Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Colangite aguda e coledocolitíase

A vinheta raramente pergunta o diagnóstico. Ela pergunta duas coisas: se este paciente vai direto para a CPRE ou faz exame antes, e em quantas horas a via biliar precisa ser descomprimida. Quem responde pelo grau de Tóquio acerta; quem responde pelos critérios da colecistite erra a pergunta inteira.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 38 anos é atendida na UPA com dor em hipocôndrio direito, febre de 38,5°C e icterícia. À ultrassonografia, há dilatação de vias biliares e cálculo em colédoco. Evolui com hipotensão e confusão mental. Qual é o diagnóstico e a conduta prioritária além da antibioticoterapia e ressuscitação volêmica?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da via biliar principal: o cálculo que desce da vesícula e encalha no colédoco, e o que acontece quando a bile represada atrás dele se infecta. São duas doenças encadeadas — coledocolitíase e colangite aguda — e duas perguntas de prova diferentes. A primeira é de investigação: este paciente vai direto para a CPRE, faz um exame confirmatório antes, ou vai para a mesa sem mexer no colédoco? A segunda é de relógio: em quantas horas essa via biliar precisa ser descomprimida?

A vesícula não é assunto daqui. Colecistite aguda, a graduação de Tóquio da colecistite e o momento da colecistectomia por colecistite estão no capítulo 2 desta apostila; pancreatite biliar tem o capítulo 1. O que este capítulo acrescenta é o que muda quando a obstrução sai do ducto cístico e vai para o colédoco: em vez de uma vesícula inflamada, um sistema fechado sob pressão em comunicação direta com o sangue portal.

Colangite aguda não tem protocolo do Ministério da Saúde: quando o enunciado diz “segundo as diretrizes atuais”, está falando da Tokyo Guidelines 2018 (TG18), que é a régua que as bancas brasileiras cobram e que mantém intactos os critérios diagnósticos e a graduação do TG13. Coledocolitíase, essa sim, tem documento nacional: a Conitec avaliou a CPRE pré-cirúrgica em 2019 e a Portaria SCTIE/MS nº 39, de 24 de julho de 2019, incorporou o procedimento ao SUS como opção à exploração laparoscópica do colédoco. É por isso que este capítulo tem duas réguas, e a questão quase sempre denuncia qual delas está usando.

Um aviso que vale a leitura inteira: os critérios de Tóquio da colangite não são os da colecistite. Têm as mesmas letras, os mesmos números de grau e nada mais em comum. Confundir os dois é a pegadinha clássica do tema, e ela é montada de propósito.

03

O que muda decisão

O que a pressão faz e a vesícula não fazia

Na colecistite, o cálculo encrava no ducto cístico e o estrago fica confinado a uma bolsa: a vesícula distende, a parede inflama, o processo é local e a sepse, quando vem, vem tarde. No colédoco a geometria é outra. A via biliar principal é um cano contínuo que drena todo o fígado e desemboca no duodeno; obstruí-la fecha um sistema que continua recebendo bile produzida a montante. A pressão dentro dos ductos sobe, e o TG18 descreve o que acontece em seguida com precisão: o aumento de pressão empurra micro-organismos e endotoxinas da bile infectada para dentro da circulação sistêmica, disparando resposta inflamatória.

Guarde a sequência, porque ela explica todas as decisões do capítulo: obstrução, estase, colonização, pressão, e só então bacteremia. O antibiótico age no quarto elemento dessa cadeia; a drenagem age no primeiro. É por isso que antibiótico sozinho não resolve colangite grave — enquanto a pressão não cai, a bile infectada continua sendo bombeada para dentro do sangue, e nenhuma concentração sérica de antimicrobiano alcança um compartimento que não drena.

A causa mais comum é o cálculo, quase sempre secundário — formado na vesícula e migrado. A Conitec estima que de 5 a 20% dos portadores de doença da vesícula biliar desenvolverão coledocolitíase secundária. Coledocolitíase primária, formada no próprio ducto, é rara e tem contexto próprio: bile espessa, como na fibrose cística, e idosos. Mas cálculo não é a única causa de obstrução infectada: estenose benigna pós-operatória, tumor periampular ou hilar, e — cada vez mais frequente na prática — prótese biliar ocluída. Toda vinheta com stent biliar prévio e febre é colangite até prova em contrário.

A diferença prática entre as duas doenças aparece na velocidade. Colecistite Grau I em paciente hígido pode esperar a manhã seguinte para operar. Colangite Grau III é sepse com foco descomprimível, e o tempo até a descompressão é a variável que o candidato precisa saber estimar. O resto do capítulo é sobre como estimar esse tempo.

Dois cortes comparativos da árvore biliar: à esquerda, cálculo no ducto cístico com apenas a vesícula distendida; à direita, cálculo no colédoco distal com toda a árvore biliar dilatada e passagem de conteúdo dos ductos para os vasos hepáticos.
A mesma pedra em dois lugares diferentes produz duas doenças diferentes. No cístico, a inflamação fica presa na vesícula. No colédoco, o sistema inteiro sobe de pressão e devolve bile infectada para a circulação — é essa a colangite.

Charcot mente por omissão

A tríade de Charcot — febre, icterícia e dor em hipocôndrio direito — é o quadro que todo mundo aprende e o que menos aparece. O TG18 abre o capítulo de critérios com essa constatação: a tríade tem especificidade muito alta, e a presença dela sugere fortemente colangite, mas a sensibilidade é baixa demais para servir de critério diagnóstico. Os estudos antigos falavam em 50 a 70%; as séries multicêntricas recentes derrubaram esse número para 26,4% e 21,2%.

Traduza para a beira do leito. Se a tríade estiver completa em pouco mais de um quarto dos pacientes com colangite, exigi-la significa deixar passar cerca de três em cada quatro. E o paciente que a tríade perde não é o paciente fácil: a icterícia, isolada, aparece em apenas 60 a 70% dos casos, de modo que o idoso que chega confuso e hipotenso, sem dor localizada e sem amarelo visível, é justamente o que mais precisa da drenagem. Foi por isso que a régua mudou — não porque a tríade esteja errada, mas porque ela é uma armadilha de sensibilidade.

A pêntade de Reynolds acrescenta à tríade a hipotensão e o rebaixamento do nível de consciência. Ela continua útil, mas não como critério diagnóstico: o que a pêntade descreve, na linguagem de hoje, é a colangite que já tem disfunção orgânica — ou seja, Grau III. É uma etiqueta de gravidade, não de diagnóstico. Se a tríade completa já é rara, a pêntade completa é mais rara ainda, e esperar por ela é esperar pelo choque instalado.

A prova cobra os dois lados dessa moeda. De um lado, a alternativa que diz “a ausência da tríade de Charcot afasta colangite aguda” está sempre errada. Do outro, a alternativa que diz “a tríade de Charcot é altamente específica” está sempre certa: quando ela aparece completa, o diagnóstico praticamente se impõe. O erro não é confiar na tríade presente; é exigir a tríade ausente.

Os critérios do TG18: A obrigatório, mais B ou C

O TG18 organiza o diagnóstico de colangite em três blocos, e a arquitetura é diferente da da colecistite. O bloco A é inflamação sistêmica: febre acima de 38 °C e/ou calafrios com tremor, ou laboratório de resposta inflamatória — leucócitos abaixo de 4.000 ou acima de 10.000 por microlitro, ou PCR de 1 mg/dL ou mais. O bloco B é colestase: icterícia com bilirrubina total de 2 mg/dL ou mais, ou provas hepáticas alteradas — fosfatase alcalina, gama-GT, AST ou ALT acima de 1,5 vez o limite superior da normalidade. O bloco C é imagem: dilatação biliar, ou evidência da etiologia (estenose, cálculo, prótese).

A combinação é o que precisa ser decorado. Um item de A somado a um item de B ou de C fecha diagnóstico suspeito. Um item de A, mais um de B, mais um de C fecha diagnóstico definitivo. Repare no que isso significa: o bloco A é obrigatório nas duas contas. Sem sinal de inflamação sistêmica não há colangite pelo TG18, por mais colestase e por mais cálculo que a imagem mostre — isso é coledocolitíase, não colangite. E repare no que não é exigido: dor abdominal não entra em nenhum bloco. Ela consta apenas como “fator que ajuda no diagnóstico”, ao lado da história de doença biliar prévia.

Essa exclusão não foi descuido. Quando o comitê testou a versão que mantinha os três elementos de Charcot, obteve sensibilidade de 95,1% e especificidade de apenas 66,3%, com 38,8% de falsos-positivos vindos de colecistite aguda. Retirando a dor abdominal da conta, a sensibilidade caiu para 91,8% e a especificidade subiu para 77,7%, com os falsos-positivos por colecistite despencando para 5,9%. Foi essa versão que virou o TG13 e foi adotada sem mudanças no TG18. A dor saiu justamente porque era ela que confundia colangite com colecistite.

O ganho prático foi medido numa série de 6.063 pacientes tratados como colangite no Japão e em Taiwan: os critérios do TG13 fecharam diagnóstico suspeito ou definitivo em 5.454 deles, 90,0%, contra 4.815 pelos critérios de 2007, 79,4%. Ainda há um buraco conhecido: entre os 2.523 pacientes de Grau I, a taxa diagnóstica foi de apenas 83,6% — cerca de um em cada seis casos leves escapa da régua, porque a resposta inflamatória sistêmica pode ser discreta. Diante de colestase com cálculo e febre baixa, o TG18 manda reavaliar a cada 6 a 12 horas até fechar, não descartar.

Agora a comparação que a prova explora. Na colecistite, o bloco A são sinais locais (Murphy, dor, defesa ou massa em hipocôndrio direito), o bloco B são os sistêmicos e o bloco C é a imagem; um item de A com um de B basta para suspeita, e o C fecha o definitivo. Na colangite, o bloco A já é o sistêmico, o B é colestase e o C é imagem, e o A é obrigatório. Um enunciado que fale em “sinal de Murphy positivo” está no mundo da colecistite; um que fale em bilirrubina de 2 mg/dL e via biliar dilatada está no mundo da colangite. As duas doenças convivem no mesmo paciente com frequência, e nesse caso as duas contas são feitas separadamente.

Graduar a colangite: um critério para o Grau III, dois para o Grau II

A graduação de gravidade é o que decide a conduta, e ela é lida de cima para baixo: procura-se Grau III primeiro, depois Grau II, e o que sobra é Grau I. O Grau III é colangite com disfunção orgânica, e basta uma: cardiovascular, com hipotensão exigindo dopamina de 5 µg/kg/min ou mais, ou qualquer dose de noradrenalina; neurológica, com rebaixamento do nível de consciência; respiratória, com relação PaO₂/FiO₂ abaixo de 300; renal, com oligúria ou creatinina acima de 2,0 mg/dL; hepática, com INR acima de 1,5; hematológica, com plaquetas abaixo de 100.000/mm³.

Esses seis itens são idênticos aos do Grau III da colecistite — é o único ponto em que as duas réguas se encontram, e é justamente por isso que o candidato distraído acha que o resto também é igual. Não é. O Grau II da colangite exige dois de cinco marcadores: leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 4.000/mm³; febre de 39 °C ou mais; idade de 75 anos ou mais; bilirrubina total de 5 mg/dL ou mais; hipoalbuminemia, definida como albumina abaixo de 0,7 vez o limite inferior da normalidade. Na colecistite, o Grau II se fecha com um item, e os itens são outros — leucócitos acima de 18.000, massa palpável, mais de 72 horas de sintomas, inflamação local marcada.

Decore a assimetria em uma frase: na colangite, um critério fecha o Grau III e dois fecham o Grau II. Ela é a fonte de metade dos erros do tema. Um paciente de 78 anos com leucócitos de 14.000, febre de 38,2 °C, bilirrubina de 3,1 mg/dL e albumina normal tem exatamente dois marcadores — idade e leucocitose — e é Grau II. O mesmo paciente com 70 anos teria apenas um e seria Grau I. E note que bilirrubina, que não gradua colecistite, gradua colangite: 5 mg/dL ou mais é um dos cinco marcadores.

A graduação não é enfeite prognóstico, e o TG18 é explícito sobre por que a manteve: ela existe para identificar quem se beneficia da drenagem precoce. Na mesma série de 6.063 pacientes, 1.521 eram Grau III (25,1%), 2.019 Grau II (33,3%) e 2.523 Grau I (41,6%), e a mortalidade em 30 dias subiu junto com o grau. Somando os dois braços do estudo, morreram 162 dos 6.063 — mortalidade global de 2,7%, o que já diz que colangite tratada não é doença de alta letalidade média, e que a letalidade se concentra no grupo grave.

O dado que sustenta o fluxograma inteiro está numa tabela só. Comparando quem foi drenado até 24 horas da admissão com quem foi drenado depois ou não foi drenado, a mortalidade em 30 dias não mudou no Grau I (1,3% contra 1,2%) nem no Grau III (5,4% contra 4,9%), mas caiu no Grau II: 1,7% contra 3,4%. É uma diferença absoluta de 1,7 ponto percentual — drenar cerca de 58 pacientes de Grau II dentro de 24 horas evita um óbito em 30 dias. O Grau II é o grau que a régua existe para pescar.

As três colunas do tratamento e o relógio de cada grau

O tratamento da colangite tem três colunas, e a prova gosta de testar se o candidato sabe qual delas não pode faltar. A primeira é o suporte: hidratação, correção de eletrólitos, analgesia e, no Grau III, suporte orgânico com ventilação e vasopressor. A segunda é o antimicrobiano em dose plena, iniciado assim que o diagnóstico é feito, com hemocultura colhida antes sempre que possível. A terceira é a drenagem biliar. As duas primeiras são obrigatórias em todo mundo; a terceira é o que o grau decide.

O relógio, em ordem: no Grau I, a maioria dos pacientes não precisa de drenagem — inicia-se antibiótico e suporte, e drena-se se não houver resposta em 24 horas. No Grau II, a drenagem é imediata, junto com o tratamento inicial, e não depois de esperar para ver. No Grau III, a drenagem é urgente e corre em paralelo com o suporte orgânico: o TG18 a coloca “o mais cedo possível depois que a condição do paciente tenha sido melhorada pelo tratamento inicial e pelo manejo respiratório e circulatório”. Estabilizar e descomprimir são simultâneos, não sequenciais — quem estabiliza primeiro e drena depois em paciente com bile infectada sob pressão não estabiliza.

Duas regras de calendário completam o quadro. A gravidade é reavaliada em pontos fixos: ao diagnóstico, dentro de 24 horas e de novo entre 24 e 48 horas. E o paciente de Grau I com cálculo no colédoco ou sem resposta ao tratamento inicial em 24 horas passa a ser tratado como Grau II. O grau de admissão não é sentença: colangite é doença que muda de grau durante a internação, e o fluxograma prevê isso.

Onde drenar também é decisão de prova. Os critérios de transferência do TG18 são diretos: se o hospital não tem como fazer drenagem endoscópica ou percutânea nem oferecer terapia intensiva, o paciente com colangite moderada ou grave deve ser transferido — e o Grau III, imediatamente. Quando a vinheta descreve o serviço, ela está dizendo qual é a resposta. Hemocultura e cultura da bile são obrigatórias nos Graus II e III, e amostra de bile deve ser colhida sempre que houver drenagem.

O antibiótico dura mais do que na colecistite, e essa diferença cai. Retirada a vesícula, a colecistite comunitária de Graus I e II permite suspender o antimicrobiano em até 24 horas. Na colangite, de qualquer grau, o TG18 recomenda 4 a 7 dias contados a partir do controle da fonte — porque descomprimir não é o mesmo que ressecar o foco. Duas exceções são de decorar: se houver bacteremia por cocos Gram-positivos (Enterococcus, Streptococcus), o mínimo são duas semanas, pelo risco de endocardite, que ocorreu em 17 de 6.147 pacientes com colangite (0,3%); e se restarem cálculos ou obstrução residual, o tratamento segue até o problema anatômico estar resolvido.

Coledocolitíase sem colangite: quem vai direto para a CPRE

Quando não há colangite, a pergunta muda: qual a probabilidade de haver um cálculo no colédoco, e essa probabilidade justifica instrumentar a via biliar? A resposta é uma estratificação em três faixas, e o relatório da Conitec que embasa a CPRE no SUS reproduz a versão da ASGE com as probabilidades declaradas: baixo risco, abaixo de 10%; intermediário, entre 10 e 50%; alto, acima de 50%.

Na régua adotada no documento brasileiro, o alto risco se fecha por um preditor muito forte isolado — cálculo visto dentro do colédoco à ultrassonografia, sinais clínicos de colangite, ou bilirrubina total acima de 4 mg/dL — ou pela soma de dois preditores fortes, colédoco acima de 6 mm com bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dL. Alto risco vai direto para a retirada do cálculo, sem exame confirmatório intermediário. Risco intermediário faz um exame antes de instrumentar: colangiorressonância, ecoendoscopia, ou colecistectomia com colangiografia intraoperatória, resolvendo na sala. Baixo risco vai direto para a colecistectomia, sem investigar a via biliar.

Duas definições operacionais evitam erro de leitura. Colédoco dilatado quer dizer acima de 6 mm com a vesícula no lugar, e acima de 8 mm em quem já foi colecistectomizado — o ducto assume parte da função de reservatório e se acomoda mais largo. E ultrassonografia normal não exclui cálculo no colédoco: a metanálise citada pelo próprio TG18 dá ao exame sensibilidade de 38% (IC 95% 27 a 49) para cálculo de via biliar, com especificidade de 100% (IC 95% 99 a 100). O achado positivo carimba; o negativo não afasta nada. A tomografia não salva: a sensibilidade para cálculo de colédoco varia de 25 a 90%, porque depende do conteúdo de cálcio da pedra.

Uma vez decidido que há cálculo a retirar, há dois caminhos e eles empatam. A metanálise Cochrane usada pela Conitec comparou CPRE pré-cirúrgica com exploração laparoscópica do colédoco e não achou diferença significativa em mortalidade (1% contra 0,7%), complicações (13% contra 15%) nem falha de limpeza do ducto (11% contra 8%). A escolha entre um e outro é de disponibilidade e treinamento, não de eficácia — e foi exatamente esse o argumento da incorporação brasileira, que registrou a exploração laparoscópica como tecnicamente mais difícil e dependente de equipamento menos disponível na rede.

O que não empata é a sequência com a colecistectomia. Retirar o cálculo do colédoco e mandar o paciente para casa com a vesícula cheia de pedras é receita de recidiva: a fonte continua produzindo. A CPRE pré-cirúrgica pressupõe colecistectomia depois, e a incorporação brasileira é explícita ao delimitar a população — coledocolitíase sem colecistectomia prévia.

CPRE: o preço, a profilaxia e o plano B

A CPRE deixou de ser exame diagnóstico, e o motivo é o preço. Segundo a diretriz europeia de eventos adversos, a incidência de pancreatite pós-CPRE varia de 3,5% a 9,7% conforme a metanálise, chegando a 14,7% em pacientes de alto risco; a maioria é leve, mas de 0,1% a 0,7% de todos os submetidos ao procedimento morrem dessa pancreatite. Somam-se sangramento em 1,3%, perfuração em 0,6% e infecção em 1,4%. Nenhum desses números é aceitável para “olhar”; todos são aceitáveis para tratar.

A profilaxia é barata e cabe numa linha: anti-inflamatório não esteroide por via retal, 100 mg de diclofenaco ou de indometacina, imediatamente antes da CPRE, em todo paciente sem contraindicação — recomendação forte, evidência de qualidade moderada. Vale a pena saber o tamanho do efeito: as metanálises reproduzidas na diretriz dão número necessário para tratar em torno de 20 no geral, ou seja, cerca de 5 pancreatites evitadas a cada 100 pacientes que recebem a dose; no subgrupo de alto risco o NNT cai para cerca de 10, ou 10 pancreatites evitadas a cada 100. Prótese pancreática profilática entra em pacientes selecionados de alto risco, como aqueles em que o fio-guia entrou inadvertidamente no ducto pancreático.

Quando a CPRE falha — papila inacessível por anatomia cirurgicamente alterada, canulação impossível, cálculo grande demais para a cesta — o plano B existe e é cobrado. A drenagem transparieto-hepática percutânea é a alternativa clássica e resolve a descompressão, com a desvantagem de exigir via biliar dilatada e deixar um cateter externo. A drenagem guiada por ecoendoscopia é a alternativa moderna, restrita a centros com experiência. A drenagem cirúrgica — coledocotomia com dreno em T — ficou como último recurso, o que não a torna errada: em paciente séptico, num serviço sem endoscopista, operar é melhor que esperar.

Um detalhe que separa candidatos: no paciente instável, o objetivo do primeiro procedimento é descomprimir, não limpar. Passar uma prótese ou um cateter nasobiliar e tirar a pressão é o que salva; extrair todos os cálculos numa sessão prolongada, em paciente em choque, aumenta o risco sem acrescentar benefício imediato. A limpeza definitiva do ducto pode esperar a compensação. Nos casos leves e moderados por coledocolitíase, ao contrário, o TG18 admite tratar a etiologia no mesmo tempo da drenagem — papilotomia com extração dos cálculos —, ressalvando que o único ensaio randomizado sobre isso encontrou mais complicações no procedimento em tempo único do que em dois tempos (17,1% contra 0%).

Esquema de CPRE terapêutica: ponta do duodenoscópio na papila, fio-guia e cateter no colédoco, cálculo acima da papila e prótese plástica atravessando a papila para drenar a bile; ducto pancreático adjacente sem instrumentação.
No paciente instável o objetivo do primeiro procedimento é tirar a pressão, não limpar o ducto. Prótese ou cateter nasobiliar descomprimem; a extração completa dos cálculos pode esperar a compensação.

Depois da drenagem: a vesícula, e dois diferenciais de uma linha

Descomprimir a via biliar resolve o episódio e não resolve a doença. O TG18 é direto no item final do seu bundle: o tratamento da etiologia — endoscópico, percutâneo ou operatório — deve ser considerado uma vez resolvido o quadro agudo, e a colecistectomia deve ser realizada, no caso de colecistolitíase, depois que a colangite aguda tiver se resolvido. Não há prazo em horas nessa recomendação; o marco é clínico, e a lógica é a mesma do resto da cirurgia de urgência: opera-se o paciente compensado, na mesma internação sempre que possível, porque quem vai para casa com a vesícula cheia volta.

Nesse ponto o capítulo encosta no vizinho e para. O momento e a via da colecistectomia por colecistite aguda, com toda a discussão de cirurgia precoce, visão crítica de segurança e resgate, estão no capítulo 2 desta apostila. O que interessa aqui é a ordem: primeiro a via biliar principal, depois a vesícula. Inverter é erro conceitual — tirar a vesícula não descomprime o colédoco.

Dois diferenciais fecham o assunto, e cada um cabe numa linha. A síndrome de Mirizzi é o cálculo impactado no infundíbulo ou no ducto cístico que comprime o hepático comum por fora: dá icterícia obstrutiva com dilatação a montante e colédoco distal de calibre normal, sem cálculo dentro dele — colestase de causa vesicular, que muda o planejamento cirúrgico pelo risco elevado de lesão de via biliar. O íleo biliar é a outra ponta: fístula colecistoentérica por onde um cálculo grande passa para o intestino e obstrui, tipicamente na válvula ileocecal, em idoso, com pneumobilia na imagem — e nele a prioridade é desobstruir o intestino, não a via biliar.

Pancreatite biliar aparece na mesma vinheta com frequência, porque a pedra que encalha na papila pode obstruir os dois ductos. Vale registrar a interseção e não mais que isso: se houver colangite associada, a drenagem é indicação por si só e não espera a pancreatite melhorar; o manejo da pancreatite biliar em si — gravidade, nutrição, momento da colecistectomia — está no capítulo 1.

04

Os dois algoritmos: diagnosticar e graduar a colangite, estratificar a coledocolitíase

São duas contas independentes e é preciso saber qual delas a questão está pedindo. Se há sinal de inflamação sistêmica, a conta é a da colangite: fecha-se o diagnóstico pelos blocos A, B e C, gradua-se de III para I e o grau define o relógio da drenagem. Se não há, a conta é a da coledocolitíase: estima-se a probabilidade de haver cálculo no colédoco e é essa probabilidade que decide entre CPRE direta, exame confirmatório e colecistectomia sem investigar a via biliar. Colangite tem precedência: quando ela está presente, a faixa de risco deixa de importar, porque o paciente já tem indicação de drenagem por si só.

  1. 1Suspeite pela combinação, não pela tríade: febre ou calafrio, icterícia, dor em hipocôndrio direito, náusea, vômito ou rebaixamento de consciência — um desses já obriga a investigar infecção biliar. A tríade de Charcot completa aparece em cerca de um quarto dos pacientes.
  2. 2Peça o pacote que fecha as duas contas ao mesmo tempo: hemograma, PCR, bilirrubinas, fosfatase alcalina, gama-GT, AST, ALT, albumina, ureia, creatinina, TP/INR, plaquetas e gasometria. Hemocultura antes do antibiótico se houver febre alta. Ultrassonografia de abdome primeiro; tomografia quando o diferencial for largo.
  3. 3Feche o diagnóstico de colangite: um item de A (obrigatório) mais um de B ou de C dá suspeito; A mais B mais C dá definitivo. Sem item de A não há colangite pelo TG18 — o quadro é coledocolitíase. Se o diagnóstico não fechar e a suspeita persistir, reavalie a cada 6 a 12 horas.
  4. 4Gradue de cima para baixo. Procure primeiro disfunção orgânica: uma basta para Grau III, e aqui a busca para. Sem disfunção, conte os cinco marcadores do Grau II — são precisos DOIS. Nenhum dos dois grupos: Grau I.
  5. 5Comece as três colunas em paralelo: suporte, antimicrobiano em dose plena e a decisão de drenagem. Grau I drena se não responder em 24 horas; Grau II drena de imediato; Grau III drena com urgência, junto com o suporte orgânico, e não depois dele.
  6. 6Confira o serviço antes de programar. Sem drenagem endoscópica ou percutânea e sem terapia intensiva, o Grau II é transferido e o Grau III é transferido imediatamente. Colha cultura da bile sempre que drenar; hemocultura e cultura da bile são obrigatórias nos Graus II e III.
  7. 7Reavalie a gravidade em pontos fixos: ao diagnóstico, dentro de 24 horas e de novo entre 24 e 48 horas. Grau I com cálculo no colédoco ou sem resposta em 24 horas passa a ser conduzido como Grau II.
  8. 8Sem colangite, estratifique a coledocolitíase e siga a coluna correspondente: alto risco vai direto à retirada do cálculo; risco intermediário faz colangiorressonância, ecoendoscopia ou colangiografia intraoperatória antes de instrumentar; baixo risco vai direto à colecistectomia.
  9. 9Resolvido o quadro agudo, trate a etiologia. Havendo colecistolitíase, a colecistectomia é feita depois que a colangite se resolveu — de preferência na mesma internação, porque a vesícula que ficou é a fonte do próximo episódio.

Baixo risco — abaixo de 10%

Nenhum preditor presente: sem cálculo visível no colédoco, sem sinais de colangite, bilirrubina normal, provas hepáticas normais e colédoco de calibre normal. Conduta: colecistectomia videolaparoscópica direta, sem nenhuma investigação adicional da via biliar, desde que a imagem pré-operatória já tenha mostrado cálculo ou lama na vesícula. Instrumentar aqui é expor a uma pancreatite pós-CPRE quem tem menos de uma chance em dez de ter o que retirar.

Risco intermediário — de 10% a 50%

Preditores presentes, insuficientes para a faixa alta: provas hepáticas alteradas isoladamente, colédoco dilatado sem cálculo visível, idade acima de 55 anos, bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dL sem dilatação do ducto, pancreatite biliar já resolvida. Conduta: confirmar antes de instrumentar — colangiorressonância, ecoendoscopia, ou colecistectomia com colangiografia intraoperatória, resolvendo dentro da sala. É a faixa em que a CPRE diagnóstica seria o erro.

Alto risco — acima de 50%

Um preditor muito forte basta: cálculo visto dentro do colédoco à imagem, sinais clínicos de colangite, ou bilirrubina total acima de 4 mg/dL. Também entra a soma de dois preditores fortes — colédoco acima de 6 mm com bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dL. Conduta: retirada do cálculo sem exame confirmatório intermediário, por CPRE com papilotomia ou por exploração do colédoco no mesmo ato cirúrgico, seguida de colecistectomia. Havendo colangite, a drenagem deixa de ser opção e passa a ser urgência.

BlocoO que entra, com os cortes do TG18Como fecha
A — inflamação sistêmica (OBRIGATÓRIO)A-1 febre acima de 38 °C e/ou calafrios com tremor; A-2 leucócitos abaixo de 4.000 ou acima de 10.000/µL, ou PCR de 1 mg/dL ou mais1 item de A é indispensável nas duas contas
B — colestaseB-1 icterícia com bilirrubina total de 2 mg/dL ou mais; B-2 fosfatase alcalina, gama-GT, AST ou ALT acima de 1,5 vez o limite superior da normalidadeA + B (ou A + C) → diagnóstico SUSPEITO
C — imagemC-1 dilatação biliar; C-2 evidência da etiologia (estenose, cálculo, prótese). Ultrassonografia comum serveA + B + C → diagnóstico DEFINITIVO
Fora dos critériosDor abdominal e história de doença biliar prévia — o TG18 os classifica como fatores que ajudam no diagnóstico, não como itensNão contam para fechar nem para afastar

Gravidade da colangite pelo TG18 e o relógio da drenagem

GrauO que defineQuantos itensQuando drenar
III — graveDisfunção orgânica: cardiovascular (dopamina ≥ 5 µg/kg/min ou qualquer dose de noradrenalina); neurológica (rebaixamento de consciência); respiratória (PaO₂/FiO₂ < 300); renal (oligúria ou creatinina > 2,0 mg/dL); hepática (INR > 1,5); hematológica (plaquetas < 100.000/mm³)UM bastaDrenagem urgente, em paralelo com suporte orgânico e antimicrobiano. Serviço sem drenagem ou sem terapia intensiva: transferência imediata
II — moderadaLeucócitos > 12.000 ou < 4.000/mm³; febre ≥ 39 °C; idade ≥ 75 anos; bilirrubina total ≥ 5 mg/dL; albumina abaixo de 0,7 × limite inferior da normalidadeDOIS dos cincoDrenagem imediata, junto com o tratamento inicial — não se espera resposta clínica
I — leveNão preenche os critérios de Grau III nem de Grau II ao diagnóstico inicialAntimicrobiano e suporte; drenagem se não houver resposta em 24 h. Com cálculo no colédoco, conduzir como Grau II

Onde a prova troca colangite por colecistite

O ponto trocadoNa colangite (TG18)Na colecistite (TG18) — ver capítulo 2
O que é o bloco AInflamação SISTÊMICA — febre/calafrio e laboratório inflamatório. É obrigatório: sem ele não há diagnósticoSinais LOCAIS no hipocôndrio direito
Dor abdominalFora dos critérios; entra apenas como achado auxiliar. Foi retirada de propósito, porque era ela que confundia as duas doençasFaz parte do bloco de sinais locais
Quantos itens fecham o Grau IIDOIS, de uma lista de cinco marcadoresUM, de uma lista diferente
Papel da bilirrubina na gravidadeGradua: bilirrubina total ≥ 5 mg/dL é um dos cinco marcadores do Grau IINão é critério de gravidade
Grau IIISeis disfunções orgânicas, uma bastaAs mesmas seis disfunções — é o único ponto idêntico entre as duas réguas
Duração do antimicrobiano4 a 7 dias após o controle da fonte, em qualquer grauSuspensão possível em até 24 h após a colecistectomia nos casos comunitários de Graus I e II

Três réguas para o risco de coledocolitíase — e o que cada uma faz com o mesmo paciente

FaixaRégua brasileira (CONITEC 2019, que adapta a ASGE de 2010)ASGE 2019ESGE 2019
AltoUm preditor muito forte: cálculo no colédoco à ultrassonografia, sinais clínicos de colangite, ou bilirrubina total acima de 4 mg/dL isoladamente. Ou dois preditores fortes: colédoco acima de 6 mm somado a bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dLColangite; cálculo no colédoco à ultrassonografia ou em exame seccional; bilirrubina acima de 4 mg/dL SOMADA a colédoco dilatado — sozinha ela não basta maisApenas dois itens: colangite, ou cálculo visto na ultrassonografia
IntermediárioProvas hepáticas alteradas isoladas; colédoco dilatado sem cálculo visível; idade avançada; pancreatite biliar préviaProvas hepáticas alteradas; idade acima de 55 anos; colédoco dilatado isoladoProvas hepáticas alteradas e/ou colédoco dilatado à ultrassonografia
BaixoNenhum preditor presenteNenhum preditor presenteProvas hepáticas e ultrassonografia normais
Quantos vão direto à CPRE62,7% dos pacientes com suspeita, na coorte prospectiva de validação54,6% — cerca de 8 a menos por 100, com a sensibilidade da faixa caindo de 79,1% para 71,1% e a especificidade subindo de 64,9% para 71,1%47,9% — a régua mais restritiva das três

Todos os cortes de bilirrubina deste capítulo estão em mg/dL, como nos documentos originais. Laboratório que reporta em µmol/L exige conversão antes de aplicar a régua: 1 mg/dL equivale a cerca de 17,1 µmol/L, de modo que 2 mg/dL ficam em torno de 34 µmol/L, 4 mg/dL em torno de 68 µmol/L e 5 mg/dL em torno de 86 µmol/L.

As faixas de leucócitos do TG18 não fecham nos extremos: o critério diagnóstico é “abaixo de 4.000 ou acima de 10.000/µL” e o de Grau II é “acima de 12.000 ou abaixo de 4.000/mm³”, o que deixa os valores exatamente iguais a 4.000, 10.000 e 12.000 sem categoria. A febre tem a mesma inconsistência de operador: “acima de 38 °C” no bloco A e “39 °C ou mais” no Grau II. Na prática a banca não constrói vinheta em cima do valor exato do limite; na leitura, trate os limites como incluídos na faixa anormal.

Um erro de fator dez circula dentro do próprio TG18: o texto corrido do artigo do fluxograma descreve o critério hematológico do Grau III como plaquetas abaixo de 10⁴/µL, ou seja, 10.000/mm³. As tabelas dos dois artigos do TG18 — a do próprio fluxograma e a do artigo de critérios — dizem plaquetas abaixo de 100.000/mm³, e é esse o valor correto e o que todas as reproduções usam.

Colédoco dilatado significa acima de 6 mm com a vesícula no lugar e acima de 8 mm em quem já foi colecistectomizado. Hipoalbuminemia do Grau II é definida em relação ao limite INFERIOR da normalidade do laboratório (abaixo de 0,7 vez esse limite), não a um valor absoluto fixo.

Ultrassonografia negativa não afasta cálculo no colédoco: a sensibilidade é de 38% (IC 95% 27 a 49), com especificidade de 100% (IC 95% 99 a 100). O exame que vê a pedra carimba o alto risco; o que não vê não muda a faixa. A tomografia também não resolve — a sensibilidade para cálculo de colédoco varia de 25 a 90%, conforme o conteúdo de cálcio.

Colangite tem precedência sobre a estratificação: ela é, ao mesmo tempo, um preditor muito forte de cálculo no colédoco nas três réguas e uma indicação de drenagem por si só.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Grau III: a drenagem urgente é sustentada por dado de mortalidade?

TG18 — drenar com urgência, em paralelo com o suporte

No Grau III, a drenagem endoscópica ou percutânea deve ser realizada o mais cedo possível depois que a condição do paciente tenha sido melhorada pelo tratamento inicial e pelo manejo respiratório e circulatório; o bundle registra o item como drenagem urgente junto ao tratamento inicial e ao suporte orgânico, com transferência imediata quando o serviço não puder fazê-la.

Miura F et al. TG18: initial management of acute biliary infection and flowchart for acute cholangitis. J Hepatobiliary Pancreat Sci. 2018;25(1):31-40, seção do Grau III e Tabela 5; Mayumi T et al. TG18: management bundles. J Hepatobiliary Pancreat Sci. 2018;25(1):96-100, itens 7 e 8 do bundle

Os dados que o próprio TG18 cita — sem diferença de mortalidade no Grau III

Na série multicêntrica de 6.063 pacientes usada para validar a régua, a drenagem até 24 horas da admissão não reduziu a mortalidade em 30 dias no Grau III: 5,4% (42/781) contra 4,9% (36/740), P = 0,727. Ampliando a janela para 48 horas, 4,9% (50/1.017) contra 5,6% (28/504), P = 0,622. O benefício apareceu apenas no Grau II. O documento reconhece o achado e levanta a hipótese de que o prognóstico do Grau III talvez melhore se a drenagem for ainda mais precoce, notando que outros dois estudos definiram urgência como 12 horas, e não 24.

Kiriyama S et al. TG18: diagnostic criteria and severity grading of acute cholangitis. J Hepatobiliary Pancreat Sci. 2018;25(1):17-30, Q9 e Tabela 3

Na prova

Não confunda incerteza de evidência com liberdade de conduta. Enunciado que gradua o paciente por Tóquio e descreve disfunção orgânica está pedindo o fluxograma, e o fluxograma manda drenar com urgência — nenhuma alternativa que adie a descompressão em Grau III é a resposta esperada. O que a divergência muda é a leitura das alternativas de segunda linha: opção que diz “estabilizar completamente antes de drenar” é a pegadinha, porque no TG18 estabilização e descompressão correm juntas; e opção que diz “drenar em até 24 horas é suficiente no Grau III” não é o que o documento diz, já que ele aponta para janelas menores. Quando o enunciado descreve serviço sem endoscopista, a resposta certa deixa de ser sobre o relógio e passa a ser sobre a rota: transferência imediata ou drenagem percutânea.

Qual régua de risco de coledocolitíase o enunciado está usando

Régua brasileira — a de 2010, incorporada em 2019

Bilirrubina total acima de 4 mg/dL basta sozinha para carimbar alto risco, e a combinação de colédoco acima de 6 mm com bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dL também. É essa a estratificação que o relatório da CONITEC adota ao avaliar a CPRE pré-cirúrgica, declarando adaptação do documento da ASGE de 2010, e é sobre ela que se apoia a incorporação ao SUS. Na coorte prospectiva de validação, essa régua classifica 62,7% dos pacientes com suspeita como alto risco.

Brasil. CONITEC. Relatório de Recomendação nº 471, julho de 2019, seção 2.1 e Figura 1 (adaptada de ASGE, Gastrointest Endosc 2010); Portaria SCTIE/MS nº 39, de 24 de julho de 2019

ASGE 2019 — bilirrubina alta deixou de bastar sozinha

A revisão estreita a faixa alta para três itens: colangite, cálculo visto no colédoco em ultrassonografia ou exame seccional, e bilirrubina acima de 4 mg/dL somada a colédoco dilatado. Bilirrubina alta com ducto de calibre normal cai para o intermediário, assim como provas hepáticas alteradas, colédoco dilatado isolado e idade acima de 55 anos. Na mesma coorte, essa régua classifica 54,6% como alto risco — cerca de 8 pacientes a menos por 100 indo direto à CPRE —, com a sensibilidade da faixa caindo de 79,1% para 71,1% e a especificidade subindo de 64,9% para 71,1%.

Buxbaum JL et al. ASGE guideline on the role of endoscopy in the evaluation and management of choledocholithiasis. Gastrointest Endosc. 2019;89(6):1075-1105, reproduzida nas tabelas de critérios das coortes de validação PMC10442906 e PMC9218518

ESGE 2019 — a faixa alta mais estreita das três

Apenas dois itens sobem o paciente para alto risco: colangite, ou cálculo visto na ultrassonografia. Nem bilirrubina alta com colédoco dilatado entra — essa combinação fica no intermediário, com exame confirmatório antes de instrumentar. Na coorte prospectiva, a régua europeia classifica 47,9% como alto risco, contra 62,7% da régua de 2010, e é a que mais empurra paciente para colangiorressonância ou ecoendoscopia.

Manes G et al. Endoscopic management of common bile duct stones: ESGE Guideline. Endoscopy. 2019;51(5):472-491, reproduzida nas mesmas duas coortes de validação (PMC10442906 e PMC9218518)

Na prova

A diferença é de data, não de mérito: o documento brasileiro é de 2019 e incorporou a estratificação vigente até então, a de 2010, enquanto a revisão americana saiu no mesmo ano. Três sinais denunciam o recorte. Primeiro, a menção nominal: enunciado que cita SUS, CONITEC, portaria ou rede pública trabalha com a régua de 2010; enunciado que cita ASGE ou ESGE com ano trabalha com a de 2019. Segundo, a configuração do caso: bilirrubina acima de 4 mg/dL com colédoco de calibre NORMAL só faz sentido como pergunta se a divisão entre as réguas for o ponto, porque esse paciente é alto risco pela régua brasileira e intermediário pela revisão de 2019. Terceiro, as alternativas: quando uma delas oferece colangiorressonância e outra oferece CPRE para o mesmo paciente, é essa a fratura que está sendo cobrada. Sem nenhum desses sinais, vale a régua geral — prova oficial do MEC tende à conduta do SUS.

Um tempo ou dois: retirar o cálculo antes ou durante a colecistectomia

CPRE pré-cirúrgica, em dois tempos — o caminho incorporado ao SUS

Extrai-se o cálculo por via endoscópica e opera-se a vesícula depois. A metanálise Cochrane usada na avaliação nacional não achou diferença significativa contra a exploração laparoscópica do colédoco em mortalidade (1% contra 0,7%), complicações (13% contra 15%) nem falha de limpeza do ducto (11% contra 8%). O argumento decisivo foi de acesso: a exploração laparoscópica é tecnicamente mais difícil e depende de equipamento menos disponível na rede, e o cirurgião recebe um ducto já desobstruído.

Brasil. CONITEC. Relatório de Recomendação nº 471, julho de 2019, seção de evidências científicas; Portaria SCTIE/MS nº 39, de 24 de julho de 2019, que incorpora o procedimento como opção à exploração laparoscópica

Tempo único — resolver tudo numa internação e num procedimento

Colecistectomia com colangiografia intraoperatória e, achado o cálculo, limpeza do ducto ali mesmo, por via transcística ou por coledocotomia. Os desfechos medidos são equivalentes, e o próprio documento nacional mantém a exploração laparoscópica como opção. O TG18 vai adiante e admite tratar a etiologia no mesmo tempo da drenagem na colangite leve e moderada por coledocolitíase — papilotomia seguida de retirada dos cálculos —, mas ressalva o único ensaio randomizado disponível, em que as complicações após a CPRE foram significativamente maiores no tempo único do que em dois tempos: 6 de 35 (17,1%) contra 0 de 33 (0%), P = 0,025.

Miura F et al. TG18: initial management of acute biliary infection and flowchart for acute cholangitis. J Hepatobiliary Pancreat Sci. 2018;25(1):31-40, Q1; CONITEC, Relatório nº 471/2019, que descreve a exploração laparoscópica como comparador de desfechos equivalentes

Na prova

O enunciado entrega o recorte pela descrição do serviço e pelo vocabulário. Endoscopista disponível, cálculo já demonstrado e obstrução persistente conduzem à leitura da CPRE prévia; arco cirúrgico na sala, equipe treinada e menção a colangiografia intraoperatória conduzem ao procedimento único. “Exploração laparoscópica do colédoco”, “via transcística” e “coledocotomia” são vocabulário cirúrgico; “papilotomia”, “canulação” e “prótese biliar” são endoscópicos. Uma coisa não muda em nenhuma das leituras e costuma ser o que a questão realmente testa: a colecistectomia é obrigatória depois, e a incorporação brasileira vale para o paciente sem colecistectomia prévia — quem já foi operado não está nessa população.

06

Caso resolvido

Mulher de 77 anos, hipertensa, chega ao pronto-socorro com dor em hipocôndrio direito há 2 dias, calafrios com tremor e urina escura. A família notou os olhos amarelos ontem. Ao exame: temperatura 39,3 °C, PA 118x72 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 irpm, SpO₂ 96% em ar ambiente, Glasgow 15, ictérica, dor à palpação em hipocôndrio direito sem defesa, sem massa palpável. Exames: leucócitos 15.800/mm³, PCR 190 mg/L, bilirrubina total 6,8 mg/dL (direta 5,4), fosfatase alcalina 420 U/L, gama-GT 610 U/L, AST 118 U/L, ALT 130 U/L, albumina 3,6 g/dL (referência 3,5 a 5,2), creatinina 0,9 mg/dL, INR 1,1, plaquetas 224.000/mm³, amilase e lipase normais. Ultrassonografia de abdome: colelitíase, colédoco de 11 mm com imagem hiperecogênica em seu interior, vias intra-hepáticas dilatadas, parede vesicular de 2,4 mm sem líquido perivesicular. Hospital com endoscopista de plantão e terapia intensiva.
diagnóstico
Bloco A: febre acima de 38 °C com calafrios e leucocitose com PCR alta. Bloco B: bilirrubina total acima de 2 mg/dL e enzimas canaliculares acima de 1,5 vez o limite superior. Bloco C: dilatação biliar e o próprio cálculo visto no colédoco. A + B + C fecha colangite aguda com diagnóstico definitivo — e repare que a paciente tem também a tríade de Charcot completa, o que é sorte diagnóstica, não requisito.
gravidade
Procure disfunção orgânica primeiro: sem vasopressor, Glasgow 15, PaO₂/FiO₂ preservada, creatinina, INR e plaquetas normais — não é Grau III. Agora conte os cinco marcadores do Grau II: idade de 77 anos (≥ 75), febre de 39,3 °C (≥ 39), leucócitos de 15.800 (> 12.000) e bilirrubina de 6,8 mg/dL (≥ 5). São quatro, e dois já bastariam. Grau II. A albumina de 3,6 g/dL não conta: o corte é 0,7 vez o limite inferior, ou seja, cerca de 2,45 g/dL nesse laboratório.
conduta imediata
As três colunas ao mesmo tempo: hidratação e analgesia; hemocultura seguida de antimicrobiano em dose plena; e drenagem biliar IMEDIATA, junto com o tratamento inicial. No Grau II não se espera resposta clínica de 24 horas para decidir drenar — essa é a regra do Grau I. A via de escolha é a endoscópica: CPRE com papilotomia e retirada do cálculo, com anti-inflamatório retal antes do procedimento e amostra de bile enviada para cultura.
depois
Antimicrobiano por 4 a 7 dias contados do controle da fonte — não 24 horas, que é a regra da colecistite operada. Reavaliação de gravidade em 24 h e de novo entre 24 e 48 h. Resolvida a colangite, colecistectomia videolaparoscópica na mesma internação: a vesícula com cálculos é a fonte do próximo episódio, e retirar o cálculo do colédoco sem retirá-la é adiar a recidiva.
a pegadinha
Duas alternativas erradas são desenhadas para este caso. Uma diz “Grau I, pois não há disfunção orgânica” — ignora que o Grau II existe e se fecha com dois marcadores. Outra diz “antibiótico e observação por 24 horas antes de decidir a drenagem” — aplica ao Grau II o relógio do Grau I. E há sempre a que oferece colangiorressonância: o cálculo já foi visto, o diagnóstico já está fechado, e exame adicional só atrasa a descompressão.
07

Agora feche você

Homem de 68 anos, diabético, em seguimento de colangiocarcinoma distal irressecável, com prótese biliar plástica colocada há 8 meses. Chega trazido pela filha com febre e confusão mental iniciadas há 12 horas. Ao exame: temperatura 38,7 °C, PA 78x44 mmHg mantida com noradrenalina, FC 126 bpm, FR 28 irpm, Glasgow 13, ictérico, abdome doloroso difusamente à palpação, sem irritação peritoneal. Exames: leucócitos 21.400/mm³, PCR 280 mg/L, bilirrubina total 7,2 mg/dL (direta 5,9), fosfatase alcalina 510 U/L, gama-GT 720 U/L, creatinina 2,4 mg/dL (basal 1,1), INR 1,3, plaquetas 96.000/mm³, lactato 3,8 mmol/L, PaO₂/FiO₂ 320. Tomografia de abdome: dilatação de vias biliares intra e extra-hepáticas, prótese biliar in situ aparentemente ocluída, sem coleções. O hospital tem terapia intensiva e radiologia intervencionista, mas não há endoscopista disponível e a transferência para o centro de referência levaria pelo menos 12 horas.
diagnóstico
Bloco A: febre acima de 38 °C com leucocitose e PCR alta. Bloco B: bilirrubina acima de 2 mg/dL com enzimas canaliculares acima de 1,5 vez o limite. Bloco C: dilatação biliar com a etiologia visível — prótese ocluída. Diagnóstico definitivo de colangite aguda. A causa aqui não é cálculo: prótese biliar ocluída é causa clássica e a vinheta a entrega de propósito.
gravidade
Disfunção cardiovascular (noradrenalina em qualquer dose), neurológica (Glasgow 13), renal (creatinina acima de 2,0 mg/dL) e hematológica (plaquetas abaixo de 100.000/mm³). Uma bastaria; há quatro. Grau III. Note que a relação PaO₂/FiO₂ de 320 e o INR de 1,3 NÃO preenchem critério — os cortes são abaixo de 300 e acima de 1,5.
rota da drenagem
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Exigir a tríade de Charcot para diagnosticar A tríade é muito específica e pouco sensível: aparece completa em 26,4% e 21,2% dos pacientes nas séries multicêntricas recentes, e a icterícia isolada em 60 a 70%. Exigi-la deixa passar cerca de três em cada quatro casos — e o que ela mais perde é o idoso que chega confuso e hipotenso. Alternativa que diz “a ausência da tríade afasta colangite” está sempre errada; alternativa que diz “a tríade é altamente específica” está sempre certa.
  2. 2Graduar a colangite com o número de itens da colecistite Na colangite, o Grau II exige DOIS dos cinco marcadores (leucócitos > 12.000 ou < 4.000; febre ≥ 39 °C; idade ≥ 75 anos; bilirrubina ≥ 5 mg/dL; hipoalbuminemia). Na colecistite, UM item basta, e os itens são outros. Contar um só marcador e carimbar Grau II — ou contar dois e achar que é Grau III — são os dois lados do mesmo erro.
  3. 3Chamar de colangite quem só tem colestase O bloco A, inflamação sistêmica, é obrigatório nas duas contas do TG18. Bilirrubina alta, gama-GT alta e cálculo no colédoco, sem febre, sem calafrio, sem leucocitose e sem PCR elevada, é coledocolitíase — que se estratifica por risco e se resolve eletivamente, não colangite, que se drena.
  4. 4Pedir colangiorressonância no paciente séptico Quando os critérios do TG18 já fecham colangite, o exame adicional não muda a conduta e adia a única coisa que resolve, que é tirar a pressão de dentro da via biliar. O eixo C aceita a ultrassonografia comum: não é preciso exame sofisticado para carimbar colangite. Ressonância e ecoendoscopia pertencem ao paciente SEM colangite, de risco intermediário.
  5. 5Esperar a estabilização completa para drenar o Grau III O TG18 coloca a drenagem urgente em paralelo com o suporte orgânico, não depois dele. A lógica é fisiológica: enquanto a bile infectada permanece sob pressão, ela continua sendo empurrada para a circulação, e o vasopressor está tratando a consequência de um foco que ninguém abriu. Alternativa que sequencia “estabilizar e depois drenar” é a pegadinha.
  6. 6Suspender o antibiótico em 24 horas depois da drenagem Essa é a regra da colecistite operada, não da colangite. Na colangite de qualquer grau o TG18 recomenda 4 a 7 dias contados do controle da fonte, porque drenar não é ressecar o foco. Mínimo de duas semanas se houver bacteremia por Enterococcus ou Streptococcus, pelo risco de endocardite; e prolongamento até a resolução anatômica se restarem cálculos ou obstrução.
  7. 7Usar a CPRE como exame diagnóstico Pancreatite ocorre em 3,5% a 9,7% dos procedimentos conforme a metanálise, chegando a 14,7% no alto risco, e de 0,1% a 0,7% dos pacientes submetidos à CPRE morrem dessa pancreatite. É preço de tratamento, não de investigação. No risco intermediário, o próximo passo é colangiorressonância, ecoendoscopia ou colangiografia intraoperatória — nunca CPRE para “ver se tem”.
  8. 8Resolver o colédoco e deixar a vesícula Retirar o cálculo do colédoco sem programar a colecistectomia é adiar a recidiva: a fonte continua produzindo. O TG18 é explícito ao mandar realizar a colecistectomia, havendo colecistolitíase, depois de resolvida a colangite aguda — de preferência na mesma internação. E vale o inverso: tirar a vesícula não descomprime o colédoco, de modo que colecistectomia jamais é a resposta para a urgência da colangite.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade de Charcot (dor em hipocôndrio direito, febre e icterícia) somada a hipotensão e confusão mental compõe a pêntade de Reynolds, indicando colangite aguda grave por coledocolitíase. Além de antibiótico e volume, a prioridade é a descompressão biliar de urgência, preferencialmente por CPRE. As demais opções não explicam a obstrução biliar com sepse nem o achado ultrassonográfico de cálculo em colédoco.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: os três blocos do diagnóstico de colangite com os cortes numéricos de cada item; as seis disfunções do Grau III com seus valores; os cinco marcadores do Grau II. Depois responda em uma frase cada: quantos itens fecham o Grau II e quantos fecham o Grau III? Por que a dor abdominal ficou de fora dos critérios? Qual é o relógio da drenagem em cada um dos três graus?

em 30 dias

Pegue três vinhetas de icterícia febril e faça, em duas linhas cada, o percurso completo: há item do bloco A? Se sim, qual o grau e em quantas horas se drena; se não, qual a faixa de risco de coledocolitíase e qual o próximo exame. Se travar, o que costuma faltar não é o critério — é lembrar que a conta da colangite e a conta da coledocolitíase são independentes, e que a primeira, quando positiva, cancela a segunda.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 74 anos chega ao pronto-socorro com febre alta, calafrios, dor em hipocôndrio direito e olhos amarelos há dois dias. Conduza: caracterize a dor e a icterícia, peça os exames que fecham os blocos A, B e C do TG18, classifique a gravidade e diga em quantas horas essa via biliar precisa ser drenada. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Colangite aguda e coledocolitíase — Preparatório para provas | OsceLabs