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Cirurgia GeralTrauma

Trauma torácico grave

Trauma torácico com risco iminente de morte (pneumotórax hipertensivo, tamponamento, tórax instável)

As lesões torácicas que matam dentro da avaliação primária se diagnosticam com estetoscópio e mão, não com tomografia. Este capítulo é sobre reconhecê-las em segundos e resolvê-las com as mãos.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 45 anos é admitido após colisão automobilística com trauma torácico fechado. Está consciente, queixando-se de dispneia progressiva. Ao exame: PA 78x50 mmHg, FC 128 bpm, FR 32 ipm, SatO2 88% em máscara; há ausência de murmúrio vesicular e timpanismo à esquerda, desvio da traqueia para a direita e turgência jugular. Qual é a conduta imediata?

02

Como esse tema cai

Este capítulo cobre as lesões torácicas que precisam ser encontradas e tratadas dentro da avaliação primária — quer dizer, antes de o paciente sair da sala, antes do raio-X, antes de qualquer tomografia. São seis: obstrução de via aérea, lesão da árvore traqueobrônquica, pneumotórax hipertensivo, pneumotórax aberto, hemotórax maciço e tamponamento cardíaco. A parada cardiorrespiratória traumática entra como o desfecho de qualquer uma delas não reconhecida a tempo.

Fica de fora tudo o que é avaliação secundária: lesão traumática de aorta, contusão miocárdica, ruptura de diafragma, lesão de esôfago, pneumotórax simples e contusão pulmonar isolada. São lesões relevantes, mas nenhuma delas mata enquanto você ausculta — elas aparecem depois, com imagem, e vão para outro capítulo.

O eixo aqui é um só: reconhecer e agir em minutos. Todas as seis se diagnosticam à beira do leito, com inspeção, palpação, percussão e ausculta — e todas se resolvem com procedimento manual: agulha, dedo, dreno, curativo, bisturi. A tomografia só aparece neste capítulo quando muda conduta, e quase nunca muda: quem espera a imagem para tratar pneumotórax hipertensivo perde o paciente.

Vale calibrar a expectativa com dado brasileiro. Num serviço de referência do litoral catarinense, 89% dos traumas torácicos foram contusos, e entre todos os que precisaram de tratamento cirúrgico, 94,2% resolveram apenas com drenagem pleural fechada — só 5,7% foram à toracotomia (Rev Col Bras Cir, 2019). Ou seja: o procedimento que você mais vai fazer, e que mais salva, é o dreno de tórax. A toracotomia é a exceção, e existe um número que a indica. Você vai decorar esse número.

03

O que muda decisão

As seis lesões da avaliação primária — e onde cada uma trava

A lógica do ATLS não é anatômica, é fisiológica: cada lesão é caçada na letra que ela sabota. Em A (via aérea) moram a obstrução e a lesão traqueobrônquica. Em B (ventilação) moram o pneumotórax hipertensivo, o pneumotórax aberto e o hemotórax maciço. Em C (circulação) moram de novo o hemotórax maciço — porque ele é hemorragia antes de ser problema pulmonar —, o tamponamento cardíaco e a parada circulatória traumática. Se você memorizar a lista solta, erra a pergunta que diz 'qual lesão é identificada em B'. Se memorizar pela letra, acerta sempre.

A 11ª edição do ATLS (2025) mudou o mnemônico para xABCDE: o 'x' à frente é o controle imediato de hemorragia externa exsanguinante, que passa na frente até da via aérea. Isso não altera nada do que este capítulo ensina sobre o tórax — mas é a mudança de nomenclatura mais provável de cair em prova nova, e é de graça.

A hipóxia é a consequência mais grave do trauma torácico, e a intervenção precoce existe para preveni-la ou corrigi-la. Por isso as seis lesões são tratadas do modo mais rápido e mais simples possível: controle de via aérea, descompressão por agulha, toracostomia digital, drenagem em selo d'água. Nenhuma delas exige centro cirúrgico para o primeiro movimento.

Um detalhe que separa o candidato treinado do candidato apressado: sinal de lesão torácica grave não é só o achado exuberante. Aumento da frequência respiratória e mudança do padrão respiratório são sutis e são significativos. E cianose é sinal tardio de hipóxia no trauma — pode ser difícil de perceber em pele de pigmentação escura, e a ausência dela não garante oxigenação adequada. Cianose não é critério de gravidade; é atestado de atraso.

Pneumotórax hipertensivo: o diagnóstico que não pode esperar o raio-X

O ar entra no espaço pleural por um mecanismo de válvula unidirecional: entra na inspiração e não sai na expiração. A pressão sobe, o pulmão colaba, o mediastino é empurrado para o lado contralateral, as veias cavas dobram, o retorno venoso despenca e o débito cardíaco vai junto. O resultado é choque obstrutivo — e essa palavra importa, porque explica por que encher de volume não resolve e por que a resposta certa é sempre mecânica: tirar o ar.

A causa mais comum não é a facada. É a ventilação com pressão positiva em paciente com lesão pleural visceral. Todo paciente que você intuba e ventila com um pneumotórax simples subdiagnosticado é candidato a hipertensivo em minutos. Traduzindo para a prova: paciente estável que deteriora logo após a intubação ou o início da bolsa-válvula-máscara é pneumotórax hipertensivo até prova em contrário.

O diagnóstico é clínico. Não se atrasa o tratamento para conseguir confirmação radiológica — essa frase está no manual e é a alternativa correta em praticamente toda questão que oferece 'radiografia de tórax' como primeira conduta. O que muda é a apresentação conforme o paciente respira ou é ventilado: em respiração espontânea, taquipneia extrema e falta de ar dominam; em ventilação mecânica, o que aparece primeiro é colapso hemodinâmico.

Separe os achados em precoces e tardios, porque as bancas cobram exatamente isso. precoces: dor torácica, dispneia importante, taquipneia, taquicardia, murmúrio vesicular diminuído ou ausente no lado afetado, e percussão hipertimpânica (o protocolo federal brasileiro registra que o timpanismo aumenta, mas é de difícil detecção na cena). tardios: hipotensão, turgência de jugulares, desvio de traqueia para o lado contralateral e cianose. Esperar desvio de traqueia para diagnosticar é esperar demais — quando ele aparece, o paciente já está em choque descompensado.

Uma nota de calibração para quem vai prestar prova de pré-hospitalar: o protocolo AT12 do SAMU 192 exige, para rotular o quadro de pneumotórax hipertensivo, trauma torácico associado obrigatoriamente a sinais de choque descompensado (hipotensão). É um critério mais restritivo que o do ATLS, e existe por segurança: evita punção de tórax na cena em quadro que ainda não tensionou. Se o enunciado citar o protocolo do SAMU, siga o SAMU; se for enunciado hospitalar ou sem fonte, siga o ATLS.

Tórax masculino visto de frente, com o braço erguido expondo a parede lateral. Dois pontos marcam os locais de punção: o segundo espaço intercostal na linha hemiclavicular e o quinto espaço intercostal na linha axilar, onde uma agulha entra rente à borda superior da costela de baixo. Do lado puncionado, o pulmão aparece colabado junto à linha média e o mediastino desviado para o lado oposto.
Os dois pontos de descompressão e o desvio do mediastino. O ATLS coloca a agulha no 4º ou 5º espaço intercostal, entre a linha axilar anterior e a média — parede mais fina, menos falha. Em qualquer ponto, a agulha entra rente à BORDA SUPERIOR da costela de baixo: o feixe vasculonervoso corre na borda inferior da costela de cima.

Onde entra a agulha — e por que a resposta mudou

Até o ATLS 9 (2012), a descompressão era no 2º espaço intercostal, na linha hemiclavicular. O próprio manual já reconhecia o problema: espessura variável da parede torácica, dobramento do cateter e complicações técnicas ou anatômicas faziam o procedimento falhar. No 2º espaço a agulha precisa atravessar músculo peitoral e tecido subcutâneo — em adulto de tórax espesso, uma agulha curta simplesmente não chega à pleura, e você produz enfisema subcutâneo achando que descomprimiu.

O ATLS 10 (2018) mudou o ponto com base em estudos de cadáver: a descompressão por agulha no adulto passou para o 4º ou 5º espaço intercostal, na linha axilar média — na altura do mamilo no homem e do sulco inframamário na mulher. A parede é mais fina ali, e a taxa de sucesso é maior. Esta é a resposta que a banca espera hoje quando a questão diz ATLS ou não cita fonte nenhuma.

Três detalhes que valem ponto. Primeiro: a agulha entra rente À borda superior da costela de baixo, porque o feixe com artéria, veia e nervo intercostais corre na borda inferior da costela de cima. Segundo: o comprimento importa — o ATLS especifica cateter sobre agulha de 5 cm para adultos menores e 8 cm para adultos grandes; a meta-análise do WSES de 2025 mostrou que cada centímetro a mais de agulha reduz a falha em cerca de 7,76 pontos percentuais. Terceiro: em criança o ponto continua sendo o 2º espaço intercostal na linha hemiclavicular — a exceção pediátrica é armadilha clássica.

A punção falha com frequência incômoda. A meta-análise do WSES encontrou falha radiológica de penetração pleural em 32,84% das tentativas e falha clínica em 49,90%. Por isso existe o plano B, que o ATLS 10 já traz como alternativa formal: a toracostomia digital — incisão, dissecção romba até a pleura, perfuração com a pinça e varredura com o dedo enluvado. Quando dá certo, ela converte o pneumotórax hipertensivo em pneumotórax simples. Não hesite em ir para o dedo se a agulha não resolveu.

E aqui está a pergunta que mais derruba candidato: o que fazer depois da punção? Sempre drenagem torácica. A punção de alívio e a toracostomia digital são medidas temporárias; nenhuma das duas é tratamento definitivo. Após ambos os procedimentos, a drenagem em selo d'água é mandatória — e ela é feita no mesmo local da punção no adulto: 4º ou 5º espaço intercostal, entre a linha axilar anterior e a média. Retirar o cateter e observar é erro grave.

Sobre o calibre do dreno, houve atualização: para pneumotórax, a 11ª edição do ATLS admite que drenos de menor calibre (14 F) são tão eficazes quanto os grossos e menos dolorosos. Os calibrosos (28–32 F) ficam reservados para o hemotórax maciço, onde o que se drena é coágulo e sangue, não ar.

Tamponamento cardíaco: a tríade que quase nunca vem inteira

Sangue no saco pericárdico comprime o coração, o enchimento diastólico cai e o débito cardíaco despenca. Na grande maioria dos casos o mecanismo é penetrante — mas trauma contuso também enche o pericárdio com sangue vindo do coração, dos grandes vasos ou de vasos epicárdicos. O pericárdio é pouco complacente no agudo: pouco volume, instalado rápido, já tampona.

A tríade de Beck é hipotensão + turgência jugular + bulhas cardíacas abafadas. Decore-a, mas saiba por que ela falha na prática, porque isso é pergunta de prova: as bulhas abafadas são de avaliação quase impossível no barulho da sala de reanimação, e a turgência jugular pode estar ausente se o paciente estiver hipovolêmico por sangramento em outro sítio. Um politraumatizado com tamponamento e hemorragia abdominal pode ter jugulares planas. A tríade completa é a exceção, não a regra.

Os achados de apoio: pulso paradoxal — queda da pressão sistólica maior que 10 mmHg durante a inspiração, com o pulso radial diminuindo ou sumindo; sinal de Kussmaul — aumento da pressão venosa na inspiração em respiração espontânea, que é o comportamento paradoxal e é bem associado ao tamponamento; diminuição da voltagem no eletrocardiograma; e atividade elétrica sem pulso. AESP em traumatizado sem hipovolemia evidente e sem pneumotórax hipertensivo sugere tamponamento até prova em contrário.

A manobra mais barata da sala vem agora, e é o achado que mais aparece em prova. Pneumotórax hipertensivo — sobretudo à esquerda — mimetiza tamponamento: os dois dão hipotensão, jugular cheia e choque. O que separa é a percussão e o estetoscópio: percussão hipertimpânica com murmúrio abolido de um lado aponta pneumotórax hipertensivo; murmúrio vesicular presente nos dois lados aponta tamponamento. Você resolve o diferencial em cinco segundos, sem nenhum aparelho.

A confirmação, quando há tempo e máquina, é o FAST — a janela pericárdica do exame procura exatamente esse líquido. Mas o FAST confirma; não é ele que autoriza tratar. O tratamento definitivo, uma vez diagnosticado líquido pericárdico com repercussão, é toracotomia ou esternotomia de emergência, feita por cirurgião qualificado, o mais rápido possível — abre-se o pericárdio, descomprime-se e repara-se a lesão.

A pericardiocentese subxifoide é medida de último recurso, não tratamento definitivo. Ela existe para o cenário em que a cirurgia não é possível naquele momento. Se usada, o ideal é cateter sobre agulha calibroso ou técnica de Seldinger, mas a prioridade é aspirar o sangue — e as complicações da punção às cegas são comuns. Enquanto se prepara a cirurgia, infundir volume intravenoso aumenta a pressão de enchimento e compra minutos de débito cardíaco. Note a inversão em relação ao pneumotórax hipertensivo: aqui volume ajuda, ali não.

Hemotórax maciço: os dois números que indicam toracotomia

Hemotórax maciço é o acúmulo de mais de 1.500 mL de sangue em um hemitórax. Ele aparece em duas letras porque faz duas coisas ao mesmo tempo: comprime o pulmão e impede oxigenação e ventilação adequadas (B), e é hemorragia de grande volume dentro de uma cavidade que comporta muito sangue (C). A causa clássica é ferimento penetrante que rompe vaso sistêmico ou hilar, mas trauma contuso também produz.

As jugulares aqui contam uma história ambígua, e a banca gosta disso: podem estar planas por hipovolemia grave, ou distendidas se houver pneumotórax hipertensivo associado. Não use jugular para excluir hemotórax maciço. Use a percussão: macicez no hemitórax afetado com murmúrio ausente é a dupla que fecha o quadro à beira do leito — o oposto exato do hipertensivo, que é hipertimpânico.

O tratamento é simultâneo, e a ordem das palavras importa: restaurar volume E descomprimir a cavidade ao mesmo tempo. Acesso venoso calibroso, cristaloide, transfusão o quanto antes — e, quando houver dispositivo apropriado, o sangue drenado pode ser recolhido para autotransfusão. O dreno é único, calibroso (28–32 F), inserido no 5º espaço intercostal, anteriormente à linha axilar média.

Agora os dois números. primeiro: retorno imediato de 1.500 mL ou mais de sangue pelo dreno indica toracotomia urgente. segundo — e é este que separa quem estudou de quem decorou —: paciente com débito inicial abaixo de 1.500 mL, mas que continua sangrando, também pode precisar de toracotomia, e a decisão se apoia na taxa de perda contínua, que é de 200 mL/h por 2 a 4 horas. Some a isso o estado fisiológico do paciente e se o tórax foi completamente esvaziado de sangue. E a regra que fecha: necessidade persistente de transfusão é, por si só, indicação de toracotomia.

Duas advertências do manual que caem como pegadinha. A cor do sangue — tentar adivinhar se a fonte é arterial ou venosa — é mau indicador da necessidade de toracotomia; não decida por ela. E a geografia da ferida avisa antes do dreno: ferimentos torácicos penetrantes anteriores à linha do mamilo e mediais à escápula devem alertar para lesão de grandes vasos, estruturas hilares e coração, com potencial de tamponamento associado. Nessa zona, chame o cirurgião antes de precisar dele.

Pneumotórax aberto: o curativo de três pontas e a manobra de resgate

Uma ferida grande e aberta na parede torácica equaliza a pressão intratorácica com a atmosférica. Existe um número que define quando isso vira problema ventilatório grave: quando a abertura na parede tem cerca de dois terços do diâmetro da traqueia ou mais, o ar passa preferencialmente pelo buraco a cada inspiração, em vez de descer pela via aérea. A ventilação se perde, e vêm hipóxia e hipercapnia.

O tratamento inicial é mecânico e imediato: cobrir a ferida com curativo estéril grande o bastante para sobrepor as bordas — plástico ou papel metálico servem — e fixá-lo firmemente em apenas três lados. Isso cria um efeito de válvula unidirecional: na inspiração o curativo ocluí a ferida e impede a entrada de ar; na expiração a borda solta permite que o ar do espaço pleural escape.

Fixar os quatro lados sem que haja dreno de tórax no lugar converte o pneumotórax aberto em pneumotórax hipertensivo. Essa é a armadilha desenhada da questão: o candidato 'caprichoso' que sela tudo mata o paciente.

Daí decorre a manobra de resgate, que está tanto no ATLS quanto no protocolo AT11 do SAMU: se houver piora do esforço respiratório depois do curativo, considere que tensionou — remova o curativo para permitir a saída do ar acumulado e reposicione-o em seguida. É simples, é reversível e é a alternativa correta quando o enunciado descreve deterioração após o selamento.

O tratamento seguinte é dreno de tórax colocado longe da ferida, o mais rápido possível — nunca através dela. O fechamento cirúrgico definitivo da parede vem depois, e não é problema da avaliação primária.

Tórax instável: o inimigo não é o segmento solto, é o pulmão embaixo dele

Tórax instável é o segmento da parede torácica que perdeu continuidade óssea com o resto da caixa. O protocolo federal brasileiro (AT9) define assim: dois ou mais arcos costais adjacentes fraturados, cada um em pelo menos dois pontos — que é também a definição clínica do ATLS. Há uma definição concorrente, de três ou mais costelas, que vem do critério radiográfico e circula em material de anestesia; ela está no bloco de divergências. Para prova, use 'duas ou mais costelas contíguas, cada uma fraturada em dois ou mais pontos'.

O movimento paradoxal — o segmento afunda na inspiração e se projeta na expiração, ao contrário do resto do tórax — é o achado icônico, mas é sinal tardio. O protocolo brasileiro registra uma dica prática que vale ouro na estação prática e na prova de conduta: ele pode ser percebido precocemente à palpação do gradil costal, antes de ser visível. Palpe o tórax inteiro; não fique olhando.

Aqui está o conceito que o capítulo inteiro quer que você leve: o que descompensa esse paciente não é a mecânica do segmento solto. É a contusão pulmonar subjacente, mais a dor que impede de respirar fundo, tossir e mobilizar secreção. Essa é a razão de todas as condutas que vêm a seguir fazerem sentido — e a razão de a conduta errada ser mecânica.

O tamanho do problema, em números: acredita-se que o tórax instável ocorra em cerca de 10% das lesões de parede torácica, com mortalidade associada acima de 30%; uma revisão retrospectiva de trauma contuso de tórax encontrou 59% desse subgrupo necessitando de ventilação mecânica durante a internação. Fratura de cinco costelas ou mais associa-se a piores desfechos, e a idade é preditor independente de complicação — o idoso que cai da própria altura e quebra costelas não é caso banal.

Conduta que funciona: oxigênio em alto fluxo para manter saturação de pelo menos 94%; analgesia como pilar do tratamento, com abordagem multimodal e técnicas de anestesia regional (os bloqueios de plano fascial, como o do eretor da espinha, ganharam espaço); fisioterapia respiratória com espirometria de incentivo e higiene brônquica, que só funciona se a dor estiver controlada; e dreno de tórax se houver pneumotórax ou hemotórax associado. Volume com parcimônia: o protocolo AT9 adverte explicitamente que excesso de líquidos na reposição piora ventilação e oxigenação nesse paciente.

Duas proibições. não tente estabilizar o segmento afundado por qualquer meio — nada de faixa compressiva, peso, saco de areia ou esparadrapo em bloco; a ordem é literal no protocolo brasileiro, e a alternativa que propõe imobilizar o segmento está sempre errada. E não intube pelo movimento paradoxal em si: a intubação é indicada por falência respiratória — necessidade crescente de oxigênio, taquipneia que piora, elevação da PaCO2, fadiga. Paciente com segmento instável, bem analgesiado, saturando bem e com boa mecânica, é acompanhado de perto, não intubado por precaução.

Um cuidado extra: ventilação com pressão positiva aumenta o risco de pneumotórax nesse tórax já lesado. Ventile com atenção e reavalie — se o paciente piorar depois de você começar a pressão positiva, volte à seção do pneumotórax hipertensivo. A fixação cirúrgica das fraturas de costela é para uma minoria selecionada, e a literatura sugere redução do tempo de UTI e facilitação do desmame nesse subgrupo.

Dois desenhos do mesmo tórax lado a lado. No primeiro, a caixa torácica está expandida e o segmento costal solto afunda para dentro. No segundo, a caixa está contraída e o mesmo segmento se projeta para fora. Sob o segmento, o tecido pulmonar aparece com tom de contusão.
Movimento paradoxal: o segmento solto anda ao contrário do resto da caixa — e só fica visível tarde, quando à palpação já dava para sentir. O que descompensa o paciente, porém, é o pulmão contundido embaixo dele somado à dor que impede de respirar fundo.

Quando tudo falha: parada cardiorrespiratória traumática

Traumatizado inconsciente e sem pulso — em AESP, fibrilação ventricular ou assistolia — está em parada cardiorrespiratória traumática. Identificada a parada, não se atrasa o manejo para obter eletrocardiograma ou ecocardiograma. Isso é regra explícita.

A sequência: reanimação cardiopulmonar fechada simultânea ao ABC; via aérea definitiva por intubação orotraqueal, sem indução em sequência rápida (o paciente já está inconsciente); ventilação mecânica com oxigênio a 100%.

E então o passo que é a razão de este parágrafo estar num capítulo de trauma torácico: para aliviar um possível pneumotórax hipertensivo, faça toracostomias bilaterais, de dedo ou de tubo — não é necessária anestesia local, porque o paciente está inconsciente. Você não procura o pneumotórax hipertensivo na parada traumática; você o exclui abrindo os dois lados. Essa é a alternativa correta em questões de PCR traumática.

Em seguida: monitorização contínua de eletrocardiograma e saturação, reposição volêmica rápida por acesso calibroso ou intraósseo, epinefrina 1 mg e, se houver fibrilação ventricular, tratamento conforme o ACLS. Sem retorno da circulação espontânea, a toracotomia de reanimação com pericardiotomia — para corrigir tamponamento, se presente — deve acontecer em até cerca de 3 minutos, e exige cirurgião presente. O algoritmo do ATLS define a constatação de morte após 30 minutos de reanimação com temperatura acima de 33 °C: abaixo disso, a hipotermia protege e a reanimação continua.

04

As cinco lesões torácicas de risco iminente, uma a uma

Nenhuma dessas lesões precisa de imagem para ser tratada, e todas têm um achado que as fecha à beira do leito e uma primeira ação manual. Percorra o fluxo na ordem — ele é a avaliação primária aplicada ao tórax — e use a tabela como a folha que você revisa na véspera. Os cards são as lesões, não graus de gravidade: não existe escala ordinal aqui.

  1. 1Exponha o tórax e o pescoço por inteiro. Se precisar afrouxar o colar cervical, alguém segura a cabeça e limita o movimento enquanto isso.
  2. 2OLHE: expansibilidade simétrica? Há segmento com movimento paradoxal? Há ferida soprante? Jugulares cheias ou planas? Traqueia centrada?
  3. 3PALPE o gradil costal inteiro — crepitação óssea, enfisema subcutâneo e instabilidade de segmento aparecem antes na mão do que no olho.
  4. 4PERCUTA: hipertimpanismo aponta ar sob pressão; macicez aponta sangue. É a manobra que separa pneumotórax hipertensivo de hemotórax maciço e de tamponamento.
  5. 5AUSCULTE os dois lados. Murmúrio abolido de um lado + hipertimpanismo = descomprima AGORA. Murmúrio presente nos dois lados + choque com jugular cheia = pense tamponamento.
  6. 6Trate o que achou, na hora, sem imagem: agulha ou dedo no pneumotórax hipertensivo; curativo de três pontas no aberto; dreno calibroso no hemotórax maciço; cirurgião e sala para o tamponamento.
  7. 7Depois de qualquer punção ou toracostomia digital, instale o dreno em selo d'água — a medida temporária nunca fica sozinha.
  8. 8Reavalie. Piora após intubação, após ventilação com pressão positiva ou após selar um pneumotórax aberto significa pneumotórax hipertensivo até prova em contrário.
  9. 9Só então peça a radiografia — para checar posicionamento de dreno e procurar o que não é da avaliação primária.

Pneumotórax hipertensivo

Ar entra e não sai; o mediastino é empurrado e o retorno venoso cai — choque obstrutivo. Murmúrio abolido + hipertimpanismo de um lado; jugular cheia e desvio de traqueia são TARDIOS. Diagnóstico clínico: não espere raio-X. Descomprima com agulha (4º–5º EIC, linha axilar; 5 a 8 cm) ou com o dedo, e drene em seguida — sempre.

Pneumotórax aberto

Ferida soprante com cerca de dois terços do diâmetro da traqueia ou mais: o ar prefere o buraco à via aérea. Cubra com curativo estéril fixado em TRÊS lados — válvula unidirecional. Selar os quatro lados sem dreno cria um hipertensivo. Se piorar depois do curativo, solte-o e reposicione. Dreno definitivo longe da ferida.

Hemotórax maciço

Mais de 1.500 mL num hemitórax. Macicez + murmúrio abolido; jugulares planas (hipovolemia) OU cheias (se houver hipertensivo junto). Dreno único calibroso, 28–32 F, no 5º EIC anterior à linha axilar média, com volume e sangue correndo junto. Toracotomia se saírem 1.500 mL de imediato, ou 200 mL/h por 2 a 4 horas.

Tamponamento cardíaco

Sangue no pericárdio impede o enchimento. Tríade de Beck (hipotensão + jugular cheia + bulhas abafadas) raramente vem completa; some pulso paradoxal acima de 10 mmHg, Kussmaul, baixa voltagem no ECG e AESP. Murmúrio presente nos dois lados o separa do hipertensivo. FAST confirma; o tratamento é toracotomia ou esternotomia — pericardiocentese é último recurso.

Tórax instável

Duas ou mais costelas contíguas, cada uma quebrada em dois pontos: o segmento perde continuidade e anda ao contrário. Movimento paradoxal é TARDIO — a palpação pega antes. Quem descompensa o paciente é a contusão pulmonar embaixo e a dor. Analgesia, oxigênio, fisioterapia, volume com parcimônia. Nunca imobilize o segmento; intube por falência respiratória, não pelo paradoxo.

LesãoO que fecha à beira do leitoPrimeira ação, sem imagemNúmero que decide
Pneumotórax hipertensivoMurmúrio abolido + percussão hipertimpânica de um lado; jugular cheia e desvio de traqueia (tardios); piora após ventilação com pressão positivaDescompressão por agulha; se falhar, toracostomia digital — e drenagem em selo d'água DEPOIS, sempre4º ou 5º EIC, linha axilar (adulto); 2º EIC hemiclavicular (criança); cateter de 5 cm (adulto pequeno) a 8 cm (adulto grande)
Pneumotórax abertoFerida soprante com passagem visível de ar; murmúrio diminuído do lado da feridaCurativo oclusivo fixado em três lados; se piorar, soltar e reposicionar; dreno longe da feridaFerida com cerca de 2/3 do diâmetro da traqueia ou mais já desvia o fluxo de ar
Hemotórax maciçoMacicez à percussão + murmúrio abolido; jugulares planas por hipovolemia ou cheias se houver hipertensivo juntoDreno único calibroso no 5º EIC anterior à linha axilar média, com reposição volêmica e transfusão simultâneasMais de 1.500 mL no hemitórax; toracotomia se 1.500 mL de imediato OU 200 mL/h por 2 a 4 horas
Tamponamento cardíacoChoque com jugular cheia E murmúrio presente nos dois lados; pulso paradoxal; bulhas abafadas; AESP sem hipovolemia; FAST com líquido pericárdicoCirurgião e sala: toracotomia ou esternotomia com pericardiotomia; volume enquanto se preparaPulso paradoxal = queda da sistólica acima de 10 mmHg na inspiração; pericardiocentese é último recurso, não tratamento
Tórax instávelSegmento com movimento paradoxal (tardio) ou instabilidade à palpação; crepitação óssea; enfisema subcutâneoOxigênio, analgesia multimodal e regional, fisioterapia respiratória, volume contido; drenar pneumo/hemotórax associado2 ou mais costelas contíguas fraturadas em 2 ou mais pontos; mortalidade acima de 30%; 59% acabam em ventilação mecânica
PCR traumáticaInconsciente e sem pulso após trauma (AESP, FV ou assistolia) — não atrase para pedir ECG ou ecoRCP + via aérea definitiva sem sequência rápida + O2 a 100% + TORACOSTOMIAS BILATERAIS de dedo ou tuboEpinefrina 1 mg; toracotomia de reanimação em até cerca de 3 minutos; constatação de morte após 30 minutos com temperatura acima de 33 °C

A percussão é a manobra mais subestimada da sala: hipertimpanismo aponta ar sob pressão, macicez aponta sangue. Ela sozinha separa as três lesões que dão choque com o mesmo aspecto geral.

Punção de alívio e toracostomia digital são MEDIDAS TEMPORÁRIAS. Convertem o hipertensivo em pneumotórax simples e obrigam a drenagem em selo d'água na sequência. Retirar o cateter e observar é erro.

Volume ajuda no tamponamento (aumenta a pressão de enchimento enquanto se prepara a cirurgia) e atrapalha no tórax instável (piora ventilação e oxigenação). Mesma sala, sentidos opostos.

Alvo de oxigenação nos protocolos brasileiros de trauma torácico: saturação de pelo menos 94% com oxigênio em alto fluxo.

Ferimento penetrante anterior à linha do mamilo ou medial à escápula é zona de grandes vasos, hilo e coração — chame o cirurgião antes de o dreno confirmar.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde puncionar o pneumotórax hipertensivo: 2º espaço intercostal na linha hemiclavicular ou 5º espaço intercostal na linha axilar

5º EIC na linha axilar

Descompressão por agulha no 4º ou 5º espaço intercostal, perpendicular à linha axilar média — na altura do mamilo no homem e do sulco inframamário na mulher —, com cateter sobre agulha de 5 cm em adultos menores e 8 cm em adultos grandes. A mudança veio de estudos em cadáver que mostraram acesso mais fácil e maior efetividade em relação ao 2º EIC, cuja falha se explica pela espessura variável da parede (o trajeto atravessa peitoral e subcutâneo) e pelo dobramento do cateter. Em CRIANÇA, mantém-se o 2º EIC na linha hemiclavicular. A 11ª edição (2025) passou a admitir explicitamente os dois pontos, mas seguiu enfatizando o axilar no adulto.

ATLS 10ª ed. (ACS, 2018), lido em Amaral JSP et al., Research, Society and Development 2023;12(13):e60121343787; mudanças da 11ª ed. em Lopes OFA et al. (anais, 2025)

2º ou 3º EIC na linha hemiclavicular (norma federal brasileira)

O protocolo AP11 (Punção de descompressão) manda identificar o referencial anatômico no 2º ou 3º espaço intercostal, na linha médio-clavicular/hemiclavicular, inserindo cateter sobre agulha calibroso 14G com no mínimo 5 cm de comprimento, na borda SUPERIOR da costela inferior, em ângulo de 90° com a pele. É a conduta prescrita para o SAMU 192 em todo o país. Vale notar a data: o protocolo é de 2014–2016, anterior ao ATLS 10 (2018) — a divergência é, em boa parte, defasagem de revisão, não discordância técnica deliberada.

Ministério da Saúde — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolo AP11 (Brasília, 2014, rev. 2016)

Agulha de 7 cm, com o lado decidindo o ponto (meta-análise WSES 2025)

Propõe agulha de 7 cm como padrão e inverte parte da lógica: para pneumotórax à DIREITA, 2º EIC hemiclavicular ou 5º EIC axilar média; para pneumotórax à ESQUERDA, preferir o 2º EIC hemiclavicular, por causa da correlação forte entre comprimento de agulha e lesão cardíaca nos pontos axilares. Quantifica o problema real: falha radiológica de 32,84% e falha clínica de 49,90%, com queda de cerca de 7,76 pontos percentuais de falha para cada centímetro a mais de agulha. Não é diretriz — é proposta de consenso a partir dos dados.

Ahmad SJS et al., World Journal of Emergency Surgery (WSES) 2025;20:39

Na prova

A diferença central é de data, não de mérito. O ATLS mudou o ponto da descompressão por agulha para o 4º ou 5º espaço intercostal na linha axilar a partir da 10ª edição (2018), por estudos em cadáver que explicaram a falha do 2º EIC pela espessura variável da parede e pelo dobramento do cateter (5 cm em adultos menores, 8 cm em adultos grandes); os Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, protocolo AP11 (2014, rev. 2016), são anteriores a essa edição e descrevem o 2º ou 3º EIC na linha hemiclavicular, com cateter 14G de no mínimo 5 cm. Citação nominal ao ATLS, cenário de sala de emergência ou ausência de fonte no enunciado apontam o ponto axilar; menção explícita ao SAMU 192, ao Ministério da Saúde ou a atendimento pré-hospitalar aponta a hemiclavicular. Duas ressalvas que não são divergência: em CRIANÇA o próprio ATLS mantém o 2º EIC na linha hemiclavicular, e a 11ª edição (2025) passou a admitir os dois pontos, ainda enfatizando o axilar no adulto. Alternativa com agulha de 7 cm ou com o lado da lesão decidindo o ponto vem da proposta de consenso do WSES (2025), que quantifica o problema real — falha radiológica de 32,84%, falha clínica de 49,90%, cerca de 7,76 pontos percentuais de falha a menos por centímetro de agulha —; é literatura, não diretriz, e sua presença sinaliza uma questão escrita a partir do estado da arte. Em qualquer ponto, a agulha entra rente à borda SUPERIOR da costela de baixo: os dois documentos concordam nisso, porque é na borda inferior da costela de cima que corre o feixe intercostal.

Definição de tórax instável: duas ou três costelas?

Duas ou mais costelas contíguas, cada uma em dois pontos

Critério clínico: trauma torácico com dois ou mais arcos costais adjacentes fraturados, cada arco em pelo menos dois pontos, produzindo segmento sem continuidade óssea com o resto da caixa. É a definição do protocolo federal brasileiro e coincide com a definição clínica do ATLS. O achado que a confirma é o movimento paradoxal — que o próprio protocolo classifica como sinal TARDIO, detectável mais cedo pela palpação do gradil costal.

Ministério da Saúde — Protocolos SAMU 192 / SAV, protocolo AT9 (Tórax instável)

Três ou mais costelas fraturadas em mais de um ponto

Define tórax instável como fratura de 3 ou mais costelas em mais de um lugar. É o critério RADIOGRÁFICO, mais restritivo, comum em material de anestesia e de manejo de fraturas de costela. O mesmo documento traz os números de gravidade que este capítulo usa: mortalidade associada acima de 30%, cerca de 59% precisando de ventilação mecânica e fratura de 5 costelas ou mais como marcador de pior desfecho.

WFSA/ATOTW 424 — McLaughlin D., Conduta em fraturas traumáticas de costelas (2020), tradução da Sociedade Brasileira de Anestesiologia

Na prova

Os dois critérios convergem mais do que parece, porque medem coisas diferentes: dois ou mais arcos costais adjacentes fraturados, cada um em pelo menos dois pontos, é ao mesmo tempo a definição do protocolo federal do SAMU (AT9) e a definição CLÍNICA do ATLS; três ou mais costelas fraturadas em mais de um lugar é o critério RADIOGRÁFICO, mais restritivo, vindo de material de anestesia e manejo de fratura de costela (WFSA/ATOTW 424, 2020, traduzido pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia). Cada um está correto no seu registro — um descreve o que se vê e se palpa no paciente, o outro o que se conta no filme —, e as palavras 'radiográfico', 'tomografia' ou um contexto de analgesia e manejo de fraturas costais denunciam qual registro a questão adotou. Na prática, a contagem de costelas quase nunca é o miolo: o que se cobra é que o movimento paradoxal é sinal TARDIO (a palpação do gradil detecta antes), que o vilão é a contusão pulmonar subjacente, que o segmento não se imobiliza e que a intubação se decide por falência respiratória, não pelo paradoxo em si. Os números de gravidade do documento de anestesia — mortalidade acima de 30%, cerca de 59% precisando de ventilação mecânica, cinco costelas ou mais como marcador de pior desfecho — não são disputados por nenhum dos lados.

Tamponamento cardíaco: pericardiocentese ou toracotomia?

Toracotomia ou esternotomia de emergência

Diagnosticado líquido pericárdico com repercussão, a conduta é toracotomia ou esternotomia de emergência, por cirurgião qualificado, o mais rápido possível — descomprime e repara. A pericardiocentese subxifoide fica como medida salva-vidas de ÚLTIMO RECURSO, para o cenário em que a intervenção cirúrgica não é possível: pode ser terapêutica, mas não constitui tratamento definitivo, e as complicações da punção às cegas são comuns. Enquanto se prepara a sala, volume intravenoso aumenta a pressão venosa e melhora a função cardíaca.

ATLS 10ª ed. (ACS, 2018), lido em Amaral JSP et al., Research, Society and Development 2023;12(13):e60121343787

No pré-hospitalar, nem uma coisa nem outra: volume e transporte

O protocolo AT15 do SAMU 192 não prevê punção pericárdica na cena. A conduta prescrita é oxigênio para saturação de pelo menos 94%, via aérea avançada se necessário, monitorização cardíaca contínua, acesso venoso, reposição volêmica RÁPIDA durante o transporte e contato com a Regulação Médica para definir o destino. Ou seja: no ambiente pré-hospitalar brasileiro, a decisão é transportar rápido para onde exista cirurgião, não puncionar o pericárdio.

Ministério da Saúde — Protocolos SAMU 192 / SAV, protocolo AT15 (Tamponamento cardíaco)

Na prova

Os dois documentos concordam no mérito — o que resolve tamponamento é abrir o tórax — e divergem no que cada cenário tem à mão. O ATLS 10ª ed. descreve toracotomia ou esternotomia de emergência por cirurgião qualificado, com volume intravenoso enquanto a sala se prepara, e coloca a pericardiocentese subxifoide como medida de ÚLTIMO RECURSO para quando a intervenção cirúrgica não é possível: pode ser terapêutica, nunca definitiva, e a punção às cegas tem complicações comuns. O protocolo AT15 do SAMU 192 não prevê punção na cena — oxigênio para saturação de pelo menos 94%, via aérea avançada se necessário, monitorização cardíaca contínua, acesso venoso, reposição volêmica rápida durante o transporte e contato com a Regulação Médica para definir o destino —, o que reflete o que uma ambulância tem, não uma discordância técnica. O cenário é o sinal decisivo: via pública, ambulância e equipe do SAMU apontam o corpo pré-hospitalar brasileiro; FAST com líquido pericárdico, paciente chocado e cirurgião disponível apontam a conduta cirúrgica do ATLS; e a alternativa que declara explicitamente a ausência de cirurgião ou de centro cirúrgico está construindo o cenário de exceção em que a punção entra como ponte. O único enunciado que os dois corpos reprovam junto é 'pericardiocentese é o tratamento definitivo do tamponamento'.

06

Caso resolvido

Homem de 27 anos, motociclista, colisão contra poste em alta velocidade. Chega à sala de emergência consciente, agitado, com dor torácica à direita e escoriações no hemitórax direito. Frequência respiratória 34, saturação 89% em máscara não reinalante, pressão arterial 118/76 mmHg, frequência cardíaca 122 bpm. Murmúrio vesicular diminuído à direita. Pela hipoxemia e pela agitação crescente, a equipe decide intubar. Dois minutos depois da intubação e do início da ventilação com pressão positiva, a pressão cai para 72/40 mmHg, a frequência cardíaca vai a 140 bpm, fica muito difícil ventilar o paciente com o ambu e a saturação despenca para 78%.
achado
Deterioração hemodinâmica e ventilatória INSTALADA LOGO APÓS a intubação e o início da pressão positiva, em paciente que já tinha murmúrio diminuído de um lado. Esse encadeamento é a assinatura do pneumotórax hipertensivo — a causa mais comum é justamente a ventilação com pressão positiva em quem tem lesão pleural visceral.
exame
Ausculta e percussão à beira do leito: murmúrio agora ABOLIDO à direita, percussão hipertimpânica desse lado, jugulares distendidas. Traqueia ainda centrada — o que não tranquiliza ninguém, porque desvio de traqueia é sinal tardio. A percussão hipertimpânica com murmúrio abolido de um só lado já exclui tamponamento, que cursaria com murmúrio presente nos dois lados.
raciocínio
É choque OBSTRUTIVO: o ar sob pressão empurrou o mediastino, dobrou as cavas e cortou o retorno venoso. Volume não resolve isso. O diagnóstico é clínico e o manual é explícito: não se atrasa o tratamento para obter confirmação radiológica. Pedir raio-X aqui é a conduta errada — e é a alternativa que a banca oferece como armadilha.
conduta
Descompressão torácica imediata à direita: cateter sobre agulha de 8 cm (adulto de porte grande) no 5º espaço intercostal, na linha axilar, entrando RENTE À BORDA SUPERIOR DA COSTELA DE BAIXO. Sai ar sob pressão, a pressão arterial sobe para 104/68 mmHg e a ventilação com o ambu volta a ser possível.
conduta
A punção converteu o hipertensivo em pneumotórax simples — não é tratamento definitivo. Na sequência, drenagem torácica em selo d'água no mesmo local: 5º espaço intercostal, anteriormente à linha axilar média. Só DEPOIS de tudo isso é que se pede a radiografia de tórax, para conferir o posicionamento do dreno e reavaliar o paciente.
armadilha evitada
Se a agulha não tivesse resolvido — o que acontece em quase metade das tentativas —, o passo seguinte NÃO seria repetir a punção nem correr para a imagem: seria toracostomia digital, com incisão, dissecção romba, perfuração da pleura com a pinça e varredura com o dedo enluvado, seguida do dreno.
07

Agora feche você

Homem de 34 anos trazido pelo SAMU após ferimento por arma branca no hemitórax esquerdo, com orifício de entrada 3 cm à esquerda do esterno, no 4º espaço intercostal — portanto anterior à linha do mamilo. Chega pálido, sudoreico, consciente mas confuso. Pressão arterial 78/62 mmHg, frequência cardíaca 138 bpm, frequência respiratória 30, saturação 94%. Jugulares nitidamente distendidas. À ausculta, murmúrio vesicular PRESENTE e simétrico nos dois hemitórax; percussão sem alterações. As bulhas parecem abafadas, mas a sala está barulhenta. Acessos calibrosos instalados; após 1.000 mL de cristaloide a pressão sobe apenas transitoriamente. O FAST realizado na sala mostra líquido no saco pericárdico. Há cirurgião de trauma no hospital e centro cirúrgico disponível.
achado
Ferimento penetrante em zona de alerta — anterior à linha do mamilo —, choque com jugular distendida e resposta apenas transitória a volume. A geografia da ferida já obriga a pensar em coração, hilo e grandes vasos.
achado
Murmúrio vesicular PRESENTE e simétrico nos dois lados, com percussão normal. Este é o achado que desmonta o principal diferencial: pneumotórax hipertensivo à esquerda mimetiza tamponamento, mas cursaria com murmúrio abolido e percussão hipertimpânica de um lado.
raciocínio
Tríade de Beck praticamente montada (hipotensão + turgência jugular + bulhas que parecem abafadas), com a ressalva conhecida de que as bulhas são difíceis de avaliar no barulho da sala. O FAST com líquido pericárdico confirma o que o exame já apontava.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir radiografia antes de descomprimir É o erro mais cobrado do tema. O pneumotórax hipertensivo é diagnóstico CLÍNICO e o manual diz literalmente que não se deve atrasar o tratamento para obter confirmação radiológica. Sempre que a alternativa 'radiografia de tórax' aparecer como primeira conduta num quadro com murmúrio abolido, hipertimpanismo e choque, ela é o distrator. A imagem vem depois do dreno, para checar posicionamento.
  2. 2Puncionar e achar que acabou A punção de alívio e a toracostomia digital convertem o pneumotórax hipertensivo em pneumotórax SIMPLES. Nenhuma das duas é tratamento definitivo: a drenagem em selo d'água na sequência é mandatória. Retirar o cateter e observar, ou dar alta após radiografia 'melhorada', é erro grave — e é alternativa comum.
  3. 3Selar o pneumotórax aberto pelos quatro lados O curativo tem que ficar em três lados para funcionar como válvula unidirecional: fecha na inspiração, deixa sair na expiração. Fixar os quatro lados sem que haja dreno no tórax transforma o pneumotórax aberto em hipertensivo. E se o paciente piorar depois do curativo, a conduta é SOLTAR o curativo para o ar sair e reposicioná-lo — não é aumentar a FiO2 nem apertar mais.
  4. 4Confundir hipertensivo com tamponamento (e vice-versa) Os dois dão hipotensão, taquicardia e jugular cheia, e o pneumotórax hipertensivo à esquerda mimetiza tamponamento de propósito nas questões. A chave é gratuita: percussão hipertimpânica com murmúrio abolido de um lado = pneumotórax hipertensivo; murmúrio presente nos DOIS lados = tamponamento. E lembre da inversão terapêutica: volume ajuda no tamponamento e não resolve nada no hipertensivo.
  5. 5Esperar a tríade de Beck completa Ela raramente vem inteira. As bulhas abafadas são quase inavaliáveis no barulho da reanimação, e a turgência jugular PODE FALTAR se o paciente estiver hipovolêmico por sangramento em outro sítio. Politraumatizado com tamponamento e hemorragia abdominal pode ter jugulares planas. Tríade incompleta não afasta o diagnóstico.
  6. 6Parar no primeiro número do hemotórax maciço Quase todo mundo decora os 1.500 mL de saída imediata. A questão difícil usa o segundo critério: débito inicial abaixo de 1.500 mL, mas perda mantida de 200 mL/h por 2 a 4 horas — também indica toracotomia. Some a isso a necessidade persistente de transfusão, que por si só indica cirurgia. E ignore a cor do sangue: o manual diz explicitamente que ela é mau indicador.
  7. 7Imobilizar o segmento do tórax instável ou intubar pelo movimento paradoxal O protocolo brasileiro é literal: não realizar tentativas de estabilização do segmento afundado por qualquer meio. Faixa, peso e esparadrapo em bloco restringem ainda mais a ventilação. E a intubação é indicada por falência respiratória — hipoxemia refratária, taquipneia progressiva, PaCO2 subindo, fadiga —, não pela presença do paradoxo. O tratamento que muda desfecho é analgesia mais fisioterapia respiratória.
  8. 8Encharcar de volume o tórax instável Contusão pulmonar não gosta de líquido. O protocolo AT9 adverte que excesso de líquidos na reposição volêmica piora a ventilação e a oxigenação nesse paciente. Reposição é titulada pela perfusão, não por rotina — e é exatamente o oposto da conduta no tamponamento, onde volume compra tempo.
  9. 9Esquecer a exceção pediátrica da punção A migração para o 4º ou 5º espaço intercostal na linha axilar vale para ADULTO, e o motivo é a espessura da parede. Em criança, o próprio ATLS mantém o 2º espaço intercostal na linha hemiclavicular. Enunciado com paciente pediátrico e alternativa 'quinto espaço na linha axilar' é armadilha montada.
  10. 10Procurar pneumotórax hipertensivo na parada traumática Na PCR traumática não se investiga: exclui-se. A conduta é toracostomia bilateral, de dedo ou de tubo, sem anestesia local (o paciente está inconsciente), junto com RCP, via aérea definitiva sem sequência rápida e O2 a 100%. Também não se atrasa o manejo para obter ECG ou ecocardiograma.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é de pneumotórax hipertensivo (hipotensão, taquicardia, desvio traqueal contralateral, turgência jugular, timpanismo/ausência de MV), diagnóstico clínico que exige descompressão imediata (agulha ou toracostomia digital) seguida de drenagem, sem aguardar imagem. Radiografia atrasa o tratamento de uma emergência que mata em minutos. Pericardiocentese trata tamponamento (bulhas abafadas, sem timpanismo/desvio traqueal). Ventilação com pressão positiva agrava o pneumotórax hipertensivo. Volume isoladamente não corrige a compressão mecânica das estruturas mediastinais.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite de memória, sem consultar: as seis lesões da avaliação primária e em que letra cada uma trava (A: obstrução e lesão traqueobrônquica; B: hipertensivo, aberto e hemotórax maciço; C: hemotórax maciço, tamponamento e parada traumática). Depois escreva os números-âncora: ponto da punção no adulto (4º ou 5º EIC, linha axilar) e na criança (2º EIC, hemiclavicular); comprimento do cateter (5 cm adulto pequeno, 8 cm adulto grande); calibre do dreno de hemotórax (28–32 F) e o local (5º EIC anterior à linha axilar média); hemotórax maciço acima de 1.500 mL; toracotomia por 1.500 mL imediatos OU 200 mL/h por 2 a 4 horas; pulso paradoxal acima de 10 mmHg; ferida de 2/3 do diâmetro traqueal; tórax instável com 2 ou mais costelas contíguas em 2 ou mais pontos. Por fim, diga em voz alta a frase que separa hipertensivo de tamponamento: hipertimpânico com murmúrio abolido de um lado é ar; murmúrio nos dois lados é pericárdio.

em 30 dias

Simule três cenários, escrevendo a conduta completa em até cinco linhas cada, sem consultar: (1) paciente que deteriora dois minutos depois de você intubar — diga o diagnóstico, o procedimento imediato, o ponto anatômico com a borda da costela correta e o que obrigatoriamente vem depois; (2) dreno de tórax que saiu 900 mL de imediato e mantém 250 mL/h há três horas, paciente transfundido e 'estável' — diga se opera e por qual critério exato; (3) facada precordial com choque, jugular cheia e murmúrio presente nos dois lados, com cirurgião no hospital — diga a conduta definitiva e por que a pericardiocentese não é. Depois revise as três divergências do capítulo e formule, para cada uma, a regra de decisão em uma frase: o que muda a resposta é a FONTE citada no enunciado (ATLS × protocolo do SAMU), a IDADE do paciente (adulto × criança) e o CENÁRIO (intra-hospitalar com cirurgião × pré-hospitalar).

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 31 anos chega à sala vermelha após capotamento, consciente, taquipneico e com dor no hemitórax esquerdo. Conduza a avaliação primária focada no tórax: exponha, olhe, palpe, percuta e ausculte antes de pedir qualquer exame — e decida, com o que achou nas mãos, o que precisa ser feito nos próximos dois minutos. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Trauma torácico com risco iminente de morte – Trauma torácico grave — Preparatório para provas | OsceLabs