Ginecologia e ObstetríciaSíndromes Hipertensivas da Gestação

Eclâmpsia e sulfato de magnésio

A convulsão da doença hipertensiva da gestação, minuto a minuto, e o sulfato de magnésio por extenso: ataque, manutenção, três travas de segurança, antídoto e tempo de retirada.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Primigesta de 32 anos, com 38 semanas, comparece à emergência referindo cefaleia holocraniana. PA 160x110 mmHg em duas medidas com intervalo de 15 minutos, FC 88 bpm. Exame de urina com proteinúria de fita ++. Reflexos vivos, sem clônus. Diante da confirmação de pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, qual é a conduta medicamentosa mais adequada para a prevenção de eclâmpsia?

02

Como esse tema cai

Eclâmpsia é a convulsão da doença hipertensiva da gestação — e é o instante em que a principal causa de morte materna no Brasil cobra o preço. Este capítulo não redefine pré-eclâmpsia nem discute critérios diagnósticos: isso é do capítulo irmão. Aqui entra a crise instalada e a droga que a trata.

O sulfato de magnésio é o assunto mais decorável da obstetrícia de urgência, e por isso mesmo o mais cobrado: ataque, manutenção, três parâmetros de vigilância, antídoto e tempo de retirada. Questão que erra sulfato de magnésio quase nunca erra por raciocínio — erra por número. Por isso cada dose aqui vem com via, diluição, volume e tempo de infusão.

O recorte brasileiro é forte neste tema. Os documentos nacionais descrevem os dois esquemas clássicos, Pritchard e Zuspan, com o preparo em mililitros de ampola, porque a realidade que eles cobrem inclui serviço sem bomba de infusão e transporte inter-hospitalar. A diretriz americana descreve o esquema intravenoso como padrão e trata a via intramuscular como plano B para quando o acesso venoso falha. As duas coisas são verdadeiras em mundos diferentes, e a prova revela qual mundo está pedindo.

Há ainda uma armadilha de identidade que vale o capítulo inteiro: eclâmpsia não exige hipertensão previamente documentada, não exige proteinúria e não acaba no parto. Uma parcela dos casos abre o quadro com a convulsão, e o puerpério concentra fatia relevante — o que muda quem se vigia e por quanto tempo.

03

O que muda decisão

O que a palavra eclâmpsia cobre

A definição do documento brasileiro é operacional: eclâmpsia é a ocorrência de convulsões tônico-clônicas generalizadas, de coma ou de ambos, durante a gravidez ou o puerpério, em paciente com pré-eclâmpsia, sem relação com outras doenças do sistema nervoso central. A definição americana amplia o tipo de crise — tônico-clônica, focal ou multifocal, de início novo — e mantém o mesmo eixo: na ausência de outra condição causal, como epilepsia, isquemia ou infarto cerebral, hemorragia intracraniana ou uso de drogas.

Note o que a definição exige e o que não exige. Ela exige que a convulsão seja nova e que não haja outra causa. Ela não exige proteinúria, não exige que a hipertensão já estivesse documentada em consulta anterior e não exige que a paciente ainda esteja grávida. Em uma parcela dos casos a eclâmpsia é a própria abertura do quadro, sobretudo em gestantes cujo diagnóstico de pré-eclâmpsia não havia sido considerado. Diante de convulsão nova depois da 20ª semana, o diagnóstico de partida é eclâmpsia — investigar outra causa é o segundo movimento, não o primeiro.

Os números dimensionam o risco. Sem profilaxia com sulfato de magnésio, 2% a 3% das gestantes com pré-eclâmpsia com sinais de gravidade convulsionam; entre as sem sinais de gravidade, 0,6%. No Brasil, um estudo com 82.388 gestantes atendidas em 27 maternidades de referência encontrou prevalência geral de 5,2 casos de eclâmpsia por 1.000 nascidos vivos, variando de 2,2 casos em áreas de alta renda a 8,3 casos nas de baixa renda — e a eclâmpsia respondeu por 20% dos desfechos maternos graves. A desigualdade dessa faixa é, ela própria, informação clínica: a doença que mata é a mesma; o que muda é o tempo até o sulfato.

A crise costuma avisar. Em 78% a 83% dos casos há pródromos de irritação cerebral — cefaleia occipital ou frontal intensa e persistente, turvação visual, fotofobia, escotomas, alteração do estado mental — o que significa que aproximadamente uma em cada cinco pacientes convulsiona sem aviso nenhum. Depois da crise, mordedura de língua é comum e um período de coma de algumas horas é esperado; passar de seis horas é raro e vira, por si só, motivo para procurar outra causa, especialmente acidente vascular cerebral hemorrágico.

E o puerpério pesa. Cerca de 30% dos casos de eclâmpsia ocorrem depois do parto. O maior risco está dentro da primeira semana, mas a janela é maior: convulsão que ocorre mais de 48 horas e até 4 semanas do parto recebe o nome de eclâmpsia pós-parto tardia. A partir de 48 a 72 horas de puerpério, a chance de o diagnóstico ser outro aumenta — o que não retira a eclâmpsia da lista, apenas coloca a imagem de crânio na mesma conversa.

Gestante em decúbito lateral esquerdo com cabeceira elevada, máscara de oxigênio, aspirador ao lado do leito, acesso venoso em bomba de infusão, sonda vesical e grades elevadas; a enfermeira apoia o ombro sem conter os membros.
A montagem da crise eclâmptica: lateralizar, oxigenar, aspirar, puncionar e sondar — protegendo a via aérea, sem conter a convulsão.

Os primeiros minutos: o que fazer, na ordem

A frase que organiza tudo está no manual do Ministério da Saúde: o aspecto mais urgente do tratamento não é parar imediatamente a convulsão, mas garantir a oxigenação materna e minimizar o risco de aspiração. A crise eclâmptica é autolimitada e dura tipicamente um a dois minutos. O que mata nesses minutos não é a descarga elétrica, é a via aérea.

Primeiro, posição: decúbito lateral, preferencialmente esquerdo, com a cabeceira elevada. A lateralização descomprime a veia cava e a aorta pelo útero gravídico — o que reduz o risco de hipotensão grave assim que o sulfato entrar — e faz a secreção escoar para fora em vez de descer para a traqueia.

Segundo, via aérea: aspirar secreções e lateralizar o rosto durante a crise. Cânula orofaríngea quando a mandíbula permitir a colocação; nada de forçar objeto entre dentes cerrados. Intubação orotraqueal não é rotina — está reservada ao rebaixamento com escore de Glasgow ≤ 8.

Terceiro, oxigênio: 8 a 10 litros por minuto sob cateter nasal ou máscara, com oximetria. Quarto, acesso venoso periférico, com coleta simultânea de sangue e urina para o painel que confirma pré-eclâmpsia e rastreia HELLP e coagulopatia. Quinto, o sulfato de magnésio — o assunto da próxima seção. Sexto, anti-hipertensivo se a pressão estiver ≥ 160/110 mmHg. Sétimo, sonda vesical de demora: a diurese deixa de ser um dado de balanço hídrico e passa a ser um parâmetro de segurança da droga. Oitavo, grades elevadas e vigilância até a recuperação do sensório. Nono, programar o parto.

Agora a lista do que não fazer, que é onde as questões moram. Não conter a convulsão: segurar um membro em contração tônico-clônica produz fratura, luxação e lesão muscular, e não encurta a crise em um segundo sequer. Proteger a paciente de bater em superfícies duras é diferente de imobilizá-la.

Não usar benzodiazepínico como tratamento da crise. O sulfato de magnésio é superior a fenitoína, diazepam e ao cocktail lítico para prevenir a recorrência das convulsões, com menos morbidade materna e neonatal, e por isso é a droga de escolha. Benzodiazepínico inibe reflexos laríngeos, aumentando o risco de aspiração, e deprime o centro respiratório, podendo levar a apneia — exatamente as duas coisas que se está tentando evitar. A exceção é estreita e explícita: na paciente extremamente agitada, clonazepam 1 mg IV, diazepam 10 mg ou midazolam podem ser usados com cautela apenas para viabilizar a punção venosa, a sondagem e a coleta.

E não correr para a cesárea. A atitude descrita como a mais frequente a ser evitada é indicar a resolução da gestação de maneira intempestiva, durante ou logo após uma convulsão, por cesariana sob anestesia geral. Nesse momento mãe e feto estão hipoxêmicos e acidóticos, e a recuperação intrauterina do feto é mais eficaz do que o nascimento no meio da acidose. O tempo a esperar está escrito: em geral quatro a seis horas, até que o sensório se recupere, a hipertensão grave esteja controlada e a avaliação de insuficiência renal, HELLP e coagulopatia esteja completa. Pelo mesmo motivo, a avaliação de vitalidade fetal só é feita depois da estabilização materna — bradicardia, desacelerações e redução de variabilidade pós-ictais são transitórias e, lidas no momento errado, produzem cesárea desnecessária.

Sulfato de magnésio: Pritchard e Zuspan, com o preparo

O sulfato de magnésio é a droga de escolha desde o Collaborative Eclampsia Trial e o Magpie Trial. Comparado a placebo ou a nenhum anticonvulsivante, reduziu o risco de eclâmpsia em 59% na metanálise de seis ensaios com 11.444 mulheres (RR 0,41; IC 95% 0,29-0,58); só o Magpie contribuiu com mais de 10 mil participantes, dois terços delas de países de baixa e média renda. O mesmo conjunto reduziu descolamento prematuro de placenta (RR 0,64) e, de forma não significativa, mortalidade materna (RR 0,54). É barato, de administração simples e não seda.

Antes das doses, a aritmética da ampola — é ela que a prova esconde. Usa-se o sulfato de magnésio heptahidratado, e a concentração muda tudo: a solução a 50% traz 5 g em uma ampola de 10 mL; a 20%, 2 g em 10 mL; a 10%, 1 g em 10 mL. Todo preparo descrito a seguir assume a apresentação a 50%.

A dose de ataque é a mesma nos dois esquemas: 4 g por via intravenosa, em bolus lento. O preparo padrão dilui 8 mL de MgSO4 a 50% (4 g) em 12 mL de água destilada ou soro fisiológico a 0,9%, resultando em 4 g em 20 mL, infundidos lentamente ao longo de 15 a 20 minutos. Uma alternativa dilui os mesmos 8 mL em 100 mL de soro fisiológico e corre em bomba a 300 mL/h, o que entrega o volume total em torno de 20 minutos. O manual do Ministério da Saúde admite a mesma diluição de 8 mL + 12 mL aplicada em 5 a 10 minutos; a diretriz britânica usa 5 a 15 minutos para os mesmos 4 g. A leitura segura é que o ataque é infundido em minutos, nunca em push rápido, e não passa de 20 minutos.

O esquema de Pritchard combina as duas vias. Ataque: 4 g IV lento mais 10 g por via intramuscular, sendo 5 g em cada nádega, no quadrante súpero-externo. Manutenção: 5 g por via intramuscular profunda a cada 4 horas — uma ampola inteira de 10 mL a 50% por dose. As apresentações a 10% e a 20% não servem para a via intramuscular: o volume necessário seria proibitivo.

O esquema de Zuspan é exclusivamente intravenoso. Ataque: os mesmos 4 g IV lento. Manutenção: 1 g por hora em bomba de infusão contínua. O preparo dilui uma ampola de 10 mL a 50% (5 g) em 490 mL de soro fisiológico a 0,9%, o que dá 1 g a cada 100 mL — logo, correr a 100 mL/h. Se a paciente seguir sintomática depois de iniciada a manutenção, sobe-se para 2 g/h: duas ampolas (20 mL) em 480 mL de soro fisiológico, mantendo os mesmos 100 mL/h. O manual do Ministério da Saúde traz uma diluição alternativa para a mesma manutenção — 10 mL de sulfato em 240 mL de soro fisiológico, em bomba identificada, com 50 mL/h equivalendo a 1 g/h e 100 mL/h a 2 g/h.

Quando não há bomba de infusão, o esquema é Pritchard. Ele foi desenhado exatamente para isso: cada dose intramuscular entrega cobertura anticonvulsivante de aproximadamente quatro horas e não depende de equipamento, de energia elétrica nem de alguém vigiando gotejamento. Pela mesma razão, é o esquema do transporte: a paciente que vai ser transferida recebe a dose de ataque completa do Pritchard — 4 g IV mais 10 g IM — antes de entrar na ambulância, e essa dose sozinha cobre as quatro horas seguintes. A recomendação da Organização Mundial da Saúde fecha o raciocínio para o cenário de menor recurso: onde não é possível administrar o esquema completo, indica-se a dose de ataque de sulfato de magnésio seguida de transferência imediata para serviço de maior complexidade.

Duas restrições fecham a seção. O sulfato é contraindicado na miastenia gravis. E a via intramuscular não deve ser usada na síndrome HELLP com plaquetopenia, pelo risco de hematoma e abscesso — a taxa de abscesso e hematoma com a via IM é de cerca de 0,5%, e a injeção dói, tanto que a diretriz americana admite misturar 1 mL de lidocaína a 2% à dose intramuscular.

Por fim, a frase que resolve muita questão: indicar sulfato de magnésio não é indicar o parto. O sulfato pode estabilizar a paciente clínica e laboratorialmente e permitir que a gestação avance, reduzindo prematuridade; nem mesmo a necessidade de reutilizá-lo é indicação absoluta de resolução, desde que a paciente esteja estável e a vitalidade fetal preservada. Isso vale para a pré-eclâmpsia. Na eclâmpsia instalada é diferente: aí o parto está indicado — depois de estabilizar.

Convulsão que se repete em vigência de sulfato

Recorrer não significa que o sulfato falhou nem que se deve trocar de droga. Significa uma dose a mais e uma manutenção maior: administram-se mais 2 g de sulfato de magnésio por via intravenosa em bolus — 4 mL da solução a 50% diluídos em 10 mL de água destilada ou soro fisiológico — e a manutenção sobe para 2 g/h. A diretriz britânica usa faixa ligeiramente mais larga para o mesmo bolus de resgate: 2 a 4 g por via intravenosa em 5 a 15 minutos.

A regra de parada é numérica: se dois bolus de resgate não controlarem as convulsões, muda-se de droga e, principalmente, muda-se de hipótese. Os documentos brasileiros de sociedade indicam a difenil-hidantoína (fenitoína) no esquema clássico de crise convulsiva; o manual do Ministério da Saúde admite diazepam, lorazepam ou midazolam nesse ponto. A recomendação seguinte, essa idêntica em todos, é a que importa mais: investigar complicação cerebral, sobretudo hemorragia intracraniana. Estado de mal convulsivo é tratamento em UTI, com outros anticonvulsivantes e neuroimagem.

Há ainda a regra de suspensão e retomada, que quase nunca aparece nos resumos e cai em prova prática. Se um parâmetro de segurança se alterar, suspende-se o sulfato. Retomado em até 2 horas, basta reiniciar a infusão intravenosa. Passadas mais de 2 horas de suspensão, o retorno exige nova dose de ataque de 2 g antes de recompor a manutenção — porque o nível sérico já caiu abaixo da faixa de proteção.

Toxicidade: três travas clínicas, um antídoto

A dose de ataque, corretamente administrada, não oferece risco de intoxicação. A intoxicação nasce da manutenção — por dose excessiva acumulada ou por excreção renal reduzida. Por isso a vigilância se concentra nas doses de manutenção, e é clínica antes de ser laboratorial.

São três parâmetros, checados a cada 4 horas — na prática, imediatamente antes de cada dose intramuscular no esquema de Pritchard, e de forma seriada durante a infusão no Zuspan. Reflexo patelar presente. Frequência respiratória ≥ 16 incursões por minuto. Diurese ≥ 25 mL/h. A ordem não é arbitrária: o reflexo patelar é o primeiro a desaparecer, com boa margem antes da depressão respiratória, e é por isso que ele é a sentinela. Enquanto o reflexo estiver lá, a toxicidade grave está afastada.

Sobre o corte da frequência respiratória há divergência interna entre os documentos brasileiros: os dois protocolos de sociedade usam ≥ 16 irpm e o manual do Ministério da Saúde usa > 12 mpm. Este capítulo adota ≥ 16 irpm, que é o corte dos documentos de sociedade mais recentes e o mais conservador dos dois — quem para o sulfato com 15 irpm perde uma dose e checa a magnesemia; quem espera 12 já está mais perto da depressão respiratória.

Alterado qualquer um dos três, a conduta é a mesma: reduzir ou parar a infusão intravenosa, ou deixar de aplicar a dose intramuscular. Só então se dosa o magnésio sérico e se avalia a função renal. Com valores normais, o tratamento é reiniciado.

As faixas séricas formam uma escada previsível. A concentração terapêutica do íon magnésio vai de 4 a 7 mEq/L (4,8 a 8,4 mg/dL). O reflexo patelar fica abolido entre 8 e 10 mEq/L. O risco de parada respiratória aparece a partir de 12 mEq/L. A parada cardíaca é descrita em torno de 25 mEq/L (30 mg/dL). O manual do Ministério da Saúde situa o surgimento de sinais de toxicidade acima de 7 mEq/L, o que é coerente com o limite superior da faixa terapêutica.

Uma ressalva honesta sobre esses números, registrada pela diretriz americana: a própria faixa terapêutica é questionável. Convulsões ocorrem com magnésio em nível dito terapêutico, e vários ensaios com infusão de 1 g/h — que frequentemente deixa níveis subterapêuticos — reduziram significativamente a eclâmpsia e a recorrência de convulsões. Nenhum dos seis ensaios da metanálise da OMS usou monitorização sérica. O nível sérico serve para explicar a toxicidade, não para perseguir uma meta.

O antídoto é o gluconato de cálcio: 1 g por via intravenosa, o que corresponde a 10 mL da solução a 10%, administrado lentamente — o manual do Ministério da Saúde especifica cerca de 3 minutos. Diante de depressão respiratória, ele vem junto com suporte ventilatório: oxigênio sob máscara e, se a depressão for iminente, intubação. A diretriz americana acrescenta furosemida intravenosa para acelerar a excreção urinária do magnésio.

Na disfunção renal, o ajuste é obrigatório porque o magnésio é excretado quase exclusivamente pela urina. Este capítulo adota o corte do documento brasileiro mais recente: creatinina ≥ 1,0 mg/dL indica metade da dose de manutenção. Vale saber que o protocolo de 2018 usava 1,2 mg/dL e o manual do Ministério da Saúde usa 1,3 mg/dL — o que muda entre eles é o gatilho, nunca a conduta, que é sempre reduzir a manutenção pela metade e passar a dosar magnesemia. A infusão só é interrompida se a diurese cair abaixo de 25 mL/h. Nesse cenário a monitorização laboratorial entra de fato: a diretriz americana dosa magnésio a cada 4 horas, interrompe a infusão se o nível ultrapassar 8 mEq/L (9,6 mg/dL) e só reinicia, em velocidade menor, quando cair abaixo de 7 mEq/L (8,4 mg/dL).

Por quanto tempo manter, e o alvo da pressão

A manutenção do sulfato de magnésio dura 24 horas após a resolução da gestação ou após a última crise convulsiva — o que vier por último. Esse é um dos poucos pontos em que documento nacional, protocolo de sociedade brasileira, diretriz americana e diretriz britânica dizem exatamente a mesma coisa.

O relógio começa a contar do parto, e não do diagnóstico, justamente porque cerca de 30% das eclâmpsias acontecem no puerpério. Quando o sulfato foi usado por crise hipertensiva ou por risco de deterioração, sem convulsão, mantêm-se as mesmas 24 horas; alcançada a estabilização clínica — sensório recuperado e pressão controlada —, a medicação pode ser retirada rapidamente, sem desmame.

A pressão se trata em paralelo, e com alvo próprio. Trata-se quando a pressão sistólica está ≥ 160 mmHg e/ou a diastólica ≥ 110 mmHg. O objetivo é reduzir de 15% a 25%, chegando a uma sistólica entre 140 e 150 mmHg e uma diastólica entre 90 e 100 mmHg. Queda brusca é evitada de propósito: expõe a mãe a acidente vascular cerebral e infarto e o feto à redução da perfusão uteroplacentária. O manual do Ministério da Saúde descreve o mesmo alvo por outro caminho — manter a pressão entre 140/90 e 150/100 mmHg é um bom parâmetro depois de controlada a convulsão. Quais drogas, em que dose e como titular é assunto do capítulo de anti-hipertensivos na gestação.

Um ponto que se cobra com frequência: sulfato de magnésio não é anti-hipertensivo. Ele previne e trata a convulsão, reduz a pressão intracerebral e ajuda a manter o fluxo sanguíneo cerebral, mas não substitui o hipotensor. E, na emergência hipertensiva com sintomatologia exuberante, a ordem se inverte em relação ao que a intuição sugere: o sulfato entra o mais rápido possível e antes da terapia hipotensora.

Quando a convulsão não é eclâmpsia

A regra de partida continua valendo: em gestante, convulsão depois da 20ª semana é interpretada em princípio como eclâmpsia. A investigação de outra causa costuma começar quando o sulfato de magnésio não controla o quadro — a refratariedade é o próprio gatilho.

Os gatilhos para imagem de crânio, tomografia computadorizada e/ou ressonância magnética, estão listados: déficit neurológico focal, coma, convulsões de difícil controle sobretudo em vigência de sulfato, alterações visuais persistentes, convulsão antes de 20 semanas de gestação sem associação com doença trofoblástica gestacional, e ausência de diagnóstico prévio de epilepsia. A diretriz americana acrescenta a janela temporal: convulsão de início novo depois de 48 a 72 horas de puerpério torna diagnósticos alternativos mais prováveis. Um quadro clínico típico de eclâmpsia, sem déficit neurológico persistente, não exige investigação além da que a própria pré-eclâmpsia já pede.

A lista de diferenciais organiza-se por mecanismo. Vascular: acidente vascular cerebral isquêmico e hemorrágico, hemorragia intracraniana, tromboembolia cerebral, e a leucoencefalopatia posterior reversível (PRES), que compartilha com a eclâmpsia o edema vasogênico posterior. Expansivo: tumor e outras lesões cerebrais. Infeccioso: meningite, encefalite e sepse. Microangiopático: púrpura trombocitopênica trombótica e síndrome hemolítico-urêmica, que a gestação desencadeia e que confundem com HELLP porque também trazem plaquetopenia, hemólise e sintoma neurológico. Metabólico e tóxico: hipoglicemia, hiponatremia, hipocalcemia, uremia, intoxicação hídrica, abstinência ou intoxicação por drogas e álcool. Restam a epilepsia prévia, o lúpus eritematoso sistêmico com estreia neurológica na gestação, o feocromocitoma e o trauma craniano recente.

Dois detalhes finos, dos que decidem alternativa. Convulsão antes da 20ª semana é rara como eclâmpsia e obriga a pensar em doença trofoblástica gestacional. E a ausência de déficit neurológico focal não exclui anormalidade anatômica cerebral — crise sem déficit pode ser metabólica, tóxica ou infecciosa, e continua podendo ser estrutural.

Depois de estabilizar, o parto

O tratamento definitivo da eclâmpsia é o nascimento do feto com a retirada da placenta, e ele está indicado independentemente da idade gestacional — mas só depois que o quadro clínico estiver estabilizado, com recuperação do sensório e controle da hipertensão arterial grave. Eclâmpsia não é, por si, indicação de cesárea: não havendo contraindicação ao parto vaginal, o trabalho de parto pode ser induzido. O detalhamento de momento e via está no capítulo de pré-eclâmpsia.

04

Régua do sulfato de magnésio

Da porta do pronto-socorro à retirada da droga, com os números que a prova cobra. O fluxo é a ordem dos primeiros minutos; os cartões são a escada da magnesemia; as tabelas trazem os esquemas, as faixas séricas e as três travas de segurança.

  1. 1Proteger sem conter: decúbito lateral, cabeceira elevada, afastar objetos e marcar a duração da crise. Não introduzir objetos à força na boca.
  2. 2Avaliar via aérea, ventilação e circulação; aspirar secreções quando necessário, oferecer oxigênio se houver hipoxemia e intubar se a ventilação ou a proteção da via aérea estiver comprometida.
  3. 3Obter acesso venoso e colher hemograma com plaquetas, creatinina, transaminases, desidrogenase láctica e bilirrubinas; sondar a bexiga para acompanhar diurese.
  4. 4Administrar sulfato de magnésio imediatamente: ataque intravenoso e manutenção conforme o esquema institucional. Se a convulsão recorrer, fazer dose adicional conforme protocolo.
  5. 5Checar antes de cada manutenção: frequência respiratória, reflexo patelar e diurese. Suspender diante de depressão respiratória, arreflexia ou oligúria relevante; manter gluconato de cálcio disponível.
  6. 6Se a pressão permanecer em faixa grave, iniciar anti-hipertensivo de ação rápida sem esperar o término do ataque de magnésio. Prevenção de nova crise e controle pressórico são intervenções paralelas.
  7. 7Investigar causas alternativas quando a apresentação for atípica, houver déficit focal, coma persistente, crise muito tardia ou ausência de resposta ao magnésio.
  8. 8Avaliar o feto depois de iniciada a estabilização materna; bradicardia transitória pode acompanhar a crise e não determina cesárea antes de corrigir a condição materna.
  9. 9Assim que via aérea, convulsão e pressão estiverem controladas, planejar o parto. Não existe espera obrigatória de 4 a 6 horas; a via depende das condições obstétricas e da resposta materno-fetal.
  10. 10Manter vigilância de edema pulmonar, HELLP, lesão renal, descolamento placentário e novas convulsões durante o parto e o puerpério.
  11. 11Manter sulfato de magnésio por 24 horas após o parto ou após a última convulsão, adotando o marco que ocorrer por último.

4 a 7 mEq/L — faixa terapêutica

Reflexo patelar presente, respiração e diurese preservados. É a faixa em que a droga protege sem sinal de toxicidade.

8 a 10 mEq/L — reflexo patelar abolido

A sentinela caiu. Suspender a dose seguinte, dosar magnesemia e avaliar função renal antes de retomar.

A partir de 12 mEq/L — depressão e parada respiratória

Parar o sulfato, gluconato de cálcio 1 g IV lento e suporte ventilatório imediato.

Em torno de 25 mEq/L — parada cardíaca

Extremo da escada, descrito na literatura americana. É o desfecho que as três travas clínicas existem para nunca alcançar.

EsquemaDose de ataqueManutençãoPreparo (apresentação a 50%: 10 mL = 5 g)
Pritchard (IV + IM)4 g IV lento + 10 g IM (5 g em cada nádega, quadrante súpero-externo)5 g IM profunda a cada 4 horasAtaque IV: 8 mL de MgSO4 50% (4 g) + 12 mL de água destilada ou SF 0,9% = 4 g/20 mL, em 15 a 20 min. Manutenção: 1 ampola de 10 mL a 50% por dose (não usar 10% nem 20%: volume proibitivo)
Zuspan (IV exclusivo)4 g IV lento1 g/h em bomba de infusão contínua (2 g/h se seguir sintomática)Manutenção: 1 ampola (10 mL = 5 g) em 490 mL de SF 0,9% = 1 g/100 mL, correr a 100 mL/h. Para 2 g/h: 20 mL em 480 mL, mantendo 100 mL/h
Zuspan — diluição do manual do Ministério da Saúde4 g IV (8 mL + 12 mL de água destilada) em 5 a 10 min1 a 2 g/h em bomba identificada10 mL de sulfato + 240 mL de SF: 50 mL/h = 1 g/h; 100 mL/h = 2 g/h
Sem bomba de infusão4 g IV + 10 g IM5 g IM a cada 4 horas (Pritchard)Cada dose IM cobre ~4 horas e independe de equipamento — é o esquema desenhado para esse cenário
Transferência para outro serviço4 g IV + 10 g IM antes de embarcarDose de ataque isolada cobre ~4 h de trajetoA OMS recomenda dose de ataque seguida de transferência imediata onde o esquema completo não é possível
Recorrência de convulsão em uso de sulfato+2 g IV em bolus (4 mL da solução a 50% em 10 mL de água destilada ou SF)Elevar a manutenção para 2 g/hDois bolus sem controle: trocar de anticonvulsivante e investigar hemorragia intracraniana com neuroimagem

Magnesemia: faixa, o que aparece e o que fazer

Faixa (mEq/L)Equivalente (mg/dL)Sinal clínicoConduta
4 a 74,8 a 8,4Nenhum — faixa terapêuticaManter o esquema e as checagens de 4/4 h
Acima de 7Acima de 8,4Começam os sinais de toxicidade (referência do manual do Ministério da Saúde)Reavaliar parâmetros clínicos e função renal
8 a 109,6 a 12Reflexo patelar abolidoSuspender a dose seguinte; dosar magnésio e creatinina; retomar com valores normais
A partir de 12A partir de 14,4Depressão e risco de parada respiratóriaParar a infusão, gluconato de cálcio 1 g IV lento (10 mL a 10%, em ~3 min) e suporte ventilatório
Em torno de 25Em torno de 30Parada cardíacaReanimação; é o extremo que as travas clínicas existem para evitar

As três travas antes de cada dose de manutenção

ParâmetroValor que libera a dosePor que é esseSe estiver alterado
Reflexo patelarPresenteÉ o primeiro a desaparecer, com margem antes da depressão respiratória — funciona como sentinelaNão aplicar a dose IM ou reduzir/parar a infusão IV; dosar magnésio e avaliar função renal
Frequência respiratória≥ 16 irpmCorte dos protocolos de sociedade brasileiros; o manual do Ministério da Saúde usa > 12 mpmSuspender; se houver depressão respiratória, gluconato de cálcio e suporte ventilatório
Diurese≥ 25 mL/hO magnésio é excretado quase só pela urina — sem diurese, ele acumulaInterromper a infusão; abaixo de 25 mL/h é o único gatilho que sozinho interrompe o sulfato na disfunção renal
Frequência da checagemA cada 4 horasCoincide com o intervalo das doses IM do Pritchard e com a reavaliação padronizada no esquema IVRegistrar em prontuário a cada checagem, antes de liberar a dose

Disfunção renal: creatinina ≥ 1,0 mg/dL indica metade da dose de manutenção — corte do documento brasileiro mais recente. O protocolo de 2018 usa 1,2 mg/dL e o manual do Ministério da Saúde usa 1,3 mg/dL; o que muda é o gatilho, não a conduta, que é sempre reduzir pela metade e passar a dosar magnesemia.

Suspensão e retomada: reiniciada em até 2 horas, basta voltar a infusão IV. Passadas mais de 2 horas, o retorno exige nova dose de ataque de 2 g antes de recompor a manutenção.

Contraindicação absoluta: miastenia gravis. A via intramuscular não deve ser usada na síndrome HELLP com plaquetopenia, pelo risco de hematoma e abscesso.

Indicar sulfato de magnésio não é indicar o parto. Na pré-eclâmpsia, o sulfato pode estabilizar e permitir que a gestação avance; na eclâmpsia instalada, o parto está indicado depois da estabilização.

Na crise com hipertensão grave, sulfato de magnésio e anti-hipertensivo têm objetivos diferentes e devem ser iniciados sem atraso indevido. O magnésio previne nova convulsão; o hipotensor reduz risco de AVC e outras complicações da pressão grave.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Pritchard ou Zuspan como esquema preferencial

Eficácia equivalente, escolha pela estrutura do serviço — protocolos brasileiros de sociedade

Os dois esquemas são considerados de igual eficácia e devem ser empregados de acordo com a experiência de cada serviço. A ressalva é situacional e explícita: quando há necessidade de referenciar a gestante para outro serviço, o esquema preferencial é o intramuscular (Pritchard), porque confere maior segurança durante o transporte. Pritchard: 4 g IV + 10 g IM no ataque, 5 g IM a cada 4 h. Zuspan: 4 g IV no ataque, 1 g/h em bomba.

Protocolo FEBRASGO — Obstetrícia nº 8 (2018) e Protocolo RBEHG 03/2023

Intramuscular como solução para ausência de bomba e para transporte — manual do Ministério da Saúde

O esquema intramuscular é apresentado como recomendado para locais sem disponibilidade de bombas de infusão e para o transporte de pacientes, com duas ressalvas próprias: maior risco de abscesso e hematoma (0,5%) e proibição de uso na síndrome HELLP com plaquetopenia. A dose de ataque completa do Pritchard é descrita como cobertura anticonvulsivante de quatro horas para a paciente que será transferida.

Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022 (Quadro 7)

Intravenoso como padrão e intramuscular como plano B — diretriz americana

O regime geralmente preferido nos Estados Unidos é intravenoso: ataque de 4 a 6 g em 20 a 30 minutos, seguido de manutenção de 1 a 2 g/h. A via intramuscular aparece para o caso de dificuldade em estabelecer acesso venoso — 10 g de ataque (5 g em cada nádega) seguidos de 5 g a cada 4 h — com a observação de que dói, admite mistura com 1 mL de lidocaína a 2% e tem taxa maior de efeitos adversos.

ACOG Practice Bulletin nº 222 (2020)

Ambos os esquemas completos são adequados — OMS

A recomendação é de que os esquemas completos, intravenoso ou intramuscular, sejam usados para prevenção e tratamento da eclâmpsia (recomendação forte, evidência moderada). Não há preferência declarada entre eles.

WHO recommendations for prevention and treatment of pre-eclampsia and eclampsia, 2011

Na prova

O recorte se identifica pelo cenário descrito no enunciado. Vinheta com maternidade sem bomba de infusão, unidade de menor complexidade, ambulância ou necessidade de transferência aponta para o corpo brasileiro e para a via intramuscular. Vinheta em centro terciário, com bomba disponível e monitorização contínua, aponta para o esquema intravenoso. As alternativas denunciam o mundo da questão: distrator com '6 g de ataque' ou '3 g/h' vem da literatura americana (esquema de Sibai), enquanto '5 g em cada nádega' e 'diluir 8 mL em 12 mL de água destilada' vêm dos documentos brasileiros. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS.

Duração da manutenção após o parto ou a última convulsão

24 horas — documentos brasileiros, americano e britânico

Manter o sulfato de magnésio durante 24 horas após a resolução da gestação ou após a última crise convulsiva. Para cesárea, a infusão idealmente começa antes da cirurgia, continua durante e segue por 24 horas depois; no parto vaginal, 24 horas após o nascimento. Na diretriz britânica, se houve crise, a infusão segue 24 horas após a última convulsão. A justificativa é epidemiológica: cerca de 30% das eclâmpsias ocorrem no puerpério.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022); Protocolo FEBRASGO nº 8 (2018); Protocolo RBEHG 03/2023; ACOG Practice Bulletin nº 222 (2020); NICE NG133 (2019)

Dose de ataque isolada seguida de transferência, onde o esquema completo não é viável — OMS

Para cenários em que não é possível administrar o esquema completo, recomenda-se a dose de ataque de sulfato de magnésio seguida de transferência imediata para serviço de maior complexidade, em mulheres com pré-eclâmpsia grave e eclâmpsia. A própria OMS classifica essa recomendação como fraca e com certeza muito baixa da evidência — é uma solução de acesso, não uma alternativa equivalente às 24 horas.

WHO recommendations for prevention and treatment of pre-eclampsia and eclampsia, 2011

Na prova

As 24 horas contadas do parto ou da última convulsão, o que vier por último, são o número comum a todos os documentos e o que aparece em enunciado de rotina. A dose de ataque isolada só faz sentido quando o enunciado descreve explicitamente um serviço que não consegue manter a infusão e vai transferir — e nesse caso a própria transferência costuma estar entre as alternativas. Enunciado que menciona a OMS ou fala em unidade de baixa complexidade sinaliza o segundo recorte.

Sulfato profilático na pré-eclâmpsia sem sinais de gravidade

Indicação ampla, incluindo hipertensão grave assintomática — documentos brasileiros

O sulfato é altamente recomendado na iminência de eclâmpsia, na eclâmpsia, na síndrome HELLP e na pré-eclâmpsia com deterioração clínica e/ou laboratorial, incluindo hipertensão arterial de difícil controle mesmo que assintomática. Pressão sistólica ≥ 160 mmHg e/ou diastólica ≥ 110 mmHg, ainda que sem sintomas, já indica a profilaxia. O limiar brasileiro para iniciar é, portanto, mais baixo do que o americano.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022); Protocolo FEBRASGO nº 8 (2018); Protocolo RBEHG 03/2023

Sem consenso para pré-eclâmpsia sem sinais de gravidade — ACOG

Não há consenso sobre o uso profilático em hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia sem sinais de gravidade. Dois ensaios pequenos (357 mulheres no total) não mostraram diferença, mas são insuficientes para orientar conduta. A taxa de convulsão sem profilaxia é quatro vezes maior com sinais de gravidade (4 em 200 contra 1 em 200), e o número necessário para tratar é de 129 em pacientes assintomáticas contra 36 em sintomáticas. A decisão fica com o médico ou a instituição; o uso está recomendado quando há sinais de gravidade ou eclâmpsia.

ACOG Practice Bulletin nº 222 (2020)

Recomendado para pré-eclâmpsia grave — OMS

O sulfato de magnésio é recomendado para a prevenção da eclâmpsia em mulheres com pré-eclâmpsia grave, em preferência a outros anticonvulsivantes (recomendação forte, evidência de alta qualidade), e para o tratamento da eclâmpsia em preferência a outros anticonvulsivantes (recomendação forte, evidência moderada). A metanálise que sustenta a recomendação reuniu seis ensaios e 11.444 mulheres, com redução de 59% no risco de eclâmpsia (RR 0,41; IC 95% 0,29-0,58).

WHO recommendations for prevention and treatment of pre-eclampsia and eclampsia, 2011

Na prova

A distância entre os corpos é de limiar, não de mérito: ninguém discute o sulfato na doença grave. Enunciado com pressão ≥ 160/110 mmHg em paciente assintomática segue a régua brasileira, que já indica a profilaxia; enunciado que discute custo-benefício, ambiente de alto recurso ou cita NNT reproduz a leitura americana. O motivo da diferença é de contexto: em país com alta mortalidade materna por eclâmpsia e acesso desigual ao pré-natal, o limiar mais baixo compra segurança onde o seguimento é frágil.

Dosar magnesemia de rotina ou monitorar só clinicamente

Monitorização clínica basta; magnesemia sob indicação — documentos brasileiros

Não é necessário realizar a dosagem sérica de magnésio em todas as pacientes: ela fica reservada aos casos de alteração da função renal ou de inibição dos reflexos tendinosos. A vigilância de rotina é o trio reflexo patelar presente, frequência respiratória ≥ 16 irpm e diurese ≥ 25 mL/h, checado a cada 4 horas. A dose de ataque, corretamente administrada, não oferece risco de intoxicação.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022); Protocolo FEBRASGO nº 8 (2018); Protocolo RBEHG 03/2023

Magnesemia seriada quando há disfunção renal — ACOG

Nos casos com disfunção renal, a determinação laboratorial do magnésio sérico a cada 4 horas torna-se necessária: se o nível ultrapassar 8 mEq/L (9,6 mg/dL), a infusão é interrompida e os níveis são dosados a cada 2 horas, com reinício em velocidade menor quando cair abaixo de 7 mEq/L (8,4 mg/dL). A própria diretriz registra que a faixa terapêutica citada na literatura é questionável, porque convulsões ocorrem com nível terapêutico e esquemas de 1 g/h, frequentemente subterapêuticos, reduziram a eclâmpsia.

ACOG Practice Bulletin nº 222 (2020)

Ensaios que sustentam a droga não usaram nível sérico — OMS

Na revisão que fundamenta a recomendação, o monitoramento clínico de efeitos adversos foi relatado na maioria dos ensaios e nenhum dos seis estudos utilizou monitorização sérica de magnésio. A evidência de benefício, portanto, foi construída sobre vigilância clínica.

WHO recommendations for prevention and treatment of pre-eclampsia and eclampsia, 2011

Na prova

Alternativa que condiciona o início do sulfato à dosagem prévia de magnésio contradiz todos os corpos citados e costuma ser distrator. A magnesemia aparece como conduta legítima em dois cenários bem marcados no enunciado: função renal alterada e parâmetro clínico já alterado. Cenário de UBS ou maternidade sem laboratório de urgência reforça a leitura clínica; cenário de UTI com creatinina elevada abre espaço para o nível sérico.

Segunda droga quando dois bolus de sulfato não controlam a crise

Difenil-hidantoína (fenitoína) no esquema clássico — protocolos brasileiros de sociedade

Se dois bolus de 2 g de sulfato não controlarem as convulsões, a droga de escolha passa a ser a difenil-hidantoína em seu esquema clássico para tratamento de crises convulsivas, com investigação simultânea de complicações cerebrais, principalmente hemorragias intracranianas.

Protocolo FEBRASGO — Obstetrícia nº 8 (2018) e Protocolo RBEHG 03/2023

Diazepam, lorazepam ou midazolam — manual do Ministério da Saúde

Se duas doses em bolus de sulfato de magnésio não controlarem as convulsões, ainda se pode lançar mão de diazepam, lorazepam ou midazolam. Estado de mal convulsivo é tratado em UTI, com outros anticonvulsivantes e avaliação de neuroimagem.

Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022 (Quadro 8)

Na prova

A divergência é só sobre a segunda droga — em benzodiazepínico ou hidantoína como tratamento de primeira linha da eclâmpsia não há discussão em nenhum documento: os dois são inferiores ao sulfato. Enunciado que pede a conduta imediata na crise está testando o sulfato; enunciado que já descreve duas doses de resgate sem controle está testando outra coisa, e nele a investigação de hemorragia intracraniana com neuroimagem costuma valer mais do que a escolha entre as duas drogas, porque é o único ponto em que todos concordam.

06

Caso resolvido

Primigesta de 19 anos, 34 semanas, dá entrada em hospital municipal levada pela família após crise tônico-clônica generalizada presenciada em casa, com duração aproximada de dois minutos. Vinha com cefaleia há dois dias. Na chegada está sonolenta, responsiva a chamado, com mordedura de língua. PA 172/116 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 irpm, SpO2 93% em ar ambiente. O hospital não dispõe de bomba de infusão e a referência terciária fica a 90 minutos de ambulância.
diagnóstico
Convulsão tônico-clônica nova depois da 20ª semana, em gestante com pressão em nível grave e pródromo de cefaleia: eclâmpsia até prova em contrário. A ausência de pré-natal documentando hipertensão não afasta o diagnóstico — parte dos casos abre o quadro com a convulsão.
via aérea e posição
Decúbito lateral esquerdo com cabeceira elevada, aspiração de secreções, rosto lateralizado, cânula orofaríngea. Glasgow acima de 8: não se intuba. Oxigênio 8 a 10 L/min sob máscara, com oximetria.
acesso e coleta
Acesso venoso periférico, coleta de hemograma com plaquetas, transaminases, DHL, bilirrubinas, creatinina, ureia e urina. Sonda vesical de demora instalada — a partir de agora a diurese é parâmetro de segurança da droga.
sulfato — escolha do esquema
Sem bomba de infusão e com transferência prevista, o esquema é o de Pritchard. Ataque: 4 g IV lento — 8 mL de MgSO4 a 50% diluídos em 12 mL de água destilada, infundidos em 15 a 20 minutos — mais 10 g IM, 5 g (uma ampola de 10 mL) em cada nádega, no quadrante súpero-externo. Essa dose de ataque cobre as quatro horas seguintes, o que atravessa o trajeto de 90 minutos com folga.
pressão
PA 172/116 mmHg está acima do limiar de tratamento (≥ 160/110). Anti-hipertensivo de ação rápida com alvo de sistólica entre 140 e 150 e diastólica entre 90 e 100 mmHg, reduzindo 15% a 25% — sem queda brusca.
o que não fazer
Não conter os membros durante a crise. Não prescrever diazepam como tratamento. Não indicar cesárea de imediato: mãe e feto ainda estão acidóticos, e a espera de quatro a seis horas é parte da conduta. A vitalidade fetal só é avaliada depois da estabilização materna.
manutenção e transferência
Manutenção de 5 g IM a cada 4 horas, com checagem antes de cada dose: reflexo patelar presente, FR ≥ 16 irpm, diurese ≥ 25 mL/h. Transferir com a dose de ataque já feita, prontuário anotando o horário exato, e gluconato de cálcio a 10% disponível na ambulância.
duração
O sulfato será mantido por 24 horas após o parto ou após a última convulsão — o que ocorrer por último. O parto se decide no serviço de referência, depois da estabilização; eclâmpsia não é, por si, indicação de cesárea.
07

Agora feche você

Puérpera de 28 anos, sexto dia após parto vaginal a termo sem intercorrências registradas, retorna ao pronto-socorro trazida pelo marido depois de crise tônico-clônica generalizada em casa. Referia cefaleia frontal intensa e turvação visual há dois dias, atribuídas a cansaço. PA 168/112 mmHg, FR 18 irpm, reflexos vivos, sem déficit focal. Nega epilepsia. Recebeu alta da maternidade com PA 138/86 mmHg.
achado
Convulsão tônico-clônica nova em puérpera de sexto dia, precedida de cefaleia e alteração visual, com pressão em nível grave e sem antecedente de epilepsia.
leitura do quadro
Cerca de 30% das eclâmpsias ocorrem no puerpério, e o maior risco está na primeira semana. Convulsão que ocorre mais de 48 horas e até 4 semanas do parto é chamada de eclâmpsia pós-parto tardia. Pressão normal na alta não afasta nada: a doença pode se expressar ou progredir depois do parto.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Segurar a paciente para conter a convulsão Parece cuidado e é lesão: contenção ativa de um membro em contração tônico-clônica produz fratura, luxação e rabdomiólise, e não encurta a crise. O que se faz é proteger de superfícies duras, lateralizar e aspirar. A distinção entre proteger e imobilizar é justamente o que a alternativa testa.
  2. 2Prescrever diazepam para 'parar a convulsão' É o reflexo de quem tratou crise convulsiva em outro contexto. Na eclâmpsia, o sulfato de magnésio é superior a fenitoína, diazepam e cocktail lítico, e o benzodiazepínico inibe reflexo laríngeo (aspiração) e deprime o centro respiratório (apneia). A exceção é estreita: sedação da paciente extremamente agitada, apenas para viabilizar punção, sondagem e coleta.
  3. 3Indicar cesárea durante ou logo após a convulsão Atrai porque parece resolutivo — o tratamento definitivo é mesmo o parto. Mas mãe e feto estão hipoxêmicos e acidóticos, e o documento nacional descreve espera de quatro a seis horas até a recuperação do sensório e o controle da hipertensão grave. Some-se a isso que a cardiotocografia pós-ictal, lida antes da estabilização materna, produz uma indicação falsa de urgência fetal.
  4. 4Suspender o sulfato porque a convulsão passou A crise é autolimitada; o sulfato não está lá para interrompê-la, e sim para impedir a próxima. A manutenção corre por 24 horas após o parto ou a última convulsão. Parar antes disso ignora que cerca de 30% das eclâmpsias acontecem justamente no puerpério.
  5. 5Confundir a ampola do antídoto com a do sulfato As duas são ampolas de 10 mL e a confusão é real na beira do leito. Gluconato de cálcio é 10 mL da solução a 10%, ou seja, 1 g, administrado lentamente em cerca de 3 minutos. Sulfato de magnésio a 50% é 10 mL contendo 5 g. Trocar as apresentações é o erro que transforma antídoto em nova dose da droga que causou a intoxicação.
  6. 6Descartar eclâmpsia porque não havia hipertensão documentada A definição exige convulsão nova sem outra causa, não exige pré-natal com pressão alta registrada nem proteinúria. Parte dos casos abre o quadro com a convulsão, precisamente em pacientes cujo diagnóstico de pré-eclâmpsia não havia sido considerado. Alternativa que afasta o diagnóstico por 'primeira aferição alterada' está errada por construção.
  7. 7Exigir magnesemia antes de iniciar o sulfato A dosagem sérica não é pré-requisito e não está disponível em boa parte dos serviços onde a droga precisa correr. Ela é reservada a alteração da função renal ou a parâmetro clínico já alterado. Os ensaios que provaram o benefício do sulfato foram conduzidos com vigilância clínica, não com nível sérico.
  8. 8Aplicar a dose intramuscular na síndrome HELLP com plaquetopenia O automatismo 'sem bomba, então Pritchard' esbarra numa contraindicação específica: com plaquetopenia, a injeção intramuscular profunda de 5 g em cada nádega expõe a hematoma e abscesso. Nesse cenário a via intravenosa se impõe, ainda que exija improviso de infusão controlada.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O sulfato de magnésio é o fármaco de escolha para prevenção e tratamento da eclâmpsia na pré-eclâmpsia com sinais de gravidade (correta). Fenitoína é inferior ao magnésio na prevenção de convulsão eclâmptica. Diazepam não é primeira linha e traz risco de depressão neonatal. Nifedipino sublingual é proscrito (queda abrupta da PA) e trata hipertensão, não previne eclâmpsia. Gliconato de cálcio é o antídoto da intoxicação por magnésio, não a profilaxia.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite sem consultar: ataque de 4 g IV com a diluição (8 mL de MgSO4 a 50% em 12 mL, em 15 a 20 min); manutenção de Pritchard (5 g IM 4/4 h) e de Zuspan (1 g/h, uma ampola em 490 mL de SF a 100 mL/h); as três travas com os cortes (reflexo patelar presente, FR ≥ 16 irpm, diurese ≥ 25 mL/h); recorrência (2 g IV em bolus + manutenção a 2 g/h); antídoto (gluconato de cálcio 1 g IV = 10 mL a 10%, lentamente); duração (24 h após o parto ou a última convulsão).

em 30 dias

Refaça o caso de transferência decidindo em voz alta por que é Pritchard e não Zuspan, e reconstrua a escada da magnesemia com as quatro faixas e o sinal de cada uma (4-7 terapêutico; 8-10 reflexo abolido; ≥ 12 parada respiratória; ~25 parada cardíaca). Depois liste as cinco divergências do capítulo dizendo, para cada uma, qual pista do enunciado revela o corpo de referência que a questão está usando.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 36 semanas, 22 anos, trazida ao pronto-socorro obstétrico após convulsão tônico-clônica generalizada em casa. Sonolenta, PA 178/118 mmHg, SpO2 92% em ar ambiente, sem pré-natal recente. O serviço não tem bomba de infusão disponível no momento. Conduza os primeiros trinta minutos: posição, via aérea, oxigênio, acesso, escolha do esquema de sulfato com a dose e a diluição, controle pressórico e o que você vigia antes de cada dose de manutenção. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Eclâmpsia e sulfato de magnésio — Preparatório para provas | OsceLabs