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Olhos: pupilas, motricidade e fundo de olho
Olhos: inspeção, pupilas, motricidade ocular e fundoscopia
O único lugar do corpo onde se vê artéria, veia e nervo diretamente — e a pupila, que denuncia o tronco encefálico.
A cena
Paciente de 58 anos internado após queda, sonolento. A enfermagem chama porque "ele está mais devagar". O plantonista chega, ilumina os olhos: a pupila direita está grande e não reage à luz; a esquerda, normal.
Anisocoria com rebaixamento de consciência é compressão do III nervo até prova em contrário — e o III nervo é comprimido quando o lobo temporal hernia. Isso significa neurocirurgia agora, não amanhã.
O exame que produziu essa informação levou dez segundos e usou uma lanterna. Os olhos são a região de maior densidade diagnóstica do corpo: neles se vê o único território do organismo onde artéria, veia e nervo aparecem diretamente à observação — e neles a pupila funciona como um mostrador do tronco encefálico.
De onde vem o sinal
O reflexo fotomotor tem uma via simples de guardar e que explica quase tudo o que se vê na prática. A luz entra por um olho, a informação sobe pelo nervo óptico (II) daquele olho, chega ao mesencéfalo e de lá partem fibras para os dois lados, que descem pelo nervo oculomotor (III) e contraem as duas pupilas. Por isso, iluminar um olho contrai os dois: o direto, no olho iluminado; o consensual, no outro.
Essa arquitetura permite localizar a lesão com uma lanterna. Se a via aferente (II) está lesada de um lado, iluminar aquele olho não contrai nenhum dos dois — mas iluminar o olho sadio contrai ambos, inclusive o doente, porque a via eferente dele está íntegra. É o defeito pupilar aferente relativo, o achado clássico da neuropatia óptica.
Se a via eferente (III) está lesada, aquela pupila não contrai de jeito nenhum — nem com luz direta, nem consensual — e costuma vir acompanhada de ptose e desvio do olho para fora e para baixo, porque o III inerva também a maior parte da musculatura extrínseca. As fibras parassimpáticas que contraem a pupila correm na periferia do nervo, o que explica por que a compressão externa, como na herniação, atinge a pupila precocemente.
A motricidade ocular se divide entre três nervos, e uma regra curta resolve: o VI leva o olho para fora (reto lateral), o IV faz o olho olhar para baixo quando está aduzido (oblíquo superior), e o III faz todo o resto. Daí os padrões: paralisia do VI causa estrabismo convergente e diplopia horizontal; paralisia do III causa ptose, midríase e olho desviado para fora e para baixo.
Por fim, a fundoscopia. A retina é a única janela para observar diretamente arteríolas, vênulas e a cabeça do nervo óptico. É onde a hipertensão e o diabetes deixam marcas visíveis, e onde a hipertensão intracraniana se manifesta como papiledema — as bordas do disco óptico que perdem a nitidez.

O que perguntar
A anamnese que dirige o exame ocular.
“Está enxergando bem? Notou alguma mudança na visão, e foi de repente ou aos poucos?”
Perda súbita é urgência oftalmológica ou vascular; perda gradual sugere catarata, glaucoma, retinopatia.
“Está vendo dobrado? Se tampar um olho, a visão dobrada some?”
Diplopia que desaparece ao ocluir um olho é binocular — problema de motricidade ocular, não do olho em si.
“Sente dor no olho? Dor de verdade, ou ardência e areia?”
Dor ocular verdadeira com olho vermelho é sinal de alarme (glaucoma agudo, uveíte, ceratite); ardência sugere quadro superficial.
“Está com o olho vermelho? Saiu alguma secreção?”
Secreção purulenta sugere bacteriana; aquosa, viral; associada a prurido, alérgica.
“Está vendo halos coloridos ao redor das luzes?”
Sugere edema de córnea — clássico no glaucoma agudo de ângulo fechado.
“Tem diabetes ou pressão alta? Há quanto tempo, e faz exame de fundo de olho?”
Define a indicação de fundoscopia de rastreio e a expectativa do que se vai encontrar.
“Usa lente de contato? Dormiu com ela?”
Muda completamente o risco: ceratite infecciosa em usuário de lente é emergência.
Antes de encostar
- Sala escurecida para a fundoscopia
- A pupila precisa estar o mais dilatada possível fisiologicamente. Sala clara fecha a pupila e torna o exame quase impossível sem colírio.
- Ponto de fixação distante
- Peça ao paciente para fixar um ponto na parede oposta e não desviar o olhar. Isso reduz a acomodação e a miose reflexa, e estabiliza o olho.
- Lanterna de foco pontual
- Para as pupilas, use luz focada trazida da periferia. Luz difusa jogada de frente ilumina os dois olhos ao mesmo tempo e impede avaliar o consensual.
- Qual olho, qual mão
- Na fundoscopia, examine o olho direito do paciente com seu olho direito, segurando o oftalmoscópio na mão direita — e o esquerdo com o esquerdo. Evita encostar os narizes e permite aproximar o suficiente.
- Não dilatar sem avaliar
- Colírio midriático é útil, mas dilatar a pupila em paciente neurológico apaga o parâmetro que a equipe usa para monitorar herniação. Em suspeita de glaucoma de ângulo fechado, também há risco.
- Avisar sobre o brilho
- A luz do oftalmoscópio incomoda. Avise, use a menor intensidade que permita ver e trabalhe rápido.
A técnica
Inspeção, pupilas, motricidade e fundo — nesta ordem, porque cada etapa condiciona a seguinte.
- 1
Inspeção externa
Observe pálpebras (ptose, edema, lesões), conjuntivas (hiperemia, palidez, secreção), esclera (icterícia), córnea (transparência) e posição dos globos (proptose, enoftalmia). Compare os lados.
Erro comum: Não everter ou afastar a pálpebra inferior para ver a conjuntiva palpebral — é onde a palidez e a hiperemia se avaliam melhor.
- 2
Acuidade visual grosseira
Teste cada olho separadamente, ocluindo o outro: conte dedos, peça para ler algo à distância confortável. É simples, rápido e frequentemente omitido.
Erro comum: Testar os dois olhos juntos. O olho bom compensa e a perda unilateral passa despercebida.
- 3
Pupilas: inspeção estática
Em luz ambiente, avalie tamanho, forma e simetria das duas pupilas. Anisocoria é diferença de diâmetro; registre qual é a maior e quanto.
Erro comum: Avaliar as pupilas sob luz forte. Elas ficam contraídas e a anisocoria pequena desaparece.
- 4
Reflexo fotomotor direto e consensual
Traga a luz da periferia para o eixo visual de um olho. Observe a contração daquele olho (direto) e, ao mesmo tempo, a do outro (consensual). Repita para o outro olho.
Erro comum: Iluminar de frente, o que atinge os dois olhos e impossibilita separar direto de consensual.
- 5
Teste da lanterna oscilante
Alterne a luz rapidamente de um olho para o outro, a cada dois ou três segundos. Se, ao chegar em um dos olhos, a pupila DILATAR em vez de contrair, há defeito pupilar aferente relativo — sinal de neuropatia óptica daquele lado.
Erro comum: Alternar devagar demais, permitindo readaptação, o que apaga o achado.
- 6
Motricidade ocular extrínseca
Peça para acompanhar seu dedo, sem mexer a cabeça, nas seis posições cardinais do olhar (padrão em H). Observe se os olhos se movem juntos e pergunte sobre visão dupla em cada posição.
Erro comum: Mover o dedo rápido ou perto demais do rosto, o que induz convergência e mascara o déficit.
- 7
Reflexo de acomodação e convergência
Peça para olhar um objeto distante e depois seu dedo aproximado a cerca de 10 cm. As pupilas devem contrair e os olhos convergir.
Erro comum: Pular esta etapa: a dissociação luz-perto (pupila que não reage à luz mas reage ao perto) é achado específico e só aparece aqui.
- 8
Fundoscopia — encontrar o vermelho
Sala escura, paciente fixando ponto distante. A cerca de 30 a 40 cm e 15 graus lateralmente, localize o reflexo vermelho. Aproxime-se seguindo o reflexo até quase encostar.
Erro comum: Aproximar-se de frente, pelo eixo visual: você chega na mácula, o paciente ofusca e fecha o olho antes de você achar o disco.
- 9
Fundoscopia — examinar o disco
Encontre um vaso e siga-o no sentido em que os ramos convergem: eles levam ao disco óptico. Avalie cor, nitidez das bordas e escavação central.
Erro comum: Procurar o disco varrendo aleatoriamente. Seguir os vasos é o método que sempre chega lá.
- 10
Fundoscopia — vasos, retina e mácula
Percorra os quatro quadrantes seguindo as arcadas vasculares, avaliando calibre e cruzamentos arteriovenosos, hemorragias e exsudatos. Por último, peça para o paciente olhar direto para a luz — isso traz a mácula, e é o mais desconfortável.
Erro comum: Começar pela mácula. O ofuscamento encerra o exame antes de você ver o resto.
Padrão esperado, alterações e registro
- Pupilas isocóricas, centradas, redondas, com reflexo fotomotor direto e consensual presentes e simétricos.
- Motricidade ocular preservada nas seis posições, sem diplopia; convergência e acomodação presentes.
- Fundoscopia: reflexo vermelho presente, disco óptico de bordas nítidas e coloração normal, relação arteríola-vênula em torno de 2:3, retina sem hemorragias ou exsudatos.
- Exemplo de registro: acuidade visual avaliada separadamente; pupilas isocóricas e fotorreagentes, motricidade preservada, sem diplopia ou nistagmo; fundoscopia limitada deve trazer o motivo.
- Anisocoria com pupila dilatada e arreativa, associada a rebaixamento de consciência
- Compressão do III nervo por herniação uncal até prova em contrário. As fibras parassimpáticas correm na periferia do nervo e são atingidas cedo. Emergência neurocirúrgica.
- Defeito pupilar aferente relativo (pupila dilata ao receber a luz no teste oscilante)
- Neuropatia óptica ou lesão extensa de retina daquele lado — a via aferente está comprometida.
- Ptose, midríase e olho desviado para fora e para baixo
- Paralisia completa do III nervo. Quando a pupila está envolvida, aumenta a preocupação com causa compressiva, como aneurisma.
- Estrabismo convergente com diplopia horizontal que piora ao olhar para o lado afetado
- Paralisia do VI nervo. Pode ser sinal de hipertensão intracraniana sem valor localizatório.
- Papiledema: bordas do disco óptico borradas, disco elevado, veias ingurgitadas
- Hipertensão intracraniana. É achado que muda a conduta imediatamente e contraindica punção lombar antes de imagem.
- Perda do reflexo vermelho
- Opacidade no eixo visual — catarata no adulto; em criança, exige investigação urgente por retinoblastoma.
- Olho vermelho com dor intensa, halos coloridos, pupila em midríase média e fixa
- Glaucoma agudo de ângulo fechado. Emergência oftalmológica; a dilatação farmacológica é contraindicada.
- Hemorragias em chama de vela, exsudatos algodonosos e cruzamentos arteriovenosos patológicos
- Retinopatia hipertensiva. Microaneurismas e exsudatos duros sugerem retinopatia diabética.
O que isso quer dizer
As pupilas são o parâmetro de exame físico que mais rapidamente comunica catástrofe neurológica. A anisocoria com rebaixamento de consciência é o exemplo maior: ela indica compressão do III nervo, mecanismo típico da herniação uncal, e transforma a avaliação numa emergência cirúrgica. Nenhum outro achado obtido com uma lanterna carrega essa urgência.
O teste da lanterna oscilante merece destaque porque é a única manobra de consultório capaz de demonstrar disfunção do nervo óptico de forma objetiva, sem depender do relato do paciente sobre a própria visão. McGee reúne evidência de que o defeito pupilar aferente relativo tem alto valor para neuropatia óptica, sendo um dos achados mais confiáveis do exame pupilar.
Na fundoscopia, é preciso honestidade sobre o desempenho: a concordância entre examinadores não especialistas é limitada, e a sensibilidade para achados sutis de retinopatia é baixa em mãos não treinadas — sobretudo sem dilatação. O papiledema, por outro lado, quando presente e visto por examinador experiente, é achado de peso que muda a conduta na hora. A conclusão prática é que fundoscopia normal feita por não especialista não afasta doença de retina, mas fundoscopia alterada é informação valiosa.
Um limite importante: a anisocoria isolada, sem outros achados e com reflexos preservados, é comum e frequentemente fisiológica — a anisocoria essencial ocorre em parcela relevante da população. O que transforma anisocoria em alarme é o contexto: rebaixamento de consciência, ptose, alteração de motricidade ou instalação aguda.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Defeito pupilar aferente relativo medido por pupilômetro portátil durante o teste da lanterna oscilante | Desempenho do APARELHO, não do exame de beira de leito: o estudo é uma validação de pupilômetro portátil e não reporta a acurácia do teste manual isolado. O que se pode levar para a prática é o limite físico do método — defeitos grandes se distinguem bem, pequenos não —, e não um número de sensibilidade para o seu exame. | Sensibilidade 80% e especificidade 92% para defeitos de 0,9 unidade log ou mais; defeitos de 0,3 a 0,6 unidade log não são distinguidos de forma confiável | Volpe NJ, Plotkin ES, Maguire MG, Hariprasad R, Galetta SL. Portable pupillography of the swinging flashlight test to detect afferent pupillary defects. Ophthalmology. 2000;107(10):1913-21. |
| Fundoscopia direta sem dilatação, por examinador não especialista | Desempenho para doença retiniana. Fundoscopia normal nessas condições não afasta retinopatia. | Concordância exata de 54,3% com a fotografia estereoscópica de referência para graduar retinopatia | Klein R, Klein BE, Neider MW, Hubbard LD, Meuer SM, Brothers RJ. Diabetic retinopathy as detected using ophthalmoscopy, a nonmydriatic camera and a standard fundus camera. Ophthalmology. 1985;92(4):485-91. |
Localizando a lesão pela pupila
O que acontece ao iluminar cada olho, e o que isso significa.
| Situação | Luz no olho doente | Luz no olho sadio | Localização |
|---|---|---|---|
| Normal | Ambas contraem | Ambas contraem | Vias íntegras |
| Lesão aferente (II) | Nenhuma contrai | Ambas contraem | Nervo óptico do olho doente |
| Lesão eferente (III) | Só a sadia contrai | Só a sadia contrai | Nervo oculomotor do olho doente |
- Na lesão aferente a pupila do olho doente CONTRAI quando se ilumina o outro olho — a via de saída dele está íntegra.
- Na lesão eferente a pupila do olho doente não contrai em nenhuma situação.
- Motricidade: VI leva o olho para FORA; IV olha para BAIXO com o olho aduzido; III faz o restante.
- Acuidade visual deve anteceder a dilatação sempre que a urgência e a condição clínica permitirem.
Erros que custam o achado
- Avaliar pupilas sob luz forte
- Em ambiente muito iluminado as pupilas já estão contraídas e a anisocoria discreta desaparece. Avalie em luz ambiente reduzida.
- Iluminar de frente
- Luz jogada no eixo visual atinge os dois olhos e impede separar reflexo direto de consensual. Traga a luz da periferia, um olho por vez.
- Testar acuidade com os dois olhos abertos
- O olho bom compensa e a perda unilateral — inclusive a grave — passa completamente despercebida.
- Dilatar a pupila em paciente neurológico
- O colírio apaga justamente o parâmetro que a equipe usa para monitorar herniação. Combine antes com quem acompanha o paciente.
- Começar a fundoscopia pela mácula
- É a região mais sensível à luz: o paciente ofusca, lacrimeja e fecha o olho. Deixe a mácula por último.
- Procurar o disco varrendo ao acaso
- Siga os vasos no sentido em que os ramos convergem — eles sempre levam ao disco. Varrer aleatoriamente desperdiça a tolerância do paciente.
- Concluir que a retina está normal
- Fundoscopia sem dilatação, feita por não especialista, tem baixa sensibilidade. O correto é registrar o que foi visto, não afirmar normalidade.
- Alarmar-se com anisocoria isolada
- Anisocoria essencial é comum e fisiológica. O que a torna preocupante é o contexto — rebaixamento, ptose, déficit de motricidade ou início agudo.
Roteiro da estação
O exame ocular completo na ordem esperada.
- 01Higienizar as mãos e explicar cada etapa antes de executá-la
- 02Inspecionar pálpebras, conjuntivas, esclera, córnea e posição dos globos
- 03Testar a acuidade visual grosseira de cada olho separadamente
- 04Avaliar tamanho, forma e simetria pupilar sob luz ambiente reduzida
- 05Pesquisar reflexo fotomotor direto e consensual, trazendo a luz da periferia
- 06Realizar o teste da lanterna oscilante para defeito pupilar aferente relativo
- 07Avaliar a motricidade ocular nas seis posições cardinais, perguntando sobre diplopia
- 08Testar convergência e acomodação
- 09Escurecer a sala e pedir fixação em ponto distante
- 10Localizar o reflexo vermelho a cerca de 30 a 40 cm e 15 graus lateralmente
- 11Aproximar-se seguindo o reflexo e localizar o disco óptico seguindo os vasos
- 12Avaliar disco, calibre vascular, cruzamentos e os quatro quadrantes
- 13Examinar a mácula por último
- 14Registrar os achados de forma descritiva
Teste-se
Agora faça no paciente
Mulher de 32 anos está na enfermaria e, à beira do leito, a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, essa dor de cabeça não passa de jeito nenhum, e minha vista escurece quando eu levanto." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
No teste da lanterna oscilante, o que significa a pupila DILATAR quando a luz chega nela? Onde está a lesão?
Paciente sonolento com pupila direita dilatada e arreativa. Qual é a hipótese, qual a estrutura comprimida e por que a pupila é atingida antes da motricidade?
