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Cirurgia GeralTrauma

Cirurgia de controle de danos: a operação que escolhe não terminar

Cirurgia de controle de danos no trauma abdominal: quando abreviar a laparotomia, o que se faz dentro dela e quando voltar

Três atos, uma troca: anatomia por tempo

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Um serviço discute os critérios para indicar cirurgia de controle de danos. Um residente afirma que existe um ponto de corte consensual de pH e de temperatura na literatura brasileira. Qual é a afirmação correta sobre esses critérios?

02

Como esse tema cai

Deste capítulo sai uma decisão que quase nunca aparece com o nome dela no enunciado: a de interromper uma operação pela metade. O cenário é sempre o mesmo — trauma abdominal grave, laparotomia em andamento, e um paciente que esfria, acidifica e sangra de toda parte. A pergunta não é qual lesão reparar. É se ainda dá tempo de reparar alguma.

O eixo é a troca entre anatomia e fisiologia. Quem responde bem entende que a operação abreviada não é uma cirurgia incompleta, e sim o primeiro de três atos: sair da sala com hemorragia e contaminação contidas, corrigir o meio interno na terapia intensiva e voltar para fazer o reparo definitivo quando o doente aguentar.

O capítulo percorre os três atos com a técnica de cada um: como se tampona de verdade, o que se liga e o que nunca se liga, por que não se faz anastomose no primeiro tempo, como se fecha uma parede que precisa reabrir, o que a terapia intensiva tem de entregar e o que manda voltar antes da hora.

No fim há a conta que raramente se faz: quanto essa estratégia cobra em parede aberta, fístula e hérnia, e o que uma casuística brasileira mostrou sobre quantos pacientes de fato chegam à reoperação programada. Indicar bem é indicar para quem não sobreviveria à operação inteira — e para mais ninguém.

03

O que muda decisão

A operação que a lesão pede e o paciente que não a suporta

Há um momento, dentro de uma laparotomia por trauma, em que duas contas deixam de fechar juntas. De um lado está o que as lesões exigem: uma ressecção regrada aqui, uma anastomose ali, um reparo vascular que leva mais de uma hora. Do outro está o que o corpo ainda aguenta: um paciente que esfria, que acidifica e que já não forma coágulo em lugar nenhum. Quando as duas contas se separam, insistir na operação completa é escolher a anatomia contra a fisiologia — e a fisiologia cobra primeiro.

A saída é uma decisão deliberada de não terminar. O cirurgião abrevia: controla hemorragia, contém contaminação, fecha o abdome de mentira e leva o paciente para a terapia intensiva. Ali, o que se corrige não são as lesões, é o meio interno. Vinte e quatro a quarenta e oito horas depois, com o doente aquecido e coagulando, ele volta à sala e a operação verdadeira acontece. O nome brasileiro mais antigo dessa manobra descreve exatamente o que ela é: laparotomia abreviada.

A ideia não nasceu no trauma moderno. Pringle deixou compressas ao redor de um fígado esmagado no começo do século passado porque não havia mais nada a fazer, e Halsted juntou faixas de borracha às compressas pouco depois. O que mudou nos anos oitenta foi a medida do efeito: numa série de pacientes exsanguinantes que desenvolviam coagulopatia durante a laparotomia, interromper a operação assim que o sangue parava de coagular derrubou a mortalidade de quase todos para pouco mais de um terço. Dez anos depois o procedimento ganhou o nome que a marinha americana usava para navios que absorvem o impacto e seguem navegando.

O que interessa reter é a inversão de objetivo. A laparotomia comum busca restaurar a anatomia. Esta busca restaurar parâmetros fisiológicos, e aceita deixar o abdome anatomicamente errado por um ou dois dias para conseguir isso. Toda a técnica que vem a seguir — a maneira de pôr compressas, o que se amarra, o que não se anastomosa, como se fecha a parede — deriva dessa única troca.

Convém desfazer desde já uma confusão comum. Abreviar não é operar mal por falta de tempo ou de recurso: é executar uma sequência planejada, com três atos obrigatórios e um plano de volta escrito antes de a pele ser fechada. Alguns autores dividem a mesma sequência em três momentos, outros em quatro, outros em cinco, acrescentando a seleção do doente na frente e o fechamento da parede no fim. A diferença é de onde se traça a linha, não do que se faz. Quem enxerga a operação como um episódio isolado, e não como o primeiro terço de um plano, costuma errar justamente no que vem depois.

O ciclo que se alimenta: frio, ácido e sangue que não coagula

Hipotermia, acidose e coagulopatia formam o que a literatura brasileira chama de tríade letal, e o adjetivo não é retórico. Numa casuística clássica, a taxa de coagulopatia sobe para quatro em cada dez quando há hipotensão, para metade quando há hipotermia e para seis em cada dez quando há acidose — e chega a quase todos os pacientes quando os três aparecem juntos. Não são três problemas somados. É um circuito fechado, e cada vértice alimenta o seguinte.

O frio entra por vários caminhos ao mesmo tempo: perda de sangue, exposição do doente na sala, líquidos infundidos em temperatura ambiente e perda da termorregulação em quem tem lesão neurológica ou está intoxicado. A hipotermia passa a importar clinicamente abaixo de trinta e seis graus mantidos por mais de quatro horas, e abaixo de trinta e cinco graus o prognóstico piora de forma consistente. Há relato de mortalidade integral abaixo de trinta e dois graus. O frio ainda causa arritmia ventricular, aumenta a resistência periférica e desvia a curva de dissociação da hemoglobina.

A acidose vem da hipoperfusão: menos oxigênio entregue, metabolismo anaeróbio, lactato. Um pH abaixo de sete vírgula dois se associa a mortalidade alta, e a acidose inativa os fatores de coagulação que dependem dele. Fecha o triângulo o próprio tratamento mal feito: cristaloide em volume alto não carrega hemoglobina, nem plaqueta, nem fator — cada litro dilui a coagulação que o trauma já estragou, e ainda esfria o paciente. Hemodiluição e hipotermia são os vértices evitáveis.

A coagulopatia tem peso próprio como marcador. Tempo de protrombina alterado na entrada eleva o risco de morte em cerca de um terço; o tempo de tromboplastina parcial alterado multiplica esse risco por mais de quatro. Por isso o gatilho da decisão não é o tamanho do buraco no fígado: é o sangue que escorre difusamente de superfícies que ninguém cortou. Quando o campo cirúrgico inteiro rezuma, o cirurgião não está mais tratando lesões — está assistindo ao circuito rodar, e a única manobra que o interrompe é sair.

Escolher cedo, porque escolher tarde não é escolher

A pergunta prática é quando indicar. A resposta honesta da literatura é que não há critério único, e vale conhecer o tamanho do desacordo. Uma revisão brasileira reuniu numa só tabela os limiares de dez grupos diferentes: a temperatura de corte aparece em quatro valores distintos, o pH em quatro, a pressão sistólica em quatro, e o índice de gravidade em três. Não é ruído de arredondamento — são réguas construídas em populações diferentes, com desfechos diferentes.

Isso não deixa o cirurgião sem chão. O que os dez concordam é a direção: hipotermia progressiva, acidose que não corrige, hipotensão que não sustenta, transfusão que não acompanha a perda, coagulopatia instalada e lesões múltiplas em mais de uma cavidade. Somam-se sinais que dispensam laboratório: perda sanguínea estimada acima de quatro litros, sangramento difuso no campo, tempo de operação que já passou de uma hora e meia sem hemostasia. A soma vale mais do que qualquer número isolado.

O erro que se paga caro é o atraso. A decisão precisa ser tomada enquanto o paciente ainda tem reserva — muitas vezes antes de ele entrar na sala, na leitura do mecanismo e da resposta ao volume. Quem espera estar convencido de que o reparo definitivo é impossível costuma decidir quando já é tarde. Cirurgiões experientes descrevem a mesma regra pela experiência ruim: é melhor recuar cedo do que ver o paciente atingir o limite fisiológico dentro da operação.

Existe também o excesso na direção contrária, e ele foi medido. Num serviço que revisou mais de quinhentos pacientes, a proporção de laparotomias abreviadas caiu de pouco mais de um terço para menos de um décimo em dois anos, e a mortalidade caiu junto, com menos consumo de recursos. Abrir mão do reparo definitivo tem preço: parede aberta, reoperação, fístula, hérnia. Indicar bem significa indicar para quem não sobreviveria à operação inteira — e não para todo trauma grave.

Tentou-se transformar essa escolha em conta. Uma equação que combina idade, pH e temperatura foi proposta para estimar mortalidade inevitável, e ela acerta quando aponta: entre os que ela marca, praticamente ninguém sobrevive. Só que ela marca poucos — reconhece cerca de um quarto dos que morrerão. Uma régua com essa forma serve para confirmar gravidade extrema, nunca para liberar alguém. A leitura que interessa à beira do leito é a direção do movimento: o que decide não é o valor, é a trajetória, isto é, se a temperatura está caindo, se o pH está caindo e se a pressão só se sustenta com sangue correndo.

Primeiro ato: parar o sangue

A incisão é mediana, xifopúbica, e a primeira manobra é tamponar os quatro quadrantes com compressas. Isso não é ganhar tempo: é o tratamento. Feito o tamponamento inicial, retiram-se as compressas por quadrante, procurando a fonte, e o que sangra se resolve com o recurso mais rápido disponível — ligadura, clampeamento, sutura simples do parênquima ou balão.

Tamponar bem é uma técnica, não um gesto. Compressa não se empurra dentro da cavidade: ela se posiciona criando vetores de força que reaproximam os planos de tecido que a lesão separou. No fígado, isso quer dizer compressão no plano ântero-posterior, obtida mobilizando o ligamento e colocando compressas atrás e à frente, incluindo o espaço hepatorrenal. Feito assim, o tamponamento controla até lesão de veia retro-hepática e de cava inferior, que são exatamente as que não se deve tentar expor.

Há duas maneiras de errar, e elas são opostas. O tamponamento excessivo comprime vasos que não deveriam ser comprimidos, dificulta o fechamento e ajuda a produzir hipertensão intra-abdominal. O tamponamento insuficiente deixa as compressas encharcarem sem deter nada, e o cirurgião descobre isso tarde, na terapia intensiva, pelo dreno e pela hemoglobina que continua caindo. A leitura correta é do próprio campo: se a compressa seca no lugar certo, funcionou.

Para sangramento hepático que não cessa com digitoclasia e ligadura direta, balões improvisados com sonda, dreno de látex ou sonda vesical podem ser insuflados dentro do trajeto. Hematoma retroperitoneal em zona que não se deve explorar não se abre: tampona-se e encaminha-se o paciente para embolização angiográfica. E o baço ou o rim que exigirem manobra complexa saem — a ressecção do órgão é mais rápida e mais segura do que a tentativa de preservá-lo com o doente frio.

Diagrama de uma cavidade abdominal aberta dividida em quatro quadrantes, com compressas posicionadas em cada quadrante e setas indicando a direção da força de compressão.
Compressa não se empurra para dentro da cavidade: ela se posiciona criando vetores de força que reaproximam os planos de tecido que a lesão separou, quadrante por quadrante.

O que se pode amarrar, e o que amarrar mata

Reparo vascular complexo não pertence a esta operação. Lesão arterial que fecha com sutura simples se resolve na hora; lesão complexa recebe shunt temporário ou ligadura, e o reparo definitivo espera. O shunt é um tubo curto colocado dentro da luz do vaso, mantendo fluxo até a reoperação: compra perfusão sem custar tempo.

A escolha entre ligar e derivar tem uma lista curta que vale decorar pelo que ela proíbe. Ligadura da aorta, da artéria mesentérica superior e da ilíaca externa tem consequência grave e está contraindicada — são territórios sem circulação colateral suficiente, e amarrá-los troca uma hemorragia por uma isquemia irreversível de intestino ou de membro. Fora dessas, boa parte das artérias abdominais tolera ligadura em caráter de exceção.

Do lado venoso a regra é quase inversa e surpreende quem a ouve pela primeira vez. Com exceção da veia cava inferior acima das renais, todas as veias da cavidade abdominal podem ser ligadas. A drenagem se refaz por colaterais, e o preço é edema do território, não necrose. Essa assimetria entre artéria e veia é o que permite fechar rapidamente um sangramento venoso profundo que consumiria uma hora de reparo.

Vale um cuidado que os textos repetem: o ureter lesado também aceita solução provisória, com cateter deixado como derivação até a reoperação. O princípio geral se enuncia de uma vez — nesta operação, nada se reconstrói. Tudo que puder ser adiado é adiado, e o que não puder ser adiado recebe a solução mais simples que funcione até o dia seguinte.

O mesmo raciocínio vale para as lesões duodenopancreáticas, que são as que mais tentam o cirurgião a fazer uma operação bonita. Aqui elas recebem drenagem ampla, exclusão do trânsito e, no extremo, secção com ligadura das estruturas, deixando a reconstrução inteira para o segundo tempo. A reconstrução é sempre do terceiro ato, e antecipá-la é a maneira mais rápida de transformar uma operação de quarenta minutos em uma de quatro horas num paciente que não tem quatro horas.

Segundo ato: parar a sujeira

Controlada a hemorragia, a segunda meta é impedir que o conteúdo intestinal, biliar ou urinário continue caindo na cavidade. Isso exige uma inspeção completa, do ângulo de Treitz ao reto, porque lesão de alça passada despercebida na pressa se transforma em peritonite enquanto o paciente está sedado e sem exame físico útil.

As lesões pequenas se fecham com sutura simples, em plano único, sem preocupação estética. As grandes recebem ressecção do segmento comprometido, e é aqui que está a regra mais contraintuitiva da operação: os cotos ficam ligados ou grampeados, e não se faz anastomose nem se constrói estoma naquele momento. Anastomose feita em intestino edemaciado, com o paciente acidótico e hipoperfundido, é anastomose que vaza; estoma exige parede abdominal, e a parede vai ficar aberta.

Quando as múltiplas perfurações estão contidas num trecho que não passa da metade do comprimento intestinal, uma única ressecção resolve todas de uma vez, e isso poupa tempo. Pinças atraumáticas e fitas cardíacas servem para ocluir alças temporariamente enquanto o restante da cavidade é revisado. Antes de encerrar, irriga-se abdome e pelve com solução salina aquecida — aquecida porque o vértice do frio continua contando, e lavar com soro em temperatura ambiente é resfriar o paciente por dentro.

Repare no que ficou de fora: nenhuma reconstrução do trânsito, nenhuma derivação definitiva, nenhuma drenagem elaborada. O intestino sai da sala em segmentos fechados, dentro de um abdome que será reaberto. O cirurgião que insiste em restabelecer o trânsito agora está fazendo a operação que o paciente não pode pagar, e a conta aparece na terapia intensiva algumas horas depois.

Fechar sem fechar: a parede que fica aberta de propósito

Como existe indicação absoluta de uma segunda operação, o fechamento da parede é temporário por definição. O objetivo tem duas partes: preservar a fáscia para o dia em que ela precisar voltar ao lugar, e proteger as alças de dentro sem gerar tensão. Sutura da aponeurose sob tensão está proscrita — além de não segurar, empurra o paciente para a hipertensão intra-abdominal.

As opções vão do improviso ao dispositivo caro, e a escolha depende do que o hospital tem. Pinças de campo aproximando apenas a pele, a chamada bolsa de Bogotá feita de plástico estéril suturado às bordas, campos plásticos adesivos e curativo com aspiração contínua a vácuo são todos aceitáveis. O que muda entre eles é a facilidade de reabrir, o controle do líquido que sai e a chance de a fáscia ainda ser aproximável na volta.

Cada dia de abdome aberto tem custo anatômico. Os músculos e suas fáscias se retraem lateralmente, e o defeito na linha mediana cresce; passados cerca de cinco dias, o fechamento convencional deixa de ser possível na maioria dos casos. Curativos que tracionam as bordas de forma progressiva existem justamente para brigar contra essa retração, e por isso o intervalo entre as operações não é escolha administrativa: cada dia a mais fecha uma porta.

Contato de tela sintética com alça é o outro preço, e ele é alto: a formação de fístula entre intestino e pele chega a um quarto dos casos quando o material encosta diretamente nas vísceras. Por isso, quando a tela é inevitável, interpõe-se tecido entre ela e o intestino — epíploon, peritônio ou um retalho da bainha anterior do reto rodado medialmente, que protege as alças e ainda ajuda a cobrir o defeito.

Um bom fechamento temporário se reconhece por três coisas que ele permite. Permite reabrir depressa, sem desfazer plano nenhum. Permite contabilizar o que sai, porque o volume drenado orienta reposição e denuncia sangramento que não parou. E permite medir e conter, mantendo a cavidade sob alguma pressão sem estrangulá-la. Um plástico suturado às bordas e um curativo a vácuo cumprem os três; pinças na pele cumprem o primeiro e mal cumprem os outros dois, e por isso são a escolha de quem não tem outra.

A operação continua na terapia intensiva

O segundo tempo não é uma pausa: é a parte do tratamento em que se corrige aquilo que motivou a saída da sala. As metas são explícitas e vale conhecê-las como conjunto, porque a decisão de reoperar se apoia nelas: normalizar temperatura, corrigir acidose e restaurar coagulação, com pressão, lactato, excesso de base, hemoglobina, plaquetas, fibrinogênio e cálcio dentro de faixas definidas.

Reaquecer é a prioridade, e não por conforto. Enquanto a temperatura não sobe, nenhuma reposição de fator funciona direito, porque as enzimas da cascata trabalham perto dos trinta e sete graus. Retira-se roupa úmida, aquece-se o ambiente e todo líquido infundido, usam-se mantas e colchões térmicos, e se necessário irrigam-se sonda gástrica e vesical com salina aquecida. Sem resposta, escalona-se para irrigação de cavidade por drenos e, nos casos extremos, aquecimento arteriovenoso contínuo.

A acidose, ao contrário do que a intuição sugere, corrige-se sozinha quando a oferta de oxigênio volta a cobrir a demanda e o paciente aquece. Melhorar hemoglobina, saturação e débito cardíaco resolve mais do que alcalinizar. Bicarbonato fica em segundo plano, e usá-lo como tratamento principal engana o exame sem tratar a causa. A coagulopatia, essa sim, exige reposição ativa: plasma, plaquetas, crioprecipitado, antifibrinolítico e cálcio, guiados por metas e não por hábito.

Há um detalhe que o abdome aberto não dispensa: mesmo com a parede frouxa, o paciente pode desenvolver hipertensão intra-abdominal, e a única forma de saber é medindo. Some-se a isso a sedação adequada, a ventilação protetora e um controle glicêmico não excessivamente rígido. A terapia intensiva aqui não acompanha o doente — ela executa a metade do procedimento que a sala de cirurgia deliberadamente deixou por fazer.

O abdome fechado por dentro: a pressão que manda voltar antes

Abdome aberto não é sinônimo de abdome descomprimido. Edema visceral, coleção, tamponamento excessivo e reposição volumosa continuam elevando a pressão dentro da cavidade, e a síndrome compartimental abdominal aparece mesmo em quem já foi operado com fechamento temporário. Ela se instala em silêncio, porque o paciente está sedado e intubado.

A medida é indireta e simples: transdutor acoplado à sonda vesical, com o paciente em decúbito dorsal e volume conhecido de salina na bexiga. O que fecha o diagnóstico não é o número sozinho — é pressão elevada com disfunção orgânica nova. O conjunto que denuncia é oligúria que não responde a volume, pressão de via aérea que sobe sem alteração da ausculta e queda do débito cardíaco com aumento da pressão venosa central.

O mecanismo explica a clínica inteira. A pressão comprime a veia cava e reduz o retorno venoso, empurra o diafragma e piora a complacência pulmonar, reduz a perfusão renal e ainda dificulta a drenagem venosa cerebral, o que importa muito no politraumatizado com lesão craniana. Nenhum desses efeitos melhora com mais volume; todos melhoram com descompressão.

Por isso a lista de motivos para reoperar antes do prazo tem dois itens claros: sangramento que continua apesar de coagulação corrigida, e hipertensão intra-abdominal com disfunção. Nos dois casos, esperar o horário previsto é perder o paciente por um cronograma. A volta antecipada não é falha da estratégia — é a estratégia funcionando, porque a cavidade estava sendo vigiada.

Terceiro ato: voltar, tirar as compressas e decidir sobre o intestino

Não existe prazo obrigatório para a reoperação, e os textos que se leem em português dão janelas diferentes para a mesma volta. O que decide é a condição fisiológica, não o relógio: paciente aquecido, coagulação corrigida, acidose resolvida, sem necessidade crescente de vasopressor. Antes disso, reoperar apenas transfere o colapso da terapia intensiva para o centro cirúrgico.

A retirada das compressas é o passo delicado. Umedecem-se com salina aquecida antes de mobilizar, porque compressa seca aderida arranca a superfície que ela estava tamponando e recomeça o sangramento que custou a parar. Retiradas as compressas, revisa-se a cavidade inteira: reparos vasculares definitivos, drenagem de coleções, desbridamento do que necrosou e busca ativa de lesões que passaram despercebidas na primeira operação.

A decisão sobre o intestino é a que mais divide. Por muito tempo houve conforto com a anastomose tardia nesta segunda operação, poupando o paciente de um estoma. Um estudo retrospectivo reabriu a discussão ao encontrar mais complicações pós-operatórias entre os que receberam anastomose tardia do que entre os que receberam colostomia terminal tardia, com diferença estatisticamente significativa. A leitura prudente é que o estoma continua sendo a conduta mais segura quando há acidose residual, edema de parede intestinal ou infecção intra-abdominal.

Se a fáscia puder ser aproximada sem tensão, o abdome se fecha. Se não puder, o paciente entra num programa de fechamento progressivo, com curativo a vácuo e tração das bordas, e o caminho aceito é a hérnia ventral planejada, corrigida meses depois com o doente recuperado. Prometer fechamento definitivo já na primeira volta é o tipo de promessa que produz síndrome compartimental.

A conta da estratégia: o que ela compra e o que ela cobra

Vale olhar o que uma casuística brasileira mostrou. Numa série de trinta e nove pacientes operados por controle de danos ao longo de pouco mais de quatro anos num hospital universitário, com índice de gravidade médio muito alto, pH intraoperatório médio abaixo de sete vírgula dois e excesso de base profundamente negativo, a sobrevida foi de cerca de um em cada cinco. A maior parte dos óbitos ocorreu nas primeiras vinte e quatro horas.

O número que ensina mais, porém, é outro. Menos de um quinto dos pacientes chegou à reoperação programada: a maioria dos que voltaram à sala voltou de forma não planejada, ou seja, por sangramento. A promessa da estratégia — sair agora, voltar depois e consertar tudo — só se cumpriu numa minoria. Isso não desqualifica a técnica; delimita o que ela é. Ela compra tempo, e tempo só vale para quem a terapia intensiva consegue estabilizar dentro de um dia.

Duas conclusões práticas seguem daí. A primeira é que a indicação precisa ser estreita: aplicar a operação abreviada a quem sobreviveria à operação completa acrescenta parede aberta, fístula e hérnia sem ganho nenhum. A segunda é que a estrutura faz parte da indicação — sem leito de terapia intensiva disponível, sem hemocomponente e sem equipe para reoperar, a decisão de abreviar cria um problema que ninguém poderá resolver.

A mesma lógica migrou para fora do trauma, e isso vale saber. Em abdome agudo com instabilidade grave — sepse de foco abdominal, isquemia mesentérica, infecção necrosante, pancreatite complicada —, a operação abreviada com controle do foco, lavagem, derivação e retorno programado passou a ser oferecida pelas mesmas razões fisiológicas. Também no tórax existe a versão abreviada. O critério que autoriza continua sendo o mesmo: é o estado do doente que indica, não o órgão nem a causa.

O princípio se enuncia numa frase: o controle de danos não é uma operação menor, é uma operação diferente, cuja unidade de medida é o tempo. Quem o indica está afirmando que o paciente morre antes do fim da cirurgia certa, e que vale trocar anatomia por horas. Feita a troca, a obrigação é usar essas horas — aquecer, transfundir, medir pressão de cavidade e voltar assim que a fisiologia permitir.

04

Os três atos, do gatilho ao fechamento da parede

A estratégia se organiza em três atos obrigatórios — sala, terapia intensiva e retorno —, com a seleção do doente antes e o fechamento da parede depois. Os limiares abaixo são a faixa em que os documentos brasileiros se movem, e servem para reconhecer o padrão, não para decorar um corte único.

  1. 11. Reconheça o gatilho dentro da operação: sangramento difuso em lençol de superfícies não cortadas, temperatura em queda, acidose que não corrige e transfusão que não acompanha a perda.
  2. 22. Decida cedo. Perda estimada acima de 4 L, pH abaixo de 7,2 (limiares publicados variam de 7,1 a 7,3), temperatura abaixo de 35 °C (variação de 33 °C a 35,5 °C), coagulopatia laboratorial ou clínica, lesões em mais de uma cavidade.
  3. 33. Confirme a retaguarda antes de abreviar: leito de terapia intensiva, hemocomponentes e equipe para reoperar. Sem isso, a estratégia não se completa.
  4. 44. Tamponamento dos quatro quadrantes; depois, quadrante a quadrante, ache e trate a fonte pelo recurso mais rápido.
  5. 55. Vascular: sutura simples se resolver; senão, shunt ou ligadura. Nunca ligar aorta, mesentérica superior ou ilíaca externa. Todas as veias abdominais são ligáveis, exceto a cava inferior acima das renais.
  6. 66. Digestivo: sutura simples nas lesões pequenas; ressecção com cotos fechados nas grandes. Sem anastomose e sem estoma neste tempo. Ureter recebe derivação provisória.
  7. 77. Irrigue com salina aquecida e feche a parede de forma temporária: pinças de campo, bolsa de Bogotá, campo adesivo ou curativo a vácuo. Nunca aponeurose sob tensão.
  8. 88. Na terapia intensiva, reaqueça acima de 35 °C (alvo acima de 37 °C em cerca de 4 horas), corrija coagulação e deixe a acidose se corrigir com perfusão.
  9. 99. Meça a pressão intra-abdominal pela sonda vesical. Acima de 20 mmHg com disfunção orgânica nova, descomprima.
  10. 1010. Reopere quando a fisiologia permitir — habitualmente entre 24 e 48 horas, com janelas publicadas de 24 a 96 horas. Antes disso, só por sangramento persistente ou hipertensão intra-abdominal.
  11. 1111. Umedeça as compressas antes de retirá-las. Faça o reparo definitivo, restabeleça o trânsito e drene coleções.
  12. 1212. Feche a parede se a fáscia aproximar sem tensão. Se não, fechamento progressivo com tração das bordas e hérnia ventral planejada, corrigida meses depois.

Ato um — a sala, em minutos

Laparotomia mediana xifopúbica. Tamponamento dos quatro quadrantes; retirada quadrante a quadrante para achar a fonte. Hemostasia pelo recurso mais rápido: ligadura, clampeamento, sutura de parênquima, balão. Reparo vascular complexo vira shunt ou ligadura. Hematoma retroperitoneal que não se explora fica tamponado e vai para embolização.

Ato um — a sujeira

Inspeção do ângulo de Treitz ao reto. Lesão pequena: sutura simples. Lesão extensa: ressecção com os cotos ligados ou grampeados. Sem anastomose e sem estoma agora. Múltiplas perfurações no mesmo trecho saem numa ressecção só. Irrigação da cavidade com salina aquecida antes de encerrar.

Ato dois — a terapia intensiva

Reaquecer primeiro: roupa seca, ambiente e líquidos aquecidos, manta e colchão térmico, irrigação de sondas com salina morna; sem resposta, cavidade e aquecimento arteriovenoso. Acidose corrige com perfusão e temperatura, não com álcali. Coagulopatia corrige com plasma, plaquetas, crioprecipitado, antifibrinolítico e cálcio.

Ato três — a volta

Volta guiada pela fisiologia, não pelo relógio. Compressas umedecidas antes de sair. Revisão completa: reparo vascular definitivo, drenagem de coleções, desbridamento, busca de lesão despercebida. Trânsito restabelecido — e, com acidose residual, edema de alça ou infecção, ostomia em vez de anastomose.

EtapaO que se fazO que não se fazNúmero que orienta
SeleçãoDecidir na entrada ou nos primeiros minutos da laparotomia, pelo conjunto fisiológicoEsperar convicção de que o reparo é impossívelpH 7,1–7,3; T 33–35,5 °C; PAS 70–110 mmHg; perda > 4 L
Operação abreviadaTamponar, ligar, derivar, ressecar sem reconstruirAnastomose, estoma, reparo vascular complexo, ressecção regradaTempo de operação acima de 90 min consta entre os critérios de indicação
Fechamento temporárioBolsa de Bogotá, campo adesivo, pinças de campo ou vácuoSutura da aponeurose sob tensão; tela em contato com alçaFístula enterocutânea com tela sobre víscera: até 25%
Terapia intensivaReaquecer, transfundir por metas, medir pressão de cavidadeAlcalinizar como tratamento principal da acidoseT > 37 °C em ~4 h; plaquetas > 50.000; fibrinogênio > 100 mg/dL
ReoperaçãoUmedecer e retirar compressas, reparo definitivo, restabelecer trânsitoVoltar por horário com o doente ainda frio e acidótico24–48 h (janelas publicadas de 24 a 96 h)
ParedeFechar sem tensão; se não der, fechamento progressivoForçar a fáscia no primeiro retornoApós ~5 dias a retração lateral costuma inviabilizar o fechamento direto

Os limiares desta tabela são a faixa em que os documentos brasileiros se movem, não um corte único: uma revisão nacional reuniu dez conjuntos de critérios e eles divergem em temperatura, pH, pressão e índice de gravidade.

A síndrome compartimental abdominal se diagnostica com pressão acima de 20 mmHg associada a disfunção orgânica nova — o número isolado não fecha o diagnóstico.

Ligadura venosa é bem tolerada em quase toda a cavidade; ligadura arterial não. A exceção venosa é a cava inferior acima das artérias renais.

A regra de transfusão equilibrada (concentrado de hemácias, plasma e plaquetas em proporção próxima de 1:1:1) pertence à reanimação e caminha junto da operação abreviada, mas não é ela que indica a abreviação.

Toracotomia abreviada existe pelos mesmos princípios, e a estratégia migrou para o abdome agudo não traumático grave: sepse de foco abdominal, isquemia mesentérica, infecção necrosante e pancreatite complicada.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O limiar fisiológico que autoriza abreviar

Dez conjuntos de critérios, quatro faixas

A revisão reúne numa tabela os critérios de dez grupos publicados entre 1996 e 2010. A temperatura de corte aparece como 33 °C, 34 °C, 35 °C e 35,5 °C; o pH como 7,1, 7,2, 7,25 e 7,3; a pressão sistólica como 70, 80, 90 e 110 mmHg. O texto conclui literalmente que não há critérios bem estabelecidos e que cabe ao cirurgião avaliar o cenário completo.

Edelmuth RCL, Buscariolli YS, Ribeiro Junior MAF. Cirurgia para controle de danos: estado atual. Rev Col Bras Cir. 2013;40(2):142-151 — Tabela 2

Um conjunto fechado de quatro itens

A revisão anterior enuncia o gatilho como uma combinação curta: perda sanguínea maior que 4 L, pH sérico menor ou igual a 7,25, temperatura corpórea de 34 °C e sangramento difuso. E acrescenta que a decisão deve começar no pré-operatório, e não dentro da laparotomia.

Lima RAC, Rocco PRM, Zin WA. Cirurgia para controle do dano: uma revisão. Rev Col Bras Cir. 2007;34(4):257-263

Na prova

Vale reparar em que direção o enunciado empurra. Descrição rica de valores isolados — um pH, uma temperatura — costuma cobrar o reconhecimento do padrão, não a memorização do corte: qualquer um dos limiares publicados aponta para o mesmo lado. Quando o texto oferece o conjunto (frio + acidose + coagulopatia + transfusão que não acompanha), a leitura pedida é a soma. Enunciado que insiste num número exato como se fosse consensual costuma vir de material de curso, e não das revisões nacionais, que declaram a ausência de consenso.

Quando voltar ao centro cirúrgico

Entre 24 e 48 horas

O texto registra que o tempo médio da fase de reanimação secundária é de 24 a 48 horas — e, algumas linhas adiante, que o tempo de reoperação programada varia de 24 a 96 horas nos diferentes grupos, mencionando ainda a mobilização do edema intersticial em torno de 72 horas.

Lima RAC, Rocco PRM, Zin WA. Cirurgia para controle do dano: uma revisão. Rev Col Bras Cir. 2007;34(4):257-263

Entre 36 e 48 horas, e o relógio não manda

A revisão afirma que não há período mínimo nem máximo para o retorno, cita 36 a 48 horas após a admissão como prática de alguns serviços e conclui que são as condições fisiológicas, e não o tempo, que determinam a aptidão para a nova operação.

Edelmuth RCL, Buscariolli YS, Ribeiro Junior MAF. Cirurgia para controle de danos: estado atual. Rev Col Bras Cir. 2013;40(2):142-151

Na prova

Quando o enunciado traz um paciente aquecido, com coagulação corrigida e sem vasopressor em alta, a hora exata deixa de importar: o que se pede é reconhecer que a fisiologia autorizou. O contrário também aparece — doente ainda frio e acidótico no horário previsto, e a conduta é adiar. E há um terceiro cenário, o mais discriminativo: sangramento que persiste apesar da coagulação corrigida, ou pressão intra-abdominal alta com disfunção nova, exigem voltar antes de qualquer janela.

Como restabelecer o trânsito na reoperação: anastomose tardia ou ostomia

Anastomose tardia é factível

Houve por algum tempo consenso de que a anastomose tardia após lesões extensas de cólon era factível e evitava estomas em pacientes cuja anastomose primária não era possível, sem aumentar complicações, desde que não houvesse acidose grave, edema de parede intestinal ou infecção intra-abdominal.

Edelmuth RCL, Buscariolli YS, Ribeiro Junior MAF. Cirurgia para controle de danos: estado atual. Rev Col Bras Cir. 2013;40(2):142-151 — consenso descrito pelos autores

Ostomia terminal tardia teve menos complicação

Estudo retrospectivo observou aumento significativo de complicações pós-operatórias entre os submetidos a ressecção com anastomose tardia em comparação aos submetidos a ressecção com colostomia terminal tardia (12% contra 3%). Os próprios autores da revisão concluem que o estoma pode ser a alternativa mais segura, apesar das complicações próprias.

Weinberg JA et al., citado em Edelmuth RCL et al. Rev Col Bras Cir. 2013;40(2):142-151

Na prova

O enunciado costuma entregar a resposta no estado da cavidade, não no calendário. Descrição de alças edemaciadas, contaminação persistente, acidose residual ou instabilidade ainda presente empurra para derivação. Descrição de cavidade limpa, doente aquecido e estável, com trânsito reconstruível sem tensão, permite a anastomose. Quando o texto se limita a dizer 'reoperação programada' sem qualificar a cavidade, o recorte cobrado costuma ser o princípio geral: reconstrução é do segundo tempo, e a segurança vem antes da elegância.

06

Caso resolvido

Homem de 27 anos, vítima de ferimento por arma de fogo em abdome há 50 minutos, chega à sala de emergência com PA 78x46 mmHg, FC 138 bpm, FR 30 irpm e Glasgow 14. Recebe 1.000 mL de cristaloide aquecido, com resposta transitória, e o protocolo de transfusão maciça é ativado. FAST positivo em quatro janelas. É levado direto ao centro cirúrgico. À laparotomia: hemoperitônio volumoso, laceração hepática profunda no lobo direito com sangramento ativo, duas perfurações de jejuno próximas entre si e uma lesão de veia ilíaca comum esquerda. Após 70 minutos de operação e 8 unidades de concentrado de hemácias, a temperatura esofágica é de 34,2 °C, o pH é de 7,14 e o campo cirúrgico começa a sangrar difusamente das bordas da incisão e das superfícies dissecadas.
achado
Sangramento difuso de superfícies que ninguém cortou é coagulopatia clínica — não precisa de coagulograma para ser reconhecida. Somada a 34,2 °C e pH 7,14, fecha a tríade letal completa dentro da operação.
decisão
Indicação de operação abreviada. Todos os limiares publicados apontam para o mesmo lado neste doente: temperatura abaixo de qualquer um dos cortes (33 a 35,5 °C), pH abaixo de qualquer um deles (7,1 a 7,3), transfusão que não acompanha a perda e lesões múltiplas. A decisão vem agora, não depois de tentar o reparo hepático.
conduta
Fígado: digitoclasia e ligadura direta dos vasos identificáveis; se persistir, tamponamento peri-hepático com vetores ântero-posteriores, mobilizando o ligamento e preenchendo o espaço hepatorrenal. Ressecção hepática regrada está fora.
conduta
Veia ilíaca comum: ligadura. Fora a cava inferior acima das renais, as veias abdominais toleram ligadura, com edema do membro como preço. Reparo venoso complexo consumiria o tempo que o paciente não tem.
conduta
Jejuno: as duas perfurações estão próximas, então uma única ressecção resolve as duas. Os cotos ficam grampeados. Sem anastomose e sem estoma neste tempo.
conduta
Irrigação da cavidade com salina aquecida e fechamento temporário — bolsa de Bogotá, campo adesivo ou curativo a vácuo, conforme o serviço. Aponeurose não se sutura sob tensão.
conduta
Terapia intensiva: reaquecimento ativo como prioridade (alvo acima de 37 °C em cerca de 4 horas), transfusão equilibrada por metas, reposição de cálcio, e acidose tratada por perfusão e temperatura, não por álcali.
conduta
Vigilância da cavidade: pressão intra-abdominal pela sonda vesical, débito do curativo, hemoglobina seriada. Sangramento persistente com coagulação corrigida ou pressão acima de 20 mmHg com disfunção nova manda reoperar antes do prazo.
conduta
Reoperação programada quando a fisiologia permitir, tipicamente entre 24 e 48 horas: compressas umedecidas antes de retirar, revisão completa da cavidade, reparo definitivo e restabelecimento do trânsito.
armadilha
Tomografia de crânio, arteriografia eletiva ou qualquer exame que atrase o centro cirúrgico estão contraindicados neste momento. O paciente instável com hemoperitônio vai para a sala, e a imagem espera o segundo tempo.
07

Agora feche você

Mulher de 34 anos, atropelada há 3 horas, foi submetida a laparotomia de controle de danos em outro serviço: tamponamento hepático com compressas, ressecção de segmento de íleo com cotos grampeados e fechamento temporário com bolsa de Bogotá. Chega transferida à terapia intensiva. Agora, 20 horas após a operação, apresenta temperatura de 36,9 °C, pH de 7,36, lactato de 2,1 mmol/L, INR de 1,2, plaquetas de 118.000/mm³ e noradrenalina em desmame. Nas últimas 4 horas, porém, a diurese caiu de 60 mL/h para 12 mL/h sem resposta a duas expansões, a pressão de pico do ventilador subiu de 26 para 38 cmH2O sem alteração da ausculta, e a pressão venosa central subiu de 8 para 17 mmHg. O curativo está seco e a hemoglobina se mantém estável em 9,4 g/dL.
achado
Os parâmetros que motivaram a saída da sala foram corrigidos: temperatura acima de 36 °C, pH normal, lactato quase normal, coagulação aceitável e vasopressor em queda. A primeira etapa cumpriu o objetivo dela.
achado
Curativo seco e hemoglobina estável afastam sangramento persistente como causa da piora. O problema não é volume perdido.
raciocínio
Oligúria refratária a volume, pressão de via aérea subindo sem alteração da ausculta e pressão venosa central em elevação formam o conjunto clássico de hipertensão intra-abdominal com repercussão sistêmica — mesmo com a parede aberta por bolsa de Bogotá.
conduta
Medir a pressão intra-abdominal pela sonda vesical, com transdutor, paciente em decúbito dorsal e volume conhecido de salina. É o exame que confirma a hipótese à beira do leito.
conduta
Confirmada pressão acima de 20 mmHg com disfunção orgânica nova, a indicação é descompressão cirúrgica — ou seja, antecipar a volta ao centro cirúrgico, sem esperar as 24 a 48 horas habituais.
conduta
Na reoperação: umedecer e retirar as compressas, revisar hemostasia, drenar coleções, avaliar a viabilidade das alças e restabelecer o trânsito se a cavidade estiver limpa e a doente estável; havendo edema de alça ou contaminação, derivação em vez de anastomose.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Fazer anastomose no primeiro tempo O intestino ressecado sai com os cotos fechados. Anastomose exige perfusão, temperatura e coagulação que este paciente não tem, e estoma exige uma parede abdominal que vai ficar aberta. Restabelecer trânsito é tarefa da reoperação programada — e, se na volta ainda houver acidose residual, edema de alça ou infecção intracavitária, a ostomia é mais segura que a anastomose tardia.
  2. 2Confundir abdome aberto com abdome descomprimido Fechamento temporário não impede hipertensão intra-abdominal: edema visceral, coleções e tamponamento excessivo continuam elevando a pressão. Em paciente sedado não há exame físico útil, então mede-se pela sonda vesical. Pressão acima de 20 mmHg com disfunção orgânica nova manda descomprimir, mesmo que o horário da reoperação ainda não tenha chegado.
  3. 3Ligar o vaso errado Aorta, artéria mesentérica superior e artéria ilíaca externa não se ligam: a colateral não sustenta o território, e a hemorragia resolvida vira isquemia irreversível de intestino ou de membro. Nessas, o caminho é shunt temporário. Do lado venoso a permissão é ampla, com uma exceção que também é regra de prova: a veia cava inferior acima das artérias renais.
  4. 4Empurrar compressas em vez de tamponar Tamponamento eficaz cria vetores que reaproximam os planos separados pela lesão — no fígado, compressão ântero-posterior com mobilização do ligamento e compressas atrás e à frente. Compressa empurrada às cegas comprime o que não devia, atrapalha o fechamento e alimenta a hipertensão intra-abdominal; compressa de menos deixa sangrar sem que ninguém veja até a hemoglobina cair na terapia intensiva.
  5. 5Suturar a aponeurose sob tensão Além de não segurar, o fechamento sob tensão empurra o paciente para a síndrome compartimental abdominal e desfaz o benefício da operação inteira. Se a fáscia não vem sem tensão, o abdome segue em fechamento progressivo, com tração das bordas, e a hérnia ventral planejada é um desfecho aceito — corrigida meses depois, com o doente recuperado.
  6. 6Colocar tela em contato direto com a alça A fístula entre intestino e pele chega a 25% quando o material sintético encosta na víscera. Quando a tela é inevitável, interpõe-se tecido: epíploon, peritônio ou o retalho da bainha anterior do reto rodado medialmente. O mesmo cuidado explica por que a bolsa de Bogotá e o curativo a vácuo com camada não aderente continuam sendo opções legítimas.
  7. 7Tratar a acidose com álcali A acidose do trauma é de hipoperfusão, e ela se corrige quando a oferta de oxigênio cobre a demanda e o paciente aquece. Melhorar hemoglobina, saturação, débito cardíaco e temperatura vale mais que corrigir o pH pelo exame. Bicarbonato fica em segundo plano — usá-lo como tratamento principal normaliza o número e deixa o doente exatamente onde estava.
  8. 8Abreviar sem retaguarda A operação só faz sentido se houver leito de terapia intensiva, hemocomponentes e equipe para reoperar dentro de um a dois dias. Numa casuística nacional, menos de um quinto dos pacientes chegou à reoperação programada, e a maioria dos retornos foi não planejada, por sangramento. Onde a segunda etapa não pode acontecer, abreviar cria um problema que ninguém vai resolver.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Revisão brasileira que reuniu dez conjuntos de critérios publicados mostra que eles divergem em todos os eixos: a temperatura de corte aparece em quatro valores entre 33 °C e 35,5 °C, o pH em quatro valores entre 7,1 e 7,3, e a pressão sistólica entre 70 e 110 mmHg. O próprio texto conclui que não há critérios bem estabelecidos e que cabe ao cirurgião avaliar o cenário completo — dados fisiológicos, gravidade das lesões e mecanismo. Índice de gravidade, volume transfundido e padrão anatômico de lesão entram como componentes desse conjunto, mas nenhum deles sozinho define a indicação, e tomar qualquer um como critério isolado é o erro que a divergência entre as réguas expõe.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória os três atos da estratégia e diga, para cada um, o objetivo, o que se faz e o que fica proibido. Depois liste os números-âncora: pH e temperatura das faixas publicadas (7,1–7,3 e 33–35,5 °C), perda sanguínea acima de 4 L, pressão intra-abdominal acima de 20 mmHg com disfunção nova, janela habitual de retorno de 24 a 48 horas, fístula com tela sobre alça até 25%. Por fim, diga em voz alta a lista curta do que nunca se liga (aorta, mesentérica superior, ilíaca externa) e a única veia abdominal que também não se liga (cava inferior acima das renais).

em 30 dias

Pegue três casos de trauma abdominal grave e, em cada um, decida: este doente é candidato à operação abreviada ou à operação completa? Escreva a justificativa apoiada no conjunto fisiológico, não num valor isolado. Em seguida, para o mesmo doente, escreva o plano dos dois tempos seguintes — metas da terapia intensiva e critério de retorno — e responda o que faria se, em 12 horas, a diurese caísse e a pressão de via aérea subisse.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 31 anos chega à sala de emergência após ferimento por arma branca em abdome, hipotenso e taquicárdico, com abdome distendido e doloroso. Conduza a avaliação inicial, decida entre imagem e centro cirúrgico, reconheça o momento em que a operação deve ser abreviada e defina o plano dos dois tempos seguintes. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Cirurgia de controle de danos no trauma abdominal – Cirurgia de controle de danos: a operação que escolhe não terminar — Preparatório para provas | OsceLabs