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Cirurgia GeralUrologia

Litíase urinária e cólica nefrética

A prova quase nunca pergunta se você reconhece a cólica. Ela pergunta qual analgésico entra primeiro, qual cálculo vai embora sozinho e qual paciente precisa de drenagem antes de qualquer tentativa de tratar a pedra.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 45 anos com dor lombar direita de início súbito, em cólica, irradiada para a região inguinal e testículo, associada a náuseas e agitação (não consegue ficar quieto), há 4 horas. PA 140x90 mmHg, FC 100 bpm, afebril. Urina tipo I com hematúria microscópica. TC de abdome sem contraste mostra cálculo de 5 mm no ureter distal direito, com discreta dilatação pielocalicial. Qual é a conduta inicial mais adequada?

02

Como esse tema cai

A litíase urinária afeta 10% a 15% da população, é duas a três vezes mais frequente em homens e tem pico entre a terceira e a quinta décadas de vida. Sem tratamento preventivo, a recorrência chega a 50% em dez anos. Esses números explicam por que o tema cai tanto: é doença de gente jovem, que volta, e que passa pelo pronto-socorro de qualquer porte.

Existe uma peculiaridade brasileira que vale entender antes de decorar conduta. A referência nacional mais recente e completa sobre litíase é uma diretriz de nefrologia — a da Sociedade Brasileira de Nefrologia, de março de 2025 — e ela cobre a cólica, a investigação metabólica e a prevenção, mas não desce ao detalhe da escolha entre litotripsia extracorpórea, ureteroscopia e nefrolitotomia percutânea. Essa parte cirúrgica vem das diretrizes de urologia, majoritariamente estrangeiras. O resultado prático é que a régua clínica do paciente com cálculo é brasileira e a régua cirúrgica é importada, e a prova costuma cobrar as duas em questões diferentes.

O capítulo segue essa divisão. Primeiro a crise: reconhecer, doer menos, decidir quem fica e quem vai para casa. Depois a obstrução infectada, que é a única emergência real deste tema. Por fim a parte que separa quem estudou de quem não estudou: investigar o metabolismo, prevenir a recorrência e saber por quanto tempo repetir imagem.

03

O que muda decisão

A dor que não tem posição antálgica

A cólica ureteral começa súbita, é unilateral e vem em ondas que duram tipicamente de 20 a 60 minutos. A intensidade não mede o tamanho do cálculo: ela acompanha a velocidade com que a obstrução se instalou. Cálculo grande que cresceu devagar na pelve renal pode ser assintomático; fragmento de 3 mm que impacta de repente derruba o paciente.

O detalhe semiológico que mais aparece em enunciado é a inquietude. A dor visceral por distensão não melhora com repouso nem com mudança de posição — o paciente anda pelo consultório, se contorce na maca. Isso é o oposto do abdome agudo inflamatório, em que o doente fica imóvel. A irradiação segue o trajeto ureteral: flanco e lombar quando o cálculo está alto, fossa ilíaca e região inguinal quando desce, e genitália externa com disúria e urgência quando alcança a junção ureterovesical.

Sintomas gastrointestinais são a regra, não a exceção: náusea em 44%, vômitos em 51%, anorexia em 54%. O plexo celíaco é compartilhado, e por isso a cólica renal entra no diferencial de dor abdominal alta. No exame físico, a dor à percussão do ângulo costovertebral (sinal de Giordano) tem sensibilidade de apenas 15%, mas especificidade de 99% e razão de verossimilhança positiva em torno de 30 — quer dizer: se está presente, ajuda muito; se está ausente, não afasta nada.

A hematúria tem a mesma lógica assimétrica. Está ausente em 10% a 30% dos pacientes com cólica confirmada, e a chance de encontrá-la cai com o tempo: numa série de mais de 450 pacientes com ureterolitíase documentada por tomografia, a hematúria estava presente em 95% no primeiro dia e em 65% a 68% no terceiro e quarto dias. Urina sem sangue no quarto dia de dor não exclui cálculo.

O diferencial que mata é vascular. Dor lombar de início súbito em paciente acima de 50 anos, sobretudo no primeiro episódio, obriga a pensar em rotura ou dissecção de aneurisma de aorta antes de aceitar o rótulo de cólica renal. Entram na lista também apendicite, diverticulite, colecistite, torção ovariana ou testicular, gestação ectópica, infarto renal e pneumonia de base.

Trato urinário visto de frente, com os três pontos de estreitamento do ureter e um cálculo alojado no estreitamento inferior, junto à bexiga.
O cálculo trava nos três estreitamentos naturais do ureter — junção ureteropélvica, cruzamento com os vasos ilíacos e junção ureterovesical. A altura do impacto explica para onde a dor irradia: lombar e flanco em cima, fossa ilíaca no meio, genitália e sintomas miccionais embaixo.

Confirmar o diagnóstico sem irradiar o país inteiro

A tomografia sem contraste é o padrão-ouro, com sensibilidade acima de 95%. No protocolo de baixa dose, uma metanálise mostrou sensibilidade de 93,1% (IC 95% 91,5–94,4) e especificidade de 96,6% (IC 95% 95,1–97,7). Ela mede o cálculo com precisão, mostra a repercussão obstrutiva, dispensa contraste e ainda faz o diferencial com as outras causas de dor abdominal.

Isso não significa que todo mundo com cólica precisa de tomografia — e aqui a diretriz brasileira é explícita. A Sociedade Brasileira de Nefrologia recomenda que a ultrassonografia, em conjunto com a radiografia simples de abdome, seja considerada a modalidade inicial na cólica nefrética (grau de recomendação A, nível de evidência 1), reservando a tomografia, preferencialmente em protocolo de baixa dose, para confirmação diagnóstica e decisão terapêutica. O argumento não é econômico: num ensaio randomizado no departamento de emergência, ultrassom e tomografia tiveram acurácia diagnóstica equivalente como estratégia inicial.

Vale conhecer o desempenho isolado de cada método, porque a prova cobra. O ultrassom detecta cálculo de qualquer composição e mostra hidronefrose, mas tem sensibilidade de 45% para cálculo ureteral (especificidade 94%) e depende do operador. A radiografia simples só enxerga cálculo com pelo menos 2 mm e radiopaco — o que cobre cerca de 90% dos cálculos, já que ácido úrico é radiotransparente — e tem sensibilidade abaixo de 50% para cálculo ureteral; sua utilidade real é acompanhar crescimento, não diagnosticar crise. A ressonância fica reservada a gestantes e crianças.

A tomografia entrega um dado que muda a conduta e costuma virar questão: a densidade em unidades Hounsfield. Cálculo de ácido úrico fica entre 200 e 400 UH; oxalato de cálcio, entre 600 e 1.200 UH. Acima de 1.000 UH o cálculo fragmenta mal na litotripsia extracorpórea. A tomografia de dupla energia diferencia ácido úrico de cálcio com sensibilidade e especificidade próximas de 95%.

Há situações em que a imagem é imediata e não se discute: febre, rim único conhecido, diagnóstico duvidoso. Mas a diretriz brasileira faz uma ressalva que também aparece em enunciado — o alívio da dor não deve ser adiado para realizar exame de imagem. Analgesia primeiro, imagem em seguida.

A avaliação laboratorial na emergência é enxuta: creatinina, hemograma e urina tipo 1. A creatinina costuma ser normal, e só sobe em obstrução bilateral, rim único obstruído ou cálculo impactado com repercussão. Leucocitose discreta sem desvio é esperada pela dor; nitrito positivo e bacteriúria mudam o jogo. Como auxílio para decidir antibiótico na suspeita de infecção associada, a diretriz brasileira aponta idade acima de 54 anos e PCR mais de cinco vezes o valor de referência (grau C, nível 4).

Analgesia: o que funciona, o que só parece funcionar

A dor vem do espasmo da musculatura lisa ureteral somado ao edema e à hiperpressão acima do cálculo. As prostaglandinas participam dos três mecanismos — por isso o anti-inflamatório não hormonal não é apenas analgésico, é tratamento fisiopatológico.

A recomendação brasileira é categórica no grau máximo: os AINH são eficazes na cólica renal e superiores aos opioides, e o uso de opioides deve ser minimizado (grau A, nível 1). O suporte vem de um ensaio de 2016 com 1.500 adultos randomizados para diclofenaco intramuscular, morfina intravenosa ou paracetamol intravenoso, no qual, aos 30 minutos, o AINH foi 50% mais eficaz na redução da dor do que a morfina, sem eventos adversos. Metanálise posterior mostrou redução de dor semelhante entre AINH e opioide, mas com menos efeitos colaterais no primeiro.

Na prática do pronto-socorro brasileiro, o cetoprofeno é o AINH mais usado por via intravenosa: 100 mg diluídos em 100 mL de soro, infundidos em 20 minutos; por via oral, 50 mg a cada 6 horas ou 100 mg a cada 12 horas. Diclofenaco, ibuprofeno e indometacina têm bom nível de evidência e são alternativas legítimas. O cetorolaco entra com 30 mg intravenosos (máximo 120 mg/dia) ou 20 mg sublinguais de ataque seguidos de 10 mg a cada 6 horas.

A dipirona ocupa um lugar que só existe fora dos Estados Unidos e do Reino Unido, onde foi banida pelo risco raro de agranulocitose. No Brasil ela é o não opioide mais usado, isolado ou associado à hioscina, com bons resultados — 1 a 2 ampolas de 500 mg/mL (2 mL) por via intravenosa até quatro vezes ao dia. Não é errado começar por ela; é errado começar por ela e parar aí quando o AINH está liberado.

Os opioides não saem do arsenal, apenas descem de posição. Entram quando o AINH está contraindicado — insuficiência renal, doença péptica grave, gestação (contraindicação absoluta no terceiro trimestre) — ou quando a dor persiste. Tramadol 50 a 100 mg por via intravenosa ou intramuscular a cada 6 horas, máximo 400 mg/dia, causa menos sedação com menor potência analgésica. A morfina é rápida, potente e titulável, ao custo de náusea, constipação, retenção urinária e depressão respiratória. A meperidina merece nota negativa própria: provoca vômitos frequentes e sua ação se prolonga na insuficiência renal.

Duas condutas populares não sustentam a fama. Os antiespasmódicos, como a hioscina, têm efeito controverso e limitado mesmo em associação. E a hidratação intravenosa com o único propósito de empurrar o cálculo não é respaldada pela literatura e deve ser evitada (grau B, nível 1) — soro entra para corrigir hipovolemia, vômito e lesão renal pré-renal, não para lavar o ureter.

Quem vai embora sozinho e quem precisa do urologista

A pergunta que decide a alta é o tamanho, seguido da localização. Até 80% dos cálculos ureterais menores que 5 mm são eliminados espontaneamente. Acima de 7 mm a chance despenca e depende de onde ele está: cerca de 25% no ureter proximal, 45% no médio e 70% no distal. Guardar esses três números resolve boa parte das questões de conduta.

O protocolo brasileiro de rede pública traduz isso em duas fronteiras operacionais: abaixo de 5 mm há grande possibilidade de eliminação espontânea, e acima de 10 mm há indicação imediata de avaliação urológica para definir a retirada. A faixa entre 5 e 10 mm é a zona de decisão compartilhada — é exatamente onde entra a terapia expulsiva.

A terapia expulsiva médica usa bloqueador alfa-1, e a tansulosina 0,4 mg por via oral uma vez ao dia é o representante brasileiro. A evidência é irregular e a diretriz nacional descreve a controvérsia sem escondê-la: um estudo multicêntrico com mais de mil pacientes não encontrou diferença em relação ao placebo — mas 75% dos cálculos tinham menos de 5 mm, ou seja, iam passar de qualquer forma. Metanálise restrita a ensaios randomizados mostrou chance 44% maior de eliminação em cálculos ureterais distais de 5 a 10 mm com tansulosina. A recomendação brasileira segue esse recorte: benefício em cálculo ureteral distal entre 5 e 10 mm, com as vantagens e desvantagens discutidas com o paciente (grau A, nível 1).

O prazo importa tanto quanto a indicação. A diretriz americana de manejo cirúrgico coloca a terapia expulsiva em cerca de 30 dias para cálculo ureteral de até 10 mm. Observação indefinida não é conduta: o rim obstruído perde função, e o paciente que passou de um mês tentando eliminar precisa de reavaliação com imagem e decisão de intervenção, não de mais uma receita de tansulosina.

A alta do pronto-socorro exige quatro condições simultâneas: dor controlada com analgesia oral, ausência de febre e de sinais de infecção, função renal preservada e cálculo compatível com eliminação espontânea. O paciente vai embora com AINH, orientação de filtrar a urina para recuperar o cálculo — a análise da composição muda a prevenção — e retorno agendado com imagem para confirmar a passagem. Sintoma que cessa não prova eliminação: a diretriz brasileira registra que nem a resolução dos sintomas nem o relato do paciente sobre ter eliminado o cálculo são confirmatórios.

A única emergência do tema: obstrução com infecção

Dor lombar, febre, calafrios e sinais sistêmicos em paciente com cálculo obstrutivo configuram pielonefrite obstrutiva calculosa, condição de elevada morbidade e mortalidade. Aqui o raciocínio muda de categoria: não é mais uma questão de analgesia e tempo, é foco infeccioso sob pressão dentro de uma cavidade fechada.

A conduta é drenar. A diretriz americana de manejo cirúrgico orienta iniciar drenagem renal urgente no paciente com obstrução e suspeita de infecção, por cateter ureteral duplo J ou por nefrostomia percutânea (statement 38). Antibiótico e ressuscitação acompanham, mas não substituem a drenagem — antibiótico não alcança urina represada acima do cálculo em concentração terapêutica.

O erro clássico, e o distrator preferido das bancas, é tentar resolver a pedra no mesmo tempo cirúrgico. Ureteroscopia com fragmentação em rim infectado e obstruído aumenta a pressão intrapiélica e pode converter uma pielonefrite em choque séptico na mesa. Drena-se primeiro, trata-se a infecção, e o cálculo é abordado eletivamente depois — a mesma diretriz recomenda não realizar intervenção sobre cálculo na vigência de bacteriúria ou funguria não tratada (statement 3).

Outros cenários pedem avaliação imediata mesmo sem febre, e a diretriz brasileira os lista como sinais de alerta: primeiro episódio acima de 50 anos, alterações hemodinâmicas, rim único, disfunção renal e quadro atípico. Rim único obstruído e obstrução bilateral são anúria funcional — a creatinina sobe porque não há parênquima de reserva do outro lado.

Depois da crise: quem investiga o metabolismo

Passada a crise, a pergunta muda: por que este paciente faz pedra? Investigar todo mundo é caro e pouco resolutivo; não investigar ninguém condena o paciente a repetir a cena. A diretriz brasileira define quem entra na avaliação metabólica completa: formadores recorrentes, formadores bilaterais ou múltiplos, formador único de alto risco, portadores de rim único e pacientes metabolicamente ativos, isto é, com cálculo novo ou em crescimento nas imagens seriadas (grau B, nível 2).

Os fatores que qualificam o formador único como alto risco são: início precoce, história familiar, recorrência elevada, cálculo de brushita, de ácido úrico ou de infecção (estruvita). O protocolo da rede pública acrescenta ao mesmo raciocínio as crianças, os pacientes com intervenções urológicas prévias e os que têm infecção urinária associada.

O timing da coleta é detalhe de prova e de prática. O perfil metabólico basal deve ser obtido pelo menos 3 a 8 semanas após a última eliminação de cálculo, espontânea ou cirúrgica, com o paciente sem cateter duplo J, com trato urinário desobstruído, em dieta habitual e sem infecção urinária em tratamento. Recomendam-se ao menos duas amostras de urina de 24 horas colhidas em dias não consecutivos — uma coleta isolada não basta, porque a excreção varia com a dieta do dia.

O painel mínimo no sangue: creatinina (para a taxa de filtração glomerular estimada pelo CKD-EPI 2021), sódio, potássio, ácido úrico, bicarbonato, cálcio total com albumina ou cálcio iônico, e paratormônio. A dupla cálcio elevado com PTH elevado aponta hiperparatireoidismo primário, causa comum de nefrocalcinose no adulto e diagnóstico que muda tudo. Na urina de 24 horas: volume, creatinina (para conferir se a coleta foi completa), cálcio, sódio, potássio, oxalato, citrato, ácido úrico e pH. Na amostra isolada, sedimento e pH de jejum.

O cálculo eliminado é uma peça de informação que se perde por descuido. Sempre que possível ele deve ser recuperado e analisado — o paciente é instruído a filtrar a urina nos primeiros dias e guardar o material seco. A análise química tradicional identifica íons isolados e hoje é considerada obsoleta; o padrão-ouro é a análise morfológica associada a método físico, espectroscopia infravermelha ou difração de raios X, ambas de disponibilidade limitada no Brasil e fora do rol público. A composição pode mudar ao longo da vida do paciente — a literatura descreve mudança em até 21% dos casos —, o que justifica repetir a análise na recorrência apesar do tratamento.

Prevenir a recorrência: dieta primeiro, comprimido depois

A base da metafilaxia é volume urinário. A recomendação nacional é de 30 mL/kg/dia de líquidos acrescidos de 400 mL para perdas insensíveis, com meta de diurese de 2,5 a 3,0 litros por dia (grau A). O parâmetro que se cobra é a diurese, não o quanto o paciente diz que bebe: volume urinário abaixo de 1,5 L/dia é sinal de atenção e abaixo de 1 L/dia exige ação. Refrigerantes ricos em ácido fosfórico e sucos artificiais não contam como hidratação útil.

O sal é o segundo pilar, e mexe direto na calciúria: menos de 6 g de cloreto de sódio por dia (grau A). Sódio e cálcio compartilham a reabsorção tubular — quem come sal, urina cálcio. A proteína fica entre 0,8 e 1,0 g/kg de peso corporal ideal por dia, com redução da fração animal, porque a carga ácida da proteína animal aumenta a calciúria e reduz o citrato urinário. Por cima disso, padrão alimentar DASH ou mediterrâneo e adequação do índice de massa corporal.

O ponto que mais derruba candidato é o cálcio da dieta. A recomendação da diretriz brasileira de 2025 é de 1000 a 1200 mg/dia — ou seja, não se restringe cálcio no paciente formador de cálculo de oxalato de cálcio. O cálcio ingerido junto às refeições quela o oxalato no intestino e reduz sua absorção; retirar cálcio da dieta aumenta a oxalúria e piora a doença, além de acelerar a perda de massa óssea de uma população que já tem risco aumentado de fratura.

Suplemento de cálcio é outra história e não se confunde com cálcio alimentar: tomado longe das refeições, não quela oxalato nenhum e se associa a aumento de até 20% no risco de cálculo. Suplemento de vitamina C acima de 1000 mg/dia aumenta em 16% a ocorrência de cálculos, com elevação documentada da oxalúria em estudos de intervenção. Vitamina D repõe-se com monitorização do cálcio sérico e urinário, não no automático.

O tratamento farmacológico entra quando dieta e volume não seguraram a recorrência, e é dirigido pelo distúrbio encontrado. Tiazídico para hipercalciúria e recorrência de cálculo cálcico. Citrato de potássio para hipocitratúria, para acidose tubular renal distal e como alcalinizante — 20 a 60 mEq/dia conforme tolerância, podendo chegar a 90 mEq/dia na cistinúria, preferindo-se o sal de potássio ao de sódio, porque o sódio aumenta a calciúria e anula parte do benefício. Alopurinol 100 a 300 mg/dia quando há hiperuricosúria (ácido úrico urinário acima de 800 mg/dia), lembrando que, na litíase úrica, ele só funciona com a urina alcalinizada junto.

O cálculo de ácido úrico é o único que se dissolve com remédio, e por isso é candidato perene a questão. Ele é radiotransparente na radiografia simples, tem 200 a 400 UH na tomografia e se forma em urina persistentemente ácida — contexto de obesidade, síndrome metabólica e diabetes. O tratamento é alcalinizar mantendo o pH urinário entre 6,5 e 7,0. O teto de 7,0 não é decoração: acima disso o terreno passa a favorecer cálculo de fosfato de cálcio e de estruvita.

O cálculo de estruvita é o oposto — não se dissolve e não se controla com dieta. Ele é consequência de infecção por bactérias produtoras de urease, cresce em molde coraliforme e o tratamento é a remoção completa somada a antibioticoterapia dirigida; fragmento residual reinfecta e o cálculo volta a crescer.

Por quanto tempo continuar olhando

Terminada a intervenção, sobra a pergunta que quase ninguém responde no consultório: por quanto tempo repetir imagem. Uma revisão sistemática com 5.467 pacientes considerados livres de cálculos depois de intervenção estimou que, para uma margem de segurança de 80%, o seguimento por imagem deve durar pelo menos 2 anos em cálculos radiopacos e pelo menos 3 anos em radiotransparentes; para margem de 90%, 5 anos sem recorrência.

Fragmento residual muda o plano. Fragmentos menores que 4 mm exigem seguimento por 4 anos — num período de 29 meses, a necessidade de reintervenção nesse grupo variou de 17% a 29% e a progressão de 9% a 34%. Fragmentos maiores que 4 mm não são para observar: indica-se nova intervenção urológica definitiva, com taxa de sucesso alta.

Paciente com anormalidade metabólica identificada e sem tratamento dirigido é o grupo de pior prognóstico: menos de 40% permanecem sem cálculo em três anos, prazo proposto como seguimento mínimo para esse perfil.

O exame do seguimento não é a tomografia. A recomendação brasileira é acompanhar com radiografia simples de abdome e ultrassonografia conforme as características do cálculo, reservando a tomografia para o paciente sintomático ou para avaliação pré-operatória (grau C, nível 3) — o objetivo declarado é limitar a dose acumulada de radiação numa doença que dura décadas e recidiva.

04

Do tamanho e do lugar até a conduta

Duas variáveis governam a decisão na cólica: se há infecção associada e qual o tamanho e a localização do cálculo. A primeira define se o caso é emergência; a segunda define alta, terapia expulsiva ou urologia.

  1. 1Analgesia primeiro — AINH intravenoso; não adiar o alívio da dor para fazer exame de imagem.
  2. 2Procurar febre, instabilidade, rim único, disfunção renal e primeiro episódio acima de 50 anos: qualquer um muda o caminho.
  3. 3Obstrução com suspeita de infecção: drenagem renal urgente por duplo J ou nefrostomia, mais antibiótico — sem tratar o cálculo neste tempo.
  4. 4Sem infecção: imagem para definir tamanho e localização (ultrassom com radiografia como porta de entrada; tomografia de baixa dose quando muda conduta).
  5. 5Menor que 5 mm e dor controlada: alta com AINH, orientação de filtrar a urina e retorno com imagem para confirmar a passagem.
  6. 6Cálculo ureteral distal de 5 a 10 mm: terapia expulsiva com tansulosina 0,4 mg/dia por cerca de 30 dias, com reavaliação programada.
  7. 7Maior que 10 mm, ou falha da terapia expulsiva, ou dor refratária: avaliação urológica para intervenção.
  8. 8Depois da crise: definir quem entra em avaliação metabólica e iniciar a metafilaxia.

Menor que 5 mm — passa sozinho em até 80%

Ureter pérvio acima do cálculo, sem dilatação relevante. Conduta ambulatorial: analgesia oral, filtrar a urina, imagem de controle para confirmar a eliminação. Terapia expulsiva não tem benefício demonstrado nesta faixa — o cálculo ia passar de qualquer modo.

5 a 10 mm no ureter distal — zona da terapia expulsiva

Dilatação discreta acima do cálculo. Tansulosina 0,4 mg/dia por cerca de 30 dias aumenta a chance de eliminação em torno de 44% nessa faixa e nessa localização. Reavaliação com imagem no fim do prazo — observação indefinida não é conduta.

Maior que 10 mm — avaliação urológica imediata

Hidronefrose estabelecida e dilatação de todo o segmento acima do cálculo. Chance de eliminação espontânea baixa, sobretudo no ureter proximal (em torno de 25%). Indicação de avaliação urológica para definir litotripsia extracorpórea, ureteroscopia ou via percutânea.

SituaçãoChance de eliminação espontâneaConduta
Cálculo ureteral < 5 mmAté 80%Ambulatorial: AINH, filtrar a urina, imagem de controle
Ureteral distal 5–10 mmIntermediária (distal ~70% acima de 7 mm)Tansulosina 0,4 mg/dia por cerca de 30 dias + analgesia; reavaliar com imagem
Ureteral médio > 7 mmCerca de 45%Discutir terapia expulsiva; avaliação urológica se falhar ou houver dor refratária
Ureteral proximal > 7 mmCerca de 25%Avaliação urológica precoce
Qualquer cálculo > 10 mmBaixaAvaliação urológica imediata para definir a via de retirada
Obstrução com febre ou sinais sistêmicosNão se aplicaDrenagem renal urgente (duplo J ou nefrostomia) + antibiótico; não tratar o cálculo neste tempo
Rim único, obstrução bilateral ou creatinina em elevaçãoNão se aplicaAvaliação urológica imediata, mesmo sem febre

Analgesia da cólica renal no pronto-socorro

Classe / fármacoDose no adultoObservação
AINH — cetoprofeno100 mg EV diluídos em 100 mL, em 20 min; ou 50 mg VO 6/6 hPrimeira linha; superior ao opioide aos 30 min
AINH — cetorolaco30 mg EV (máx. 120 mg/dia); 20 mg SL de ataque, depois 10 mg 6/6 hAlternativa; mesma lógica de classe
Dipirona1–2 ampolas de 500 mg/mL (2 mL) EV até 4×/diaNão opioide mais usado no Brasil; banida nos EUA e Reino Unido por agranulocitose rara
Tramadol50–100 mg EV ou IM 6/6 h (máx. 400 mg/dia)Opioide de resgate; menos sedação, menor potência
MorfinaTitulada EVQuando AINH contraindicado ou dor refratária; minimizar o uso
Meperidina1 mg/kg IM 4/4 hEvitar: vômitos frequentes e ação prolongada na insuficiência renal
Hioscina (escopolamina)1–2 ampolas de 30 mg/mL EV, IM ou SCEfeito controverso e limitado, mesmo em associação
Hidratação EV para 'empurrar' o cálculoNão indicadaSem respaldo na literatura; soro só para hipovolemia, vômitos ou lesão renal pré-renal

Urina de 24 horas: nível de ação na avaliação metabólica

AnalitoNível de ação (diretriz SBN, 2025)Significado
Volume urinário< 1,0 L/dia (atenção abaixo de 1,5 L/dia)Meta terapêutica de diurese: 2,5–3,0 L/dia
Cálcio> 250 mg/dia (mulher), > 300 mg/dia (homem) ou > 4 mg/kg/diaHipercalciúria — risco é contínuo com a calciúria
Ácido úrico> 750 mg/dia (mulher), > 800 mg/dia (homem)Hiperuricosúria — avaliar junto com o pH urinário
Oxalato> 40 mg/dia (mulher), > 45 mg/dia (homem)Acima de 90 mg/dia sugere hiperoxalúria primária
Citrato< 320 mg/diaHipocitratúria ou acidose tubular renal distal
Sódio> 150 mEq/diaReflete a ingestão de sal — alvo abaixo de 6 g/dia de NaCl
pH em amostra isolada de jejum (12 h)< 5,8 afasta acidose tubular distalpH persistentemente ácido aponta litíase úrica

Analgesia não espera imagem: o alívio da dor não deve ser adiado para realizar exame de imagem.

Sintoma que cessou não prova cálculo eliminado — a confirmação é por imagem.

Fragmento residual maior que 4 mm depois de intervenção não é para observar: indica-se nova intervenção definitiva.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanto cálcio o formador de cálculo deve comer

1000 a 1200 mg/dia — Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2025

A diretriz de 2025 recomenda ingestão de cálcio de 1000 a 1200 mg/dia tanto na hipercalciúria quanto na hiperoxalúria secundária e na litíase em geral, com grau A na hiperoxalúria. O racional é o efeito quelante do cálcio sobre o oxalato dentro do intestino e a proteção da massa óssea de uma população com risco aumentado de fratura.

Diretrizes Brasileiras de Nefrolitíase, SBN — Braz J Nephrol 2025;47(2):e20240189, Tabela 5

800 mg/dia — protocolo assistencial do HC-UFMG/EBSERH, versão 04 (2026)

O protocolo da rede pública prescreve dieta normal em conteúdo de cálcio de 800 mg/dia, rica em potássio, fibras, vegetais e frutas, junto com proteína animal de 0,8 g/kg e sal de 6 g/dia. O número é menor, mas a orientação é a mesma em direção: dieta normal em cálcio, e não dieta pobre em cálcio.

PRT.UTRS.131 — Nefrolitíase, HC-UFMG/EBSERH, versão 04, emissão 09/04/2026

Na prova

Os dois documentos são brasileiros e recentes, e a diferença de valor absoluto é menor do que parece: nenhum dos dois restringe cálcio. O enunciado que testa este ponto quase sempre oferece um distrator de dieta pobre em cálcio (algo como 400 a 500 mg/dia) — esse é o único que contraria as duas fontes ao mesmo tempo. Quando o enunciado cita nominalmente a diretriz da Sociedade Brasileira de Nefrologia ou fala em prevenção de perda óssea no litiásico, o recorte é o da faixa de 1000 a 1200 mg/dia; quando descreve protocolo assistencial de serviço público com dieta padronizada, aparece o valor de 800 mg/dia.

Dose e escolha do tiazídico na hipercalciúria

Dose alta ou fracionada — Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2025

A diretriz sugere hidroclorotiazida 25 mg duas vezes ao dia ou 50 mg ao dia, clortalidona 25 a 50 mg uma vez ao dia, ou indapamida SR 1,5 mg. O argumento farmacológico é a meia-vida: a hidroclorotiazida dura 8 a 12 horas e não cobre as 24 horas de calciúria em tomada única, enquanto clortalidona e indapamida duram 24 a 36 horas — e o próprio documento registra que essas duas não estão disponíveis no SUS.

Diretrizes Brasileiras de Nefrolitíase, SBN — Braz J Nephrol 2025;47(2):e20240189

12,5 a 25 mg/dia — protocolo assistencial do HC-UFMG/EBSERH, versão 04 (2026)

O protocolo prescreve clortalidona ou hidroclorotiazida em 12,5 a 25 mg/dia, com a expectativa de reduzir a excreção de cálcio em até 150 mg/dia, e escalona com amilorida 2,5 mg/dia ou indapamida 1,5 mg/dia se a hipercalciúria persistir, além de citrato de potássio.

PRT.UTRS.131 — Nefrolitíase, HC-UFMG/EBSERH, versão 04, emissão 09/04/2026

Efeito não demonstrado nessas doses em tomada única — ensaio NOSTONE

O ensaio suíço randomizou 416 pacientes com nefrolitíase cálcica recorrente para hidroclorotiazida 12,5, 25 ou 50 mg uma vez ao dia ou placebo, com seguimento mediano de 2,9 anos, e não encontrou diferença no desfecho composto de recorrência sintomática ou radiológica. A diretriz brasileira lista as limitações — tiazida de ação curta em dose única, pacientes não selecionados por hipercalciúria, seguimento curto — e registra que a análise post hoc restrita a cálculo novo ou em crescimento mostrou redução com as doses mais altas.

NOSTONE, descrito e comentado nas Diretrizes Brasileiras de Nefrolitíase, SBN 2025

Na prova

A causa da distância entre os dois documentos brasileiros é nomeável e vale mais do que o número: as duas drogas de meia-vida longa que a diretriz de 2025 preferiria não estão disponíveis no SUS, e o protocolo do serviço público trabalha com o que a farmácia tem. Enunciado que descreve prescrição em unidade pública com hidroclorotiazida tende à faixa de 12,5 a 25 mg; enunciado que discute meia-vida, cobertura de 24 horas ou cita clortalidona e indapamida está no recorte da diretriz de sociedade. Se o enunciado trouxer o NOSTONE pelo nome, o que se cobra é a leitura crítica do ensaio, não a dose.

Para quem vale a terapia expulsiva com bloqueador alfa

Cálculo ureteral distal de 5 a 10 mm — Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2025

A diretriz brasileira chama o papel da terapia expulsiva de controverso e delimita o benefício ao cálculo ureteral distal entre 5 e 10 mm, com decisão compartilhada (grau A, nível 1). Sustenta-se em metanálise de ensaios randomizados que mostrou chance 44% maior de eliminação nessa faixa, e no estudo multicêntrico com mais de mil pacientes que não achou diferença — no qual 75% dos cálculos tinham menos de 5 mm.

Diretrizes Brasileiras de Nefrolitíase, SBN — Braz J Nephrol 2025;47(2):e20240189

Cálculo ureteral de até 10 mm, com força maior no distal — AUA, 2025

A diretriz americana de manejo cirúrgico recomenda terapia expulsiva para cálculo ureteral distal de até 10 mm (statement 7) e a oferece, com linguagem mais fraca, para cálculo de ureter médio e proximal de até 10 mm (statement 8), por período aproximado de 30 dias.

Surgical Management of Kidney and Ureteral Stones: AUA Guideline (2025)

Na prova

As duas posições coincidem no cálculo distal e se separam no ureter proximal e médio, onde o documento brasileiro não estende a indicação e o americano a oferece como opção. Cenário de unidade básica ou pronto-socorro do SUS, com o texto falando em decisão compartilhada, aponta para o recorte brasileiro; enunciado que trata de conduta pré-operatória, cita prazo de 30 dias ou descreve cálculo de ureter proximal em terapia expulsiva está no recorte americano. Uma pista está nas próprias alternativas: a opção que prescreve bloqueador alfa para cálculo de 3 mm não pertence a nenhum dos dois mundos.

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Caso resolvido

Homem de 38 anos chega ao pronto-socorro com dor lombar direita de início súbito há 4 horas, em ondas, irradiando para a fossa ilíaca e a região inguinal. Está inquieto, mudando de posição na maca o tempo todo. Refere dois episódios de vômito. Temperatura axilar 36,7 °C, PA 138 x 84 mmHg, FC 96 bpm. Giordano positivo à direita, abdome sem irritação peritoneal. Urina tipo 1 com hematúria microscópica, sem nitrito e sem bacteriúria. Creatinina 1,0 mg/dL. Ultrassom mostra hidronefrose leve à direita; a radiografia simples identifica imagem calcificada de cerca de 6 mm na topografia do ureter distal direito.
achado
Dor visceral em cólica, sem posição antálgica, com irradiação típica e inquietude — quadro característico de obstrução ureteral aguda. A ausência de febre, de instabilidade e de bacteriúria afasta, por ora, o cenário de obstrução infectada.
conduta imediata
Analgesia antes de qualquer coisa: cetoprofeno 100 mg diluídos em 100 mL de soro, infundidos em 20 minutos. AINH é primeira linha porque atua no mecanismo da dor, e a diretriz brasileira o coloca acima do opioide com grau A. Não se prescreve hidratação venosa vigorosa para tentar empurrar o cálculo — a medida não tem respaldo e a recomendação é evitá-la.
raciocínio
Cálculo de 6 mm em ureter distal cai na faixa em que a eliminação espontânea é possível mas não é a regra, e é exatamente a faixa (5 a 10 mm, distal) em que o bloqueador alfa mostrou benefício, com chance de eliminação cerca de 44% maior.
conduta ambulatorial
Alta com AINH oral, tansulosina 0,4 mg uma vez ao dia por cerca de 30 dias, orientação de filtrar a urina para recuperar o cálculo e retorno programado com imagem. O paciente é orientado a voltar imediatamente se aparecer febre, calafrio, vômitos incoercíveis ou dor que não cede com a medicação.
seguimento
A confirmação de que o cálculo saiu é por imagem, não pelo desaparecimento da dor. Recuperado o cálculo, encaminhá-lo para análise: a composição orienta a metafilaxia. Como se trata de primeiro episódio sem fatores de alto risco, a avaliação metabólica completa não é obrigatória — mas as medidas gerais (diurese de 2,5 a 3,0 L/dia, sal abaixo de 6 g/dia, proteína de 0,8 a 1,0 g/kg, cálcio dietético normal) valem para todo mundo.
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Agora feche você

Mulher de 61 anos, diabética, é levada ao pronto-socorro com dor lombar esquerda há 2 dias, febre de 38,9 °C e calafrios desde a noite anterior. PA 88 x 52 mmHg, FC 118 bpm, FR 26 irpm, temperatura axilar 38,9 °C. Está sonolenta, com tempo de enchimento capilar de 4 segundos. Urina tipo 1 com nitrito positivo, leucocitúria intensa e bacteriúria. Creatinina 2,3 mg/dL (basal 0,9 mg/dL), leucócitos 21.400/mm³, lactato 4,1 mmol/L. Tomografia sem contraste mostra cálculo de 12 mm impactado no ureter proximal esquerdo, com hidronefrose importante e densificação da gordura perirrenal.
achado
Pielonefrite obstrutiva calculosa com disfunção orgânica — hipotensão, lactato elevado, rebaixamento e lesão renal aguda. Foco infeccioso sob pressão dentro de uma via urinária obstruída.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever soro em volume alto para 'lavar' o cálculo Faz sentido intuitivo e é o que muita gente viu ser feito, mas a hidratação intravenosa com o único propósito de promover a passagem forçada do cálculo não tem respaldo na literatura e a recomendação brasileira é evitá-la (grau B, nível 1). Soro entra para corrigir hipovolemia, vômitos ou lesão renal pré-renal — hipóteses que o enunciado costuma não oferecer.
  2. 2Começar por morfina porque 'a dor é muito forte' A intensidade da dor não define a classe do analgésico; o mecanismo define. O AINH age sobre as prostaglandinas que produzem espasmo, edema e hiperpressão, e a diretriz brasileira o coloca acima do opioide com grau A, orientando minimizar opioides. O opioide entra quando o AINH está contraindicado — insuficiência renal, doença péptica grave, gestação — ou quando a dor persiste.
  3. 3Excluir cálculo porque a urina não tem sangue A hematúria falta em 10% a 30% dos pacientes com cólica confirmada, e a chance de encontrá-la cai com o tempo de evolução: 95% no primeiro dia, mas 65% a 68% no terceiro e quarto dias. Enunciado que descreve dor típica há três dias com urina sem hematúria está testando exatamente isso.
  4. 4Retirar o cálcio da dieta do formador de cálculo de oxalato de cálcio O raciocínio parece aritmético — menos cálcio na dieta, menos cálcio na pedra — e é o inverso do que acontece. O cálcio ingerido junto às refeições quela o oxalato no intestino; restringi-lo aumenta a absorção e a excreção de oxalato, piora a litíase e acelera a perda óssea. A recomendação brasileira de 2025 é de 1000 a 1200 mg/dia de cálcio alimentar. Suplemento de cálcio, tomado longe das refeições, é outra coisa: associa-se a aumento de até 20% no risco.
  5. 5Tratar o cálculo no mesmo tempo em que se drena o rim infectado É a armadilha mais grave do tema. Em obstrução com infecção, a conduta é drenagem urgente por duplo J ou nefrostomia, com antibiótico — e nada mais. Manipular o cálculo com ureteroscopia nesse cenário aumenta a pressão dentro do sistema coletor infectado e pode converter pielonefrite em choque séptico. A intervenção definitiva é eletiva, depois de tratada a infecção.
  6. 6Dar alta dizendo que o cálculo foi eliminado porque a dor passou Nem a resolução dos sintomas nem o relato do paciente de ter eliminado o cálculo são confirmatórios. O cálculo pode ter migrado e obstruído silenciosamente; rim obstruído sem dor perde função do mesmo jeito. A confirmação é por imagem de controle.
  7. 7Prescrever tansulosina para qualquer cálculo Abaixo de 5 mm até 80% dos cálculos passam sozinhos, e foi justamente uma população dessas — 75% dos cálculos menores que 5 mm — que produziu o grande estudo negativo de terapia expulsiva. O benefício demonstrado está no cálculo ureteral distal de 5 a 10 mm, por prazo definido de cerca de 30 dias, e não em prescrição indefinida.
  8. 8Alcalinizar a urina sem teto no cálculo de ácido úrico A dissolução exige urina alcalina, mas a meta é pH entre 6,5 e 7,0. Acima de 7,0, o terreno passa a favorecer precipitação de fosfato de cálcio e de estruvita — troca-se um tipo de cálculo por outro. Vale lembrar que o alopurinol na litíase úrica só funciona com a urina alcalinizada em conjunto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Cálculo ureteral distal de 5 mm, sem febre nem sinais de obstrução/infecção grave, tem alta chance de eliminação espontânea. A conduta inicial é conservadora: controle da dor (AINE/analgésicos), hidratação e terapia médica expulsiva (alfabloqueadores como tansulosina). Litotripsia/ureteroscopia são para falha da expulsão ou cálculos maiores. Ureterolitotomia aberta é excepcional. Nefrostomia e duplo J de urgência são indicados na obstrução com infecção (pionefrose/urossepse) ou rim único, ausentes aqui.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Três números resolvem a conduta: até 80% dos cálculos abaixo de 5 mm passam sozinhos; entre 5 e 10 mm no ureter distal entra tansulosina 0,4 mg/dia por cerca de 30 dias; acima de 10 mm é avaliação urológica. Analgesia é AINH primeiro (cetoprofeno 100 mg EV em 20 minutos), opioide minimizado, sem hidratação venosa para empurrar o cálculo. Febre com obstrução é drenagem urgente por duplo J ou nefrostomia, sem tocar no cálculo naquele tempo.

em 30 dias

Metafilaxia: diurese de 2,5 a 3,0 L/dia (30 mL/kg + 400 mL), sal abaixo de 6 g/dia, proteína de 0,8 a 1,0 g/kg de peso ideal, cálcio alimentar normal (1000–1200 mg/dia pela diretriz de 2025; 800 mg/dia pelo protocolo do HC-UFMG) — nunca dieta pobre em cálcio. Avaliação metabólica em recorrentes, múltiplos, rim único e formador único de alto risco, com duas urinas de 24 horas em dias não consecutivos, 3 a 8 semanas após a última eliminação. Cortes de ação: citrato abaixo de 320 mg/dia, cálcio acima de 250 mg (mulher) ou 300 mg (homem), ácido úrico acima de 750/800 mg. Tiazídico para hipercalciúria, citrato de potássio 20 a 60 mEq/dia para hipocitratúria, alopurinol 100 a 300 mg/dia com urina alcalinizada na litíase úrica (pH-alvo 6,5 a 7,0). Seguimento por imagem com radiografia e ultrassom por 2 a 5 anos conforme o tipo de cálculo; fragmento residual acima de 4 mm pede nova intervenção.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 45 anos chega ao pronto-socorro com dor lombar direita súbita e intensa, em cólica, irradiando para a região inguinal, acompanhada de náusea e um episódio de vômito. Não consegue ficar parado na maca. Nega febre. Conduza o atendimento: caracterize a dor, procure os sinais de alerta, defina a analgesia, decida qual exame de imagem pedir e estabeleça quem vai para casa e quem precisa do urologista. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Litíase urinária e cólica nefrética — Preparatório para provas | OsceLabs