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Otoscopia e acuidade auditiva
Otoscopia e avaliação da acuidade auditiva
Tracionar a orelha do jeito certo, ver a membrana inteira — e dois diapasões que separam surdez de condução de surdez neurossensorial.
A cena
Criança de 3 anos, febre e choro há dois dias, puxando a orelha. O interno introduz o otoscópio puxando a orelha para cima e para trás, como aprendeu no adulto. Vê parede do conduto, não vê membrana, e escreve "otoscopia sem alterações".
No lactente e no pré-escolar o conduto é mais curto e angulado para outro lado: a tração é para baixo e para trás. Feita ao contrário, ela fecha o caminho em vez de abrir.
Otoscopia é a manobra em que a técnica e o achado se confundem: se o gesto está errado, não existe achado nenhum — existe uma parede de conduto e um registro que não corresponde a exame nenhum.
De onde vem o sinal
O conduto auditivo externo não é reto: ele descreve uma curva em S. Por isso, para enxergar a membrana timpânica é preciso retificá-lo tracionando o pavilhão. No adulto, a tração é para cima e para trás; na criança pequena, para baixo e para trás, porque a angulação do conduto é diferente antes da maturação do osso temporal. Essa é a diferença técnica mais importante do capítulo.
A membrana timpânica é translúcida e reflete a luz num ponto característico — o triângulo luminoso, na porção ântero-inferior. Ela funciona como uma janela para a orelha média: como é fina e semitransparente, alterações do outro lado dela aparecem. Líquido atrás dela muda a cor e apaga o triângulo luminoso; pressão negativa a retrai e faz o cabo do martelo parecer mais horizontal e proeminente; pus sob pressão a abaula.
A audição, por sua vez, depende de duas etapas em série: a condução do som pelo conduto e pela orelha média até a cóclea, e a transformação neurossensorial na cóclea e no nervo. Os testes com diapasão exploram justamente essa divisão, usando um truque: o som também chega à cóclea diretamente pelo osso do crânio, sem passar pelo caminho aéreo.
Daí a lógica dos dois testes. No RINNE, compara-se a condução aérea com a óssea no mesmo ouvido: normalmente a aérea é melhor, porque o aparelho de condução amplifica. Quando há bloqueio na condução, a óssea passa a ser melhor — o Rinne se inverte. No WEBER, o diapasão vai no vértice do crânio e o som se distribui para os dois lados: na perda condutiva o som lateraliza para o ouvido doente (porque o bloqueio impede que o ruído ambiente compita, e o ouvido fica mais receptivo à condução óssea), enquanto na perda neurossensorial ele lateraliza para o ouvido sadio, que é o que ainda ouve.

O que perguntar
A anamnese que dirige o exame do ouvido.
“Está ouvindo pior? De um lado só ou dos dois? Começou de repente?”
Perda súbita unilateral é urgência otológica — perda auditiva neurossensorial súbita tem janela terapêutica curta.
“Tem dor no ouvido? Piora quando puxa a orelha?”
Dor à tração do pavilhão sugere otite EXTERNA; dor profunda sem esse sinal sugere otite média.
“Saiu alguma secreção? Como era?”
Otorreia purulenta sugere perfuração ou otite externa; saída de líquido claro após trauma levanta fístula liquórica.
“Tem zumbido? Tontura de girar?”
Associação de perda auditiva, zumbido e vertigem aponta para acometimento de orelha interna.
“Usa cotonete ou coloca algo no ouvido?”
Causa comum de rolha de cerume impactada, de trauma de conduto e de otite externa.
“Teve resfriado recente, ou a criança tem tido infecções de repetição?”
Disfunção tubária pós-viral é o mecanismo mais comum de otite média com efusão.
“Trabalha ou trabalhou exposto a ruído alto? Usa fone em volume alto?”
Perda induzida por ruído é neurossensorial, bilateral e evitável — e raramente é perguntada.
Antes de encostar
- Escolher o espéculo
- Use o maior espéculo que entre confortavelmente. Espéculo pequeno demais reduz o campo e tenta compensar entrando fundo — que é o que dói.
- Apoiar a mão no rosto do paciente
- Apoie o dedo mínimo da mão que segura o otoscópio na face do paciente. Se ele se mexer, o aparelho acompanha o movimento em vez de machucar o conduto.
- Segurar o otoscópio como uma caneta
- Empunhadura invertida, com o cabo para cima, dá mais controle e permite o apoio da mão — especialmente importante em criança.
- Posicionar a criança
- No colo do acompanhante, de lado, com a cabeça apoiada no ombro dele e os braços contidos pelo abraço. Criança contida com carinho se examina em segundos; criança segura à força se examina mal.
- Examinar primeiro o lado assintomático
- Dá o padrão de normalidade daquele paciente e deixa o lado doloroso por último.
- Ter o diapasão certo
- Para os testes auditivos use o diapasão de 512 Hz. Frequências muito baixas são sentidas como vibração e não testam audição.
A técnica
Inspeção externa, otoscopia e depois os testes auditivos.
- 1
Inspeção do pavilhão e da região
Observe forma, implantação, lesões de pele, nódulos e cicatrizes. Palpe o mastoide e o trago, e trace a orelha procurando dor.
Erro comum: Ir direto ao otoscópio. Dor à tração do pavilhão é o dado que separa otite externa de média, e se perde se você não testar antes.
- 2
Tracionar o pavilhão corretamente
Adulto e criança maior: para CIMA e para TRÁS. Lactente e criança pequena: para BAIXO e para trás. A tração retifica a curva em S do conduto.
Erro comum: Usar a tração do adulto na criança pequena. Fecha o conduto e produz uma otoscopia que não viu nada.
- 3
Introduzir o otoscópio
Com a luz já acesa, introduza sob visão direta, devagar, apenas o necessário para ver a membrana. O terço interno do conduto é ósseo e muito sensível.
Erro comum: Introduzir fundo procurando ver melhor. Dói, sangra e o paciente não deixa mais examinar.
- 4
Avaliar o conduto
Observe cerume, descamação, edema, hiperemia, secreção e corpo estranho. Conduto edemaciado e doloroso é achado, não obstáculo.
Erro comum: Descrever apenas 'rolha de cerume' e encerrar. Se o cerume impede o exame e há queixa, ele precisa ser removido para completar a avaliação.
- 5
Examinar a membrana timpânica
Avalie de forma sistemática: cor, transparência, posição (normal, retraída ou abaulada), integridade, o triângulo luminoso e a visibilidade do cabo do martelo. Percorra os quatro quadrantes.
Erro comum: Olhar só o centro. Perfurações e retrações costumam ficar na periferia, principalmente na porção superior.
- 6
Avaliar a mobilidade, quando possível
Com otoscópio pneumático, insuflar leve ar e observar se a membrana se move. Mobilidade reduzida sugere líquido ou pressão negativa na orelha média — é o dado que mais acrescenta na suspeita de efusão.
Erro comum: Insuflar com força ou com perfuração presente. Doloroso e sem valor diagnóstico.
- 7
Triagem grosseira da audição
Ocluindo um ouvido, sussurre uma palavra a cerca de 60 cm, fora do campo visual, e peça para repetir. Teste cada lado separadamente.
Erro comum: Falar de frente, permitindo leitura labial — o paciente acerta sem ouvir.
- 8
Teste de Rinne
Diapasão vibrando na mastoide (condução óssea); quando o paciente parar de ouvir, leve-o à frente do conduto (condução aérea) e pergunte se voltou a ouvir. Normal: aérea maior que óssea, e ele volta a ouvir — Rinne positivo.
Erro comum: Encostar o diapasão no pavilhão em vez de mantê-lo próximo ao conduto, sem tocar.
- 9
Teste de Weber
Diapasão vibrando no vértice do crânio, na linha média. Pergunte em qual ouvido o som é mais alto, ou se é igual nos dois. Normal: som centrado, sem lateralização.
Erro comum: Perguntar 'ouve dos dois lados?' em vez de 'onde é mais alto?'. A pergunta errada produz resposta inútil.
- 10
Interpretar os dois juntos
Rinne e Weber só fazem sentido combinados: eles separam perda condutiva de neurossensorial e indicam o lado. Registre os dois sempre, mesmo quando normais.
Erro comum: Registrar só um dos testes. Isoladamente, nenhum dos dois define o tipo de perda.
Padrão esperado, alterações e registro
- Pavilhão sem lesões; ausência de dor à tração do pavilhão e à palpação do trago e do mastoide.
- Conduto pérvio, sem secreção ou edema.
- Membrana timpânica translúcida, acinzentada e brilhante, íntegra, com triângulo luminoso presente e cabo do martelo visível.
- Rinne positivo bilateral (condução aérea maior que a óssea) e Weber centrado.
- Exemplo de registro: condutos sem edema ou secreção; membranas visualizadas, íntegras, com marcos preservados; testes de Weber e Rinne descritos por lado e interpretados como triagem.
- Membrana abaulada, hiperemiada, com triângulo luminoso apagado e mobilidade reduzida
- Otite média aguda. O abaulamento é o achado de maior peso — hiperemia isolada pode ocorrer com o choro da criança e não basta para o diagnóstico.
- Membrana retraída, cabo do martelo horizontalizado e proeminente, com nível hidroaéreo ou bolhas
- Otite média com efusão / disfunção tubária. Costuma cursar com perda condutiva e sem sinais inflamatórios agudos.
- Dor intensa à tração do pavilhão, com conduto edemaciado e secreção
- Otite externa. A dor à tração é o sinal que a distingue da otite média.
- Perfuração da membrana timpânica
- Pode ser traumática ou pós-infecciosa. Contraindica insuflação e uso de gotas ototóxicas, e muda a orientação sobre entrada de água.
- Rinne negativo (óssea maior que aérea) com Weber lateralizando para o MESMO lado
- Perda CONDUTIVA naquele ouvido — cerume impactado, efusão, perfuração, otosclerose.
- Rinne positivo bilateral com Weber lateralizando para o lado OPOSTO ao da queixa
- Perda NEUROSSENSORIAL do lado da queixa — presbiacusia, ruído, ototoxicidade, doença de Ménière, neurinoma.
- Perda auditiva neurossensorial unilateral de instalação súbita
- Urgência otológica: a janela terapêutica é de dias, e o encaminhamento não deve esperar.
O que isso quer dizer
A otoscopia decide condutas frequentes na atenção primária, sobretudo em pediatria. Na otite média aguda, o achado de maior valor é o abaulamento da membrana — hiperemia isolada tem baixa especificidade, porque o choro e a febre por si só congestionam a membrana. Reconhecer isso evita antibiótico prescrito para membrana vermelha de criança chorando.
A mobilidade da membrana, avaliada com otoscopia pneumática, é o dado que mais acrescenta na suspeita de efusão em orelha média — McGee reúne evidência de que a redução da mobilidade tem bom desempenho para detectar líquido, superior à inspeção isolada. Na prática brasileira o otoscópio pneumático é pouco disponível, o que limita seu uso mas não muda o fato.
Sobre os diapasões: McGee registra que Rinne e Weber têm desempenho razoável para detectar perdas condutivas de magnitude relevante, e desempenho limitado para perdas pequenas — de modo que testes normais não afastam perda leve. Eles não substituem a audiometria; servem para classificar rapidamente o tipo de perda à beira do leito e orientar o encaminhamento.
Uma advertência que vale registrar: a triagem por sussurro depende muito da técnica — distância, intensidade e oclusão adequada do outro ouvido — e a leitura labial falseia o resultado com facilidade. Feita corretamente, é útil como rastreio; feita de frente para o paciente, não testa nada.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Membrana timpânica abaulada | Razão de verossimilhança positiva para otite média aguda na criança. É o achado isolado de maior peso do exame. | LR+ 51 (IC 95% 36–73) | Rothman R, Owens T, Simel DL. Does this child have acute otitis media? JAMA. 2003;290(12):1633-40. |
| Membrana timpânica opaca ou imóvel | Razão de verossimilhança positiva para otite média aguda. Repare que a imobilidade à otoscopia pneumática NÃO supera o abaulamento visto à inspeção — os três são fortes, e o abaulamento lidera. | LR+ 34 (IC 95% 28–42) para opacidade e LR+ 31 (IC 95% 26–37) para imobilidade | Rothman R, Owens T, Simel DL. Does this child have acute otitis media? JAMA. 2003;290(12):1633-40. |
| Teste de Rinne com diapasão de 512 Hz | Desempenho para perda auditiva condutiva. A variação enorme entre estudos é o próprio recado: serve para triagem, não substitui audiometria, e perdas pequenas passam despercebidas. | Sensibilidade de 16% a 87% e especificidade de 55% a 100% entre os estudos; o Rinne só vira alterado a partir de 13 a 40 dB de perda condutiva | Kelly EA, Li B, Adams ME. Diagnostic Accuracy of Tuning Fork Tests for Hearing Loss: A Systematic Review. Otolaryngol Head Neck Surg. 2018;159(2):220-30. |
Rinne e Weber: lendo os dois juntos
Nenhum dos dois define o tipo de perda sozinho. Combinados, resolvem.
| Situação | Rinne | Weber | Conclusão |
|---|---|---|---|
| Audição normal | Positivo bilateral (aérea > óssea) | Centrado | Sem perda detectável |
| Perda condutiva à direita | NEGATIVO à direita (óssea > aérea) | Lateraliza para a DIREITA | Bloqueio na condução do ouvido direito |
| Perda neurossensorial à direita | Positivo bilateral | Lateraliza para a ESQUERDA | Lesão coclear ou neural à direita |
- Regra prática: na perda CONDUTIVA o Weber vai PARA o ouvido doente; na NEUROSSENSORIAL ele foge do doente.
- Use diapasão de 512 Hz — frequências baixas são percebidas como vibração e não testam audição.
- Tração do pavilhão: adulto para CIMA e para trás; criança pequena para BAIXO e para trás.
Erros que custam o achado
- Usar a tração do adulto na criança
- É o erro mais comum da otoscopia pediátrica. Tracionar para cima em lactente fecha o conduto e produz um exame que não viu a membrana.
- Diagnosticar otite média por hiperemia isolada
- Criança que chora fica com a membrana vermelha. O achado que sustenta o diagnóstico é o abaulamento, com mobilidade reduzida.
- Não testar dor à tração antes do otoscópio
- É o sinal que separa otite externa de média, e ele desaparece assim que você introduz o aparelho e o paciente passa a doer de tudo.
- Introduzir o espéculo fundo demais
- O terço interno do conduto é ósseo e muito sensível. Dor, sangramento — e o paciente não permite mais examinar, nem hoje nem na próxima consulta.
- Registrar 'rolha de cerume' e encerrar
- Se há queixa auditiva ou dor, o cerume precisa ser removido para que exista exame. Cerume não é diagnóstico, é obstáculo.
- Olhar apenas o centro da membrana
- Perfurações e retrações concentram-se na periferia, sobretudo na porção superior. A varredura tem que ser dos quatro quadrantes.
- Perguntar errado no Weber
- A pergunta é "em qual lado o som está mais alto?" — e não "você ouve dos dois lados?". A segunda produz resposta que não informa nada.
- Falar de frente na triagem por sussurro
- A leitura labial faz o paciente acertar sem ouvir. Sussurre fora do campo visual e oclua o outro ouvido.
Roteiro da estação
O exame do ouvido na ordem esperada numa estação.
- 01Higienizar as mãos e explicar o procedimento
- 02Inspecionar pavilhão, região retroauricular e mastoide
- 03Palpar trago e mastoide e testar dor à tração do pavilhão
- 04Selecionar o maior espéculo confortável e apoiar a mão na face do paciente
- 05Tracionar o pavilhão conforme a idade: adulto para cima e para trás; criança pequena para baixo e para trás
- 06Introduzir o otoscópio sob visão direta, sem forçar
- 07Avaliar o conduto: cerume, edema, secreção, corpo estranho
- 08Avaliar a membrana: cor, transparência, posição, integridade, triângulo luminoso e cabo do martelo
- 09Percorrer os quatro quadrantes da membrana
- 10Avaliar mobilidade com otoscopia pneumática, quando disponível e sem perfuração
- 11Examinar o ouvido contralateral, deixando o sintomático por último
- 12Realizar triagem auditiva por sussurro, fora do campo visual
- 13Realizar Rinne e Weber com diapasão de 512 Hz
- 14Registrar os achados dos dois ouvidos e dos dois testes
Teste-se
Agora faça no paciente
Homem de 29 anos chega ao ambulatório e a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, faz quase três semanas que tive uma dor de ouvido muito forte e, desde que a dor passou, o ouvido esquerdo continua tapado, parece que eu escuto tudo de dentro de um poço." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
Como se traciona o pavilhão no adulto e na criança pequena, e por quê? Qual achado sustenta o diagnóstico de otite média aguda?
Paciente com Rinne negativo à esquerda e Weber lateralizando para a esquerda. Que tipo de perda é essa e cite duas causas possíveis.
