Fundamentos da Prática Clínica › Semiologia: exame segmentar
Tórax: inspeção e palpação
As duas primeiras etapas da sequência do tórax. Antes de percutir e auscultar, os olhos e as mãos já dizem onde procurar.
A cena
Homem de 34 anos, magro e alto, chega com dor torácica súbita à direita e falta de ar que começou enquanto ele assistia televisão. Antes do estetoscópio: o hemitórax direito mexe menos que o esquerdo. As mãos do examinador, apoiadas nas bases com os polegares soltos, mostram que só um polegar se afasta na inspiração. E ao pedir "trinta e três", o frêmito está abolido do lado que não expande. Inspeção e palpação já localizaram o problema e já sugeriram sua natureza — ar no espaço pleural — antes de qualquer som ser ouvido. É por isso que elas vêm primeiro.
De onde vem o sinal
A sequência do exame do tórax é inspeção → palpação → percussão → ausculta, e ela não é arbitrária: cada etapa restringe o campo da seguinte. A inspeção diz onde olhar, a palpação confirma e localiza, a percussão caracteriza o conteúdo e a ausculta detalha. Executada fora de ordem, a última etapa perde a orientação que as anteriores dariam. Esta é a mesma ordem que a plataforma cobra nas estações — vale gravá-la assim.
A expansibilidade traduz o quanto cada hemitórax se enche. Qualquer coisa que ocupe espaço pleural, colabe pulmão ou imobilize a parede reduz a expansão daquele lado. A técnica funciona porque a mão não mede a excursão em valor absoluto — ela compara os dois lados simultaneamente, e a assimetria é o achado.
O frêmito toracovocal tem uma física simples e muito útil. A voz gera vibração que percorre a árvore brônquica e chega à parede torácica. Meio sólido transmite vibração melhor que ar: por isso, pulmão consolidado — cheio de exsudato, como na pneumonia — aumenta o frêmito. Já ar ou líquido no espaço pleural interpõe uma camada que dissipa a vibração: por isso pneumotórax e derrame pleural diminuem ou abolem o frêmito.
Essa lógica de transmissão é a chave para juntar as peças depois. Consolidação e derrame podem parecer semelhantes na inspeção — ambos reduzem a expansão —, mas se separam no frêmito: aumentado na consolidação, abolido no derrame. E o frêmito é justamente o exame que a palpação entrega antes de a percussão e a ausculta entrarem.

O que perguntar
A anamnese que dirige o exame do tórax.
“Está com falta de ar? Começou de repente ou aos poucos?”
Súbita levanta pneumotórax e embolia; progressiva sugere derrame, pneumonia, insuficiência cardíaca.
“Dói para respirar fundo?”
Dor pleurítica aponta para acometimento de pleura — pneumonia, pneumotórax, embolia.
“Está tossindo? Sai secreção? De que cor?”
Caracteriza infecção e orienta a expectativa da ausculta.
“Teve febre?”
Contextualiza consolidação e derrame parapneumônico.
“Fuma? Há quanto tempo e quantos cigarros por dia?”
Define risco de DPOC, neoplasia e pneumotórax; calcule maços-ano.
“Trabalha ou trabalhou exposto a poeira, sílica, amianto?”
Pneumoconioses mudam a interpretação de qualquer achado torácico.
“Consegue deitar? Dorme com quantos travesseiros?”
Ortopneia orienta para causa cardíaca e muda a posição em que você vai examinar.
“Emagreceu? Tem suores noturnos ou tosse há mais de três semanas?”
Tuberculose é diagnóstico obrigatório no diferencial brasileiro de tosse crônica.
Antes de encostar
- Tórax exposto, com privacidade
- O exame exige exposição da parede torácica. Garanta porta fechada, use lençol para cobrir o que não está sendo examinado e explique cada etapa antes.
- Paciente sentado, se possível
- Sentado permite examinar frente e dorso e obter expansibilidade confiável. Em acamado, examine o dorso com auxílio para lateralizar.
- Mãos aquecidas
- Mão fria no tórax provoca contração da musculatura e respiração superficial — exatamente o que atrapalha avaliar expansão.
- Combinar a palavra do frêmito
- Peça "trinta e três" repetido em voz firme e constante. Voz fraca ou variável torna a comparação inútil.
- Comparar sempre em espelho
- Toda a avaliação torácica é comparativa: mesma altura, um lado e depois o outro. A assimetria é o achado, e ela só existe na comparação.
- Referências anatômicas
- Use as linhas (hemiclavicular, axilares, escapular) e os espaços intercostais para localizar e registrar. "Base direita" comunica melhor que "embaixo".
A técnica
Inspeção estática, inspeção dinâmica e depois a palpação — expansibilidade e frêmito.
- 1
Inspeção estática
Observe a forma do tórax, simetria, abaulamentos, retrações, cicatrizes, circulação colateral e deformidades de coluna. Note o diâmetro ântero-posterior comparado ao lateral.
Erro comum: Examinar só de frente. Perfil e dorso revelam cifose, escoliose e aumento do diâmetro ântero-posterior.
- 2
Inspeção dinâmica
Observe frequência, ritmo e amplitude respiratória; tipo respiratório; uso de musculatura acessória; tiragem intercostal, supraclavicular ou de fúrcula; e batimento de asa de nariz.
Erro comum: Não contar a frequência de fato. É o sinal vital mais precocemente alterado e o mais estimado no olho.
- 3
Avaliar a simetria dos movimentos
De pé, atrás do paciente sentado, observe se os dois hemitórax sobem juntos. Assimetria visível já localiza o lado do problema.
Erro comum: Observar por poucos segundos. Acompanhe vários ciclos — a assimetria discreta só aparece na repetição.
- 4
Palpação geral da parede
Palpe a parede procurando pontos dolorosos, crepitação (enfisema subcutâneo), massas e lesões. Reprodução da dor à palpação sugere origem em parede.
Erro comum: Pular esta etapa. A dor reproduzível à palpação é dado de alto valor no diferencial da dor torácica.
- 5
Expansibilidade — ápices
Posicione as mãos sobre os ombros, com os polegares próximos à coluna, na altura das primeiras costelas. Peça inspiração profunda e observe o afastamento simétrico dos polegares.
Erro comum: Fixar demais as mãos na pele. Deixe os polegares soltos, para que eles acompanhem o movimento e revelem a diferença.
- 6
Expansibilidade — bases
Mãos espalmadas nas bases posteriores, polegares paralelos à coluna, dedos abertos nas laterais. Peça inspiração profunda e compare o quanto cada polegar se afasta da linha média.
Erro comum: Comparar em alturas diferentes dos dois lados — a assimetria produzida é artefato.
- 7
Frêmito toracovocal — técnica
Use a borda ulnar ou a face palmar das mãos. Peça "trinta e três" repetido enquanto você desliza as mãos comparando pontos simétricos, de cima para baixo, na frente, nas laterais e no dorso.
Erro comum: Palpar um lado inteiro e depois o outro. A comparação tem que ser ponto a ponto, alternando os lados na mesma altura.
- 8
Frêmito — interpretar
Aumentado sugere consolidação (meio sólido transmite melhor). Diminuído ou abolido sugere ar ou líquido no espaço pleural, ou obstrução brônquica que impede a chegada da vibração.
Erro comum: Esquecer que o frêmito é normalmente mais intenso à direita no ápice e nas regiões próximas aos brônquios maiores.
- 9
Localizar e registrar
Use as linhas anatômicas e os espaços intercostais: "expansibilidade reduzida em base direita; frêmito abolido do terço médio para baixo à direita". Localização precisa é o que permite comparar na reavaliação.
Erro comum: Registrar 'MV diminuído à direita' sem dizer em que altura. O achado perde valor de seguimento.
- 10
Preparar a etapa seguinte
Termine a palpação sabendo onde percutir com atenção. Se a expansibilidade caiu e o frêmito sumiu na base direita, a percussão daquela região é a próxima pergunta a ser feita.
Erro comum: Percutir e auscultar aleatoriamente. As duas primeiras etapas existem justamente para dirigir as duas seguintes.
Padrão esperado, alterações e registro
- Tórax simétrico, sem abaulamentos, retrações ou circulação colateral; diâmetro ântero-posterior menor que o lateral.
- Eupneico, sem uso de musculatura acessória ou tiragem; movimentos respiratórios simétricos.
- Expansibilidade preservada e simétrica em ápices e bases.
- Frêmito toracovocal presente e simétrico, discretamente mais intenso à direita no ápice.
- Exemplo de registro: tórax simétrico, sem uso de musculatura acessória; expansibilidade preservada e frêmito toracovocal comparável bilateralmente.
- Expansibilidade reduzida unilateralmente com frêmito ABOLIDO
- Interposição de ar ou líquido no espaço pleural — pneumotórax ou derrame pleural. A percussão seguinte separa os dois: hipertimpanismo no ar, macicez no líquido.
- Expansibilidade reduzida com frêmito AUMENTADO
- Consolidação pulmonar — pneumonia. O meio sólido transmite melhor a vibração.
- Tórax em tonel (diâmetro ântero-posterior aumentado) com tiragem e uso de acessórios
- Sugere doença pulmonar obstrutiva crônica com hiperinsuflação.
- Crepitação à palpação da parede (enfisema subcutâneo)
- Ar no tecido subcutâneo — sugere pneumotórax, trauma ou barotrauma. Achado que muda a urgência.
- Dor torácica integralmente reproduzida pela palpação da parede
- Aponta para origem musculoesquelética ou costocondral e reduz a probabilidade de origem isquêmica — sem excluí-la em paciente de risco.
- Tiragem intercostal, supraclavicular e de fúrcula
- Esforço respiratório importante — sinal objetivo de gravidade, independente da saturação.
- Respiração paradoxal de um segmento da parede (afunda na inspiração)
- Tórax instável (flail chest) — segmento com fraturas múltiplas. Emergência no trauma.
- Assimetria de expansibilidade com desvio de traqueia para o lado oposto
- Sugere efeito de massa pleural — pneumotórax hipertensivo ou derrame volumoso. No hipertensivo, é emergência.
O que isso quer dizer
Inspeção e palpação são as etapas que localizam o problema e orientam as seguintes. Sua contribuição maior não está em fechar diagnóstico isoladamente, e sim em transformar a percussão e a ausculta em exames dirigidos.
O frêmito toracovocal tem um papel específico e insubstituível: ele separa, ainda na palpação, dois grandes grupos de alteração. Consolidação aumenta a transmissão; ar ou líquido pleural a diminuem. McGee reúne evidência de que o frêmito reduzido tem valor razoável para detectar derrame pleural, e que a combinação de achados do exame torácico — expansibilidade, frêmito, percussão e ausculta — tem desempenho bem superior ao de qualquer um deles isolado.
Sobre a assimetria de expansibilidade, o ponto importante é que ela é sensível para doença unilateral significativa, mas não distingue a natureza — pneumotórax, derrame e consolidação extensa produzem redução semelhante. É a etapa seguinte que caracteriza.
Um limite que merece registro: a concordância entre examinadores para achados sutis de palpação torácica é apenas moderada, e a técnica influencia muito o resultado — comparar alturas diferentes ou fixar demais as mãos produz assimetrias artificiais. Achados francos, como frêmito abolido em derrame volumoso, são bem mais confiáveis que diferenças discretas.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Achados isolados do exame do tórax (frêmito, percussão, ausculta) | Conclusão da revisão sistemática sobre pneumonia adquirida na comunidade. O exame do tórax orienta e prioriza; quem confirma é a imagem. | Nenhum item isolado da história ou do exame eleva a probabilidade o bastante para dispensar a radiografia de tórax | Metlay JP, Kapoor WN, Fine MJ. Does this patient have community-acquired pneumonia? Diagnosing pneumonia by history and physical examination. JAMA. 1997;278(17):1440-5. |
O que a palpação já separa
Com expansibilidade e frêmito, dois grupos de doença já se distinguem — antes de percutir.
| Situação | Expansibilidade | Frêmito | O que confirmar na percussão |
|---|---|---|---|
| Normal | Simétrica | Simétrico | Som claro pulmonar |
| Consolidação (pneumonia) | Reduzida do lado | AUMENTADO | Macicez ou submacicez |
| Derrame pleural | Reduzida do lado | Abolido | Macicez |
| Pneumotórax | Reduzida do lado | Abolido | Hipertimpanismo |
| Atelectasia por obstrução | Reduzida do lado | Reduzido | Macicez |
- Regra da transmissão: SÓLIDO transmite melhor (frêmito aumenta); AR e LÍQUIDO interpostos dissipam (frêmito cai).
- Sequência do tórax na plataforma: Inspeção → Palpação → Percussão → Ausculta.
Erros que custam o achado
- Auscultar antes de inspecionar e palpar
- Inverter a ordem tira da ausculta a orientação que as etapas anteriores dariam — e a ausculta passa a ser uma varredura às cegas.
- Comparar alturas diferentes
- Palpar um lado mais alto que o outro cria assimetria de frêmito e de expansibilidade que não existe. Ponto a ponto, sempre na mesma altura.
- Fixar as mãos na pele ao avaliar expansibilidade
- Se as mãos não deslizam, os polegares não se afastam e a manobra não mostra nada. Apoie sem prender.
- Aceitar voz fraca ou variável no frêmito
- A intensidade da vibração depende da voz. Voz sussurrada ou irregular torna a comparação inútil — peça "trinta e três" firme e constante.
- Examinar só a face anterior
- As bases pulmonares são melhor avaliadas pelo dorso. Derrame e consolidação basal passam despercebidos em exame só anterior.
- Não palpar a parede procurando dor
- Dor reproduzível à palpação é dado de alto valor no diferencial da dor torácica — e leva segundos.
- Esquecer a assimetria fisiológica do frêmito
- O frêmito é normalmente um pouco mais intenso à direita no ápice, pela proximidade com o brônquio principal. Não confunda com achado.
- Registrar sem localizar
- "Frêmito diminuído à direita" sem dizer a altura impede comparação futura. Use linhas anatômicas e espaços intercostais.
Roteiro da estação
As duas primeiras etapas do exame do tórax, na ordem cobrada.
- 01Higienizar as mãos e explicar o exame
- 02Garantir privacidade e expor o tórax adequadamente
- 03Posicionar o paciente sentado, quando possível
- 04Inspeção estática: forma, simetria, abaulamentos, retrações, cicatrizes, deformidades
- 05Inspeção dinâmica: frequência, ritmo, amplitude, tipo respiratório
- 06Avaliar uso de musculatura acessória, tiragem e batimento de asa de nariz
- 07Observar a simetria dos movimentos respiratórios por vários ciclos
- 08Palpar a parede torácica em busca de dor, crepitação e massas
- 09Avaliar expansibilidade dos ápices com polegares junto à coluna
- 10Avaliar expansibilidade das bases com mãos espalmadas e polegares paralelos à coluna
- 11Pesquisar frêmito toracovocal comparando pontos simétricos, de cima para baixo
- 12Avaliar face anterior, laterais e dorso
- 13Registrar os achados com localização anatômica precisa
Teste-se
Agora faça no paciente
Homem de 64 anos está na enfermaria e, à beira do leito, a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, tô sentindo uma canseira e o pulmão do lado direito parece pesado." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
Qual é a sequência do exame do tórax? Por que consolidação aumenta o frêmito e derrame o diminui?
Paciente com expansibilidade reduzida e frêmito abolido à direita. Quais são as duas hipóteses principais e qual etapa seguinte as separa?
