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Clínica MédicaReumatologia

Monoartrite aguda: a punção que decide antes do cristal e do antibiótico

Monoartrite aguda no adulto: quando puncionar, como ler o líquido sinovial e o que separa artrite séptica de artrite por cristais

Toda articulação aguda, quente e com derrame deve ser puncionada antes do antibiótico quando houver suspeita de infecção.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Sobre a análise do líquido sinovial na monoartrite aguda, qual conjunto de exames deve ser solicitado a partir do material colhido na punção?

02

Como esse tema cai

Entra o adulto com uma articulação — em geral uma só — que ficou dolorosa, quente e inchada em horas ou poucos dias: decidir se essa articulação será puncionada, em que ordem a punção entra em relação ao antibiótico, o que se pede no líquido, como se lê o resultado e por que o achado de cristal não encerra a investigação. Entra também a leitura crítica do escore de classificação que o documento federal reproduz, porque é dele que sai boa parte do vocabulário dos enunciados brasileiros.

Fica de fora o tratamento de manutenção da gota, com a droga que baixa o urato e o alvo sérico, que tem capítulo próprio nesta apostila. Fica de fora a poliartrite simétrica de pequenas articulações, que pertence ao capítulo de artrite reumatoide. Ficam de fora a dor articular crônica sem sinal inflamatório e a artrite da coluna, cada uma no seu capítulo. E fica de fora o manejo cirúrgico da articulação infectada depois da drenagem inicial, que é assunto do ortopedista.

Um aviso de calibração, porque o nome mais assustador do tema não é o que decide. Medido nas provas brasileiras, o termo artrite séptica aparece em quarenta e oito questões da grande área de Clínica Médica e está na alternativa correta uma única vez; nas outras vinte e oito em que aparece numa opção, essa opção está errada. Já o líquido sinovial aparece em vinte e nove e acerta em dez, com um único uso como distrator. É pelo líquido, e não pelo susto, que este capítulo está organizado.

03

O que muda decisão

Uma articulação quente é uma pergunta de horas, não de semanas

A monoartrite aguda é a única apresentação reumatológica que se comporta como emergência antes de se comportar como diagnóstico. A razão é aritmética: entre as causas possíveis existe uma que destrói a cartilagem em dias e mata em semanas, e as demais, que doem muito e não destroem nada com a mesma pressa. Enquanto essa uma não for afastada, todas as outras esperam.

Isso inverte a ordem habitual do raciocínio clínico. Em quase todo o resto da medicina interna a história dirige o exame, o exame dirige o laboratório e o laboratório confirma. Aqui a história típica é justamente a armadilha: o homem de meia-idade, com podagra prévia, usando diurético, tem uma probabilidade alta de gota — e é exatamente esse doente que chega com a articulação infectada, porque a articulação já lesada é um dos fatores de risco da infecção.

A série brasileira mostra esse encaixe com número. Entre vinte e sete doentes com artrite séptica de ombro ou cotovelo, nove tinham doença articular prévia, e a lista inclui lúpus, artrite reumatoide, osteoartrose e artrite psoriásica. Um em cada três já tinha um motivo reumatológico para aquela articulação doer. Se o motivo antigo tivesse sido aceito como explicação do episódio novo, um terço dessa série teria sido tratado como surto de doença crônica.

Daí a regra operacional que a prova cobra sem nunca precisar dizê-la por extenso: articulação única, aguda, quente e com derrame é indicação de punção, e a probabilidade clínica prévia não substitui o resultado. A punção não confirma a suspeita; ela afasta a que não pode esperar. O aluno que entende essa assimetria acerta quase todas as questões do tema, porque ela é a estrutura de todas elas.

Vale nomear o que está sendo afastado, porque o desfecho justifica a pressa. Naquela mesma série, catorze dos vinte e sete doentes tiveram ao menos uma complicação clínica, nove tiveram complicação ortopédica e cinco morreram — dezenove por cento. Não é um diagnóstico que se adia por comodidade diagnóstica, e não é um risco que a probabilidade clínica prévia autorize assumir.

Corte esquemático de joelho com a cápsula distendida por derrame e uma agulha de punção entrando pelo recesso suprapatelar lateral.
A agulha alcança o recesso distendido pelo derrame; o material colhido segue para contagem celular, bacterioscopia, cultura e pesquisa de cristais.

O padrão-ouro que a revisão declara, e a voz que a leva até ele

A revisão brasileira de dois mil e dezessete sobre o tratamento medicamentoso da gota abre a seção de diagnóstico com uma frase sem rodeios. O padrão-ouro, diz ela, é a observação de cristais de urato monossódico na microscopia ótica de luz polarizada compensada, em que esses cristais apresentam birrefringência negativa. É a definição que a banca espera, e é o motivo de o achado de cristal ser critério suficiente no escore.

A frase seguinte é onde mora a observação. O texto diz que a amostra deve ser, de preferência, coletada de articulações afetadas recentemente, bem como de articulações anteriormente afetadas. A amostra deve ser coletada — voz passiva, sujeito oculto, nenhum instrumento, nenhum ato. Em dez páginas, o artigo nomeia o cristal dezessete vezes, a birrefringência uma, a luz polarizada uma, e a palavra artrocentese nenhuma.

O parágrafo continua com uma concessão que a prova cobra em outro formato: diante de apresentação clínica típica, o diagnóstico clínico é razoavelmente preciso e é aceitável quando não há microscopia disponível nem reumatologista — e o texto acrescenta, na frase imediatamente seguinte, que esse diagnóstico não é definitivo. A concessão vem com a ressalva colada; quem cita a primeira metade sem a segunda inverte o sentido do parágrafo.

Há ainda uma terceira camada, e é a mais útil para responder questão. O artigo registra que um critério diagnóstico de fácil uso, desenvolvido para a atenção primária, mostrou bom valor preditivo positivo quando a análise do líquido sinovial não está disponível. A hierarquia, portanto, está escrita: o líquido é o topo, o critério clínico é o substituto declarado, e o substituto existe porque o topo falta. Alternativa que trate o critério clínico como equivalente ao cristal está trocando o substituto pelo original.

Há uma consequência de calibração que o aluno costuma inverter. Esse parágrafo autoriza tratar como gota um doente já investigado, em que a infecção não está em jogo, num serviço sem microscopista. Ele não autoriza deixar de coletar quando a infecção é a hipótese que precisa ser afastada, porque nesse caso o que falta não é o cristal: é a cultura. São duas perguntas diferentes feitas ao mesmo líquido, e a concessão vale só para a primeira.

O cristal não fecha a porta da bactéria

Encontrado o cristal, a tentação é encerrar. É o erro mais rentável do tema, e a banca brasileira o cobra explicitamente: há questão cuja alternativa correta afirma, com todas as letras, que a artrite séptica não é excluída pelo achado de cristais, e manda internar, colher hemoculturas e cultura do líquido, e proceder à drenagem.

A base fisiopatológica é simples. A articulação que deposita cristal é uma articulação cronicamente agredida, com sinóvia alterada e barreira pior; é justamente o terreno em que a bactéria pega. Cristal e bactéria não competem pelo mesmo espaço, coexistem nele. O achado de urato explica a dor daquele doente em algum grau, e não explica a febre, a toxemia nem o pus.

O que separa, então, é a celularidade e a cultura, não a presença ou não de cristal. Contagem muito alta com predomínio de neutrófilos aponta infecção; contagem inflamatória moderada com cristal aponta cristal; e as duas coisas juntas mandam tratar como infecção até a cultura voltar. A regra prática é assimétrica de propósito: cristal não descarta bactéria, mas ausência de bactéria em líquido francamente purulento não descarta infecção tratada previamente com antibiótico, como a própria definição de caso reconhece.

A outra face da mesma moeda aparece na medida das provas: entre as questões que trazem pirofosfato de cálcio, pseudogota ou condrocalcinose, vinte e uma são de prova na grande área, e dez têm esse achado na alternativa correta — quase metade. O cristal que a vinheta descreve como romboide e de birrefringência positiva costuma ser resposta; o que não é resposta é usá-lo para dispensar a cultura.

Quando a agulha espera, e o que muda a ordem

A regra de puncionar não é absoluta, e a banca aprecia as exceções porque elas testam se o aluno entendeu o motivo da regra. São poucas e cabem em três situações, todas ligadas ao risco de levar bactéria para dentro ou de não conseguir parar o sangramento.

A primeira é a infecção de pele sobrejacente ao ponto de entrada: atravessar celulite com a agulha pode inocular a articulação que ainda estava limpa, e nesse caso se muda o sítio de punção ou se leva o doente ao centro cirúrgico. A segunda é a coagulopatia grave ou a anticoagulação plena, em que a punção não está proibida, mas exige correção prévia e mão experiente. A terceira é a articulação com prótese: o material é do ortopedista, a punção costuma ser feita em ambiente cirúrgico e o encaminhamento é imediato.

Fora dessas três, o que costuma atrasar a punção não é contraindicação, é hábito. Esperar o reumatologista, esperar a radiografia, esperar a proteína C reativa, esperar a febre ceder com anti-inflamatório: todas são condutas que a alternativa oferece e que a banca considera erradas, porque o tempo até a drenagem é o único fator prognóstico modificável do quadro. Na série brasileira, a mediana entre o início dos sintomas e a drenagem foi de seis dias, e o tempo maior se associou às complicações ortopédicas.

A ordem completa, que responde à maioria das questões de conduta, tem quatro passos e nenhum atalho. Punciona-se; envia-se o líquido para contagem celular com diferencial, bacterioscopia pelo Gram, cultura e pesquisa de cristais; inicia-se antibiótico empírico com cobertura para estafilococo, depois da coleta; e procede-se à drenagem quando o líquido é purulento ou a evolução não melhora. Na série nacional, o estafilococo foi isolado em catorze dos vinte e sete casos.

A definição de caso que não existe sem a agulha

Há um detalhe metodológico nessa série que vale mais do que muitos parágrafos de texto. Para decidir quem entrava no estudo, os autores adotaram uma definição clássica de caso, com três critérios alternativos. Basta um deles para o doente ser considerado portador de artrite séptica.

Os três são estes: cultura do líquido sinovial positiva; hemocultura positiva com cultura do líquido sinovial negativa; ou culturas negativas por uso prévio de antibiótico, mas líquido sinovial purulento na drenagem articular. Lidos em conjunto, formam uma tabela de três células — e as três exigem o líquido. Duas exigem a cultura dele; a terceira exige vê-lo purulento.

Ou seja: a própria definição de existência da doença é impossível de cumprir sem a punção. Não há caminho para o diagnóstico que dispense a articulação aberta ou aspirada. É por isso que a punção não é uma entre várias opções de investigação: ela é a condição de possibilidade do diagnóstico, o que é uma categoria diferente. Exames de sangue, imagem e escores podem aumentar ou diminuir a suspeita; nenhum deles pode confirmá-la nem descartá-la.

Colocada essa definição ao lado do documento federal, o desenho fica completo. O texto que decide para onde o doente vai reconhece a entidade pelo nome uma vez, define-a como monoartrite sem diagnóstico estabelecido, lista seis fatores de risco — e o único procedimento que poderia estabelecer esse diagnóstico não é mencionado em nenhuma das quarenta e sete páginas. A entidade é nomeada; o ato que a nomeia, não.

A série brasileira: o exame que dá cem por cento é o que menos separa

A base numérica nacional deste capítulo é uma série de vinte e sete doentes com artrite séptica de ombro ou cotovelo, atendidos entre dois mil e quatro e dois mil e catorze num hospital terciário de São Paulo. A mediana de idade foi de quarenta e seis anos, quinze eram mulheres, vinte e um adquiriram a infecção por via hematogênica e vinte e três tinham ao menos uma comorbidade.

A tabela de achados diagnósticos é onde a lição está. Dor, em vinte e sete de vinte e sete: cem por cento. Proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação elevadas, também em vinte e sete de vinte e sete: cem por cento. Febre, em dezenove: setenta por cento. Leucocitose, definida como mais de onze mil, em quinze: cinquenta e seis por cento. Um pouco mais da metade dos doentes com a articulação infectada tinha leucograma alterado.

Um exame presente em cem por cento dos doentes de uma série só de infectados não diz nada sobre quem não está infectado. É sensível no extremo e, isolado, não separa: a mesma proteína C reativa sobe na crise de gota. O maior número da tabela é o que menos decide. E o menor número é o que mais surpreende: a coloração pelo Gram do líquido sinovial foi positiva em apenas doze casos, quarenta e quatro por cento, enquanto as culturas foram positivas em vinte e quatro, oitenta e nove por cento.

A consequência prática é dura e cobrada em prova. O Gram, que é o exame rápido, erra mais da metade das vezes; a cultura, que acerta quase sempre, demora dias. Não existe, portanto, resultado imediato que afaste infecção. Por isso o antibiótico empírico começa depois da coleta e antes do resultado, e por isso a alternativa que condiciona o início do tratamento a um Gram positivo está errada mesmo quando acerta a droga.

O agente também tem número, e ele orienta a escolha empírica. O estafilococo aureus foi isolado em catorze dos vinte e sete casos, pouco mais da metade, e a série vem de um serviço em que a via hematogênica respondeu por vinte e um dos episódios. A cobertura empírica que a prova espera é antiestafilocócica, ajustada depois pela cultura e pelo antibiograma — e o esquema efetivamente usado naqueles doentes combinou oxacilina com gentamicina ou com ceftriaxona na maioria, reservando vancomicina com cefepima para quem já estava internado há mais de setenta e duas horas.

O documento federal manda para a emergência e não nomeia o que se faz lá

O texto que organiza o caminho desse doente no sistema público é o protocolo de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, volume três, de dois mil e dezesseis, com quarenta e sete páginas. Ele traz nove condições reumatológicas e cinco ortopédicas, cada uma com a lista das situações que justificam encaminhar e o conteúdo mínimo que a carta de encaminhamento precisa trazer.

A monoartrite aguda não é uma dessas condições. Ela aparece uma vez, e no lugar mais alto do texto: na introdução geral, antes de qualquer capítulo. A frase é esta, literal: pacientes com suspeita de artrite séptica, definida como monoartrite sem diagnóstico estabelecido, especialmente com sintomas sistêmicos e fatores de risco, devem ser avaliados em serviços de pronto-atendimento ou emergência. Os fatores listados são seis: idade acima de oitenta anos, diabetes, prótese articular, cirurgia articular recente, infecção ou lesão de pele, etilismo e uso de drogas injetáveis.

A lista de risco é boa e cabe na memória. O que falta é o que vem depois da vírgula. O documento diz para onde mandar e não diz o que será feito quando o doente chegar. Varrendo as quarenta e sete páginas com vinte e uma grafias de controle — artrocentese, punção, puncionar, aspiração, aspirado, agulha, seringa, coleta do líquido, artrotomia, drenagem e as demais — o resultado é zero para todas. A única aproximação é a expressão análise do líquido sinovial, que aparece uma vez, dentro de uma tabela sobre outra doença.

O contraste com as palavras que o documento usa muito é o que dá tamanho ao vão. Encaminhamento aparece cento e quarenta vezes; gota, dez; líquido sinovial, três; artrite séptica, uma. Um texto federal pode legitimamente parar na porta da emergência — esse é o seu escopo. Mas o aluno que estuda por ele sai sabendo reconhecer o risco e sem nunca ter lido o nome do exame que decide, e é justamente esse nome que a banca escreve na alternativa correta.

A tabela de oito linhas: o que ela separa bem, célula a célula

No anexo do mesmo documento está o quadro oito, que reproduz em português os critérios de classificação de gota de dois mil e quinze. Antes de acusar qualquer coisa, vale mostrar o que essa tabela faz bem, porque ela faz bastante. A estrutura tem três passos e um limiar explícito: classifica como gota quem alcança pelo menos oito pontos.

O primeiro passo é um critério de inclusão: só entra quem teve ao menos um episódio de edema, dor ou sensibilidade em articulação periférica ou bursa. O segundo passo é um critério suficiente, e é generoso: encontrado o cristal de urato monossódico na articulação sintomática ou no tofo, classifica-se como gota sem aplicar nenhum dos critérios seguintes. O terceiro passo é o escore propriamente dito: oito linhas de critério, dezessete pares de descritor e valor, trinta e quatro células.

Essas dezessete linhas separam por caminhos independentes, e isso é mérito. O padrão de acometimento distingue tornozelo ou médio pé, que vale um ponto, da primeira metatarsofalângica, que vale dois. As características do episódio — eritema, dor ao toque, dificuldade de andar — valem de um a três conforme quantas estejam presentes. O curso temporal, com pico de dor em menos de vinte e quatro horas e resolução em até catorze dias, vale um ou dois. O tofo vale quatro. E há duas rotas de imagem independentes, cada uma valendo quatro: depósito de urato à ultrassonografia ou à tomografia de dupla energia, e erosão à radiografia.

A linha do ácido úrico é a mais fina de todas: cinco células, cinco valores, e uma amplitude de oito pontos, de menos quatro para valor abaixo de quatro miligramas por decilitro a mais quatro para valor igual ou acima de dez. É uma linha que sabe punir e sabe premiar, e que traz até a instrução de quando dosar, fora da crise e longe do tratamento. Nada disso é pouco. É uma tabela que, nas suas dezessete linhas, discrimina com cuidado.

Duas dessas instruções valem estudo à parte, porque a banca as cobra isoladas. A primeira é que o ácido úrico deve ser dosado idealmente fora da crise, mais de quatro semanas depois do início dos episódios, e que o maior valor obtido é o que pontua — o que explica por que uricemia normal durante o ataque agudo não afasta gota. A segunda é que a imagem indisponível pontua zero e não penaliza: a tabela sabe distinguir exame que faltou de exame que deu negativo. Ela faz essa distinção na linha da imagem, e é exatamente essa distinção que ela deixa de fazer na linha seguinte.

A linha do líquido: duas células, e as duas empurram para baixo

Feita a conta do que fecha, sobra uma linha que não fecha. A análise do líquido sinovial de articulação ou bursa sintomática, a qualquer momento, tem duas células e dois valores. E os dois são: cristal de urato negativo, menos dois pontos; líquido sinovial não avaliado, zero ponto. Não existe terceira célula.

A explicação formal é conhecida: o achado positivo não está ali porque saiu do escore no segundo passo, onde é critério suficiente. A explicação formal, porém, não desfaz o efeito prático de somar pontos com essa tabela na mão. Dentro do escore, puncionar e não achar cristal custa dois pontos; não puncionar não custa nada. A única movimentação possível dessa linha, para quem já entrou no terceiro passo, é para baixo.

Vale fazer a aritmética completa, porque ela é verificável. Um doente com acometimento da primeira metatarsofalângica soma dois. Com as três características do episódio presentes, soma três, e vai a cinco. Com episódios típicos recorrentes, soma dois, e vai a sete. Com ácido úrico entre seis e oito miligramas por decilitro, soma dois, e chega a nove. Nove pontos, um a mais que o limiar, sem que a articulação tenha sido puncionada.

O ponto do capítulo não é que o escore esteja errado — critério de classificação é feito para agrupar doentes em estudo, não para decidir na porta da emergência, e o próprio quadro se chama critério de classificação. O ponto é o que acontece quando esse instrumento é reproduzido dentro de um documento de encaminhamento, lido por quem atende, num texto que em nenhuma das suas quarenta e sete páginas nomeia a punção. A tabela então passa a ensinar, por omissão, que dá para chegar ao diagnóstico sem a agulha.

O ato aparece duas vezes no mesmo texto, e as duas são de tratamento

Vale corrigir uma leitura apressada antes que ela vire regra. Dizer que a revisão brasileira nunca nomeia o ato de esvaziar a articulação é falso, e a checagem mostra por quê. Ela nomeia duas vezes. Só que não com a palavra que a prova usa, e não na seção onde faria diferença diagnóstica.

As duas ocorrências estão na seção de tratamento, e são estas: a injeção de corticoide intra-articular após aspiração da articulação é considerada o tratamento ideal para a crise aguda de gota, porque a aspiração reduz rapidamente a dor, ao diminuir a pressão intra-articular causada pelo processo inflamatório, e o corticoide, com mínima absorção sistêmica, produz maiores efeitos locais. É a única passagem em que o gesto tem verbo próprio.

O resultado é uma inversão curiosa e clinicamente relevante. No mesmo artigo, esvaziar a articulação é apresentado como analgesia, e nunca como coleta; o material que sai dela é apresentado como amostra que alguém coletou, sem que o gesto seja descrito. Quem lê apenas a seção de diagnóstico não encontra o procedimento; quem lê apenas a de tratamento encontra o procedimento e não sabe que ele fecha diagnóstico. As duas metades só se juntam na cabeça de quem já sabia.

A comparação com a edição anterior do mesmo periódico fecha o teste de direção. A atualização sobre gota publicada onze anos antes, em quatro páginas, cita a doença quarenta e quatro vezes e o alopurinol vinte, escreve a palavra cristais uma vez, líquido sinovial nenhuma e colchicina nenhuma. Comparadas frase a frase, as duas publicações não compartilham uma única sentença longa: cento e seis frases contra duzentas e setenta e duas, e zero em comum. O tema foi reescrito do zero, e a punção continuou sem nome nas duas versões.

O que a prova cobra, medido questão a questão

Vale fechar com o que as provas mostram, porque elas corrigem impressões. O eixo inteiro — artrocentese, monoartrite, líquido sinovial, artrite séptica e punção articular — aparece em cento e quarenta e uma questões vivas, oitenta e uma de prova, e cinquenta e sete de prova na grande área de Clínica Médica. Dessas cinquenta e sete, cinquenta e cinco estão catalogadas em reumatologia: é um tema de uma subespecialidade só.

Dentro do eixo, os marcadores se comportam de modo muito diferente, e a diferença é a lição. A palavra artrocentese aparece em trinta e oito questões da área: em vinte e três está no enunciado, em onze está em alguma alternativa, em oito está na alternativa correta e em quinze está no comentário. Líquido sinovial aparece em vinte e nove e acerta em dez, com um único uso como distrator — é o marcador mais limpo do tema.

O negativo é mais instrutivo que o positivo. Artrite séptica aparece em quarenta e oito questões de prova da área e está na correta uma vez, com vinte e oito aparições em alternativa errada. É o nome que assusta e quase nunca é a resposta: a banca o usa para tentar o aluno a tratar antes de colher. E punção articular, a grafia alternativa, aparece em sete questões e não está na correta nenhuma vez — a banca escreve artrocentese quando quer premiar o gesto.

A consequência prática para a leitura da vinheta é direta. Diante de articulação única, aguda e quente, procure na lista de alternativas a que coleta antes de decidir — e prefira a que descreve o que será pedido no líquido, porque as corretas medidas quase sempre listam celularidade, Gram, cultura e cristais na mesma frase. Alternativa que trata sem coletar, que exclui infecção por causa do cristal ou que aguarda parecer para puncionar cai fora antes de qualquer outra consideração clínica.

04

Da articulação quente à decisão: quatro degraus, na ordem em que a vinheta os embaralha

A vinheta costuma entregar articulação, tempo, febre, exames de sangue e um antecedente sugestivo, e quase sempre na ordem errada. O antecedente aparece cedo para induzir o diagnóstico fácil, e o dado que decide — se há derrame puncionável — aparece no fim ou nem aparece. Os degraus abaixo reordenam o enunciado.

  1. 1Confirme que é uma articulação e que é aguda antes de olhar qualquer exame. Uma articulação, dor de horas a poucos dias, calor, rubor e derrame definem o quadro; o número de articulações e a velocidade valem mais que qualquer laboratório. Poliartrite simétrica de semanas é outro capítulo, e dor mecânica sem calor também.
  2. 2Pergunte se há derrame antes de perguntar qual é a causa. Havendo derrame em articulação aguda e quente, a punção está indicada, e a probabilidade prévia não a dispensa. Não havendo derrame acessível, o caminho muda: imagem e avaliação especializada entram, e a suspeita de infecção continua exigindo abordagem em ambiente cirúrgico.
  3. 3Colha antes de tratar. O líquido vai para contagem celular com diferencial, bacterioscopia pelo Gram, cultura e pesquisa de cristais sob luz polarizada. Hemoculturas saem junto. Só então começa o antibiótico empírico com cobertura para estafilococo — e ele começa mesmo com Gram negativo, porque o Gram é positivo em menos da metade dos casos confirmados.
  4. 4Leia o resultado sabendo o que ele pode e o que não pode dizer. Celularidade muito alta com predomínio de neutrófilos aponta infecção; cristal presente explica dor e não afasta bactéria; cultura negativa em líquido purulento não afasta infecção previamente tratada. Cristal com toxemia mantém o antibiótico até a cultura voltar.
  5. 5Decida o destino pelo líquido e pelo relógio. Líquido purulento, toxemia ou falta de melhora pedem drenagem, e o atraso até ela é o que mais se associa a sequela. Quadro compatível com cristal, sem toxemia e com cultura em andamento, recebe anti-inflamatório ou corticoide e reavaliação — nunca droga que baixa o urato iniciada durante a crise.

Primeiro degrau: uma articulação, e o relógio

Uma só articulação, dor instalada em horas ou poucos dias, calor e derrame. O número de articulações e a velocidade definem o quadro antes de qualquer exame, e é essa combinação que transforma um problema reumatológico em problema de tempo.

Segundo degrau: a agulha antes da droga

Havendo derrame, punciona-se, e a probabilidade clínica prévia não dispensa a coleta. O antibiótico empírico entra depois do material colhido, nunca antes, e não espera resultado para começar.

Terceiro degrau: quatro leituras do mesmo líquido

Contagem celular com diferencial, bacterioscopia pelo Gram, cultura e pesquisa de cristais sob luz polarizada saem da mesma seringa. É a lista que as alternativas corretas costumam escrever inteira, na mesma frase.

Quarto degrau: o cristal não fecha a porta

Cristal encontrado explica dor e não afasta bactéria. Com toxemia, líquido turvo ou celularidade muito alta, mantém-se o antibiótico até a cultura voltar, e a drenagem entra pelo aspecto do líquido e pela evolução.

O que cada achado decide, e o que ele não decide

AchadoO que ele decideO que ele não decide
Cristal de urato, birrefringência negativaConfirma gota; é critério suficiente de classificaçãoNão afasta infecção coexistente na mesma articulação
Bacterioscopia pelo Gram negativaNada; positiva em menos da metade dos casos confirmadosNão autoriza suspender ou adiar o antibiótico empírico
Proteína C reativa e hemossedimentação elevadasConfirmam inflamaçãoNão separam infecção de cristal; sobem nas duas
Leucograma normalNada; quase metade dos infectados não tem leucocitoseNão afasta artrite séptica
Ácido úrico normal na criseNada quanto ao episódio agudoNão afasta gota; o escore pede a dosagem fora da crise
Escore de classificação com oito pontos ou maisClassifica como gota para fins de agrupamentoNão substitui a punção quando há suspeita de infecção

As três portas de entrada do diagnóstico de artrite séptica, e o que cada uma exige

PortaExigeSituação típica
Cultura do líquido sinovial positivaPunção ou drenagem, e tempo de incubaçãoCaminho mais frequente; positiva em quase nove de dez
Hemocultura positiva com cultura do líquido negativaPunção mais coleta de sangueDisseminação hematogênica, a via mais comum na série nacional
Líquido purulento com culturas negativasVer o líquido na drenagem articularDoente que já vinha em uso de antibiótico

A ordem entre coletar e tratar é o item mais cobrado do tema, e a única exceção que a banca precisa que se saiba de cor é a articulação com prótese, que vai para o ambiente cirúrgico.

A tabela federal de classificação de gota separa bem por imagem, tofo e ácido úrico, e falha numa linha só: a do líquido sinovial, com duas células cujos valores são menos dois e zero.

Alternativa que exclua artrite séptica pelo achado de cristal pode ser eliminada sem ler o resto do enunciado; há questão cuja resposta certa afirma exatamente o contrário.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Se o quadro clínico típico dispensa a punção da articulação

Dispensa, quando falta microscopia ou reumatologista

Diante de apresentação clínica típica, o diagnóstico clínico é razoavelmente preciso e é aceitável quando não há microscopia disponível nem reumatologista. A frase vem com ressalva colada, na sentença seguinte: esse diagnóstico não é definitivo.

Revisão crítica do tratamento medicamentoso da gota no Brasil, Revista Brasileira de Reumatologia, dois mil e dezessete, seção de diagnóstico.

Não dispensa: o cristal é o padrão-ouro declarado

O mesmo artigo abre a seção de diagnóstico afirmando que o padrão-ouro é a observação do cristal de urato monossódico à luz polarizada compensada, com birrefringência negativa, e registra que existe critério clínico de apoio justamente para quando a análise do líquido sinovial não está disponível.

Revisão crítica do tratamento medicamentoso da gota no Brasil, Revista Brasileira de Reumatologia, dois mil e dezessete, mesma seção, parágrafo anterior.

Irrelevante enquanto houver suspeita de infecção

A definição de caso adotada na série brasileira tem três portas alternativas, e as três passam pelo líquido: cultura do líquido positiva, hemocultura positiva com cultura do líquido negativa, ou líquido purulento na drenagem. Sem material da articulação, nenhuma delas se cumpre.

Artrite séptica do ombro e do cotovelo, Revista Brasileira de Ortopedia, dois mil e dezoito, seção de métodos.

Na prova

Alternativa que dispense a punção em articulação única, aguda e quente com derrame está errada em prova brasileira, mesmo quando o antecedente de gota é forte. A concessão ao diagnóstico clínico vale para quem já afastou infecção, não para quem ainda não a investigou.

O peso que o escore federal dá ao exame do líquido sinovial

Peso máximo, no segundo passo

O quadro traz o achado de cristal de urato monossódico em articulação ou bursa sintomática, ou em tofo, como critério suficiente: alcançado ele, classifica-se como gota sem aplicar nenhum dos critérios seguintes.

Quadro oito do protocolo de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, volume três, dois mil e dezesseis, segundo passo.

Peso apenas negativo, no terceiro passo

Na tabela de pontuação, a linha da análise do líquido sinovial tem duas células e dois valores: cristal negativo vale menos dois pontos e líquido não avaliado vale zero. Quem examina e não acha perde dois pontos; quem nunca examina não perde nenhum.

Quadro oito do mesmo protocolo, terceiro passo, linha da análise do líquido sinovial.

Na prova

Enunciado que peça a soma de pontos usa a linha do ácido úrico e as duas linhas de imagem, que valem quatro cada; a linha do líquido só entra para subtrair. Isso não muda a conduta: escore de classificação agrupa doentes em estudo e não decide na porta da emergência.

Qual exame do líquido sustenta a decisão imediata

A bacterioscopia, porque é o resultado que chega hoje

O Gram é o único dado microbiológico disponível no mesmo plantão, e é ele que a alternativa costuma oferecer como gatilho do antibiótico. Na série nacional, porém, foi positivo em doze de vinte e sete casos confirmados, quarenta e quatro por cento.

Artrite séptica do ombro e do cotovelo, Revista Brasileira de Ortopedia, dois mil e dezoito, tabela de características clínicas.

A cultura, que decide mas chega depois

Na mesma série, a cultura do líquido identificou o agente em vinte e quatro dos vinte e sete casos, oitenta e nove por cento, e o estafilococo foi isolado em catorze. É o exame que fecha o diagnóstico e orienta o ajuste, e não está pronto quando a decisão precisa ser tomada.

Artrite séptica do ombro e do cotovelo, Revista Brasileira de Ortopedia, dois mil e dezoito, seção de resultados.

Na prova

A alternativa correta separa os dois tempos: colhe tudo, começa o antibiótico empírico com cobertura para estafilococo sem esperar resultado, e reserva o ajuste para a cultura. Condicionar o início do tratamento a um Gram positivo é o distrator clássico do tema.

06

Caso resolvido

Homem de cinquenta e dois anos, hipertenso em uso de hidroclorotiazida, procura o pronto-socorro com dor intensa no joelho direito iniciada há dois dias, com impossibilidade de apoiar o pé. Já teve dois episódios de dor e edema no hálux esquerdo, ambos resolvidos com anti-inflamatório. Está com temperatura axilar de trinta e oito graus e dois décimos, frequência cardíaca de cento e dois. O joelho está quente, com derrame volumoso e dor a qualquer grau de flexão. Não há lesão de pele sobre a articulação. Exames: leucócitos de nove mil e duzentos, proteína C reativa muito elevada, ácido úrico de sete miligramas por decilitro.
passo 1
Passo 1. Conte as articulações e olhe o relógio antes de olhar qualquer exame. Uma articulação, dois dias, calor, derrame e febre. Isso já define o quadro como monoartrite aguda febril, que é a apresentação em que a infecção precisa ser afastada antes de qualquer outra hipótese ser aceita.
passo 2
Passo 2. Resista ao antecedente. Dois episódios prévios de podagra e uso de diurético tornam a gota provável, e é exatamente esse perfil que a série brasileira mostra entre os infectados: um terço dos doentes com articulação infectada tinha doença articular prévia. A probabilidade alta de gota não reduz a necessidade de coletar.
passo 3
Passo 3. Não use o sangue para decidir. Leucócitos de nove mil e duzentos não afastam nada, porque quase metade dos infectados da série não tinha leucocitose. Proteína C reativa muito elevada também não separa, porque estava alta em cem por cento daqueles doentes e sobe igualmente na crise de cristal. Ácido úrico de sete não decide o episódio agudo.
passo 4
Passo 4. Puncione o joelho e mande o líquido para as quatro leituras: contagem celular com diferencial, bacterioscopia pelo Gram, cultura e pesquisa de cristais sob luz polarizada. Colha hemoculturas na mesma passagem. Não há contraindicação aqui: a pele está íntegra, não há prótese e não há coagulopatia relatada.
passo 5
Passo 5. Comece o antibiótico empírico com cobertura para estafilococo logo depois da coleta, sem esperar resultado — e mantenha-o mesmo que o Gram volte negativo, porque o Gram foi positivo em apenas quarenta e quatro por cento dos casos confirmados. Se vier cristal de urato junto com líquido turvo e celularidade alta, o cristal explica parte da dor e não muda a conduta até a cultura voltar.
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Agora feche você

Mulher de sessenta e oito anos, com artrite reumatoide em uso de metotrexato e prednisona, chega com o punho esquerdo inchado e doloroso há três dias. Está afebril. O punho está quente, com derrame, e as demais articulações estão no padrão habitual dela. Exames: leucócitos de sete mil e quatrocentos, proteína C reativa elevada, hemossedimentação elevada. A radiografia do punho mostra as erosões já conhecidas, sem alteração nova.
passo 1
Passo 1. Comece pelo que está presente e pelo que está ausente. Há uma articulação nova, aguda, quente e com derrame, num corpo cujo padrão de doença é poliarticular e crônico. Não há febre, e não há leucocitose. Os dois achados que faltam são justamente os que menos separam: na série nacional, a febre esteve presente em setenta por cento e a leucocitose em cinquenta e seis por cento dos infectados.
passo 2
Passo 2. Reconheça os dois agravantes que a vinheta escondeu em antecedentes. A artrite reumatoide é doença articular prévia, e o corticoide com imunossupressor é imunossupressão: na série brasileira, dois terços dos doentes eram imunocomprometidos e um terço tinha articulação previamente adoecida. Esta é a combinação de maior risco, não a de menor.
passo 3
Passo 3. Não aceite a explicação mais confortável. Surto da doença de base explicaria o punho, e é a alternativa que a banca oferece com anti-inflamatório ou aumento do corticoide. O problema é que essa conduta trata sem coletar, num doente em que a única causa que destrói a articulação em dias segue aberta. A radiografia sem alteração nova não muda isso.
passo 4
Passo 4. Decida o procedimento e verifique as três situações que mudariam a ordem: pele infectada sobre o ponto de entrada, coagulopatia grave e articulação com prótese. Nenhuma está descrita. Portanto punciona-se o punho e envia-se o líquido para contagem celular com diferencial, Gram, cultura e pesquisa de cristais, com hemoculturas junto.
passo 5
Passo 5. Escreva a conduta na ordem que a prova premia: coleta, antibiótico empírico com cobertura para estafilococo iniciado depois da coleta e sem esperar resultado, e reavaliação pelo aspecto do líquido e pela evolução, com drenagem se purulento ou se não melhorar. O ajuste do imunossupressor vem depois, e nunca antes de a infecção ter sido afastada.
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Onde a banca derruba

  1. 1Aceitar o antecedente de gota como explicação do episódio novo É o erro mais rentável do tema. A articulação previamente adoecida é fator de risco para infecção, e não proteção contra ela: na série brasileira, um terço dos doentes com artrite séptica tinha doença articular prévia. Alternativa que trate como surto de gota sem coletar material está errada por ordem, mesmo quando acerta a droga e a dose.
  2. 2Excluir infecção porque o exame do líquido mostrou cristal Cristal e bactéria coexistem na mesma articulação, e há questão cuja resposta certa afirma exatamente isso. O achado de urato explica parte da dor e não explica a febre nem a toxemia. Com quadro séptico, o antibiótico é mantido até a cultura voltar, independentemente do cristal encontrado.
  3. 3Iniciar o antibiótico antes de colher o líquido Inverter essa ordem custa o diagnóstico: a definição de caso reconhece que culturas negativas em líquido purulento acontecem justamente por uso prévio de antibiótico. A coleta antecede o tratamento por minutos, não por horas, e é a única etapa que não se recupera depois.
  4. 4Usar proteína C reativa e hemossedimentação para separar as causas Na série nacional as duas estavam elevadas em cem por cento dos doentes com articulação infectada — e sobem igualmente na crise de cristal. Servem para confirmar inflamação e param aí. Alternativa que use marcador inflamatório para escolher entre infecção e gota está usando a variável que menos separa.
  5. 5Tomar o Gram negativo como afastamento de infecção A bacterioscopia foi positiva em quarenta e quatro por cento dos casos confirmados: erra mais da metade das vezes. Um Gram negativo em articulação com líquido turvo e celularidade alta não muda nada na conduta, e a alternativa que suspende ou adia o antibiótico por causa dele está errada.
  6. 6Esperar o parecer especializado para puncionar O tempo até a drenagem é o fator prognóstico modificável do quadro, e na série brasileira o intervalo maior se associou às complicações ortopédicas. Fora das três situações de risco — pele infectada no ponto de entrada, coagulopatia grave e articulação com prótese —, aguardar avaliação de outra especialidade para coletar é conduta errada em prova.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A punção é única e o material é escasso, de modo que as quatro leituras saem da mesma seringa: contagem celular com diferencial para estimar o grau de inflamação, bacterioscopia pelo Gram para orientação imediata, cultura para identificar o agente e pesquisa de cristais sob luz polarizada para reconhecer urato ou pirofosfato. Pedir só cultura perde a informação disponível no mesmo plantão; pedir só cristais deixa a infecção sem investigação; dosagens bioquímicas do líquido acrescentam pouco nesse cenário; e a contagem isolada não distingue infecção de cristal quando os valores caem na faixa intermediária.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite, sem olhar, a pergunta de duas vias e as respostas dela: articulação única, aguda e quente com derrame pede o quê, e o antibiótico entra antes ou depois da coleta? Depois liste os quatro exames que saem da mesma seringa e diga qual deles é positivo em menos da metade dos casos confirmados. Feche dizendo em voz alta o que o achado de cristal afasta e o que ele não afasta.

em 30 dias

Monte de memória a tabela de três colunas que liga cada achado ao que ele decide e ao que ele não decide, com pelo menos quatro linhas. Em seguida reconstrua as três portas de entrada do diagnóstico de artrite séptica e mostre por que as três exigem o líquido. Termine somando pontos numa vinheta de gota até passar do limiar sem usar a linha do líquido sinovial, e explique por que essa soma não dispensa a punção.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Adulto que chega ao pronto-socorro com uma articulação inchada, quente e dolorosa há poucos dias, sem trauma evidente. Pergunte o que veio antes: episódios semelhantes e onde, doença articular conhecida, uso de corticoide ou imunossupressor, diabetes, ferida ou infecção de pele recente, procedimento na articulação, prótese, etilismo e uso de drogas injetáveis. Confirme se há febre e há quanto tempo. No exame, procure derrame e limitação a qualquer grau de movimento, e olhe a pele sobre o ponto de punção. Feche verbalizando a ordem: coletar, mandar as quatro leituras, começar o antibiótico depois da coleta e reavaliar pelo líquido. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Monoartrite aguda no adulto – Monoartrite aguda: a punção que decide antes do cristal e do antibiótico — Preparatório para provas | OsceLabs