidade moderada, sem tardias nem variáveis; precoces e acelerações são indiferentesNormal: linha de base 110-160, variabilidade 5-25 bpm, sem desacelerações recorrentesAlta previsão de ausência de hipóxia ou acidose no momento do exame. Sem necessidade de intervenção
IndeterminadoCategoria II: tudo que não é I nem III. Inclui bradicardia sem variabilidade ausente, taquicardia, variabilidade mínima ou acentuada, variabilidade ausente sem desacelerações recorrentes, tardias recorrentes com variabilidade moderada, variáveis recorrentes, prolongadas e ausência de aceleração após estímuloSuspeito: falta uma característica de normalidade, sem característica patológicaBaixa probabilidade de hipóxia e acidose. Corrigir causas reversíveis, manter monitorização e reavaliar após reanimação intrauterina
AnormalCategoria III: variabilidade ausente SOMADA a tardias recorrentes, ou a variáveis recorrentes, ou a bradicardia; ou padrão sinusoidalPatológico: linha de base abaixo de 100 bpm, OU variabilidade reduzida, OU acentuada, OU sinusoidal, OU tardias recorrentes, OU prolongada por mais de 5 minAlta probabilidade de hipóxia e acidose. Corrigir causas e somar outros métodos, exceto nas emergências. Sem reversão em poucos minutos, interromper
Traçado plano sem desaceleraçõesCategoria II — a variabilidade ausente sozinha não fecha a categoria III, e não há exigência de duraçãoPatológico pelo quadro de classificação; o quadro de definições do mesmo documento pede mais de 50 min abaixo de 5 bpmO mesmo papel muda de degrau ao trocar de documento — e, na FIGO, ao trocar de quadro: a classificação não repete o prazo da própria definição
Tardias recorrentes com variabilidade moderadaCategoria IIPatológicoA FIGO não faz ressalva sobre a variabilidade nas tardias recorrentes

Reanimação intrauterina: cada medida com seu alvo

MedidaEfeitoQual desaceleração reverte
Decúbito lateralEvita compressão aorto-cava, melhora a perfusão uteroplacentária e alivia a compressão do cordãoTardias, variáveis e prolongadas
Suspensão dos puxos maternosDiminui a compressão do polo cefálicoPrecoces — alvo exclusivo desta medida
Suspensão da ocitocina e uterolíticoReduz a taquissistolia e melhora a oxigenação fetalTardias, variáveis e prolongadas; trata a taquissistolia
Oxigênio para a mãeAumenta o aporte de oxigênio ao fetoMelhora inespecífica da oxigenação, com eficácia registrada como questionável na própria fonte
Hidratação endovenosaCorrige hipovolemia maternaMelhora a perfusão uteroplacentária
AmnioinfusãoAlivia a compressão de cordãoVariáveis e prolongadas

As categorias I, II e III foram construídas para o intraparto. Aplicá-las a um traçado anteparto é erro de contexto, e o capítulo de vitalidade anteparto registra a mesma advertência.

Recorrente é contagem, não gravidade: presente em mais de 50% das contrações em vinte minutos pelo NICHD, em pelo menos 50% pela FIGO. Abaixo disso é intermitente.

A variabilidade acentuada tem significado indeterminado: pode vir de movimentação fetal intensa ou de depressão do sistema nervoso central por evento hipóxico de instalação rápida.

Traçado normal prevê ausência de acidose no momento do exame. A recíproca não vale: traçado alterado não prevê acidose, e é dessa inversão que nasce a cesárea desnecessária.

A ordem em que a hipóxia gradual se instala é reprodutível e cai em prova: primeiro desacelerações tardias ou variáveis, depois aumento da linha de base, depois perda das acelerações, depois perda progressiva da variabilidade, e por fim variabilidade mínima ou ausente com bradicardia.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Variabilidade de exatamente 5 bpm é normal ou reduzida

É mínima, portanto anormal

A faixa mínima é definida como amplitude menor ou igual a 5 bpm, e a faixa moderada só começa em 6 bpm. O valor de 5 cai inteiro na faixa de alarme.

Definições do NICHD/ACOG reproduzidas no Quadro 1 do Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 100 (Femina. 2020;48(1):59-64).

É normal

A faixa reduzida exige ficar abaixo de 5 bpm, e por mais de cinquenta minutos; a faixa normal é escrita como de 5 a 25 bpm, incluindo o próprio 5.

Definições da FIGO reproduzidas no mesmo Quadro 1 do Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 100 (Femina. 2020;48(1):59-64).

Na prova

Um enunciado que oferece o valor exato de 5 bpm está pedindo que o candidato saiba de qual documento veio a alternativa. Se a questão usa o vocabulário de categorias I, II e III, a régua é a do NICHD e 5 bpm é variabilidade mínima; se usa normal, suspeito e patológico, a régua é a da FIGO e 5 bpm é normal. Enunciados brasileiros que definem variabilidade moderada como amplitude de 6 a 25 bpm já declararam o sistema sem dizer o nome.

Quanto tempo um padrão sinusoidal precisa durar

Vinte minutos

O padrão é descrito como 3 a 5 ondas regulares por minuto, em forma de sino e de pequena amplitude, que persiste por vinte minutos.

Definição do NICHD/ACOG reproduzida no Quadro 1 do Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 100 (Femina. 2020;48(1):59-64).

Mais de trinta minutos

O padrão exige amplitude de 5 a 15 bpm, frequência de 3 a 5 ciclos por minuto, duração maior que trinta minutos e coincidência com ausência de acelerações; abaixo disso, e com aspecto dentilhado, chama-se pseudossinusoidal.

Definição da FIGO reproduzida no mesmo Quadro 1 do Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 100 (Femina. 2020;48(1):59-64).

Na prova

A vinheta que informa a duração do padrão está apontando para uma das duas réguas. Registro de vinte e cinco minutos é o intervalo em que as duas discordam por construção, e a alternativa que fala em pseudossinusoidal só existe no vocabulário europeu. Enunciado que descreve aspecto dentilhado, curto e cercado de traçado normal está descrevendo o vizinho benigno, não anemia fetal.

De quanto em quanto tempo se ausculta no trabalho de parto de risco habitual

A cada 30 minutos, uma contração

A avaliação do bem-estar fetal em parturientes de baixo risco deve ser feita com ausculta intermitente em todos os locais de parto, com Pinard ou sonar Doppler, antes, durante e imediatamente após uma contração, por pelo menos um minuto e a cada trinta minutos, registrando como taxa única.

Recomendação 25 das Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017, republicada), seção 9.5.6.

A cada 15 a 30 minutos no primeiro período e a cada 5 a 15 no segundo, duas contrações

A frequência cardíaca fetal deve ser avaliada a cada quinze a trinta minutos no primeiro período e a cada cinco a quinze minutos no segundo período, durante um minuto antes, durante e após duas contrações, com pelo menos trinta segundos depois da contração.

Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 100, seção Métodos de avaliação da vitalidade fetal intraparto (Femina. 2020;48(1):59-64).

Na prova

Os dois documentos são brasileiros, vigentes e discordam. O sinal que denuncia a origem do enunciado é o período do parto: a diretriz nacional dá um intervalo único, sem distinguir primeiro de segundo período, enquanto o protocolo da sociedade dá dois. A menção a palpar o pulso materno para diferenciar os batimentos e a registrar como taxa única vem do texto ministerial. A convergência está na analgesia regional, em que ambos pedem ausculta de cinco em cinco minutos por no mínimo trinta minutos.

Se um traçado plano, sem desacelerações, já é do degrau máximo

Não — é do degrau do meio

A categoria III exige variabilidade ausente somada a desacelerações tardias recorrentes, ou a variáveis recorrentes, ou a bradicardia; padrão sinusoidal é a única alternativa isolada. Variabilidade ausente sem desacelerações recorrentes está listada, com todas as letras, entre os achados da categoria II.

Classificação NICHD/ACOG reproduzida no Quadro 2 do Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 100 (Femina. 2020;48(1):59-64).

Sim — já é patológico

A lista de traçado patológico é de alternativas independentes, e variabilidade reduzida figura nela sozinha, sem exigir companhia de desaceleração ou de bradicardia. O quadro de classificação não repete a exigência de duração que o quadro de definições do mesmo documento impõe ao rótulo reduzida, de modo que a resposta muda conforme a tabela consultada quando o registro é curto.

Classificação FIGO reproduzida no mesmo Quadro 2 do Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 100 (Femina. 2020;48(1):59-64), lida contra as definições do Quadro 1 do mesmo protocolo.

Na prova

É a divergência de maior consequência clínica das quatro, porque separa reavaliar de interromper. O avaliador que quer a resposta do NICHD escreve a vinheta com a palavra categoria e costuma acrescentar a ausência de desacelerações de propósito; o que quer a resposta da FIGO usa patológico e não precisa dizer mais nada sobre desacelerações. Perceber que a diferença é entre uma regra de soma e uma lista de alternativas resolve as duas versões com o mesmo raciocínio. Quando o enunciado informa a duração do registro, verifique também se ela alcança os cinquenta minutos que a definição de variabilidade reduzida exige — a classificação da FIGO não repete esse prazo.

06

Caso resolvido

Primigesta de 26 anos, 39 semanas e 2 dias, gestação de risco habitual, internada em trabalho de parto espontâneo com 6 cm de dilatação, bolsa rota há 3 horas com líquido claro. Recebeu analgesia peridural há 20 minutos. A ausculta passa a mostrar queda dos batimentos, e a equipe instala cardiotocografia. O traçado dos últimos 20 minutos mostra linha de base de 145 bpm, variabilidade de 8 bpm, acelerações presentes e desacelerações que começam cerca de 30 segundos após o início de cada contração, com nadir posterior ao pico e retorno lento à linha de base, presentes em 4 das 6 contrações registradas. A tocografia registra 6 contrações em 10 minutos. A gestante está em decúbito dorsal, PA 96 x 58 mmHg, e a infusão de ocitocina, iniciada há 2 horas, segue correndo.
leitura do traçado
Os cinco parâmetros, na ordem. Linha de base 145 bpm, dentro de 110 a 160. Variabilidade de 8 bpm, que é moderada no NICHD, cuja faixa vai de 6 a 25, e normal na FIGO, cuja faixa vai de 5 a 25 — aqui as duas réguas concordam. Acelerações presentes. Desacelerações lentas, atrasadas em relação à contração, em 4 de 6 contrações: são tardias recorrentes, porque passam de 50%. Contrações: 6 em 10 minutos, que é taquissistolia.
classificação
Tardias recorrentes com variabilidade moderada é o achado que ocupa degraus diferentes conforme a régua. No NICHD é categoria II, porque a categoria III exige variabilidade ausente. Na FIGO é patológico, porque desacelerações tardias recorrentes constam da lista sem ressalva sobre a variabilidade. Nenhuma das duas manda interromper de imediato: a categoria II pede corrigir e reavaliar, e a FIGO, mesmo no patológico, manda corrigir as causas reversíveis antes.
as causas reversíveis, uma a uma
Há três na vinheta e todas são maternas. Taquissistolia, com a ocitocina correndo. Decúbito dorsal, que permite compressão aorto-cava. Hipotensão de PA 96 x 58 mmHg, vinte minutos após peridural, no intervalo em que a alteração de frequência cardíaca fetal é esperada e quase sempre passageira. Nenhuma delas é diagnóstico de insuficiência uteroplacentária estabelecida.
conduta
Suspender a ocitocina, lateralizar a gestante, checar sinais vitais e corrigir a hipotensão com hidratação endovenosa, ofertar oxigênio — com a ressalva de eficácia questionável que a própria fonte registra — e considerar uterolítico se a taquissistolia persistir. Manter a cardiotocografia contínua, que já está indicada por analgesia de parto, por uso de ocitocina e por alteração na ausculta intermitente. Reavaliar.
o que decide o desfecho
Se as tardias cederem com a retirada da ocitocina e a correção do decúbito e da pressão, o traçado volta ao degrau tranquilizador e o trabalho de parto segue, com a ocitocina reintroduzida em dose menor se necessário. Se persistirem, ou se surgirem aumento da linha de base, perda das acelerações e queda da variabilidade — que é a ordem em que a hipóxia gradual se instala —, o quadro deixa de ser reversível e a interrupção passa a ser a conduta, com a via decidida pela dilatação e pela altura da apresentação.
07

Agora feche você

Secundigesta de 31 anos, 40 semanas, em trabalho de parto espontâneo, 8 cm de dilatação, bolsa rota há 1 hora com líquido claro, sem ocitocina. A cardiotocografia contínua, instalada por líquido meconial que depois se mostrou claro, registra nos últimos 30 minutos: linha de base de 150 bpm, oscilação da linha de base que não é detectada a olho nu, ausência de acelerações mesmo após estímulo mecânico do polo cefálico repetido três vezes, e nenhuma desaceleração em todo o registro. A tocografia mostra 4 contrações em 10 minutos. A gestante está em decúbito lateral esquerdo, PA 118 x 74 mmHg, afebril, sem sangramento, e não usa opioide, sulfato de magnésio nem qualquer sedativo.
achado
Variabilidade que não é detectada a olho nu é, por definição, variabilidade ausente — o degrau abaixo da mínima. O NICHD não exige duração nenhuma para nomear a faixa. A FIGO exige: para chamar de reduzida, a amplitude precisa ficar abaixo de 5 bpm por mais de cinquenta minutos, e o registro tem trinta. Não há desacelerações de tipo nenhum, e a dinâmica uterina é normal, com 4 contrações em 10 minutos.
o que foi afastado
Sono fetal dura de vinte a sessenta minutos e reverte espontaneamente ou com estímulo vibroacústico ou mecânico do polo cefálico, repetível três vezes a cada minuto — o estímulo foi feito e não houve resposta. Opioides, sulfato de magnésio e bloqueadores parassimpáticos estão excluídos pela anamnese. Não há febre nem prematuridade. Sobram as causas que não se resolvem na sala de parto: dano neurológico prévio, malformação do sistema nervoso central ou do coração, e hipóxia estabelecida.
onde as duas réguas se separam
Este é o traçado que muda de degrau conforme o documento — e, dentro de um dos documentos, conforme a tabela que se consulta. Pelo NICHD a resposta é limpa: a categoria III exige variabilidade ausente somada a tardias recorrentes, ou a variáveis recorrentes, ou a bradicardia, e nenhuma delas existe aqui; variabilidade ausente sem desacelerações recorrentes e ausência de aceleração após estímulo estão as duas listadas nominalmente na categoria II. Pela FIGO a resposta depende de qual quadro se lê: o quadro de classificação traz variabilidade reduzida sozinha entre os critérios de patológico, sem repetir prazo, enquanto o quadro de definições do mesmo documento condiciona o rótulo reduzida a mais de cinquenta minutos. A itemização da classificação não repete a régua da definição.
08

Onde a banca derruba

  1. 1A dinâmica uterina que ninguém leu A vinheta descreve indução com ocitocina, dilatação de 5 cm, seis contrações em dez minutos e desacelerações tardias repetidas. O aluno vê tardia com repetição e marca cesárea de emergência. O quinto parâmetro estava escrito na própria vinheta: seis contrações em dez minutos é taquissistolia, e a taquissistolia é causa reversível de desaceleração tardia. A conduta é suspender a ocitocina, lateralizar, checar sinais vitais e considerar uterolítico — e só resolver a gestação se as medidas falharem. O erro custa uma cesárea que a primeira medida teria evitado.
  2. 2A profundidade lida como gravidade Uma desaceleração que desce a 70 bpm parece mais grave que uma que desce a 100 bpm, e a vinheta explora isso. O que separa os tipos é a velocidade da queda e o atraso em relação à contração, não a profundidade: queda e recuperação abruptas, em menos de trinta segundos, com aparência mutável, é variável, e a variável é a mais frequente e a mais frequentemente benigna. Uma queda rasa e lenta, atrasada em relação ao pico, é tardia — e é ela que aponta insuficiência uteroplacentária, mesmo tendo caído menos.
  3. 3A régua do anteparto aplicada dentro do parto A vinheta traz uma gestante com restrição de crescimento internada, cardiotocografia sem acelerações em vinte minutos, e pergunta a categoria. A alternativa que oferece categoria II é a mais escolhida. O erro é anterior à classificação: as categorias I, II e III foram construídas para o intraparto e não se aplicam ao anteparto. Fora do trabalho de parto, o que se pergunta é se o traçado é reativo, e a ausência de acelerações em vinte minutos manda prolongar o exame, não classificar o degrau.
  4. 4A variabilidade preservada tratada como irrelevante Diante de desacelerações variáveis recorrentes, o candidato costuma decidir pela recorrência e ignorar o resto da linha. A presença de variabilidade normal e de acelerações transitórias sugere que o feto não está acidótico — é o dado que mantém o traçado no degrau do meio, e é ele que autoriza a conduta de corrigir e reavaliar. O que reclassifica a variável é a perda: perda do shoulder, perda da variabilidade durante a queda, recuperação lenta, overshoot, duração acima de sessenta segundos ou queda que alcança 60 bpm.
  5. 5A bradicardia súbita tratada como problema do traçado A vinheta descreve queda para 75 bpm mantida por mais de três minutos, num traçado até então normal, sem taquissistolia. O aluno institui reanimação intrauterina e aguarda. As medidas estão certas e são insuficientes: bradicardia súbita em traçado previamente bom obriga a procurar evento catastrófico — prolapso de cordão, rotura uterina, descolamento prematuro de placenta, rotura de vasa prévia, colapso ou hipotensão materna. Nessas três primeiras, o próprio documento diz que não há outro método de avaliação a somar; o que existe é interrupção.
  6. 6O traçado alterado lido como acidose confirmada A alternativa que fecha o diagnóstico de sofrimento fetal a partir do traçado é atraente e é falsa em duas frentes. A primeira é estatística: o método tem alta sensibilidade e baixa especificidade, e na maioria das vezes em que sugere acidose o feto não está acidótico. A segunda é de nomenclatura: o termo sofrimento fetal foi abandonado como rótulo de traçado alterado, e o que se escreve no prontuário é situação fetal não tranquilizadora. A condicional só corre num sentido — traçado normal prevê ausência de acidose no momento do exame; traçado alterado não prevê acidose.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: desacelerações que iniciam após o pico da contração com nadir tardio são desacelerações tardias, indicando insuficiência uteroplacentária; a conduta inicial é ressuscitação intrauterina (decúbito lateral esquerdo, O2, hidratação, suspender ocitocina). Precoces coincidem com a contração (compressão cefálica). Variáveis têm início e recuperação abruptos. Não é padrão normal com variabilidade reduzida e desacelerações. Cesárea imediata é reservada se não houver melhora após as medidas.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Duas réguas, quatro fronteiras. Variabilidade de exatamente 5 bpm é mínima para o NICHD, que faz a faixa moderada começar em 6, e normal para a FIGO, que escreve a faixa normal de 5 a 25. Desaceleração prolongada começa em 2 minutos no NICHD e em 3 minutos na FIGO. Padrão sinusoidal exige 20 minutos num documento e mais de 30 no outro. Traçado plano sem desacelerações é categoria II no NICHD, que exige soma de condições, e patológico na FIGO, que lista alternativas. Contração é o parâmetro esquecido: 5 em 10 minutos é normal, 6 já é taquissistolia, e taquissistolia é causa reversível de desaceleração tardia. Cada medida de reanimação intrauterina tem alvo: puxo suspenso reverte precoce, decúbito e uterolítico revertem tardia, variável e prolongada, amnioinfusão reverte variável e prolongada, oxigênio materno vem com eficácia questionável escrita na fonte.

em 30 dias

Refaça as contas da diretriz nacional a partir dos numeradores. Convulsão neonatal: 8 em 13.072 com cardiotocografia contínua contra 24 em 13.027 com ausculta, diferença de 1,2 por mil, ou uma convulsão evitada a cada 813 mulheres monitoradas. Cesárea por sofrimento fetal: 133 em 14.761 contra 57 em 14.753, diferença de 5,1 por mil, ou uma cesárea extra a cada 194. Divida: cerca de 4,2 cesáreas a mais por convulsão evitada, sem diferença em mortalidade, paralisia cerebral ou encefalopatia. Depois releia a coluna de efeito absoluto lembrando que ela não é a subtração das duas colunas de percentual — é o risco relativo agrupado aplicado ao risco do controle. E fixe a direção da condicional: normal prevê ausência de acidose; alterado não prevê acidose.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Primigesta de 24 anos, 39 semanas, chega ao centro obstétrico em trabalho de parto com 5 cm de dilatação e recebe ocitocina para condução. Duas horas depois a enfermagem chama porque os batimentos caem junto com as contrações e demoram a voltar. Colha o que mudou nas últimas duas horas — infusão, decúbito, analgesia, pressão —, leia os cinco parâmetros do traçado na ordem antes de decidir qualquer coisa, diga em voz alta qual desaceleração é essa e por qual mecanismo, institua as medidas de reanimação intrauterina que correspondem a ela e explique à gestante, que está assustada e perguntando se vai ser cesárea, o que a equipe vai fazer primeiro e o que decide o passo seguinte. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Avaliação da vitalidade fetal intraparto – Cardiotocografia intraparto: duas réguas para o mesmo traçado — Preparatório para provas | OsceLabs