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Síndrome antifosfolípide: o exame que se repete e a droga que não se troca
Trombose não provocada ou perda fetal com anticoagulante lúpico positivo: o exame que se repete e o anticoagulante que sai da mesa
Confirmar persistência do anticorpo, exigir manifestação clínica para a síndrome e escolher entre observação, aspirina, heparina e varfarina.
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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Mulher de 24 anos com histórico de abortos de repetição é internada por trombose venosa profunda extensa. Exames: TTPa alargado que NÃO corrige com plasma normal (teste de mistura), plaquetas 90.000/mm³, VDRL falso-positivo. Pesquisa de anticoagulante lúpico positiva, confirmada em nova dosagem após 12 semanas. Qual o diagnóstico e a anticoagulação de longo prazo mais adequada?
Como esse tema cai
O recorte é o adulto com trombose ou perda gestacional e anticorpo antifosfolipídico reagente, e as decisões que essa combinação obriga: classificar, confirmar no intervalo certo, escolher a droga e definir por quanto tempo. É a trombofilia adquirida mais cobrada em prova de residência, e a única em que o resultado do exame muda a droga em vez de apenas confirmar o que já se ia fazer.
Fica de fora o que já tem dono. A profilaxia perioperatória de tromboembolismo, com seu escore de pontos, pertence ao capítulo de pré e pós-operatório, e as trombofilias hereditárias entram aqui apenas como o que não se deve pedir. A leitura do coagulograma alargado e o teste de mistura pertencem ao capítulo de distúrbios da coagulação da apostila de hematologia, que remete explicitamente a trombofilia com o seu anticoagulante lúpico ao eixo trombótico. O lúpus eritematoso sistêmico tem capítulo próprio nesta mesma apostila, e aqui entra como a doença que acompanha a forma secundária.
Fica dentro o que nenhum deles cobre: os critérios de classificação com o intervalo de doze semanas, as três portas da morbidade obstétrica, o alvo de anticoagulação por território, a conduta na gestante e na portadora assintomática, a forma catastrófica, e a leitura crítica dos números brasileiros que sustentam cada conduta. O capítulo de trombose venosa profunda, na apostila de cirurgia vascular, registra que a suspeita desta síndrome é a principal razão para investigar trombofilia porque o resultado muda a droga — e é esse vão que se fecha aqui: do exame que muda a droga até a droga que se escreve.
O que muda decisão
Um critério clínico e um laboratorial, e o intervalo que separa as coletas
A classificação vigente exige a presença simultânea de um critério clínico e um laboratorial. O clínico se satisfaz de duas maneiras independentes. A primeira é trombose vascular: um ou mais episódios de trombose arterial, venosa ou de pequenos vasos, em qualquer órgão ou tecido, confirmados por Doppler ou por histopatologia que exclua vasculite. A segunda é a morbidade gestacional, que tem regra própria e ocupa a seção seguinte.
O critério laboratorial tem três anticorpos e uma regra de tempo que vale mais que os três juntos. Anticoagulante lúpico presente no plasma, anticardiolipina de classe G ou M em títulos moderados a altos por ensaio imunoenzimático padronizado, e anti-beta-dois-glicoproteína um de classe G ou M. Qualquer um deles serve, e todos exigem a mesma coisa: duas ou mais ocasiões com intervalo mínimo de doze semanas.
O intervalo separa achado de diagnóstico, e é onde mais se erra à beira do leito. Um único exame reagente, colhido na fase aguda do evento trombótico, não fecha critério — e a fase aguda é justamente quando o exame costuma ser pedido. Anticoagulante lúpico positivo na internação obriga a agendar a segunda coleta e a registrar a data; sem esse agendamento, o doente sai com um resultado que ninguém vai saber interpretar dali a um ano.
A quantificação também é critério, e não detalhe de laboratório. O documento nacional escreve título moderado acima de quarenta e título alto acima de oitenta, nas unidades da própria classe. Título baixo, na faixa de dez a vinte unidades, não cumpre critério laboratorial — e a série brasileira de gestantes registra exatamente esse cenário em parte de suas doentes, o que serve de lembrete de que positivo e critério não são sinônimos.
Vale separar o que a positividade dos três anticorpos significa em cada camada. Para a classificação, qualquer um deles basta: a exigência é de persistência, não de acúmulo. Para o risco, o acúmulo importa muito — a positividade dos três da mesma classe define o subgrupo de maior recorrência e é o que retira o anticoagulante oral direto da mesa. Um mesmo dado, portanto, responde a duas perguntas diferentes, e trocá-las é o que faz o médico exigir três exames para fechar diagnóstico.
Os critérios ACR/EULAR de 2023 introduziram uma classificação ponderada: depois de um critério de entrada temporal, somam-se domínios clínicos e laboratoriais, exigindo ao menos 3 pontos em cada lado. Eles têm maior especificidade para pesquisa e não devem ser usados para negar diagnóstico ou tratamento a um paciente clinicamente compatível; em prova, é essencial identificar qual régua o enunciado solicita.
A morbidade obstétrica tem três portas, e só uma delas conta abortamentos
A perda gestacional entra por três portas independentes, e confundi-las muda a conduta da consulta seguinte. A primeira porta é uma ou mais mortes de feto acima de dez semanas, de feto morfologicamente normal, confirmada por ultrassonografia ou pelo exame do feto. Uma única perda basta.
A segunda porta é um ou mais partos prematuros com trinta e quatro semanas ou menos, de feto morfologicamente normal, por eclâmpsia, pré-eclâmpsia ou causas de insuficiência placentária. Também basta um. A terceira é a única que exige repetição: três ou mais abortamentos antes de dez semanas, com exclusão de anormalidades hormonais e anatômicas maternas e de causas cromossômicas do casal.
As três portas não se somam nem se compensam: são alternativas, e qualquer uma sozinha satisfaz o critério clínico. Uma perda tardia isolada preenche; três perdas precoces preenchem; duas perdas precoces não preenchem nenhuma das três — e somá-las a um parto prematuro de trinta e oito semanas continua não preenchendo, porque nem a idade gestacional do parto nem o número de abortamentos alcançam o corte. A leitura é porta a porta, e não por contagem total de eventos.
A consequência prática de errar essa leitura é dupla e cara. Rotular como síndrome quem tem dois abortamentos precoces e um anticorpo reagente expõe a mulher a anticoagulação de longo prazo que ela não precisa; deixar de rotular quem teve uma única morte fetal acima de dez semanas com anticorpo persistente a devolve a uma nova gestação sem heparina nem aspirina, que é o cenário em que a perda se repete.
O corte de dez semanas também organiza o diferencial e explica por que a investigação é curta. Abaixo dele predominam as causas cromossômicas; acima dele a morbidade placentária ganha peso, e é aí que a trombofilia adquirida entra. Por isso a investigação de perda recorrente pede esta síndrome e recusa a triagem das trombofilias hereditárias, que não se associam a maior risco obstétrico.
Em quem pedir o painel, o que pedir, e por que uma amostra só não serve
O painel não é exame de rotina, e pedi-lo fora de hora produz resultado que não se pode interpretar. Ele se justifica diante de trombose venosa não provocada, sobretudo em adulto jovem; de trombose arterial em quem não tem fator de risco cardiovascular que a explique; de trombose arterial e venosa no mesmo doente; de trombose em sítio incomum; de perda fetal acima de dez semanas ou de três abortamentos precoces; e de plaquetopenia persistente ou tempo de tromboplastina alargado sem sangramento.
O lúpus muda a pergunta em vez de eliminá-la. Quem tem lúpus estabelecido e apresenta trombose, perda gestacional ou plaquetopenia entra na mesma investigação, porque a positividade dos anticorpos altera o alvo de anticoagulação e o planejamento de uma gestação futura — e porque a série nacional mostra que é justamente nesse grupo que o fator antinúcleo e a anticardiolipina de classe G aparecem com mais frequência.
O que se pede tem três nomes e uma sequência. Os três anticorpos são o anticoagulante lúpico, a anticardiolipina de classes G e M com titulação, e a anti-beta-dois-glicoproteína um de classes G e M. O primeiro não é dosagem e sim um conjunto de testes funcionais de coagulação; a revisão nacional registra que, pela natureza heterogênea do fenômeno, mais de um ensaio é necessário para o diagnóstico correto, e é por isso que o pedido de tempo de tromboplastina isolado não responde.
Uma amostra só não serve por duas razões distintas, e vale separá-las. A primeira é a regra de persistência: o critério exige a segunda coleta depois de doze semanas, porque anticorpo transitório aparece em infecção e após uso de vários medicamentos. A segunda é técnica: colher no evento agudo e sob anticoagulação distorce os testes funcionais, e o resultado colhido nessas condições não pode ser lido nem para confirmar nem para excluir.
Há também o doente em quem o resultado não muda nada, e reconhecê-lo poupa exame e ansiedade. Quem já tem trombose não provocada com indicação de anticoagulação indefinida vai anticoagular com ou sem o painel; o que o exame acrescenta ali é a escolha da droga, e não a decisão de tratar. Fora disso, pedir o painel em quem tem trombose claramente provocada por fator transitório e plano de suspender em três a seis meses só produz um número sem destino.
O laboratório que assusta: o tempo que alarga sem sangrar e a plaqueta que cai sem transfundir
O primeiro paradoxo do tema é de coagulograma. O anticorpo é rastreado pelo tempo de tromboplastina parcial ativada, que vem alargado, e a sequência que os serviços brasileiros descrevem continua com o teste do veneno de víbora e com a prova de mistura: junta-se metade de plasma normal ao plasma do doente e observa-se. Se o tempo corrige, falta fator; se não corrige, há inibidor circulando — e, quando a correção só vem com plasma rico em fosfolípide, o inibidor é o anticoagulante lúpico.
O nome do achado engana, e o engano tem consequência de beira de leito. Um tempo que não corrige na mistura, em outro contexto, anuncia risco de sangramento; aqui ele anuncia o contrário. O anticorpo prolonga a reação no tubo e não prolonga a hemostasia do doente, que trombosa, e não sangra. Adiar cirurgia eletiva, suspender antiagregante ou transfundir plasma por causa desse tempo alargado é tratar o tubo de ensaio.
O segundo paradoxo é de plaquetas. A queda é frequente na síndrome, e a definição que as séries brasileiras usam é operacional: contagem abaixo de cem mil por milímetro cúbico em pelo menos duas ocasiões consecutivas. A revisão dermatológica nacional é explícita ao classificá-la entre as manifestações de patogenia incerta — não é consumo de coagulação intravascular nem destruição por autoanticorpo antiplaquetário identificado.
Duas leituras erradas nascem daí. A primeira é transfundir plaqueta: a contagem baixa desta síndrome não é contagem de sangramento, e não há limiar transfusional escrito para ela em nenhuma das nove perguntas do documento nacional — que, aliás, não menciona a palavra plaquetopenia uma única vez. A segunda é usar a contagem para recusar anticoagulação. O único número de sangramento que a diretriz oferece é o de fenômenos hemorrágicos em cerca de sete por cento dos anticoagulados, e ele não é estratificado por plaqueta.
Há ainda uma pegadinha histórica que sobrevive em texto antigo. A definição brasileira usada no fim dos anos noventa listava a plaquetopenia como um dos achados clínicos que, ao lado do anticorpo, fechavam a síndrome, junto de trombose e perda gestacional de repetição. A classificação vigente não a inclui: plaquetopenia é achado associado, frequente e sugestivo, mas quem preenche critério clínico é trombose ou morbidade obstétrica.
A forma primária é a mais arterial, e a secundária é a mais sorológica
A leitura clínica está dentro da aritmética da maior série nacional. A forma primária, sem lúpus, é a mais arterial: cinquenta e seis por cento de trombose arterial contra trinta e cinco vírgula sete na secundária. A diferença se concentra em dois achados nomeados — isquemia de extremidade, dezoito contra cinco por cento, e a associação de livedo com evento cerebral, presente em quatro doentes da forma primária e em nenhum da secundária.
É o inverso da intuição de quem estuda pelo nome. A forma dita secundária ao lúpus soa mais grave porque carrega uma segunda doença, mas o que ela concentra são autoanticorpos, e não artérias: fator antinúcleo em noventa e nove por cento contra sessenta, anticorpo contra antígenos nucleares extraíveis em quarenta e cinco vírgula nove contra vinte e dois, e anticardiolipina de classe G em oitenta e quatro vírgula sete contra sessenta.
E as manifestações obstétricas não separam as duas formas. Abortamento espontâneo aparece em vinte e quatro por cento da primária e em vinte e quatro vírgula cinco da secundária; óbito fetal em vinte contra treze; parto prematuro em doze contra doze. Nenhuma dessas diferenças alcança significância, e nenhuma delas autoriza supor lúpus por trás de uma história de perdas.
A consequência para a consulta é direta. História obstétrica não decide se há lúpus associado; quem decide é o restante do quadro — sedimento urinário, complemento, fator antinúcleo, manifestação cutânea, artrite. E, do outro lado, o que decide a droga não é a forma primária ou secundária, é o perfil de anticorpos e o território do evento.
Um achado da mesma série merece leitura separada porque parece vascular e não é. A única comorbidade mais frequente no grupo com lúpus foi a catarata, presente em um décimo desses doentes e em nenhum da forma primária. A explicação não está na doença, está no tratamento da doença associada: corticoide prolongado. Atribuí-la ao vaso leva a investigar trombose retiniana onde o que existe é efeito adverso de medicamento.
O alvo de anticoagulação: a faixa que a diretriz recomenda e a que ela apenas sugere
Para trombose venosa a recomendação é curta e não admite leitura dupla: anticoagulação por tempo indeterminado, com alvo de razão normalizada internacional entre dois e três. A diretriz sustenta a escolha mostrando que regimes intensivos não reduzem mais a recorrência e aumentam o sangramento leve, e que suspender o anticoagulante devolve o risco de imediato.
Para trombose arterial a mesma diretriz muda de tom no mesmo bloco. A recomendação escrita aceita a faixa de dois a três ou a faixa acima de três, com ou sem antiagregante — e, na frase seguinte, os autores registram que sugerem a anticoagulação intensiva, explicando que os estudos que não acharam diferença incluíram poucos doentes com evento arterial. É recomendação e opinião no mesmo parágrafo, e a diferença entre as duas muda a meta de coleta do doente.
Há uma linha do documento que não fecha, e reconhecê-la evita prescrever errado. Ao comparar regimes na trombose arterial, o texto atribui um alvo de razão normalizada internacional à aspirina — um antiagregante que não tem alvo de coagulograma. A mesma faixa que, três parágrafos acima, pertence à varfarina aparece ali como se fosse do antiagregante: é troca de nome na transcrição, e ninguém deve titular aspirina por coagulograma.
Outra linha exige o mesmo cuidado. O documento chama de semelhantes duas taxas de recorrência que diferem por mais de três vezes, sete vírgula um contra dois vírgula dois por cento — e o braço mais intenso é justamente o que recorre mais. Ler a palavra e ignorar os números faz perder a direção do efeito; ler os números explica por que a intensificação ficou em sugestão de autor e não virou recomendação forte.
A profilaxia primária que a diretriz recusa, e a exceção que ela guarda
Anticorpo antifosfolipídico positivo sem trombose ou morbidade obstétrica não é síndrome antifosfolípide. A primeira tarefa é definir o perfil de risco: anticoagulante lúpico persistente, dupla ou tripla positividade e títulos persistentemente altos compõem o perfil de alto risco; positividade isolada e de baixo título tende a menor risco.
A recomendação EULAR para o portador assintomático de perfil de alto risco é aspirina em baixa dose, usualmente 75 a 100 mg/dia, depois de ponderar risco hemorrágico. Em perfil de baixo risco, a decisão é individualizada. Anticoagulante oral contínuo não é indicado sem evento clínico.
Na gestante com perfil de alto risco, mas sem trombose e sem morbidade obstétrica prévias, aspirina em baixa dose deve ser considerada durante a gestação; heparina terapêutica de rotina não está indicada. Cirurgia, imobilização, puerpério e outras situações transitórias exigem nova avaliação de risco e podem justificar heparina profilática.
Se houver síndrome obstétrica estabelecida, o esquema habitual é aspirina em baixa dose associada a heparina em dose profilática. Se houver antecedente de SAF trombótica, usa-se heparina em dose terapêutica durante a gestação, com planejamento da anticoagulação no puerpério. A droga e a intensidade dependem, portanto, do evento clínico — não apenas do anticorpo.
A gestante com trombose prévia: heparina plena com aspirina, e a varfarina devolvida
Na gestante que já trombosou, o regime nacional combina heparina de baixo peso molecular com aspirina em dose baixa, mantidos durante a gestação e no puerpério. A diretriz nomeia as duas heparinas e a manobra de dose: dalteparina de cinco mil unidades por dia, ou enoxaparina de um miligrama por quilo por dia, dobrando uma ou outra depois da décima sexta semana, com aspirina de cem miligramas por dia.
Sobre o anticoagulante oral a diretriz responde duas vezes e em sentidos diferentes, e saber disso evita prescrição errada no pré-natal. Ao responder à pergunta específica, recomenda que a gestante com trombose prévia não seja tratada com anticoagulante oral, por falta de estudo adequado nessa população. Na resposta seguinte, registra a varfarina como opção depois da décima terceira semana. A recomendação forte é a heparina; a varfarina é alternativa, e não primeira linha.
A série brasileira que sustenta o esquema é pequena e antiga, e vale menos pelo tamanho do que pela comparação interna. Dezessete gestantes com a síndrome receberam heparina e aspirina em dose baixa; quinze gestações terminaram em recém-nascido vivo, o que o resumo imprime como oitenta e oito vírgula dois por cento. A prematuridade acompanhou sessenta por cento dos sucessos, quase sempre por interrupção indicada, e o achado clássico de sorologia falsamente reagente esteve presente em menos de um quarto das doentes.
O número que aparece ao lado, treze vírgula três por cento, tem outro denominador. Ele não sai de dezessete: sai das sessenta gestações prévias que as mesmas dezessete mulheres já haviam tido, das quais cinquenta e duas terminaram em perda e oito em nascido vivo. O sessenta não aparece em nenhum ponto do resumo, e quem lê só o resumo compara dezessete gestações com sessenta sem saber — o que infla o efeito aparente do tratamento que se vai oferecer à mulher sentada à frente.
Duas orientações práticas fecham a consulta de pré-natal. A heparina de baixo peso é mantida por seis semanas depois do parto, porque o puerpério é período de risco, e a mesma série registra que os sangramentos sob o esquema foram raros, limitados a hematomas no local da aplicação. E a prematuridade elevada não é falha do tratamento: é consequência de interrupções indicadas por vitalidade fetal ou pré-eclâmpsia, e precisa ser dita à gestante antes que aconteça.
O ensaio que tirou o anticoagulante oral direto da mesa
A diretriz nacional é de dois mil e treze e trata os anticoagulantes orais diretos como promessa em estudo, dizendo que os resultados são esperados em breve. O que mudou a conduta veio depois, num ensaio aberto multicêntrico que comparou rivaroxabana com varfarina em doentes de alto risco — e alto risco, ali, significa tripla positividade: anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-beta-dois-glicoproteína um da mesma classe.
O ensaio foi interrompido antes do previsto por excesso de eventos no braço do oral direto. Cento e vinte doentes randomizados, cinquenta e nove para a rivaroxabana e sessenta e um para a varfarina; onze eventos contra dois; sete eventos tromboembólicos no braço do oral direto e nenhum no da varfarina; quatro sangramentos maiores contra dois. As somas fecham por dentro: sete mais quatro dá os onze, e não houve óbito.
O detalhe que muda a conversa com o doente é o tipo de evento. Os sete eventos tromboembólicos do braço do oral direto foram arteriais — quatro acidentes vasculares cerebrais isquêmicos e três infartos do miocárdio. Não se trata de uma droga que protege um pouco menos contra trombose venosa: trata-se de um perfil em que a troca foi seguida de eventos que deixam sequela.
A regra prática que sobrou é curta e vale na primeira consulta: na síndrome trombótica, sobretudo na tripla positividade, o oral direto sai e a varfarina entra. Quem já vinha em oral direto e recebe o diagnóstico troca de droga; e quem tem prótese valvar mecânica, gestação ou hepatopatia avançada já estava fora do oral direto por outro motivo, de modo que a troca não é novidade nesses doentes.
Há ainda um efeito de laboratório que a troca produz e que precisa ser antecipado. O anticoagulante lúpico é pesquisado por testes funcionais de coagulação, e o próprio anticoagulante oral direto interfere neles, assim como a heparina interfere na dosagem de antitrombina e a varfarina derruba as proteínas C e S. Quem colhe o painel sob anticoagulação recebe um resultado que não se pode interpretar — mais um motivo para programar a coleta fora do evento agudo e, quando possível, fora da droga.
A forma catastrófica: três órgãos em menos de uma semana
A forma catastrófica é a apresentação em que tromboses de pequenos vasos atingem três ou mais órgãos em menos de uma semana, com confirmação histológica sempre que possível. É rara, é a de maior letalidade e é a única em que a diretriz nacional recomenda associar outras drogas ao anticoagulante.
O reconhecimento é clínico e não espera sorologia. O quadro típico soma insuficiência renal de instalação rápida, alteração respiratória, plaquetopenia, alteração do nível de consciência e livedo extenso, num doente que pode ou não ter diagnóstico prévio. Como a confirmação laboratorial exige repetição em doze semanas, esperar por ela seria esperar meses num quadro que evolui em dias: o tratamento começa antes de o critério fechar.
A recomendação de associar drogas é declaradamente opinião, e o documento diz isso com todas as letras. Ele afirma que não existe estudo de boa qualidade comprovando benefício da associação e, no parágrafo seguinte, os autores recomendam corticoide, plasmaférese e imunobiológico junto do anticoagulante, com base em séries, relatos e experiência pessoal, justificando pela letalidade da condição.
O único número forte do bloco é o do anticoagulante isolado: melhora em sessenta e três vírgula um por cento dos episódios tratados contra vinte e dois vírgula dois nos não tratados. O mesmo documento registra que não houve diferença de recuperação entre as várias combinações de tratamentos, e que o uso isolado de corticoide é o que produz a menor recuperação de todos.
Para a beira do leito, o que decide é a ordem das medidas. Anticoagulação plena entra primeiro e é a única com número atrás; corticoide, plasmaférese e imunoglobulina entram associados por gravidade, não por evidência. Trocar a anticoagulação por imunossupressão isolada é retirar do doente a única medida com efeito medido, e o resultado dessa troca já está descrito: é o grupo com a menor recuperação.

O protocolo federal que governa a doença vizinha e não governa esta
O único documento federal que chega perto desta síndrome é o protocolo clínico do lúpus eritematoso sistêmico, aprovado por portaria conjunta em novembro de dois mil e vinte e dois. São noventa e cinco páginas e pouco mais de duzentos e dois mil caracteres de corpo. Varrido com fronteira de palavra e acento normalizado, ele escreve o nome desta síndrome exatamente duas vezes — e as duas estão dentro da descrição da estratégia de busca, no trecho em que o texto explica que procurou estudos sobre intervenções em doentes com a forma secundária ao lúpus. Nenhuma das duas ocorrências está na parte que decide conduta.
Esse zero clínico não é artefato de busca. No mesmo documento, hidroxicloroquina aparece vinte e seis vezes, o radical de anticoagulação oito, anticardiolipina seis e anticoagulante lúpico seis — estes dois últimos porque integram a tabela de critérios de classificação do lúpus, e não porque a norma trate da síndrome. Os controles positivos disparam; o alvo, na parte que decide conduta, não dispara.
A consequência é a régua. Como a padronização e o financiamento federais param no lúpus, quem governa a decisão terapêutica desta síndrome no Brasil é documento de sociedade: as diretrizes da comissão de vasculopatias, publicadas em dois mil e treze e construídas sobre nove perguntas clínicas estruturadas em paciente, intervenção, comparação e desfecho, com graduação de força de evidência em quatro letras. É de lá que sai o alvo de anticoagulação que se prescreve.
Na prática de consultório isso muda três coisas concretas. A droga de escolha é a varfarina, e não há dispensação padronizada de um esquema alternativo por protocolo federal a que recorrer quando ela incomoda. O acompanhamento é de ambulatório de anticoagulação, com coleta periódica de razão normalizada internacional e ajuste de dose. E, como não há protocolo nacional definindo periodicidade, quem define o intervalo de retorno é o serviço — o que torna a orientação explícita ao doente parte do tratamento, e não formalidade.
Do achado à droga: quatro degraus que resolvem quase todo caso do tema
A questão de prova quase nunca pergunta o que é a síndrome. Ela descreve um evento, entrega uma sorologia e pede a conduta. O caminho que resolve tem quatro degraus e nenhum atalho: reconhecer o evento que serve de critério clínico, checar se o exame foi confirmado no intervalo, decidir se o caso é trombótico ou obstétrico, e só então escolher a droga. Pular o segundo degrau é o erro mais caro, porque transforma portador em doente.
- 1Nomeie o evento antes do anticorpo. Trombose arterial, venosa ou de pequenos vasos confirmada por Doppler ou histopatologia, ou morbidade obstétrica por uma das três portas — é isso que serve de critério clínico. Sem evento, não há síndrome, por mais alto que esteja o título.
- 2Cheque o relógio do laboratório. Anticoagulante lúpico, anticardiolipina em título moderado a alto ou anti-beta-dois-glicoproteína um, em duas ou mais ocasiões com pelo menos doze semanas de intervalo. Exame único na fase aguda é achado, não critério.
- 3Separe o caso trombótico do obstétrico puro. Quem trombosou fica anticoagulado por tempo indeterminado; quem tem apenas eventos obstétricos recebe tromboprofilaxia de longo prazo com aspirina em dose baixa, e não anticoagulação plena.
- 4Escolha a droga pelo perfil, não pela conveniência. Fora da gestação, varfarina com alvo de dois a três na trombose venosa; anticoagulante oral direto está fora, sobretudo na tripla positividade. Na gestante com trombose prévia, heparina de baixo peso em dose plena com aspirina.
- 5Reconheça a forma catastrófica pela velocidade. Três ou mais órgãos em menos de uma semana pede anticoagulação plena imediata, com corticoide, plasmaférese e imunoglobulina associados por gravidade — nunca no lugar do anticoagulante.
Primeiro degrau: o evento, antes do anticorpo
Trombose confirmada por imagem ou histologia, ou morbidade obstétrica por uma das três portas. Sem evento não há síndrome.
Segundo degrau: doze semanas entre as coletas
Anticoagulante lúpico, anticardiolipina moderada a alta ou anti-beta-2-glicoproteína I, repetidos com intervalo mínimo de doze semanas.
Terceiro degrau: trombótico ou obstétrico puro
Quem trombosou anticoagula por tempo indeterminado; quem só teve evento obstétrico recebe aspirina em dose baixa.
Quarto degrau: a droga que o perfil permite
Varfarina fora da gestação, heparina de baixo peso dentro dela, e anticoagulante oral direto fora da mesa na tripla positividade.
O que o caso descreve e o que ele está pedindo
| Cenário clínico | Como ler | Conduta esperada |
|---|---|---|
| Trombose venosa profunda não provocada, anticoagulante lúpico positivo confirmado após 12 semanas | Critério clínico e laboratorial preenchidos: síndrome trombótica | Varfarina por tempo indeterminado, alvo de INR entre 2,0 e 3,0 |
| Mesmo quadro, mas com tripla positividade e paciente já em rivaroxabana | Alto risco; o oral direto mostrou excesso de eventos neste subgrupo | Trocar para varfarina; não manter o oral direto |
| AVC isquêmico em adulto jovem com anticorpos confirmados | Evento arterial: a diretriz aceita duas faixas e sugere a intensiva | Varfarina de longo prazo, INR 2,0-3,0 ou acima de 3,0, com ou sem antiagregante |
| Três abortamentos antes de 10 semanas, sem trombose, anticorpos confirmados | Síndrome obstétrica pura, sem critério trombótico | Aspirina em dose baixa de longo prazo; não anticoagular plenamente |
| Gestante com trombose prévia, anticorpos confirmados | Gestação com evento anterior: heparina é primeira linha | HBPM em dose plena (dalteparina 5.000 UI/dia ou enoxaparina 1 mg/kg/dia, dobrando após a 16ª semana) com AAS 100 mg/dia |
| Anticorpo positivo achado em rotina, sem evento nenhum | Portador, não doente: falta o critério clínico | Nenhum antitrombótico contínuo; profilaxia só em situação de risco |
As três portas da morbidade obstétrica, e o que cada uma exige
| Porta | Quantidade exigida | Detalhe que a prova cobra |
|---|---|---|
| Morte fetal | Uma ou mais | Feto morfologicamente normal com mais de 10 semanas, confirmado por US ou exame do feto |
| Parto prematuro | Um ou mais | Com 34 semanas ou menos, por eclâmpsia, pré-eclâmpsia ou insuficiência placentária |
| Abortamento espontâneo | Três ou mais | Antes de 10 semanas, excluídas causas hormonais, anatômicas maternas e cromossômicas do casal |
| Duas perdas precoces isoladas | Não preenche | Dois abortamentos precoces não alcançam nenhuma das três portas: investigar as demais causas, não rotular |
Título de anticardiolipina: o documento nacional escreve moderado acima de 40 e alto acima de 80 unidades GPL ou MPL; título baixo (10 a 19) não cumpre critério laboratorial.
Alvo de INR na trombose venosa: 2,0 a 3,0, por tempo indeterminado. Regimes de 3,5 a 4,5 não reduziram mais a recorrência e aumentaram o sangramento leve.
Na trombose arterial a recomendação escrita aceita 2,0-3,0 ou acima de 3,0; a preferência pela intensiva é declarada pelos autores como sugestão, não como grau de recomendação.
A diretriz é de 2013 e antecede o ensaio que testou rivaroxabana contra varfarina em triplo-positivos; a conduta de retirar o oral direto vem desse ensaio, citado aqui a partir do resumo indexado.
Na forma catastrófica o único dado com número é o do anticoagulante isolado (melhora em 63,1% dos episódios tratados contra 22,2% nos não tratados); as associações são recomendação de autor.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
A recomendação formal aceita as duas faixas: tratamento de longo prazo com varfarina em alvo de 2,0 a 3,0 OU acima de 3,0, associada ou não a antiagregante. O texto que a sustenta registra que regimes de 3,5 a 4,5 e regimes de 2,0 a 3,0 produziram números semelhantes de eventos arteriais.
Diretrizes da Comissão de Vasculopatias da SBR, 2013, questão 3, parágrafo de recomendação.
No parágrafo imediatamente seguinte, os mesmos autores escrevem que sugerem anticoagulação de longo prazo com varfarina intensiva, argumentando que os estudos prospectivos sem diferença incluíram grupo pequeno de doentes com trombose arterial, o que dificulta conclusões definitivas.
Diretrizes da Comissão de Vasculopatias da SBR, 2013, questão 3, frase final do mesmo bloco.
Na prova
O enunciado costuma citar uma das duas sem dizer qual. Se ele reproduz a recomendação, aceita as duas faixas e a alternativa correta será a mais permissiva; se ele reproduz a sugestão dos autores, cobra a faixa acima de 3,0. O sinal está no verbo: recomenda-se aponta para a faixa dupla, sugere-se aponta para a intensiva. Reconhecer de qual das duas frases o enunciado saiu resolve a questão sem decorar número.
A recomendação nacional é negativa e explícita: pelos resultados controversos, não há como recomendar uso contínuo de aspirina ou cumarínico em portadores, reservando-se o uso para situações de elevado risco de trombose, como cirurgia, imobilização, gravidez e puerpério.
Diretrizes da Comissão de Vasculopatias da SBR, 2013, questão 1, parágrafo de recomendação.
Os estudos que a própria diretriz cita não apontam todos no mesmo sentido: um deles descreve redução de risco de 51,2% com profilaxia em portadores com hipertensão arterial, e outro descreve redução de cerca de 17% em 120 meses — ao lado de um ensaio que não achou diferença e de outro que descreve aumento de risco com aspirina.
Diretrizes da Comissão de Vasculopatias da SBR, 2013, questão 1, corpo da evidência (referências 6, 7 e 8).
Na prova
Enunciado de sorologia alterada em rotina, sem evento nenhum, está pedindo a recomendação nacional, e a resposta é não anticoagular nem antiagregar continuamente. Enunciado que acrescente cirurgia, imobilização prolongada, gestação ou puerpério mudou de terreno e passa a pedir profilaxia. O gatilho está no cenário acrescentado, não no título do anticorpo.
A diretriz nacional, de 2013, registra que rivaroxabana e dabigatrana ainda estavam sendo estudadas nesta população e que resultados de curto e médio prazo eram esperados em breve, acrescentando que agentes sem necessidade de monitoramento seriam de grande interesse.
Diretrizes da Comissão de Vasculopatias da SBR, 2013, introdução.
O ensaio aberto multicêntrico que testou a substituição em doentes triplo-positivos foi interrompido antes do previsto por excesso de eventos no braço da rivaroxabana: 11 eventos contra 2, com 7 eventos tromboembólicos no braço do oral direto e nenhum no da varfarina.
Pengo V et al. Blood. 2018;132(13):1365-1371 — citado a partir do resumo indexado, sem consulta ao texto integral.
Na prova
Enunciado que cite apenas a diretriz nacional de 2013 vai descrever os orais diretos como promessa, e a alternativa correta será a que mantém a varfarina por ser a droga com recomendação. Enunciado atual, que traga tripla positividade ou fale em alto risco, está pedindo a retirada do oral direto. Em ambos os recortes a varfarina é a resposta segura; o que muda é o motivo pelo qual ela vence.
Caso resolvido
- achado
- Passo um. Nomeie o critério clínico antes do laboratório. A doente tem trombose venosa não provocada — critério clínico por si só — e tem, além disso, um óbito fetal acima de dez semanas, que também cumpre critério sozinho. Os dois abortamentos precoces não contam: a porta dos abortamentos exige três. Sobram, portanto, dois critérios clínicos independentes, e nenhum deles depende dos abortamentos.
- o relógio
- Passo dois. Confira o intervalo antes de assinar o diagnóstico. A primeira coleta foi na internação e a segunda foi feita catorze semanas depois — acima do mínimo de doze. Os três anticorpos estão reagentes nas duas ocasiões relevantes, e é isso, e não a altura do título, que transforma achado em critério laboratorial.
- o perfil
- Passo três. Leia o perfil de anticorpos como decisão de droga. Anticoagulante lúpico, anticardiolipina de classe G em título alto e anti-beta-2-glicoproteína I de classe G configuram tripla positividade. Esse é exatamente o subgrupo em que o ensaio que comparou rivaroxabana com varfarina foi interrompido por excesso de eventos no braço do oral direto.
- a conduta
- Passo quatro. Troque a droga e defina o alvo. A doente sai da rivaroxabana e entra em varfarina com alvo de razão normalizada internacional entre 2,0 e 3,0, por tempo indeterminado, com a sobreposição habitual de heparina até o alvo. A plaquetopenia de 112.000/mm³ não contraindica a anticoagulação nem muda o alvo.
- o que não fazer
- Passo cinco. Recuse os dois atalhos que o caso oferece. Não vale manter o oral direto alegando conveniência, e não vale pedir triagem de trombofilia hereditária: a que conta aqui é a adquirida, e as hereditárias não mudariam a conduta de quem já tem trombose não provocada com anticoagulação indefinida indicada.
Agora feche você
- classifique
- Diga, em uma frase, se esta gestante tem a síndrome ou se é apenas portadora do anticorpo — e nomeie qual dos dois critérios está faltando.
- o que o exame repetido comprou
- Explique o que a segunda coleta, feita catorze semanas depois, acrescentou e o que ela não acrescentou: qual critério ela satisfaz e por que isso ainda não fecha o diagnóstico.
- a recomendação nacional
- Recite a recomendação da diretriz brasileira para gestante com anticorpo positivo, sem trombose prévia e sem morbidade obstétrica anterior — e diga qual é o risco de tromboembolismo que ela atribui a essa gestante.
- o que mudaria a conduta
- Liste os cenários que, acrescentados a este caso, mudariam a resposta de observar para tratar — separando os que exigem aspirina dos que exigem heparina de baixo peso em dose plena.
- responda à família
- …
Onde a banca derruba
- 1Fechar diagnóstico com um exame só, colhido na fase aguda O critério laboratorial exige duas ou mais ocasiões com intervalo mínimo de doze semanas. Um anticoagulante lúpico reagente na internação por trombose é achado, não critério — e a fase aguda é exatamente quando o teste costuma ser pedido e quando ele mais positiva por interferência. Sem a segunda coleta agendada e datada, o que existe é um portador de resultado, não um doente com diagnóstico.
- 2Contar abortamentos sem olhar a idade gestacional Uma perda fetal acima de dez semanas cumpre critério sozinha; três perdas abaixo de dez semanas cumprem critério; duas perdas precoces não cumprem nada. Diante de dois abortamentos precoces, o caminho é investigar as demais causas de perda recorrente; rotular a mulher como portadora da síndrome a expõe a anticoagulação de longo prazo sem indicação.
- 3Anticoagular plenamente a paciente com síndrome obstétrica pura Quem tem apenas eventos obstétricos, sem trombose, recebe tromboprofilaxia de longo prazo com aspirina em dose baixa — não anticoagulação por tempo indeterminado. A diretriz separa os dois cenários em perguntas diferentes justamente porque a conduta muda.
- 4Manter o anticoagulante oral direto por ser mais cômodo Dose fixa, ausência de coleta de razão normalizada internacional e menos interação alimentar são vantagens reais em outras indicações e não valem aqui. No subgrupo triplo-positivo o ensaio que testou a troca foi interrompido por excesso de eventos arteriais no braço do oral direto, sete deles arteriais — quatro acidentes vasculares cerebrais e três infartos. Conforto de posologia não compensa evento que deixa sequela.
- 5Pedir triagem de trombofilia hereditária na perda gestacional de repetição A trombofilia que conta na investigação obstétrica é a adquirida. As hereditárias não se associam a maior risco obstétrico e não devem ser investigadas nem tratadas nesse contexto — e o mesmo raciocínio vale no pronto-socorro, onde o resultado quase nunca muda o que já se ia fazer.
- 6Tratar o portador porque o título veio alto Título alto sem evento clínico continua sendo portador. A recomendação nacional recusa aspirina e cumarínico contínuos nesse cenário e guarda a profilaxia para cirurgia, imobilização, gravidez e puerpério. O gatilho é a situação de risco acrescentada, não a altura do título.
- 7Substituir a anticoagulação por imunossupressão na forma catastrófica Corticoide, plasmaférese e imunoglobulina entram associados ao anticoagulante, por gravidade e por opinião declarada dos autores. O único dado com número no bloco é o do anticoagulante isolado. Trocar a anticoagulação por imunossupressão isolada retira do doente a única medida com efeito medido, e o grupo que recebeu só corticoide é o de menor recuperação.
- 8Usar a história obstétrica para apostar em lúpus por trás Na maior série brasileira, abortamento, óbito fetal e parto prematuro não diferiram entre as formas primária e secundária. O que separa as duas é arterial de um lado e sorológico do outro: mais isquemia de extremidade na primária, mais fator antinúcleo e mais anticardiolipina de classe G na secundária.
Trombose + abortos de repetição + anticoagulante lúpico persistente (confirmado após 12 semanas) + TTPa que não corrige na mistura + VDRL falso-positivo define síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAAF). A anticoagulação de escolha de longo prazo é a varfarina (AVK), especialmente em SAAF trombótica/tríplice-positiva. Os DOACs (rivaroxabana) são inferiores/contraindicados na SAAF de alto risco por maior taxa de recorrência trombótica — por isso a alternativa que os prefere está errada. TTPa alargado que não corrige é inibidor, não deficiência de fator VIII (que corrigiria). Fator V de Leiden e von Willebrand não explicam anticoagulante lúpico positivo nem o padrão descrito.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Mulher, 41 anos, com histórico de duas perdas fetais no segundo trimestre e um episódio prévio de trombose venosa profunda, procura ambulatório para investigação. Exames laboratoriais mostram: anticoagulante lúpico positivo, anticorpo anticardiolipina IgG em título alto e anti-beta-2-glicoproteína I IgG positivo, todos confirmados em nova dosagem após 12 semanas. Plaquetas 118.000/mm³ (VR 150.000–450.000) e TTPa prolongado que não corrige com plasma normal. Considerando o diagnóstico mais provável, qual é o tratamento de escolha para a anticoagulação de longo prazo desta paciente?
Correta: o quadro (trombose + perdas fetais + anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-beta-2-GPI positivos confirmados após 12 semanas) fecha síndrome do anticorpo antifosfolípide. Para trombose venosa nessa síndrome, o anticoagulante de escolha para longo prazo é o antagonista da vitamina K (varfarina) com alvo de INR 2,0–3,0., Erradas: os anticoagulantes orais diretos (rivaroxabana, apixabana, dabigatrana) são contraindicados/desaconselhados na SAF, especialmente na tríplice positividade, pois ensaios (ex.: TRAPS) mostraram maior taxa de eventos trombóticos, sobretudo arteriais, comparados à varfarina. Errada: o AAS isolado não fornece anticoagulação adequada para prevenção secundária de trombose venosa estabelecida na SAF.
Mulher, 28 anos, com lúpus eritematoso sistêmico, apresenta o segundo episódio de trombose venosa profunda proximal em 2 anos, ambos não provocados. A investigação, confirmada em duas ocasiões com intervalo de 12 semanas, mostrou anticoagulante lúpico positivo, anticardiolipina IgG em título alto e anti-beta-2-glicoproteína I IgG positivo (tripla positividade). Função renal e hepática normais. Após a fase aguda, qual é a estratégia de anticoagulação de manutenção mais apropriada?
Correta: Na síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAF) trombótica, sobretudo em pacientes triplo-positivos, a anticoagulação de escolha é a varfarina com alvo de INR 2,0–3,0, por tempo indeterminado, dado o alto risco de recorrência. Os DOACs são contraindicados na SAF de alto risco: o ensaio TRAPS (rivaroxabana) foi interrompido por excesso de eventos trombóticos, sobretudo arteriais, em triplo-positivos — logo não são 'tão eficazes' quanto a varfarina, e associar AAS não corrige essa falha. Dose profilática de HBPM é insuficiente para tratamento secundário de TVP proximal recorrente. INR alvo mais alto (3,5–4,0) não demonstrou superioridade sobre 2,0–3,0 na SAF venosa e aumenta o risco de sangramento; a associação com AAS não é padrão para eventos exclusivamente venosos.
Mulher, 32 anos, comerciante, com antecedente de dois óbitos fetais após a 10ª semana de gestação, procura o pronto-socorro com dor e edema em membro inferior esquerdo há 3 dias. Refere um episódio de trombose venosa profunda há 2 anos, na ocasião sem fator desencadeante identificado. Ao exame: PA 124x78 mmHg, FC 82 bpm, empastamento e dor à palpação da panturrilha esquerda. USG Doppler confirma TVP em veia femoral. Exames: TTPa alargado (52 s; VR 25–35) que NÃO corrige na mistura com plasma normal; anticardiolipina IgG 96 GPL (VR < 20) e anticoagulante lúpico positivo. Iniciada anticoagulação plena. Qual a conduta para confirmar o diagnóstico de síndrome antifosfolípide?
A síndrome antifosfolípide (critérios de Sydney) exige um critério clínico (trombose vascular ou morbidade gestacional — aqui há ambos: TVP recorrente e perdas fetais > 10 semanas) MAIS um critério laboratorial POSITIVO EM DUAS OCASIÕES com intervalo de ao menos 12 semanas, pois anticorpos podem ser transitórios (infecção, fármacos). Por isso a resposta correta é repetir a sorologia em 12 semanas. Erra porque um único exame positivo não confirma o diagnóstico — a persistência é obrigatória. Erra porque proteína C/S e antitrombina não fazem parte dos critérios de SAF e, além disso, dosá-las na fase aguda e sob anticoagulação gera resultados não interpretáveis. Erra porque a SAF pode ser primária, não exigindo LES; a positividade do anticoagulante lúpico não implica lúpus. Erra porque não há critério histopatológico obrigatório — o diagnóstico é clínico-laboratorial.
Mulher de 32 anos, com lúpus eritematoso sistêmico em uso de hidroxicloroquina, chega à unidade de pronto atendimento com dor e edema em panturrilha esquerda há dois dias, com empastamento e aumento de 4 cm no diâmetro em relação à contralateral; ultrassonografia com Doppler confirma trombose venosa profunda femoropoplítea. Na anamnese, refere duas perdas fetais espontâneas com 12 e 14 semanas, sem causa esclarecida. Nega imobilização, cirurgia, neoplasia ou uso de anticoncepcional. Exames: TTPa alargado que não corrige na prova do plasma normal, plaquetas 98.000/mm³, VDRL reagente 1:4 com FTA-ABS não reagente. Qual é, respectivamente, o diagnóstico mais provável e a conduta?
Trombose venosa profunda não provocada, perdas fetais de repetição, plaquetopenia, TTPa alargado que não corrige na mistura (padrão de inibidor — anticoagulante lúpico) e VDRL falso-positivo com FTA-ABS negativo compõem o quadro clássico de síndrome antifosfolípide secundária ao LES; a conduta é anticoagulação plena (heparina seguida de varfarina, com alvo de RNI 2-3) e confirmação laboratorial dos anticorpos em nova dosagem após 12 semanas, exigida pelos critérios diagnósticos. Deficiência de fator causa sangramento, não trombose, e o TTPa corrigiria na mistura. O VDRL é falso-positivo (FTA-ABS não reagente), afastando sífilis. Fator V de Leiden não explica o anticoagulante lúpico nem o VDRL falso-positivo, e AAS isolado é tratamento insuficiente para TVP aguda.
Mulher de 38 anos com síndrome antifosfolípide é internada com quadro de 48 horas: dispneia, creatinina em elevação rápida, plaquetopenia, livedo reticular extenso e alteração do nível de consciência. A tomografia mostra infartos esplênicos, e a biópsia de pele evidencia trombose de pequenos vasos. Qual é a conduta inicial correta?
O quadro descreve a forma catastrófica: trombose de pequenos vasos acometendo três ou mais órgãos em menos de uma semana, com confirmação histológica. A anticoagulação plena é a base do tratamento e a única medida com dado numérico atrás — melhora em 63,1% dos episódios tratados com anticoagulante contra 22,2% nos não tratados. Corticoide, plasmaférese e imunobiológico são associados por gravidade, e a própria diretriz declara que essa associação é recomendação de autor, sem estudo de boa qualidade que a comprove. Qualquer alternativa que substitua a anticoagulação por imunossupressão isolada inverte a hierarquia. Adiar o tratamento à espera de confirmação sorológica é inaceitável numa apresentação com letalidade elevada e evolução em dias.
Sobre o critério laboratorial de classificação da síndrome antifosfolípide, conforme reproduzido pela diretriz brasileira, assinale o que está correto.
O critério laboratorial admite qualquer um dos três marcadores — anticoagulante lúpico detectado segundo as recomendações da sociedade internacional de trombose e hemostasia, anticardiolipina IgG ou IgM em título moderado (acima de 40) a alto (acima de 80) por ELISA padronizado, ou anti-beta-2-glicoproteína I IgG ou IgM —, sempre em duas ou mais ocasiões com intervalo mínimo de 12 semanas. Não há exigência de positividade simultânea dos três: a tripla positividade define subgrupo de risco, não critério. Título baixo de anticardiolipina não cumpre o critério, ainda que o método seja padronizado. Dosagem única não satisfaz o critério, mesmo colhida longe do evento agudo, porque o que se exige é persistência. E o diagnóstico de lúpus associado não dispensa nenhuma das duas coletas.
Mulher de 30 anos apresenta duas mortes fetais, com 16 e 21 semanas, de fetos morfologicamente normais. Investigação mostra anticardiolipina IgG em título alto, confirmada após 13 semanas. Nunca teve trombose. Fora do período gestacional, qual a conduta antitrombótica de longo prazo recomendada?
A paciente preenche critério clínico pela morbidade obstétrica — cada uma das mortes fetais acima de 10 semanas basta sozinha — e critério laboratorial confirmado no intervalo mínimo. Trata-se, portanto, de síndrome antifosfolípide de expressão exclusivamente obstétrica. Para esse grupo a diretriz brasileira recomenda tromboprofilaxia de longo prazo com aspirina em dose baixa, visando à redução de eventos trombóticos, especialmente arteriais. Anticoagulação plena indefinida é reservada a quem já trombosou. Heparina contínua fora da gestação não tem recomendação. Dizer que não há nada a fazer ignora que a doente tem diagnóstico fechado e risco aumentado de evento futuro. A hidroxicloroquina figura entre os candidatos em investigação para profilaxia primária, sem recomendação estabelecida nesse cenário.
Mulher de 34 anos é internada por trombose venosa profunda proximal em membro inferior esquerdo, sem fator desencadeante. Exames da internação: TTPa alargado que não corrige no teste de mistura, plaquetas 112.000/mm³ e pesquisa de anticoagulante lúpico positiva. Recebe alta com rivaroxabana. Retorna 14 semanas depois com nova coleta mostrando anticoagulante lúpico positivo, anticardiolipina IgG em título alto e anti-beta-2-glicoproteína I IgG positivo. Qual a conduta mais adequada?
A paciente preenche critério clínico (trombose venosa não provocada) e critério laboratorial confirmado com intervalo superior a 12 semanas, com os três anticorpos reagentes — tripla positividade. Nesse perfil o ensaio que comparou rivaroxabana com varfarina foi interrompido precocemente por excesso de eventos no braço do anticoagulante oral direto, com 7 eventos tromboembólicos contra nenhum. A conduta é trocar para varfarina com alvo de INR de 2,0 a 3,0, mantida indefinidamente, conforme a recomendação nacional para trombose venosa nesta síndrome. Suspender após seis meses ignora que a trombose não foi provocada e que há trombofilia adquirida definida. Aspirina isolada não protege quem já trombosou, e plaquetas de 112.000/mm³ não contraindicam anticoagulação. A hidroxicloroquina é candidata em estudo para profilaxia primária, não substitui anticoagulação. A triagem de trombofilia hereditária não mudaria a conduta, que já é anticoagulação indefinida.
Homem de 45 anos com diagnóstico estabelecido de síndrome antifosfolípide após trombose venosa profunda há dois anos, em uso de varfarina com INR entre 2,0 e 3,0, pergunta quando poderá suspender o anticoagulante. Não teve sangramentos. Qual a orientação correta, segundo a diretriz brasileira?
A recomendação nacional para trombose venosa nesta síndrome é anticoagulação por tempo indeterminado com alvo de INR entre 2,0 e 3,0. A própria diretriz registra que, após seis meses de cessação do tratamento, o risco de recorrência aumenta de forma expressiva, o que sustenta a manutenção indefinida. Elevar o alvo não se justifica: regimes intensivos não reduziram mais a recorrência e aumentaram o sangramento leve, e o próprio documento registra taxas semelhantes entre as faixas. Aspirina isolada não substitui anticoagulação em quem já teve evento trombótico. E o anticoagulante oral direto não é alternativa aqui: o ensaio conduzido em doentes de alto risco foi interrompido por excesso de eventos no braço do oral direto, o que retirou essa classe da conduta padrão do tema.
Homem de 52 anos, assintomático, realiza exames pré-operatórios para herniorrafia inguinal eletiva. O coagulograma mostra TTPa alargado, e a investigação revela anticoagulante lúpico positivo, confirmado após 12 semanas. Não há história de trombose nem outras alterações. Qual a conduta mais adequada em relação ao risco trombótico?
Trata-se de portador de anticorpo antifosfolipídico, não de doente: falta o critério clínico. A diretriz brasileira, diante de resultados controversos, não recomenda uso contínuo de aspirina ou cumarínico nesses indivíduos, reservando a tromboprofilaxia para situações de elevado risco — cirurgia, imobilização, gravidez e puerpério —, cenário em que a evidência mostrou redução de eventos. A cirurgia eletiva não está contraindicada; o TTPa alargado pelo anticoagulante lúpico é fenômeno laboratorial in vitro e não traduz risco hemorrágico. Anticoagulação plena, oral ou parenteral, mantida indefinidamente, expõe a sangramento sem benefício demonstrado em quem nunca trombosou.
Mulher de 27 anos, em investigação de dois abortamentos espontâneos com 6 e 8 semanas, apresenta anticardiolipina IgG em título alto, confirmada em nova dosagem após 14 semanas. Nunca teve trombose, e não há outras perdas gestacionais. Segundo os critérios de classificação reproduzidos pela diretriz brasileira, qual a interpretação correta?
A morbidade obstétrica entra por três portas independentes: uma ou mais mortes fetais acima de 10 semanas; um ou mais partos prematuros com 34 semanas ou menos por eclâmpsia, pré-eclâmpsia ou insuficiência placentária; e três ou mais abortamentos espontâneos antes de 10 semanas. Dois abortamentos precoces não alcançam nenhuma das três. O critério laboratorial, esse sim, está satisfeito: o intervalo exigido é de no MÍNIMO 12 semanas entre as coletas, e 14 semanas cumpre a regra — não há teto. A altura do título não substitui a exigência de quantidade de perdas, e a classificação não exige mais de um anticorpo reagente: qualquer um dos três, confirmado no intervalo, satisfaz o critério laboratorial. Sem critério clínico, o caso é de portadora de anticorpo em investigação de perda recorrente, e a conduta segue a investigação das demais causas.
Em série brasileira com 149 pacientes com síndrome antifosfolípide, comparando a forma primária com a associada ao lúpus, qual achado foi significativamente mais frequente na forma PRIMÁRIA?
Na série de Quaio e colaboradores, a trombose arterial foi mais frequente na SAF primária: 56% contra 35,7%. Também foram mais frequentes isquemia de extremidades, 18% contra 5%, e síndrome de Sneddon, em quatro pacientes da forma primária e nenhum da associada ao lúpus. Abortamento, óbito fetal e prematuridade não diferiram estatisticamente entre os grupos dessa amostra. Isso não elimina a importância da história obstétrica nem permite, isoladamente, excluir lúpus. FAN e anticardiolipina IgG foram mais frequentes na forma associada. A maior frequência de catarata nesse grupo não demonstra, por si só, sua causa.
Gestante de 10 semanas, 31 anos, com síndrome antifosfolípide definida após trombose venosa profunda há quatro anos, vinha em uso de varfarina, suspensa assim que a gravidez foi confirmada. Qual o esquema antitrombótico recomendado pela diretriz brasileira para o restante da gestação e o puerpério?
Para a gestante com síndrome antifosfolípide e trombose prévia, o documento nacional recomenda heparina de baixo peso molecular subcutânea associada a aspirina em dose baixa, durante a gestação e no pós-parto, nomeando dalteparina 5.000 UI/dia ou enoxaparina 1 mg/kg/dia, com duplicação da dose após a 16ª semana. Os autores acrescentam, explicitamente, a recomendação de dose PLENA e não profilática nessas pacientes, pelo alto risco de novo evento. O anticoagulante oral tem recomendação negativa nessa população específica, por falta de estudo adequado — a varfarina aparece apenas como opção após a 13ª semana, nunca como primeira linha. Aspirina isolada não cobre quem já trombosou, e adiar a heparina para o terceiro trimestre deixa desprotegido justamente o período de maior risco acumulado.
Paciente de 41 anos com síndrome antifosfolípide apresenta acidente vascular cerebral isquêmico, o segundo evento arterial em três anos, já em uso de varfarina com INR mantido entre 2,0 e 3,0. Qual conduta é compatível com a diretriz brasileira para eventos arteriais nesta síndrome?
Para trombose arterial, a diretriz brasileira recomenda tratamento de longo prazo com varfarina, aceitando alvo de INR de 2,0 a 3,0 OU acima de 3,0, associado ou não a antiagregante — e os autores acrescentam que sugerem a anticoagulação intensiva, justificando que os estudos prospectivos sem diferença incluíram poucos pacientes com evento arterial. Diante de recorrência em vigência de alvo convencional, intensificar ou associar antiagregante é a conduta compatível com o documento. Antiagregação isolada não substitui anticoagulação em quem recorre. Anticoagulantes orais diretos não são alternativa nesta síndrome. Rituximabe pertence ao arsenal da forma catastrófica e de situações refratárias, não à prevenção secundária de rotina. Reduzir o alvo abaixo da faixa terapêutica é o oposto do que a evidência sustenta.
Mulher de 39 anos com síndrome antifosfolípide definida após trombose venosa profunda usa varfarina com razão normalizada internacional entre 2,0 e 3,0. Traz hemogramas com plaquetas de 78.000 e de 74.000 por milímetro cúbico, colhidos com quatro semanas de intervalo. Não tem sangramento nem petéquias. A equipe propõe transfundir plaquetas e suspender a anticoagulação. Segundo a diretriz brasileira, qual é a conduta?
A plaquetopenia da síndrome é achado associado, frequente e sugestivo, e a definição operacional das séries brasileiras é contagem abaixo de cem mil por milímetro cúbico em pelo menos duas ocasiões consecutivas — exatamente o que a paciente tem. Não é contagem de sangramento: a diretriz não escreve limiar transfusional para ela e não estratifica o risco hemorrágico pela plaqueta, de modo que transfundir ou usar o número para recusar anticoagulação são as duas leituras erradas que nascem daí. Substituir a varfarina por anticoagulante oral direto é justamente o que o ensaio dessa síndrome desaconselhou, por mais eventos trombóticos. E corticoide em dose alta trata uma destruição imune que não é o mecanismo descrito para essa contagem.
Mulher de 34 anos com lúpus apresenta TTPa alargado descoberto em exame pré-operatório, sem qualquer história de sangramento. Antecedente de duas perdas gestacionais no segundo trimestre e trombose venosa profunda há 2 anos. A mistura 1:1 não corrige o TTPa. Qual a interpretação correta?
TTPa alargado que não corrige na mistura, em paciente com lúpus, tromboses e perdas fetais, é anticoagulante lúpico: um anticorpo antifosfolípide que prolonga o teste in vitro ao competir pelos fosfolípides do reagente, mas in vivo predispõe a trombose. Não há risco hemorrágico e a cirurgia não exige reposição de hemocomponente. O inibidor de fator VIII é o distrator natural porque também não corrige na mistura, mas ele se manifesta com hematomas e sangramento espontâneo — exatamente o que essa paciente nunca teve.
Mulher de 31 anos com lúpus apresenta hemiparesia direita súbita. Ressonância confirma infarto isquêmico em território de artéria cerebral média. Investigação mostra anticoagulante lúpico positivo, anticardiolipina IgG em título alto e história prévia de duas perdas fetais no primeiro trimestre. Qual o diagnóstico associado?
Trombose arterial em jovem somada a morbidade gestacional e anticorpos antifosfolípides em título alto define a síndrome antifosfolípide, que frequentemente acompanha o lúpus e muda por completo a estratégia terapêutica. Vasculite do sistema nervoso central é o distrator que atrai por ser doença inflamatória, mas costuma dar quadro subagudo e multifocal, com alterações difusas, e não infarto único em território arterial definido. A distinção importa porque a síndrome antifosfolípide se trata com anticoagulação, e não com imunossupressão isolada.
Paciente com síndrome antifosfolípide e trombose venosa profunda prévia questiona sobre o anticoagulante. Qual a orientação correta?
Ensaios com anticoagulantes orais diretos na síndrome antifosfolípide mostraram mais eventos trombóticos que a varfarina, sobretudo em pacientes com tripla positividade sorológica e trombose arterial, e por isso o antagonista da vitamina K permanece o padrão. Trocar por um oral direto é a tentação da conveniência, já que dispensa monitorização, e é justamente o erro que a literatura recente desautoriza. A anticoagulação nessa síndrome é habitualmente indefinida, porque o risco de recorrência ao suspender é alto.
Mulher de 36 anos com lúpus e síndrome antifosfolípide previamente confirmada, com anticorpos persistentemente positivos em alto título, desenvolve em cinco dias trombose de veia renal com injúria renal aguda, infartos esplênicos e lesões cutâneas isquêmicas. Biópsia de pele demonstra oclusão trombótica de pequenos vasos, sem vasculite significativa. Há também plaquetopenia. Qual diagnóstico integra o quadro?
O quadro reúne trombose em três territórios — renal, esplênico e cutâneo — em cinco dias, confirmação histológica de trombose de pequenos vasos e anticorpos antifosfolípides persistentemente positivos. Isso sustenta síndrome antifosfolípide catastrófica. A injúria renal não seria um terceiro órgão se apenas rim e baço estivessem envolvidos. É uma emergência que requer tratamento especializado, anticoagulação e corticosteroides, com plasmaférese e/ou imunoglobulina conforme a avaliação, além de suporte orgânico e tratamento de precipitantes. Infecção pode desencadear ou coexistir com a síndrome. PTT e outras microangiopatias continuam no diagnóstico diferencial; não se deve excluí-las apenas por uma afirmação absoluta sobre trombose de grandes vasos.
Gestante de 12 semanas com lúpus e síndrome antifosfolípide, com história de trombose venosa prévia em uso de varfarina. Qual a conduta em relação à anticoagulação?
A varfarina é teratogênica e precisa ser trocada por heparina de baixo peso molecular na gestação, mantendo dose plena em quem já teve trombose, com ácido acetilsalicílico em dose baixa pela morbidade obstétrica da síndrome. Manter a varfarina é o erro grave, com risco de embriopatia no primeiro trimestre e de hemorragia fetal adiante. Anticoagulantes orais diretos são contraindicados na gestação e já têm desempenho inferior nessa síndrome fora dela. A hidroxicloroquina deve ser mantida durante toda a gravidez.
Sobre a manifestação hematológica da síndrome antifosfolípide, qual achado é frequente e não contraindica, por si só, a anticoagulação?
A plaquetopenia ocorre em cerca de um quinto a um terço dos doentes, costuma ser leve a moderada e, paradoxalmente, não protege contra trombose nem contraindica a anticoagulação quando as plaquetas estão acima de 50.000/mm³. Interpretá-la como risco hemorrágico e suspender o anticoagulante é o erro que expõe o paciente a novo evento trombótico. Aplasia, neutropenia grave e eosinofilia não fazem parte do quadro típico.
Homem de 44 anos com síndrome antifosfolípide apresenta, em uma semana, trombose de veia renal, isquemia mesentérica, injúria renal aguda, plaquetopenia e esquizócitos. Qual a hipótese e o tratamento?
Trombose de três ou mais órgãos em menos de uma semana, com confirmação de anticorpos antifosfolípides, caracteriza a forma catastrófica, condição de altíssima letalidade cujo tratamento é a tríade anticoagulação plena, corticoide e plasmaférese ou imunoglobulina, com rituximabe ou eculizumabe em casos refratários. A púrpura trombocitopênica trombótica é o diferencial mais próximo pela microangiopatia, mas não explica trombose de grandes vasos como a mesentérica e a renal.
Mulher de 32 anos com trombose venosa profunda em membro inferior esquerdo, sem fator provocador. Relata duas perdas fetais no segundo trimestre. Exames mostram anticoagulante lúpico positivo e tempo de tromboplastina parcial ativada prolongado que não corrige com plasma normal. Qual o diagnóstico provável?
Trombose não provocada em mulher jovem somada a morbidade gestacional e a um anticoagulante lúpico positivo desenha a síndrome antifosfolípide. O detalhe que confunde é o paradoxo laboratorial: o tempo de tromboplastina prolongado que não corrige na mistura sugere inibidor, mas aqui o inibidor é dirigido a fosfolípides do teste, e o paciente sangra menos e trombosa mais. As coagulopatias listadas cursariam com sangramento, não com trombose e perdas fetais.
Paciente com suspeita de síndrome antifosfolípide teve anticardiolipina IgG em título alto na fase aguda de uma trombose venosa. Qual a conduta correta para o diagnóstico?
Anticorpos antifosfolípides podem aparecer transitoriamente em infecções, neoplasias, uso de drogas e na própria fase aguda da trombose, o que torna uma única dosagem insuficiente. O critério exige positividade em duas ocasiões separadas por no mínimo 12 semanas, além do evento clínico. Firmar o diagnóstico com um exame engana e tem consequência prática pesada, porque implica anticoagulação por tempo indeterminado em paciente jovem. Descartar por ser fase aguda também erra, pois o anticorpo pode ser verdadeiro. Repetir em 48 horas não cumpre o intervalo exigido para separar transitório de persistente.
Paciente de 40 anos com síndrome antifosfolípide e trombose venosa profunda prévia estava em uso de varfarina com razão normalizada internacional entre 2 e 3. Foi trocada por rivaroxabana por conveniência e apresentou novo evento trombótico. Qual a orientação correta?
Ensaios com anticoagulantes orais diretos nessa síndrome, sobretudo em quem tem tripla positividade e trombose arterial, mostraram excesso de eventos em comparação com o antagonista da vitamina K, motivo pelo qual a varfarina permanece como padrão e não deve ser trocada por conveniência. Migrar para outro representante da mesma classe é o raciocínio que repete o erro, pois a limitação é de classe e não de molécula.
Gestante de 29 anos com síndrome antifosfolípide e três perdas fetais precoces prévias, sem história de trombose. Qual a conduta na gestação atual?
A morbidade gestacional dessa síndrome é tratada com a combinação de aspirina em dose baixa e heparina, que reduz perdas fetais mais do que a aspirina isolada. A varfarina é teratogênica e está contraindicada, sobretudo no primeiro trimestre — é o distrator mais grave. Corticoide não melhora desfecho obstétrico nessa indicação e acrescenta risco de diabetes gestacional, hipertensão e prematuridade.
Qual perfil de anticorpos confere o maior risco trombótico na síndrome antifosfolípide?
A positividade simultânea dos três testes identifica o subgrupo de maior risco de trombose e de recorrência, e é justamente nele que os anticoagulantes orais diretos se mostraram inferiores à varfarina. Títulos baixos isolados, positividade apenas da classe imunoglobulina M e resultados transitórios pós-infecção têm valor preditivo fraco — tratá-los como equivalentes ao perfil triplo é o que leva a anticoagulação desnecessária.
Mulher de 29 anos com síndrome antifosfolípide e trombose venosa profunda prévia deseja substituir a varfarina por um anticoagulante oral direto por conveniência. Ela é triplo-positiva nos testes antifosfolípides. Qual a orientação correta?
Em pacientes com síndrome antifosfolípide, sobretudo triplo-positivos, os anticoagulantes orais diretos associaram-se a mais eventos trombóticos, incluindo arteriais, do que a varfarina em ensaios clínicos: o antagonista da vitamina K permanece a droga de escolha, com alvo de INR entre 2 e 3. Trocar por conveniência engana quem generaliza a equivalência demonstrada em outras indicações. Reduzir o alvo de INR compromete a proteção sem ganho de segurança relevante, e suspender a anticoagulação em quem já trombosou com anticorpos persistentes é a conduta de maior risco.
Paciente com síndrome antifosfolípide apresenta, em poucos dias, trombose de múltiplos territórios, com insuficiência renal, alteração do nível de consciência e insuficiência respiratória. Qual o diagnóstico e o tratamento?
Trombose de três ou mais órgãos em menos de uma semana, com confirmação laboratorial de anticorpos antifosfolípides, caracteriza a forma catastrófica, rara e de alta mortalidade, frequentemente disparada por infecção, cirurgia ou suspensão da anticoagulação. O tratamento é combinado: anticoagulação plena, corticoide em dose alta e plasmaférese ou imunoglobulina, sem esquecer de tratar o gatilho. Tratar como microangiopatia isolada com plasmaférese apenas engana quem reconhece o componente trombótico e ignora a imunossupressão necessária, e essa é justamente a combinação que muda a sobrevida.
Mulher de 31 anos com síndrome antifosfolípide e dois abortamentos prévios, agora com 6 semanas de gestação, sem trombose prévia. Qual a conduta profilática?
Na síndrome antifosfolípide obstétrica, a combinação de aspirina em dose baixa com heparina de baixo peso molecular reduz perdas gestacionais e é a conduta padrão, mantida no puerpério, período de maior risco trombótico. A varfarina é teratogênica, especialmente entre a sexta e a décima segunda semana, e por isso é substituída por heparina na gestação — erro que engana quem transporta o tratamento da paciente não gestante. Anticoagulantes orais diretos não são recomendados na gestação por ausência de segurança estabelecida, e não intervir desperdiça uma profilaxia com benefício demonstrado.
Mulher de 32 anos com trombose venosa profunda de membro inferior esquerdo, história de três abortamentos com menos de 10 semanas e um óbito fetal com 22 semanas. Exames mostram TTPa alargado que não corrige com plasma normal. Qual a hipótese principal?
Trombose venosa somada a morbidade gestacional em mulher jovem, com TTPa alargado que não corrige na mistura com plasma normal, aponta anticoagulante lúpico e síndrome antifosfolípide — o alargamento in vitro é paradoxal, pois o paciente trombosa, e não sangra. O diagnóstico exige critério clínico mais laboratorial positivo confirmado após pelo menos 12 semanas. Hemofilia adquirida também cursa com TTPa que não corrige, mas manifesta-se por sangramento grave, e é isso que engana quem lê apenas a prova de mistura. Deficiência de fator XII alarga o TTPa sem causar sangramento nem trombose relevante.
Qual critério laboratorial é exigido para a classificação da síndrome do anticorpo antifosfolípide?
A exigência de repetir o exame após pelo menos 12 semanas existe porque infecções, drogas e quadros agudos produzem positividade transitória sem significado trombótico — rotular a partir de um único resultado é o erro que leva a anticoagular por toda a vida quem não tem a doença. O fator antinuclear e o anti-DNA pertencem ao lúpus, doença frequentemente associada, mas que não define esses critérios.
Paciente com síndrome antifosfolípide em uso de varfarina precisa de dosagem confiável da razão normalizada internacional, mas o anticoagulante lúpico interfere no reagente do laboratório. Qual a conduta correta?
O anticoagulante lúpico pode prolongar artificialmente a razão normalizada internacional em alguns reagentes, criando falsa impressão de anticoagulação adequada em um doente na verdade subanticoagulado. A solução técnica é usar reagente insensível ou monitorizar pelo fator X cromogênico. Trocar para anticoagulante direto parece resolver a inconveniência, mas é justamente a classe com pior desempenho nessa síndrome, sobretudo na tripla positividade.
Mulher de 30 anos assintomática, sem trombose ou perda gestacional, é encaminhada por anticorpos antifosfolípides persistentemente positivos em tripla positividade, descobertos em investigação de tempo de tromboplastina prolongado. Qual a conduta?
Sem evento clínico, não se preenche a classificação da síndrome, e a conduta é preventiva: aspirina em dose baixa nos perfis de maior risco, controle de tabagismo, hipertensão, dislipidemia e estrogênio exógeno, e profilaxia com heparina em cirurgia, imobilização e puerpério. Anticoagulação plena sem evento expõe a sangramento sem benefício demonstrado, e imunossupressão não tem papel na prevenção primária.
Homem de 47 anos com síndrome antifosfolípide anticoagulado com varfarina será submetido a colecistectomia eletiva. Qual a conduta perioperatória mais adequada?
Trata-se de população de altíssimo risco trombótico, em que a janela sem anticoagulação precisa ser mínima: suspende-se o antagonista da vitamina K, faz-se ponte com heparina e retoma-se o mais precocemente possível conforme o risco de sangramento. Deixar o doente uma semana sem cobertura é o erro que precipita recorrência, inclusive a forma catastrófica, que muitas vezes é desencadeada por cirurgia, infecção ou retirada de anticoagulante.
Qual manifestação cutânea é característica da síndrome antifosfolípide e serve de pista clínica ao exame físico?
O livedo, sobretudo quando persistente e de malha irregular, reflete a vasculopatia de pequenos vasos da doença e associa-se ao subgrupo com manifestações neurológicas, compondo com o acidente vascular cerebral a antiga síndrome de Sneddon. Eritema nodoso aponta sarcoidose, infecções e doença inflamatória intestinal, e as placas em extensores sugerem psoríase — distratores de outras associações dermatológico-reumatológicas.
Homem de 34 anos, sem fatores de risco cardiovascular, apresenta hemiparesia direita súbita e afasia. Tomografia mostra infarto isquêmico em território de artéria cerebral média esquerda. Ecocardiograma revela vegetações estéreis em valva mitral. Livedo reticular em coxas ao exame. Qual investigação é prioritária?
Acidente vascular isquêmico em jovem sem fatores de risco, com livedo reticular e vegetações valvares estéreis, que caracterizam a endocardite de Libman-Sacks, aponta para a síndrome antifosfolípide. A endocardite infecciosa é o distrator razoável, mas ali haveria febre, marcadores inflamatórios elevados e hemoculturas positivas. As trombofilias hereditárias, como o fator V de Leiden, associam-se sobretudo a eventos venosos, e não a trombose arterial cerebral.
Qual achado clínico-laboratorial ajuda a suspeitar de síndrome antifosfolípide em paciente com trombose recorrente apesar de anticoagulação adequada?
A combinação de trombose de repetição, plaquetopenia leve e morbidade gestacional é a tríade que deve disparar a pesquisa dos anticorpos, especialmente quando há prolongamento inexplicado do tempo de tromboplastina parcial. Ferritina alta aponta hemocromatose ou inflamação, e fibrinogênio baixo com dímero normal não descreve nenhum cenário coerente com trombose ativa — são distratores de painéis laboratoriais alheios ao mecanismo.
Paciente de 38 anos com síndrome antifosfolípide e antecedente de acidente vascular cerebral isquêmico. Qual o alvo de anticoagulação mais aceito para prevenção secundária de evento arterial?
Após trombose arterial nessa síndrome, a anticoagulação com antagonista da vitamina K é a base, com faixa habitual entre 2 e 3, reservando intensidade maior ou a associação de antiagregante para quem recorre sob tratamento adequado. Antiagregação isolada é insuficiente para o risco desses doentes e é o erro mais comum de quem trata o evento como aterotrombótico convencional, ignorando o mecanismo imunomediado.
Sobre a chamada síndrome antifosfolípide seronegativa, qual afirmação é correta?
O termo descreve doentes com apresentação clínica sugestiva e testes convencionais repetidamente negativos, em que se aventa a existência de anticorpos não cobertos pelos ensaios de rotina. Não é categoria de classificação, e assumir o rótulo leva a anticoagular por toda a vida sem substrato — antes disso é preciso repetir os testes fora da fase aguda e afastar outras causas de trombose, incluindo neoplasia oculta e trombofilias hereditárias.
Mulher de 35 anos com síndrome antifosfolípide e trombose venosa profunda prévia está em uso de varfarina com RNI entre 2 e 3. Solicita troca para anticoagulante oral direto pela comodidade. Qual a orientação?
Ensaios com anticoagulantes orais diretos mostraram excesso de eventos trombóticos arteriais na síndrome antifosfolípide, especialmente em pacientes com tripla positividade, e a varfarina permanece como padrão. Trocar pela comodidade é justamente o erro que a literatura recente desaconselha; a anticoagulação, por sua vez, costuma ser indefinida após trombose nessa síndrome.
Paciente com plaquetopenia e história de trombose venosa e arterial de repetição, abortamentos recorrentes e TTPA alargado que não corrige no teste da mistura. Qual o diagnóstico mais provável?
Trombose venosa e arterial de repetição, perdas gestacionais, plaquetopenia e TTPA alargado que não corrige na mistura, por presença de anticoagulante lúpico, formam o quadro da síndrome antifosfolípide — o alargamento é artefato in vitro num paciente que na verdade trombosa. A hemofilia adquirida também alarga o TTPA sem correção, mas cursa com sangramento, e não com trombose, o que engana quem só olha o resultado do teste da mistura.
Quais são os critérios laboratoriais da síndrome antifosfolípide?
A positividade deve ser confirmada após pelo menos 12 semanas, porque anticorpos transitórios aparecem em infecções e não implicam risco trombótico persistente — repetir o exame é o passo mais frequentemente esquecido. Anticorpo antinuclear e anti-DNA pertencem ao diagnóstico do lúpus, e não da síndrome antifosfolípide, ainda que as duas doenças coexistam com frequência.
Mulher de 33 anos com lúpus apresenta, em 5 dias, trombose de veia renal, isquemia digital, dispneia com infiltrados pulmonares, creatinina de 3,8 mg/dL, plaquetas de 60.000/mm³ e anticorpo anticardiolipina fortemente positivo. Qual o diagnóstico?
Acometimento de três ou mais órgãos em menos de uma semana, com trombose de pequenos vasos e anticorpos antifosfolípides positivos, define a forma catastrófica, condição rara e de alta mortalidade. A púrpura trombocitopênica trombótica é o diferencial microangiopático principal, mas cursa com deficiência grave de ADAMTS13 e sem o perfil sorológico antifosfolípide, e sua terapia difere na composição.
Gestante com síndrome antifosfolípide e antecedente de três abortamentos precoces. Qual a conduta na nova gestação?
A combinação de heparina e ácido acetilsalicílico em dose baixa aumenta a taxa de nascidos vivos na morbidade obstétrica da síndrome. A varfarina é teratogênica e contraindicada, sobretudo no primeiro trimestre — é o distrator que confunde o tratamento crônico com o manejo da gestação. Corticoide não trata a síndrome e acrescenta risco de diabetes gestacional e prematuridade.
Qual é o tratamento inicial da síndrome antifosfolípide catastrófica?
A terapia é combinada: heparina em dose plena, corticoide em dose alta, plasmaférese ou imunoglobulina, com identificação e tratamento do gatilho — infecção, cirurgia, suspensão de anticoagulante ou atividade lúpica. Usar apenas um dos componentes é o erro mais frequente e associa-se a mortalidade muito maior; a associação de terapias é o que mudou a sobrevida dessa síndrome.
Paciente com abortamento de repetição e diagnóstico confirmado de síndrome antifosfolípide obstétrica engravida novamente. Qual a conduta profilática desde o início da gestação?
A combinação de aspirina em dose baixa com heparina reduz perdas gestacionais na síndrome antifosfolípide obstétrica e é a conduta estabelecida, mantida no puerpério pelo risco trombótico elevado desse período. Corticoide em dose alta foi tentado no passado e associou-se a mais complicações maternas, como diabetes gestacional, hipertensão e prematuridade, sem ganho — escolhê-lo engana quem raciocina apenas em termos de imunossupressão. Repouso e progesterona isolados não atuam sobre o mecanismo trombótico e inflamatório placentário.
Sobre a pesquisa de trombofilias hereditárias na investigação de abortamento de repetição, qual afirmativa está correta?
A síndrome antifosfolípide é a trombofilia com associação consistente com morbidade gestacional e com tratamento de eficácia demonstrada, enquanto as trombofilias hereditárias têm associação fraca com perdas precoces recorrentes e o rastreamento rotineiro não é recomendado nesse contexto. Rastreá-las e anticoagular com base nos resultados engana quem transporta o raciocínio da síndrome adquirida, expondo gestantes a heparina por meses sem benefício comprovado sobre o desfecho da gestação.
Paciente em investigação de perdas recorrentes tem TTPa alargado, sem sangramento, e resultado positivo para anticoagulante lúpico. Sobre esse achado, qual afirmativa está correta?
O nome do anticoagulante lúpico é enganoso: ele prolonga testes de coagulação in vitro porque interfere nos ensaios dependentes de fosfolípides, mas o fenótipo clínico é trombótico, não hemorrágico. Interpretar o TTPa alargado como risco de sangramento engana e leva a contraindicar procedimentos ou a suspender anticoagulação em quem mais precisa dela. A prova de mistura, que não corrige com plasma normal, e os testes confirmatórios específicos completam a caracterização laboratorial.
Sobre os critérios clínicos obstétricos da síndrome antifosfolípide, qual conjunto está corretamente descrito?
Os critérios obstétricos reúnem três cenários distintos: perdas precoces recorrentes em número igual ou superior a três, morte fetal a partir de dez semanas com feto morfologicamente normal, e prematuridade antes de 34 semanas decorrente de pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia ou insuficiência placentária. Reduzir a definição a qualquer número de perdas engana e amplia indevidamente o diagnóstico. Infertilidade isolada e gestação ectópica não integram os critérios, apesar de frequentemente atribuídas à síndrome.
Sobre os critérios laboratoriais para o diagnóstico de síndrome antifosfolípide em investigação de perdas gestacionais recorrentes, qual afirmativa está correta?
O critério laboratorial exige persistência: positividade em duas ocasiões separadas por pelo menos 12 semanas, com títulos médios a altos para anticardiolipina e anti-beta-2-glicoproteína, ou anticoagulante lúpico detectado conforme metodologia padronizada. Aceitar dosagem única ou títulos baixos engana e rotula pacientes com positividade transitória ou inespecífica, submetendo-as a anticoagulação em gestações futuras sem indicação. O fator antinuclear pertence a outro contexto diagnóstico e não substitui essa pesquisa.
Mulher de 31 anos com três abortamentos consecutivos antes de 10 semanas e um episódio prévio de trombose venosa profunda. Anticoagulante lúpico positivo em duas ocasiões com intervalo de 14 semanas. Qual o diagnóstico?
O diagnóstico exige um critério clínico, trombose vascular ou morbidade gestacional definida, associado a um critério laboratorial positivo em duas dosagens separadas por pelo menos 12 semanas. Aqui coexistem trombose, perdas gestacionais precoces de repetição e anticoagulante lúpico persistentemente positivo. A repetição do exame é essencial porque anticorpos podem positivar transitoriamente em infecções, e dispensá-la engana quem fecha o diagnóstico em amostra única, rotulando a paciente para uma conduta de anticoagulação prolongada sem base.
Gestante de 8 semanas com síndrome antifosfolípide diagnosticada por morbidade obstétrica, sem antecedente de trombose. Qual o tratamento indicado durante a gestação?
Na síndrome antifosfolípide obstétrica sem antecedente trombótico, a combinação de ácido acetilsalicílico em dose baixa com heparina profilática é o esquema com melhor evidência de aumento da taxa de nascidos vivos. Pacientes com trombose prévia recebem heparina em dose terapêutica. O corticoide não melhora desfechos e acrescenta diabetes gestacional, hipertensão e prematuridade, o que engana quem raciocina apenas pelo caráter autoimune da doença. A varfarina é teratogênica e reservada ao puerpério.
Além da anticoagulação, qual medida está indicada na gestante com síndrome antifosfolípide para redução do risco de pré-eclâmpsia?
A síndrome antifosfolípide é fator de alto risco para pré-eclâmpsia, e o ácido acetilsalicílico em dose baixa iniciado antes de 16 semanas reduz de forma significativa a incidência da doença e de suas formas precoces, atuando sobre o remodelamento placentário ainda em curso. Vitaminas antioxidantes e restrição de sódio não demonstraram benefício, e o repouso no leito aumenta o risco trombótico em paciente já protrombótica — recomendá-lo engana por somar dano em vez de proteção. O sulfato de magnésio trata e previne convulsão, não a doença.
Gestante com síndrome antifosfolípide e trombose venosa profunda prévia estava em uso crônico de varfarina antes de engravidar. Descobre a gestação com 5 semanas. Qual a conduta?
A varfarina atravessa a placenta e é teratogênica sobretudo entre 6 e 12 semanas, produzindo a embriopatia com hipoplasia nasal e epífises pontilhadas, além de causar anticoagulação fetal e hemorragia. A conduta é a troca imediata por heparina de baixo peso molecular em dose terapêutica, mantida durante toda a gestação. Manter a varfarina até 12 semanas engana quem imagina que a janela de risco ainda não começou, quando ela já está aberta desde a sexta semana. Os anticoagulantes orais diretos não têm segurança estabelecida.
Gestante com síndrome antifosfolípide apresenta, com 26 semanas, restrição de crescimento fetal grave, oligoâmnio e Doppler de artéria umbilical com diástole zero. Qual a interpretação?
A trombose e a inflamação da microvasculatura placentária produzem insuficiência placentária, e a restrição de crescimento com oligoâmnio e diástole zero na artéria umbilical representa comprometimento grave, exigindo internação, corticoterapia antenatal, sulfato de magnésio para neuroproteção conforme a idade gestacional e vigilância intensiva com definição do momento da resolução. Considerar o achado irrelevante sob anticoagulação engana: o tratamento reduz, mas não elimina, a morbidade placentária da doença.
Mulher de 28 anos com anticardiolipina IgG em título baixo detectada em exame isolado, sem trombose e sem morbidade obstétrica. Qual a conduta?
O diagnóstico exige critério clínico e critério laboratorial persistente, com títulos médios ou altos confirmados em duas ocasiões separadas por pelo menos 12 semanas. Um título baixo em amostra única, sem evento clínico, não caracteriza a síndrome e frequentemente reflete positividade transitória associada a infecções ou a achado incidental. Rotular e anticoagular a partir desse resultado engana quem toma o exame como diagnóstico e expõe uma paciente assintomática a risco hemorrágico e a estigma sem benefício demonstrado.
Quais são os anticorpos que compõem os critérios laboratoriais da síndrome antifosfolípide?
Os três marcadores que integram os critérios são o anticoagulante lúpico, detectado por testes funcionais de coagulação, e os anticorpos anticardiolipina e anti-beta-2-glicoproteína I nos isotipos IgG ou IgM, em títulos médios ou altos, sempre confirmados em duas ocasiões com pelo menos 12 semanas de intervalo. Os anticorpos do painel do lúpus enganam quem associa qualquer autoanticorpo a essa síndrome, mas eles servem ao diagnóstico da doença de base, que pode coexistir e caracterizar a forma secundária.
Sobre o rastreamento de trombofilias hereditárias em mulheres com perdas gestacionais de repetição no primeiro trimestre, qual afirmativa está correta?
As perdas de primeiro trimestre têm como causa mais frequente as anomalias cromossômicas embrionárias, e ensaios clínicos não demonstraram benefício da heparina em mulheres com trombofilia hereditária e abortamento de repetição. Por isso o rastreamento nessa situação não é recomendado de rotina. A investigação com valor estabelecido é a da síndrome antifosfolípide, que é adquirida e tem tratamento eficaz — confundir as duas engana e leva a anticoagular sem indicação uma paciente que precisaria de outra investigação.
Qual das seguintes situações constitui critério clínico obstétrico para o diagnóstico de síndrome antifosfolípide?
Os critérios obstétricos abrangem três ou mais perdas consecutivas antes de 10 semanas com exclusão de outras causas, uma ou mais mortes fetais de feto morfologicamente normal a partir de 10 semanas, e parto prematuro antes de 34 semanas por pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia ou insuficiência placentária. Um abortamento isolado é evento comum na população geral e não caracteriza morbidade da síndrome — considerá-lo suficiente engana e produz diagnósticos indevidos com anticoagulação desnecessária. Prematuridade tardia espontânea não entra nos critérios.
Sobre a síndrome antifosfolípide catastrófica, qual afirmativa está correta?
A forma catastrófica é rara mas devastadora: trombose de pequenos vasos em três ou mais órgãos em menos de uma semana, com falência múltipla e mortalidade elevada, frequentemente desencadeada por infecção, cirurgia, suspensão da anticoagulação ou pela própria gestação e puerpério. O tratamento combina anticoagulação plena, corticoide em dose alta e plasmaférese ou imunoglobulina, com controle do fator desencadeante. Considerá-la restrita à não gestante engana e retarda o reconhecimento justamente num período de gatilho conhecido.
Puérpera com síndrome antifosfolípide e antecedente de trombose recebeu alta em uso de heparina. Qual a orientação sobre a anticoagulação de longo prazo?
A paciente com síndrome antifosfolípide e trombose prévia tem indicação de anticoagulação de longo prazo, e no puerpério retoma-se a varfarina com sobreposição à heparina até a razão normalizada internacional atingir a faixa-alvo, já que o efeito pleno leva dias. A varfarina é compatível com a amamentação, e supor o contrário engana e condena a paciente a injeções indefinidas. Suspender ao fim do puerpério ignora que a indicação de anticoagulação decorre da doença de base, e não da gestação.
Paciente com síndrome antifosfolipídeo e trombose arterial prévia necessita de anticoagulação de longo prazo. Qual a orientação atual quanto à escolha do anticoagulante?
Ensaios clínicos mostraram maior taxa de eventos trombóticos com anticoagulantes orais diretos em pacientes com síndrome antifosfolipídeo, sobretudo naqueles com tripla positividade e trombose arterial, o que mantém o antagonista da vitamina K como escolha preferencial nessa indicação. Optar por comodidade posológica é o erro mais tentador na prática e custou eventos em estudos. A anticoagulação nesses pacientes é habitualmente indefinida.
Mulher de 34 anos com dois episódios de trombose venosa profunda e um acidente vascular isquêmico apresenta anticoagulante lúpico positivo. Como confirmar o diagnóstico de síndrome antifosfolipídeo?
A síndrome antifosfolipídeo exige critério clínico associado a positividade persistente de anticorpo, confirmada em nova amostra após pelo menos 12 semanas, porque positividades transitórias ocorrem em infecções e outras condições. Diagnosticar com exame único é o erro que rotula pacientes para anticoagulação por toda a vida sem confirmação. Os anticorpos pesquisados são anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-beta-2-glicoproteína I.
Gestante de 33 anos, com 28 semanas, tem lúpus eritematoso sistêmico em remissão há dois anos, em uso de hidroxicloroquina, e anticorpos antifosfolípides positivos com antecedente de trombose venosa profunda. Ela é acompanhada em ambulatório de alto risco e está assintomática, com função renal normal. Pergunta se pode manter os medicamentos e o que mais deve ser feito nesta gestação. Assinale a conduta correta.
Na gestante com lúpus e síndrome antifosfolípide com trombose prévia, mantém-se a hidroxicloroquina, que reduz atividade da doença e complicações obstétricas, associada à heparina e ao ácido acetilsalicílico em dose baixa, com vigilância do crescimento fetal pelo risco de insuficiência placentária. Suspender a hidroxicloroquina eleva o risco de reativação e de bloqueio cardíaco fetal em portadoras de anticorpos específicos. A varfarina é teratogênica e contraindicada, sobretudo no primeiro trimestre. Retirar toda a medicação em paciente com trombose prévia expõe a gestante a recorrência tromboembólica.
Gestante de 33 anos, com 31 semanas, é acompanhada no pré-natal de alto risco por síndrome antifosfolípide diagnosticada após três perdas gestacionais consecutivas de primeiro trimestre, com anticoagulante lúpico persistentemente positivo. Está em uso de ácido acetilsalicílico em dose baixa e heparina de baixo peso molecular em dose profilática desde o teste de gravidez positivo. Os exames atuais estão normais, a pressão arterial é de 118x74 mmHg e o crescimento fetal está adequado. Quanto à anticoagulação no periparto e no puerpério, a orientação correta é
A heparina de baixo peso molecular deve ser suspensa com antecedência suficiente para permitir a anestesia neuroaxial com segurança e reiniciada após o parto, mantendo-se a tromboprofilaxia no puerpério, período de maior risco trombótico. Suspender tudo logo após o parto é erro conceitual, pois o estado de hipercoagulabilidade persiste por semanas. Manter a heparina imediatamente antes do bloqueio expõe ao risco de hematoma peridural. A varfarina atravessa a placenta e é teratogênica e associada a sangramento fetal, sendo inadequada nesse momento da gestação.
Mulher de 33 anos, sem comorbidades, comparece ao ambulatório com relato de dois episódios de trombose venosa profunda em membros inferiores nos últimos três anos, um deles sem fator desencadeante identificável, além de perda gestacional de segundo trimestre. Ela não usa contraceptivo hormonal e não tem neoplasia conhecida. O exame físico atual é normal, com pulsos amplos e sem edema. Ela está fora de anticoagulação há dois meses. A investigação laboratorial prioritária nesse contexto inclui
Trombose recorrente, sendo uma delas não provocada, associada a perda gestacional de segundo trimestre em mulher jovem, sugere síndrome antifosfolípide, cuja investigação exige a pesquisa dos três anticorpos com confirmação após 12 semanas. O dímero-D não caracteriza trombofilia e tem baixa especificidade. Restringir a pesquisa ao fator V de Leiden deixaria de identificar a trombofilia adquirida mais relevante clinicamente, que muda a duração e o tipo de anticoagulação. Dosar proteína C e S sob anticoagulante oral produz resultados falsamente reduzidos.
Mulher de 33 anos procura ambulatório para investigação de três perdas gestacionais consecutivas antes da décima semana, além de episódio de trombose venosa profunda em membro inferior esquerdo há dois anos, sem fator desencadeante. Nega tabagismo e uso de anticoncepcional na ocasião. Ao exame: livedo reticular em membros inferiores, sem artrite e sem lesões cutâneas ativas. Exames: plaquetas de 96.000/mm³, tempo de tromboplastina parcial ativada alargado que não corrige com plasma normal, e anticorpo anticardiolipina IgG em título alto. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
Trombose venosa sem fator provocador, perdas gestacionais de repetição, plaquetopenia, livedo e anticorpo antifosfolípide em título alto com alargamento do tempo de tromboplastina que não corrige com plasma normal compõem o quadro de síndrome antifosfolípide, cuja confirmação exige repetição do anticorpo após 12 semanas. A hemofilia adquirida também não corrige com plasma, mas cursa com sangramento, e não com trombose. A púrpura trombocitopênica imune explicaria apenas a plaquetopenia, sem trombose e sem o anticorpo. A deficiência de fator XII alarga o tempo de coagulação, porém não causa trombose nem perdas gestacionais.
Mulher de 38 anos, com lúpus eritematoso sistêmico, é internada com trombose venosa profunda em membro inferior esquerdo e história de dois abortamentos de primeiro trimestre. Os exames mostram anticoagulante lúpico positivo, anticardiolipina IgG em título alto e prolongamento do tempo de tromboplastina parcial ativada que não corrige com plasma normal. Ela está estável, com pressão arterial de 118x74 mmHg e plaquetas de 92.000/mm³. Confirmada a síndrome antifosfolípide após repetição dos exames, a conduta correta quanto à anticoagulação de longo prazo é
A síndrome antifosfolípide com trombose exige anticoagulação por tempo indeterminado, e os antagonistas da vitamina K permanecem preferidos, sobretudo em pacientes de alto risco com tripla positividade ou trombose arterial, pois os anticoagulantes orais diretos mostraram maior taxa de eventos nesse subgrupo. Suspender após três meses trata a condição como trombose provocada, o que ela não é. Antiagregante isolado é insuficiente após evento trombótico. Hidroxicloroquina é adjuvante e não substitui a anticoagulação.
Mulher de 39 anos, com lúpus eritematoso sistêmico e síndrome do anticorpo antifosfolípide, é atendida em ambulatório após segundo episódio de trombose venosa profunda. Ela suspendeu a anticoagulação por conta própria há dois meses. Ao exame: PA 118x74 mmHg, FC 82 bpm, edema em membro inferior esquerdo com aumento de 3 cm da circunferência, sem sinais de isquemia, ausculta cardiopulmonar sem alterações. Exames: hemoglobina 11,8 g/dL, plaquetas 110.000/mm3, creatinina 0,9 mg/dL, anticorpos antifosfolípides persistentemente positivos em duas coletas com intervalo adequado. A conduta correta é:
Síndrome do anticorpo antifosfolípide com trombose recorrente exige anticoagulação plena por tempo indeterminado, sendo o antagonista da vitamina K a opção preferencial nesse contexto, especialmente em perfis de maior risco, com reforço da adesão e acompanhamento estruturado. Limitar o tratamento a três meses ignora o caráter permanente do risco trombótico. AAS isolado não previne trombose venosa nessa síndrome. Conduta expectante diante de trombose confirmada e recorrente expõe a paciente a novos eventos potencialmente fatais.
Gestante de 35 anos, com 20 semanas, comparece ao ambulatório com antecedente de duas perdas gestacionais de segundo trimestre e um episódio de trombose venosa profunda, com anticorpos antifosfolípides persistentemente positivos. Ela está em uso de ácido acetilsalicílico em dose baixa e heparina de baixo peso molecular desde o início da gestação. Está assintomática, com pressão arterial de 114x72 mmHg, crescimento fetal adequado e Doppler normal. Ela relata boa adesão às injeções diárias e nega sangramentos, equimoses ou reações no local de aplicação. As plaquetas estão em 180.000/mm³, a função renal é normal e a pressão arterial permanece estável em medidas repetidas. A conduta correta é
Na síndrome antifosfolípide obstétrica com antecedente trombótico, mantém-se a associação de ácido acetilsalicílico e heparina durante toda a gestação e no puerpério, com vigilância intensiva do crescimento fetal e da pré-eclâmpsia, que são complicações frequentes. Suspender a heparina após o primeiro trimestre eleva o risco de perda e de trombose. Suspender ambos pela boa evolução retira justamente o que a mantém. A varfarina é teratogênica e inadequada na gestação.
Mulher de 32 anos é atendida em ambulatório de referência após três perdas gestacionais consecutivas antes da décima semana, todas com embrião com batimentos previamente documentados. Refere ainda episódio de trombose venosa profunda em membro inferior aos 29 anos, sem fator desencadeante. Os ciclos são regulares, a ultrassonografia pélvica é normal e o cariótipo do casal não mostrou alterações. O tempo de tromboplastina parcial ativada está alargado e não corrige com plasma normal. Qual é a investigação que mais provavelmente esclarecerá o quadro?
Perdas gestacionais de repetição associadas a trombose venosa espontânea e a alargamento do tempo de tromboplastina parcial que não corrige com plasma normal apontam síndrome antifosfolípide, confirmada por anticorpos positivos em duas dosagens separadas por pelo menos doze semanas, com tratamento que altera o prognóstico obstétrico. Reserva ovariana explica dificuldade de concepção, não perda recorrente com embrião vivo. Obstrução tubária causa infertilidade, e não abortamento de repetição, já que impediria a própria gestação. Rastreio de diabetes não explica perdas precoces recorrentes nem o achado de coagulação descrito.
Mulher, 33 anos, com três abortamentos consecutivos antes de 10 semanas e um óbito fetal de 24 semanas com placenta de baixo peso. Cariótipo do casal normal, útero sem malformações, TSH e prolactina normais. Anticoagulante lúpico positivo em duas ocasiões com 14 semanas de intervalo. Chega agora com nova gestação de 6 semanas confirmada por ultrassom, com embrião vivo. Qual a conduta profilática indicada?
A associação de ácido acetilsalicílico em baixa dose com heparina de baixo peso molecular profilática é o esquema padrão da síndrome antifosfolípide obstétrica, que já está caracterizada por critério clínico — três perdas consecutivas antes de 10 semanas e óbito fetal com insuficiência placentária — somado a anticoagulante lúpico positivo em duas dosagens separadas por pelo menos 12 semanas. O uso isolado do ácido acetilsalicílico é inferior à combinação em pacientes que preenchem critérios completos. A prednisona com imunoglobulina não tem eficácia demonstrada nesse cenário e acrescenta risco de diabetes gestacional e infecção. A varfarina é contraindicada, sobretudo entre 6 e 12 semanas, pela embriopatia com hipoplasia nasal e condrodisplasia punctata. Afirmar que falta critério laboratorial é incorreto, pois o anticoagulante lúpico isolado, confirmado no intervalo exigido, satisfaz o critério laboratorial.
Mulher, 34 anos, com três perdas gestacionais consecutivas antes de 10 semanas, procura investigação. Ciclos regulares, sem doenças crônicas conhecidas. Nega trombose venosa prévia. Cariótipo do casal normal; ultrassonografia com infusão salina e histeroscopia mostram cavidade uterina normal. TSH 1,9 mUI/L (VR 0,4–4,0) e hemoglobina glicada 5,2% (VR até 5,7). Anticoagulante lúpico positivo em duas ocasiões com intervalo de 12 semanas e anticardiolipina IgG em título alto. Qual a conduta na próxima gestação?
A paciente preenche critérios de síndrome antifosfolípide obstétrica, com três perdas precoces e anticorpos positivos em duas ocasiões separadas por 12 semanas; o tratamento estabelecido na gestação seguinte é ácido acetilsalicílico em dose baixa associado a heparina de baixo peso molecular em dose profilática, que reduz as perdas. A progesterona isolada não trata o mecanismo trombótico e inflamatório da síndrome. A corticoterapia imunossupressora foi abandonada por não melhorar desfechos e aumentar diabetes gestacional, hipertensão e prematuridade. A imunoglobulina endovenosa não demonstrou benefício e tem custo elevado. Apenas observar é inadequado: a ausência de trombose prévia define a forma obstétrica da síndrome, que continua exigindo tratamento na gestação.
Mulher, 34 anos, com síndrome antifosfolípide e trombose venosa profunda prévia, em uso de heparina de baixo peso molecular em dose terapêutica durante toda a gestação, dá à luz por cesariana com 38 semanas, sem intercorrências hemorrágicas. PA 116/74 mmHg, plaquetas 205.000/mm³ (VR 150.000–450.000), Hb 10,8 g/dL. A equipe define a anticoagulação do puerpério e o plano de acompanhamento após a alta hospitalar. Qual a conduta correta?
Manter a anticoagulação no puerpério por pelo menos 6 semanas é a conduta correta, pois esse é o período de maior risco trombótico, e a transição para varfarina é possível quando desejada, já que esse fármaco é compatível com a amamentação por não passar ao leite em quantidade relevante, ao contrário do que ocorre na gestação. Suspender a anticoagulação após o parto ignora que o risco é maior no puerpério do que durante a gravidez. Manter apenas 48 horas é insuficiente em paciente com síndrome antifosfolípide e trombose prévia. Iniciar varfarina e suspender a amamentação é desnecessário, pois não há contraindicação ao aleitamento. O ácido acetilsalicílico isolado não oferece proteção adequada contra tromboembolismo venoso nessa paciente de alto risco.
Mulher, 49 anos, com lúpus eritematoso sistêmico e anticorpos antifosfolípides positivos, apresenta há 8 meses padrão reticulado violáceo persistente em coxas e braços, que não desaparece com o aquecimento do ambiente, com áreas de ulceração superficial em maléolos. Refere um episódio prévio de trombose venosa profunda. Exame: rede violácea irregular e quebrada, com nódulos dolorosos subjacentes em algumas áreas. Qual a interpretação do achado cutâneo?
Padrão reticulado violáceo persistente, irregular e quebrado, que não some com o aquecimento e se acompanha de ulceração e nódulos, é livedo racemoso, associado a oclusão de vasos dérmicos e a estados protrombóticos como a síndrome antifosfolípide — achado com implicação prognóstica e terapêutica. O livedo reticular fisiológico é simétrico, regular, reversível com o aquecimento e sem ulcerações. O eritema pérnio surge após exposição ao frio úmido, com lesões acrais eritematovioláceas e prurido, de curso sazonal. A púrpura senil produz equimoses em antebraços de idosos por fragilidade do colágeno dérmico. O fenômeno de Raynaud é episódico, acral e trifásico, distinto de um padrão reticulado persistente no tronco e nos membros.
Mulher, 34 anos, com dois abortamentos prévios no segundo trimestre e trombose venosa profunda atual, apresenta tempo de tromboplastina parcial ativada prolongado que não corrige com plasma normal. PA 118/72 mmHg, FC 82 bpm. Anticoagulante lúpico positivo em duas ocasiões com 12 semanas de intervalo, além de anticorpo anticardiolipina em título elevado; plaquetas de 118.000/mm³. Qual a conduta anticoagulante mais adequada?
Na síndrome antifosfolipídeo com trombose, a anticoagulação com antagonista da vitamina K por tempo indefinido é a estratégia recomendada, sobretudo em perfil de alto risco com tripla positividade, pois os anticoagulantes orais diretos mostraram maior taxa de eventos nessa população. Usar anticoagulante oral direto por 3 meses reúne duas inadequações, a classe e a duração. O ácido acetilsalicílico isolado é insuficiente após trombose estabelecida. Heparina profilática apenas em situações de risco não protege adequadamente quem já teve evento. Não anticoagular expõe a recorrência frequente e grave.
Mulher, 32 anos, com dois abortamentos no segundo trimestre e trombose venosa profunda prévia, apresenta livedo reticular e plaquetopenia leve. PA 124/78 mmHg, FC 78 bpm. Tempo de tromboplastina parcial ativada prolongado que não corrige com plasma normal, anticoagulante lúpico positivo em duas ocasiões com intervalo de 12 semanas e anticorpo anticardiolipina IgG em título elevado. Qual a conduta mais adequada?
Na síndrome antifosfolipídeo com trombose, a anticoagulação com antagonista da vitamina K é a estratégia estabelecida, e na gestação o esquema é heparina associada a ácido acetilsalicílico em dose baixa, pois os antagonistas da vitamina K são teratogênicos. O ácido acetilsalicílico isolado é insuficiente após trombose. Os anticoagulantes orais diretos mostraram mais eventos nessa síndrome, sobretudo em perfil de alto risco. A corticoterapia contínua não previne trombose e traz toxicidade. Não intervir expõe a recorrência trombótica e a novas perdas gestacionais.
Mulher, 33 anos, com trombose venosa profunda em membro inferior esquerdo e história de três perdas gestacionais antes da décima semana. Nega tabagismo ou uso de anticoncepcional. PA 118x74 mmHg, FC 78 bpm, livedo reticular em coxas. Exames: anticoagulante lúpico positivo em duas ocasiões, com intervalo de 14 semanas; anticardiolipina em título alto; plaquetas 108.000 por milímetro cúbico; tempo de tromboplastina parcial alargado. Qual o tratamento de longo prazo indicado?
Na síndrome antifosfolípide com trombose venosa, o tratamento de longo prazo é a anticoagulação com varfarina, mantendo a razão normalizada internacional entre 2 e 3, por tempo indefinido. Os anticoagulantes orais diretos mostraram maior taxa de eventos trombóticos nessa síndrome, especialmente em pacientes com tripla positividade, e não são recomendados. O ácido acetilsalicílico isolado é insuficiente após evento trombótico venoso estabelecido. A corticoterapia contínua não previne trombose e traz morbidade importante. A heparina restrita ao período gestacional deixa a paciente desprotegida fora da gravidez, quando o risco persiste.
Mulher, 33 anos, com trombose venosa profunda em membro inferior esquerdo e antecedente de três perdas gestacionais antes da décima semana. Exame: PA 128x78 mmHg, FC 82 bpm, livedo reticular em membros inferiores, sem sinovite. Anticoagulante lúpico positivo e anticardiolipina IgG em título alto, ambos confirmados em nova coleta após 12 semanas. Plaquetas de 96.000/mm³; FAN reagente em título baixo. Qual a conduta mais adequada para prevenção secundária?
Trombose venosa com anticorpos antifosfolípides persistentemente positivos em duas dosagens separadas por pelo menos 12 semanas, associada a morbidade gestacional, define síndrome antifosfolípide, cuja prevenção secundária é anticoagulação prolongada, habitualmente com antagonista da vitamina K em alvo terapêutico. O ácido acetilsalicílico isolado por seis meses é insuficiente para prevenção secundária de trombose. Os anticoagulantes orais diretos mostraram-se inferiores, sobretudo em pacientes com tripla positividade e trombose arterial, não sendo primeira escolha. O corticoide contínuo não previne trombose e acrescenta toxicidade. Não instituir terapia contínua expõe a paciente a alto risco de recorrência trombótica.
Mulher, 33 anos, internada por trombose venosa profunda em veia femoral esquerda confirmada por ultrassonografia com Doppler, sem fatores de risco identificáveis. PA 122x78 mmHg, FC 88 bpm, T 36,7 °C. Exames na admissão: anticoagulante lúpico positivo; anticardiolipina IgG 68 GPL (VR abaixo de 20); anti-beta-2-glicoproteína I IgG 54 U (VR abaixo de 20); plaquetas 96.000/mm³ (VR 150.000–400.000); TTPa alargado que não corrige com plasma normal. Para a confirmação diagnóstica de síndrome antifosfolípide, é correto afirmar que:
A confirmação da síndrome antifosfolípide exige que a positividade de anticoagulante lúpico, anticardiolipina ou anti-beta-2-glicoproteína I seja reproduzida em nova amostra colhida com pelo menos doze semanas de intervalo, período que separa o anticorpo persistente da positividade transitória associada a infecções e ao próprio evento agudo. A plaquetopenia é manifestação frequente, porém não é critério classificatório e não dispensa a sorologia confirmatória. O alargamento do tempo de tromboplastina parcial ativada que não corrige com plasma normal é justamente a assinatura in vitro do anticoagulante lúpico e reforça o diagnóstico em vez de afastá-lo. Um único evento trombótico documentado preenche o critério clínico, sem exigência de recorrência. O intervalo de quarenta e oito horas é insuficiente, pois não distingue anticorpo persistente de transitório.
Homem, 41 anos, com síndrome antifosfolípide confirmada por tripla positividade, apresentou trombose venosa profunda em membro inferior direito há 4 dias, em vigência de rivaroxabana 20 mg/dia iniciada após episódio prévio há 1 ano. PA 130x82 mmHg, FC 84 bpm, T 36,5 °C. Exames: hemoglobina 13,8 g/dL (VR 13–17); plaquetas 132.000/mm³ (VR 150.000–400.000); creatinina 1,0 mg/dL (VR 0,6–1,2). Qual a conduta mais apropriada quanto à anticoagulação?
A troca para antagonista de vitamina K com razão normalizada internacional entre 2 e 3 é a conduta correta, pois ensaios clínicos em portadores de tripla positividade mostraram excesso de eventos trombóticos, sobretudo arteriais, com anticoagulantes orais diretos, que estão formalmente desaconselhados nesse perfil. Dobrar a dose de rivaroxabana não tem respaldo e apenas amplia o risco hemorrágico sem corrigir a falha de mecanismo. Suspender a anticoagulação após evento recorrente é inaceitável, e a hidroxicloroquina é adjuvante, sem substituir anticoagulante. A apixabana pertence à mesma classe recusada nesse cenário, de modo que a troca entre inibidores diretos não resolve o problema. Somar antiagregante ao esquema falho aumenta sangramento sem evidência de proteção adicional na trombose venosa.
Mulher, 30 anos, com três perdas gestacionais consecutivas antes da décima semana, sem alterações cariotípicas do casal ou malformações uterinas. Investigação evidenciou anticardiolipina IgG 55 GPL (VR abaixo de 20) e anti-beta-2-glicoproteína I IgG 48 U (VR abaixo de 20), confirmados após 14 semanas. Nega trombose prévia. Retorna com atraso menstrual e beta-hCG positivo, com 6 semanas de idade gestacional. PA 112x70 mmHg, FC 80 bpm, T 36,4 °C. Qual a conduta profilática mais adequada nesta gestação?
A profilaxia padrão da síndrome antifosfolípide obstétrica combina ácido acetilsalicílico em dose baixa, iniciado idealmente antes da concepção, com heparina de baixo peso molecular em dose profilática desde a confirmação da gravidez, esquema que reduz de forma consistente a taxa de nova perda fetal. A varfarina é teratogênica no primeiro trimestre, com embriopatia característica, e está proscrita nessa fase. Corticoide e imunoglobulina não demonstraram benefício e aumentam desfechos adversos como diabetes gestacional e prematuridade. O ácido acetilsalicílico isolado é inferior à associação com heparina em paciente que já preenche critério obstétrico com três perdas. Os anticoagulantes orais diretos atravessam a placenta e não têm segurança estabelecida na gestação, além de serem desaconselhados na tripla positividade.
Mulher, 36 anos, com síndrome antifosfolípide, interrompeu a varfarina há 10 dias por extração dentária. Há 3 dias evolui com dispneia, dor abdominal e oligúria. PA 88x54 mmHg, FC 124 bpm, FR 30 ipm, SatO2 88% em ar ambiente, T 38,2 °C. Exames: creatinina 3,4 mg/dL (VR 0,6–1,2); plaquetas 42.000/mm³ (VR 150.000–400.000); desidrogenase láctica 980 U/L (VR 120–246); esquizócitos no sangue periférico. Tomografia com infartos esplênicos e renais bilaterais. Qual a conduta imediata mais apropriada?
A síndrome antifosfolípide catastrófica, sugerida por acometimento de três ou mais órgãos em menos de uma semana com microangiopatia trombótica após suspensão do anticoagulante, exige tratamento combinado imediato com heparina plena, corticoide em dose alta e plasmaférese ou imunoglobulina, além de tratar o fator desencadeante. Adiar a anticoagulação para transfundir plaquetas é conduta perigosa, pois a plaquetopenia decorre do consumo trombótico e o risco dominante é isquêmico. Antibiótico isolado ignora o mecanismo trombótico, ainda que a busca de infecção como gatilho seja obrigatória. Reintroduzir varfarina isolada é lenta demais e não controla a tempestade trombótica em curso. Aguardar biópsia renal retarda intervenção com mortalidade próxima de metade dos casos, e o diagnóstico é clínico-laboratorial.
Mulher, 34 anos, com duas perdas gestacionais no segundo trimestre e episódio prévio de trombose venosa profunda, realiza exames pré-operatórios. Não apresenta sangramento espontâneo, epistaxe ou menorragia. Exame físico sem petéquias ou equimoses. RNI 1,1; tempo de tromboplastina parcial ativada de 58 segundos (VR 25–35); plaquetas 118.000/mm³ (VR 150.000–450.000); fibrinogênio normal. O teste de mistura com plasma normal NÃO corrige o tempo prolongado. Qual a hipótese?
O teste de mistura que não corrige indica presença de inibidor, e o contexto de trombose venosa prévia, perdas gestacionais tardias e plaquetopenia leve aponta para anticoagulante lúpico no âmbito da síndrome antifosfolípide, condição em que o exame alterado se associa a risco trombótico, e não hemorrágico. A deficiência de fator VIII corrigiria no teste de mistura e cursaria com sangramento. A deficiência de fator XII também corrige no teste de mistura, embora igualmente não cause sangramento. A coagulação intravascular disseminada alteraria fibrinogênio e RNI. Heparina prolonga o exame, mas o quadro clínico de trombose e perdas gestacionais favorece fortemente o anticoagulante lúpico, que deve ser confirmado por testes específicos.
Qual dado da tabela demonstra persistência dos anticorpos?

Há repetição além de 12 semanas, intervalo relevante na avaliação da persistência.
Qual evento clínico informado torna os resultados relevantes para investigar síndrome antifosfolípide trombótica?

Associa um evento clínico compatível a anticorpos persistentes.
Se a primeira coleta tivesse ocorrido sob uso de anticoagulante com possível interferência, o que deveria mudar na interpretação?

Alguns anticoagulantes interferem em ensaios funcionais; os dados devem ser tecnicamente confiáveis.
Apesar do nome anticoagulante lúpico, a presença desse marcador nesse contexto se associa a qual risco clínico?

O prolongamento de testes in vitro não implica proteção contra trombose no organismo.
Após trombose venosa e com esse perfil persistente triplo positivo, por que não escolher automaticamente rivaroxabana por conveniência?

Há evidência de resultados desfavoráveis com rivaroxabana nesse grupo; escolha exige avaliação especializada.
Portadora de perfil antifosfolípide de alto risco, sem trombose prévia, será submetida a cirurgia de grande porte com imobilização prolongada. Não usa anticoagulação terapêutica e não tem sangramento ativo. Além das medidas gerais, qual recomendação da EULAR se aplica ao período de risco?
O risco hemorrágico e o momento da cirurgia integram o plano de prevenção. Referências: EULAR: Recommendations for the management of antiphospholipid syndrome in adults — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/11034817/
Uma mulher de 40 anos tem anticoagulante lúpico e anticardiolipina em título alto persistentemente positivos. Nunca teve trombose ou morbidade gestacional e não apresenta contraindicação a antiagregantes. Segundo a EULAR, qual estratégia de prevenção primária pode ser indicada nesse perfil de alto risco?
Positividade de anticorpos e diagnóstico de síndrome clínica não são termos equivalentes. Referências: EULAR: Recommendations for the management of antiphospholipid syndrome in adults — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/11034817/
Durante investigação de trombose, colhe-se pesquisa de anticoagulante lúpico duas horas após a dose de rivaroxabana. O ensaio funcional é positivo, sem resultado anterior para comparação. Qual limitação deve orientar a interpretação?
Não se deve interromper anticoagulação por conta própria apenas para repetir o exame. Referências: ISTH-SSC: Lupus anticoagulant detection in anticoagulated patients — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32619349/
Paciente com síndrome antifosfolípide em uso de varfarina apresenta nova trombose venosa. O episódio agudo já está sendo tratado. Diz que toma o medicamento, mas não trouxe os registros de INR e relata dificuldade para comparecer ao acompanhamento. Antes de concluir falha apesar de anticoagulação adequada, o que deve ser verificado?
As opções de intensificação dependem de distinguir anticoagulação insuficiente de recorrência sob tratamento adequado. Referências: EULAR: Recommendations for the management of antiphospholipid syndrome in adults — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/11034817/
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em 7 dias
Recite, sem olhar, os três anticorpos do critério laboratorial e a regra de tempo que vale para todos eles. Em seguida escreva as três portas da morbidade obstétrica com a quantidade que cada uma exige e a idade gestacional que a define. Feche dizendo, em voz alta, qual é o alvo de razão normalizada internacional depois de trombose venosa e por quanto tempo ele se mantém.
em 30 dias
Monte de memória a tabela de quatro linhas que separa portador, síndrome obstétrica pura, síndrome trombótica e gestante com trombose prévia, escrevendo a conduta de cada uma em uma frase. Depois explique, como se fosse para um interno: por que um exame reagente na internação não fecha diagnóstico; por que dois abortamentos precoces não preenchem critério; e por que a comodidade do anticoagulante oral direto não sobrevive à tripla positividade. Termine reconstruindo a aritmética da série brasileira — por que ela conta cento e quarenta e nove no resumo e divide cento e quarenta e oito na tabela.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Num ambulatório de doenças autoimunes, treine a sequência que este capítulo desenha e que a pressa atropela. Diante de uma sorologia antifosfolipídica alterada, pergunte primeiro pelo evento: houve trombose confirmada por imagem, houve perda fetal acima de dez semanas, houve parto prematuro por insuficiência placentária? Só depois pergunte pelo relógio: quando foi a primeira coleta e quando foi a segunda. Diga em voz alta se o que está à sua frente é portador ou doente antes de escrever qualquer prescrição, e termine nomeando a droga e o alvo — ou dizendo, com todas as letras, que a conduta é observar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
