91 min de leitura

Cirurgia GeralTrauma

Trauma de face: a prova escreve a consequência e nunca nomeia o osso

Em 934 capítulos do acervo, nenhum traz trauma de face no tema ou no título, e a expressão Le Fort não aparece uma única vez no corpo de nenhum deles. Nas 24.802 questões ativas, dezoito escrevem o assunto e treze o escrevem no enunciado — mas doze dessas dezoito estão catalogadas sob o tema do manejo de via aérea, porque não havia capítulo de face onde pousar. O capítulo de via aérea escreve trauma de face nove vezes e não escreve nenhum nome de fratura.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Em uma discussão de serviço, um residente afirma que toda fratura de face deve ser fixada em até setenta e duas horas, sob risco de consolidação viciosa. Ele cita como apoio uma série brasileira de cento e quarenta e um operados. Ao ser conferida, a série mostra mediana de dezoito dias entre trauma e cirurgia, média de quarenta vírgula quatro dias e intervalo de zero a novecentos e dez dias. Outras fontes trazem quinze dias para o osso nasal, até quarenta e cinco dias para manipulação elástica da mandíbula e vinte e quatro horas para um acesso orbitário específico. Qual é a crítica mais precisa à afirmação do residente?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do trauma da face no adulto e no adolescente: a fratura do terço médio, a fratura da mandíbula, a fratura do assoalho da órbita e o que cada uma delas faz com a via aérea, com a visão e com a oclusão dentária. Trata do doente que chega ao pronto-socorro com a face deformada e sangrando, e da ordem em que as decisões precisam ser tomadas — que não é a ordem em que as lesões aparecem.

Fica de fora a fratura de crânio, que é do capítulo de trauma cranioencefálico; a lesão do nervo facial e a paralisia facial, que são de outra história; a reconstrução tardia e os retalhos, que são de cirurgia plástica eletiva; e a fratura dentoalveolar isolada, que é do consultório odontológico. Fica de fora também a fenda labiopalatina, que é malformação e não trauma.

O capítulo existe porque o trauma de face costuma aparecer como cenário de uma decisão urgente, e não como uma pergunta isolada de anatomia. A banca descreve sangramento em cavidade oral, edema progressivo, trismo, diplopia ou perda de sensibilidade e pergunta o que fazer primeiro. Por isso, a leitura precisa ligar cada achado à prioridade correspondente: proteger a via aérea, preservar a visão, controlar a hemorragia e só então definir o padrão ósseo e o momento da fixação.

03

O que muda decisão

A banca escreve a consequência e cala o osso

Vale começar pelo modo como o tema costuma ser cobrado, porque isso muda a forma de estudá-lo. O enunciado frequentemente descreve a consequência funcional — via aérea ameaçada, alteração da mordida, diplopia, trismo ou hipoestesia — sem nomear o padrão da fratura. O candidato precisa fazer o caminho inverso: reconhecer a estrutura lesada a partir do achado e, sobretudo, ordenar a conduta pela ameaça mais imediata.

A leitura correta desse desencontro não é que a classificação seja dispensável. É que a banca usa a face quebrada como cenário, não como pergunta. O enunciado descreve a mulher trazida das ferragens com sangramento ativo em cavidade oral, edema de lábios e língua e ruído respiratório borbulhante, e depois pergunta o que fazer com a via aérea. O enunciado descreve o homem com fratura extensa de maxila e mandíbula e sangramento profuso em orofaringe, e pergunta a mesma coisa. A face entra para tornar a via aérea difícil e a resposta mora na via aérea.

Daí decorre a arrumação deste capítulo. A anatomia vem inteira, porque sem ela não se lê o cenário. Mas a ordem de leitura é a do atendimento, e não a do atlas: primeiro o que mata em minutos, depois o que cega em horas, depois o osso, por último o calendário da fixação. Quem estuda pela lista de ossos chega à questão com o vocabulário certo e a prioridade trocada.

Convém também registrar o peso do problema, com o número medido e não com o adjetivo. O trauma de face responde por algo entre 7,4% e 8,7% dos atendimentos de emergência, segundo a literatura reunida pela série de Brasília, e as lesões de cabeça e face podem responder por metade das mortes traumáticas. Numa série cirúrgica brasileira recente de 141 operados, 43% tinham lesões associadas à fratura de face, 26% precisaram de cirurgia por outra especialidade durante o tratamento e 21% passaram pela terapia intensiva. A face raramente vem sozinha.

Esquema de um crânio de frente, dividido por três faixas horizontais coloridas que marcam os três andares da face. A faixa superior cobre a testa e a borda de cima das órbitas, correspondendo ao andar frontal. A faixa do meio cobre as maçãs do rosto, o nariz e a maxila, correspondendo ao terço médio. A faixa inferior cobre apenas a mandíbula, correspondendo ao andar mandibular. Uma coluna lateral com três marcadores redondos coloridos repete a mesma ordem de cima para baixo, indicando que a leitura da face começa no andar mais alto e desce. A figura não traz texto nem números.
Os terços superior, médio e inferior organizam a inspeção e a palpação da face. A avaliação sistemática das fraturas acompanha, sem atrasar, o cuidado com via aérea, hemorragia e visão.

A face é um problema de via aérea antes de ser um problema de osso

A face ameaça a respiração por três caminhos mecânicos distintos, que pedem condutas diferentes. O primeiro é o sangue e o coágulo na boca e na faringe, que ocupam o espaço por onde o ar passaria; é o mais rápido e o mais frequente nos enunciados. O segundo é o edema de lábios, língua e assoalho da boca, que fecha a via aérea ao longo de minutos a horas e engana quem examina cedo. O terceiro é a perda do apoio ósseo da língua, quando a mandíbula quebra dos dois lados na frente e a língua desaba para trás com o doente deitado.

Esse terceiro caminho é o único em que a posição resolve: se a base da língua caiu porque perdeu o arco anterior, sentar o doente devolve a passagem de ar. Nos outros dois, posição não resolve — sangue precisa de aspiração e de controle de fonte, e edema só piora com o tempo.

A consequência prática é a que a prova cobra. Diante de face gravemente traumatizada com sangramento em orofaringe e ruído respiratório, a decisão é assegurar a via aérea de forma definitiva, e cedo. Esperar para ver se melhora troca uma intubação difícil por uma intubação impossível, porque o edema cresce e o campo se enche de sangue. E a mesma face que exige a intubação é a face que a torna difícil: sangue no campo, anatomia distorcida, abertura de boca limitada pela dor e pelo travamento mandibular.

Por isso o plano precisa nascer com uma alternativa cirúrgica pronta. Quando a boca não abre, o campo está tomado por sangue ou a tentativa de intubação falha, a via aérea passa a ser obtida pelo pescoço, e essa decisão precisa estar tomada antes de a saturação cair. Quando não há trauma facial importante e a anatomia está preservada, o conjunto de opções pode ser diferente; é o cenário anatômico, e não uma preferência fixa por técnica, que define o plano.

O terço médio: três traços que separam três doentes

O terço médio da face vai da borda superior das órbitas até os dentes de cima, e se separa do crânio ao longo de três linhas de fraqueza descritas a partir de experimentos com crânios no início do século vinte. O traço mais baixo atravessa a maxila acima dos ápices dentários e solta o palato e a arcada superior como peça única. O intermediário tem forma de pirâmide, sobe pela parede medial das órbitas e pela raiz do nariz e leva o maciço nasal junto. O mais alto separa toda a face do crânio, pelos arcos zigomáticos e paredes laterais das órbitas.

A manobra que identifica o traço é simples: segura-se a arcada dentária superior e tenta-se movê-la, com a outra mão apoiada em pontos cada vez mais altos. Se só a arcada se move, o traço é o baixo; se o nariz vem junto, é o piramidal; se a face inteira se move contra a testa, a separação é craniofacial. Três apoios respondem à pergunta anatômica sem imagem.

A consequência clínica cresce com a altura do traço, e é isso que a prova quer: quanto mais alto, maior a chance de base do crânio comprometida, de fístula de líquido cefalorraquidiano e de sangramento difícil de estancar. O traço mais alto costuma vir com perda de consciência e outras lesões.

O zigoma merece linha própria porque é o osso do terço médio com mais consequência funcional imediata. Ele forma a proeminência da bochecha e parte da parede lateral e do assoalho da órbita, e a literatura de incidência o coloca em torno de um quarto de todas as fraturas do terço médio. Quando afunda, três coisas acontecem juntas: a bochecha achata, a abertura de boca trava porque o arco comprime o processo coronoide da mandíbula, e a órbita muda de volume. Trismo em trauma de face pode ser zigomático, e não mandibular.

O osso mais fraturado depende da porta por onde o doente entrou

Esta seção existe porque a pergunta parece objetiva e não é. Quatro séries brasileiras, em quatro revistas, respondem à mesma pergunta — qual é o osso facial mais fraturado — de modo incompatível. A de Brasília, com 711 doentes atendidos no pronto-socorro por cirurgia plástica, achou fratura em só 24,9% das lesões faciais, e entre elas o nariz respondeu por 76,8%. A de São José do Rio Preto, com 355 doentes de um serviço de otorrinolaringologia, achou mandíbula em 44,2% e nariz em 18,9%. A revisão regional, com 393 fraturados, achou mandíbula em 18,0%. E a série cirúrgica de 141 operados achou órbita em 67%.

Os extremos diferem por um fator de 4,27, e os dois ossos campeões nem são o mesmo osso. Antes de acusar qualquer série de erro, convém reconciliar, e a reconciliação é limpa: as quatro contam populações diferentes porque as quatro têm portas diferentes. O pronto-socorro geral vê toda lesão de face, e a maioria não tem fratura; nessa mistura o nariz domina, por ser a fratura mais comum e a menos operada. O serviço que trata por redução vê mandíbula. A série cirúrgica vê o que vai à mesa, e órbita vai à mesa. A revisão regional inclui esporte e acidente com animal, e dilui tudo.

A regra de leitura que sai daí serve para a prova inteira e não só para este capítulo. A pergunta pelo osso mais fraturado é sobre o cenário, não sobre o doente. Se o enunciado descreve um serviço de emergência geral, a resposta tende ao nariz; se descreve uma série operatória, tende à órbita ou à mandíbula. Quando o enunciado não nomeia o cenário, a alternativa que a banca costuma considerar correta é a mandíbula, porque é a que aparece na maior parte dos livros de trauma — e o livro de trauma descreve o doente que chega ao centro de trauma.

Um detalhe da revisão regional explica por que aquele 18,0% é tão mais baixo. A tabela por tipo de acidente e as tabelas de fratura declaram denominadores diferentes: 790 doentes com trauma maxilofacial numa, 393 com fratura nas outras. Como as taxas de mandíbula por mecanismo variam de 14,9% em bicicleta a 52,8% em motocicleta, um valor global de 18,0% só se sustenta sobre denominador maior que o das parcelas.

A órbita: o osso que se lê pelo olho, não pela tomografia

O assoalho da órbita é fino e cede antes das bordas. Quando um objeto de diâmetro maior que a abertura orbitária atinge o olho, a pressão sobe dentro do cone e o assoalho se rompe para baixo, em direção ao seio maxilar, com as bordas intactas. É a fratura por estouro, e ela tem uma característica que a torna traiçoeira: a face pode estar quase normal por fora.

O que denuncia é o exame do olho, e ele tem três achados que precisam ser procurados ativamente. O primeiro é a visão dupla ao olhar para cima, que aparece quando o músculo reto inferior ou a gordura ao redor dele ficam presos na fenda óssea. O segundo é o olho afundado, que surge quando o volume da órbita aumentou e o globo recuou; costuma demorar dias porque o edema inicial o mascara. O terceiro é a perda de sensibilidade na bochecha e no lábio superior, e na asa do nariz, do mesmo lado, por lesão do nervo que percorre o assoalho.

Uma apresentação muda a urgência inteira, sobretudo em criança e adolescente. O osso jovem é flexível: dobra, deixa o músculo entrar e volta ao lugar, prendendo o tecido como uma armadilha. O olho parece bom por fora, quase sem equimose, mas o movimento para cima está travado, a dor ao tentar olhar para cima é intensa e o doente pode ficar pálido, nauseado e bradicárdico pelo reflexo da tração do músculo. Esse quadro é de liberação cirúrgica urgente, medida em horas — e é a única fratura de face deste capítulo cuja demora custa a função de forma permanente.

Esquema de fratura do assoalho orbital, com herniação de conteúdo orbitário para o seio maxilar e relação com o músculo reto inferior.
Fratura do assoalho orbital pode permitir herniação de gordura e aprisionamento de tecidos, inclusive do reto inferior, com diplopia e restrição do olhar. O exame ocular orienta a urgência e a investigação por imagem.

Fora dessa situação, a decisão de operar a órbita é de dias e mede três coisas juntas: quanto do assoalho falta, se a visão dupla persiste depois que o edema cede e se há afundamento do olho que incomode. A série cirúrgica de 141 doentes achou a órbita como fratura operada mais frequente, em 67%, e a repartição por lado fecha exatamente: trinta só à direita, trinta e oito só à esquerda e vinte e sete bilaterais somam noventa e cinco.

A mandíbula: oclusão, trismo e o degrau que se palpa

A mandíbula é o osso da face com o exame mais objetivo, porque tem uma referência que o próprio doente confere. A pergunta que abre é sempre a mesma: os dentes fecham como fechavam antes? Alteração da mordida em doente com trauma facial é fratura de mandíbula ou de maxila até prova em contrário, e é um achado que não depende de imagem nem de colaboração fina.

O exame percorre o arco por fora e por dentro. Por fora, palpa-se toda a borda inferior procurando degrau ósseo e mobilidade anormal entre segmentos. Por dentro, procura-se laceração da gengiva e equimose no assoalho da boca, sinal bastante específico. Testa-se a sensibilidade do lábio inferior, porque o nervo corre dentro do osso e a perda localiza o traço. E mede-se a abertura de boca.

A distribuição dos traços é assunto de prova: côndilo, corpo, ângulo e a região próxima à linha média respondem pela maior parte, e a fratura de mandíbula costuma ser múltipla, porque o osso é um arco fechado e quebra em mais de um ponto. A série de São José do Rio Preto ilustra o ponto ao publicar as frequências por subsítio: somadas como estão impressas, elas ultrapassam o total do próprio osso — o que só fecha se cada doente contribuir com mais de um traço.

O reflexo dessa multiplicidade na via aérea já foi dito e vale repetir aqui, porque é onde a prova costuma cobrar a mandíbula. Fratura bilateral na região anterior do arco retira o apoio da língua; com o doente deitado, a base da língua desaba e a passagem de ar fecha. Sentar o doente ou tracionar o queixo é conduta imediata, e a fixação do osso vem depois, quando a respiração já estiver garantida.

O sangramento que não vem da ferida e a sonda que não sobe

Fratura de terço médio sangra por dentro, e essa é a hemorragia que assusta. O sangue vem de vasos profundos que se rompem junto com o osso e escorre pela parte de trás do nariz para a faringe, onde o doente engole e depois vomita. Quem olha a narina por fora pode ver pouco e concluir errado. Sangramento posterior é problema de via aérea e de volume ao mesmo tempo.

A sequência de controle sobe em degraus. Comprimir e tamponar a parte da frente resolve a minoria dos casos com fratura. Quando não resolve, o tamponamento precisa ocluir a saída posterior das fossas nasais, criando apoio para o tampão anterior. Quando nem isso basta, entram a redução e a estabilização do osso, que aproximam os cotos vasculares, e por fim a interrupção do fluxo por via endovascular ou por ligadura.

Há uma regra de conduta que a prova adora e que é puramente anatômica. O teto das fossas nasais é a lâmina que separa o nariz da fossa craniana anterior, e ela é perfurada e frágil. Em fratura do terço médio, ou diante de suspeita de fratura de base de crânio, nada introduzido pelo nariz pode ser empurrado às cegas: a sonda gástrica passa pela boca, e a intubação pela via nasal sai do cardápio. O risco é a passagem intracraniana do dispositivo.

Os sinais que levantam suspeita de base de crânio precisam ser procurados no mesmo exame: saída de líquido claro pelo nariz ou pelo ouvido, equimose periorbitária bilateral sem trauma direto nas pálpebras, equimose retroauricular e sangue atrás da membrana timpânica. Eles pertencem ao raciocínio do trauma cranioencefálico, mas são retomados aqui porque é o exame da face que frequentemente os encontra primeiro — e porque sua presença retira a via nasal do plano.

O relógio da fixação, que nenhuma fonte declara igual

Depois que a via aérea está garantida, o olho está preservado e o sangramento parou, a pergunta que sobra é quando operar. E aqui as fontes divergem de um modo que vale explicitar, porque a divergência é grande e a prova costuma escolher um valor sem dizer de onde tirou.

Três prazos diferentes circulam na literatura consultada para este capítulo. A série de Santa Catarina registra que a fratura do osso nasal costuma ser reparada nos quinze dias seguintes ao trauma e que a mandíbula pode ser manipulada com elásticos até quarenta e cinco dias. A discussão da série de acessos orbitários cita trabalho que encontrou menos complicações tardias quando o tratamento foi feito até vinte e quatro horas do trauma. E a fratura por estouro com músculo preso em criança tem urgência de horas. Do teto ao piso, os prazos publicados para operar uma face vão de um dia a quarenta e cinco: um intervalo de quarenta e cinco vezes, e nenhuma das fontes declara para qual osso o prazo da outra valeria.

O que a medida brasileira encontrou na prática está fora de quase todos esses prazos. Na série cirúrgica de 141 operados, a mediana do intervalo entre o trauma e a cirurgia foi de dezoito dias — já além do prazo de quinze dias do nariz e dezoito vezes o prazo de vinte e quatro horas. A média foi de quarenta vírgula quatro dias, duas vírgula vinte e quatro vezes a mediana, o que revela uma cauda longa; e o maior intervalo registrado foi de novecentos e dez dias, isto é, dois anos e meio entre o trauma e a mesa. O artigo publica a mediana no resumo e guarda a média e a amplitude no corpo.

A conclusão útil para a prova é de leitura, não de decorar número. Prazo de fixação é do osso e do achado, nunca da face inteira. Músculo preso na órbita é urgência de horas; nariz é de dias; mandíbula tolera semanas com bloqueio; e o terço médio alto acompanha a estabilidade neurológica. Quando a alternativa oferecer um prazo único para trauma de face sem dizer qual osso, ela está oferecendo uma régua que nenhuma das fontes sustenta.

O que a série mede depois, e o que ela não fecha

Os desfechos publicados prestam dois serviços: mostram o que o doente ainda enfrenta depois de operado e ensinam a ler tabela. A série de 141 doentes registra complicação em 14% e sequela em 22%, e sua taxa de complicação vale 2,45 vezes o menor valor da literatura brasileira que ela mesma cita e 1,92 vezes o maior. O artigo diz só que seu índice é superior, sem calcular a razão.

O que fica sem reconciliação é a relação entre esses dois números. Há mais doentes com sequela do que com complicação — onze de diferença, razão de 1,55 vezes. É possível, porque sequela funcional pode decorrer da lesão original e não do tratamento; mas o artigo publica os dois lado a lado sem distinguir, e quem lê rápido conclui que a cirurgia deixou mais sequela do que teve complicação. Sequela e complicação medem coisas diferentes, e não se somam nem se subordinam.

Vale também um aviso de método, porque o mesmo artigo oferece uma armadilha de leitura. Trinta e um tinham comorbidade e trinta e um, sequela, ambos impressos como 22%. São variáveis sem relação declarada entre si, e a coincidência dos dois números não é confirmação de nada. Não se deve usar um para reforçar o outro.

Do lado do custo social, uma medida brasileira é mais eloquente que qualquer adjetivo. Entre policiais militares operados por ferimento maxilofacial por arma de fogo no Rio de Janeiro, o afastamento médio foi de onze vírgula sete meses. E do lado da prevenção, a série de São Paulo registra que algumas cidades viram redução de até 40% nas mortes por veículo automotor nos trinta primeiros dias de vigência da lei do cinto — número que a própria fonte apresenta como observação de curto prazo, e que não deve ser lido como efeito consolidado.

Como a questão de trauma de face costuma ser montada

O capítulo termina com o desenho recorrente da questão. O enunciado abre com mecanismo de alta energia: colisão frontal, queda de altura, agressão. Descreve a face — sangramento em cavidade oral, edema de lábios e língua, deformidade, trismo. Dá um dado respiratório: ruído borbulhante, saturação em queda, ou a negativa de que a via aérea está preservada. E pergunta a conduta.

A alternativa correta, nesse desenho, quase nunca é o nome da fratura. É assegurar a via aérea de forma definitiva, e o distrator caro é a opção que manda observar, imobilizar ou pedir tomografia antes. A tomografia é o exame certo para o osso e é inútil para o doente que está perdendo a passagem de ar; a questão testa a ordem, não o exame.

O segundo desenho recorrente é o do olho. Enunciado com trauma periorbitário, visão dupla ao olhar para cima e perda de sensibilidade na bochecha do mesmo lado. Aqui a resposta é anatômica e a alternativa correta menciona o assoalho da órbita e o aprisionamento do músculo. Quando o doente é criança, com olho externamente pouco alterado e dor forte ao mover para cima, a resposta muda de exame para urgência cirúrgica, e o distrator caro é reavaliar em uma semana.

O terceiro desenho é o da contraindicação. Enunciado com fratura de terço médio ou sinais de base de crânio, seguido de uma alternativa que propõe passar sonda pelo nariz ou intubar pela via nasal. A resposta é pela boca. Trauma de face também é tema de via aérea: quem estuda apenas a anatomia reconhece a fratura, mas pode errar a prioridade e escolher uma técnica perigosa.

04

Quatro perguntas, na ordem em que a face as cobra

A sequência abaixo é a ordem de decisão, e ela não coincide com a ordem em que as lesões chamam a atenção. A face deformada atrai o olhar primeiro e é a última a ser resolvida. Cada cartão responde a uma pergunta e libera a seguinte.

Primeira: a passagem de ar está garantida agora e daqui a vinte minutos

Sangue e coágulo na boca, edema que cresce em lábios e língua, ou arco anterior da mandíbula quebrado dos dois lados com a língua caindo para trás. Qualquer um dos três indica assegurar a via aérea de forma definitiva e cedo, com plano cirúrgico de resgate já definido, porque a mesma face que exige a intubação é a que a torna difícil. Reavaliar mais tarde troca uma via aérea difícil por uma impossível.

Segunda: há alguma coisa que custe a visão nas próximas horas

Visão dupla ao olhar para cima, movimento vertical travado, dor forte ao tentar levantar o olhar, palidez com náusea e pulso lento. Em criança ou adolescente com olho externamente pouco alterado, esse conjunto é aprisionamento muscular no assoalho da órbita e pede liberação cirúrgica em horas. No adulto, sem travamento e sem reflexo, a decisão é de dias e leva em conta afundamento do globo e visão dupla persistente.

Terceira: qual andar da face quebrou, e por onde entra o que for introduzido

Segurar a arcada dentária superior e movê-la, apoiando a outra mão em pontos cada vez mais altos, separa os três traços do terço médio em segundos. Quanto mais alto o traço, maior a chance de base de crânio comprometida. A consequência é imediata e independe da imagem: com fratura de terço médio ou sinais de base de crânio, sonda gástrica e intubação passam pela boca, nunca pelo nariz.

Quarta: qual é o prazo deste osso, que não é o prazo da face

Músculo preso na órbita é urgência de horas. Osso nasal costuma ser reduzido dentro de quinze dias. Mandíbula tolera manipulação elástica por semanas. Terço médio alto acompanha a estabilidade neurológica e o momento em que o doente suporta a operação. Alternativa que ofereça prazo único para trauma de face, sem nomear o osso, oferece régua que nenhuma das fontes deste capítulo sustenta.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é o osso facial mais fraturado

O nariz, em três de cada quatro fraturas faciais

Série de 711 doentes atendidos no pronto-socorro por equipe de cirurgia plástica ao longo de um ano. Encontrou fratura em apenas 24,9% das lesões faciais, o que corresponde a cerca de cento e setenta e sete doentes, e entre essas fraturas o nariz respondeu por 76,8%. É a série com a porta mais larga do conjunto: entra toda lesão de face, com fratura ou sem ela.

Rev Col Bras Cir. 2008;35(1):9-13, seção de resultados e resumo.

A mandíbula, em quase metade dos doentes

Série de 355 doentes tratados por serviço de otorrinolaringologia ao longo de seis anos. Mandíbula como diagnóstico anatômico primário em 44,2%, correspondendo a cento e cinquenta e sete doentes, e nariz em 18,9%, correspondendo a sessenta e sete. Nessa série 77,2% receberam tratamento que o corpo do artigo descreve como cirúrgico incruento, isto é, redução sem abertura.

Braz J Otorhinolaryngol. 2010;76(5):565-74, seção de resultados.

A mandíbula, mas em menos de um quinto

Revisão de 1.121 prontuários de município do interior, com trauma maxilofacial em 790 e fratura facial em 393. Mandíbula em 18,0%, muito abaixo das demais séries. A diferença se explica pelo denominador e pela inclusão de mecanismos que as outras não têm, como esporte, que respondeu por 20,5% dos acidentes, e acidente com animal, que respondeu por 14,1%.

Braz Oral Res. 2012;26(2):119-25, resultados e Tabela um.

A órbita, em dois terços dos operados

Série cirúrgica de 141 doentes operados em serviço público. Órbita em 67%, maxila em 56%, mandíbula em 41%, zigoma em 32% e nariz em 28%. As frequências somam duzentos e trinta e oito por cento porque cada doente contribui com mais de um osso: são trezentos e trinta e sete sítios em cento e quarenta e um doentes, cerca de dois vírgula quatro ossos por doente.

Rev Bras Cir Plást. 2022;37(2), resultados e figura de distribuição por sítio.

Na prova

Se o enunciado nomear o cenário, responda pelo cenário: pronto-socorro geral que vê toda lesão de face puxa para o nariz; série operatória puxa para órbita ou mandíbula. Se o enunciado não nomear cenário nenhum, a alternativa que as bancas tratam como correta é a mandíbula, porque é a resposta dos livros de trauma, que descrevem o doente do centro de trauma. Alternativa que apresente qualquer um desses valores como se fosse a frequência universal do osso está fora de qualquer das fontes medidas.

Em quanto tempo se fixa uma fratura de face

Até vinte e quatro horas, para o acesso orbitário

A discussão do ensaio comparativo de acessos à órbita cita trabalho que encontrou menor índice de complicações tardias quando o tratamento foi realizado até vinte e quatro horas do trauma. O prazo aparece atribuído à literatura, sem período de recrutamento declarado no trecho e sem que o osso a que se aplica seja generalizado para o resto da face.

Rev Bras Cir Plást. 2016;31(1):59-65, seção de discussão.

Quinze dias para o nariz, quarenta e cinco para a mandíbula

A série catarinense de cento e oitenta e cinco fraturas registra que o osso nasal costuma ser reparado nos quinze dias seguintes ao trauma e que a mandíbula pode ser manipulada com elásticos até quarenta e cinco dias após o trauma. São dois prazos diferentes na mesma frase, para dois ossos diferentes — o que já contradiz a ideia de prazo único para a face.

Braz Oral Res. 2009;23(3):268-74, seção de discussão sobre tratamento.

Dezoito dias, que é o que realmente aconteceu

A série cirúrgica de cento e quarenta e um operados mediu a mediana do intervalo entre trauma e cirurgia em dezoito dias, com média de quarenta vírgula quatro dias e amplitude de zero a novecentos e dez dias. A mediana medida já ultrapassa o prazo de quinze dias do nariz e é dezoito vezes o prazo de vinte e quatro horas da órbita. O resumo publica só a mediana.

Rev Bras Cir Plást. 2022;37(2), resultados; média e amplitude no corpo do artigo.

Na prova

Alternativa que ofereça prazo único para trauma de face, sem nomear o osso, deve ser recusada: nenhuma das fontes consultadas sustenta prazo comum. Se o enunciado descrever criança com movimento vertical do olho travado e dor forte, a resposta é urgência de horas. Se descrever fratura nasal isolada, o prazo é de dias. Se descrever mandíbula com oclusão alterada e sem sofrimento de via aérea, semanas são aceitáveis. E se a alternativa disser que a demora não tem consequência, está errada em qualquer dos três casos.

Qual acesso usar para o assoalho da órbita

Os dois se equivalem, porque a diferença não foi significante

É o que o ensaio brasileiro conclui formalmente. Com quinze doentes em cada grupo, a diferença de ectrópio entre os acessos não alcançou significância estatística. A leitura literal da conclusão é que os acessos se equivalem, e é a leitura que a maioria dos resumos reproduz.

Rev Bras Cir Plást. 2016;31(1):59-65, resultados e conclusão.

O transconjuntival, porque o outro everteu cinco vezes mais

Os números brutos do mesmo trabalho contam outra coisa. Ectrópio ocorreu em cinco dos quinze doentes do acesso feito abaixo dos cílios e em um dos quinze do acesso pela conjuntiva: um terço contra menos de sete por cento, uma razão de cinco vezes e uma diferença absoluta de vinte e seis vírgula sete pontos percentuais. O valor agrupado de vinte por cento, que é o publicado no resumo, é justamente o que esconde essa separação.

Rev Bras Cir Plást. 2016;31(1):59-65, Tabela dois e texto dos resultados.

Nenhum dos dois é seguro, porque a literatura vai até quarenta e dois por cento

A discussão do mesmo artigo cita séries estrangeiras com ectrópio relatado em até quarenta e dois por cento. Somando ao menor valor do próprio ensaio, a faixa publicada para a mesma complicação vai de menos de sete por cento a quarenta e dois por cento — uma amplitude de mais de seis vezes, que diz mais sobre definição de desfecho e tempo de seguimento do que sobre a técnica.

Rev Bras Cir Plást. 2016;31(1):59-65, discussão, citando séries estrangeiras.

Na prova

As bancas raramente pedem o acesso pelo nome, e quando pedem costumam aceitar o transconjuntival como o de menor cicatriz aparente. O que é cobrável com segurança é o raciocínio: a complicação que se teme é a eversão da pálpebra inferior, e ela é mais frequente no acesso feito pela pele abaixo dos cílios. Alternativa que afirme não haver diferença entre os acessos está repetindo a conclusão estatística de amostras pequenas como se fosse equivalência demonstrada.

06

Caso resolvido

Homem de trinta e dois anos é trazido pelo resgate após colisão frontal em alta velocidade, sem uso de cinto. Chega em prancha rígida, com colar cervical, consciente mas agitado, abrindo os olhos ao chamado. A face está grosseiramente deformada, com edema importante de lábios e de língua e sangramento ativo em cavidade oral que o doente engole e cospe alternadamente. A respiração faz ruído borbulhante audível à distância. Pressão arterial cento e quinze por setenta e cinco, frequência cardíaca cento e dez, saturação noventa e um por cento sob máscara com reservatório e caindo lentamente. A abertura de boca está limitada. Ao segurar a arcada dentária superior e tracionar, o examinador percebe que o maciço nasal se move junto com a arcada, enquanto a testa permanece fixa. Há saída de líquido claro pela narina direita, misturado ao sangue, e equimose ao redor dos dois olhos sem trauma direto nas pálpebras. A equipe pergunta se deve pedir tomografia de face antes de qualquer conduta e se pode passar uma sonda pelo nariz para esvaziar o estômago, já que a boca está cheia de sangue.
primeiro, ler a face como um problema de via aérea e não como um problema de osso
Três dos elementos do caso apontam para o mesmo lugar e nenhum deles é ósseo: sangue ativo em cavidade oral, edema progressivo de lábios e língua e ruído respiratório borbulhante com saturação em queda. Esse conjunto é obstrução em curso, não risco teórico. A conduta é assegurar a via aérea de forma definitiva agora. A tomografia é o exame certo para o osso e não muda nada nesta decisão — proposta antes da via aérea, ela apenas retira o doente da sala onde ele poderia ser socorrido.
segundo, montar a intubação já contando com a falha
A mesma face que exige a intubação é a que a torna difícil: campo com sangue, anatomia distorcida, abertura de boca limitada. O plano precisa nascer com aspiração potente disponível, com o material de resgate aberto e com a decisão do acesso pelo pescoço já tomada, não discutida no meio da tentativa. Esperar melhora do edema não é opção: edema de língua e assoalho de boca cresce ao longo de minutos a horas e transforma via aérea difícil em via aérea impossível.
terceiro, ler a manobra da arcada como resposta anatômica pronta
O maciço nasal se moveu junto com a arcada dentária superior, e a testa não. Isso localiza o traço na altura piramidal do terço médio, aquela que sobe pela parede medial das órbitas e pela raiz do nariz. Não é o traço mais baixo, que soltaria apenas o palato, nem a separação craniofacial completa, que moveria a face inteira contra a testa. A informação é obtida em segundos, com as mãos, e orienta o que esperar em seguida.
quarto, recusar a sonda pelo nariz com o argumento anatômico
A pergunta da equipe tem resposta única e ela não depende de imagem. Traço piramidal do terço médio compromete a região da lâmina que separa o nariz da fossa craniana anterior, e o caso ainda traz dois sinais que a confirmam: líquido claro saindo pela narina e equimose ao redor dos dois olhos sem trauma direto nas pálpebras. Nada introduzido pelo nariz pode ser empurrado às cegas. A sonda gástrica passa pela boca; a via nasal sai do cardápio também para o tubo.
quinto, tratar o sangramento como posterior até prova em contrário
Sangue que o doente engole e depois cospe vem de trás, não da ferida que se vê. Comprimir a parte da frente do nariz resolve a minoria dos casos com fratura. A sequência sobe em degraus: tamponamento que alcance a saída posterior, redução e estabilização do próprio osso para aproximar os cotos vasculares e, se persistir, interrupção do fluxo por via endovascular ou por ligadura. Enquanto isso corre, o volume perdido precisa ser reposto e medido.
sexto, deixar o osso para depois, e escolher o prazo pelo osso
Com a via aérea garantida, o sangramento controlado e o doente estável, a fixação do terço médio é decidida com a tomografia e acompanha a estabilidade neurológica. Não há prazo único de face: a órbita com músculo preso seria urgência de horas, o nariz teria dias e a mandíbula toleraria semanas. A mediana medida numa série cirúrgica brasileira foi de dezoito dias, com média de quarenta vírgula quatro — números que descrevem o que acontece, não o que seria ideal.
07

Agora feche você

Menina de onze anos leva uma cotovelada na região do olho esquerdo durante um jogo na escola. Chega ao pronto-socorro cerca de duas horas depois, acompanhada da mãe, que estranha o encaminhamento porque, nas palavras dela, o olho está bom. De fato há apenas discreto edema palpebral, sem hematoma importante e sem laceração. A menina está pálida, refere náusea e vomitou uma vez no caminho. Queixa-se de dor forte quando tenta olhar para cima e diz que enxerga duas imagens nessa posição. A frequência cardíaca está em cinquenta e dois batimentos por minuto. A acuidade visual está preservada em ambos os olhos e as pupilas reagem normalmente. À palpação, não se identifica degrau na borda orbitária. A sensibilidade da bochecha esquerda e da asa do nariz do mesmo lado está diminuída em comparação com o lado direito. O plantonista considera liberar com analgésico e retorno ambulatorial em sete dias.
Passo 1
Qual é o diagnóstico anatômico mais provável, e por que a ausência de hematoma importante e de degrau na borda torna o quadro mais preocupante em vez de menos, nesta faixa etária?
Passo 2
Que mecanismo explica a associação de palidez, náusea, vômito e frequência cardíaca de cinquenta e dois batimentos por minuto neste contexto, e o que ele indica sobre o que está acontecendo dentro da órbita?
Passo 3
A perda de sensibilidade da bochecha e da asa do nariz do mesmo lado aponta para qual estrutura, e o que a topografia dessa estrutura acrescenta à localização da fratura?
Passo 4
Qual é o intervalo de tempo aceitável entre o trauma e a intervenção neste caso específico, e por que ele difere do prazo aplicável à mesma lesão em um adulto sem travamento do movimento?
Passo 5
A conduta proposta pelo plantonista de liberar com retorno em sete dias é adequada? Justifique nomeando a consequência funcional esperada caso a conduta seja mantida.
Passo 6
Se a mesma menina tivesse chegado com o olho muito equimosado e edemaciado, movimento vertical preservado e sem náusea, a urgência mudaria? Explique o que, no quadro descrito, é o determinante da pressa.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Estudar pela lista de ossos e chegar à questão com a prioridade trocada A armadilha central é estudar a classificação óssea sem organizar a sequência de decisão. O enunciado pode descrever sangue em orofaringe, edema progressivo ou ruído respiratório e oferecer a tomografia como distrator. Reconhecer o traço da fratura não ajuda se o paciente está perdendo a passagem de ar: primeiro se assegura a via aérea; a imagem e a fixação vêm depois.
  2. 2Tratar a face bonita como face sem lesão grave A fratura por estouro do assoalho da órbita rompe para baixo com as bordas intactas, e a face por fora pode estar quase normal. Em criança, o osso flexível dobra, deixa o músculo entrar e volta ao lugar, prendendo o tecido com pouquíssimo hematoma externo. O olho branco engana. O que denuncia é o movimento vertical travado, a dor ao tentar olhar para cima e o conjunto de palidez, náusea e pulso lento — e esse quadro é de sala cirúrgica em horas.
  3. 3Passar sonda ou tubo pelo nariz porque a boca está difícil A tentação é grande justamente quando a boca não abre, e é aí que a contraindicação vale mais. O teto das fossas nasais é uma lâmina perfurada que separa o nariz da fossa craniana anterior, e a fratura do terço médio a compromete. Nada introduzido pelo nariz pode ser empurrado às cegas nesse cenário. Se a boca não serve para a intubação, o caminho seguinte é o pescoço, não a narina.
  4. 4Ler o osso mais fraturado como se fosse constante da natureza Quatro séries brasileiras dão quatro respostas: nariz em 76,8%, mandíbula em 44,2%, mandíbula em 18,0% e órbita em 67%. Os extremos diferem por quatro vírgula vinte e sete vezes e os campeões não são o mesmo osso. A diferença é de população, não de erro: quem vê toda lesão de face acha nariz, quem opera acha órbita. Decorar um valor isolado e aplicá-lo a qualquer enunciado é errar por leitura, não por conteúdo.
  5. 5Somar as frequências por sítio e estranhar que passem de cem Na série de cento e quarenta e um operados, as frequências por osso somam duzentos e trinta e oito por cento, porque são trezentos e trinta e sete sítios em cento e quarenta e um doentes. Na série de trezentos e cinquenta e cinco, os subsítios da mandíbula somados como impressos também ultrapassam o total do osso. Não é erro: a fratura de face é múltipla por natureza. Quem espera que a linha feche em cem por cento está tratando um doente como se fosse um osso.
  6. 6Confundir sequela com complicação porque os dois vêm na mesma tabela A série cirúrgica publica complicação em 14% e sequela em 22%, lado a lado e sem distinguir. Há mais doentes com sequela do que com complicação — onze de diferença, uma razão de um vírgula cinquenta e cinco. A leitura apressada conclui que a cirurgia deixou mais sequela do que teve complicação. A leitura correta é que sequela pode vir da lesão original e complicação vem do tratamento: medem coisas diferentes e não se subordinam.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A crítica que resiste é a de que o prazo pertence ao osso e ao achado, nunca à face inteira. As fontes reunidas exibem valores que vão de vinte e quatro horas para um acesso orbitário a quarenta e cinco dias para manipulação elástica da mandíbula, passando por quinze dias para o osso nasal, e nenhuma delas propõe que seu prazo valha para os demais ossos. Tecido muscular preso na órbita é urgência de horas; nariz é de dias; mandíbula tolera semanas; terço médio alto acompanha a estabilidade neurológica. Dizer que a série é pequena demais não é a falha central, porque o problema da afirmação não é o tamanho amostral e sim a generalização entre ossos. Usar a média medida para declarar impossível o prazo de setenta e duas horas confunde o que foi observado com o que seria recomendável, além de ignorar que a média está inflada por uma cauda longa que chega a novecentos e dez dias. Usar a mediana para o mesmo fim comete o mesmo erro em sentido inverso. E afirmar que consolidação viciosa é irrelevante em face contraria a própria razão de existir da fixação nesses ossos.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

A face é problema de via aérea antes de ser problema de osso. Três mecanismos fecham a passagem de ar — sangue e coágulos, edema de lábios e língua e queda da base da língua após fratura bilateral do arco anterior da mandíbula; apenas o terceiro melhora com posição e tração do queixo. A anatomia do terço médio continua indispensável, mas deve ser lida depois das ameaças imediatas: via aérea, visão e hemorragia.

em 30 dias

Os quatro números que sobrevivem a trinta dias são de leitura, não de decoreba. Primeiro: o osso mais fraturado depende da porta — nariz em 76,8% num pronto-socorro geral com fratura em só 24,9% das lesões, mandíbula em 44,2% num serviço de otorrinolaringologia, mandíbula em 18,0% numa revisão regional e órbita em 67% numa série operatória, uma amplitude de quatro vírgula vinte e sete vezes. Segundo: não existe prazo único de fixação — as fontes trazem vinte e quatro horas para o acesso orbitário, quinze dias para o nariz e quarenta e cinco dias para a mandíbula, e a mediana realmente medida numa série brasileira foi de dezoito dias, com média de quarenta vírgula quatro e amplitude de zero a novecentos e dez. Terceiro: a fratura de face é múltipla — trezentos e trinta e sete sítios em cento e quarenta e um doentes, dois vírgula quatro ossos por doente, e por isso as linhas somam duzentos e trinta e oito por cento. Quarto: sequela em 22% e complicação em 14% na mesma série medem coisas diferentes e não se subordinam. E a criança com olho branco, movimento vertical travado, dor forte e pulso lento é a única urgência de horas do capítulo.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Este capítulo se aprende de verdade num atendimento em que o doente chega com a face deformada e a decisão de assegurar a via aérea precisa ser tomada antes de qualquer imagem — e em que a manobra de tracionar a arcada dentária superior, feita com as mãos e sem exame nenhum, já responde qual andar da face se soltou. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Trauma de face: a prova escreve a consequência e nunca nomeia o osso — Preparatório para provas | OsceLabs