Ginecologia e ObstetríciaPuerpério, aleitamento e vitalidade fetal

Oligoâmnio e polidrâmnio: um índice de 5,0 cm cai nos dois lados

Volume de líquido amniótico: oligoâmnio e polidrâmnio (índice de líquido amniótico e maior bolsão vertical)

O índice que soma quatro quadrantes contra o bolsão que mede um só, por que a diretriz brasileira de 2025 escolheu a régua que diagnostica menos, e as 875 gestantes que mediram o que o perfil biofísico deixa passar.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

O protocolo brasileiro vigente declara preferência pela medida do maior bolsão vertical em relação ao índice de líquido amniótico. Qual é a justificativa que o próprio documento apresenta para essa escolha?

02

Como esse tema cai

O líquido amniótico aparece em quase todo capítulo de obstetrícia e quase nunca com um número ao lado. Ele entra como item de lista de fatores de risco no descolamento prematuro de placenta, como veto ao inibidor de prostaglandina no trabalho de parto prematuro, como consequência do inibidor da enzima conversora nas síndromes hipertensivas, como o ponto que falta num perfil biofísico 8 de 10, como sinal de alerta na rotura de membranas e como pista frágil na atresia de esôfago. Em todos esses lugares o adjetivo é a informação: líquido diminuído, líquido aumentado. Este capítulo entrega o número.

A prova pergunta o número porque ele é a única parte do assunto que decide sozinha. Um enunciado que descreve altura uterina menor que a esperada, gestante em uso de um anti-hipertensivo específico e um índice de líquido amniótico está pedindo uma classificação, não uma impressão. E a classificação depende de qual das duas técnicas o examinador usou, porque elas medem coisas diferentes e discordam com frequência conhecida.

Três réguas brasileiras circulam ao mesmo tempo, e o mesmo valor de índice muda de classe entre elas. O que o capítulo percorre é isso: as duas técnicas e por que a diretriz nacional de 2025 prefere a que dá menos diagnósticos; onde exatamente as bordas discordam; quanto o critério de líquido do perfil biofísico deixa passar, medido em 875 gestantes brasileiras; e o que muda quando o oligoâmnio é graduado em vez de apenas declarado.

03

O que muda decisão

Duas réguas para a mesma água, e nenhuma delas mede volume

O volume de líquido amniótico não é medido, é estimado. As duas técnicas semiquantitativas que a obstetrícia usa nasceram com três anos de distância e nunca foram construídas para dar o mesmo número. A primeira registra a medida vertical de um único bolsão — o maior, livre de partes fetais e de alças de cordão, com diâmetro horizontal mínimo de 1 cm. É o maior bolsão vertical, que o protocolo de ultrassonografia obstétrica de terceiro trimestre da Febrasgo abrevia MBV no corpo do texto e MVB na legenda da figura 4, no mesmo arquivo. A segunda, descrita por Phelan e colaboradores em 1987 para gestações de 36 a 42 semanas, divide o abdome materno em quatro quadrantes pelo eixo vertical da linha média e pelo eixo horizontal na altura da cicatriz umbilical, mede o maior bolsão de cada quadrante e soma os quatro. É o índice de líquido amniótico.

A diferença entre elas é aritmética antes de ser clínica. Uma soma de quatro parcelas e uma parcela isolada respondem a perguntas diferentes: o índice pergunta quanto líquido há distribuído pelo útero; o bolsão pergunta se existe em algum lugar uma coluna de líquido suficiente para o feto se mover. Um feto com líquido concentrado num único bolsão profundo e três quadrantes secos pode ter bolsão normal e índice baixo. É por isso que as duas técnicas discordam, e a discordância não é ruído de medida: é o desenho.

A avaliação subjetiva, aquela em que o examinador olha e escreve 'líquido diminuído', está fora das duas. O protocolo brasileiro a dispensa por ser dependente do examinador e por impedir a comparação entre exames feitos por operadores diferentes — que é exatamente o que o pré-natal faz, seriar exames ao longo de semanas. Laudo que traz o adjetivo e não traz o número não permite comparar com o exame anterior nem classificar com qualquer das réguas.

Duas réguas horizontais empilhadas de 0 a 30 centímetros com faixas de classificação diferentes, atravessadas por linhas tracejadas em 20 e em 6 centímetros que caem em classes distintas em cada régua.
As duas réguas de índice de líquido amniótico que circulam nos documentos brasileiros. Um índice de 20 cm é normal numa e polidrâmnio na outra; um índice de 6 cm cai numa faixa que só uma das duas tem.

A tabela oficial da Febrasgo de 2025 usa três classes e as escreve com sinais de desigualdade, não por extenso. Oligoâmnio é bolsão menor que 2 cm ou índice menor que 5 cm. Normal é bolsão de 2 cm a menos de 8 cm, ou índice de 5 cm a menos de 24 cm. Polidrâmnio é bolsão de 8 cm ou mais ou índice de 24 cm ou mais. Quatro números, duas colunas, e o candidato que decorar só a coluna do índice erra a metade das questões que descrevem gemelar, porque em gestação múltipla o índice não separa as cavidades e o bolsão separa.

A borda é o que muda: 5,0 cm cai nos dois lados dependendo de quem escreve

Escrever 'menor que 5' e escrever 'igual ou inferior a 5,0' parece a mesma frase e não é. A tabela da Febrasgo de 2025 classifica como normal o índice de 5 cm exatos, porque a faixa normal começa em 5 e o oligoâmnio termina antes dele. A casuística do Setor de Vitalidade Fetal do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP define oligoidrâmnio como índice 'de valor igual ou inferior a 5,0 cm' — e ali o mesmo 5,0 é oligoidrâmnio. O número não muda; o operador de comparação muda, e com ele a classe.

A discordância de borda não para na entrada. A casuística de Caxias do Sul, que adota a classificação do próprio Phelan, usa quatro faixas em vez de três: oligodramnia abaixo de 5 cm, intermediário de 5 a 8 cm, normal de 8 a 18 cm e polidramnia acima de 18 cm. Um índice de 6 cm é normal pela Febrasgo e intermediário por Phelan — uma classe que a tabela brasileira de 2025 não tem. Um índice de 20 cm é normal pela Febrasgo e polidrâmnio por Phelan, porque o teto de uma é 24 e o da outra é 18.

Há uma terceira borda, e essa mora dentro do perfil biofísico. O parâmetro de líquido do perfil pontua dois quando existe um bolsão de líquido amniótico maior que 2 cm medido em dois planos perpendiculares, e pontua zero quando não existe. Um bolsão de 2,0 cm exatos é normal pela tabela da Febrasgo, que inclui o 2, e vale zero ponto no perfil biofísico, que exige ultrapassá-lo. O mesmo feto, na mesma tarde, com a mesma medida, sai com 'volume normal' no laudo morfológico e com dois pontos a menos no perfil.

Para a prova, o comportamento útil é ler o enunciado procurando o operador antes do número. Enunciado que escreve 'índice de líquido amniótico de 4,2 cm' resolve sozinho, porque 4,2 é oligoâmnio nas três réguas. Enunciado que escreve exatamente 5,0 cm, ou exatamente 2,0 cm de bolsão, está testando a borda, e a resposta depende do documento que o enunciado cita. Quando ele não cita nenhum, a régua da diretriz nacional vigente é a que resolve: menor que 5 é oligoâmnio, e 5,0 exato não é.

Por que a diretriz brasileira escolheu a régua que diagnostica menos

O protocolo da Febrasgo não trata as duas técnicas como equivalentes. Ele escreve, literalmente, que se dá preferência ao método da medida do maior bolsão por causa da simplicidade da técnica, e acrescenta que, em estudos comparativos, a medida do índice levou a maior frequência de diagnósticos de oligoâmnio quando comparada à do bolsão, acarretando maior taxa de intervenções, sem melhora dos desfechos obstétricos. A revisão sistemática que o protocolo cita nessa frase, na sua própria lista de referências, é a de Nabhan e Abdelmoula, de 2008, sobre índice contra bolsão único como teste de rastreamento.

Vale ser exato sobre a atribuição, porque a prova cobra isso: a frase sobre excesso de intervenção é da Febrasgo, e a revisão de Nabhan e Abdelmoula é a referência que a sustenta. Nenhum dos números deste capítulo vem dessa revisão; os que aparecem adiante são de séries brasileiras, e cada um é atribuído ao serviço que o produziu.

O raciocínio da preferência é contraintuitivo e cai em prova por isso. Quando duas réguas discordam, o reflexo é escolher a mais sensível, a que acha mais doença. Aqui a diretriz escolhe deliberadamente a que acha menos, e a justificativa não é de acurácia — é de consequência. Um diagnóstico a mais de oligoâmnio no termo produz indução de parto, cesariana e internação; se essa cadeia não melhora desfecho, o diagnóstico extra é dano. A régua não foi escolhida por acertar mais, e sim por intervir menos sem piorar o resultado.

A segunda vantagem declarada é operacional e vale ponto na questão de gemelar: o bolsão é facilmente aplicável em gestações gemelares porque permite avaliar cada cavidade amniótica de forma independente. O índice de quatro quadrantes não distingue de qual saco veio cada bolsão, o que o torna inútil justamente na situação em que a discordância de líquido entre os dois fetos é o achado que define a doença.

As 875 gestantes de Campinas, e o que o perfil biofísico deixa passar

Entre agosto de 1997 e abril de 1998, o serviço de ecografia do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da Unicamp e um serviço privado da mesma cidade avaliaram 875 gestantes normais, da 36ª à 42ª semana, num único examinador. Excluíram hipertensão crônica e gestacional, diabetes, macrossomia, rotura de membranas, senescência placentária precoce, gestação múltipla, restrição de crescimento, anomalia congênita, óbito fetal e isoimunização. A pergunta era direta: adotando o índice como padrão de referência, quantos oligoâmnios a medida do maior bolsão encontra, nos cortes de 10, 20 e 30 milímetros?

Tomando como anormal o índice abaixo do percentil 2,5 para a idade gestacional, 28 das 875 gestantes tinham oligoâmnio. O bolsão de 10 mm encontrou 2 delas. O bolsão de 20 mm — que é o corte usado dentro do perfil biofísico — encontrou 14. O bolsão de 30 mm encontrou 21. As sensibilidades correspondentes, recalculadas dos numeradores, são 7,14%, 35,90% e 75,00%; o artigo publica 7,1%, 35,9% e 75,0%, e as três fecham.

Barra de 28 casos de oligoâmnio pelo índice, com três barras menores abaixo mostrando quantos casos cada ponto de corte do maior bolsão detectou: 2, 14 e 21.
Das 28 gestantes que o índice de líquido amniótico classificou como oligoâmnio na série de Campinas, o bolsão de 20 milímetros encontrou 14 e o de 30 milímetros encontrou 21.

A especificidade caminha na direção contrária e por isso a conclusão não é trivial. Com 10 mm, nenhum falso-positivo: 847 de 847, especificidade de 100,0%. Com 20 mm, 834 de 836, ou 99,76%, publicado como 99,8%. Com 30 mm, 810 de 847, ou 95,63%, publicado como 95,6%. Trocar 10 mm por 30 mm compra 68 pontos percentuais de sensibilidade e custa 4,4 pontos de especificidade — e é essa conta que sustenta a conclusão dos autores de que apenas o corte de 30 mm é satisfatório.

Há um detalhe aritmético que o leitor precisa ver, porque muda o peso de um dos três números. As linhas de 10 mm e de 30 mm da tabela de contingência descrevem o mesmo padrão de referência e somam a mesma coisa: 28 gestantes com oligoâmnio pelo índice e 847 sem, total 875. A linha de 20 mm, na mesma tabela e sob o mesmo percentil, soma 39 com oligoâmnio e 836 sem — total 875 igualmente, mas com o padrão de referência deslocado em 11 casos. A sensibilidade publicada de 35,9% só fecha com o denominador 39; com o denominador 28 que as outras duas linhas usam, os mesmos 14 casos dariam 50,00%. O número fecha por uma rota e não pela outra, e a leitura segura é a de que o corte de 20 mm encontra entre um terço e metade dos oligoâmnios que o índice encontra.

O bloco do percentil 10 da mesma tabela não tem esse problema e serve de conferência: as três linhas somam 75 com oligoâmnio e 800 sem, em todas. As sensibilidades recalculadas são 2/75, 16/75 e 40/75, ou 2,67%, 21,33% e 53,33%, publicadas como 2,7%, 21,3% e 53,3%. Os seis valores preditivos desse bloco também fecham exatos, incluindo 40 de 58 igual a 0,69 e 782 de 800 igual a 0,96.

O bloco do percentil 2,5 mostra ainda dois hábitos de arredondamento opostos dentro do mesmo artigo, e reconhecer isso evita o aluno achar que errou a conta. O valor preditivo positivo do corte de 20 mm é 14 de 16, ou 0,875, publicado como 0,87 — truncado. A especificidade do mesmo corte é 834 de 836, ou 99,761%, publicada como 99,8% — arredondada. Já o valor preditivo positivo do corte de 30 mm é publicado como 0,43, e 21 de 58 dá 0,362: esse não reconcilia por rota nenhuma e não deve ser usado. O valor preditivo negativo da mesma linha, 810 de 817 igual a 0,99, fecha.

O que a série entrega para a prova, então, é uma frase e não uma tabela: o critério de líquido do perfil biofísico não é o critério de oligoâmnio. Um feto pode receber os dois pontos do perfil por ter um bolsão acima de 20 mm e, no mesmo exame, ter índice na faixa de oligoâmnio. Perfil biofísico 10 de 10 não exclui oligoâmnio pelo índice, e é essa a pegadinha que o enunciado monta quando descreve um perfil normal ao lado de um índice baixo.

Graduar o oligoâmnio muda o que se encontra, e 3,0 cm é a linha

O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP reuniu 572 gestações de alto risco com oligoidrâmnio, definido por índice igual ou inferior a 5,0 cm, excluídas as múltiplas, as com anomalia fetal e as com rotura de membranas. Dentro delas separou dois grupos pelo corte de 3,0 cm: 220 casos com oligoidrâmnio grave, 38,5% do total, e 352 casos com índice entre 3,1 e 5,0 cm, os outros 61,5%. Todas foram avaliadas com cardiotocografia de repouso, perfil biofísico e dopplervelocimetria de artéria umbilical e cerebral média.

A cardiotocografia suspeita ou alterada apareceu em 51 das 220 gestações graves, ou 23,18%, contra 49 das 352 do outro grupo, ou 13,92%. O resumo do artigo publica 23,2% para o grupo grave, que fecha exato, e 14,9% para o comparador, que a própria tabela contradiz: as duas linhas somam 9,1% e 4,8%, isto é, 13,9%. É transposição de dígito no resumo, e o valor que reconcilia com a tabela é 13,9%.

O perfil biofísico alterado, com pontuação de 4, 2 ou 0, ocorreu em 23 de 220 no grupo grave e em 15 de 352 no comparador, ou 10,45% contra 4,26% — publicados como 10,5% e 4,3%, os dois fechando. A leitura para a frente é que o oligoidrâmnio grave multiplica por 2,4 a chance de perfil alterado. A leitura de trás para frente é outra: entre as 38 gestações com perfil alterado, 23 eram graves, ou 60,5%; entre as 534 com perfil não alterado, 197 eram graves, ou 36,9%. De trás para frente o multiplicador é 1,6, não 2,4 — e é a leitura de trás para frente que corresponde à situação real do plantão, em que o perfil chega antes de qualquer classificação de gravidade.

A centralização da circulação fetal, medida pelo índice de pulsatilidade da artéria cerebral média abaixo do quinto percentil, foi o achado com maior separação: 48 de 88 no grupo grave, ou 54,55%, contra 58 de 171 no comparador, ou 33,92%. Os dois blocos de Doppler são os mais bem compostos da tabela: as quatro colunas somam exatamente 100,00% e todos os totais batem com a soma das próprias células. Já a artéria umbilical não separou nada — 17,9% contra 18,5% de exames alterados, sem significância —, e essa é a informação clínica que o enunciado costuma inverter.

Os dois blocos superiores da mesma tabela têm defeito de composição que vale conhecer, porque ele muda o denominador. A coluna de cardiotocografia do grupo comparador imprime total 351, mas suas três células somam 352, e os percentuais publicados só fecham sobre 352. A coluna de perfil biofísico do mesmo grupo imprime total 350, e suas células somam 352 também. No grupo grave, o total impresso é 219 em uma e 218 na outra, com células somando 220 nas duas. Os denominadores verdadeiros são 352 e 220, os mesmos que o resumo declara.

Dentro de uma única coluna o artigo trunca e arredonda em linhas vizinhas: 115 de 220 é 52,27% e sai como 52,2%, truncado; duas linhas abaixo, 82 de 220 é 37,27% e sai como 37,3%, arredondado. A mesma casa decimal, o mesmo dígito de corte, tratamentos opostos. E há um lugar em que a coluna não fecha em 100: o pH de artéria umbilical no grupo grave publica 28,3% e 71,8%, somando 100,1%, enquanto a coluna vizinha do comparador publica 23,3% e 76,7%, somando 100,00% exatos. 37 de 131 é 28,24%, e com esse valor a coluna do grupo grave também fecharia.

O recado clínico, apesar dos defeitos de composição, é firme e é o que a prova cobra: graduar o oligoidrâmnio separa desfechos. Recém-nascidos pequenos para a idade gestacional foram 32,7% no grupo grave contra 21,0% no comparador — que, recalculado, corresponde a 72 de 220 e 74 de 352. Vale reparar no que a aritmética revela: o grupo grave teve menos recém-nascidos pequenos em número absoluto e mais em proporção, porque o denominador é menor. Mecônio foi 27,9% contra 16,8%, com significância. Peso, idade gestacional ao nascer e pH médio não diferiram.

A mesma coorte, dois cortes, dois veredictos

O experimento natural mais limpo do assunto está numa coorte retrospectiva de 86 gestantes com rotura prematura de membranas pré-termo, entre 24 e 35 semanas, acompanhadas no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, em Recife, entre janeiro de 2008 e dezembro de 2012. Foram excluídas síndromes hipertensivas, diabetes, malformação fetal e infecção já presente na admissão. As mesmas 86 mulheres foram então analisadas duas vezes, com dois pontos de corte diferentes do índice de líquido amniótico.

Comparando índice igual ou maior que 5,0 cm contra menor que 5,0 cm, nenhum desfecho materno diferiu. Comparando índice menor que 3,0 cm contra 3,0 cm ou mais, a corioamnionite apareceu em 36,7% contra 10,7%, com razão de risco de 3,4 e intervalo de confiança de 1,4 a 8,3, com p de 0,004. Mesmas pacientes, mesmo desfecho, mesmo exame: uma régua não achou nada e a outra achou o triplo do risco.

Os grupos são recuperáveis por duas rotas independentes, e as duas concordam. Pela primeira, 11 de 30 dá 36,67% e 6 de 56 dá 10,71%, os dois arredondando para os valores publicados, e 30 mais 56 dá exatamente as 86 gestantes declaradas. Pela segunda, a razão dessas mesmas frações — 11 vezes 56 sobre 30 vezes 6 — dá 3,42, que é a razão de risco publicada de 3,4. Então 30 das 86 gestantes, ou 34,9%, tinham índice abaixo de 3,0 cm, e nesse subgrupo houve 11 casos de corioamnionite.

A contenção precisa ser dita junto com o número, porque sem ela a conclusão vira outra coisa. Numa rotura de membranas, quem tem o índice mais baixo é, em regra, quem rompeu antes ou rompeu mais, e a perda de líquido e a ascensão bacteriana compartilham o mesmo mecanismo. A exclusão de quem já chegou infectada reforça o efeito, porque retira do braço de menor índice justamente os casos em que a infecção precedeu tudo. O índice abaixo de 3,0 cm marca as gestantes com maior risco de corioamnionite; não é ele que causa a corioamnionite.

Uma última medida do mesmo artigo não reconcilia e por isso não entra em nenhuma conta deste capítulo: a correlação entre índice e idade gestacional do parto sai com coeficiente de determinação de 0,78 numa regressão linear simples de 86 casos, valor alto demais para o que a variável explica em clínica. A direção — quanto maior o índice, mais tarde o parto — é plausível; a magnitude publicada não é utilizável.

Oligoâmnio sem bolsa rota: o que ele anuncia e o que ele não causa

Quando a membrana está íntegra, o líquido baixo deixa de ser explicado por vazamento e passa a apontar para o feto. A casuística do Hospital Geral da Universidade de Caxias do Sul varreu 6.060 prontuários entre março de 1998 e setembro de 2001, identificou 105 casos de oligodramnia, isto é 1,73% dos atendimentos, e analisou os 51 sem rotura de membranas contra 61 controles com índice acima de 5 cm.

O achado que a prova cobra é a associação com malformação: 17,6% contra 3,3%, razão de risco de 5,4. Recalculado, são 9 de 51 e 2 de 61, e a razão dessas duas proporções dá 5,38 — fecha. Mas o multiplicador de 5,4 só vale na direção em que foi calculado. Invertido, entre as 11 crianças com malformação, 9 vinham de gestação com oligodramnia, ou 81,8%; entre as 101 sem malformação, 42 vinham, ou 41,6%. De trás para frente o multiplicador é 1,97, não 5,4. Quem lê o 5,4 como 'malformação é cinco vezes mais provável neste feto' está lendo na direção errada.

A mortalidade da série é pequena e recuperável por duas rotas, o que a torna um bom exercício. As taxas publicadas no grupo com oligodramnia são 2,0% fetal, 5,9% neonatal precoce e 7,8% perinatal. Sobre 51 casos isso corresponde a 1, 3 e 4 óbitos, e a segunda rota confirma: 1 mais 3 é exatamente 4. Repare que os percentuais não somam — 2,0 mais 5,9 dá 7,9 e o publicado é 7,8 — porque a taxa perinatal foi calculada do numerador 4 e não da soma dos arredondamentos. Nenhuma das três diferenças contra o grupo controle foi significativa.

Duas armadilhas de leitura estão nessa mesma série. A primeira é o mecônio: 11,8% no grupo com oligodramnia contra 14,8% nos controles, sem significância — mais frequente no grupo de líquido normal, ao contrário do que a fisiologia de concentração faz esperar, e ao contrário do que a série do Hospital das Clínicas mediu em gestações de alto risco. A segunda é o rótulo do grupo controle: a tabela o chama de normal, e o resumo do mesmo artigo o chama de 'quantidade intermediária e normal', porque a classificação de quatro faixas que o artigo adota coloca 5 a 8 cm numa faixa própria. São as mesmas 61 mulheres com dois nomes, e o segundo é o correto.

O contraponto honesto fecha a série. A taxa de cesariana no grupo com oligodramnia foi de 70,6%, ou 36 de 51, contra 21,3%, ou 13 de 61, nos controles — três vezes mais. Uma taxa dessas está muito acima de qualquer referência nacional, e o que ela mede não é o dano do líquido baixo: mede a seleção de uma unidade de medicina perinatal universitária e o fato de que o próprio oligoâmnio é indicação de interrupção em vários protocolos. O comparador, em 21,3%, também não representa o país — está abaixo da taxa brasileira. Nenhum dos dois braços é a população geral.

E há a contenção de construção, que incide sobre um braço só: dos 105 casos de oligodramnia identificados, 54 foram excluídos por prontuário incompleto — 51,4% do total —, enquanto o grupo de comparação foi montado justamente pelo critério de integridade dos dados. O braço exposto perdeu metade de si por falha de registro; o braço controle nasceu completo por definição. Diferenças pequenas e não significativas entre eles, como as de mortalidade, precisam ser lidas com essa perda em mente.

O que empurra o número para cada lado

Depois da 20ª semana, o líquido amniótico é essencialmente urina fetal, e o equilíbrio é entre o que o feto produz e o que ele deglute. Toda causa de oligoâmnio cai em três portas: perda pela membrana rota, produção baixa por rim que não filtra ou trato urinário obstruído, e redistribuição de fluxo, quando a insuficiência placentária faz o feto priorizar cérebro, coração e suprarrenais e privar rim e pulmão. É por essa terceira porta que oligoâmnio e restrição de crescimento andam juntos, e por que a centralização apareceu em 54,55% dos oligoidrâmnios graves da série paulista.

As causas medicamentosas merecem parágrafo próprio porque são as que o enunciado esconde na lista de medicamentos em uso. Inibidor da enzima conversora e bloqueador do receptor de angiotensina derrubam a diurese fetal e produzem oligoâmnio prolongado, com hipoplasia pulmonar e deformidades por compressão. O inibidor de prostaglandina usado como tocolítico faz o mesmo, e é por isso que ele está proibido a partir de 32 semanas e vetado, em qualquer idade gestacional, diante de oligoâmnio prévio ou restrição de crescimento. Nos dois casos, o oligoâmnio é a manifestação renal de uma droga, e a conduta é suspender, não induzir.

Do outro lado, polidrâmnio tem três portas simétricas: deglutição impedida, como na atresia de esôfago e nas anomalias de sistema nervoso central que abolem a deglutição; produção aumentada, como no diabetes materno mal controlado, em que a hiperglicemia fetal produz poliúria, e na anemia fetal com circulação hiperdinâmica; e desequilíbrio entre cavidades, que é a transfusão feto-fetal da gemelar monocoriônica. A maioria dos casos, porém, permanece idiopática, e por isso polidrâmnio isolado é pista e não diagnóstico — a atresia de esôfago, por exemplo, responde por menos de um quinto deles.

Duas situações fogem da régua geral e a prova gosta delas. Na gemelar monocoriônica, a transfusão feto-fetal é caracterizada por bolsão vertical abaixo de 2 cm no doador e acima de 8 cm no receptor, avaliados em cada cavidade separadamente — os mesmos dois números da tabela da Febrasgo, aplicados a dois fetos em vez de um. E na gestação prolongada, o oligoâmnio é o parâmetro prognóstico que mais pesa entre as complicações perinatais, por sinalizar risco aumentado de asfixia e de síndrome de aspiração meconial — motivo pelo qual toda gestante com 41 semanas confirmadas vai para avaliação de bem-estar fetal com índice de líquido amniótico e monitoramento cardíaco.

04

As réguas, lado a lado

Três tabelas resolvem quase todo enunciado do tema: a que classifica o volume pelas duas técnicas na régua nacional vigente, a que mostra onde as réguas brasileiras discordam de borda, e a que liga a graduação do oligoidrâmnio ao que se encontra nos testes de vitalidade.

  1. 1Ler o laudo procurando qual técnica gerou o número. Índice de líquido amniótico é a soma dos quatro quadrantes; maior bolsão vertical é uma coluna só, com diâmetro horizontal mínimo de 1 cm. Laudo com adjetivo e sem número não classifica.
  2. 2Classificar pela régua da Febrasgo de 2025: oligoâmnio é bolsão menor que 2 cm ou índice menor que 5 cm; polidrâmnio é bolsão de 8 cm ou mais ou índice de 24 cm ou mais; entre os dois pares, normal.
  3. 3Diante do valor exato da borda — índice de 5,0 cm, bolsão de 2,0 cm —, verificar qual documento o enunciado citou. Sem citação, vale a régua nacional vigente, em que 5,0 e 2,0 caem no normal.
  4. 4Em gestação gemelar, medir bolsão por cavidade e nunca somar quadrantes. Bolsão abaixo de 2 cm num feto com bolsão acima de 8 cm no outro, em monocoriônica, é transfusão feto-fetal e encaminhamento urgente.
  5. 5Diante de oligoâmnio, procurar a porta: bolsa rota, insuficiência placentária com restrição de crescimento, anomalia renal ou obstrutiva, e a lista de medicamentos em uso, atrás de inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina ou inibidor de prostaglandina.
  6. 6Graduar antes de decidir: índice igual ou inferior a 3,0 cm concentra centralização, perfil biofísico alterado, mecônio e recém-nascido pequeno; entre 3,1 e 5,0 cm as mesmas alterações aparecem em cerca de metade da frequência.
  7. 7Não usar o perfil biofísico como exclusão de oligoâmnio: o parâmetro de líquido do perfil é medido por bolsão único, e um bolsão acima do corte convive com índice na faixa de oligoâmnio.
  8. 8Diante de polidrâmnio, procurar diabetes materno, obstáculo à deglutição fetal e anemia fetal — e aceitar que a maioria permanece idiopática, de modo que o achado isolado é pista, não diagnóstico.

Oligoâmnio — bolsão menor que 2 cm

Coluna de líquido curta e útero apertado sobre o feto. Índice correspondente abaixo de 5 cm. Três portas explicam: perda por membrana rota, produção baixa por rim ou trato urinário, e redistribuição de fluxo na insuficiência placentária. Some a lista de medicamentos: inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina e inibidor de prostaglandina derrubam a diurese fetal.

Normal — bolsão de 2 a menos de 8 cm

Índice correspondente de 5 cm a menos de 24 cm. É a faixa em que 5,0 cm exatos e 2,0 cm exatos entram pela régua nacional vigente, e é a mesma faixa em que 2,0 cm de bolsão pontua zero no perfil biofísico, cujo critério exige ultrapassar os 2 cm. Guardar a diferença evita a questão que descreve perfil máximo ao lado de índice baixo.

Polidrâmnio — bolsão de 8 cm ou mais

Índice correspondente de 24 cm ou mais pela régua vigente, e acima de 18 cm pela classificação de quatro faixas. Deglutição impedida, produção aumentada por hiperglicemia fetal ou anemia, e desequilíbrio entre cavidades na monocoriônica. A maioria permanece idiopática, e por isso o achado isolado é pista e não diagnóstico.

A régua nacional vigente: as duas técnicas na mesma tabela

ClassificaçãoMaior bolsão verticalÍndice de líquido amnióticoO que a técnica responde
OligoâmnioMenor que 2 cmMenor que 5 cmHá em algum lugar coluna de líquido para o feto se mover?
NormalDe 2 cm a menos de 8 cmDe 5 cm a menos de 24 cmQuanto líquido há distribuído pelo útero?
Polidrâmnio8 cm ou mais24 cm ou maisAs duas respondem; o bolsão dispensa a soma
TécnicaUma coluna vertical, diâmetro horizontal mínimo de 1 cm, sem partes fetais nem alças de cordãoSoma dos maiores bolsões dos quatro quadrantes, divididos pela linha média e pela cicatriz umbilical
Preferência declaradaEscolhida: mais simples e aplicável por cavidade na gemelarDiagnostica mais oligoâmnio, com mais intervenção e sem melhora de desfechoPreferência da Febrasgo, protocolo de obstetrícia n. 43, de 2025

Onde as réguas brasileiras discordam, e qual valor troca de lado

Valor medidoFebrasgo 2025Quatro faixas de PhelanSérie do Hospital das ClínicasPerfil biofísico
Índice de 4,2 cmOligoâmnioOligodramniaOligoidrâmnio
Índice de 5,0 cm exatosNormal, porque o corte é menor que 5Fora da oligodramnia, que é abaixo de 5Oligoidrâmnio, porque o corte é igual ou inferior a 5,0
Índice de 6,0 cmNormalIntermediário, faixa de 5 a 8Fora do oligoidrâmnio
Índice de 20 cmNormal, porque o teto é 24Polidramnia, porque o teto é 18
Bolsão de 2,0 cm exatosNormal, porque a faixa começa em 2Zero ponto: o critério exige bolsão maior que 2 cm
Índice igual ou inferior a 3,0 cmOligoâmnioOligodramniaOligoidrâmnio grave

Graduar o oligoidrâmnio: o que muda entre 3,0 cm e 5,0 cm (572 gestações de alto risco, Hospital das Clínicas da USP)

AchadoÍndice igual ou inferior a 3,0 cm (n = 220)Índice de 3,1 a 5,0 cm (n = 352)Leitura
Cardiotocografia suspeita ou alterada51 de 220, ou 23,18%49 de 352, ou 13,92%O resumo publica 14,9% para o comparador; a tabela dá 13,9%
Perfil biofísico alterado (4, 2 ou 0)23 de 220, ou 10,45%15 de 352, ou 4,26%2,4 vezes para a frente; 1,6 vez de trás para frente
Centralização na artéria cerebral média48 de 88, ou 54,55%58 de 171, ou 33,92%Maior separação da série; as colunas fecham em 100,00%
Doppler de artéria umbilical alterado33 de 184, ou 17,93%59 de 319, ou 18,50%Sem diferença: a umbilical não separa gravidade aqui
Mecônio no líquido41 de 147, ou 27,89%46 de 273, ou 16,85%Denominador cai de 220 e 352 para 147 e 273
Recém-nascido pequeno para a idade gestacional72 de 220, ou 32,73%74 de 352, ou 21,02%Menos casos em número absoluto e mais em proporção
pH de artéria umbilical abaixo de 7,2037 de 131, ou 28,24%51 de 219, ou 23,29%Publicado 28,3%, e a coluna fecha em 100,1% por isso

A técnica dos quatro quadrantes foi descrita para gestações de 36 a 42 semanas; aplicá-la fora dessa janela é uso extrapolado, e as curvas por idade gestacional que existem mostram que o percentil 2,5 do índice cai de 62,1 mm com 36 semanas para 16,6 mm com 42 semanas — quase quatro vezes menos.

Um corte fixo de 5 cm, portanto, é generoso com 36 semanas e severo com 42, e é por isso que as séries que usam percentil por idade gestacional encontram números diferentes das que usam corte fixo.

O parâmetro de líquido do perfil biofísico e o diagnóstico de oligoâmnio são réguas distintas, com técnica distinta e corte distinto. Perfil 10 de 10 não exclui oligoâmnio pelo índice.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Índice de líquido amniótico ou maior bolsão para diagnosticar oligoâmnio?

O bolsão, e a diretriz nacional o diz por escrito

O protocolo de ultrassonografia obstétrica de terceiro trimestre escreve que se dá preferência ao método da medida do maior bolsão vertical, pela simplicidade da técnica, e registra que, em estudos comparativos, a medida do índice levou a maior frequência de diagnósticos de oligoâmnio, acarretando maior taxa de intervenções sem melhora dos desfechos obstétricos. Acrescenta a vantagem de permitir avaliação independente de cada cavidade na gestação gemelar.

Febrasgo, Protocolo de Obstetrícia n. 43, Femina 2025;53(6):831-5, que sustenta a frase na revisão sistemática de Nabhan e Abdelmoula, de 2008

O bolsão só serve com 30 mm, e o perfil biofísico usa 20

Na validação feita em 875 gestantes normais de 36 a 42 semanas em Campinas, adotando o índice como referência, o bolsão de 10 mm teve sensibilidade de 7,1% e o de 20 mm, 35,9%; só o corte de 30 mm chegou a 75,0%, com especificidade de 95,6%. A conclusão dos autores é que a capacidade de diagnosticar oligoâmnio pelo bolsão é satisfatória apenas com o corte em 30 mm — e o corte embutido no perfil biofísico é o de 20 mm.

Perrotti, Cecatti e colaboradores, Rev Bras Ginecol Obstet. 2000;22(1):7-12

Na prova

O enunciado entrega qual leitura quer pelo tipo de dado que apresenta. Se traz um laudo com um valor e pergunta a classificação ou a conduta, quer a régua da diretriz vigente, com as duas colunas da tabela e a preferência declarada pelo bolsão. Se traz sensibilidade, especificidade ou pontos de corte em milímetros, quer a leitura de validação, em que o bolsão de 20 mm é o pior dos três testados. Os dois não se contradizem no papel: a diretriz escolhe a régua pela consequência da intervenção, e a série mede a concordância entre réguas.

Um índice de exatamente 5,0 cm é oligoâmnio?

Não é: a faixa normal começa em 5

A tabela de classificação do volume de líquido amniótico escreve oligoâmnio como índice menor que 5 cm e normal como índice de 5 cm a menos de 24 cm. Pelo operador de comparação usado, o valor de 5,0 cm exatos pertence à faixa normal. É a régua nacional em vigor e a que vale quando o enunciado não cita outro documento.

Febrasgo, Protocolo de Obstetrícia n. 43, Femina 2025;53(6):831-5

É: o corte clássico inclui o 5,0

A casuística do Setor de Vitalidade Fetal do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP caracteriza oligoidrâmnio por índice 'de valor igual ou inferior a 5,0 cm', e é esse mesmo limite que ela usa para caracterizar volume anormal dentro do perfil biofísico. Com esse operador, 5,0 cm exatos entram no diagnóstico, e a série inteira de 572 gestações foi montada assim.

Nomura, Francisco, Miyadahira e Zugaib, Rev Bras Ginecol Obstet. 2002;24(6):401-6

Na prova

Quando o enunciado escolhe um valor redondo de borda — 5,0 cm de índice, 2,0 cm de bolsão —, ele está testando o operador de comparação, não o conhecimento do número. Procure no enunciado a citação de um documento: se ele cita a diretriz brasileira vigente, 5,0 é normal; se descreve uma casuística ou usa a expressão 'igual ou inferior', 5,0 é oligoidrâmnio. Sem citação nenhuma, responda pela régua vigente, e desconfie da questão que dá exatamente o valor de corte sem dizer de onde ele veio.

Mecônio é mais frequente quando há oligoâmnio?

Sim, e a graduação separa

Nas 572 gestações de alto risco com oligoidrâmnio do Hospital das Clínicas, o mecônio apareceu em 41 de 147 casos graves, ou 27,89%, contra 46 de 273 com índice entre 3,1 e 5,0 cm, ou 16,85%, com diferença significativa. A explicação oferecida é de concentração: menos diluente para a mesma eliminação.

Nomura, Francisco, Miyadahira e Zugaib, Rev Bras Ginecol Obstet. 2002;24(6):401-6

Não necessariamente, e a série sem bolsa rota vai na direção oposta

Na casuística de Caxias do Sul, restrita a oligodramnia com membranas íntegras, o mecônio apareceu em 6 de 51 gestações com líquido reduzido, ou 11,8%, contra 9 de 61 controles, ou 14,8%, sem diferença significativa — e numericamente mais frequente no grupo de líquido normal. A mesma série não registrou nenhum caso de síndrome de aspiração meconial em qualquer dos dois grupos.

Madi, Morais e colaboradores, Rev Bras Ginecol Obstet. 2005;27(2):75-9

Na prova

As duas séries medem populações diferentes, e é essa diferença que o enunciado sinaliza. Gestação de alto risco com oligoidrâmnio graduado aponta para a leitura da série paulista, em que o mecônio acompanha a gravidade. Oligoâmnio isolado com membranas íntegras, sem doença materna, aponta para a série gaúcha, em que o mecônio não separou os grupos. Diante de enunciado que afirma o mecônio como consequência obrigatória do líquido baixo, a afirmação está forte demais para qualquer das duas.

06

Caso resolvido

Gestante de 31 anos, segunda gestação, com 38 semanas e 2 dias confirmadas por ultrassonografia de 11 semanas, hipertensa crônica em uso de metildopa desde antes da gravidez. Comparece à consulta de rotina assintomática, com pressão de 128 por 82 mmHg, movimentação fetal referida como habitual e altura uterina de 31 cm. Traz ultrassonografia feita na véspera: feto único, cefálico, peso estimado no percentil 22, placenta anterior sem alterações, perfil biofísico de 10 em 10, com o parâmetro de líquido pontuado a partir de um bolsão vertical de 2,6 cm, e índice de líquido amniótico de 4,4 cm. O médico que a atende conclui que o perfil máximo tranquiliza, considera o índice um erro de digitação e agenda retorno em duas semanas.
achado
O laudo traz as duas técnicas no mesmo exame, e elas discordam. O bolsão de 2,6 cm está na faixa normal, que vai de 2 a menos de 8 cm, e por isso pontuou no perfil biofísico. O índice de 4,4 cm está abaixo de 5 e é oligoâmnio por qualquer das réguas brasileiras que circulam, inclusive a vigente.
achado
A altura uterina de 31 cm com 38 semanas e 2 dias está abaixo do esperado, e a combinação de medida baixa com peso estimado no percentil 22 e líquido reduzido aponta para insuficiência placentária, não para erro de datação — a idade gestacional foi fixada por ultrassonografia de primeiro trimestre e não se recalcula.
raciocinio
Chamar o índice de erro de digitação é o erro central. O parâmetro de líquido do perfil biofísico é medido por bolsão único, e a validação em 875 gestantes mostrou que o corte de 20 mm encontra 14 de cada 28 oligoâmnios que o índice encontra. Perfil de 10 em 10 e índice de oligoâmnio no mesmo exame é um resultado esperado, e não uma inconsistência a ser descartada.
raciocinio
O oligoâmnio aqui tem porta provável identificável na própria história. Não há perda de líquido referida, o que afasta a porta da membrana rota como primeira hipótese; a hipertensão crônica com peso fetal no limite inferior aponta para redistribuição de fluxo por insuficiência placentária, que é a porta em que oligoâmnio e restrição de crescimento caminham juntos.
raciocinio
A lista de medicamentos precisa ser revista item a item antes de qualquer conduta. Metildopa não produz oligoâmnio; inibidor da enzima conversora e bloqueador do receptor de angiotensina produzem, por queda da diurese fetal, e são a causa reversível que muda completamente a conduta quando presente. A confirmação de que a gestante usa metildopa e nada mais é informação relevante, não detalhe.
conduta
O retorno em duas semanas é a decisão a desfazer. Oligoâmnio com 38 semanas e 2 dias, em gestante hipertensa crônica com feto no limite inferior de crescimento, é situação de avaliação imediata de vitalidade e de discussão do momento do parto, com o caso encaminhado para serviço com capacidade de vigilância — não de observação ambulatorial por catorze dias.
conduta
A complementação útil é o estudo dopplervelocimétrico, e a série de 572 gestações diz qual território olhar: a artéria cerebral média separou gravidade, com centralização em 54,5% dos oligoidrâmnios graves contra 33,9% dos demais, enquanto a artéria umbilical não diferenciou nada. Doppler de umbilical normal não tranquiliza neste cenário.
erro_evitado
O erro evitado é tratar duas medidas discordantes como uma delas estando errada. As técnicas medem coisas diferentes por construção, e a discordância é informação: há líquido suficiente em um bolsão e pouco líquido distribuído pelo útero. Quem descarta o índice em favor do perfil perde exatamente o dado que muda a conduta.
07

Agora feche você

Gestante de 24 anos, primigesta, com 33 semanas e 4 dias, chega ao pronto-socorro obstétrico referindo perda de líquido claro pela vagina há cerca de doze horas, contínua, sem contrações e sem sangramento. Está afebril, com pressão de 110 por 70 mmHg, útero indolor e batimentos cardíacos fetais de 148 por minuto. O exame especular mostra saída de líquido claro pelo orifício externo do colo. A ultrassonografia feita na admissão informa feto único, cefálico, peso estimado no percentil 45 e índice de líquido amniótico de 2,6 cm, com maior bolsão vertical de 1,4 cm. O plantonista registra 'oligoâmnio' no prontuário, inicia corticoide e antibiótico e escreve que reavaliará o volume de líquido em 48 horas para decidir a conduta.
achado
Complete: classifique o volume de líquido pelas duas técnicas informadas, usando a régua nacional vigente, e diga se as duas concordam neste caso e por quê.
raciocinio
Complete: explique por que, nesta paciente, o valor do índice tem peso diferente do que teria numa gestante com membranas íntegras, e nomeie a porta pela qual o líquido está baixo.
raciocinio
Complete: diga o que a coorte de 86 gestantes com rotura prematura de membranas pré-termo do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira encontrou quando comparou os desfechos maternos pelo corte de 5,0 cm e depois pelo corte de 3,0 cm, e em qual dos dois grupos esta paciente cai.
raciocinio
Complete: explique por que a associação medida naquela coorte entre índice baixo e corioamnionite não autoriza dizer que o líquido baixo causa a infecção, nomeando o que os dois compartilham.
conduta
Complete: diga o que a vigilância desta gestante precisa incluir além da reavaliação do volume de líquido, e por que esperar 48 horas apenas para remedir o índice é vigilância insuficiente.
erro_evitado
Complete: aponte o que muda no plano se, quarenta e oito horas depois, o índice subir para 4,8 cm — e diga se essa subida, sozinha, autoriza reclassificar a paciente como de menor risco.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Usar o perfil biofísico para excluir oligoâmnio Atrai porque o perfil traz o líquido entre seus parâmetros e porque um escore máximo parece resolver a pergunta. O parâmetro de líquido do perfil é medido por bolsão único, com corte de 2 cm, e o diagnóstico de oligoâmnio pelo índice usa outra técnica e outro corte. Na validação de 875 gestantes, o corte de 20 mm encontrou 14 dos 28 oligoâmnios que o índice encontrou — as outras receberam os dois pontos do perfil mesmo assim. Perfil 10 de 10 com índice de 4 cm é um resultado coerente, não uma contradição.
  2. 2Somar quadrantes em gestação gemelar Atrai porque o índice é a técnica mais conhecida e porque a soma parece mais completa. Em gemelar o índice não distingue de qual saco veio cada bolsão, e a informação que interessa é exatamente a diferença entre as cavidades. A avaliação é por bolsão, cavidade a cavidade — e a transfusão feto-fetal em monocoriônica é caracterizada por bolsão abaixo de 2 cm no doador e acima de 8 cm no receptor, os mesmos dois números da tabela geral aplicados a dois fetos.
  3. 3Tratar oligoâmnio como diagnóstico, e não como sinal com três portas Atrai porque o achado é chamativo e porque existe conduta associada a ele. Oligoâmnio é resultado de perda por membrana rota, de produção baixa por rim ou trato urinário, ou de redistribuição de fluxo na insuficiência placentária — e, com frequência esquecida, de medicamento em uso. Sem identificar a porta, a conduta pode ser exatamente oposta: suspender um inibidor da enzima conversora resolve; induzir o parto por causa dele, sem investigar, troca um problema reversível por prematuridade iatrogênica.
  4. 4Aceitar o adjetivo do laudo como classificação Atrai porque 'líquido diminuído' parece informação suficiente e porque o laudo veio de um especialista. A avaliação subjetiva está fora das duas técnicas aceitas justamente por ser dependente do examinador e impedir comparação entre exames seriados, que é o que o pré-natal faz. Laudo sem o número e sem a técnica não permite classificar por nenhuma das réguas nem comparar com o exame anterior.
  5. 5Ler razões de risco na direção errada Atrai porque o número publicado é grande e memorável. Na série sem bolsa rota, a malformação foi 5,4 vezes mais frequente entre as gestações com oligodramnia — 9 de 51 contra 2 de 61. Invertendo, entre as 11 crianças com malformação, 9 vinham de gestação com oligodramnia, ou 81,8%, contra 41,6% entre as 101 sem malformação: de trás para frente o multiplicador é 1,97. O enunciado que descreve um feto com oligoâmnio e pergunta a chance de malformação está na direção de 5,4; o que descreve uma malformação e pergunta pelo líquido está na de 1,97.
  6. 6Confundir polidrâmnio com diagnóstico de atresia de esôfago Atrai porque a associação é ensinada com força e porque a vinheta costuma trazer as duas coisas juntas. O polidrâmnio decorre de anomalia congênita em menos de um quinto das vezes, e a maioria dos casos permanece idiopática. Polidrâmnio na anamnese obstétrica é pista compatível, e a ausência dele não afasta nada — o que confirma a atresia é a sonda que para, não o volume de líquido da gestação.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O documento escreve que se dá preferência ao bolsão pela simplicidade da técnica e acrescenta que, em estudos comparativos, o índice levou a maior frequência de diagnósticos de oligoâmnio, acarretando maior taxa de intervenções sem melhora dos desfechos obstétricos. O raciocínio é de consequência, não de acurácia: a régua escolhida é a que diagnostica menos. Dizer que o bolsão é mais sensível inverte o que está medido — na validação em 875 gestantes de Campinas o bolsão teve sensibilidade de 7,1% com 10 mm, 35,9% com 20 mm e 75,0% com 30 mm tendo o índice como referência. O índice também não depende de Doppler nem de equipamento especial: é a soma dos maiores bolsões dos quatro quadrantes, medida no mesmo exame de rotina. A segunda vantagem declarada do bolsão é permitir avaliar cada cavidade amniótica de forma independente na gestação gemelar.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Duas técnicas semiquantitativas, e nenhuma mede volume. Maior bolsão vertical é uma coluna só, com diâmetro horizontal mínimo de 1 cm, sem partes fetais nem cordão; índice de líquido amniótico é a soma dos maiores bolsões dos quatro quadrantes, técnica de Phelan, descrita para 36 a 42 semanas. A régua nacional vigente, do protocolo de obstetrícia n. 43 da Febrasgo, de 2025: oligoâmnio é bolsão menor que 2 cm ou índice menor que 5 cm; normal é bolsão de 2 a menos de 8 e índice de 5 a menos de 24; polidrâmnio é bolsão de 8 ou mais e índice de 24 ou mais. A diretriz prefere o bolsão, por simplicidade e porque o índice diagnostica mais oligoâmnio, com mais intervenção e sem melhora de desfecho. Em gemelar, bolsão por cavidade — a transfusão feto-fetal é bolsão abaixo de 2 cm no doador e acima de 8 cm no receptor. As bordas discordam entre documentos brasileiros: 5,0 cm exatos é normal pela Febrasgo e oligoidrâmnio pela série do Hospital das Clínicas, que usa 'igual ou inferior a 5,0'; 20 cm é normal pela Febrasgo e polidramnia pelas quatro faixas de Phelan, cujo teto é 18; e bolsão de 2,0 cm é normal na tabela e vale zero ponto no perfil biofísico, que exige ultrapassar 2 cm. Em 875 gestantes normais de Campinas, com o índice como referência, a sensibilidade do bolsão foi 7,1% com 10 mm, 35,9% com 20 mm e 75,0% com 30 mm, com especificidades de 100,0%, 99,8% e 95,6% — só 30 mm é satisfatório, e 20 mm é o corte do perfil biofísico. Perfil máximo não exclui oligoâmnio pelo índice.

em 30 dias

Graduar muda o que se encontra. Em 572 gestações de alto risco com oligoidrâmnio no Hospital das Clínicas da USP, 220 tinham índice igual ou inferior a 3,0 cm e 352 tinham entre 3,1 e 5,0. No grupo grave: cardiotocografia suspeita ou alterada em 23,2%, perfil biofísico alterado em 10,5%, centralização da cerebral média em 54,5%, recém-nascido pequeno em 32,7% e mecônio em 27,9%; no comparador, 13,9%, 4,3%, 33,9%, 21,0% e 16,8%. O Doppler de artéria umbilical não separou os grupos. Na coorte de 86 gestantes com rotura prematura de membranas pré-termo do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, o corte de 5,0 cm não encontrou diferença nenhuma nos desfechos maternos, e o corte de 3,0 cm encontrou corioamnionite em 36,7% contra 10,7%, com razão de risco de 3,4 — mesmas pacientes, mesmo desfecho, duas réguas. A leitura correta é que o índice baixo marca risco e não o causa, porque quem perdeu mais líquido é quem rompeu antes. Na série sem bolsa rota de Caxias do Sul, 105 de 6.060 atendimentos, oligodramnia associou-se a cesariana (70,6% contra 21,3%), a sofrimento fetal agudo e a malformação (17,6% contra 3,3%), sem diferença de mortalidade; a taxa de cesariana mede a seleção do serviço, não o dano do líquido. Causas de oligoâmnio: perda, produção baixa e redistribuição, mais inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina e inibidor de prostaglandina. Causas de polidrâmnio: deglutição impedida, produção aumentada por hiperglicemia ou anemia fetal, transfusão feto-fetal — e a maioria idiopática.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 38 semanas, hipertensa crônica, chega à consulta com um ultrassom feito ontem. O laudo diz que o perfil biofísico deu dez de dez e, algumas linhas abaixo, informa um índice de líquido amniótico de 4,4 cm. Ela está sem queixas e quer saber se está tudo bem. Conduza a anamnese, revise a lista de medicamentos em uso, decida o que pedir e explique a ela por que um exame que deu a nota máxima ainda assim exige encaminhamento hoje. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Volume de líquido amniótico – Oligoâmnio e polidrâmnio: um índice de 5,0 cm cai nos dois lados — Preparatório para provas | OsceLabs