Ginecologia e ObstetríciaSíndromes Hipertensivas da Gestação

Pré-eclâmpsia

A prova entrega uma gestante com pressão alta depois das 20 semanas e cobra três decisões em sequência: isso é pré-eclâmpsia, tem sinal de gravidade, e a gestação termina hoje ou espera. O erro clássico é exigir proteinúria para fechar o diagnóstico e usar o grau dela para decidir o parto.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Gestante de 22 anos, com 34 semanas, chega ao pronto-atendimento com cefaleia. Pressão arterial de 160x110 mmHg em duas aferições com intervalo de 4 horas e proteinúria de fita ++. Antes da gestação era normotensa. Qual é o diagnóstico mais provável? Assinale a alternativa correta.

02

Como esse tema cai

A pré-eclâmpsia contribui com cerca de um quarto de todos os óbitos maternos registrados no Brasil e é a principal causa de morte materna do país. Não é uma doença de pressão alta: é uma doença sistêmica de origem placentária que se manifesta pela pressão, e essa distinção é exatamente o que a prova cobra. Quem trata o número e ignora o resto perde o rim, o fígado, a plaqueta e o cérebro que já estavam avisando.

Este capítulo resolve quatro perguntas e só elas: o que fecha o diagnóstico, o que muda quando existe sinal de gravidade, quando a pressão precisa ser tratada, e — a parte que é deste capítulo e de mais nenhum — quando e por qual via a gestação termina. O parto é a única conduta que cura, e decidir a hora dele é a decisão central do tema.

O que fica de fora, de propósito, porque tem capítulo próprio nesta apostila: o esquema completo do sulfato de magnésio, com dose de ataque, manutenção, sinais de intoxicação e antídoto, está no capítulo de eclâmpsia — aqui só se diz quando indicar. As drogas anti-hipertensivas, com dose, via e o que é proscrito na gestação, estão no capítulo de anti-hipertensivos — aqui só se diz quando começar e até onde baixar. A síndrome HELLP aparece como complicação a reconhecer e como gatilho de parto, sem os critérios laboratoriais destrinchados. A hipertensão arterial crônica e a hipertensão gestacional têm capítulo próprio, e aqui entram apenas na fronteira do diagnóstico diferencial. A prevenção com ácido acetilsalicílico existe, funciona e tem capítulo próprio — o de Hipertensão crônica e hipertensão gestacional, que traz o esquema e também a situação do cálcio, que a RBEHG e a FEBRASGO deixaram de recomendar em março de 2026.

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O que muda decisão

O que é, e a partir de quando se chama assim

Pré-eclâmpsia é hipertensão arterial identificada a partir da 20ª semana de gestação, em gestante previamente normotensa, acompanhada de proteinúria significativa e/ou de disfunção de órgãos-alvo e/ou de sinais de comprometimento placentário. Os três caminhos são alternativos, não cumulativos: basta a hipertensão mais um deles.

A marca das 20 semanas é o que separa a pré-eclâmpsia da hipertensão arterial crônica. Pressão alta referida pela gestante antes de engravidar ou identificada antes da 20ª semana é hipertensão crônica — e a queda fisiológica da pressão no primeiro e no segundo trimestre mascara uma parte dessas mulheres, que só aparecem como hipertensas depois. Por isso a hipertensão que surge na segunda metade e não some até 12 semanas de puerpério é reclassificada como crônica, retroativamente.

Pré-eclâmpsia antes da 20ª semana é rara e não deve ser aceita sem investigação: o quadro obriga a pensar em doença trofoblástica gestacional (mola hidatiforme) e em síndrome dos anticorpos antifosfolípides. Não é uma variante precoce da doença — é outra coisa até prova em contrário.

Há um segundo momento em que a doença aparece pela primeira vez, e ele engana mais gente: o puerpério. A pré-eclâmpsia e suas complicações, inclusive a eclâmpsia, podem se manifestar de novo pela primeira vez depois do parto, o que é motivo suficiente para medir e controlar a pressão de toda puérpera. Uma mulher que teve pré-natal normal e nasce com pressão de 165/108 no quarto dia de puerpério tem pré-eclâmpsia até que se prove o contrário.

A magnitude ajuda a calibrar a atenção. A incidência mundial fica entre 1,2% e 4,2%, e um estudo nacional com mais de mil nulíparas em cinco maternidades encontrou 7,5%. Entre 10% e 15% das mortes maternas diretas no mundo se associam à pré-eclâmpsia e à eclâmpsia, e 99% dessas mortes ocorrem em países de renda baixa e média. No Brasil, a eclâmpsia incide em 5,2 casos por mil nascidos vivos, variando de 2,2 por mil nas áreas de maior renda a 8,3 por mil nas de menor renda — a mesma doença, resultados diferentes conforme o acesso.

A hipertensão que conta: o número e a técnica

Hipertensão na gravidez é pressão sistólica maior ou igual a 140 mmHg e/ou diastólica maior ou igual a 90 mmHg, confirmada em duas medidas com pelo menos quatro horas de intervalo. A exceção é a pressão de faixa grave: sistólica de 160 mmHg ou mais e/ou diastólica de 110 mmHg ou mais são confirmadas em 15 minutos, justamente para não atrasar o tratamento.

A técnica não é detalhe de prova prática — é parte do critério diagnóstico. A aferição é feita com a gestante sentada, pés apoiados no chão, costas apoiadas, braço na altura do coração, depois de repouso. O decúbito lateral esquerdo serve para repouso, não para medir: nessa posição as leituras são as mais baixas, e o valor real é o da posição sentada. Pernas cruzadas elevam a pressão em 2 a 8 mmHg, e conversar durante a medida também eleva.

A diastólica é o quinto ruído de Korotkoff, o desaparecimento da bulha. Quando as bulhas persistem até o fim da desinsuflação, usa-se o abafamento.

O manguito é a fonte de erro mais barata de corrigir. O padrão é o de 13 cm; em braço com circunferência acima de 30 cm e sem manguito adequado disponível, aplica-se a tabela de correção. A correção não é simbólica: com braço de 46 cm, subtraem-se 16 mmHg da sistólica e 11 mmHg da diastólica, e uma leitura de 140 por 90 vira 124 por 79 — hipertensão que não existe. No sentido inverso, braço fino subestimado transforma pré-eclâmpsia em pré-natal de rotina.

Proteinúria: três métodos, três cortes, e o que ela não serve para decidir

Proteinúria significativa tem três formas de ser medida, e qualquer uma delas basta. A primeira é a concentração de pelo menos 300 mg em urina de 24 horas — o método clássico, dependente de coleta bem feita e incômodo para a paciente. A segunda é a relação proteína/creatinina em amostra isolada, alterada quando é maior ou igual a 0,3 com ambas as dosagens em mg/dL: é a de melhor sensibilidade, mais barata e mais rápida, e virou o exame preferido na prática. A terceira é a fita reagente em amostra isolada, reservada para quando não há método quantitativo disponível.

A fita é onde os documentos divergem, e a divergência é registrada no bloco próprio: o Manual do Ministério da Saúde e o protocolo Febrasgo de 2018 consideram positiva a partir de uma cruz (cerca de 30 mg/dL), enquanto o protocolo da RBEHG de 2025 e o ACOG exigem pelo menos duas cruzes. O que os dois lados dizem igual é que a fita tem taxa alta de falso-negativo, porque detecta apenas albumina e não pega proteínas de cadeia leve — fita negativa não afasta proteinúria.

Confirmada a proteinúria, ela não se repete. Isso vale nos documentos brasileiros, no ACOG e na ISSHP, e a razão é a mesma nos três: a proteinúria representa o diagnóstico, não o prognóstico. Ela aumenta com o tempo em qualquer conduta expectante, e esse aumento não prevê desfecho perinatal.

A consequência prática é a mais cobrada do tema: não se antecipa o parto pelo grau de proteinúria. O ACOG retirou o critério de proteinúria maciça (acima de 5 g em 24 horas) da lista de gravidade em 2013, e a ISSHP recomenda de forma explícita que a decisão de parto não se baseie apenas no grau de proteinúria nem na hiperuricemia. O protocolo Febrasgo faz uma ressalva de bom senso: valores muito altos, a partir de 10 g em 24 horas, não devem ser ignorados — mas lidos junto da clínica materna e da vitalidade fetal, nunca como critério isolado. A única exceção em que se repete a proteinúria é o edema generalizado ou o edema pulmonar.

Sem proteinúria: a lista que fecha o diagnóstico assim mesmo

Esta é a mudança conceitual que mais aparece em prova. A proteinúria deixou de ser obrigatória: na ausência dela, hipertensão nova depois de 20 semanas fecha pré-eclâmpsia quando acompanhada de comprometimento sistêmico ou disfunção de órgão-alvo. A doença é heterogênea, e há mulheres que morrem de pré-eclâmpsia com urina limpa.

Pelo documento brasileiro, os critérios alternativos são estes, item por item. Hematológico: trombocitopenia, com plaquetas abaixo de 100.000/mm³ — o consumo de plaquetas é a alteração laboratorial mais precoce e mais confiável do espectro. Renal: insuficiência renal aguda, definida por creatinina sérica maior ou igual a 1,2 mg/dL, ou duplicação do valor basal; a oligúria, com diurese abaixo de 500 mL em 24 horas, entra junto, com a ressalva de que ela pode refletir extravasamento para o terceiro espaço (anasarca) e não perda de função. Hepático: transaminases (TGO/AST e TGP/ALT) acima de duas vezes o limite superior da normalidade, com ou sem dor em epigástrio ou hipocôndrio direito.

Neurológico: cefaleia recente, intensa e persistente, sem resposta a analgésico e não explicada por outro diagnóstico; sintomas visuais como escotomas cintilantes, fosfenas, fotofobia e visão borrada; hiper-reflexia; e, no extremo, a própria eclâmpsia. Vale insistir: o sintoma neurológico é critério diagnóstico por si, e não é preciso esperar a convulsão para chamar de pré-eclâmpsia. Pulmonar: edema agudo de pulmão, expressão do comprometimento endotelial pulmonar, com ou sem insuficiência cardíaca associada.

Útero-placentário: restrição de crescimento fetal, alterações dopplervelocimétricas, descolamento prematuro de placenta e óbito fetal. Este é o eixo que o documento brasileiro e a ISSHP aceitam como critério diagnóstico e que o ACOG não inclui na sua lista — a divergência está registrada no bloco próprio, com os anos.

Repare no que a lista faz com a vinheta de prova. Uma gestante de 31 semanas com pressão de 148/96, urina sem proteína, plaquetas de 92.000 e TGO de 96 tem pré-eclâmpsia, e não hipertensão gestacional. Uma gestante de 28 semanas com 150/98, proteinúria negativa e feto no percentil 3 com Doppler de artéria umbilical alterado tem pré-eclâmpsia pelo critério brasileiro e pela ISSHP.

Esquema da placenta com artérias espiraladas estreitadas, ligada por linhas finas a rim, fígado, plaquetas e cérebro, sobre um vaso de endotélio lesado.
A lesão começa na placenta e chega aos órgãos-alvo pelo endotélio. A pressão é o sinal mais visível da doença, não a doença — por isso o diagnóstico se fecha pelo rim, pelo fígado, pela plaqueta, pelo cérebro ou pelo próprio feto, e não só pela proteinúria.

As vizinhas: hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia sobreposta

Hipertensão gestacional é hipertensão que aparece na segunda metade da gestação, em gestante previamente normotensa, sem proteinúria e sem qualquer outro sinal ou sintoma relacionado à pré-eclâmpsia. É um diagnóstico provisório, por definição: descreve quem ainda não preenche os critérios de pré-eclâmpsia.

Provisório porque uma parte substancial converte. O Manual do Ministério da Saúde estima evolução para pré-eclâmpsia em 10% a 50% dos casos; o protocolo da RBEHG e o Febrasgo trabalham com até 25%, e a rede acrescenta que cerca de um quarto das mulheres com hipertensão gestacional antes de 34 semanas progride. Chamar de hipertensão gestacional, portanto, não é dar alta do problema: é marcar uma vigilância.

Há uma armadilha de nomenclatura que a prova explora. Hipertensão gestacional que atinge faixa grave — sistólica de 160 mmHg ou mais, ou diastólica de 110 mmHg ou mais — deve ser classificada, pelo ACOG, como pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, mesmo sem proteinúria e sem alteração laboratorial. A pressão de faixa grave, sozinha, já é sinal de gravidade.

Pré-eclâmpsia sobreposta à hipertensão arterial crônica é o diagnóstico mais difícil de todos, porque a paciente já era hipertensa e já podia ter proteinúria. Fecha-se em três situações: aparecimento de proteinúria depois das 20 semanas em quem não tinha, ou piora expressiva da que já existia (a RBEHG sugere o marco de aumento superior a três vezes o valor inicial); necessidade de associar anti-hipertensivos ou de aumentar as doses iniciais; e ocorrência de disfunção de órgão-alvo. O protocolo da rede acrescenta a disfunção útero-placentária. A ISSHP, no seu documento de 2021, diz o inverso em um ponto importante: a elevação da pressão, sozinha, não deveria ser usada para diagnosticar sobreposição. Hipertensão crônica é agravada por pré-eclâmpsia em 13% a 40% dos casos, o que faz dessas gestantes um grupo de vigilância permanente.

Precoce e tardia: por que 34 semanas separa duas doenças

A pré-eclâmpsia é subclassificada por idade gestacional de duas maneiras que convivem. Pela manifestação: precoce, antes de 34 semanas, e tardia, a partir de 34 semanas. Pelo momento do parto: pré-termo, antes de 37 semanas, e de termo, a partir de 37. O corte que carrega significado biológico é o de 34.

Na forma precoce, o substrato é a placentação defeituosa, com invasão trofoblástica insuficiente das artérias espiraladas e isquemia placentária. Por isso ela cursa com Doppler de artérias uterinas alterado, restrição de crescimento fetal frequente e piores desfechos maternos e perinatais. É a forma que produz as decisões difíceis de parto no pré-termo extremo.

Na forma tardia, o desenvolvimento placentário inicial é normal e o estresse oxidativo do trofoblasto se instala no fim da gravidez, seja por compressão das vilosidades numa placenta madura, seja por senescência placentária. Associa-se com frequência a síndrome metabólica, obesidade, inflamação e comprometimento endotelial crônicos, e o compartimento útero-placentário costuma estar normal ou pouco alterado.

A distinção importa por três razões concretas. Primeira: o desfecho é diferente, e a forma tardia tende a evoluir melhor por estar mais perto do termo — o que não autoriza vigilância menor, porque eclâmpsia e HELLP acontecem nos dois grupos. Segunda: as estratégias de rastreio combinado do primeiro trimestre são boas para prever a pré-eclâmpsia pré-termo e ruins para prever a de termo, de modo que rastreio negativo não dá alta a ninguém. Terceira: os biomarcadores angiogênicos usam cortes diferentes conforme a idade gestacional — a razão sFlt-1/PlGF acima de 85 chama atenção antes de 34 semanas, e acima de 110 depois disso, enquanto valores abaixo de 38 afastam o diagnóstico por cerca de uma semana. No Brasil, a forma precoce chega a 40% dos casos atendidos em centros terciários, o que não é a proporção da população geral e sim o retrato de quem chega ao serviço terciário.

Sinais de gravidade: a lista com os números

A classificação em pré-eclâmpsia leve e grave foi abandonada, e a substituição não é cosmética. Os documentos passaram a falar em pré-eclâmpsia sem ou com sinais de gravidade — a RBEHG usa a expressão sinais e sintomas de deterioração clínica e laboratorial, o ACOG usa severe features, e a ISSHP recomenda de forma expressa que o termo pré-eclâmpsia grave não seja usado na prática clínica. O motivo é duplo: o rótulo leve fabrica falsa segurança em quem pode piorar em horas, e o rótulo grave produz antecipação de parto por reflexo, às vezes iatrogênica.

São sinais de gravidade, pelo Manual do Ministério da Saúde e pelo protocolo Febrasgo: estado hipertensivo com sistólica maior ou igual a 160 mmHg e/ou diastólica maior ou igual a 110 mmHg, confirmada em intervalo de 15 minutos com técnica adequada (a associação com sintomas configura emergência hipertensiva); síndrome HELLP; sinais de iminência de eclâmpsia; eclâmpsia; edema agudo de pulmão; dor torácica, com ou sem alteração respiratória; e insuficiência renal, identificada pela elevação progressiva de creatinina — a partir de 1,2 mg/dL — e ureia, além da progressão para oligúria, com diurese abaixo de 500 mL em 24 horas.

Iminência de eclâmpsia merece detalhe porque é a pergunta clássica. São sintomas de comprometimento vascular do sistema nervoso — cefaleia, fotofobia, fosfenas, escotomas — somados à hiper-reflexia periférica; e sintomas de comprometimento hepático — náuseas, vômitos e dor no andar superior do abdome, em epigástrio ou hipocôndrio direito. A dor em hipocôndrio direito é a que mais se desvaloriza e a que mais frequentemente anuncia HELLP.

O protocolo Febrasgo acrescenta os cortes laboratoriais que fecham o quadro de deterioração: plaquetopenia abaixo de 100.000/mm³, transaminases acima de duas vezes o valor de normalidade, e os marcadores de hemólise da síndrome HELLP — esquizócitos e equinócitos no sangue periférico, DHL acima de 600 UI/L, bilirrubina indireta acima de 1,2 mg/dL. A RBEHG usa, na prática do seguimento, TGO acima de 70 UI/L como gatilho de repetição em 24 a 48 horas.

Dois sinais que a lista brasileira registra e que costumam ser subestimados na vinheta: dor torácica e dispneia. Ambos entram no modelo fullPIERS como preditores de desfecho materno adverso, junto da saturação de oxigênio — um dado que custa um oxímetro e muda a estimativa de risco. E a queixa de dor torácica em gestante hipertensa pode ser vasculopatia cardíaca ou pulmonar, não ansiedade.

Tratar a pressão: quando começar e até onde baixar

O anti-hipertensivo na pré-eclâmpsia não trata a doença e não prolonga a gestação. Ele protege a mãe de acidente vascular encefálico e de infarto — é essa a justificativa, e é por isso que o alvo não é a normalização.

Quando começar: o protocolo da RBEHG indica iniciar quando a maioria dos valores pressóricos ultrapassa 140 ou 90 mmHg, e o Manual do Ministério da Saúde usa formulação equivalente no capítulo de hipertensão crônica, com mais de 50% das medidas acima de 140 e/ou 90. A ISSHP é mais direta: toda hipertensão na gravidez deve ser tratada, qualquer que seja o distúrbio hipertensivo de base.

Até onde baixar: os documentos brasileiros trabalham com duas formulações que dão no mesmo lugar. O Manual manda manter a pressão entre 110 a 140 por 85 mmHg na pré-eclâmpsia e na hipertensão gestacional, e fixa a meta de diastólica em 85 mmHg nas pacientes medicadas. A RBEHG orienta manter abaixo de 140 por 90 na maioria das aferições. A ISSHP fixa a diastólica de 85 mmHg como alvo, independentemente da sistólica, e o NICE usa 135/85. As diferenças e o que as sustenta estão no bloco de divergências.

O piso importa tanto quanto o teto. Queda abrupta e excessiva expõe a mãe a acidente vascular encefálico, infarto e insuficiência renal aguda, e reduz a perfusão útero-placentária, com hipóxia fetal. Na crise hipertensiva, a meta é reduzir 15% a 25% na primeira hora, mirando sistólica até 140 mmHg e diastólica até 90 mmHg — não mais que isso, e não mais rápido que isso.

Crise hipertensiva é sistólica maior ou igual a 160 mmHg ou diastólica maior ou igual a 110 mmHg, e justifica intervenção medicamentosa imediata. Obtida a redução desejada, inicia-se ou otimiza-se o anti-hipertensivo de manutenção por via oral. Quais drogas, em que dose e por que via, e quais classes são proscritas na gestação — isso é do capítulo de anti-hipertensivos na gestação.

Sulfato de magnésio: só quando indicar

O sulfato de magnésio é o anticonvulsivante de escolha e a indicação dele é uma decisão deste capítulo; o esquema é do capítulo de eclâmpsia.

Indica-se profilaxia de eclâmpsia quando a gestante com pré-eclâmpsia confirmada ou suspeita apresenta pressão sistólica maior ou igual a 160 mmHg e/ou diastólica maior ou igual a 110 mmHg, mesmo assintomática; e nos quadros de iminência de eclâmpsia, eclâmpsia, síndrome HELLP, deterioração clínica ou laboratorial e hipertensão de difícil controle. A ISSHP formula de modo próximo: pré-eclâmpsia com proteinúria e hipertensão grave, ou hipertensão com sinais ou sintomas neurológicos.

Três detalhes operacionais que a prova cobra e que são deste capítulo. Sulfato de magnésio e hipotensor de ação rápida têm indicações paralelas e é administrado no local do evento, sem esperar transferência — transferir paciente instável é o erro. Usar ou reutilizar o sulfato não indica, por si, a realização do parto: são decisões separadas. E há uma segunda indicação, com outra finalidade, na neuroproteção fetal entre 23 e 32 semanas quando o parto pré-termo é previsto.

Dose de ataque, manutenção, esquemas de Zuspan e Pritchard, vigilância de reflexo patelar, frequência respiratória e diurese, sinais de intoxicação e gluconato de cálcio: tudo isso está no capítulo de eclâmpsia.

O parto é o tratamento: quando resolver a gestação

A única cura da pré-eclâmpsia é a resolução da gestação. Toda a discussão de conduta se resume a comparar dois riscos que crescem em direções opostas: o risco materno de continuar grávida e o risco neonatal de nascer cedo.

Sem sinais de gravidade, com a gestante bem controlada, a resolução ocorre com 37 semanas, e a indução pode ser proposta. O número é o mesmo no Manual do Ministério da Saúde, no protocolo da RBEHG, no ACOG (37 semanas e 0 dias), no NICE e na ISSHP, e o que o sustenta é o hypitat. Antes de 37 semanas e sem sinais de gravidade, a conduta é expectante com vigilância — e o parto não se antecipa por proteinúria nem por ácido úrico.

Com sinais de gravidade, a idade gestacional divide a decisão em quatro faixas. Antes da viabilidade — algo entre 23 e 26 semanas, conforme a infraestrutura do serviço — a conduta é individualizada e compartilhada com o casal: a expectante cursa com mortalidade perinatal acima de 80% e complicação materna em 27% a 71% dos casos. Da viabilidade até 34 semanas, o ônus da prematuridade é alto e tenta-se avançar, mas só com clínica estável, êxito no controle farmacológico da pressão, exames laboratoriais adequados e vitalidade fetal preservada; qualquer um desses pilares que caia encerra a expectante. Entre 34 e 37 semanas, o ACOG indica o parto quando o quadro com sinais de gravidade é diagnosticado a partir de 34 semanas e 0 dias, após estabilização materna; os documentos brasileiros admitem, quando houve melhora clínica e laboratorial, aproximar-se da 37ª semana, sempre em ambiente hospitalar capaz de promover o parto de imediato. A partir de 37 semanas não há discussão: resolve-se.

Existe uma lista que atropela toda essa aritmética. Independentemente da idade gestacional, indicam o término da gravidez: síndrome HELLP; eclâmpsia; edema agudo de pulmão ou descompensação cardíaca; alterações laboratoriais progressivas — plaquetopenia, elevação de transaminases, elevação de desidrogenase láctica; insuficiência renal progressiva, com elevação de ureia e creatinina, anasarca ou oligúria; descolamento prematuro de placenta; hipertensão refratária ao tratamento com três anti-hipertensivos; e alterações na vitalidade fetal. O ACOG acrescenta, na lista de condições que impedem a expectante, a cefaleia persistente refratária ao tratamento, a dor em epigástrio ou hipocôndrio direito que não responde a analgésico repetido, e distúrbio visual, déficit motor ou alteração do sensório.

A palavra progressiva faz trabalho pesado nessa lista. Um sinal de gravidade isolado que estabiliza depois de tratado — uma crise hipertensiva assintomática que cede, uma alteração laboratorial que se mantém sem piorar — não é a mesma coisa que uma sequência de exames piorando a cada 24 horas. É por isso que a vigilância seriada vale mais que qualquer valor absoluto, e é por isso que o fullPIERS se lê como tendência na mesma paciente, e não como ponto de corte.

Conduta expectante no pré-termo: o que se vigia e o que a interrompe

A conduta expectante com sinais de gravidade não é observar: é internar em serviço com terapia intensiva materna, unidade neonatal e banco de sangue, e vigiar de perto. Quando o serviço não tem isso, a decisão certa é transferir com a paciente estável, não esperar no lugar errado.

Vigilância materna clínica: pressão a cada quatro horas na vigília, sem acordar a gestante durante a madrugada se estiver controlada. Balanço hídrico com controle do débito urinário, e reavaliação da função renal diante de oligúria abaixo de 500 mL em 24 horas. Rastreio diário de sinais de gravidade — cefaleia, alterações visuais, dor epigástrica ou abdominal, redução da movimentação fetal e sangramento vaginal.

Vigilância materna laboratorial: hemograma com atenção a hematócrito, hemoglobina e plaquetas; desidrogenase láctica; bilirrubinas totais ou haptoglobina; creatinina; e transaminase oxalacética. A frequência é de uma a duas vezes por semana, conforme a evolução e o índice de fullPIERS. Alguns exames saem da rotina de propósito: a proteinúria não se repete; a ureia só se dosa diante de comprometimento renal nítido ou suspeita de síndrome hemolítico-urêmica; o ácido úrico se correlaciona com desfecho adverso mas não decide sozinho; e exames de coagulação só se pedem se houver plaquetopenia. Diante de TGO acima de 70 UI/L, plaquetas abaixo de 100.000/mm³ ou creatinina acima de 1,1 mg/dL, os exames são repetidos em 24 a 48 horas.

Vigilância fetal: combinação de avaliação biofísica, sobretudo a cardiotocografia, com avaliação hemodinâmica pela dopplervelocimetria, além do acompanhamento do crescimento por ultrassonografia. A ISSHP sugere ultrassom a cada duas semanas para crescimento, líquido amniótico e Doppler de artéria umbilical, e recomenda o Doppler de ducto venoso antes de 34 semanas quando há restrição de crescimento. Vitalidade alterada, para efeito de decisão, é diástole zero ou reversa na artéria umbilical, ducto venoso com índice de pulsatilidade acima do percentil 95 para a idade gestacional, ou cardiotocografia anormal.

O corticoide antenatal entra aqui, com janela estreita. A indicação é a mesma de qualquer risco de parto pré-termo: antes de 34 semanas, quando existe risco de nascimento nos próximos sete dias — a RBEHG é mais restritiva e liga o gatilho ao risco de indicar a resolução nas próximas 48 horas, porque o uso muito precoce perde benefício se o nascimento acontecer depois de sete dias da primeira dose. O fármaco de escolha é a betametasona, 12 mg por via intramuscular a cada 24 horas por 48 horas; a dexametasona, 6 mg por via intramuscular a cada 12 horas por 48 horas, é a alternativa quando não há betametasona. Duas ressalvas de prova: quando há indicação de parto imediato, o parto não se atrasa para completar o ciclo — deterioração materna ou fetal pode impedir a segunda dose, e tudo bem; e corticoide não é tratamento da síndrome HELLP, a ISSHP recomenda expressamente contra usá-lo para acelerar a resolução dela (no Brasil, a dexametasona é usada para resgatar contagem plaquetária antes de cesárea, melhorando as condições anestésicas, sem alterar mortalidade materna ou perinatal).

Sobre a via de parto, a regra é curta: a indicação é obstétrica, e a via vaginal é preferível — inclusive com sinais de gravidade, desde que a vitalidade fetal esteja preservada e a situação materna permita. Evita-se agregar risco cirúrgico a uma paciente que pode estar consumindo plaquetas. No termo e sem deterioração, com colo desfavorável, faz-se preparo de colo com sonda de Foley e/ou misoprostol, com cautela em feto com restrição de crescimento, Doppler alterado ou cicatriz uterina prévia. A cesárea se justifica diante de vitalidade fetal alterada, ou de colo desfavorável em paciente com deterioração clínica e laboratorial, quando não é seguro aguardar. A idade gestacional pesa: a probabilidade de cesárea antes de 28 semanas pode chegar a 97%, o que é consequência do quadro e não indicação em si.

Puerpério: o risco não sai com a placenta

O parto cura a pré-eclâmpsia, mas não imediatamente, e o intervalo entre uma coisa e outra é onde acontece boa parte das mortes maternas evitáveis.

A pressão piora antes de melhorar. Os documentos brasileiros descrevem piora dos níveis pressóricos do terceiro ao sexto dia após o parto, secundária à redistribuição do líquido extravascular; a ISSHP situa o pico entre os dias 3 e 7. O problema é de logística tanto quanto de fisiologia: os valores mais altos costumam ocorrer depois que a mulher deixou o ambiente monitorado, e a hipertensão pós-parto é uma das causas mais comuns de reinternação puerperal.

Eclâmpsia e HELLP podem aparecer no puerpério, e a maior parte do risco está na primeira semana. O sulfato de magnésio, quando estava em curso no parto, é mantido por 24 horas depois dele — ou 24 horas após a última convulsão, o que vier depois — e pode ser reintroduzido se necessário. Uma ressalva diagnóstica do ACOG: convulsão nova que surge depois de 48 a 72 horas do parto aumenta a chance de causas alternativas, e merece investigação de imagem.

Controle pressórico no puerpério: manter abaixo de 140 por 90 mmHg, reduzindo ou retirando a medicação quando a pressão cair abaixo de 110 e/ou 70 mmHg. O NICE detalha a frequência — pelo menos quatro vezes ao dia enquanto internada, e a cada um a dois dias por até duas semanas depois da transferência para o cuidado da comunidade — e manda dosar plaquetas, transaminases e creatinina 48 a 72 horas após o parto, sem repetir se estiverem normais. A ISSHP vai adiante e sugere considerar tratamento para qualquer hipertensão diagnosticada antes do sexto dia de puerpério, mantendo o alvo de diastólica de 85 mmHg.

Há uma lista de iatrogenias específicas do puerpério da hipertensa, e ela cai em prova. Anti-inflamatórios não esteroides elevam a pressão por retenção de sódio e perda de vasodilatação — o Manual brasileiro orienta evitá-los no controle da dor, enquanto o ACOG considera que os dados apoiam o uso seguro e prefere manter o anti-inflamatório à alternativa opioide, com monitorização reforçada; a ISSHP admite usá-los quando outros analgésicos falham e não há lesão renal aguda. Agentes ergotamínicos, usados para hemorragia pós-parto por atonia, elevam a pressão. Bromocriptina e cabergolina, usadas para inibir lactação, além de elevar a pressão, associam-se a hemorragia intracerebral e infarto agudo do miocárdio. Nada disso é proibição absoluta, mas nenhuma dessas prescrições passa despercebida numa puérpera com pré-eclâmpsia.

Nos casos com sinais de gravidade, o protocolo da RBEHG registra que a furosemida por via oral, 20 mg ao dia, iniciada no dia do nascimento e mantida por três a cinco dias, reduz a prevalência de hipertensão persistente e a necessidade de hipotensores. E a alta hospitalar precisa sair com relatório detalhado e orientação escrita sobre os sinais de alarme que exigem retorno imediato — cefaleia intensa, alterações visuais, dor epigástrica, falta de ar.

Depois: o que a pré-eclâmpsia deixa para a vida inteira

Durante décadas a pré-eclâmpsia foi ensinada como doença específica da gravidez, curada pelo parto. Desde os anos 1990 acumulam-se evidências do contrário: quem teve pré-eclâmpsia carrega risco cardiovascular aumentado pelo resto da vida.

O tamanho do risco: metanálises associam a pré-eclâmpsia a cerca do dobro do risco de doença cardiovascular — hipertensão, infarto, insuficiência cardíaca —, de acidente vascular cerebral, de doença arterial periférica e de mortalidade cardiovascular. Há gradiente com a gravidade, e o risco é ainda maior, de quatro a oito vezes, em mulheres com pré-eclâmpsia recorrente ou com pré-eclâmpsia precoce que exigiu parto pré-termo. O Manual brasileiro acrescenta a esse rol os eventos renais e os fenômenos tromboembólicos, e orienta que o aconselhamento sobre isso faça parte da alta hospitalar dos casos que cursaram com sinais de gravidade.

O que fazer com essa informação, em datas. O protocolo da RBEHG recomenda uma avaliação precoce entre 7 e 10 dias de pós-parto, e não apenas a consulta habitual de 6 a 8 semanas; nessa consulta de retorno, reavaliam-se a pressão e a medicação, repetem-se os exames que estavam alterados — transaminases, ácido úrico, plaquetas, microalbuminúria, proteinúria, creatinina —, procuram-se fatores de risco cardiovascular modificáveis, e acolhem-se as questões de saúde mental, incluindo estresse pós-traumático, que são frequentes depois de uma internação dessas. Persistência de proteinúria ou albuminúria, sedimento urinário ativo, queda de filtração glomerular ou pressão de difícil controle motivam encaminhamento ao nefrologista.

A ISSHP estende o calendário: revisão aos 3 meses para confirmar que pressão, urina e alterações laboratoriais normalizaram, com encaminhamento se persistirem; revisão aos 6 meses, quando pressão de 120/80 mmHg ou mais já motiva conversa sobre estilo de vida; revisão médica anual nos primeiros 5 a 10 anos de puerpério; e cálculo de escore de risco cardiovascular de vida inteira, e não de 10 anos, porque o escore de 10 anos subestima o risco de mulheres jovens.

Duas informações práticas para o aconselhamento. Sobre contracepção: recomenda-se método eficaz e seguro para hipertensas, evitando estrogênio nas mulheres que permanecem hipertensas após o parto. Sobre gestações futuras: a ISSHP orienta informar risco de pelo menos 4% de hipertensão gestacional e de pelo menos 15% de pré-eclâmpsia numa próxima gravidez — número que justifica a prevenção com ácido acetilsalicílico na gestação seguinte, cujo esquema — e a situação do cálcio, que a RBEHG e a FEBRASGO deixaram de recomendar em março de 2026 — está no capítulo de Hipertensão crônica e hipertensão gestacional.

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Da suspeita ao parto

O caminho inteiro está no fluxo. Os cards destrincham a única escala genuinamente ordinal do tema — a gradação de hipertensão gestacional até eclâmpsia e HELLP, em que cada degrau muda a conduta. A primeira tabela reúne os critérios que fecham o diagnóstico, com os cortes de cada método; a segunda traz os sinais de gravidade com os números que os definem; a terceira responde à pergunta que a vinheta sempre faz no fim, que é quando a gestação termina.

  1. 1Confirme a hipertensão com técnica correta: gestante sentada, pés no chão, braço na altura do coração, quinto ruído de Korotkoff, manguito adequado ou tabela de correção. Duas medidas com pelo menos quatro horas de intervalo para 140 por 90 mmHg; intervalo de 15 minutos quando a pressão já está em 160 por 110 mmHg.
  2. 2Situe no tempo. Antes de 20 semanas é hipertensão crônica — e pré-eclâmpsia antes de 20 semanas obriga a investigar doença trofoblástica gestacional e síndrome dos anticorpos antifosfolípides. A partir de 20 semanas, siga adiante.
  3. 3Procure a segunda coisa. Proteinúria por qualquer um dos três métodos, ou disfunção de órgão-alvo (plaquetas, creatinina, transaminases, edema pulmonar, sintoma neurológico ou visual), ou comprometimento placentário (restrição de crescimento, Doppler alterado). Nenhuma delas: hipertensão gestacional, que é diagnóstico provisório e exige vigilância. Qualquer uma delas: pré-eclâmpsia.
  4. 4Interne para a avaliação inicial, mesmo sem sinais de gravidade, e classifique: com ou sem sinais de gravidade. Exames mínimos: hemograma com plaquetas, desidrogenase láctica, bilirrubinas totais, creatinina e transaminase oxalacética. Vitalidade fetal e crescimento por cardiotocografia e dopplervelocimetria.
  5. 5Trate a pressão quando a maioria das medidas ultrapassar 140 ou 90 mmHg, mirando manter abaixo de 140 por 90 (o Manual brasileiro escreve a faixa de 110 a 140 por 85 mmHg). Na crise hipertensiva, reduza 15% a 25% na primeira hora — nunca de forma abrupta.
  6. 6Indique sulfato de magnésio diante de eclâmpsia, iminência de eclâmpsia, HELLP ou pré-eclâmpsia com alto risco convulsivo conforme o protocolo. Se houver pressão persistente em faixa grave, inicie simultaneamente o anti-hipertensivo de ação rápida: uma intervenção não deve atrasar a outra, e nenhuma delas isoladamente determina a via de parto.
  7. 7Decida o parto pela idade gestacional e pela presença de sinais de gravidade (terceira tabela). Antes disso, verifique a lista que atropela tudo: HELLP, eclâmpsia, edema agudo de pulmão, descolamento prematuro de placenta, hipertensão refratária a três drogas, alterações laboratoriais progressivas, insuficiência renal progressiva e alteração da vitalidade fetal indicam o parto agora, em qualquer idade gestacional.
  8. 8Se a expectante for possível antes de 34 semanas, faça corticoide quando o nascimento for provável em até sete dias, mantenha a paciente internada em serviço com terapia intensiva e unidade neonatal, e repita os exames de uma a duas vezes por semana, ou em 24 a 48 horas diante de alteração.
  9. 9Escolha a via pela indicação obstétrica: vaginal sempre que a vitalidade fetal e a condição materna permitirem, inclusive com sinais de gravidade; cesárea diante de vitalidade alterada ou de colo desfavorável em paciente que se deteriora.
  10. 10Vigie o puerpério como parte do tratamento: pico pressórico entre o terceiro e o sétimo dia, sulfato mantido por 24 horas, alvo abaixo de 140 por 90, retorno em 7 a 10 dias e seguimento cardiovascular de longo prazo.

Hipertensão gestacional

Hipertensão nova a partir de 20 semanas, sem proteinúria e sem qualquer outro sinal ou sintoma de pré-eclâmpsia. Diagnóstico provisório: de 10% a 50% evoluem para pré-eclâmpsia, e cerca de um quarto das que abrem o quadro antes de 34 semanas progridem. Conduta: controle pressórico, vigilância materno-fetal e busca ativa dos critérios que a reclassificariam. Se a pressão não normalizar até 12 semanas de puerpério, o diagnóstico vira hipertensão arterial crônica que estava mascarada.

Pré-eclâmpsia sem sinais de gravidade

Hipertensão a partir de 20 semanas mais proteinúria significativa e/ou disfunção de órgão-alvo e/ou comprometimento placentário, sem nenhum sinal de gravidade. Interna-se para a avaliação inicial; o seguimento ambulatorial depois disso exige gestante orientada, moradia perto do hospital, acompanhante disponível, aferição diária de pressão e consulta semanal. Vigilância laboratorial e fetal seriada, e resolução da gestação com 37 semanas.

Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade

Pressão de 160 por 110 mmHg confirmada em 15 minutos, ou iminência de eclâmpsia, ou edema agudo de pulmão, ou dor torácica, ou insuficiência renal com creatinina a partir de 1,2 mg/dL e oligúria abaixo de 500 mL em 24 horas, ou plaquetas abaixo de 100.000/mm³, ou transaminases acima de duas vezes o normal. Internação obrigatória, sulfato de magnésio, controle pressórico e decisão de parto por idade gestacional: a partir de 34 semanas a resolução é a regra; antes disso, expectante só com clínica estável, pressão controlada, exames adequados e vitalidade preservada.

Eclâmpsia e síndrome HELLP

O extremo do espectro e a fronteira deste capítulo. Eclâmpsia é convulsão tônico-clônica generalizada ou coma em gestante ou puérpera com distúrbio hipertensivo, sem outra causa; ocorre em 2% a 3% das pré-eclâmpsias com sinais de gravidade sem profilaxia, e em 0,6% das classificadas inicialmente sem sinais de gravidade. A HELLP é o comprometimento hepato-hematológico da doença e aparece em 10% a 20% dos quadros graves. As duas indicam o parto em qualquer idade gestacional, depois de estabilizada a mãe. O manejo detalhado de cada uma está nos capítulos próprios.

EixoO que fecha o diagnósticoO corte
Pressão arterial — obrigatóriaHipertensão nova a partir da 20ª semana em gestante previamente normotensaSistólica ≥140 e/ou diastólica ≥90 mmHg, em duas medidas com pelo menos 4 horas de intervalo (15 minutos quando já está em faixa grave)
Proteinúria — urina de 24 horasMétodo clássico; depende de coleta sem perdas≥300 mg em 24 horas
Proteinúria — amostra isoladaMelhor sensibilidade, menor custo, é o método preferido na práticaRelação proteína/creatinina ≥0,3, ambas em mg/dL
Proteinúria — fita reagenteSó na indisponibilidade dos métodos quantitativos; detecta apenas albumina, então negativa não afastaPelo menos 1 cruz (≈30 mg/dL) no Manual do Ministério da Saúde e no protocolo Febrasgo de 2018; pelo menos 2 cruzes no protocolo da RBEHG de 2025 e no ACOG
Sem proteinúria — hematológicoConsumo de plaquetas; é a alteração laboratorial mais precoce do espectroPlaquetas <100.000/mm³
Sem proteinúria — renalPerda de função renal novaCreatinina ≥1,2 mg/dL ou duplicação do valor basal; oligúria <500 mL/24 h
Sem proteinúria — hepáticoVasoespasmo hepático e necrose periportalTGO/AST ou TGP/ALT acima de duas vezes o limite superior da normalidade, com ou sem dor em epigástrio ou hipocôndrio direito
Sem proteinúria — neurológicoO sintoma vale como critério; não se espera a convulsãoCefaleia recente e persistente sem resposta a analgésico, escotomas, fosfenas, fotofobia, visão borrada, hiper-reflexia, eclâmpsia
Sem proteinúria — pulmonarComprometimento endotelial pulmonarEdema agudo de pulmão
Sem proteinúria — útero-placentárioAceito como critério no documento brasileiro e pela ISSHP; ausente da lista do ACOGRestrição de crescimento fetal, alterações dopplervelocimétricas, descolamento prematuro de placenta, óbito fetal

Sinais de gravidade: o número que define cada um e o que ele muda

SinalO númeroO que muda na conduta
Crise hipertensivaSistólica ≥160 e/ou diastólica ≥110 mmHg, confirmada em intervalo de 15 minutosHipotensor de ação rápida imediato, com redução de 15% a 25% na primeira hora, e sulfato de magnésio mesmo se assintomática. Com sintomas, é emergência hipertensiva
Iminência de eclâmpsiaCefaleia, fotofobia, fosfenas, escotomas, hiper-reflexia, náuseas, vômitos, dor em epigástrio ou hipocôndrio direitoSulfato de magnésio, internação e reavaliação da indicação de parto
EclâmpsiaConvulsão tônico-clônica generalizada ou coma, sem outra causaParto em qualquer idade gestacional após estabilização materna; não há espera mínima fixa de 4 a 6 horas
Síndrome HELLPHemólise (DHL >600 UI/L, bilirrubina indireta >1,2 mg/dL, esquizócitos), transaminases elevadas e plaquetas <100.000/mm³Parto em qualquer idade gestacional, salvo condição excepcional
PlaquetopeniaPlaquetas <100.000/mm³Repetir em 24 a 48 horas; queda progressiva indica o parto
Comprometimento hepáticoTransaminases acima de duas vezes o normal; a RBEHG usa TGO >70 UI/L como gatilhoRepetir em 24 a 48 horas; elevação progressiva indica o parto
Insuficiência renalCreatinina ≥1,2 mg/dL em elevação progressiva; diurese <500 mL/24 hReavaliar função renal, ajustar a dose de sulfato de magnésio; progressão indica o parto
Edema agudo de pulmãoDiagnóstico clínicoParto em qualquer idade gestacional; furosemida é o diurético eleito
Dor torácica ou dispneiaQueixa clínica, com ou sem alteração respiratóriaNão desvalorizar: pode ser vasculopatia cardíaca ou pulmonar e entra no modelo fullPIERS junto da saturação de oxigênio
Hipertensão refratáriaSem controle com três anti-hipertensivosParto em qualquer idade gestacional

Momento do parto por idade gestacional

Idade gestacionalSem sinais de gravidadeCom sinais de gravidade
Abaixo do limite de viabilidade (23 a 26 semanas, conforme a infraestrutura do serviço)Situação praticamente inexistente nessa faixa; pré-eclâmpsia antes de 20 semanas obriga a investigar doença trofoblástica e síndrome dos anticorpos antifosfolípidesDecisão individualizada e compartilhada com o casal: a conduta expectante cursa com mortalidade perinatal acima de 80% e complicação materna em 27% a 71%. Mesmo interrompendo, o cuidado materno continua
Da viabilidade até 34 semanasConduta expectante com vigilância; o parto não se antecipa por proteinúria nem por ácido úricoTentar avançar até 34 semanas, mas só com clínica estável, pressão controlada com medicação, exames adequados e vitalidade fetal preservada. Internada, em serviço com terapia intensiva e unidade neonatal. Corticoide quando o nascimento for provável em até 7 dias
Entre 34 e 37 semanasConduta expectante até 37 semanasO ACOG indica o parto a partir de 34 semanas e 0 dias, após estabilização materna. Os documentos brasileiros admitem, com melhora clínica e laboratorial, aproximar-se de 37 semanas — sempre internada, em serviço capaz de promover o parto de imediato. Deterioração encerra a espera
A partir de 37 semanasResolver a gestação; a indução pode ser propostaResolver a gestação após estabilização materna
Qualquer idade gestacionalHELLP, eclâmpsia, edema agudo de pulmão ou descompensação cardíaca, descolamento prematuro de placenta, hipertensão refratária a três drogas, alterações laboratoriais progressivas, insuficiência renal progressiva e alteração da vitalidade fetal indicam o parto agora

A palavra que governa a decisão de parto no pré-termo é progressiva. Um sinal de gravidade isolado que estabiliza depois de tratado não equivale a uma sequência de exames piorando a cada 24 horas — e é por isso que o fullPIERS se lê como tendência na mesma paciente, sem ponto de corte fixo. Duas validações brasileiras encontraram desempenho melhor em 2,15% e em 1,7%, o que confirma que o número absoluto varia por serviço.

Confirmada a proteinúria, ela não se repete e não decide parto. Quem repete proteinúria para acompanhar gravidade está medindo o que não muda a conduta e deixando de medir o que muda: plaquetas, transaminases e creatinina.

Corticoide não atrasa parto indicado. Quando há indicação de resolução imediata, o ciclo pode ficar incompleto — e isso é aceitável. Corticoide também não é tratamento de síndrome HELLP; a dexametasona usada no Brasil antes de cesárea serve para melhorar a contagem plaquetária e as condições anestésicas, sem alterar mortalidade materna ou perinatal.

Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade não é indicação de cesárea. A via é obstétrica, e o parto vaginal é preferível também aqui, com indução quando a vitalidade fetal está preservada e a mãe permite — a alta taxa de cesárea antes de 28 semanas é consequência da situação, não regra.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A proteinúria em fita: uma cruz ou duas cruzes

Manual de Gestação de Alto Risco (2022) e Protocolo Febrasgo n. 8 (2018): pelo menos uma cruz

Os dois documentos brasileiros mais antigos da linhagem escrevem que, na impossibilidade da urina de 24 horas e da relação proteína/creatinina, a avaliação qualitativa em fita é considerada positiva com a presença de pelo menos uma cruz, identificação compatível com cerca de 30 mg/dL. A lógica é de sensibilidade num sistema em que o método quantitativo pode simplesmente não estar disponível na unidade: numa doença cuja principal causa de morte é o diagnóstico tardio, um limiar mais baixo erra para o lado de investigar. Os dois cortes de referência quantitativos são idênticos aos internacionais — 300 mg em 24 horas e relação de 0,3 — e a divergência existe apenas no método de triagem.

Brasil, Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, item 11.3; e PERAÇOLI, J. C. et al., Pré-eclâmpsia/eclâmpsia, Protocolo Febrasgo – Obstetrícia n. 8, 2018

Protocolo da RBEHG (2025) e ACOG Practice Bulletin n. 222 (2020): pelo menos duas cruzes

O protocolo brasileiro mais recente e o americano adotam o limiar de duas cruzes, e o americano explicita o dado que sustenta a escolha: comparada com o padrão de 300 mg em urina de 24 horas, a leitura de uma cruz é falso-positiva em 71% dos casos, enquanto o uso de duas cruzes como valor discriminante melhora a acurácia global. Ambos mantêm a fita como recurso de exceção, para quando não há método quantitativo, e ambos alertam que a taxa de falso-negativo permanece alta em qualquer limiar, porque a fita detecta apenas albumina e não capta proteínas de cadeia leve.

Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez, Protocolo Pré-eclâmpsia, 2025; e ACOG Practice Bulletin n. 222, Obstetrics & Gynecology, 2020

Na prova

O recorte se identifica por três pistas. Primeira, a menção nominal: enunciado que cita o Manual de Gestação de Alto Risco ou o protocolo Febrasgo de 2018 está no mundo da uma cruz; enunciado que cita o ACOG ou o protocolo da rede brasileira de 2025 está no mundo das duas cruzes. Segunda, o cenário: unidade básica, pré-natal de rotina e ausência de laboratório empurram para o corte mais sensível, porque é o corte pensado para triagem sem exame quantitativo. Terceira, e a mais útil, as próprias alternativas: se uma opção oferece a relação proteína/creatinina ou a urina de 24 horas, a questão em geral não está cobrando o corte da fita e sim se o candidato sabe qual método pedir — e aí a fita é a última escolha nos dois mundos. Vale lembrar que, com fita de uma cruz e clínica sugestiva, nenhum dos dois lados manda mandar a gestante para casa: manda quantificar.

Os cortes de disfunção de órgão-alvo e a restrição de crescimento fetal como critério diagnóstico

ACOG Practice Bulletin n. 222 (2020): lista só materna, com plaquetas abaixo de 100.000 e creatinina acima de 1,1 mg/dL

Na ausência de proteinúria, o americano fecha o diagnóstico com plaquetas abaixo de 100.000 por microlitro, creatinina sérica acima de 1,1 mg/dL ou duplicação do valor na ausência de outra doença renal, transaminases elevadas a mais de duas vezes o valor normal, edema pulmonar, e cefaleia de início recente sem resposta a medicação e não explicada por outro diagnóstico, ou sintomas visuais. A lista é inteiramente materna: restrição de crescimento fetal e alterações de Doppler não entram como critério diagnóstico de pré-eclâmpsia, e o documento registra que a restrição de crescimento também deixou de ser, isoladamente, indicação de parto quando os demais parâmetros fetais estão normais.

ACOG Practice Bulletin n. 222, Quadros 2 e 3, Obstetrics & Gynecology, v. 135, n. 6, 2020

ISSHP (2021): cortes mais baixos e a disfunção útero-placentária como critério

A sociedade internacional usa limiares mais sensíveis — plaquetas abaixo de 150.000 por microlitro, coagulação intravascular disseminada ou hemólise; lesão renal aguda com creatinina de pelo menos 90 µmol/L, o equivalente a cerca de 1,0 mg/dL; e envolvimento hepático com ALT ou AST acima de 40 UI/L — e inclui um quarto eixo que os demais eixos maternos não cobrem: disfunção útero-placentária, definida por descolamento prematuro de placenta, desequilíbrio angiogênico, restrição de crescimento fetal, Doppler de artéria umbilical anormal ou óbito fetal intrauterino. O documento também determina que o termo pré-eclâmpsia grave não seja usado na prática clínica, porque toda paciente com a doença está sob risco de desenvolver formas graves.

MAGEE, L. A. et al., The 2021 ISSHP classification, diagnosis & management recommendations for international practice, Tabela 1, Pregnancy Hypertension, v. 27, 2022

Documento brasileiro (Manual do Ministério da Saúde, 2022; Febrasgo, 2018; RBEHG, 2025): plaquetas abaixo de 100.000, creatinina de 1,2 mg/dL, e o comprometimento placentário conta

A régua nacional fica entre as duas. Adota os limiares hematológico e hepático próximos do americano — plaquetas abaixo de 100.000/mm³ e transaminases acima de duas vezes o normal — mas trabalha com creatinina de pelo menos 1,2 mg/dL para insuficiência renal aguda, valor um pouco mais alto que o do ACOG e bastante mais alto que o da ISSHP, e acrescenta a oligúria abaixo de 500 mL em 24 horas. Acompanha a ISSHP no ponto que mais muda o diagnóstico na prática: sinais de comprometimento placentário — restrição de crescimento fetal e alterações dopplervelocimétricas — fecham pré-eclâmpsia mesmo sem proteinúria. No seguimento, o protocolo de 2025 usa creatinina acima de 1,1 mg/dL como gatilho para repetir o exame em 24 a 48 horas.

Brasil, Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, item 11.3; Protocolo Febrasgo – Obstetrícia n. 8, 2018; Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez, Protocolo Pré-eclâmpsia, 2025

Na prova

O que denuncia o recorte é o vocabulário e o desenho da vinheta. Enunciado que usa a expressão severe features, ou que separa a doença em com e sem características graves, está no corpo americano — e nele um feto com restrição de crescimento e mãe hipertensa sem outro achado não fecha pré-eclâmpsia. Enunciado que usa iminência de eclâmpsia, sinais de gravidade, deterioração clínica e laboratorial, ou que cita o Manual do Ministério da Saúde, está na régua brasileira, e aí o Doppler alterado entra na conta. Um distrator que oferece plaquetas de 130.000 como suficiente para fechar o diagnóstico só faz sentido no mundo da ISSHP, e a presença dele no rol de alternativas costuma ser o sinal de que a questão está construída sobre o documento internacional. Cuidado com o valor de creatinina: 1,15 mg/dL cruza o limiar americano e não cruza o brasileiro, e uma questão que escolhe esse número está cobrando exatamente a diferença.

Momento do parto na pré-eclâmpsia sem sinais de gravidade — e o que fazer com a hipertensão gestacional

Parto a partir de 37 semanas na pré-eclâmpsia, com base no HYPITAT (2009) — posição comum ao Manual do Ministério da Saúde (2022), à RBEHG (2025), ao ACOG (2020), ao NICE (NG133) e à ISSHP (2021)

No ensaio HYPITAT, mulheres com hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia sem sinais de gravidade após 36 semanas foram alocadas para conduta expectante ou indução do parto; a indução associou-se a redução significativa de um desfecho materno adverso composto, que incluía pré-eclâmpsia com sinais de gravidade de início novo, HELLP, eclâmpsia, edema pulmonar e descolamento de placenta (risco relativo de 0,71; intervalo de confiança de 95% entre 0,59 e 0,86), sem diferença nas taxas de complicação neonatal nem de cesárea. Antes de 37 semanas, a expectante se justifica porque os riscos de progressão são pequenos e ficam contrabalançados pelo excesso de internação em unidade neonatal, complicação respiratória e morte neonatal que o parto mais precoce produziria.

KOOPMANS, C. M. et al., HYPITAT, The Lancet, v. 374, 2009, conforme descrito no ACOG Practice Bulletin n. 222 (2020) e no documento da ISSHP (2021); Manual de gestação de alto risco, 2022, item 11.4; RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia, 2025; NICE NG133

Hipertensão gestacional pode esperar além de 37 semanas — Manual do Ministério da Saúde (2022) e ISSHP (2021)

A divergência viva não é sobre a pré-eclâmpsia e sim sobre a vizinha. O Manual brasileiro orienta postergar a resolução da hipertensão gestacional até 39 semanas e 6 dias, desde que a pressão esteja controlada, o bem-estar fetal preservado e não haja evolução para pré-eclâmpsia. A ISSHP registra o motivo do desconforto com o número de 37: no HYPITAT, os dois terços de participantes que tinham hipertensão gestacional no termo não experimentaram redução significativa de desfecho materno desfavorável (odds ratio de 0,81; intervalo entre 0,63 e 1,03), o que põe em dúvida se esse subgrupo se beneficia do parto programado; com base em dados observacionais, a sociedade sugere 38 a 39 semanas e 6 dias para hipertensão gestacional pré-termo e para hipertensão crônica, e há ensaio em andamento. O protocolo da RBEHG de 2025 reconhece a falta de consenso e resolve oferecendo o parto a partir de 37 semanas depois de explicar riscos e benefícios à gestante.

Brasil, Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, item 11.3; MAGEE, L. A. et al., ISSHP 2021, seção de momento do parto, Pregnancy Hypertension, v. 27, 2022; RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia, 2025

Na prova

A pista mais confiável é o diagnóstico escrito na vinheta. Se o enunciado diz pré-eclâmpsia — com proteinúria, com disfunção de órgão-alvo ou com comprometimento placentário — os cinco documentos convergem no termo, e o número 37 é o que todos escrevem. Se o enunciado diz hipertensão gestacional, sem proteinúria e sem qualquer outro achado, a controvérsia é real e o recorte se identifica pelo cenário: prova oficial de âmbito nacional e conduta de sistema público tendem à régua do Manual brasileiro, que autoriza chegar a 39 semanas e 6 dias com pressão controlada; enunciado que cita sociedade internacional ou que se apoia em decisão compartilhada tende à faixa de 38 a 39 semanas e 6 dias. Um detalhe que costuma decidir a questão: uma gestante com hipertensão gestacional que desenvolve proteinúria ou qualquer sinal de disfunção deixa de ser hipertensão gestacional naquele momento, e o relógio dela passa a ser o de 37 semanas.

Conduta expectante entre a viabilidade e 34 semanas na pré-eclâmpsia com sinais de gravidade

Expectante admitida com critérios estritos — ACOG (2020), ISSHP (2021), Manual do Ministério da Saúde (2022) e RBEHG (2025)

Os quatro documentos aceitam prolongar a gestação antes de 34 semanas quando as condições materna e fetal estão estáveis. O ACOG apoia a posição em dois ensaios randomizados e numa revisão sistemática Cochrane que mostraram idade gestacional maior ao nascimento e melhores desfechos neonatais com a expectante, além de evidência observacional de prolongamento de uma a duas semanas com baixo risco materno. A ISSHP registra que, da viabilidade até 33 semanas e 6 dias, a evidência limitada favorece a expectante quando não há indicação clara de parto: numa revisão sistemática de seis ensaios com 748 mulheres, a conduta intervencionista antecipou o nascimento em cerca de dez dias, com desfechos maternos semelhantes e mais morbidade neonatal — hemorragia intraventricular, doença da membrana hialina e necessidade de ventilação. O documento brasileiro chega ao mesmo destino exigindo quatro premissas simultâneas: clínica estável, êxito no controle farmacológico da hipertensão, exames laboratoriais adequados e vitalidade fetal preservada. O prolongamento médio observado é de 15,4 dias, variando de 4 a 36 — o que significa muito numa gestação de 26 semanas e pouco numa de 35.

ACOG Practice Bulletin n. 222, 2020; MAGEE, L. A. et al., ISSHP 2021, Pregnancy Hypertension, v. 27, 2022; Brasil, Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, item 11.5.2; RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia, 2025

O benefício neonatal depende do recurso disponível — ensaio multicêntrico latino-americano citado pelo ACOG (2020)

Um ensaio randomizado multicêntrico realizado na América Latina não encontrou benefício neonatal na conduta expectante da pré-eclâmpsia com sinais de gravidade entre 28 e 34 semanas, resultado oposto ao dos ensaios que sustentam a recomendação geral. O próprio ACOG atribui a diferença às limitações de terapia intensiva neonatal em ambientes de menor recurso — ou seja, o que muda o resultado não é a fisiologia da doença, é a capacidade da unidade neonatal de transformar dias extras de gestação em sobrevida. A consequência prática está escrita nos documentos: a expectante é oferecida por interesse fetal ao preço de risco materno, e não se justifica quando a sobrevida neonatal não é esperada; ela exige serviço com terapia intensiva materna, unidade neonatal e banco de sangue, e a paciente estável deve ser transferida quando o serviço não tem essa estrutura.

Ensaio multicêntrico latino-americano de 28 a 34 semanas, conforme descrito e discutido no ACOG Practice Bulletin n. 222, 2020; RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia, 2025 (condições de estrutura e transferência)

Na prova

O cenário da vinheta é o que resolve. Descrição de centro terciário, unidade de terapia intensiva neonatal disponível, equipe multiprofissional e paciente internada aponta para a expectante com vigilância intensiva. Descrição de maternidade sem unidade neonatal, sem banco de sangue ou de gestante que chegou pela primeira vez ao serviço aponta para estabilizar, sulfatar e transferir — nunca observar no lugar sem estrutura. Preste atenção também na idade gestacional exata: abaixo do limite de viabilidade a discussão muda de natureza e passa a ser individualizada com o casal, porque a expectante nessa faixa cursa com mortalidade perinatal acima de 80% e complicação materna em 27% a 71%. E, em qualquer faixa, um distrator que ofereça manter a expectante diante de plaquetopenia que cai, transaminases que sobem ou diástole reversa está fora dos dois mundos: essa lista interrompe a espera em todos os documentos.

O alvo pressórico no tratamento de manutenção

Diastólica de 85 mmHg, independentemente da sistólica — ISSHP (2021), Manual do Ministério da Saúde (2022) e Febrasgo (2018), com base no CHIPS (2015)

A ISSHP fixa como alvo a pressão diastólica de 85 mmHg, qualquer que seja o valor da sistólica, e classifica a recomendação como forte. O Manual brasileiro chega ao mesmo número por dois caminhos: no capítulo de hipertensão crônica escreve que a meta das pacientes medicadas é manter a diastólica em 85 mmHg, e no capítulo de síndromes hipertensivas orienta manter a pressão entre 110 a 140 por 85 mmHg na hipertensão gestacional e na pré-eclâmpsia. O protocolo Febrasgo de 2018 registra a mesma meta. O ensaio que sustenta o número é o CHIPS, de 2015, que comparou controle menos rígido (diastólica alvo de 100 mmHg) com controle rígido (diastólica alvo de 85 mmHg): não houve diferença em perda gestacional, necessidade de cuidado neonatal de alto nível ou complicações maternas globais, mas o braço menos rígido teve frequência significativamente maior de hipertensão grave — e hipertensão grave é o que produz acidente vascular encefálico.

MAGEE, L. A. et al., ISSHP 2021, recomendação 24, Pregnancy Hypertension, v. 27, 2022; Brasil, Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, itens 11.3 e 43.7; Protocolo Febrasgo n. 8, 2018; ensaio CHIPS, New England Journal of Medicine, 2015

Alvo escrito como valor de par — 135/85 mmHg no NICE (NG133) e abaixo de 140 por 90 mmHg na RBEHG (2025), com base no CHAP (2022)

O NICE escreve o alvo como par de valores, 135 por 85 mmHg, tanto na hipertensão gestacional quanto na pré-eclâmpsia. O protocolo brasileiro de 2025 orienta iniciar a medicação quando a maioria dos valores ultrapassar 140 ou 90 mmHg e ajustar as doses visando manter a pressão abaixo de 140 por 90 na maioria das aferições, e cita explicitamente o CHAP, de 2022, ao lado do CHIPS. No CHAP, tratar a hipertensão crônica leve a partir do limiar de 140 por 90 mmHg reduziu o desfecho composto de pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, parto pré-termo indicado antes de 35 semanas, descolamento de placenta e morte fetal ou neonatal, de 37,0% para 30,2% (risco relativo ajustado de 0,82), sem aumentar a incidência de recém-nascidos abaixo do percentil 10 — o argumento que por anos sustentou o tratamento conservador. O próprio protocolo da rede ressalva que nem o CHIPS nem o CHAP incluíram especificamente gestantes com pré-eclâmpsia, e que o conceito é assumido por extensão.

NICE guideline NG133, Hypertension in pregnancy, 2019 (atualizada em 2023); RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia, 2025; ensaios CHIPS (2015) e CHAP (2022), New England Journal of Medicine, citados nesse protocolo

Na prova

As duas formulações são clinicamente muito próximas, e a questão raramente pede o número do alvo isolado; ela costuma pedir o limiar de início e o comportamento na crise. Três âncoras resolvem quase tudo. Primeira: a faixa grave — 160 por 110 mmHg — é idêntica em todos os documentos e sempre exige tratamento imediato. Segunda: a redução na crise hipertensiva é de 15% a 25% na primeira hora, e qualquer alternativa que proponha normalizar a pressão rapidamente está errada nos dois mundos, pelo risco materno de acidente vascular encefálico e infarto e pela hipoperfusão útero-placentária. Terceira: enunciado que cita o NICE traz o par 135 por 85; enunciado que cita a ISSHP ou o Manual brasileiro traz a diastólica de 85 como referência. Se a alternativa oferece manter a diastólica em torno de 100 mmHg, ela está reproduzindo o braço menos rígido do CHIPS, que foi o braço com mais hipertensão grave.

06

Caso resolvido

Primigesta de 24 anos, 33 semanas e 2 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre, previamente hígida e normotensa, chega à emergência obstétrica de uma maternidade terciária com cefaleia frontal há dois dias que não melhorou com dipirona. Nega perda de líquido, sangramento ou contrações; refere movimentação fetal presente. Índice de massa corporal pré-gestacional de 33. Pré-natal com seis consultas, todas com pressão até 122/78 mmHg; não usou ácido acetilsalicílico. Na admissão, sentada e após repouso, pressão de 168/112 mmHg, confirmada em 15 minutos com 164/110 mmHg; braço com 29 cm de circunferência, manguito adequado. Frequência cardíaca de 92 bpm, saturação de oxigênio de 96%, reflexos patelares vivos, sem clônus. Refere náusea, sem vômito, e dor leve em epigástrio quando questionada. Exames: hemograma com plaquetas de 128.000/mm³, creatinina de 0,9 mg/dL, TGO de 48 UI/L, desidrogenase láctica de 310 UI/L, bilirrubinas normais, relação proteína/creatinina urinária de 1,8. Cardiotocografia reativa. Ultrassonografia com peso fetal no percentil 22, líquido amniótico normal e Doppler de artéria umbilical com índices dentro da normalidade.
achado
Hipertensão nova a partir das 20 semanas em gestante previamente normotensa, com relação proteína/creatinina de 1,8. Diagnóstico fechado: pré-eclâmpsia. A proteinúria já está confirmada e não será repetida — nem para acompanhar, nem para decidir parto.
achado
Pressão de 168/112 mmHg confirmada em intervalo de 15 minutos é crise hipertensiva, e por si só classifica como pré-eclâmpsia com sinais de gravidade. Somam-se dois sinais de iminência de eclâmpsia: cefaleia persistente sem resposta a analgésico e dor epigástrica com náusea. A associação de pressão em faixa grave com sintomas configura emergência hipertensiva.
achado
Os exames ainda não mostram deterioração estabelecida: plaquetas de 128.000/mm³ (acima do corte de 100.000), TGO de 48 UI/L (abaixo de 70 e de duas vezes o limite superior), creatinina de 0,9 mg/dL, DHL de 310 UI/L e bilirrubinas normais afastam síndrome HELLP no momento. O feto está no percentil 22, com líquido e Doppler normais e cardiotocografia reativa.
conduta
Internação imediata, em serviço com terapia intensiva materna e unidade neonatal — que é o caso. Sulfato de magnésio antes do hipotensor de ação rápida, indicado tanto pela crise hipertensiva quanto pela iminência de eclâmpsia; esquema, monitorização e antídoto estão no capítulo de eclâmpsia. Em seguida, hipotensor de ação rápida com meta de reduzir 15% a 25% na primeira hora, mirando sistólica até 140 e diastólica até 90 mmHg; estabilizada, inicia-se o anti-hipertensivo oral de manutenção, cujo detalhamento é do capítulo de anti-hipertensivos.
conduta
A idade gestacional é de 33 semanas e 2 dias, e não há nenhum item da lista que indica parto imediato em qualquer idade gestacional. Com clínica que estabiliza, pressão controlada com medicação, exames laboratoriais adequados e vitalidade fetal preservada, as quatro premissas da conduta expectante estão preenchidas: tenta-se avançar até 34 semanas. Ciclo de corticoide para maturação pulmonar — betametasona 12 mg por via intramuscular a cada 24 horas por 48 horas — porque há risco concreto de indicar a resolução em poucos dias.
conduta
Vigilância intensiva: pressão a cada quatro horas na vigília, sem acordar a paciente à noite se estiver controlada; balanço hídrico com débito urinário; pesquisa diária de cefaleia, alterações visuais, dor epigástrica, sangramento e redução de movimentos fetais; hemograma com plaquetas, creatinina, TGO e desidrogenase láctica repetidos, com fullPIERS acompanhado como tendência; cardiotocografia e dopplervelocimetria seriadas.
evolução
No quinto dia de internação, com 34 semanas exatas, a paciente está assintomática e com pressão de 138/86 mmHg em uso de anti-hipertensivo oral. Os exames de controle, porém, mostram plaquetas de 84.000/mm³, TGO de 130 UI/L, desidrogenase láctica de 690 UI/L e bilirrubina indireta de 1,4 mg/dL. Creatinina de 1,0 mg/dL. Cardiotocografia reativa.
conduta
A tendência mudou tudo, embora a paciente esteja mais confortável do que na admissão. Plaquetopenia abaixo de 100.000/mm³ com queda progressiva, transaminases em elevação, desidrogenase láctica acima de 600 UI/L e bilirrubina indireta acima de 1,2 mg/dL configuram síndrome HELLP — que indica o parto em qualquer idade gestacional, e aqui a idade gestacional já é de 34 semanas. Alterações laboratoriais progressivas encerram a conduta expectante mesmo com a mãe assintomática e a pressão controlada.
conduta
Resolução da gestação com sulfato de magnésio em curso e mantido por 24 horas após o parto. A via é obstétrica: com vitalidade fetal preservada, o parto vaginal é preferível, e a indução pode ser feita — a cesárea entraria se a vitalidade se alterasse, se o colo estivesse desfavorável em paciente em deterioração rápida ou por outra indicação obstétrica. Puerpério com pressão medida ao menos quatro vezes ao dia, atenção ao pico esperado entre o terceiro e o sétimo dia, exames de controle, e alta com relatório e orientação escrita sobre sinais de alarme, retorno em 7 a 10 dias e aconselhamento sobre risco cardiovascular de longo prazo.
07

Agora feche você

Secundigesta de 29 anos, 37 semanas e 2 dias, chega ao pré-natal de rotina em unidade básica de saúde referindo apenas cansaço. Primeira gestação sem intercorrências, parto vaginal a termo há quatro anos. Nega cefaleia, alterações visuais, dor epigástrica, dispneia e sangramento; movimentação fetal presente e habitual. Pressão de 146/94 mmHg, aferida sentada após repouso, com manguito adequado, e repetida quatro horas depois em 148/96 mmHg. Todas as aferições anteriores do pré-natal estiveram abaixo de 130/80 mmHg. Sem edema além do maleolar discreto. Encaminhada à maternidade, os exames mostram relação proteína/creatinina urinária de 0,42, plaquetas de 216.000/mm³, creatinina de 0,7 mg/dL, TGO de 24 UI/L, desidrogenase láctica de 240 UI/L e bilirrubinas normais. Cardiotocografia reativa; ultrassonografia com peso fetal no percentil 48, líquido amniótico normal e Doppler de artéria umbilical normal. Ao toque, colo posterior, grosso, impérvio, com índice de Bishop de 2.
achado
Hipertensão nova a partir das 20 semanas em gestante previamente normotensa (146/94 e 148/96 mmHg, com mais de quatro horas entre as medidas), somada a relação proteína/creatinina de 0,42, que ultrapassa o corte de 0,3.
achado
Nenhum sinal de gravidade: pressão fora da faixa de 160/110 mmHg, ausência de sintoma neurológico, visual, epigástrico ou respiratório, plaquetas, creatinina, transaminases e desidrogenase láctica normais, vitalidade e crescimento fetais preservados. Idade gestacional de 37 semanas e 2 dias, com colo desfavorável.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Exigir proteinúria para fechar o diagnóstico Atrai porque foi assim que a doença foi ensinada por décadas e porque a tríade clássica ainda circula em resumo antigo. Só que a proteinúria deixou de ser obrigatória: hipertensão nova depois de 20 semanas com plaquetas abaixo de 100.000/mm³, ou creatinina de 1,2 mg/dL, ou transaminases dobradas, ou edema pulmonar, ou cefaleia refratária, ou restrição de crescimento com Doppler alterado já é pré-eclâmpsia. Chamar de hipertensão gestacional uma paciente com urina limpa e plaquetas caindo é a forma mais comum de perder tempo.
  2. 2Usar o grau da proteinúria como termômetro de gravidade Parece razoável — mais proteína, mais doença — e é justamente o contrário do que os documentos determinam. Confirmada, a proteinúria não se repete: ela aumenta com o tempo em qualquer conduta expectante e esse aumento não prevê desfecho perinatal. O ACOG retirou o corte de 5 g em 24 horas da lista de gravidade em 2013, e a ISSHP determina que a decisão de parto não se baseie apenas no grau de proteinúria nem na hiperuricemia. Quem quantifica proteinúria para decidir parto está medindo a variável errada.
  3. 3Chamar de leve e mandar para casa sem a avaliação inicial A expressão pré-eclâmpsia leve saiu dos documentos exatamente porque produzia essa conduta. No momento do diagnóstico, mesmo sem sinais de gravidade, a gestante é internada para aprofundar a avaliação e ter certeza de que nenhum sinal ou alteração laboratorial reclassifica o caso. Só depois disso o seguimento ambulatorial é uma opção — e ele tem pré-requisitos: gestante orientada e capaz de reconhecer sinais de agravamento, moradia próxima ao hospital, acompanhante disponível o tempo todo, aferição diária de pressão e consulta semanal.
  4. 4Esperar o sintoma para indicar o sulfato de magnésio A eclâmpsia pode acontecer sem qualquer aviso, e a crise hipertensiva é a janela de oportunidade para preveni-la. Pressão de 160/110 mmHg em gestante com pré-eclâmpsia confirmada ou suspeita indica sulfato de magnésio mesmo se ela estiver assintomática. Dois erros de sequência acompanham essa armadilha: dar o hipotensor antes do sulfato, e transferir a paciente para dar o sulfato no destino — sulfato de magnésio e hipotensor de ação rápida têm indicações paralelas e é feito no local do evento.
  5. 5Confundir dar sulfato com indicar parto A associação é automática na cabeça de quem estudou pela metade, e o Manual do Ministério da Saúde frisa o contrário: usar ou reutilizar o sulfato de magnésio não indica, necessariamente, a realização do parto. São duas decisões independentes, tomadas por critérios diferentes. Uma paciente de 29 semanas pode receber sulfato por crise hipertensiva, estabilizar e seguir em conduta expectante por mais duas semanas.
  6. 6Atrasar o parto indicado para completar o ciclo de corticoide Parece cuidado com o prematuro e é troca de risco na direção errada. Quando existe indicação de resolução imediata — HELLP, eclâmpsia, edema agudo de pulmão, descolamento, hipertensão refratária, exames em piora progressiva, vitalidade alterada — o parto não espera. A deterioração materna ou fetal pode impedir a segunda dose, e isso é aceitável. Corticoide se dá quando há risco de nascimento nos próximos dias e a espera é segura, não como condição para nascer.
  7. 7Indicar cesárea automática por pré-eclâmpsia com sinais de gravidade Atrai porque a situação é grave e a cesárea parece mais rápida e mais controlada. Os documentos dizem o oposto: a via é obstétrica e o parto vaginal é preferível também com sinais de gravidade, para não somar risco cirúrgico e sangramento a uma paciente que pode estar consumindo plaquetas. A indução se faz com vitalidade fetal preservada e situação materna que permita. A cesárea entra por vitalidade alterada, colo desfavorável em paciente que se deteriora, ou outra indicação obstétrica.
  8. 8Achar que o parto encerra o risco É a armadilha que mais mata fora da prova. A pressão piora entre o terceiro e o sétimo dia de puerpério por redistribuição de líquido, e o pico costuma acontecer depois da alta; eclâmpsia e HELLP ocorrem no puerpério, com maior risco na primeira semana; e a pré-eclâmpsia pode aparecer pela primeira vez depois do parto, em mulher que teve pré-natal impecável. Some a isso as prescrições que elevam a pressão nesse período — anti-inflamatórios, ergotamínicos, bromocriptina e cabergolina — e está montado o cenário de reinternação.
  9. 9Aferir a pressão em decúbito lateral esquerdo Cai em prova de OSCE e acontece todo dia na enfermaria. O decúbito lateral esquerdo é posição de repouso, não de medida: nele as leituras são as mais baixas, seguidas da supina e da semi-Fowler, e o valor real é o da posição sentada, com pés apoiados, costas apoiadas e braço na altura do coração. Somada ao manguito inadequado em braço obeso, essa combinação transforma uma pré-eclâmpsia com sinais de gravidade em pré-natal tranquilo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A elevação da pressão arterial (≥140x90 mmHg) após 20 semanas de gestação em paciente previamente normotensa, associada a proteinúria, caracteriza a pré-eclâmpsia; com PA ≥160x110 mmHg é classificada como pré-eclâmpsia grave. A hipertensão crônica é aquela presente antes da gestação ou diagnosticada antes de 20 semanas. A hipertensão gestacional cursa com elevação pressórica após 20 semanas, porém SEM proteinúria. A síndrome do jaleco branco não explica proteinúria e PA persistentemente elevada em duas aferições. O feocromocitoma é raro e não é a primeira hipótese nesse contexto.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a questão os usa. Diagnóstico: hipertensão a partir de 20 semanas, sistólica ≥140 e/ou diastólica ≥90 mmHg, duas medidas com pelo menos 4 horas de intervalo — 15 minutos quando já está em 160/110. Proteinúria: ≥300 mg em 24 horas, ou relação proteína/creatinina ≥0,3, ou fita com pelo menos 1 cruz no Manual do Ministério da Saúde e no Febrasgo de 2018 (2 cruzes na RBEHG de 2025 e no ACOG). Sem proteinúria, fecham o diagnóstico: plaquetas <100.000/mm³; creatinina ≥1,2 mg/dL ou duplicação; transaminases acima de 2 vezes o normal; edema agudo de pulmão; cefaleia refratária, escotomas, fosfenas, fotofobia, hiper-reflexia; e comprometimento placentário (restrição de crescimento, Doppler alterado, descolamento, óbito fetal). Precoce é antes de 34 semanas, tardia a partir de 34; pré-termo antes de 37, de termo a partir de 37. Sinais de gravidade: 160/110 mmHg confirmada em 15 minutos, iminência de eclâmpsia, eclâmpsia, HELLP, edema agudo de pulmão, dor torácica, creatinina ≥1,2 mg/dL progressiva e oligúria <500 mL/24 h. Tratamento: iniciar quando a maioria das medidas passar de 140 ou 90; alvo abaixo de 140 por 90 (Manual brasileiro: 110 a 140 por 85; ISSHP: diastólica de 85; NICE: 135/85); na crise, reduzir 15% a 25% na primeira hora. Sulfato de magnésio: 160/110 mmHg mesmo sem sintoma, iminência, eclâmpsia, HELLP, deterioração, hipertensão de difícil controle; mantido 24 horas após o parto. Parto: 37 semanas sem sinais de gravidade; a partir de 34 com sinais de gravidade pelo ACOG, com os documentos brasileiros admitindo aproximar-se de 37 se houve melhora; da viabilidade a 34, expectante com as quatro premissas; abaixo da viabilidade, individualizar. Corticoide: antes de 34 semanas, com parto provável em 7 dias — betametasona 12 mg IM a cada 24 h por 48 h, ou dexametasona 6 mg IM a cada 12 h por 48 h. Puerpério: pico pressórico entre o 3º e o 7º dia; hipertensão gestacional deve sumir em 12 semanas.

em 30 dias

As decisões, não os números. Primeira: a pergunta do diagnóstico não é se há proteinúria, é se há uma segunda coisa qualquer além da pressão — rim, fígado, plaqueta, cérebro, pulmão ou placenta. Segunda: confirmada, a proteinúria sai do jogo; quem acompanha gravidade acompanha plaquetas, transaminases e creatinina, e o que decide não é o valor absoluto e sim a tendência. Terceira: sinal de gravidade muda o lugar do cuidado antes de mudar o desfecho — interna, sulfata, controla a pressão e reavalia; sinal isolado que estabiliza não é a mesma coisa que sequência que piora. Quarta: o parto é o único tratamento, e o relógio dele tem duas marcações — 37 semanas sem sinais de gravidade, 34 semanas com sinais de gravidade — mais uma lista que atropela as duas em qualquer idade gestacional: HELLP, eclâmpsia, edema agudo de pulmão, descolamento, hipertensão refratária a três drogas, exames em piora progressiva, insuficiência renal progressiva e vitalidade fetal alterada. Quinta: a via é obstétrica e o vaginal é preferível até com sinais de gravidade. Sexta: o puerpério é parte da doença, não o fim dela — o pico de pressão vem depois da alta e a pré-eclâmpsia pode estrear no puerpério. Sétima: quem teve pré-eclâmpsia sai da maternidade com risco cardiovascular dobrado para a vida inteira, e isso pertence ao relatório de alta tanto quanto a receita.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Primigesta de 24 anos com 33 semanas, cefaleia que não cede com analgésico e dor epigástrica, pressão de 168/112 mmHg confirmada em 15 minutos, relação proteína/creatinina de 1,8 e plaquetas de 128.000/mm³ — emergência obstétrica de maternidade terciária — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Pré-eclâmpsia — Preparatório para provas | OsceLabs