Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Abdome agudo atípico: idoso, imunossuprimido e diafragma

Hérnia diafragmática e abdome agudo no idoso/imunossuprimido (apresentações atípicas)

Três situações em que o abdome cirúrgico não faz o que o livro promete: o idoso que não tem febre, o neutropênico que não tem pus e o diafragma roto que só cobra a conta anos depois. A prova cobra o gatilho que substitui o sinal ausente.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Vítima de acidente de trânsito de 35 anos chega ao pronto-atendimento com trauma torácico e abdominal. Está com dispneia, dor no hipocôndrio esquerdo e ruídos hidroaéreos audíveis no hemitórax esquerdo à ausculta. A radiografia de tórax mostra imagem sugestiva de alças intestinais no tórax à esquerda e desvio do mediastino. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

O abdome agudo tem um capítulo próprio, e é lá que moram os cinco tipos, a decisão de operar antes ou depois da imagem e o que o lactato vale na isquemia. Apendicite, colecistite, obstrução, diverticulite e úlcera perfurada também têm os seus. Este capítulo cuida do que sobra quando a régua não funciona: o paciente em que o sinal que deveria disparar a suspeita simplesmente não aparece.

São três cenários, e eles não estão juntos por acaso. No idoso, a resposta inflamatória é fraca e a apresentação é tardia — a doença chega ao hospital já complicada. No imunossuprimido, o mecanismo é o mesmo levado ao extremo: sem neutrófilo não há pus, sem pus não há peritônio em tábua, e o corticoide apaga até a febre. Na hérnia diafragmática, o que falha não é o paciente, é o exame: o defeito é pequeno, a víscera sobe devagar, e o quadro cirúrgico se apresenta meses ou anos depois do trauma que o produziu.

O que a prova cobra nos três é a mesma coisa: qual gatilho substitui o sinal que não veio. No idoso, o gatilho é a idade mais a tomografia precoce. No neutropênico, é a contagem de neutrófilos mais a espessura da parede intestinal. Na suspeita de lesão diafragmática, é o trajeto do ferimento — não o exame físico, que costuma ser inocente, nem a radiografia, que erra em quase um quinto dos casos.

03

O que muda decisão

Por que o idoso não dói, não tem febre e não tem leucocitose

A apresentação atípica do idoso não é folclore: ela tem quatro origens somadas. A percepção nociceptiva visceral é menos intensa e mais mal localizada. A resposta febril é atenuada — o mesmo estímulo que levaria um adulto jovem a 38,5 °C produz 37,4 °C em quem tem 80 anos. A musculatura abdominal é menos volumosa, e defesa muscular e rigidez, que dependem de contração reflexa, ficam discretas mesmo com peritônio irritado. E há a farmacologia: betabloqueador impede a taquicardia que denunciaria a hipovolemia, corticoide crônico atenua a resposta inflamatória, anti-inflamatório e analgésico opioide de uso contínuo mascaram a dor que trouxe o paciente.

O tamanho do efeito está medido. Na colecistite aguda do idoso, a dor é atípica em 12% e está completamente ausente em 5%. Temperatura acima de 38 °C aparece em apenas 6,4% a 10% dos casos. O sinal de Murphy, que no adulto jovem é o achado que fecha o raciocínio à beira do leito, tem no idoso sensibilidade de 0,48 — moeda jogada — com especificidade de 0,79. Ou seja: quando está presente, ainda vale; quando está ausente, não afasta nada.

A consequência prática não é examinar melhor. É deslocar o gatilho da suspeita do exame físico para a epidemiologia: em quem tem mais de 65 anos e chega com dor abdominal, a probabilidade pré-teste de doença cirúrgica é alta o suficiente para que a investigação por imagem comece cedo, mesmo com abdome pouco doloroso, sem febre e com leucometria normal. É o mesmo raciocínio que o protocolo de dor abdominal aguda usa para justificar observação clínica com reavaliações seriadas em vez de alta: cerca de 40% dos pacientes que procuram assistência com dor abdominal saem do primeiro atendimento sem diagnóstico etiológico definido, e é a segunda avaliação que corrige o erro.

Os números que mudam quando o paciente passa dos 65

A apendicite do idoso é outra doença estatisticamente. A taxa de apendicite complicada — perfurada, com abscesso ou peritonite — vai de 18% a 70% acima dos 65 anos, contra 3% a 29% abaixo dessa idade. A mortalidade global chega a 8% acima dos 65 contra 0% a 1% nos mais jovens, e sobe a 11,9%–15% quando há perfuração, contra 1,52%–3% na apendicite não perfurada. O gradiente é etário e contínuo: a mortalidade aproximadamente triplica a cada década de vida e ultrapassa 16% entre os nonagenários.

A colecistite mostra o mesmo fenômeno por outro ângulo, e este é o dado que mais engana. Comparando idosos operados e não operados, a mortalidade cumulativa em 30 dias, 1 ano e 2 anos foi de 2%, 9% e 15,2% no grupo cirúrgico contra 5%, 19,4% e 29,3% no grupo não cirúrgico. O intuitivo é achar que o idoso frágil está mais seguro sem operação; a série diz o contrário, e a diferença cresce com o tempo — quem não operou volta. Por isso a orientação é colecistectomia laparoscópica na mesma internação, e não alta com cirurgia eletiva marcada.

Onde a operação realmente não cabe, existe a colecistostomia percutânea: sucesso técnico em torno de 90%, complicações em cerca de 3,4%, dreno mantido por quatro a seis semanas. Ela é ponte, não destino — o capítulo de colecistite aguda trata o restante da régua de Tóquio e o momento da operação, e não vale a pena repetir aqui.

A imagem entra mais cedo — e a alta leva uma tarefa

Escores clínicos foram construídos em população jovem: o Alvarado foi desenvolvido em séries com idade média entre 23,4 e 25,9 anos. No idoso, a recomendação é usá-los para excluir, não para diagnosticar — e a tomografia entra por cima. A régua da diretriz é direta: tomografia em todo paciente idoso com Alvarado ≥ 5. A ultrassonografia é inferior em sensibilidade e em valor preditivo negativo; para apendicite perfurada, sua sensibilidade nas séries varia de 29% a 84%, faixa larga demais para sustentar alta.

O segundo movimento é o que quase todo mundo esquece. Entre pacientes acima de 55 a 65 anos que se apresentam com apendicite aguda, a incidência de câncer de ceco ou de apêndice vai de 1,6% a 24%. A apendicite, nessa faixa, pode ser o sintoma de um tumor obstruindo a base apendicular. Por isso a recomendação de investigação colônica eletiva em todo idoso com apendicite, tratado com ou sem cirurgia. Quem opera e dá alta sem programar essa investigação resolveu o abdome agudo e perdeu o diagnóstico. O estadiamento e o rastreamento populacional do câncer colorretal ficam no capítulo próprio; aqui a tarefa é apenas garantir que a investigação seja pedida.

O imunossuprimido: quem apaga o sinal e quem apaga o exame

Imunossupressão não é uma coisa só, e cada tipo apaga um achado diferente. O corticoide crônico atenua a resposta inflamatória sistêmica e a peritoneal: a víscera perfura e o abdome não fica em tábua. O neutropênico não produz pus — sem neutrófilo não há abscesso organizado, não há bloqueio da perfuração pelo omento e não há leucocitose para dosar. O transplantado soma corticoide, inibidor de calcineurina e um enxerto abdominal que muda a anatomia da dor. E a infecção oportunista entra como diagnóstico diferencial que não existe no imunocompetente: colite por citomegalovírus, por exemplo, produz dor, diarreia e sangramento em quem tem imunidade celular deprimida.

No neutropênico febril, o protocolo brasileiro de urgências oncológicas é explícito quanto ao ponto que interessa ao cirurgião: sintomas gastrointestinais, incluindo dor abdominal, náuseas, vômitos ou diarreia, constam nominalmente entre os critérios clínicos de alto risco. Não é uma queixa acessória a ser observada — é um critério que muda o destino do paciente para internação com antibiótico endovenoso.

Vale fixar as definições, porque elas caem literalmente. Febre no neutropênico: temperatura oral acima de 38,3 °C em medida única, ou igual ou superior a 38 °C mantida por mais de uma hora; como a oral é três a quatro décimos maior que a axilar, aceita-se limiar axilar acima de 37,8 °C. Neutropenia: contagem absoluta abaixo de 500/mm³, ou abaixo de 1.000/mm³ com queda prevista para menos de 500 nas próximas 48 horas; abaixo de 100/mm³ é neutropenia profunda. E a advertência que o protocolo faz por escrito: mesmo sem febre, o neutropênico com dispneia, hipotensão ou hipotermia deve ser tratado como neutropênico febril, com antibiótico empírico imediato.

A estratificação usa o escore MASCC, com corte em 21 pontos — igual ou acima de 21, baixo risco; abaixo de 21, alto risco. Repare em dois itens do escore que interessam a este capítulo: 'intensidade dos sintomas' pontua 5 se assintomático ou leve e apenas 3 se moderado a grave, e 'idade menor que 60 anos' vale 2 pontos. Quer dizer que o idoso perde ponto pela idade antes de qualquer sintoma. E a cultura ajuda pouco na hora da decisão: apenas 10% a 25% dos episódios têm hemocultura positiva, com predomínio brasileiro de Gram-negativos como E. coli, Klebsiella, Enterobacter e Pseudomonas aeruginosa.

Enterocolite neutropênica: o abdome que quase nunca vai para a sala

É a armadilha cirúrgica clássica do imunossuprimido. A enterocolite neutropênica — tiflite, quando restrita ao ceco — tem predileção por íleo terminal, apêndice e ceco, e produz exatamente o quadro da apendicite: febre, dor em fossa ilíaca direita, distensão, às vezes diarreia. A incidência é de 5,3% (266 de 5.058) entre internados por neoplasia hematológica em quimioterapia de alta dose. O paciente típico está no oitavo ao décimo dia depois da quimioterapia, no fundo do nadir.

O diagnóstico é composto, e os três critérios de Gorschlüter são: febre (axilar acima de 38 °C ou retal acima de 38,5 °C), dor abdominal de pelo menos grau 3 numa escala de 1 a 10, e espessamento da parede intestinal acima de 4 mm no corte transversal, ao longo de mais de 30 mm no corte longitudinal — o segundo número é tão parte do critério quanto o primeiro, e é ele que separa espessamento real de artefato de corte. Some-se a neutropenia, com contagem absoluta abaixo de 500/mm³.

O tratamento é clínico: repouso intestinal, hidratação, correção de coagulopatia, nutrição parenteral com frequência, e antibiótico de amplo espectro com cobertura antipseudomonas — monoterapia com carbapenêmico ou piperacilina-tazobactam, ou betalactâmico antipseudomonas associado a aminoglicosídeo. Antifúngico entra quando o paciente permanece febril e profundamente neutropênico por mais de cinco dias apesar do esquema amplo. A recuperação depende, no fim, da volta dos neutrófilos.

As indicações cirúrgicas são três, e são estreitas: sangramento gastrointestinal persistente depois de resolvida a neutropenia e a plaquetopenia e corrigida a coagulopatia; perfuração intraperitoneal livre demonstrada; e sepse não controlada, caracterizada pela necessidade de grandes volumes de fluido ou de vasopressor. Fora disso, dor intensa e abdome doloroso não indicam laparotomia. Quando se opera, não se faz anastomose primária: a cicatrização está comprometida pela neutropenia e pela imunossupressão, e a saída é a ostomia.

A espessura da parede tem valor prognóstico, não indicação operatória: acima de 10 mm, a mortalidade foi de 60%, contra 4,2% abaixo desse limiar. É um número que pede internação em terapia intensiva e vigilância, não bisturi.

Hérnia diafragmática: a víscera que sobe, e o exame que não a vê

O diafragma se rompe de dois jeitos, e o jeito determina tudo o que vem depois. No trauma contuso, o aumento súbito da pressão intra-abdominal arrebenta a cúpula num rasgo grande, quase sempre à esquerda — à direita o fígado dissipa a energia e tampona o defeito. Rasgo grande significa herniação imediata, e por isso as séries de hérnia diafragmática pós-traumática são dominadas pelo trauma fechado. No trauma penetrante, a faca ou o projétil fazem um orifício pequeno, que pode passar despercebido por anos até que o gradiente de pressão entre abdome e tórax alargue o defeito e empurre a víscera para cima.

Os números brasileiros mostram isso com clareza. Na série de Campinas, 32 pacientes com hérnia diafragmática pós-traumática confirmada: 78,1% por trauma contuso, 87,5% à esquerda, estômago herniado em 71,8% dos casos, seguido de baço, cólon, omento, delgado, fígado e rim. Na série de Belo Horizonte, 103 lesões diafragmáticas operadas: 98,1% penetrantes, 54,4% à esquerda, 37,9% à direita e 6,7% bilaterais. As duas estão certas — contam coisas diferentes, e o capítulo trata isso adiante.

O achado que mais importa da série de lesões operadas é outro: apenas 1,9% eram lesões isoladas. Víscera oca associada em 63,1%, fígado em 56,3%, baço em 32,0%; mortalidade global de 16,5%. Lesão diafragmática, na fase aguda, é marcador de trauma toracoabdominal grave — e é o abdome que resolve o conjunto, porque é lá que estão as lesões que matam. A lesão do diafragma em si não é o problema; é a bandeira.

A imagem decepciona. A radiografia de tórax estava alterada em 81,3% da série de hérnias confirmadas, com elevação de cúpula como achado mais frequente — e normal ou inespecífica em 18,8%. Na tomografia de múltiplos detectores para trauma penetrante, a metanálise de nove estudos e 933 pacientes encontrou sensibilidade agrupada de 74% (IC 95% 56–87) e especificidade de 92% (IC 95% 79–97), com área sob a curva de 0,90. Os sinais tomográficos que se procura são o sinal do colar (estrangulamento da víscera na passagem pelo defeito, o mais específico), o sinal da víscera dependente (o órgão herniado encostado na parede torácica posterior), a descontinuidade da cúpula, o espessamento diafragmático e o trajeto transdiafragmático; o achado de lesão contígua dos dois lados do diafragma é o mais sensível. A leitura correta desses números é uma só: tomografia negativa em ferimento toracoabdominal com trajeto suspeito não afasta lesão diafragmática — quem decide é a exploração da cavidade.

Corte coronal do tronco mostrando ruptura da cúpula diafragmática esquerda com estômago e cólon dentro do hemitórax esquerdo, estrangulados na passagem pelo defeito, pulmão esquerdo colapsado e mediastino desviado para a direita; à direita, cúpula íntegra com o fígado abaixo dela.
O estrangulamento da víscera na passagem pelo defeito é o sinal do colar — o achado mais específico da tomografia. À direita, o fígado tampona o rasgo, e é por isso que a hérnia por trauma contuso é quase sempre esquerda.

Quando o diafragma vira abdome agudo, anos depois

A hérnia diafragmática tardia não se apresenta como trauma. Ela se apresenta como abdome agudo obstrutivo, e o intervalo pode ser absurdo — há relato de volvo gástrico agudo cerca de 60 anos depois do acidente de motocicleta que rompeu o diafragma. O conteúdo herniado encarcera, torce e estrangula, e o órgão mais frequente é o estômago.

O quadro que a prova usa é a tríade de Borchardt: dor epigástrica, ânsia de vômito sem vômito e impossibilidade de passar sonda nasogástrica. Os três juntos descrevem um estômago torcido e fechado nas duas extremidades — nada entra, nada sai. O volvo gástrico agudo tem mortalidade de 15% a 20% nessa literatura, por isquemia, necrose ou perfuração da parede gástrica, e é emergência cirúrgica.

Há dois erros de imagem que valem ponto. O primeiro é ler nível hidroaéreo no hemitórax esquerdo como hidropneumotórax ou derrame loculado e indicar drenagem torácica — o dreno atravessa o estômago. O segundo é passar a sonda nasogástrica e não conferir onde ela parou: sonda que enrola ou termina acima do diafragma na radiografia é o próprio diagnóstico entregue de graça. Na dúvida, tomografia antes de qualquer dreno.

Na fase aguda do trauma, a via de acesso é o abdome, e o argumento é o da série brasileira: quase toda lesão diafragmática vem acompanhada — víscera oca, fígado, baço — e a laparotomia trata o conjunto. Na hérnia descoberta anos depois, o conteúdo está aderido à pleura e a escolha da via passa a depender do que está preso lá em cima; o que não muda é a ordem — desfazer o volvo, reduzir a víscera, avaliar a viabilidade e só então fechar o defeito.

04

O gatilho que substitui o sinal ausente

Nos três cenários o exame físico perde valor, e é preciso decidir com outra coisa no lugar. A sequência abaixo é a que resolve os três: identificar o grupo de risco, aceitar que a ausência de sinal não é ausência de doença, e escolher o exame que enxerga onde a mão não enxerga.

  1. 1Identifique o grupo antes de examinar: idade ≥ 60 anos, neutropenia ou corticoide crônico, trauma toracoabdominal prévio de qualquer época.
  2. 2Não use febre, leucocitose nem defesa muscular como critério de exclusão em nenhum dos três — a ausência deles é esperada.
  3. 3No idoso com dor abdominal e Alvarado ≥ 5, peça tomografia; não substitua por ultrassonografia nem por reavaliação isolada.
  4. 4No neutropênico com dor abdominal, conte os neutrófilos e meça a parede intestinal: acima de 4 mm ao longo de mais de 30 mm, com febre e dor, o diagnóstico é enterocolite neutropênica e o tratamento é clínico.
  5. 5Reserve a laparotomia do neutropênico para perfuração livre, sangramento persistente após correção das citopenias ou sepse não controlada — e, se operar, não faça anastomose primária.
  6. 6Diante de ferimento toracoabdominal com trajeto suspeito, trate a tomografia negativa como não conclusiva e leve a decisão para a exploração da cavidade.
  7. 7Antes da alta do idoso operado por apendicite, programe a investigação colônica eletiva.

Parede intestinal abaixo de 4 mm

Fora do critério de Gorschlüter. Febre e dor abdominal no neutropênico permanecem, mas o diagnóstico de enterocolite neutropênica não está fechado e o diferencial segue aberto — inclusive apendicite verdadeira.

Parede acima de 4 mm em mais de 30 mm de extensão

Com febre e dor abdominal no neutropênico, fecha o diagnóstico de enterocolite neutropênica. Conduta clínica: repouso intestinal, hidratação, antibiótico de amplo espectro com cobertura antipseudomonas e correção das citopenias.

Parede acima de 10 mm

Marcador prognóstico, não indicação cirúrgica: mortalidade de 60% acima desse limiar contra 4,2% abaixo dele. Pede terapia intensiva e reavaliação frequente — a laparotomia continua reservada às três indicações.

AchadoO que ele vale no adulto de meia-idadeO que ele vale no idoso ou imunossuprimidoO que colocar no lugar
FebreSinal sensível de processo inflamatório abdominalAcima de 38 °C em apenas 6,4% a 10% das colecistites do idoso; no neutropênico o limiar é outro (axilar > 37,8 °C)Idade e contagem de neutrófilos como gatilho; ausência de febre não afasta
LeucocitoseApoia a suspeita e acompanha a evoluçãoSem valor no neutropênico, que por definição não a produz; pouco confiável no idosoProteína C reativa, lactato e imagem
Defesa e descompressão dolorosaIndicam irritação peritoneal e aceleram a decisão cirúrgicaPodem faltar com perfuração estabelecida, por musculatura reduzida e corticoideTomografia com contraste; não use exame inocente como alta
Sinal de MurphyAchado que fecha o raciocínio à beira do leitoSensibilidade 0,48 e especificidade 0,79 no idoso: vale quando presente, não afasta quando ausenteUltrassonografia de vias biliares independentemente do sinal
Escore de AlvaradoEstratifica risco e organiza a decisão de imagemConstruído em população com idade média de 23,4 a 25,9 anos; serve para excluir, não para diagnosticarTomografia em todo idoso com Alvarado ≥ 5
Exame físico do tórax e do abdome no traumaOrienta a suspeita de lesão de órgãoNão enxerga o diafragma: a lesão é achado de exploração em quase todos os casosTrajeto do ferimento; tomografia negativa não encerra a investigação

Lesão diafragmática e hérnia diafragmática: por que as duas séries brasileiras não batem

Hirano et al., 2012 (Campinas)Cardoso et al., 2017 (Belo Horizonte)
O que foi contadoHérnia diafragmática pós-traumática confirmada, com radiografia de tórax disponível (32 pacientes)Lesão diafragmática encontrada e operada, com ou sem herniação (103 pacientes)
MecanismoContuso em 78,1%; penetrante em 21,9%Penetrante em 98,1%; contuso em 1,9%
LadoEsquerda em 87,5%; direita em 12,5%Esquerda em 54,4%; direita em 37,9%; bilateral em 6,7%
Por que a diferençaHerniação exige defeito grande — é o padrão do trauma fechado, e à esquerda, porque o fígado protege a direitaFerimento penetrante faz orifício pequeno, atinge os dois lados igualmente e frequentemente não hernia na fase aguda
O que o número serve para responderComo a hérnia se apresenta e o que a radiografia mostraQuão grave é o trauma associado: só 1,9% eram lesões isoladas; mortalidade de 16,5%

Enterocolite neutropênica: o que sustenta a conduta clínica e o que obriga a operar

SituaçãoCondutaBase
Febre + dor abdominal + parede acima de 4 mm em mais de 30 mm, neutrófilos abaixo de 500/mm³Tratamento clínico: repouso intestinal, hidratação, antibiótico amplo com cobertura antipseudomonas, correção de citopeniasCritérios de Gorschlüter; a resolução acompanha a recuperação dos neutrófilos
Febre persistente e neutropenia profunda além de cinco dias apesar do esquema amploAcrescentar antifúngicoRisco crescente de candidemia e depois de bolores em neutropenia prolongada
Perfuração intraperitoneal livre demonstradaLaparotomiaIndicação cirúrgica clássica
Sangramento gastrointestinal persistente após correção de neutropenia, plaquetopenia e coagulopatiaLaparotomiaIndicação cirúrgica clássica
Sepse não controlada: necessidade de grandes volumes de fluido ou vasopressorLaparotomiaIndicação cirúrgica clássica
Qualquer uma das três acima, quando se operaRessecção com ostomia; sem anastomose primáriaCicatrização comprometida pela neutropenia e pela imunossupressão

Escore MASCC: os pontos e o corte

CaracterísticaPontos
Intensidade dos sintomas: assintomático5
Intensidade dos sintomas: leves5
Intensidade dos sintomas: moderados a graves3
Ausência de hipotensão (sistólica acima de 90 mmHg)5
Ausência de doença pulmonar obstrutiva crônica4
Tumor sólido, ou neoplasia hematológica sem infecção fúngica4
Ausência de desidratação3
Não hospitalizado quando a febre apareceu3
Idade menor que 60 anos2
Corte: 21 pontos ou mais = baixo risco; abaixo de 21 = alto risco

Os 4 mm da parede intestinal na enterocolite neutropênica não são os 4 a 5 mm da parede da vesícula na colecistite aguda. São órgãos diferentes, documentos diferentes e finalidades diferentes: aqui o número é critério diagnóstico com exigência de extensão (mais de 30 mm no corte longitudinal); lá é achado de imagem que vale em conjunto com os outros e não fecha nem afasta sozinho.

Os limiares de febre não se uniformizam entre os documentos, e a diferença é de sítio e de sinal. No protocolo de neutropenia febril: temperatura oral acima de 38,3 °C em medida única, ou igual ou superior a 38 °C por mais de uma hora, com limiar axilar aceito acima de 37,8 °C. Nos critérios de Gorschlüter para enterocolite neutropênica: axilar acima de 38 °C ou retal acima de 38,5 °C. São réguas distintas para o mesmo paciente; use a do documento que a questão citar.

A espessura acima de 10 mm é prognóstico, não gatilho cirúrgico. Ela separa mortalidade de 60% de mortalidade de 4,2%, e por isso muda o nível de vigilância — mas as indicações de laparotomia continuam sendo as três.

A mortalidade da apendicite do idoso não é um número só: 8% acima dos 65 anos no conjunto, 11,9% a 15% quando perfurada e mais de 16% entre os nonagenários, com aumento de cerca de três vezes a cada década. Quando a questão traz a idade exata, ela está apontando para a faixa, não para a média.

A radiografia de tórax é útil e insuficiente ao mesmo tempo: alterada em 81,3% das hérnias confirmadas, normal ou inespecífica em 18,8%. O pneumoperitônio e o que ele prova ficam no capítulo de úlcera perfurada.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Mecanismo e lado da lesão diafragmática: por que as séries brasileiras se contradizem

Predomínio do trauma contuso e da cúpula esquerda

Em 32 pacientes com hérnia diafragmática pós-traumática confirmada, 78,1% decorreram de trauma contuso e 87,5% eram à esquerda, com estômago herniado em 71,8% dos casos. A explicação fisiológica é a que se ensina: o aumento súbito da pressão intra-abdominal produz um rasgo grande o bastante para permitir herniação, e o fígado protege a cúpula direita.

Hirano ES et al. Rev Col Bras Cir. 2012;39(4).

Predomínio do trauma penetrante e distribuição quase simétrica

Em 103 lesões diafragmáticas operadas no mesmo país, 98,1% foram penetrantes, com 54,4% à esquerda, 37,9% à direita e 6,7% bilaterais. O denominador é outro: contam-se lesões encontradas na exploração cirúrgica, com ou sem herniação. Ferimento por arma branca ou de fogo produz orifício pequeno, atinge as duas cúpulas com frequência parecida e muitas vezes não hernia na fase aguda — só anos depois, se herniar.

Cardoso LF et al. Rev Col Bras Cir. 2017;44(3).

Na prova

O que separa os dois conjuntos de números é o denominador: hérnia confirmada em um, lesão operada no outro. O enunciado revela qual está usando pelo vocabulário e pelo cenário. Se fala em 'hérnia diafragmática', víscera no tórax, radiografia com nível hidroaéreo ou apresentação tardia, o mundo é o das hérnias — trauma contuso, cúpula esquerda. Se fala em 'lesão diafragmática', ferimento por arma branca em região toracoabdominal, laparotomia exploradora ou achado intraoperatório, o mundo é o das lesões — penetrante, lados equilibrados. As alternativas também denunciam: distrator que menciona lesão isolada do diafragma pertence ao segundo mundo, onde ela ocorre em 1,9% dos casos.

Papel da cirurgia na enterocolite neutropênica

Tratamento clínico como padrão, com três indicações cirúrgicas estreitas

A conduta consagrada é conservadora, e a laparotomia fica restrita a perfuração intraperitoneal livre, sangramento gastrointestinal persistente após correção das citopenias e da coagulopatia, e sepse não controlada. A lógica é que a doença se resolve com a recuperação dos neutrófilos e que operar tecido neutropênico acrescenta risco: sem cicatrização confiável, não se faz anastomose primária.

Machado NO. N Am J Med Sci. 2010;2(7):293-300, com os critérios de Shamberger.

Sinal de melhor desfecho nos operados, com evidência de qualidade muito baixa

Metanálise de 20 estudos e 385 pacientes encontrou mortalidade agrupada de 26,6% (IC 95% 19,7–33,4) nos operados contra 43,7% (IC 95% 40,1–47,3) nos tratados clinicamente, com razão de chances de 0,41 (IC 95% 0,23–0,74; p = 0,003). Os próprios autores registram que todos os estudos são retrospectivos, unicêntricos e pequenos, com viés de alocação segundo a experiência de cada centro, e concluem que não é possível saber se a cirurgia é superior ou apenas comparável ao tratamento clínico.

Saillard C et al. Ann Intensive Care. 2018;8:47.

Na prova

A causa da divergência é de desenho de estudo: em coorte retrospectiva sem randomização, quem foi operado é quem tinha condição clínica de ir para a sala, e quem morreu antes de operar entra no braço clínico. O recorte do enunciado aparece no vocabulário. Questão que descreva o paciente à beira do leito, com neutrófilos, espessura de parede e resposta ao antibiótico, está pedindo a régua clínica com as três indicações. Questão que cite metanálise, razão de chances ou 'impacto prognóstico da cirurgia' está discutindo a qualidade da evidência, e a alternativa que reconhece o viés de alocação é do mesmo mundo que o enunciado.

A idade que define o paciente idoso

60 anos, pela norma brasileira

O art. 1º do Estatuto da Pessoa Idosa regula os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos — o sinal é 'igual ou superior', e a denominação passou de Estatuto do Idoso para Estatuto da Pessoa Idosa pela Lei nº 14.423, de 2022. O mesmo corte aparece em instrumento clínico usado no SUS: o escore MASCC pontua 2 para 'idade menor que 60 anos'.

Brasil. Lei nº 10.741/2003, art. 1º (redação da Lei nº 14.423/2022); SESA-ES, Protocolo Clínico e de Regulação em Urgências Oncológicas.

65 anos, pelo corte das diretrizes cirúrgicas internacionais

As diretrizes de urgência cirúrgica que estratificam por idade usam 65 anos como fronteira, e é sobre essa faixa que estão calculados os números de apendicite complicada (18% a 70% acima dos 65 contra 3% a 29% abaixo), de mortalidade (8% contra 0% a 1%) e a recomendação de tomografia com Alvarado ≥ 5.

Fugazzola P et al. World J Emerg Surg. 2020;15:19; Pisano M et al. World J Emerg Surg. 2019;14:10.

Na prova

A causa é de endereço normativo: 60 anos vem de uma lei brasileira de direitos, 65 anos vem do corte estatístico da literatura cirúrgica. Enunciado que fale em prioridade de atendimento, direitos, política pública, rede do SUS ou estratificação de risco em oncologia opera com 60. Enunciado que cite taxa de apendicite complicada, mortalidade por faixa etária ou indicação de tomografia opera com 65 — e costuma dizer 'acima de 65 anos' na própria vinheta. Quando a idade da vinheta cai entre 60 e 64 anos, o corte usado é justamente o que está sendo testado.

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Caso resolvido

Homem, 44 anos, chega ao pronto-socorro com dor epigástrica intensa há 5 horas, contínua, com ânsia de vômito repetida sem eliminar conteúdo. Refere distensão do andar superior do abdome e dificuldade para respirar fundo. Há 6 anos sofreu ferimento por arma branca no hemitórax esquerdo, no 8º espaço intercostal, tratado naquela ocasião apenas com drenagem torácica. Ao exame: taquicárdico, abdome com distensão epigástrica e pouco doloroso à palpação nos demais quadrantes, murmúrio vesicular abolido na base esquerda. A enfermagem tenta passar sonda nasogástrica duas vezes, sem sucesso. Radiografia de tórax: imagem com nível hidroaéreo no hemitórax esquerdo, cúpula diafragmática esquerda não individualizada e desvio do mediastino para a direita.
achado
Tríade de Borchardt completa: dor epigástrica, ânsia de vômito sem vômito e impossibilidade de passar sonda nasogástrica. Somada ao ferimento penetrante toracoabdominal esquerdo antigo e ao nível hidroaéreo intratorácico, o quadro é volvo gástrico agudo dentro de uma hérnia diafragmática traumática de apresentação tardia.
por que o intervalo de 6 anos não afasta
Ferimento penetrante produz orifício diafragmático pequeno, que não hernia na hora e passa despercebido — na série brasileira de lesões operadas, 98,1% eram penetrantes. O gradiente de pressão entre abdome e tórax alarga o defeito ao longo do tempo. Há relato de volvo gástrico cerca de 60 anos depois do trauma: intervalo longo é a regra, não a exceção.
o que NÃO fazer
Não drenar o tórax. Nível hidroaéreo no hemitórax esquerdo neste contexto é estômago, não hidropneumotórax, e o dreno perfura a víscera. A sonda nasogástrica que não passa já é informação diagnóstica; se tivesse passado parcialmente, a radiografia mostraria a ponta acima do diafragma.
conduta
Ressuscitação volêmica, jejum e laparotomia de urgência. O estômago torcido está fechado nas duas extremidades e caminha para isquemia, necrose e perfuração — a mortalidade do volvo gástrico agudo é de 15% a 20%. A sequência operatória é desfazer o volvo, reduzir a víscera para o abdome, avaliar a viabilidade da parede gástrica e reparar o defeito diafragmático.
o que a tomografia acrescentaria
Se houvesse dúvida diagnóstica e estabilidade, a tomografia mostraria o sinal do colar — o estreitamento da víscera na passagem pelo defeito, o achado mais específico. Ela confirma; não é ela que autoriza esperar. Com a tríade completa e o antecedente, a indicação cirúrgica já está posta.
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Agora feche você

Mulher, 74 anos, com leucemia mieloide aguda, no 9º dia após quimioterapia de indução. Chega com dor em fossa ilíaca direita há 12 horas, intensidade 6 em 10, com diarreia e temperatura axilar de 38,2 °C mantida há duas horas. Está internada desde o início do ciclo. Exame: hipocorada, frequência cardíaca 108 bpm, pressão arterial 104x62 mmHg, abdome doloroso à palpação em fossa ilíaca direita, sem defesa e sem descompressão dolorosa. Hemograma: leucócitos 900/mm³, neutrófilos 180/mm³, plaquetas 34.000/mm³. Tomografia de abdome: espessamento parietal de 12 mm no ceco e íleo terminal, ao longo de cerca de 7 cm, com densificação da gordura adjacente e sem pneumoperitônio.
achado
Neutropenia profunda (180/mm³, abaixo do corte de 500/mm³), febre pelo critério axilar do protocolo, dor abdominal acima do grau 3 e espessamento parietal acima de 4 mm em extensão bem superior a 30 mm, no território clássico — íleo terminal e ceco. O quadro imita apendicite aguda em faixa etária de alto risco cirúrgico.
estratificação
Pelo escore MASCC, a paciente perde pontos por sintomas moderados a graves, por estar hospitalizada quando a febre apareceu e por ter 74 anos. Além disso, sintoma gastrointestinal com dor abdominal consta nominalmente entre os critérios clínicos de alto risco — internação com antibiótico endovenoso, sem discussão sobre tratamento oral.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Drenar o tórax que tem estômago dentro Nível hidroaéreo no hemitórax esquerdo em paciente com trauma toracoabdominal prévio parece hidropneumotórax e é lido como tal justamente porque a drenagem é um gesto rápido e familiar. O dreno atravessa a víscera herniada. A cúpula diafragmática não individualizada e o antecedente de ferimento penetrante são os dois detalhes que deveriam parar a mão.
  2. 2Passar a sonda nasogástrica e não conferir onde ela parou A sonda é passada por rotina e checada por ausculta, sem radiografia. Sonda que não progride ou cuja ponta termina acima do diafragma é diagnóstico, não falha técnica. Perdido esse achado, o volvo gástrico segue como dispepsia até a necrose.
  3. 3Aceitar radiografia de tórax normal como ausência de lesão diafragmática A radiografia foi alterada em 81,3% das hérnias confirmadas — e o outro lado do número é que 18,8% eram normais ou inespecíficas. Pior no penetrante, em que o orifício é pequeno e não hernia. A tomografia melhora, mas não resolve: 74% de sensibilidade no trauma penetrante deixa um quarto das lesões passar.
  4. 4Levar a enterocolite neutropênica para a sala porque a dor é em fossa ilíaca direita O território é o mesmo da apendicite — íleo terminal, apêndice e ceco — e a vinheta se parece com apendicite complicada. Operar aqui é abrir um paciente que não cicatriza, sem indicação. As três indicações cirúrgicas são específicas, e dor intensa não é nenhuma delas.
  5. 5Usar leucometria para decidir no neutropênico O reflexo de olhar o número de leucócitos sobrevive mesmo quando o paciente está em aplasia. Leucócitos de 900 com neutrófilos de 180 não são 'infecção leve': são a razão pela qual não haverá pus, não haverá bloqueio da perfuração e não haverá o abdome em tábua que se está esperando para indicar a cirurgia.
  6. 6Tratar corticoide crônico como um detalhe da lista de medicamentos Ele aparece na anamnese ao lado dos anti-hipertensivos e não muda a leitura de ninguém. Deveria: o corticoide atenua a resposta peritoneal, e a víscera pode perfurar sem produzir rigidez abdominal. Em paciente corticoide-dependente com dor abdominal, o exame físico normal tem valor preditivo negativo baixo.
  7. 7Dar alta ao idoso operado por apendicite sem programar a investigação do cólon A operação correu bem, o paciente melhorou, e o resumo de alta encerra o caso. Mas a incidência de câncer de ceco ou apêndice em quem tem mais de 55 a 65 anos e se apresenta com apendicite aguda vai de 1,6% a 24%. A apendicite pode ter sido o sintoma do tumor, e a investigação colônica eletiva faz parte do tratamento.
  8. 8Confundir os 4 mm da parede intestinal com os 4 a 5 mm da parede da vesícula O número é parecido e o vocabulário de laudo é o mesmo — 'espessamento parietal'. Mas o 4 mm da enterocolite neutropênica é critério diagnóstico com exigência de extensão maior que 30 mm, e o da vesícula é um achado entre outros na régua de Tóquio, que não fecha nem afasta sozinho.
  9. 9Adiar a colecistectomia do idoso frágil por medo do risco cirúrgico Parece a decisão prudente. Os números vão na direção oposta: mortalidade cumulativa em 30 dias, 1 ano e 2 anos de 2%, 9% e 15,2% nos operados contra 5%, 19,4% e 29,3% nos não operados. Quem não opera não elimina o problema — devolve-o, maior, alguns meses depois.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Ruídos hidroaéreos no tórax e imagem de alças intestinais no hemitórax com desvio de mediastino após trauma toracoabdominal caracterizam ruptura traumática do diafragma (mais frequente à esquerda) com herniação de vísceras — indicação cirúrgica. Pneumotórax hipertensivo cursa com hipertimpanismo e ausência de murmúrio, não com alças no tórax. Derrame pleural e atelectasia não produzem alças intestinais visíveis nem ruídos hidroaéreos torácicos.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Três gatilhos que substituem o exame físico: idade (tomografia no idoso com Alvarado ≥ 5), contagem de neutrófilos com espessura de parede (acima de 4 mm em mais de 30 mm fecha enterocolite neutropênica), e trajeto do ferimento (tomografia negativa não afasta lesão diafragmática). Decore as três indicações cirúrgicas do neutropênico — perfuração livre, sangramento persistente após correção das citopenias, sepse não controlada — e a tríade de Borchardt.

em 30 dias

Refaça os números por faixa: apendicite complicada 18–70% acima dos 65 contra 3–29% abaixo; mortalidade 8% contra 0–1%, e mais de 16% nos nonagenários. Colecistite do idoso operado contra não operado em 30 dias, 1 ano e 2 anos. Enterocolite neutropênica com parede acima de 10 mm: 60% contra 4,2%. Tomografia no penetrante: sensibilidade 74%, especificidade 92%. E saiba explicar por que uma série brasileira encontra 78,1% de trauma contuso e a outra 98,1% de penetrante.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 79 anos, hipertenso em uso de betabloqueador e portador de artrite reumatoide em corticoterapia crônica, é trazido pela filha por 'mal-estar e barriga estufada' há dois dias. Não tem febre aferida, come pouco desde ontem e não evacua há três dias. Ao exame está lúcido, afebril, com frequência cardíaca de 78 bpm, abdome distendido e difusamente doloroso, sem rigidez. Leucograma sem leucocitose. Conduza a avaliação decidindo qual exame pedir e por que a ausência de febre, de taquicardia e de defesa não afasta abdome cirúrgico neste paciente. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hérnia diafragmática e abdome agudo no idoso/imunossuprimido – Abdome agudo atípico: idoso, imunossuprimido e diafragma — Preparatório para provas | OsceLabs