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Cirurgia GeralTrauma

Atendimento inicial ao politraumatizado

A prova não pergunta se você sabe as letras. Ela pergunta o que faz você parar no meio delas, o que pode esperar e o que não pode.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 25 anos vítima de acidente motociclístico é admitido no pronto-socorro. Está com via aérea pérvia, falando, expansibilidade torácica simétrica e murmúrio vesicular presente bilateralmente. PA 90x60 mmHg, FC 122 bpm. Segundo o ATLS, qual é o próximo passo da avaliação primária após confirmar via aérea e respiração adequadas?

02

Como esse tema cai

Toda prova de cirurgia tem uma questão de ABCDE, e quase nunca ela é sobre decorar as letras. O enunciado descreve uma vítima com quatro coisas erradas ao mesmo tempo e pergunta qual você resolve primeiro. Quem sabe a lista e não sabe a hierarquia erra.

Este capítulo é sobre a sequência e a prioridade: por que a ordem é essa e não outra, o que interrompe o exame no meio, o que pode esperar a avaliação secundária, e quais números decidem cada letra. As lesões torácicas que matam em minutos aparecem aqui como o que se procura em cada etapa, não como manejo: pneumotórax hipertensivo, tamponamento e tórax instável têm capítulo próprio nesta apostila — e a classificação do choque hemorrágico com a estratégia transfusional também. Aqui o C é decisão de sequência; lá, tratamento.

Há uma mudança em curso que vale saber desde já. Em setembro de 2025 o Colégio Americano de Cirurgiões lançou a 11a edição do ATLS e o mnemônico ganhou uma letra na frente: xABCDE, com o x de hemorragia exsanguinante. O protocolo brasileiro em vigor, o do SAMU, ainda organiza o atendimento em ABCDE clássico, com o controle de sangramento dentro do C. O capítulo marca a divergência e diz o que fazer com ela na prova.

03

O que muda decisão

A ordem não é anatômica: é o relógio

A sequência ABCDE não desce a anatomia do corpo. Ela desce o tempo até a morte. Via aérea obstruída mata em poucos minutos. Ventilação comprometida por pneumotórax hipertensivo mata em minutos a dezenas de minutos. Hemorragia mata em dezenas de minutos a horas. Hematoma intracraniano em expansão mata em horas. Hipotermia mata devagar, mas piora todas as anteriores. Quem trata na ordem inversa perde o paciente por causa da letra que pulou.

Daí saem os três fundamentos que o ATLS repete desde 1978. Primeiro: trate a maior ameaça à vida primeiro. Segundo: o tratamento indicado deve ser aplicado mesmo quando o diagnóstico definitivo ainda não está estabelecido. Terceiro: uma história detalhada não é essencial para começar. Isso inverte o hábito clínico de anamnese, exame, hipótese e conduta. No trauma, avaliação e tratamento acontecem juntos: você não termina o A para depois tratar o A. Você abre a via aérea enquanto avalia a via aérea.

Vale desfazer uma ilusão de leitura. A avaliação primária é sequencial no raciocínio e simultânea na sala. Uma equipe treinada faz, ao mesmo tempo, estabilização manual da cervical na cabeceira, exposição do tórax, torniquete na coxa e acesso venoso. A ordem das letras não é a ordem em que as mãos se movem: é a ordem em que as decisões são tomadas quando falta gente, tempo ou material. Em prova, é justamente esse cenário de recurso escasso que o enunciado monta.

A avaliação primária também não é um exame que você faz uma vez. Ela é o estado padrão do atendimento. O protocolo AT2 do SAMU tem uma frase que vale decorar: retomar a avaliação primária a qualquer momento se houver deterioração do quadro clínico. Piorou, você volta para o A. Sempre.

Vista superior de uma sala de trauma: paciente deitado com quatro pares de mãos atuando ao mesmo tempo, uma estabilizando manualmente a cabeça, uma no tórax exposto, uma apertando uma faixa larga na coxa acima de um curativo e uma segurando o acesso venoso no braço.
A ordem das letras não é a ordem das mãos. Na sala, tudo acontece junto. O ABCDE é a ordem em que as decisões são tomadas quando não dá para fazer tudo ao mesmo tempo.

x — a hemorragia que não espera pelo A

Um jato arterial em membro esvazia um adulto antes que qualquer manobra de via aérea faça diferença. Esse é o argumento inteiro do x. A 11a edição do ATLS, cujo lançamento o Colégio Americano de Cirurgiões anunciou em 16 de setembro de 2025, formalizou o que a medicina militar e o pré-hospitalar já praticavam: o controle rápido da hemorragia exsanguinante externa salva vida e vem antes da via aérea. O mnemônico virou xABCDE.

Repare que o conteúdo mudou menos que a letra. Mesmo no ABCDE clássico, quem chega a uma vítima jorrando sangue de uma amputação de coxa comprime primeiro. O StatPearls registra isso de forma explícita: diante de exsanguinação por ferimento maciço, o controle pode ser feito antes de iniciar o algoritmo. O x transformou a exceção em passo escrito, para que ela deixe de depender do bom senso de quem está na cena.

O que o x abriga, na prática: compressão direta com tamponamento profundo da ferida, curativo compressivo, clampeamento cirúrgico quando o vaso é acessível, e torniquete precoce nas hemorragias graves de membro. O protocolo do SAMU põe isso em ordem: a compressão direta é a primeira opção técnica; se o curativo encharcar, não se remove a atadura, aplica-se outro por cima com mais pressão; se ainda assim o sangramento em membro superior ou inferior for incontrolável, indica-se o torniquete.

O torniquete tem regras que caem em prova. Vai imediatamente acima do ferimento, no sentido proximal. Precisa de pelo menos 10 cm de largura, seja dispositivo comercial, seja manguito de esfigmomanômetro insuflado. Aperta-se até cessar completamente o sangramento e o fluxo arterial distal, porque torniquete frouxo aumenta o sangramento: bloqueia o retorno venoso e mantém a entrada arterial. Anota-se a hora de aplicação, e idealmente ele não deve ficar mais de duas horas.

Uma ressalva que a banca cobra pelo avesso: o x é para hemorragia externa compressível. Sangramento em tórax, abdome, retroperitônio e pelve não se controla com a mão, e continua sendo problema do C, resolvido em centro cirúrgico ou por angioembolização. Alternativa que oferece torniquete para hemorragia intra-abdominal está errada por definição anatômica.

A — via aérea, e a coluna cervical junto

A pergunta do A é curta: esse ar entra e sai? O teste mais rápido é pedir o nome do paciente. Quem responde com voz normal, em frase completa, tem via aérea pérvia, ventila e perfunde o cérebro o suficiente para falar. Estridor, rouquidão, gorgolejo, agitação, respiração ruidosa ou silêncio absoluto com esforço respiratório são o oposto.

As manobras são as do trauma, com uma restrição: cabeça e pescoço em alinhamento neutro, sem hiperextensão. Elevação do mento e tração da mandíbula, aspiração de secreção, retirada de corpo estranho da boca, cânula orofaríngea em quem não tem reflexo de vômito, ou nasofaríngea em quem tem. A estabilização manual da cervical começa junto com a primeira palavra dirigida ao paciente e o colar entra assim que possível, mas o colar não substitui a mão de ninguém enquanto a via aérea está sendo trabalhada.

O SAMU fixa os números da oxigenação nesta etapa: oximetria e oxigênio por máscara facial a 10 a 12 L/min se a saturação estiver abaixo de 94%. E manda avaliar, ainda no A, as indicações de via aérea definitiva.

Via aérea definitiva é tubo com balonete insuflado na traqueia, fixado, com ventilação assistida e oxigênio. Cânula orofaríngea, máscara laríngea e máscara facial não são. Indica-se quando a via aérea está obstruída ou sob ameaça de obstruir, como no trauma de face com edema progressivo, na queimadura de via aérea e no hematoma cervical expansivo; quando o paciente não ventila ou não oxigena apesar das medidas iniciais; quando há necessidade de proteção contra aspiração; e quando o rebaixamento de consciência tira do paciente a capacidade de proteger a própria via aérea.

O corte de consciência é o número mais cobrado do capítulo: Glasgow igual ou menor que 8 indica via aérea definitiva. O StatPearls afirma que abaixo de 8 os reflexos protetores estão reduzidos e o paciente não protege a via aérea, o que torna necessária a via aérea definitiva. O protocolo AT5 do SAMU, sobre TCE, manda considerar via aérea avançada com Glasgow abaixo de 8. Uma armadilha frequente: saturação boa não dispensa a intubação. O paciente com Glasgow 6 e saturação de 98% em máscara continua com indicação, porque a indicação é de proteção, não de oxigenação.

Duas ressalvas. Na suspeita de fratura de base de crânio, o nariz está proibido: sonda nasogástrica e intubação nasotraqueal devem ser evitadas pelo risco de o tubo entrar no crânio pela fratura, e a mesma cautela vale no trauma de face grave. E o ATLS 11 acrescentou uma inversão de hábito que merece atenção: ressuscitar o choque antes de intubar, pelo risco de hipotensão e parada peri-intubação no paciente instável. Intubar um paciente exsanguinado sem repor volume é trocar um problema de via aérea por uma parada cardíaca.

B — ventilação, e as lesões que interrompem o exame

Via aérea pérvia não garante ventilação. O B avalia se o ar que entra chega ao alvéolo e se a mecânica do tórax funciona. O roteiro do SAMU é objetivo: avaliar posição da traqueia e turgência jugular, expor o tórax, olhar simetria da expansão, procurar esforço e uso de musculatura acessória, procurar lesões abertas e fechadas, palpar todo o tórax quando a ventilação está anormal e auscultar.

O número de decisão aqui: frequência respiratória abaixo de 8 incursões por minuto, ou incapacidade de manter ventilação e oxigenação adequadas, indica ventilação assistida com bolsa-válvula-máscara com reservatório. É também no B que a indicação de via aérea definitiva é reavaliada.

Cinco lesões torácicas podem parar a avaliação primária no B, e por isso a maioria delas se identifica com estetoscópio e olho, não com radiografia: pneumotórax hipertensivo, pneumotórax aberto, hemotórax maciço, tórax instável com contusão pulmonar e, na fronteira com o C, o tamponamento cardíaco. O manejo de cada uma está no capítulo de trauma torácico desta apostila. O que importa para a sequência é outra coisa: essas lesões são diagnóstico clínico e tratamento imediato, sem esperar exame de imagem. Pedir radiografia antes de descomprimir um pneumotórax hipertensivo é o erro clássico da questão de B.

Guarde o sinal que troca a letra: paciente que piora durante o C, com hipotensão, turgência jugular e murmúrio abolido de um lado, não é um problema de volume. É um problema de B que apareceu depois. Você volta uma letra e descomprime. O ponto de punção, o calibre do dreno e o que vem depois estão no capítulo de trauma torácico: o que este capítulo decide é a prioridade.

C — circulação, e onde o sangue se esconde

No traumatizado em choque, a conduta mais segura é considerar a causa como hemorrágica até prova em contrário. É assim que o protocolo AT4 do SAMU orienta, e é assim que a prova espera que você raciocine: choque no trauma é hipovolêmico até que outra coisa esteja provada.

O exame de circulação cabe em quatro gestos rápidos. Enchimento capilar, normal até 2 segundos. Pele: temperatura, umidade e cor. Nível de consciência, que cai quando o cérebro deixa de ser perfundido. E pulso, com uma leitura que o SAMU transformou em regra: pulso radial ausente com pulso central presente manda seguir o protocolo de choque; pulso radial e central ausentes mandam seguir o protocolo de parada cardiorrespiratória. Pressão arterial se afere precocemente, mas ela é o último parâmetro a cair, não o primeiro a avisar.

Sangue que sumiu está em um de cinco lugares, e vale memorizar a lista porque ela organiza a busca: tórax, abdome, retroperitônio e pelve, ossos longos e o chão, incluindo o que ficou no local do acidente e no caminho. Os volumes surpreendem: uma fratura de fêmur esconde de 1 a 2 litros, uma fratura de pelve vai de 500 mL até a volemia inteira, um hemotórax passa de 1 litro. Fora desses cinco, o sangramento externo é o que você já controlou no x.

Não espere a pressão avisar. O StatPearls registra que até 30% da volemia pode se perder antes de a pressão arterial cair, e a tabela de classes do protocolo AT4 do SAMU mostra o mesmo: pressão normal nas duas primeiras classes. Um adulto pode estar com um litro e meio de sangue a menos e pressão de consultório. Taquicardia, enchimento capilar lento, pele fria e ansiedade chegam antes — o estagiamento classe a classe, com seus números e condutas, é assunto do capítulo de choque hemorrágico desta apostila.

A ressuscitação mudou de tamanho, e esse número pertence a este capítulo: no máximo 1 litro de cristaloide aquecido na fase inicial. O material mais antigo ensinava 1 a 2 litros, e o StatPearls ainda descreve essa faixa; mas o guia de ressuscitação do Joint Trauma System registra que o ATLS 10 identificou associação entre mais de 1,5 L de cristaloide e maior mortalidade, e sugeriu o teto de 1 litro. O motivo da queda: encher de soro um paciente que sangra dilui fatores de coagulação, desloca coágulo já formado e piora a acidose. No Brasil, o SAMU manda aquecer o cristaloide a 39 graus, com Ringer lactato como primeira escolha. Quem não responde, ou responde só transitoriamente, a esse litro não precisa de mais soro: precisa de sangue e de controle do sangramento.

Antes do controle do sangramento, a pressão não se normaliza à força: é a hipotensão permissiva, e o alvo pré-hospitalar brasileiro é manter a sistólica acima de 80 mmHg — acima de 90 quando há TCE, porque o cérebro lesado não tolera hipoperfusão. Proporção de hemocomponentes, protocolo de transfusão maciça e adjuvantes farmacológicos têm capítulo próprio nesta apostila; o que pertence à sequência é a decisão de trocar soro por sangue cedo e de levar o paciente para onde o sangramento se controla.

Silhueta anatômica de um adulto deitado com cinco regiões destacadas como reservatórios: as duas cavidades pleurais, a cavidade abdominal, o espaço retroperitoneal e pélvico em forma de bacia, e o canal medular de um fêmur fraturado, além de uma poça no chão ao lado do corpo.
Os cinco lugares onde o sangue se esconde. Se o paciente está chocado e o sangramento não está na sua frente, ele está em um destes: tórax, abdome, retroperitônio e pelve, ossos longos, ou ficou no chão do local do acidente.

D — o neurológico rápido, e o que ele não é

O D é curto de propósito. Escala de Coma de Glasgow, ou AVDI no pré-hospitalar quando o tempo é curto, pupilas e sinais de lateralização. Nada de exame neurológico completo: isso é avaliação secundária.

Duas medidas concretas do protocolo brasileiro. Assimetria pupilar maior que 1 mm obriga a procurar sinais focais. E a Escala de Coma de Glasgow deve ser reavaliada de forma seriada, porque a tendência vale mais que o valor isolado: um Glasgow 14 que caiu de 15 informa mais que um 14 estático.

A armadilha do D é atribuir o rebaixamento à cabeça. Antes de culpar o crânio, elimine as causas que as letras anteriores explicam: hipóxia, hipoperfusão por choque, hipoglicemia, álcool e drogas. É por isso que a glicemia capilar entra na avaliação. Confusão em paciente que perdeu 30% da volemia é sinal de choque, não de contusão cerebral, e o tratamento é sangue, não manitol.

Quando o TCE é o problema, a prioridade é evitar a lesão secundária: hipóxia e hipotensão são as duas coisas que transformam um cérebro contundido em um cérebro morto. O SAMU manda manter saturação de pelo menos 94% e sistólica acima de 90 mmHg no TCE. A 11a edição do ATLS reorganizou a estrutura do curso juntando cabeça e coluna dentro do D, o que reforça o mesmo recado: o exame neurológico da primária inclui o raquimedular.

E — expor tudo, e não deixar esfriar

O E tem duas metades e o candidato costuma lembrar só da primeira. Expor significa cortar as roupas e olhar o corpo inteiro, frente e dorso, com rolamento em bloco. Ferimento por arma branca nas costas, fratura exposta sob a calça e sangramento em região glútea não aparecem em paciente vestido.

A segunda metade é controle do ambiente, e ela é tão importante quanto a primeira porque a hipotermia é iatrogênica: quem esfria o paciente é a equipe. O protocolo do SAMU é literal: cortar as vestes somente das partes necessárias e sem movimentação excessiva, proteger com manta aluminizada, desligar o ar-condicionado da ambulância e infundir cristaloide aquecido a 39 graus.

O motivo é a tríade letal do trauma: hipotermia, acidose e coagulopatia, cada uma alimentando as outras. Sangue frio não coagula bem, o paciente sangra mais, perfunde menos, acidifica, e a coagulação piora de novo. Prevenir hipotermia não é conforto: é hemostasia.

Primária, adjuntos, secundária: o que entra em cada momento

A avaliação primária identifica e trata o que mata agora. Junto dela entram os adjuntos, que são exames feitos sem interromper a sequência e sem tirar o paciente da sala: monitorização e eletrocardiograma, oximetria, radiografia de tórax e de pelve, FAST, sonda gástrica e sonda vesical — esta última só depois de excluída lesão uretral, que o capítulo de trauma de pelve detalha. O FAST responde a uma única pergunta útil naquele instante, se há líquido livre, e por isso ele pertence ao C e não à investigação diagnóstica.

A avaliação secundária só começa depois que a primária foi completada e o paciente respondeu às medidas de ressuscitação. É o exame da cabeça aos pés, frente e dorso, com inspeção, palpação, ausculta e percussão, procurando ferimentos, afundamentos, hematomas, assimetrias, instabilidades e alterações de motricidade e sensibilidade: crânio e face, pupilas, pescoço com atenção a turgência jugular e desvio de traqueia, tórax, abdome, pelve com compressão das cristas ilíacas, membros com pulsos distais e perfusão, e dorso.

É na secundária que entra a história. No Brasil ela é ensinada como SAMPLA, versão do AMPLE internacional: Sinais e sintomas, Alergias, Medicamentos em uso, Passado médico e prenhez, Líquidos e alimentos ingeridos com o horário da última refeição, e Ambiente do evento, que traz a cinemática do trauma. Em paciente inconsciente, essa história se busca com acompanhantes, familiares e com a equipe que trouxe a vítima.

Duas regras fecham a lógica. A primeira: nos pacientes em situação crítica, algumas etapas da secundária podem ser suprimidas. Um paciente que segue instável não merece exame da cabeça aos pés; merece centro cirúrgico. A segunda, já citada e a mais cobrada de todas: retomar a avaliação primária a qualquer momento se houver deterioração do quadro. Não existe ordem de exame que sobreviva a um paciente que piorou. Você volta ao começo.

Um lembrete de transferência, que a 11a edição transformou em mnemônico próprio, o S-xABCDE-BAR: o paciente instável precisa ir para onde existe capacidade de resolver, e a decisão de transferir não espera diagnóstico completo. Transferência atrasada por tomografia desnecessária é achado de auditoria de óbito evitável.

04

A sequência, letra por letra

O caminho macro do atendimento, do portão da sala até a decisão de destino. As letras vêm nos cards, e a tabela consolida o que cada uma avalia e o que trata na hora.

  1. 1Segurança da cena e equipamento de proteção individual. Cena insegura não se aborda: o socorrista morto não salva ninguém.
  2. 2Chamar o paciente e, ao mesmo tempo, estabilizar manualmente a coluna cervical. Quem responde em frase completa acabou de fazer o A, o B e boa parte do D por você.
  3. 3Hemorragia exsanguinante visível: comprimir, tamponar e, se o membro continuar sangrando, torniquete. É o x do ATLS 11 e é o que o bom senso já mandava no ABCDE clássico.
  4. 4Percorrer A, B, C, D e E tratando o que encontra, sem passar para a letra seguinte enquanto a atual estiver ameaçando a vida.
  5. 5Adjuntos junto da primária: monitorização, eletrocardiograma, oximetria, radiografia de tórax e de pelve, FAST, sonda gástrica e sonda vesical — a vesical depois de excluída lesão uretral (sangue no meato, hematoma perineal, próstata elevada ou disjunção de pelve pedem uretrografia retrógrada antes).
  6. 6Reavaliar. Deteriorou, volta ao A. Sem exceção.
  7. 7Avaliação secundária: SAMPLA e exame da cabeça aos pés, frente e dorso. Só depois de a primária estar completa e o paciente ter respondido.
  8. 8Decidir destino: centro cirúrgico, tomografia ou transferência. Instabilidade que não cede é indicação de sala, não de mais exame.

x

Hemorragia exsanguinante externa. Compressão direta, tamponamento e torniquete acima do ferimento, com pelo menos 10 cm de largura, hora anotada, idealmente por até 2 horas. Novidade formal do ATLS 11.

A

Via aérea com proteção da cervical. Fala em frase completa? Estridor, gorgolejo, corpo estranho? Manobras neutras, cânula, oxigênio 10 a 12 L/min se saturação abaixo de 94%. Glasgow igual ou menor que 8: via aérea definitiva.

B

Ventilação. Expor o tórax, olhar simetria, palpar, auscultar, procurar traqueia desviada e jugular túrgida. Frequência respiratória abaixo de 8: bolsa-válvula-máscara. Lesão que mata aqui se trata sem esperar radiografia.

C

Circulação com controle de hemorragia. Enchimento capilar até 2 segundos, pele, consciência, pulso radial e central. No máximo 1 litro de cristaloide aquecido e, na sequência, sangue. No trauma, choque é hemorrágico até prova em contrário.

D

Estado neurológico. Glasgow ou AVDI, pupilas e sinais focais. Assimetria pupilar maior que 1 mm pede busca de lateralização. Antes de culpar o crânio, descarte hipóxia, choque e hipoglicemia.

E

Exposição e controle do ambiente. Despir e olhar frente e dorso em bloco, depois cobrir. Manta aluminizada, ar-condicionado desligado e cristaloide aquecido a 39 graus. Hipotermia é parte da tríade letal.

LetraO que avaliaO que trata na hora, sem sair da letra
xHemorragia externa exsanguinante visível: jato arterial, curativo que encharcaCompressão direta, novo curativo por cima com mais pressão se encharcar, torniquete acima do ferimento em membro que segue sangrando
APerviedade (fala em frase completa? estridor, gorgolejo, silêncio com esforço?), proteção da cervical e indicações de via aérea definitivaManobras de abertura em alinhamento neutro, aspiração e retirada de corpo estranho, cânula, oxigênio 10 a 12 L/min se saturação abaixo de 94%, colar cervical, via aérea definitiva se indicada
BTraqueia e jugulares, exposição do tórax, simetria da expansão, esforço e musculatura acessória, lesões abertas e fechadas, palpação e auscultaBVM com reservatório se frequência respiratória abaixo de 8 ou ventilação e oxigenação inadequadas; descompressão imediata das lesões que matam em B (capítulo de trauma torácico)
CEnchimento capilar (normal até 2 segundos), pele, nível de consciência, pulso radial e central, pressão precoce, os cinco lugares do sangueControle do sangramento externo residual, dois acessos calibrosos, cristaloide aquecido limitado a 1 litro, sangue precoce em quem não responde, destino cirúrgico
DGlasgow ou AVDI, pupilas (assimetria acima de 1 mm pede busca de sinais focais), lateralização, glicemia capilarCorrigir hipóxia e hipotensão antes de culpar o crânio; via aérea definitiva se Glasgow igual ou menor que 8
EExposição completa do corpo, frente e dorso, com rolamento em blocoCortar as vestes só do necessário, manta aluminizada, ambiente aquecido, cristaloide a 39 graus — e cobrir de volta

Adjuntos correm junto da primária, sem interrompê-la: monitorização e eletrocardiograma, oximetria, radiografia de tórax e de pelve, FAST e sondas. Eles respondem perguntas de ressuscitação, não substituem a investigação diagnóstica da fase seguinte.

Responder à ressuscitação divide o paciente em três: o respondedor, que estabiliza e assim permanece; o respondedor transitório, que melhora e volta a piorar, o que significa sangramento ativo; e o não respondedor, que precisa de sala de cirurgia agora. É essa leitura que diz quando parar de examinar e agir.

Nos pacientes em situação crítica, etapas da avaliação secundária podem ser suprimidas, e a regra do protocolo AT2 do SAMU não tem exceção: deteriorou, retoma-se a avaliação primária.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

ABCDE clássico ou xABCDE do ATLS 11

ATLS 11a edição (2025)

A sequência agora é xABCDE. O x é o controle da hemorragia exsanguinante externa e vem antes da via aérea, porque o controle rápido desse sangramento salva vida. A mudança formaliza torniquete precoce, tamponamento profundo e clampeamento como primeiro passo, e aparece até no novo mnemônico de transferência, o S-xABCDE-BAR.

American College of Surgeons — ACS Brief de 16/09/2025 anunciando o lançamento do ATLS 11; revisão editorial do SGEM sobre a 11a edição (março de 2026)

Protocolo nacional em vigor (SAMU 192, 2a edição, 2016)

O protocolo AT1 do SAMU 192, do Ministério da Saúde, organiza a avaliação primária do trauma em ABCDE, com o controle de sangramento externo por compressão direta e torniquete dentro do C. Na prática o resultado é o mesmo em vítima com hemorragia maciça: o próprio material internacional do ABCDE clássico já registrava que a exsanguinação por ferimento maciço pode ser tratada antes de iniciar o algoritmo.

Ministério da Saúde — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida (2016), protocolo AT1; StatPearls, Trauma Primary Survey (NBK430800)

Na prova

O recorte se identifica pela data e pelo vocabulário do enunciado. Menção nominal à 11a edição, ao termo xABCDE ou a uma etapa própria de controle de hemorragia exsanguinante denuncia o corpo novo do ATLS (2025). Enunciado ancorado no protocolo do SAMU, cenário pré-hospitalar brasileiro ou prova elaborada antes do ciclo 2026 aponta para o ABCDE clássico (2016), com sangramento dentro do C. As alternativas também revelam: distrator que traz o controle do sangramento como etapa separada antes do A só existe no mundo do x. Há ainda um terreno comum que independe do recorte: em vítima com jato arterial em membro, controlar o sangramento antes de tudo é aceito nas duas tradições — no clássico, como exceção registrada ao algoritmo; no novo, como letra escrita. Prova oficial do MEC tende a seguir o protocolo em vigor no SUS; nas demais bancas, o vocabulário das alternativas entrega o documento de referência.

06

Caso resolvido

Homem de 27 anos, motociclista, colisão frontal em alta velocidade. Chega à sala de emergência trazido pelo SAMU, com ferimento em coxa esquerda com sangramento pulsátil ativo, encharcando o curativo. Está sonolento, mas abre os olhos ao chamado e diz frases desconexas. PA 82 x 54 mmHg, FC 132 bpm, FR 30 irpm, saturação 93% em ar ambiente, enchimento capilar de 4 segundos. Pulso radial fino, pulso carotídeo presente. Murmúrio vesicular presente e simétrico, sem turgência jugular. Abdome flácido. Glasgow 12.
cena e cervical
Colisão de alta energia com rebaixamento: estabilização manual da cervical desde o primeiro contato e colar assim que possível. Cinemática não é detalhe: ela define o que procurar.
x
Sangramento pulsátil em membro, curativo encharcado. Não se retira a atadura: aplica-se outro por cima com mais pressão e, como o sangramento é incontrolável, torniquete acima do ferimento, apertado até cessar o fluxo arterial distal, com a hora anotada. Isso vem antes de qualquer outra coisa.
A
Ele fala, ainda que desconexo: via aérea pérvia. Não tem indicação de via aérea definitiva por Glasgow, que está em 12. Oxigênio por máscara, já que a saturação está abaixo de 94%.
B
Murmúrio simétrico, sem turgência jugular, sem desvio de traqueia. A taquipneia de 30 aqui não é problema pulmonar: é compensação de acidose por hipoperfusão, e ela pertence ao C.
C
Enchimento capilar de 4 segundos, pulso radial fino com carotídeo presente, taquicardia de 132, confusão e frequência respiratória de 30 — e a pressão já caiu. Como a pressão é o último parâmetro a cair, hipotensão aqui significa perda que já passou de 30% da volemia: choque hemorrágico grave.
conduta do C
Dois acessos calibrosos, até 1 litro de cristaloide aquecido e sangue precoce: hipotensão no trauma não se trata com mais soro. Acionar o protocolo de transfusão maciça da instituição — proporções e adjuvantes estão no capítulo de choque hemorrágico desta apostila. E procurar sangue nos cinco lugares: FAST, radiografia de tórax e de pelve.
D
Glasgow 12 em paciente chocado é hipoperfusão até prova em contrário, não contusão cerebral. Verificar glicemia, reavaliar o Glasgow de forma seriada e checar pupilas. Se cair para 8 ou menos, a via aérea definitiva passa a estar indicada.
E
Despir por inteiro, rolar em bloco para ver o dorso, e cobrir imediatamente com manta. Cristaloide aquecido. O torniquete não dispensa procurar outras fontes de sangramento.
reavaliação
Se ele melhorar e voltar a piorar, é respondedor transitório: sangramento ativo, e o destino é centro cirúrgico. A avaliação secundária, com SAMPLA e exame da cabeça aos pés, só entra quando ele estiver respondendo.
07

Agora feche você

Mulher de 44 anos, atropelamento, chega intubada e ventilada pelo pré-hospitalar após rebaixamento de consciência na cena. À admissão: PA 96 x 60 mmHg, FC 118 bpm, saturação 96%. Durante a checagem da circulação, a equipe percebe queda súbita da saturação para 82%, PA em 70 x 40 mmHg e FC 140 bpm. Ao reexame: veias jugulares distendidas, murmúrio vesicular abolido à direita, tórax com expansão assimétrica.
achado
Deterioração aguda durante o C, com hipotensão, jugular túrgida, murmúrio abolido de um lado e assimetria de expansão.
leitura
Hipotensão com jugular distendida não é hipovolemia: hipovolemia colaba a jugular. É choque obstrutivo, e a ventilação com pressão positiva agrava um pneumotórax preexistente.
sequência
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Continuar a sequência quando a letra atual está matando A avaliação primária para na letra que ameaça a vida e só segue quando ela está resolvida. Alternativa que manda completar o exame antes de descomprimir um tórax ou comprimir um jato arterial está errada, por mais completa que pareça.
  2. 2Achar que xABCDE mudou a conduta O que a 11a edição fez foi escrever no algoritmo o que já se praticava. Torniquete em hemorragia exsanguinante de membro sempre foi a primeira ação. Não caia no distrator inverso, o de que agora se controla sangramento antes de tudo em qualquer paciente: o x é para hemorragia externa exsanguinante, não para o traumatizado genérico.
  3. 3Pedir imagem antes de tratar o que é diagnóstico clínico Pneumotórax hipertensivo, pneumotórax aberto, hemotórax maciço, tórax instável e tamponamento se identificam à beira do leito. Radiografia antes de descomprimir é o erro clássico do B.
  4. 4Dispensar a via aérea definitiva porque a saturação está boa Glasgow igual ou menor que 8 indica via aérea definitiva por perda dos reflexos protetores, e não por hipoxemia. Saturação de 98% em máscara não muda a indicação. Do outro lado, intubar sem repor volume no paciente exsanguinado é receita de parada peri-intubação, e a 11a edição orienta ressuscitar o choque antes de intubar.
  5. 5Encher de cristaloide No máximo 1 litro aquecido na fase inicial. Volumes acima de 1,5 L se associam a maior mortalidade. Quem não responde precisa de sangue e de controle do sangramento, não de mais soro: excesso de cristaloide dilui a coagulação, desloca coágulo e piora a acidose.
  6. 6Esperar a pressão cair para diagnosticar choque A pressão é o último sinal a cair: até 30% da volemia pode se perder com pressão ainda normal. Taquicardia, enchimento capilar lento, pele fria e ansiedade chegam antes. Em idoso betabloqueado, atleta, gestante e criança, os sinais vitais mentem por mais tempo ainda.
  7. 7Atribuir o rebaixamento ao trauma craniano cedo demais Confusão em paciente chocado é hipoperfusão até prova em contrário. Antes do crânio, elimine hipóxia, choque, hipoglicemia e drogas. Tratar a causa errada custa o paciente.
  8. 8Aplicar torniquete onde ele não alcança O torniquete serve para hemorragia externa compressível de membro. Sangramento em tórax, abdome, retroperitônio e pelve exige cirurgia ou angioembolização. Torniquete frouxo, por sua vez, piora o sangramento: bloqueia o retorno venoso e mantém o fluxo arterial.
  9. 9Começar a avaliação secundária cedo, ou atrasar a transferência por causa dela A secundária só entra depois da primária completa e com resposta à ressuscitação, e em paciente crítico algumas etapas são suprimidas. Paciente instável precisa de sala de cirurgia ou de transferência, não de exame da cabeça aos pés nem de tomografia.
  10. 10Esquecer a segunda metade do E Expor sem cobrir é iatrogenia. Hipotermia entra na tríade letal junto com acidose e coagulopatia. Manta, ambiente aquecido e cristaloide a 39 graus fazem parte do tratamento do sangramento, não do conforto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A sequência do ATLS na avaliação primária é ABCDE. Após A (via aérea com controle cervical) e B (respiração), o próximo passo é C (circulação com controle de hemorragia), especialmente diante de taquicardia e hipotensão sugestivas de choque. Avaliação neurológica e E (exposição) vêm depois. Tomografia é exame complementar, não faz parte da avaliação primária. Analgesia não é prioridade na sequência inicial de reanimação.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

A sequência inteira com o que cada letra avalia e trata, os três números que decidem sozinhos (Glasgow igual ou menor que 8 para via aérea definitiva, no máximo 1 litro de cristaloide aquecido e depois sangue, enchimento capilar até 2 segundos) e a regra que anula todas as outras: deteriorou, volta para o A.

em 30 dias

Os cinco lugares onde o sangue se esconde e os volumes que cabem em cada um; as regras completas do torniquete (largura, posição, aperto, hora anotada, prazo); as indicações de via aérea definitiva além do Glasgow; a divergência ABCDE contra xABCDE com o ano de cada documento e os sinais que identificam o recorte da banca; e a fronteira entre avaliação primária e secundária, incluindo o SAMPLA.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Motociclista politraumatizado com sangramento ativo em membro inferior — sala de emergência — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Atendimento inicial ao politraumatizado — Preparatório para provas | OsceLabs