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Clínica MédicaReumatologia

Gota e artrites por cristais

A prova cobra três coisas: reconhecer a monoartrite aguda em 24 horas, não deixar o ácido úrico normal na crise afastar o diagnóstico, e saber a quem se dá hipouricemiante — e até que número.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 52 anos, hipertenso e etilista, acorda de madrugada com dor intensa, edema, calor e rubor na primeira articulação metatarsofalângica do pé direito. Ao exame: PA 140/88 mmHg, FC 90 bpm, T 37,4 °C, articulação exuberantemente inflamada e muito dolorosa ao toque. Refere episódio semelhante há 1 ano. Qual a causa mais provável do quadro?

02

Como esse tema cai

Gota é a artrite inflamatória mais comum do adulto e uma das poucas que a medicina sabe curar: dissolvido o depósito de cristal, a doença some. Por isso ela cai tanto — a questão quase sempre põe o candidato diante de uma decisão que separa quem entendeu o mecanismo de quem decorou o quadro clínico.

Três recortes se repetem. O primeiro é o diagnóstico: monoartrite de instalação explosiva, com o ácido úrico colhido no pronto-socorro voltando normal. O segundo é o tratamento da crise em quem tem doença renal crônica, insuficiência cardíaca ou úlcera péptica — ou seja, exatamente o perfil do paciente com gota, o que elimina uma a uma as opções fáceis. O terceiro é a decisão de baixar o urato: em quem, com qual droga, começando com qual dose e até que número.

Há ainda um recorte brasileiro específico, que é de regulação: os protocolos do Ministério da Saúde definem quem a atenção básica resolve e quem vai para o reumatologista. Prova de banca com perfil de SUS gosta desse corte, e ele mudou entre 2016 e 2022.

As outras artrites por cristais entram por contraste. O depósito de pirofosfato de cálcio — a antiga pseudogota — é o diagnóstico da idosa com artrite de punho ou joelho e condrocalcinose na radiografia, e a pegadinha é oferecer alopurinol a ela.

03

O que muda decisão

O cristal, não o número: por que hiperuricemia não é gota

O urato circula dissolvido no plasma até cerca de 6,8 mg/dL. Acima disso o líquido está supersaturado e o urato monossódico pode precipitar em cristais, de preferência onde a temperatura é mais baixa e o tecido é cartilaginoso: primeira metatarsofalangeana, médio-pé, tornozelo, joelho, bursa olecraniana, pavilhão auricular. É essa faixa físico-química, e não um valor de laboratório, que explica por que a meta de tratamento é abaixo de 6 mg/dL — o EULAR 2016 é explícito ao ancorar a meta no ponto de saturação.

Ter urato alto, porém, não é ter gota. A maioria dos hiperuricêmicos nunca terá uma crise, e a doença só existe quando o cristal já depositado desencadeia inflamação. O gatilho da crise costuma ser uma variação brusca da uricemia — para cima (excesso alimentar, álcool, desidratação, início de diurético) ou para baixo (início de hipouricemiante, pós-operatório) —, que remodela a superfície do cristal e a torna capaz de ativar o inflamassoma NLRP3 e liberar interleucina-1 beta. Daí duas consequências práticas: a crise pode começar justo quando se começa a tratar, e o bloqueio de IL-1 é a saída quando nada mais pode ser usado.

A hiperuricemia raramente é primária pura. Ela costuma vir acompanhada — obesidade, síndrome metabólica, doença renal crônica, hipertensão, diurético tiazídico ou de alça, álcool. O paciente com gota é, quase por definição, um paciente com comorbidade, e isso é o que estreita as opções de tratamento da crise.

Uma correção de curso importante: hiperuricemia assintomática não se trata com hipouricemiante. O ACR 2020 é forte nesse ponto, e a razão é simples — o número sozinho não prediz quem terá doença, e o tratamento tem custo e risco. O que se faz é olhar o que está por trás: peso, álcool, diurético substituível, função renal.

A crise: o relógio faz o diagnóstico

A crise de gota tem uma assinatura temporal que quase nenhuma outra artrite reproduz: dor que atinge o pico em menos de 24 horas, frequentemente acordando o paciente de madrugada, com eritema sobre a articulação, dor ao mero toque do lençol e incapacidade de apoiar o pé. Sem tratamento resolve em até 14 dias e o paciente volta ao normal completo entre os episódios. Esses três marcos — pico em menos de 24 horas, resolução em até 14 dias, normalidade entre as crises — são exatamente os itens de curso temporal dos critérios ACR/EULAR 2015.

A localização ajuda e pontua: primeira metatarsofalangeana (podagra) vale 2 pontos; tornozelo ou médio-pé sem envolvimento da primeira metatarsofalangeana valem 1. Cerca de metade das primeiras crises é podagra, mas a apresentação em joelho, punho ou dorso do pé é comum o bastante para não afastar o diagnóstico.

Febre baixa e leucocitose acompanham a crise e não afastam nada — nem confirmam. O diagnóstico que não pode passar é artrite séptica, que também é monoartrite aguda, quente e incapacitante. Sempre que houver dúvida, e sobretudo se houver porta de entrada, imunossupressão, prótese articular ou febre alta, a articulação é puncionada: o líquido vai para Gram, cultura, contagem celular e pesquisa de cristais. Achar cristal de urato não exclui infecção — as duas coisas coexistem, e a cultura é que decide.

Na doença de longa data sem tratamento, o quadro muda de forma: crises mais frequentes, poliarticulares, com intervalos curtos, e o aparecimento de tofos — nódulos subcutâneos com material esbranquiçado, tipicamente em pavilhão auricular, bursa olecraniana, polpas digitais e tendão de Aquiles. Tofo ao exame vale 4 pontos nos critérios e muda a meta de tratamento.

Diagnóstico: o líquido sinovial manda, o ácido úrico atrapalha

O padrão-ouro é ver o cristal. À microscopia de luz polarizada, o urato monossódico aparece como agulha, com birrefringência negativa forte; o pirofosfato de cálcio aparece como romboide, com birrefringência positiva fraca. Nos critérios ACR/EULAR 2015 a presença de cristais de urato em articulação ou bursa sintomática, ou em um tofo, é critério suficiente: classifica o paciente como gota sem que se precise somar mais nada.

Quando a punção não é possível — e na atenção básica quase nunca é —, aplica-se o escore: o paciente entra se teve ao menos um episódio de edema, dor ou sensibilidade em articulação periférica ou bursa, e é classificado como gota com 8 pontos ou mais somando padrão articular, características do episódio, curso temporal, tofo, ácido úrico e imagem.

E aqui está a armadilha mais cobrada de todas: o ácido úrico sérico dosado durante a crise frequentemente vem normal ou baixo. Não é acaso nem erro de laboratório — a uricemia cai na fase aguda, e os próprios critérios mandam pontuar o valor colhido fora da crise, mais de 4 semanas após o início do episódio e sem terapia hipouricemiante em uso. Um valor abaixo de 4 mg/dL nessas condições subtrai 4 pontos; entre 4 e 6 mg/dL não soma nada; de 6 a menos de 8 soma 2; de 8 a menos de 10 soma 3; a partir de 10 soma 4.

A imagem entra quando existe. A ultrassonografia articular mostra o sinal do duplo contorno — a camada de urato depositada sobre a cartilagem — e a tomografia de dupla energia (DECT) mostra o depósito diretamente; qualquer um dos dois vale 4 pontos. A radiografia simples só é útil na doença estabelecida: erosão em saca-bocado com borda esclerótica e sobreposição de partes moles vale outros 4 pontos, mas radiografia normal não afasta gota nenhuma.

Comparação microscópica entre cristais em agulha de urato monossódico, alguns dentro de um neutrófilo, e cristais romboides de pirofosfato de cálcio.
Urato monossódico: agulhas, birrefringência negativa forte, frequentemente intracelulares na crise. Pirofosfato de cálcio: romboides, birrefringência positiva fraca.

Tratar a crise: as três drogas e o que sobra do paciente

Colchicina, anti-inflamatório não esteroide e corticoide têm eficácia semelhante na crise. A escolha se faz por exclusão, a partir das comorbidades — e é assim que a prova monta a questão: dá um paciente com clearance baixo, insuficiência cardíaca ou úlcera e observa qual opção sobra.

A colchicina precisa ser precoce. O ensaio AGREE mostrou que, iniciada nas primeiras 12 horas, a dose baixa foi tão eficaz quanto a dose alta com perfil de segurança comparável ao do placebo; o EULAR 2016 recomenda 1 mg seguido de 0,5 mg uma hora depois — com os comprimidos de 0,5 mg disponíveis no Brasil, dois comprimidos e mais um em uma hora. O esquema antigo, de 1 mg de hora em hora até melhora ou diarreia, é o erro histórico que sobrevive nas alternativas erradas. A colchicina deve ser evitada com taxa de filtração glomerular abaixo de 30 mL/min/1,73 m², e não deve ser coprescrita com inibidores potentes da glicoproteína P ou do CYP3A4 — ciclosporina, claritromicina, verapamil, cetoconazol e ritonavir —, combinação que eleva a concentração plasmática e pode causar toxicidade grave. Com estatina, atenção à miotoxicidade.

O anti-inflamatório não esteroide, em dose plena por 5 a 7 dias, é a escolha do paciente jovem e sem comorbidade. Cai fora na doença renal crônica, na insuficiência cardíaca, na doença ulcerosa e no anticoagulado.

O corticoide oral é a saída elegante do paciente renal: dois ensaios randomizados sustentam prednisolona 30 a 35 mg/dia por 5 dias, com eficácia equivalente à do naproxeno 500 mg duas vezes ao dia e à da indometacina. Na monoartrite de articulação acessível, a infiltração intra-articular de corticoide resolve com exposição sistêmica mínima — desde que a artrite séptica tenha sido afastada, o que exige punção com Gram e cultura antes. Quando as três classes estão contraindicadas e as crises são frequentes, entram os bloqueadores de IL-1; infecção ativa é contraindicação.

Duas condutas de ligação. Quem já usa alopurinol não o suspende durante a crise — suspender oscila a uricemia e piora tudo. E o paciente que fica com o pé imobilizado por dias merece repouso da articulação, gelo e analgesia, sem que isso substitua o anti-inflamatório.

Baixar o urato: quem, com quanto, até que número

Tratar a crise não trata a doença. Quem dissolve o depósito é o hipouricemiante, mantido por tempo indeterminado com o urato dentro da meta. A indicação clássica, comum ao EULAR 2016 e ao ACR 2020, é: crises recorrentes (duas ou mais por ano), tofo, artropatia por urato ou erosão radiográfica, e litíase renal por ácido úrico.

O alopurinol é a primeira linha em todo mundo, inclusive na doença renal crônica, e é o único hipouricemiante nomeado pelos protocolos brasileiros de encaminhamento. Começa-se com 100 mg/dia — dose baixa por dois motivos: reduzir a crise de mobilização e reduzir o risco de reação cutânea grave, que se associa a doses iniciais altas — e escalona-se de 100 em 100 mg a cada 2 a 4 semanas até o alvo, com dose menor e escalonamento mais lento na insuficiência renal. O ponto que a prova adora: 300 mg/dia, a dose que quase todo mundo prescreve e deixa parada, não atinge a meta em 30% a 50% dos pacientes com função renal normal; com 600 a 800 mg/dia, 75% a 80% chegam a menos de 6 mg/dL. O protocolo brasileiro de regulação define tratamento otimizado como alopurinol até 800 mg ao dia associado à profilaxia — abaixo disso, o caso ainda é da atenção básica.

A meta é urato abaixo de 6 mg/dL, e abaixo de 5 mg/dL enquanto houver tofo, artropatia crônica ou crises frequentes, até a dissolução completa dos depósitos — o mesmo par de números que o Ministério da Saúde adotou em 2016. Manter o urato abaixo de 3 mg/dL por anos não é recomendado.

Ao iniciar o hipouricemiante, a profilaxia de crise é obrigatória: colchicina 0,5 a 1 mg/dia durante os primeiros 6 meses, com dose reduzida na insuficiência renal; se a colchicina não for tolerada ou estiver contraindicada, anti-inflamatório em dose baixa. Esse é o prazo do EULAR 2016; o ACR 2020 fala em ao menos 3 a 6 meses, prolongando enquanto houver crises. Sem profilaxia, o paciente tem crise nas primeiras semanas, conclui que o remédio piorou a doença e abandona o tratamento — a causa número um de fracasso.

Se o alvo não for atingido com dose apropriada de alopurinol, ou se ele não for tolerado, troca-se por febuxostate ou uricosúrico, ou associa-se um uricosúrico. Na gota tofácea grave, refratária a tudo, existe a pegloticase. Nada disso está disponível na atenção básica brasileira, e é por isso que o escalonamento correto do alopurinol resolve a quase totalidade dos casos que a prova apresenta.

O paciente inteiro: comorbidade, medicamento e o que trocar

Gota é marcador de risco cardiovascular e renal, e o tratamento das comorbidades interfere na uricemia. O EULAR 2016 dedica uma recomendação inteira a isso: quando a gota aparece em paciente que usa diurético tiazídico ou de alça, substitua o diurético se possível; para a hipertensão, considere losartana ou bloqueador de canal de cálcio; para a dislipidemia, considere estatina ou fenofibrato. É a recomendação mais fácil de transformar em questão — o paciente hipertenso com gota em uso de hidroclorotiazida é praticamente uma vinheta pronta.

Do lado do estilo de vida, a orientação que sustenta números é modesta e honesta: perda de peso, redução de álcool (especialmente cerveja e destilados), redução de carne vermelha, frutos do mar e bebidas adoçadas com frutose, e hidratação. Dieta isolada baixa o urato pouco — não substitui o hipouricemiante em quem tem indicação, e dizer o contrário ao paciente é a forma mais rápida de perder a adesão.

O risco relevante do alopurinol é a síndrome de hipersensibilidade, rara e grave, que se manifesta nas primeiras semanas com exantema, febre, eosinofilia e disfunção hepática ou renal. Exantema em quem começou alopurinol há poucas semanas é motivo de suspensão imediata, não de anti-histamínico. O alelo HLA-B*58:01 concentra grande parte desse risco; o ACR 2020 recomenda de forma condicional testá-lo antes de iniciar alopurinol em pessoas de ascendência do sudeste asiático e afro-americana. Nenhum dos protocolos brasileiros de encaminhamento incorporou essa testagem — a diferença aqui é de disponibilidade do exame na rede, não de discordância clínica, e o que resta como proteção é a dose inicial baixa e a suspensão ao primeiro sinal cutâneo.

Sobre o febuxostate, vale registrar a razão da cautela: o ensaio de segurança cardiovascular que o comparou ao alopurinol em pacientes com doença cardiovascular estabelecida mostrou maior mortalidade cardiovascular no braço do febuxostate, o que fez o ACR 2020 recomendar de forma condicional a troca de volta para alternativa nesses pacientes quando possível.

As outras artrites por cristais: pirofosfato de cálcio e hidroxiapatita

A doença por deposição de pirofosfato de cálcio é a segunda artrite por cristal em frequência e a que mais se confunde com gota na prova. O perfil é oposto: idoso, homem ou mulher, com artrite aguda de joelho ou punho — a antiga pseudogota —, ou com um quadro crônico que imita osteoartrite em articulações atípicas, ou ainda com poliartrite simétrica que imita artrite reumatoide. O cristal é romboide, com birrefringência positiva fraca, e a radiografia mostra condrocalcinose: calcificação linear da fibrocartilagem do menisco e do ligamento triangular do carpo.

Os critérios ACR/EULAR de 2023 organizaram o diagnóstico: entra quem tem dor, edema ou sensibilidade articular não explicados por outra doença; a presença de cristais de pirofosfato no líquido sinovial ou de síndrome do dente coroado é suficiente para classificar; na ausência delas, soma-se um escore ponderado de itens clínicos, metabólicos, laboratoriais e de imagem, e classifica-se com mais de 56 pontos. A síndrome do dente coroado — depósito ao redor do processo odontoide, com cervicalgia aguda intensa, febre e elevação de provas inflamatórias em idoso — é a apresentação que se confunde com meningite e vale ser lembrada.

Duas diferenças de conduta separam as duas doenças. Primeira: não existe terapia que dissolva o cristal de pirofosfato. Trata-se a crise (colchicina, anti-inflamatório, corticoide oral ou intra-articular) e previnem-se recorrências com colchicina em dose baixa — hipouricemiante não tem papel nenhum, e oferecê-lo é o erro plantado nas alternativas. Segunda: o depósito de pirofosfato em pessoa mais jovem ou com quadro exuberante obriga a procurar causa metabólica — hiperparatireoidismo, hemocromatose, hipomagnesemia e hipofosfatasia são as clássicas.

A terceira família é a de fosfato básico de cálcio, ou hidroxiapatita, que não dá artrite aguda de cristal no sentido clássico: dá tendinite calcária, sobretudo do manguito rotador, com dor aguda intensa e calcificação periarticular na radiografia, e a forma destrutiva conhecida como ombro de Milwaukee no idoso. O cristal é pequeno demais para ser visto à luz polarizada, o que costuma ser a pista de que o caso não é gota nem pirofosfato.

Quem a atenção básica resolve e quem sobe de nível

A régua brasileira de encaminhamento é de regulação, não de tratamento: ela define quem a unidade básica resolve. Pelo protocolo do Ministério da Saúde de 2016 e pela revisão de 2022, vai para o reumatologista o paciente com diagnóstico de gota e crises recorrentes — três ou mais no ano — mesmo com adesão adequada ao tratamento otimizado, farmacológico e não farmacológico.

Vai para medicina interna ou nefrologia a hiperuricemia de origem incerta — jovem, mulher na pré-menopausa — e o paciente com doença renal crônica avançada; o corte de função renal mudou entre as duas versões, de taxa de filtração glomerular abaixo de 60 mL/min/1,73 m² em 2016 para estágios 4 e 5, abaixo de 30, em 2022. Vai para ortopedia a gota tofácea crônica com complicação do tofo: infecção de repetição, compressão por efeito de massa ou deformidade que prejudique a função.

O encaminhamento tem conteúdo mínimo exigido, e a prova de banca com viés de SUS já cobrou a lista: manifestações clínicas com número de crises no ano, ácido úrico sérico com data, creatinina sérica com data, cor da pele para o cálculo da taxa de filtração glomerular, tratamentos já realizados com dose e posologia, e demais medicações em uso.

Repare no que não é critério de encaminhamento em nenhuma das versões: a primeira crise típica, a hiperuricemia assintomática e o paciente que respondeu bem ao tratamento. Esses são casos da atenção básica — e quem os encaminha, na lógica do protocolo, ocupa vaga de quem precisa.

04

Classificar, tratar e escalonar

Os critérios ACR/EULAR 2015 servem para classificar quando não há punção, e são a fonte da qual saem os cortes de ácido úrico cobrados em prova. As tabelas seguintes reúnem, na ordem em que a decisão acontece: pontuar, tratar a crise, escalonar o hipouricemiante e diferenciar do pirofosfato.

  1. 1Monoartrite aguda: afastar artrite séptica primeiro — puncionar sempre que houver febre alta, porta de entrada, imunossupressão ou prótese; enviar Gram, cultura, celularidade e pesquisa de cristais.
  2. 2Cristal de urato no líquido sinovial ou no tofo classifica como gota e encerra a investigação diagnóstica.
  3. 3Sem punção, aplicar os critérios ACR/EULAR 2015; 8 pontos ou mais classificam como gota.
  4. 4Tratar a crise pela comorbidade que sobra: colchicina precoce, anti-inflamatório ou corticoide — sem suspender o alopurinol de quem já usa.
  5. 5Definir se há indicação de hipouricemiante: 2 ou mais crises por ano, tofo, erosão ou litíase úrica.
  6. 6Iniciar alopurinol 100 mg/dia com profilaxia associada e escalonar de 100 em 100 mg a cada 2 a 4 semanas até urato abaixo de 6 mg/dL — abaixo de 5 mg/dL se houver tofo.
  7. 7Repetir o ácido úrico apenas fora da crise, mais de 4 semanas após o episódio, para quem ainda não usa hipouricemiante.
  8. 8Encaminhar quem mantém 3 ou mais crises por ano apesar de tratamento otimizado.

Hiperuricemia assintomática

Urato acima do ponto de saturação, sem crise e sem tofo. Pode haver depósito silencioso, mas não há indicação de hipouricemiante: trabalha-se peso, álcool, diurético substituível e função renal.

Crise aguda

Cristal já depositado desencadeia inflamação: dor máxima em menos de 24 horas, eritema, dor ao toque. Resolve em até 14 dias e o intervalo entre as crises é assintomático.

Gota tofácea crônica

Carga de cristal alta, crises frequentes e poliarticulares, tofos e erosão em saca-bocado. A meta desce para menos de 5 mg/dL até a dissolução completa dos depósitos.

DomínioSituaçãoPontos
Critério de entradaAo menos um episódio de edema, dor ou sensibilidade em articulação periférica ou bursaobrigatório
Critério suficienteCristais de urato monossódico em articulação/bursa sintomática ou em tofoclassifica sem somar
Padrão articularTornozelo ou médio-pé, sem envolvimento da 1ª metatarsofalangeana1
Padrão articular1ª metatarsofalangeana (podagra)2
Características do episódio (eritema, não suportar o toque, grande dificuldade de andar)Uma / duas / três características1 / 2 / 3
Curso temporal (≥2 de: pico da dor < 24 h, resolução ≤ 14 dias, normalidade entre episódios)Um episódio típico / episódios típicos recorrentes1 / 2
Tofo ao exame clínicoPresente4
Ácido úrico sérico (fora da crise, > 4 semanas do episódio, sem hipouricemiante)< 4 mg/dL−4
Ácido úrico sérico4 a 6 mg/dL0
Ácido úrico sérico6 a < 8 mg/dL2
Ácido úrico sérico8 a < 10 mg/dL3
Ácido úrico sérico≥ 10 mg/dL4
Líquido sinovialPesquisa de cristais de urato negativa−2
ImagemDepósito de urato: duplo contorno na ultrassonografia ou DECT4
ImagemErosão típica em radiografia de mãos e/ou pés4
ClassificaçãoSoma ≥ 8 pontosgota

Tratamento da crise: escolha por exclusão

OpçãoComoQuando não dá
Colchicina1 mg e mais 0,5 mg após 1 hora (comprimidos de 0,5 mg: 2 + 1), idealmente nas primeiras 12 horasTFG < 30 mL/min/1,73 m²; com ciclosporina, claritromicina, verapamil, cetoconazol ou ritonavir; cautela com estatina
Anti-inflamatório não esteroideDose plena por 5 a 7 diasDoença renal crônica, insuficiência cardíaca, doença ulcerosa, anticoagulação
Corticoide oralPrednisolona 30 a 35 mg/dia por 5 diasInfecção não controlada; cuidado no diabetes descompensado
Corticoide intra-articularMonoartrite de articulação acessível, após punçãoArtrite séptica não afastada
Bloqueador de IL-1Crises frequentes com contraindicação às três opções acimaInfecção ativa

Alopurinol na prática

EtapaConduta
Indicação2 ou mais crises por ano, tofo, artropatia por urato, erosão radiográfica ou litíase por ácido úrico
Dose inicial100 mg/dia — menor e com escalonamento mais lento na insuficiência renal
Escalonamento+100 mg a cada 2 a 4 semanas, guiado pelo urato sérico
TetoAté 800 mg/dia no protocolo brasileiro de encaminhamento; 600 a 800 mg/dia levam 75% a 80% dos pacientes a menos de 6 mg/dL
Alvo< 6 mg/dL; < 5 mg/dL enquanto houver tofo ou gota grave; não manter < 3 mg/dL por anos
Profilaxia associadaColchicina 0,5 a 1 mg/dia por 6 meses (anti-inflamatório em dose baixa se contraindicada)
Durante a criseNão suspender o alopurinol de quem já está em uso
DuraçãoPor tempo indeterminado, com o urato mantido no alvo
Se não atingir o alvoTrocar por febuxostate ou uricosúrico, ou associar uricosúrico ao alopurinol

Gota × doença por deposição de pirofosfato de cálcio

ItemGota (urato monossódico)Pirofosfato de cálcio
QuemHomens de 40 a 60 anos; mulheres após a menopausaIdosos, ambos os sexos
Articulação típica1ª metatarsofalangeana, médio-pé, tornozelo, joelhoJoelho e punho
CristalAgulha, birrefringência negativa forteRomboide, birrefringência positiva fraca
ImagemDuplo contorno na ultrassonografia; erosão em saca-bocadoCondrocalcinose de menisco e do ligamento triangular do carpo
Associações a procurarSíndrome metabólica, doença renal crônica, diuréticos, álcoolHiperparatireoidismo, hemocromatose, hipomagnesemia, hipofosfatasia
Baixar o urato ajuda?É o tratamento da doençaNão tem papel algum
Tratamento da criseColchicina, anti-inflamatório ou corticoideColchicina, anti-inflamatório ou corticoide

O escore ACR/EULAR 2015 é critério de classificação, desenhado para selecionar pacientes de estudo; na prática ele funciona como apoio ao diagnóstico quando a punção não é possível, e não substitui o achado do cristal.

Achar cristal de urato no líquido sinovial não exclui artrite séptica concomitante — Gram e cultura seguem obrigatórios quando há suspeita.

Exantema nas primeiras semanas de alopurinol é motivo de suspensão imediata: é a apresentação inicial da síndrome de hipersensibilidade, ligada ao alelo HLA-B*58:01.

A dose máxima de alopurinol precisa ser ajustada à função renal, e o escalonamento na doença renal crônica é mais lento — o que não significa deixar o paciente com dose fixa insuficiente.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Ácido úrico fora do alvo como gatilho de encaminhamento — dois documentos brasileiros, seis anos de distância

Ministério da Saúde, 2016: urato fora do alvo é motivo de encaminhamento

O protocolo lista como condição de encaminhamento a reumatologia o diagnóstico de gota com ácido úrico fora do alvo terapêutico — abaixo de 6 mg/dL sem tofo e abaixo de 5 mg/dL com tofo — mesmo com adesão adequada ao tratamento otimizado. Encaminha-se também à nefrologia quem tem taxa de filtração glomerular abaixo de 60 mL/min/1,73 m².

Brasil. Ministério da Saúde; UFRGS. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 3 — Reumatologia e Ortopedia Adulto, 2016, item 1.5.

TelessaúdeRS-UFRGS, 2022: o gatilho numérico foi retirado

A revisão manteve apenas as crises recorrentes (três ou mais por ano) como critério de encaminhamento à reumatologia e acrescentou em nota que pacientes estáveis, sem crises e com adesão adequada ao tratamento otimizado, não precisam ter a terapia modificada caso o ácido úrico esteja fora do alvo terapêutico. O corte renal subiu para estágios 4 e 5 — taxa de filtração glomerular abaixo de 30.

TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de regulação ambulatorial: Reumatologia Adulto, versão digital 2022, Protocolo 6 e nota de rodapé 1.

Na prova

O recorte aparece no cenário. Enunciado que fala em unidade básica, fila de regulação, teleconsultoria ou 'critérios de encaminhamento' cobra o documento de regulação, e nele o número que decide é a contagem de crises no ano, não o valor do urato. Enunciado que descreve consultório e pergunta 'qual o alvo terapêutico' cobra a meta de 6 e 5 mg/dL, que os dois documentos brasileiros mantêm como alvo de tratamento. Alternativa que manda encaminhar por urato de 7 mg/dL em paciente sem crises só faz sentido no documento de 2016; alternativa que manda manter a conduta e reforçar adesão só faz sentido no de 2022.

Escalonar até uma meta de urato ou tratar para evitar sintomas

ACR 2020 e EULAR 2016: estratégia de meta, com titulação guiada por dosagens seriadas

Ambos recomendam titular o hipouricemiante guiado por medidas seriadas de urato até menos de 6 mg/dL, e menos de 5 mg/dL na doença grave, porque a velocidade de dissolução do cristal depende de quanto o urato fica abaixo do ponto de saturação. No ACR 2020 essa é uma recomendação forte.

FitzGerald JD et al. Arthritis Care Res. 2020;72(6):744-760; Richette P et al. Ann Rheum Dis. 2017;76(1):29-42, item 6.

American College of Physicians, 2017: tratar para evitar sintomas, sem meta numérica

O colégio julgou insuficiente a evidência de que os benefícios de escalonar a dose até atingir uma meta de urato superem os custos e os riscos do monitoramento repetido e do aumento de dose, e recomendou discutir benefícios, danos e custos com o paciente, ajustando o tratamento pela recorrência de crises.

Qaseem A et al. Ann Intern Med. 2017;166(1):58-68.

Na prova

O vocabulário denuncia o documento. Enunciado que diz 'ajustar a dose até urato sérico menor que 6 mg/dL' ou que fornece dosagens seriadas de urato ao longo de meses está no corpo reumatológico. Enunciado que fala em decisão compartilhada, custo do monitoramento e ausência de meta laboratorial está no corpo da medicina interna norte-americana. Quando as alternativas trazem valores numéricos de urato como desfecho, o recorte é o da estratégia de meta; quando trazem número de crises como desfecho, é o outro.

Começar hipouricemiante já na primeira crise

EULAR 2016: considerar desde o primeiro diagnóstico em perfis de risco

O hipouricemiante deve ser considerado e discutido com todo paciente com diagnóstico definido já na primeira apresentação, e o início próximo ao diagnóstico é recomendado em quem se apresenta com menos de 40 anos, com urato acima de 8 mg/dL ou com comorbidades — insuficiência renal, hipertensão, doença isquêmica do coração, insuficiência cardíaca. O argumento é evitar carga alta de cristal e hiperuricemia prolongada.

Richette P et al. Ann Rheum Dis. 2017;76(1):29-42, item 5.

ACR 2020: condicionalmente contra após a primeira crise, com exceções

A recomendação é condicionalmente contra iniciar hipouricemiante em quem teve a primeira crise, exceto se houver doença renal crônica estágio 3 ou mais, urato acima de 9 mg/dL ou história de litíase — situações em que o início passa a ser condicionalmente recomendado.

FitzGerald JD et al. Arthritis Care Res. 2020;72(6):744-760.

Na prova

Repare nos números que o enunciado escolheu dar. Urato de 8,2 mg/dL em paciente de 35 anos com hipertensão desenha o gatilho europeu; urato de 9,5 mg/dL com creatinina alterada ou cálculo renal desenha a exceção norte-americana. Se o enunciado dá primeira crise típica, paciente de 60 anos, urato de 7,5 mg/dL, função renal normal e nenhuma comorbidade, os dois documentos convergem para não iniciar de imediato — e a alternativa que manda iniciar alopurinol na sala de emergência costuma existir só para testar a profilaxia.

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Caso resolvido

Homem de 54 anos, IMC 33, hipertenso em uso de hidroclorotiazida 25 mg/dia, procura a unidade básica às 8h. Acordou às 4h com dor intensa no hálux direito; em poucas horas a dor chegou ao máximo e agora ele não suporta o peso do lençol sobre o pé. Ao exame: primeira metatarsofalangeana direita edemaciada, quente, com eritema; temperatura axilar 37,4 °C; sem porta de entrada, sem prótese, sem imunossupressão. Traz exames de rotina de dois dias antes: creatinina 1,1 mg/dL, ácido úrico 5,8 mg/dL.
achado
Monoartrite de instalação explosiva na primeira metatarsofalangeana, com pico de dor em menos de 24 horas, eritema e incapacidade de tolerar o toque. Pelos critérios ACR/EULAR 2015: podagra vale 2, três características do episódio valem 3, um episódio típico vale 1 — já são 6 pontos antes de qualquer exame.
interpretação do laboratório
Ácido úrico de 5,8 mg/dL colhido às vésperas da crise não afasta gota: a uricemia cai na fase aguda, e os próprios critérios mandam pontuar o valor obtido fora da crise, mais de quatro semanas após o episódio e sem hipouricemiante em uso. A dosagem será repetida depois — não agora.
descartar o que não pode passar
Sem febre alta, porta de entrada, imunossupressão ou prótese, e com quadro clínico típico, o risco de artrite séptica é baixo; a punção não é obrigatória neste caso, mas continua sendo a conduta se a evolução fugir do esperado ou se a resposta ao tratamento não vier.
tratar a crise
Função renal preservada e sem contraindicação: colchicina 1 mg seguida de 0,5 mg uma hora depois — com os comprimidos de 0,5 mg, dois e mais um —, iniciada o quanto antes; anti-inflamatório em dose plena por 5 a 7 dias é alternativa equivalente. Repouso da articulação e analgesia complementam.
mexer no que causou
A hidroclorotiazida eleva o urato. Substituir o diurético é a recomendação explícita quando a gota aparece em usuário de tiazídico: a hipertensão passa a ser tratada com losartana ou bloqueador de canal de cálcio, ambos associados a menor risco de gota.
decidir sobre o hipouricemiante
Primeira crise, sem tofo, sem litíase, sem doença renal, urato abaixo de 9 mg/dL: não se inicia alopurinol agora. Repete-se o ácido úrico em quatro semanas, orienta-se perda de peso e redução de álcool, e a decisão é retomada se as crises se repetirem — duas ou mais por ano fecham a indicação.
quando encaminhar
Este paciente é da atenção básica. O encaminhamento à reumatologia só entra se ele passar a ter três ou mais crises por ano apesar do tratamento otimizado, que inclui profilaxia e alopurinol escalonado.
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Agora feche você

Mulher de 76 anos, hipertensa, chega ao pronto-atendimento com dor e edema no joelho esquerdo iniciados há dois dias, sem trauma. Ao exame: joelho quente, com derrame moderado, temperatura axilar 37,8 °C. Nunca teve podagra. Radiografia do joelho mostra calcificação linear do menisco. A punção articular obtém líquido turvo com 22.000 leucócitos/mm³, predomínio de neutrófilos, Gram sem bactérias, e cristais romboides com birrefringência positiva fraca. Ácido úrico sérico 6,4 mg/dL.
achado
Monoartrite aguda de joelho em idosa, com condrocalcinose na radiografia e cristais romboides de birrefringência positiva fraca no líquido sinovial: doença por deposição de pirofosfato de cálcio, na apresentação aguda antes chamada de pseudogota.
o que ainda está aberto
Celularidade de 22.000 com predomínio neutrofílico e febre baixa não distinguem cristal de infecção; o Gram negativo não encerra a questão, porque a cultura ainda está em curso e as duas condições podem coexistir.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Usar o ácido úrico da crise para afastar gota A uricemia cai na fase aguda e vem normal em boa parte das crises. O valor que conta é o colhido fora da crise, mais de quatro semanas depois e sem hipouricemiante — é o que os próprios critérios ACR/EULAR 2015 determinam. A alternativa que diz 'ácido úrico normal, portanto não é gota' é a mais atraente e a mais errada.
  2. 2Suspender o alopurinol porque o paciente está em crise Parece lógico — o remédio 'não está funcionando' — e é o contrário: a oscilação da uricemia é o gatilho da crise, e suspender prolonga o problema. Quem já usa mantém a dose; o que se ajusta é o tratamento anti-inflamatório.
  3. 3Iniciar alopurinol sem profilaxia e sem escalonamento Dose cheia de saída aumenta a crise de mobilização e o risco de reação cutânea grave. Começa-se com 100 mg/dia, com colchicina 0,5 a 1 mg/dia por 6 meses associada, escalonando de 100 em 100 mg a cada 2 a 4 semanas. Sem profilaxia, o paciente tem crise, culpa o remédio e abandona.
  4. 4Deixar o alopurinol em 300 mg e chamar de tratamento otimizado Essa dose fixa não atinge a meta em 30% a 50% dos pacientes com função renal normal. Tratamento otimizado, no protocolo brasileiro de encaminhamento, é alopurinol escalonado até 800 mg/dia com profilaxia — encaminhar antes disso ocupa vaga alheia.
  5. 5Tratar hiperuricemia assintomática Urato alto em exame de rotina, sem nunca ter tido artrite ou tofo, não é gota e não recebe hipouricemiante. O que se faz é revisar peso, álcool, diurético substituível e função renal. É recomendação forte do ACR 2020.
  6. 6Colchicina em dose alta ou em quem não pode recebê-la O esquema de 1 mg de hora em hora até melhora ou diarreia foi abandonado: dose baixa iniciada nas primeiras 12 horas tem eficácia equivalente e segurança comparável à do placebo. E colchicina não entra com taxa de filtração glomerular abaixo de 30, nem junto de claritromicina, ciclosporina, verapamil, cetoconazol ou ritonavir.
  7. 7Chamar toda monoartrite aguda febril de gota Artrite séptica se apresenta igual, e a demora custa a articulação. Havendo febre alta, porta de entrada, imunossupressão ou prótese, punciona-se; e achar cristal não exclui infecção — quem decide é a cultura.
  8. 8Oferecer hipouricemiante para depósito de pirofosfato de cálcio É a pegadinha construída sobre a semelhança clínica. Cristal romboide com birrefringência positiva fraca e condrocalcinose na radiografia não têm nada a ver com urato: trata-se a crise e se investiga hiperparatireoidismo, hemocromatose, hipomagnesemia e hipofosfatasia.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Monoartrite aguda, noturna, exuberante da primeira metatarsofalângica (podagra) em homem com fatores de risco (etilismo, hipertensão) e episódio prévio é o quadro clássico de gota por cristais de monourato de sódio. Artrite séptica é possível diferencial, mas o padrão recorrente, autolimitado e o sítio típico favorecem gota (na dúvida, artrocentese). Artrite reumatoide é poliarticular simétrica de mãos, não monoarticular de hálux. Pseudogota acomete mais joelho/punho em idosos, com cristais de pirofosfato. Osteoartrite erosiva não causa monoartrite aguda inflamatória tão intensa.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória: os três marcos de curso temporal da crise (pico em menos de 24 h, resolução em até 14 dias, normalidade entre episódios); por que o ácido úrico da crise não vale; o esquema de colchicina (1 mg + 0,5 mg após 1 hora, nas primeiras 12 horas) e as duas situações em que ela não entra; a dose inicial do alopurinol e o incremento; as metas de 6 e 5 mg/dL.

em 30 dias

Reconstrua sem consultar: a lista de indicações de hipouricemiante; a diferença entre iniciar na primeira crise pelo EULAR 2016 e pelo ACR 2020, com os números de cada um; o critério brasileiro de encaminhamento à reumatologia e o que mudou de 2016 para 2022; a tabela de gota versus pirofosfato de cálcio linha a linha; e o que se faz com o diurético tiazídico do hipertenso com gota.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 58 anos chega à unidade básica com dor intensa no tornozelo esquerdo desde a madrugada, sem trauma. Já teve dois episódios parecidos no hálux no último ano, ambos resolvidos sozinhos em cerca de uma semana. Usa hidroclorotiazida por hipertensão e refere consumo de cerveja nos fins de semana. Ao exame, o tornozelo está edemaciado, quente e muito doloroso ao toque; temperatura axilar 37,3 °C. Conduza a consulta: colha a história, examine, decida se precisa puncionar, trate a crise e defina se este paciente já tem indicação de hipouricemiante e de encaminhamento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Gota e artrites por cristais — Preparatório para provas | OsceLabs