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Cirurgia GeralUrologia

Escroto agudo: torção x epididimite

A prova quase nunca pergunta o diagnóstico — pergunta o que você faz com o relógio. O erro cobrado é pedir imagem quando a suspeita já basta para abrir o escroto.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 30 anos procura o pronto-socorro com dor escrotal esquerda de início súbito há 3 horas, intensa, associada a náuseas. Ao exame: testículo esquerdo elevado, horizontalizado e muito doloroso, com ausência do reflexo cremastérico do lado afetado. PA 130x80 mmHg, FC 98 bpm, afebril. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Escroto agudo é dor testicular de instalação recente, e o único desfecho que interessa é se o testículo fica ou sai. A prova sabe disso: a vinheta descreve um adolescente com dor há poucas horas, coloca o ultrassom com Doppler entre as alternativas e observa quem cede à tentação de confirmar antes de operar. O diagnóstico diferencial é curto — torção do cordão espermático, torção de apêndice testicular e epididimite ou orquite respondem pela imensa maioria dos casos —, e é justamente por ser curto que a questão se desloca do 'o que é' para o 'o que se faz agora'.

O número brasileiro que organiza o capítulo veio de uma série estadual do centro-oeste com 505 pacientes operados entre 2012 e 2018: o testículo foi salvo em 46,1% dos casos. Menos da metade. O atraso mediano até o primeiro atendimento foi de 8,7 horas, 31,7% receberam outro diagnóstico na primeira avaliação, e quem foi rotulado de epididimite levou 23,4 horas até a transferência, contra 2,8 horas de quem saiu com a hipótese certa. A epididimite não é o diagnóstico inocente que parece — é o rótulo com que se perde testículo no Brasil.

Duas frentes concentram quase tudo que se cobra. A primeira é o tempo e o que ele autoriza: quando explorar sem imagem, até quando ainda vale explorar de urgência, e o que se faz com o testículo já inviável. A segunda é a epididimite tratada como o que ela é na maior parte dos casos — uma infecção sexualmente transmissível, com esquema, testagem e parceria a convocar, e não um antibiótico genérico com retorno em uma semana.

03

O que muda decisão

Por que o relógio é o exame mais importante

A torção do cordão espermático estrangula primeiro o retorno venoso e só depois a chegada arterial. Isso explica a sequência clínica: o testículo incha e endurece antes de morrer, e explica também por que o Doppler pode enganar — nas primeiras horas ainda há fluxo arterial detectável num testículo que já está se perdendo por congestão.

A forma que interessa ao pronto-socorro é a torção intravaginal, típica do período puberal. Ela acontece porque faltam as aderências normais entre o testículo e a túnica vaginal: o testículo fica solto dentro da vaginal e gira como badalo de sino. Como é uma variação anatômica de quem nasceu assim, ela é bilateral por definição — e é por isso que o testículo contralateral se fixa na mesma cirurgia, mesmo sem nunca ter doído.

A outra forma, a extravaginal, é do recém-nascido: gira todo o conjunto, ainda durante o descenso testicular. Quando ocorre ainda no período pré-natal, o testículo já nasce atrofiado — é uma das causas de testículo ausente ao nascimento. O acesso cirúrgico da torção neonatal é inguinal, pela possibilidade de hérnia associada.

Sobre a janela: a literatura brasileira de urgência urológica situa em torno de seis horas o ponto a partir do qual crescem as chances de dano irreversível, primeiro da linhagem germinativa e depois da produção hormonal. A diretriz europeia de urologia pediátrica de 2026 usa a mesma janela crítica de quatro a seis horas, mas acrescenta o dado que muda conduta: torções incompletas, de 180 a 360 graus, podem não atrofiar mesmo entre 4 e 12 horas, enquanto acima de 24 horas com torção maior que 360 graus a atrofia é universal. A leitura prática é direta — até 24 horas de dor a exploração é urgente; acima disso ela deixa de ser corrida contra o relógio, mas continua indicada, para retirar o que não é mais viável e fixar o lado bom.

Corte coronal da bolsa escrotal comparando testículo normal, com cordão espermático retilíneo, e testículo em torção intravaginal, com cordão torcido em duas voltas, posição horizontal e situado mais alto.
Torção intravaginal: o testículo gira dentro da túnica vaginal como badalo de sino. O cordão torcido eleva e horizontaliza o testículo — os dois achados que a mão do examinador encontra antes de qualquer exame de imagem.

Quem torce, e quando

A dor testicular aguda responde por cerca de 0,5% dos atendimentos de urgência, mas concentra desfecho grave. Entre as causas de escroto agudo, a torção do cordão responde por 25% a 30% dos casos na infância e chega a 60% na adolescência — quanto mais perto da puberdade, maior a probabilidade a priori de que a dor seja torção.

A Sociedade Brasileira de Urologia situa o pico de incidência entre 12 e 25 anos, com dois outros momentos de risco: o período pré-natal e o neonatal. A série brasileira do centro-oeste confirma o alvo com idade mediana de 16,1 anos entre os operados. Torção em homem de 40 anos existe e é descrita — só é menos frequente, e o preço de descartá-la por idade é alto.

Duas armadilhas etárias importam. No recém-nascido a dor pode simplesmente não existir: o achado é uma massa escrotal endurecida, com pele arroxeada e sem reflexos, às vezes já presente ao nascimento. E no menino pré-púbere os sintomas costumam ser inespecíficos — dor abdominal, dor suprapúbica, náusea e vômito, sem queixa localizada. Criança com dor abdominal que não se explica precisa ter a bolsa escrotal examinada, e essa é a frase que a prova de pediatria e a de cirurgia cobram do mesmo jeito.

O exame que separa torção de epididimite

A instalação já separa boa parte: a torção começa de repente, sem gatilho, e a dor sobe rápido — muitas vezes acorda o paciente. Náusea e vômito acompanham. Febre é rara. A epididimite se instala em horas a dias, costuma vir com disúria, corrimento uretral ou sintomas urinários, e febre é frequente.

No exame, quatro achados carregam o peso. O testículo torcido está alto e retraído, muitas vezes em posição horizontal, e endurecido à palpação — pode-se palpar um nódulo no trajeto do cordão, que são os elementos torcidos. O reflexo cremastérico costuma estar abolido do lado da torção; quando presente, torna o diagnóstico praticamente improvável, com a ressalva de que em crianças pequenas ele pode ser fisiologicamente ausente ou difícil de pesquisar. O sinal de Prehn testa o alívio com a elevação do testículo: alivia na epididimite, não alivia na torção. Ele é sugestivo, não decisório — nenhuma conduta deveria depender só dele.

A torção de apêndice testicular é o terceiro personagem e tem cara própria. É mais comum dos 7 aos 12 anos, a dor é menos intensa e mais localizada, não há febre, e o achado é um nódulo doloroso restrito ao polo superior do testículo, às vezes com o clássico ponto azulado visível através da pele escrotal. O restante do testículo é indolor e o reflexo cremastérico está preservado. O tratamento é repouso e analgesia com anti-inflamatório; a exploração cirúrgica fica para quando o quadro é refratário ou quando não se consegue afastar torção do cordão — e nesse último caso ela deixa de ser opção e vira obrigação.

Um detalhe da bolsa escrotal com pele muito edemaciada: quando o edema impede um exame confiável, o exame não 'deu negativo'. Exame não confiável em quadro compatível conta a favor de explorar, não contra.

Doppler: quando ajuda e quando custa testículo

O ultrassom com Doppler de bolsa escrotal é bom exame. A diretriz europeia de 2026 registra sensibilidade entre 63,6% e 100% e especificidade entre 97% e 100% — o que significa que um exame alterado praticamente fecha o diagnóstico. O problema está no outro lado: no material analisado por essa mesma diretriz, 24% dos testículos comprovadamente torcidos apresentavam vascularização normal ou até aumentada ao exame. Um Doppler normal em quadro clínico convincente não desfaz a suspeita.

No Brasil há um segundo custo, e ele é de tempo, não de acurácia. Na série estadual do centro-oeste, entre os pacientes que chegaram com menos de três horas de dor e já com o diagnóstico correto de torção, o testículo foi salvo em 22,2% dos casos quando se pediu o Doppler, contra 54,2% quando não se pediu. O exame não danifica o testículo — o que danifica é o que ele arrasta atrás de si: fila, aparelho indisponível na madrugada, radiologista de plantão à distância, transferência.

É por isso que a Sociedade Brasileira de Urologia formula a orientação sem meio-termo: a cirurgia não deve ser adiada para a realização de exames de imagem, e na forte suspeita clínica opera-se imediatamente. A mesma série mostra que a estrutura pesa mais do que se imagina — entre os que chegaram com menos de seis horas de dor, o salvamento foi de 94,6% em serviço terciário, 76,3% em secundário e 61,5% em primário.

A regra operacional que fecha a seção: suspeita forte vai para a sala, não para a sala de exame. Doppler serve para a dúvida real — o menino pré-púbere com dor arrastada há três dias, febre e disúria, ou o quadro que não fecha com nada — e serve com uma condição: só se estiver disponível de imediato. Se pedir o exame significa esperar ou transferir, o exame virou atraso.

A cirurgia: o que se faz na sala

A distorção manual pode ser tentada enquanto a sala é preparada, e o alívio imediato da dor sugere que deu certo. A manobra clássica é girar o testículo como quem abre um livro, de medial para lateral, em incrementos de meia volta. Parte das torções gira no sentido oposto: se a dor piorar, o giro é o contrário. Nada disso substitui a cirurgia — mesmo com a distorção bem-sucedida o paciente vai ser operado, porque a variação anatômica que permitiu a torção continua lá.

Na exploração, expõe-se o cordão, desfaz-se a torção e observa-se a recuperação do testículo com repouso em soro morno por 10 a 30 minutos. Se a perfusão volta, preserva-se o testículo com pontos de fixação — orquidopexia. Se não volta, faz-se a orquiectomia. Nos dois desfechos fixa-se o testículo contralateral no mesmo tempo cirúrgico, porque a predisposição anatômica é bilateral.

Duas particularidades de acesso: na torção extravaginal do recém-nascido a via é inguinal, pela possibilidade de hérnia inguinal associada; e sempre que houver suspeita de tumor testicular — massa endurecida, evolução insidiosa, dor que não bate com o quadro — o acesso é inguinal com clampeamento precoce do cordão, nunca a via escrotal.

O que se documenta no prontuário importa mais nesse diagnóstico do que na média: hora de início da dor referida pelo paciente, hora do primeiro atendimento, hora da indicação cirúrgica e hora da incisão. Esses quatro horários são o que sustenta a decisão depois — e são exatamente os dados cuja ausência inviabiliza discutir por que o salvamento nacional está abaixo de 50%.

Epididimite e orquite: infecção sexualmente transmissível ou bacteriúria

A epididimite costuma evoluir para orquiepididimite e tem duas origens principais, que pedem antibióticos diferentes. Em homens mais jovens e sexualmente ativos, os agentes são Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae — é uma infecção sexualmente transmissível e se trata como tal. Em homens mais velhos, sobretudo com obstrução urinária por hiperplasia prostática ou após manipulação urológica, os agentes são bacilos gram-negativos entéricos, e o quadro é uma extensão de infecção urinária. Há ainda a epididimite congestiva após vasectomia, herniorrafia, orquidopexia ou trauma do cordão, que não é infecciosa.

Os esquemas do PCDT IST de 2022 são três, escolhidos pela etiologia provável: para clamídia e gonococo, ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única associada a doxiciclina 100 mg por via oral de 12 em 12 horas por 10 dias; para agentes entéricos, levofloxacino 500 mg por via oral uma vez ao dia por 10 dias; e quando as duas hipóteses coexistem, ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única associada a levofloxacino 500 mg uma vez ao dia por 10 dias. A esses acrescente-se o que resolve sintoma: repouso, elevação escrotal e anti-inflamatório.

Tratar epididimite de provável etiologia sexualmente transmissível apenas com o antibiótico é tratamento pela metade. O manejo completo inclui oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, e convocar as parcerias sexuais para avaliação e tratamento. Uma armadilha frequente de prova: quinolona isolada não é conduta adequada quando há risco de gonococo, porque a sensibilidade do gonococo às quinolonas caiu — é por isso que os esquemas de cobertura gonocócica se apoiam na ceftriaxona.

A orquite isolada é outra história: em criança, aparece durante quadro agudo de caxumba, e repouso com analgesia costuma resolver. Em crianças pequenas, epididimite bacteriana é incomum o suficiente para pedir investigação de malformação do trato urinário — estreitamento uretral, ureter ectópico, disfunção esfincteriana — e o exame de urina, que pode mostrar piúria, é o primeiro passo dessa investigação.

O resto da bolsa aguda

Trauma escrotal é mais comum em crianças e costuma se resolver com repouso e anti-inflamatório; o ultrassom define a extensão da lesão, e apenas hematoceles volumosas ou suspeita de rotura testicular exigem exploração.

Hérnia inguinal encarcerada entra no diferencial da bolsa aguda, sobretudo no primeiro ano de vida. Tenta-se a redução manual, se necessário com sedação; conseguida a redução, opera-se de forma eletiva 24 a 48 horas depois, quando o risco cirúrgico é menor. Sem redução, ou com suspeita de sofrimento do conteúdo encarcerado, a cirurgia é de urgência.

Púrpura de Henoch-Schönlein pode acometer o escroto com dor e edema, em criança geralmente abaixo de dez anos, acompanhada de púrpura em nádegas e membros inferiores, artralgia, dor abdominal e envolvimento renal — evolução autolimitada. O edema escrotal idiopático dá espessamento e hiperemia apenas da pele, sem acometer estruturas profundas, e regride sozinho.

Dois quadros insidiosos que aparecem disfarçados de agudo: varicocele que surge de forma abrupta e volumosa obriga a investigar a cavidade abdominal, para afastar massa que comprima a drenagem venosa; e tumor testicular, que raramente dói, mas pode se associar a torção e se apresentar como escroto agudo — em criança, o tumor de saco vitelino é o tipo mais comum.

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TWIST à beira do leito e a decisão sobre imagem

O TWIST — Testicular Workup for Ischemia and Suspected Torsion — é o escore mais usado para dizer, ainda no corredor, quanto vale a suspeita. São cinco achados de exame, sete pontos possíveis, nenhum exame complementar. Ele não dá diagnóstico e não deve ser usado isoladamente, conforme a diretriz europeia de urologia pediátrica de 2026: serve para decidir quem vai direto para a sala e quem ainda comporta um exame de imagem.

  1. 1Cronometrar: perguntar e registrar a hora exata em que a dor começou. É o dado que governa todo o resto da decisão.
  2. 2Examinar de pé e deitado: altura e eixo do testículo, consistência, nódulo no trajeto do cordão, reflexo cremastérico, sinal de Prehn, ponto azulado no polo superior.
  3. 3Somar o TWIST à beira do leito, antes de pedir qualquer coisa.
  4. 4TWIST de 5 a 7, ou suspeita clínica forte com exame não confiável: acionar centro cirúrgico e urologista. A imagem não entra no caminho.
  5. 5TWIST de 3 a 4 ou quadro genuinamente ambíguo: Doppler de bolsa escrotal, com uma condição — disponível de imediato. Se implica espera ou transferência, explorar.
  6. 6TWIST de 0 a 2 com febre, disúria, corrimento ou piúria: conduzir como epididimite ou orquite, com exame de urina e antibiótico conforme a etiologia provável.
  7. 7Enquanto se prepara a sala, tentar a distorção manual de medial para lateral; alívio imediato sugere sucesso e não cancela a cirurgia.
  8. 8Na exploração: desfazer a torção, aquecer e reavaliar por 10 a 30 minutos. Viável, orquidopexia; inviável, orquiectomia. Em qualquer desfecho, fixar o contralateral.

TWIST 0 a 2 — risco baixo

Testículo em altura e eixo normais, consistência preservada, reflexo cremastérico presente. Nessa faixa a sensibilidade do escore chega a 98%: é a faixa em que investigar epididimite, orquite ou torção de apêndice testicular faz sentido, e em que a imagem cabe sem culpa.

TWIST 3 a 4 — risco intermediário

Um ou dois achados presentes, quadro que não fecha para nenhum lado. É a única faixa em que o Doppler realmente muda conduta — e mesmo assim só se ele estiver disponível de imediato, sem espera nem transferência.

TWIST 5 a 7 — risco alto

Aumento de volume e endurecimento somados a testículo alto, cremastérico abolido ou vômito. Especificidade em torno de 97% nessa faixa: é o cenário em que a sala de cirurgia é o próximo destino e o pedido de imagem só consome tempo.

Achado de examePontos
Aumento de volume testicular2
Testículo endurecido à palpação2
Testículo alto ou retraído1
Reflexo cremastérico ausente1
Náusea ou vômito1
Total possível7

As três causas que a prova precisa ver separadas

Torção do cordão espermáticoTorção de apêndice testicularEpididimite / orquiepididimite
InstalaçãoSúbita, sem gatilho, dor intensa e progressivaGradual, dor moderadaHoras a dias, dor progressiva
Idade típicaPico de 12 a 25 anos; também neonatal e pré-natal7 a 12 anosAdolescentes e adultos
Febre e sintomas urináriosHabitualmente ausentesAusentesFrequentes: febre, disúria, corrimento
Náusea e vômitoFrequentesIncomunsIncomuns
Exame do testículoAlto, horizontalizado, endurecido; nódulo no cordãoNódulo doloroso só no polo superior, ponto azuladoEpidídimo espessado e doloroso, escroto quente
Reflexo cremastéricoAbolido; se presente, torna a torção improvávelPreservadoPreservado
Sinal de PrehnElevar não aliviaSem alívio consistenteElevar alivia
DopplerFluxo reduzido ou ausente; pode estar normal em parte dos casosTestículo e epidídimo com fluxo preservadoFluxo normal ou aumentado — exclui torção
CondutaExploração cirúrgica de urgênciaRepouso e anti-inflamatório; explorar se não afastar torçãoAntibiótico conforme etiologia, repouso e elevação escrotal

Epididimite: esquema empírico por etiologia provável (PCDT IST, Ministério da Saúde, 2022)

CenárioEsquemaDuração
Provável clamídia ou gonococo: homem jovem, sexualmente ativo, disúria ou corrimentoCeftriaxona 500 mg IM dose única + doxiciclina 100 mg VO 12/12h10 dias de doxiciclina
Prováveis agentes entéricos: homem mais velho, obstrução urinária ou manipulação urológica recenteLevofloxacino 500 mg VO 1x/dia10 dias
As duas hipóteses coexistemCeftriaxona 500 mg IM dose única + levofloxacino 500 mg VO 1x/dia10 dias de levofloxacino
Em todos os casosRepouso, elevação escrotal e anti-inflamatório; nas de etiologia sexualmente transmissível, testar HIV, sífilis e hepatites B e C e convocar as parcerias sexuais

Reflexo cremastérico presente torna a torção improvável, mas em crianças pequenas ele pode ser fisiologicamente ausente ou de difícil pesquisa — nessa faixa o achado perde força nos dois sentidos.

Menino pré-púbere com dor abdominal ou suprapúbica sem explicação precisa ter a bolsa escrotal examinada: os sintomas locais podem ser silenciosos justamente nessa faixa.

Escroto com edema intenso que impede um exame confiável não produz exame negativo. Quadro compatível com exame não confiável conta a favor de explorar.

No recém-nascido a torção é extravaginal e o acesso cirúrgico é inguinal, pela possibilidade de hérnia associada.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Pedir ultrassom com Doppler antes de indicar a exploração

Suspeita clínica forte dispensa a imagem

A cirurgia não deve ser adiada para a realização de exames de imagem como o ultrassom com Doppler; na forte suspeita clínica, opera-se imediatamente.

Sociedade Brasileira de Urologia, material da campanha Novembrinho Azul, 2024

O Doppler tem alta especificidade e falha em parte das torções

Sensibilidade de 63,6% a 100% e especificidade de 97% a 100%, mas 24% dos testículos comprovadamente torcidos apresentavam vascularização normal ou aumentada ao exame — o Doppler apoia a decisão e não a substitui.

EAU Guidelines on Paediatric Urology, edição 2026, capítulo Acute Scrotum

No serviço brasileiro o custo do exame é medido em testículo

Entre os que chegaram com menos de três horas de dor e diagnóstico correto de torção, o salvamento foi de 22,2% quando se pediu Doppler contra 54,2% quando não se pediu; o tempo mediano até a transferência subiu de 2,8 horas com hipótese correta para 23,4 horas quando a hipótese inicial foi epididimite.

Dias Filho AC et al., Int Braz J Urol, 2020;46(6), série estadual com 505 pacientes

Na prova

A causa da distância entre os documentos não é discordância sobre a acurácia do exame, e sim disponibilidade: onde o Doppler está no corredor e sai em minutos, ele custa pouco; onde exige aguardar plantão ou transferir o paciente, o exame vira atraso e o dado brasileiro mostra o tamanho do prejuízo. O recorte do avaliador aparece no cenário e nas alternativas. Vinheta em serviço sem urologista, hospital de interior, exame disponível só pela manhã ou necessidade de transferência puxa para o corpo brasileiro e para o tempo. Vinheta em centro terciário, com criança pré-púbere, dor arrastada de dias, febre e disúria, puxa para a probabilidade intermediária, em que a imagem tem papel. Alternativa que oferece cintilografia com tecnécio é sinalizador de questão antiga ou de distrator: o método existe e leva cerca de trinta minutos, o que já o exclui da urgência real.

A janela de tempo: a regra das seis horas contra o limite das vinte e quatro

Seis horas como divisor

Geralmente após seis horas do quadro agudo sem correção aumentam as chances de comprometimento irreversível, primeiro da linhagem germinativa e depois da produção hormonal.

Halmenschlager LHA et al., revisão brasileira de urgências urológicas depositada na BVS

Janela crítica de quatro a seis horas, exploração urgente até vinte e quatro

Torções incompletas de 180 a 360 graus podem não evoluir com atrofia mesmo entre 4 e 12 horas, enquanto acima de 24 horas com torção maior que 360 graus a atrofia ocorre em todos os casos; a exploração é urgente até 24 horas e semieletiva acima disso.

EAU Guidelines on Paediatric Urology, edição 2026

No Brasil a maioria chega fora da janela clássica

Atraso mediano de 8,7 horas até o primeiro atendimento, 59% acima de seis horas e salvamento global de 46,1%; entre os que chegaram com menos de seis horas, o salvamento foi de 94,6% em serviço terciário, 76,3% em secundário e 61,5% em primário.

Dias Filho AC et al., Int Braz J Urol, 2020;46(6)

Na prova

As seis horas descrevem quando o dano começa a se instalar, não quando a cirurgia deixa de ser indicada — são coisas diferentes, e a questão costuma explorar exatamente essa confusão. Vinheta com dor de dez a vinte horas está testando se o candidato sabe que ainda se explora de urgência; vinheta com dor de três a quatro horas está testando a corrida contra o relógio; vinheta acima de vinte e quatro horas está testando se o candidato sabe que a exploração continua indicada, agora para retirar o inviável e fixar o contralateral. Alternativa que propõe alta com analgésico e retorno ambulatorial em quadro compatível denuncia que a questão gira em torno da janela.

Dose de ceftriaxona na epididimite de provável etiologia sexualmente transmissível

Ceftriaxona 500 mg IM em dose única com doxiciclina

Ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única associada a doxiciclina 100 mg por via oral de 12 em 12 horas por 10 dias.

PCDT IST, Ministério da Saúde, 2022, conforme reproduzido pela teleconsultoria do TelessaúdeRS-UFRGS

Ceftriaxona 250 mg IM em dose única com doxiciclina

Ceftriaxona 250 mg intramuscular em dose única associada a doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 10 dias, ou ofloxacino como alternativa isolada.

Revisão brasileira de urgências urológicas depositada na BVS, com referências até 2008

Na prova

A distância entre os dois números é de data, não de conteúdo clínico: a dose de ceftriaxona para gonococo foi escalada mundialmente à medida que a sensibilidade do agente caiu, e o documento brasileiro atual acompanhou essa escalada. Material didático anterior a essa atualização ainda circula com 250 mg. Enunciado que cita o PCDT, o SUS, a unidade básica ou o Ministério da Saúde está ancorado no documento de 2022. Alternativa que oferece quinolona isolada em homem jovem com risco de gonococo revela que a questão gira em torno da cobertura antigonocócica, e não da dose.

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Caso resolvido

Adolescente de 15 anos chega ao pronto-socorro de um hospital municipal de pequeno porte às 3h da manhã com dor escrotal esquerda de início súbito, que o acordou por volta de 1h. Vomitou uma vez. Nega febre, disúria e corrimento. Sem atividade sexual referida. Ao exame: hemiescroto esquerdo aumentado, testículo esquerdo elevado, em posição horizontal e endurecido à palpação, muito doloroso; reflexo cremastérico ausente à esquerda e presente à direita; elevar o testículo não alivia a dor. O aparelho de ultrassom do serviço só funciona a partir das 7h, e o hospital de referência com urologista fica a duas horas de ambulância.
cronômetro
Dor iniciada por volta de 1h, atendimento às 3h — cerca de duas horas de isquemia. É a faixa em que o salvamento ainda é alto e em que qualquer hora perdida pesa.
TWIST
Aumento de volume, 2 pontos; testículo endurecido, 2 pontos; testículo alto, 1 ponto; reflexo cremastérico ausente, 1 ponto; vômito, 1 ponto. Total 7 — teto do escore, faixa de risco alto.
leitura do exame
Ausência de febre, disúria e corrimento afasta epididimite; posição horizontal, endurecimento e cremastérico abolido são o retrato da torção; Prehn sem alívio reforça, sem decidir sozinho.
decisão sobre imagem
Nenhum exame de imagem. Aguardar as 7h ou transferir para fazer Doppler custaria de quatro a mais horas de isquemia — exatamente a diferença entre 54,2% e 22,2% de salvamento na série brasileira.
conduta imediata
Analgesia, jejum, acionamento da equipe cirúrgica disponível e contato com o urologista de referência. Enquanto a sala é preparada, tentativa de distorção manual de medial para lateral; se a dor piorar, girar no sentido contrário.
cirurgia
Exploração escrotal: cordão torcido, distorção, repouso do testículo em soro morno por 10 a 30 minutos. Perfusão recuperada — orquidopexia do lado esquerdo e fixação do testículo direito no mesmo tempo cirúrgico.
o que se registra
Hora de início da dor, hora do atendimento, hora da indicação e hora da incisão. Sem esses quatro horários não se discute o desfecho depois.
07

Agora feche você

Homem de 24 anos, sexualmente ativo com parceria nova há três semanas, procura a unidade básica com dor escrotal direita que começou há dois dias e vem piorando devagar. Refere ardência ao urinar e notou secreção uretral clara pela manhã. Temperatura de 38,1 graus. Ao exame: hemiescroto direito quente e hiperemiado, epidídimo direito espessado e muito doloroso, testículo em posição e eixo normais, de consistência preservada; reflexo cremastérico presente bilateralmente; elevar o testículo alivia a dor. Exame de urina com piúria.
achado
Instalação em dois dias, febre, disúria e corrimento uretral, epidídimo espessado, testículo normal em posição e consistência, cremastérico presente e Prehn com alívio. TWIST igual a zero.
diagnóstico
Epididimite aguda de provável etiologia sexualmente transmissível — o conjunto afasta torção do cordão com margem confortável.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir Doppler antes de indicar a cirurgia num quadro que já fecha Atrai porque parece prudente e porque o exame é bom — especificidade de 97% a 100%. O que se esquece é o custo do tempo: na série brasileira, entre quem chegou com menos de três horas e diagnóstico correto, pedir Doppler derrubou o salvamento de 54,2% para 22,2%. Suspeita forte vai para a sala; o exame é para a dúvida real e só se estiver disponível de imediato.
  2. 2Descartar torção porque o Doppler mostrou fluxo Atrai porque a lógica do exame sugere que ausência de fluxo é o achado. Só que 24% dos testículos comprovadamente torcidos tinham vascularização normal ou aumentada ao Doppler. Exame normal em quadro clínico convincente não desfaz suspeita — ele apenas não confirmou.
  3. 3Achar que passadas seis horas não vale mais operar Atrai porque a regra das seis horas é decorada como prazo de validade da cirurgia. Ela descreve quando o dano começa a se instalar, não quando a indicação acaba: até 24 horas a exploração é urgente, e acima disso continua indicada para retirar o inviável e fixar o contralateral.
  4. 4Fixar só o lado que torceu Atrai porque o outro testículo está assintomático. A torção intravaginal decorre de uma variação anatômica de nascença — falta de aderência do testículo à túnica vaginal — e essa variação é bilateral. O contralateral se fixa no mesmo tempo cirúrgico, inclusive quando o lado doente foi retirado.
  5. 5Descartar torção pela idade Atrai porque o pico é dos 12 aos 25 anos e a idade mediana na série brasileira foi de 16,1 anos. Mas torção ocorre em qualquer idade, inclusive no recém-nascido, em quem a dor pode simplesmente não existir — o achado é massa escrotal endurecida com pele arroxeada.
  6. 6Tratar epididimite com quinolona isolada em homem jovem Atrai por hábito de tratar como infecção urinária. Em jovem sexualmente ativo os agentes são clamídia e gonococo, e a sensibilidade do gonococo às quinolonas caiu — por isso a cobertura se apoia na ceftriaxona. Levofloxacino isolado é o esquema do homem mais velho com obstrução urinária ou manipulação urológica.
  7. 7Encerrar a epididimite por IST no antibiótico Atrai porque o sintoma melhora e a consulta acaba. Falta o resto: testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, e convocação das parcerias sexuais. Sem isso, o paciente volta reinfectado e a cadeia de transmissão segue intacta.
  8. 8Não examinar a bolsa escrotal do menino com dor abdominal Atrai porque a criança pré-púbere localiza mal a dor e reclama de barriga, de dor suprapúbica, de enjoo. É justamente nessa faixa que a torção se apresenta sem queixa escrotal — e o exame que a encontra leva trinta segundos.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor escrotal súbita e intensa em jovem, com testículo elevado/horizontalizado e ABSÊNCIA do reflexo cremastérico, é torção testicular até prova em contrário — emergência cirúrgica. Orquiepididimite tem início mais insidioso, febre, sinal de Prehn positivo (alívio com elevação) e reflexo cremastérico preservado. Hidrocele é indolor e transiluminável. Hérnia encarcerada teria massa inguinal irredutível e sintomas obstrutivos. Varicocele é indolor, com 'saco de vermes' que piora em pé.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua de memória: as cinco linhas do TWIST com seus pontos e as três faixas de risco; os quatro achados que separam torção de epididimite (posição e consistência do testículo, reflexo cremastérico, sinal de Prehn, febre e sintomas urinários); e os três esquemas de epididimite do PCDT IST de 2022 com dose e duração. Depois responda em uma frase: em que situação exata o Doppler entra na decisão?

em 30 dias

Refaça as duas vinhetas do capítulo trocando um dado de cada vez e diga o que muda na conduta: o adolescente com dor há 20 horas em vez de 2; o mesmo adolescente com Doppler mostrando fluxo preservado; o homem de 24 anos com dor de início súbito há 3 horas em vez de arrastada há 2 dias; e um homem de 62 anos após ressecção transuretral de próstata com o mesmo quadro do jovem. Depois recite os números brasileiros: salvamento global, atraso mediano, proporção de diagnóstico inicial errado e o contraste 22,2% contra 54,2%.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Adolescente de 15 anos, trazido pela mãe à emergência de madrugada com dor escrotal esquerda súbita iniciada há duas horas, acompanhada de um episódio de vômito. Sem febre, sem disúria. Ao exame o testículo esquerdo está alto, horizontalizado e endurecido, com reflexo cremastérico ausente. O ultrassom do serviço só funciona pela manhã. Conduza o atendimento e decida o destino do paciente. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Escroto agudo: torção x epididimite — Preparatório para provas | OsceLabs