Fundamentos da Prática Clínica › Semiologia: sistemas específicos
Pares cranianos
Exame neurológico: pares cranianos
Doze nervos, uma sequência — e a regra da testa que separa periférico de central
A cena
A paciente chegou com a boca torta. O interno pede que ela sorria, confirma o desvio e escreve paralisia facial periférica. O preceptor pede que levante as sobrancelhas: ela levanta as duas simetricamente. A preservação da testa sugere padrão supranuclear e, em início agudo, torna obrigatória a avaliação para AVC. É uma pista de localização, não uma prova isolada; comprometimento da testa também não exclui AVC de tronco encefálico.
A diferença entre o encaminhamento para casa e a sala de emergência foi um movimento que leva dois segundos e que existe por causa de um detalhe anatômico: a metade superior da face recebe fibras corticobulbares dos dois hemisférios, e a inferior, só do lado oposto.
De onde vem o sinal
O exame dos pares cranianos parece uma lista de doze itens decorados, e é justamente essa impressão que faz o estudante executá-lo mal. Ele funciona melhor como um mapa: cada nervo tem um trajeto conhecido, e o padrão do que falha localiza a lesão ao longo desse trajeto. Testar sem saber o que cada resposta localiza é preencher formulário.
A regra mais útil de todo o capítulo é a da inervação da face. Os núcleos que comandam a metade superior da face recebem fibras dos dois hemisférios cerebrais; os que comandam a metade inferior recebem fibras apenas do hemisfério contralateral. A consequência é direta: uma lesão central compromete só a face inferior, porque a superior continua recebendo comando do outro lado — a testa é poupada. Uma lesão do próprio nervo facial, depois que ele sai do tronco, compromete a hemiface inteira, testa incluída.
Outro padrão anatômico que rende muito é o da terceira via. As fibras que fazem a pupila contrair viajam na periferia do terceiro nervo craniano, enquanto as que movem os músculos oculares viajam no centro. Compressão externa — um aneurisma, por exemplo — atinge a periferia primeiro e envolve a pupila. Já uma lesão isquêmica, que atinge o centro do nervo, costuma poupá-la. Por isso paralisia do terceiro nervo com pupila envolvida é situação de urgência: o padrão sugere compressão.
O nervo óptico se avalia por quatro perguntas independentes — acuidade, campo, reflexo pupilar aferente e fundo de olho — e cada uma pode estar alterada com as outras normais. O campo visual merece atenção especial porque o modo como quase todo mundo o testa, movendo os dedos nos quadrantes, tem desempenho medido e não é bom.
Vale um princípio geral para o exame neurológico inteiro: comparar sempre os dois lados e procurar padrões, não achados soltos. Um achado isolado costuma ser variação ou erro de técnica; um conjunto que respeita um território anatômico é doença.

O que perguntar
A queixa orienta quais nervos merecem exame detalhado, e a cronologia separa urgência de investigação ambulatorial.
“Quando exatamente começou? Foi de repente ou foi piorando?”
Instalação súbita de déficit focal é vascular até prova em contrário. A cronologia decide o ritmo de toda a conduta.
“Está enxergando dobrado? Melhora se o senhor tapa um olho?”
Diplopia que desaparece ao ocluir um olho é binocular e aponta desalinhamento ocular — terceiro, quarto ou sexto nervos.
“Perdeu visão de um olho só ou de um lado do campo dos dois olhos?”
Perda monocular localiza antes do quiasma; perda de um hemicampo nos dois olhos localiza depois dele. Uma pergunta separa retina e nervo óptico de via retroquiasmática.
“Consegue franzir a testa e fechar bem o olho desse lado?”
É a pergunta que separa paralisia facial central de periférica, e muda o destino do paciente.
“Está engasgando com líquidos? A voz mudou?”
Disfagia e disfonia apontam nono e décimo nervos, e trazem risco imediato de aspiração — muda a conduta antes de qualquer diagnóstico.
“Sente dormência em alguma parte do rosto?”
Localiza no trigêmeo e ajuda a definir qual dos três ramos está comprometido, o que orienta o nível da lesão.
“Teve dor de cabeça forte e súbita junto com isso?”
Cefaleia súbita com paralisia do terceiro nervo e pupila envolvida é padrão de aneurisma — emergência.
Antes de encostar
- Boa iluminação e uma sala silenciosa
- Acuidade, campo, pupilas e audição dependem de condições mínimas. Corredor movimentado e luz ruim inviabilizam metade do exame.
- Material simples ao alcance
- Lanterna, tabela de acuidade ou cartão de leitura, um alfinete de ponta romba, um chumaço de algodão, um abaixador de língua e um alvo vermelho pequeno. O alvo vermelho é o item que quase ninguém tem e que mais melhora o exame de campo.
- Paciente sentado, na sua altura
- Boa parte das manobras exige que os olhos do examinador estejam na altura dos do paciente, sobretudo o campo por confrontação, que usa o seu próprio campo como referência.
- Óculos de perto e de longe disponíveis
- Acuidade se mede com a correção que o paciente usa. Sem os óculos, o que se mede é a refração, não o nervo.
- Explicar antes de cada teste
- Vários testes exigem colaboração precisa — fixar o olhar, avisar quando vê o dedo, não seguir o alvo com os olhos. Instrução mal dada devolve resultado que parece déficit.
A técnica
Uma sequência fixa, do primeiro ao décimo segundo, sempre comparando os dois lados. A ordem evita esquecimento.
- 1
Olfatório: testar apenas quando houver motivo
Com os olhos fechados e uma narina ocluída, ofereça um odor conhecido e não irritante. Reserve para trauma craniano, suspeita de lesão de base do crânio e queixa de perda de olfato.
Erro comum: Usar substância irritante como álcool, que estimula terminações do trigêmeo e é percebida mesmo sem olfato.
- 2
Óptico: acuidade, campo, pupila aferente e fundo
Meça a acuidade de cada olho separadamente, com a correção habitual. Depois teste o campo, a resposta pupilar e faça a fundoscopia. São quatro perguntas independentes.
Erro comum: Testar a acuidade sem os óculos do paciente e registrar o resultado como déficit neurológico.
- 3
Campo visual por confrontação, com alvo vermelho
Sente-se de frente, na mesma altura, a cerca de um metro. Ocluindo o olho oposto de cada um, use um alvo vermelho pequeno movido lentamente da periferia para o centro, e complemente com o movimento dos dedos nos quadrantes. Combinar os dois testes é o que melhora a sensibilidade.
Erro comum: Testar apenas movendo os dedos. É o método mais usado e a evidência mostra que os testes isolados são insensíveis.
- 4
Pupilas: direto, consensual e lanterna oscilante
Avalie tamanho e simetria, o reflexo direto e o consensual, e faça o teste da lanterna oscilante procurando defeito aferente relativo. Registre também a acomodação quando pertinente.
Erro comum: Concluir defeito aferente a partir de diferença pequena. Mesmo com pupilômetro, defeitos pequenos não são distinguidos de forma confiável — a olho nu, menos ainda.
- 5
Oculomotor, troclear e abducente juntos
Peça que siga seu dedo em H, sem mover a cabeça, e observe ptose, desalinhamento e limitação. Pergunte em qual direção a diplopia piora — é isso que localiza o músculo e o nervo.
Erro comum: Não perguntar sobre diplopia durante o movimento. A limitação pode ser sutil e a queixa aparece antes do sinal visível.
- 6
Trigêmeo: sensibilidade dos três ramos e motricidade
Com algodão e ponta romba, teste a sensibilidade nos territórios oftálmico, maxilar e mandibular, comparando os lados. Palpe os masseteres com o paciente cerrando os dentes.
Erro comum: Testar apenas a bochecha. Sem os três territórios não se sabe qual ramo está comprometido.
- 7
Facial: e a pergunta da testa
Peça para levantar as sobrancelhas, fechar os olhos com força, mostrar os dentes e inflar as bochechas. A pergunta decisiva é se a testa se move: preservada aponta lesão central, comprometida aponta lesão periférica.
Erro comum: Avaliar só o sorriso. É o erro que confunde acidente vascular com paralisia de Bell e muda o destino do paciente.
- 8
Vestibulococlear: audição e equilíbrio
Faça o teste da voz sussurrada de cada lado e, havendo perda, os testes com diapasão. Diante de tontura rotatória, avalie nistagmo.
Erro comum: Testar os dois ouvidos ao mesmo tempo, o que permite que o lado bom compense.
- 9
Glossofaríngeo e vago
Observe a elevação simétrica do palato ao dizer a, a posição da úvula e a qualidade da voz. Avalie a deglutição e o risco de aspiração antes de oferecer líquidos.
Erro comum: Pesquisar o reflexo nauseoso rotineiramente. Ele é desconfortável, ausente em parte das pessoas saudáveis, e a avaliação funcional da deglutição informa mais.
- 10
Acessório: esternocleidomastóideo e trapézio
Peça que vire a cabeça contra a sua mão, testando o esternocleidomastóideo do lado oposto, e que eleve os ombros contra resistência.
Erro comum: Testar o esternocleidomastóideo do mesmo lado da rotação. O músculo que vira a cabeça é o contralateral.
- 11
Hipoglosso: língua
Observe a língua em repouso na boca, procurando atrofia e fasciculações, e depois protruída, observando o desvio. A língua desvia para o lado da lesão periférica.
Erro comum: Avaliar a língua apenas protruída. Atrofia e fasciculações se veem com ela em repouso, dentro da boca.
- 12
Sintetizar por padrão, não por lista
Ao final, pergunte-se se os achados desenham um território anatômico coerente — um nervo, um tronco, um hemisfério. É o padrão que localiza a lesão.
Erro comum: Registrar doze linhas de normalidade sem conclusão. A lista sem síntese não localiza nada.
Achados, limites e forma de registro
- Acuidade preservada com a correção habitual, campos visuais sem defeito à confrontação combinada.
- Pupilas isocóricas e fotorreagentes, sem defeito aferente relativo.
- Movimentos oculares completos nas seis direções, sem ptose e sem diplopia.
- Sensibilidade facial simétrica nos três territórios do trigêmeo e força mastigatória preservada.
- Mímica facial simétrica, incluindo elevação das sobrancelhas.
- Audição preservada bilateralmente, palato elevando simetricamente, úvula centrada, voz normal.
- Força preservada em esternocleidomastóideos e trapézios; língua centrada, sem atrofia ou fasciculações.
- Exemplo de registro: pares cranianos examinados por função e lado; acuidade, campos, pupilas, motricidade ocular, sensibilidade e motricidade facial, audição, palato, ombros e língua descritos sem converter um achado isolado em localização definitiva.
- Paralisia da hemiface com a testa preservada
- Lesão central. No adulto com instalação súbita, é acidente vascular cerebral até prova em contrário — e não paralisia de Bell.
- Paralisia da hemiface incluindo a testa, com dificuldade para fechar o olho
- Lesão do nervo facial após a saída do tronco. A impossibilidade de ocluir o olho traz risco de lesão de córnea e exige proteção ocular.
- Ptose e desvio ocular com pupila dilatada e pouco reagente
- Paralisia do terceiro nervo com envolvimento pupilar. O padrão sugere compressão externa, como aneurisma, e é emergência.
- Perda de campo em hemicampo correspondente nos dois olhos
- Lesão da via visual após o quiasma, do lado oposto ao campo perdido. Contrasta com a perda monocular, que localiza antes do quiasma.
- Defeito pupilar aferente relativo
- Indica lesão do nervo óptico ou da retina daquele lado. Defeitos grandes são identificáveis; pequenos escapam — inclusive com pupilômetro, que é onde essa limitação foi medida.
- Úvula desviada e palato que não eleva de um lado
- Comprometimento de nono e décimo nervos daquele lado. Avalie a deglutição antes de liberar dieta — o risco de aspiração é imediato.
- Língua que desvia para um lado ao ser protruída, com atrofia
- Lesão do hipoglosso do lado do desvio. A atrofia indica cronicidade e é vista melhor com a língua em repouso.
- Diplopia que desaparece ao ocluir qualquer um dos olhos
- Diplopia binocular, por desalinhamento ocular. Diplopia que persiste com um olho tapado é monocular e tem causa ocular, não neurológica.
O que isso quer dizer
O achado com melhor evidência deste capítulo é também o que mais contraria a prática corrente. Um estudo prospectivo avaliou 301 olhos de 163 pacientes com sete testes diferentes de campo visual por confrontação, executados por dois examinadores mascarados entre si e mascarados quanto ao resultado da perimetria automatizada, que serviu de referência.
O resultado: a maioria dos testes de confrontação foi insensível para identificar perda de campo. O melhor teste isolado foi o cinético com alvo vermelho, com sensibilidade de 74,4% e especificidade de 93,0%. Quando esse teste foi combinado com o estático de movimentação dos dedos, o desempenho subiu para sensibilidade de 78,3%, mantendo especificidade de 90,1%. Os autores concluíram que os testes de confrontação, executados isoladamente, são insensíveis e portanto maus testes de rastreamento — mas que combiná-los é um jeito simples e prático de melhorar a sensibilidade.
A consequência prática é direta e fácil de aplicar. O método que quase todo mundo usa — mover os dedos nos quadrantes — é justamente o tipo de teste isolado que o estudo mostra ser insensível. Acrescentar um alvo vermelho pequeno, movido lentamente da periferia para o centro, custa um item de bolso e melhora substancialmente o exame. E, mesmo com a combinação, campo normal à confrontação não afasta defeito: em paciente com queixa visual ou suspeita de lesão da via óptica, a perimetria continua indicada.
Repare também na especificidade em torno de 90%: no estudo, cerca de um em cada dez pacientes sem defeito teve resultado positivo. Isso não fornece sozinho a probabilidade de doença após o teste, que depende da probabilidade pré-teste. Um defeito claro à confrontação reforça a suspeita e deve ser correlacionado com o restante do exame e, quando indicado, com perimetria; um campo normal não afasta defeito.
Sobre a fraqueza facial, a anatomia orienta, mas não funciona como regra sem exceções. A metade superior da face recebe inervação corticobulbar predominantemente bilateral; assim, lesões supranucleares hemisféricas costumam poupar a testa, enquanto lesões nucleares ou do nervo facial tendem a acometê-la. O padrão precisa ser integrado ao início e aos demais déficits, porque lesões de tronco encefálico podem comprometer a hemiface inteira. Levantar as sobrancelhas reduz o risco de confundir AVC com paralisia de Bell, mas não substitui o exame neurológico nem confirma etiologia.
Vale ainda um lembrete de calibração sobre o defeito pupilar aferente relativo, tratado no capítulo de olhos — e ele exige uma ressalva sobre a origem do número. O estudo mais citado nesse tema é uma validação de pupilômetro portátil: com o aparelho, defeitos de 0,9 unidade log ou mais foram distinguidos com sensibilidade de 80% e especificidade de 92%, e defeitos de 0,3 a 0,6 não foram distinguidos de forma confiável. Esses números descrevem o instrumento, não o seu olho. O que se transporta para a beira do leito é o limite do método — defeito grande aparece, defeito pequeno escapa —, e a prudência de não converter isso numa sensibilidade do exame manual.
O exame por função localiza uma rede, não apenas um número de nervo. Preservação da musculatura frontal pode sugerir padrão supranuclear na fraqueza facial, mas não confirma mecanismo ou etiologia; tempo de início, demais déficits e contexto definem a urgência.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Teste de campo visual por confrontação cinético com alvo vermelho | Melhor teste isolado entre sete testes de confrontação, contra perimetria automatizada, em 301 olhos de 163 pacientes com dois examinadores mascarados. | Sensibilidade 74,4% e especificidade 93,0% | Kerr NM, Chew SSL, Eady EK, Gamble GD, Danesh-Meyer HV. Diagnostic accuracy of confrontation visual field tests. Neurology. 2010;74(15):1184-90. |
| Combinação do teste cinético com alvo vermelho e do teste estático de movimentação dos dedos | Desempenho da combinação contra perimetria automatizada. Os autores concluíram que os testes de confrontação isolados são insensíveis e maus para rastreamento, e que combiná-los é forma simples de melhorar a sensibilidade. | Sensibilidade 78,3% e especificidade 90,1% | Kerr NM, Chew SSL, Eady EK, Gamble GD, Danesh-Meyer HV. Diagnostic accuracy of confrontation visual field tests. Neurology. 2010;74(15):1184-90. |
| Defeito pupilar aferente relativo medido por pupilômetro portátil durante o teste da lanterna oscilante | Desempenho do APARELHO, não do exame de beira de leito — o estudo valida um pupilômetro portátil. A acurácia do teste manual isolado não é reportada. Fica valendo o limite do método: defeito grande se distingue, defeito pequeno não. | Sensibilidade 80% e especificidade 92% para defeitos de 0,9 unidade log ou mais; defeitos de 0,3 a 0,6 unidade log não são distinguidos de forma confiável | Volpe NJ, Plotkin ES, Maguire MG, Hariprasad R, Galetta SL. Portable pupillography of the swinging flashlight test to detect afferent pupillary defects. Ophthalmology. 2000;107(10):1913-21. |
Padrões que localizam
O exame dos pares cranianos vale pelo padrão. Estas combinações localizam a lesão sem exame de imagem.
| Achado | Localiza | Por quê |
|---|---|---|
| Hemiface paralisada com testa preservada | Central, hemisfério contralateral | A face superior tem inervação cortical bilateral |
| Hemiface paralisada incluindo a testa | Nervo facial, após sair do tronco | Depois do núcleo não há mais suplência do outro lado |
| Terceiro nervo com pupila envolvida | Compressão externa — urgência | As fibras pupilares correm na periferia do nervo |
| Terceiro nervo poupando a pupila | Mais compatível com causa isquêmica | A isquemia atinge o centro do nervo |
| Perda visual monocular | Antes do quiasma: retina ou nervo óptico | Antes do cruzamento cada nervo carrega um olho |
| Perda de hemicampo nos dois olhos | Depois do quiasma, lado oposto ao campo perdido | Depois do cruzamento cada via carrega um hemicampo |
| Úvula desviada e palato assimétrico | Nono e décimo nervos | Risco imediato de aspiração |
| Língua desvia ao protruir | Hipoglosso do lado do desvio | O músculo fraco não empurra e o lado normal vence |
- Achado isolado costuma ser variação ou erro de técnica. Conjunto que respeita um território anatômico é doença.
- Campo normal à confrontação não afasta defeito: mesmo combinando testes, a sensibilidade fica em torno de 78%.
Erros que custam o achado
- Avaliar o facial só pelo sorriso
- Sem pedir que levante as sobrancelhas, não se distingue lesão central de periférica — e é essa distinção que separa acidente vascular de paralisia de Bell. Dois segundos de manobra decidem o destino do paciente.
- Testar campo visual só com movimento de dedos
- É o método mais usado e cai exatamente na categoria que a evidência mostra ser insensível. Acrescentar um alvo vermelho pequeno em movimento cinético eleva bastante a sensibilidade.
- Tratar campo normal à confrontação como ausência de defeito
- Mesmo combinando dois testes, a sensibilidade fica em torno de 78%. Em paciente com queixa visual ou suspeita de lesão da via óptica, a perimetria continua indicada.
- Medir acuidade sem os óculos do paciente
- O que se mede assim é erro de refração, não função do nervo óptico. Acuidade se afere sempre com a correção habitual.
- Usar álcool para testar olfato
- Substâncias irritantes estimulam terminações do trigêmeo e são percebidas mesmo sem olfato, devolvendo resultado falsamente normal. Use odores conhecidos e não irritantes.
- Pesquisar reflexo nauseoso de rotina
- É desconfortável e está ausente em parte das pessoas saudáveis. A avaliação funcional da deglutição informa mais e tem consequência prática imediata sobre o risco de aspiração.
- Testar o esternocleidomastóideo do lado errado
- O músculo que roda a cabeça para um lado é o do lado oposto. Testar o do mesmo lado da rotação avalia o músculo errado.
- Ver a língua apenas protruída
- Atrofia e fasciculações aparecem com a língua em repouso dentro da boca. Protruída e tensa, elas se escondem.
- Registrar doze linhas sem conclusão
- O exame vale pelo padrão. Uma lista de normalidades sem síntese não localiza nada e não ajuda quem lê o prontuário depois.
Roteiro da estação
Sequência do primeiro ao décimo segundo par, sempre comparando os lados.
- 01Higienizar as mãos, explicar o exame e sentar-se na altura do paciente
- 02Olfato, apenas quando houver indicação, com odor não irritante
- 03Acuidade visual de cada olho com a correção habitual
- 04Campo visual por confrontação: alvo vermelho cinético mais movimento de dedos
- 05Pupilas: tamanho, simetria, reflexo direto, consensual e lanterna oscilante
- 06Fundoscopia
- 07Movimentos oculares em H, procurando ptose, limitação e perguntando por diplopia
- 08Sensibilidade facial nos três territórios do trigêmeo e palpação dos masseteres
- 09Mímica facial: sobrancelhas, oclusão ocular forçada, dentes e bochechas
- 10Audição: voz sussurrada de cada lado, com o outro ouvido ocluído
- 11Palato, úvula, voz e avaliação funcional da deglutição
- 12Esternocleidomastóideo e trapézio contra resistência
- 13Língua em repouso e protruída
- 14Sintetizar: os achados desenham um território anatômico coerente?
Teste-se
Agora faça no paciente
Mulher de 34 anos chega ao ambulatório e a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, acordei hoje com o lado esquerdo do rosto caído e não consigo fechar o olho." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
Por que a lesão central poupa a testa e a periférica não? Qual a diferença de significado entre paralisia do terceiro nervo com e sem envolvimento da pupila?
O melhor teste isolado de campo por confrontação tem sensibilidade 74,4% e a combinação de dois testes chega a 78,3%, com especificidade em torno de 90%. Como isso deve mudar a forma como você testa o campo e como você interpreta um campo normal?
