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Angina estável e doença coronariana crônica
O capítulo do ambulatório: caracterizar a dor até que ela se classifique sozinha, estimar a probabilidade antes de pedir o exame, separar o que alivia do que protege — e reconhecer o dia em que a angina estável deixou de ser estável.
Cesar LAM, Gowdak LHW, Pavanello R, Ferreira JFM, et al. Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619. DOI: 10.36660/abc.20250619.
Cesar LA, Ferreira JF, Armaganijan D, Gowdak LH, et al. Diretriz de Doença Coronária Estável. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq Bras Cardiol. 2014;103(2Supl.2):1-59. DOI: 10.5935/abc.2014S004.
de Barros e Silva PGM, Soeiro AM, Ornelas CE, et al. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025. Sociedade Brasileira de Cardiologia e Federación Latinoamericana de Medicina de Emergencias. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620. DOI: 10.36660/abc.20250620.
Rached FH, et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Bula profissional do Isordil (dinitrato de isossorbida), EMS Sigma Pharma Ltda. — comprimido de 10 mg e comprimido sublingual de 5 mg.
Bulas profissionais de cloridrato de propranolol (comprimido de 40 mg), atenolol (comprimidos de 25, 50 e 100 mg) e besilato de anlodipino (comprimidos de 5 e 10 mg), Prati-Donaduzzi; e de cloridrato de verapamil (comprimidos revestidos de 80 mg e de 120 mg de liberação prolongada), Sandoz.
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Homem de 58 anos relata desconforto em aperto no meio do peito, que aparece quando ele caminha rápido no trabalho e cede em cerca de cinco minutos assim que ele para. Não irradia, não muda com a respiração nem com a posição. Segundo a classificação em três critérios usada pela Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica de 2025, como se classifica essa dor?
O paciente que você vai ver
A pasta chega antes do paciente. É uma pasta de plástico transparente, dessas de papelaria, com um elástico atravessado, e dentro dela há duas fichas de pronto-socorro, um eletrocardiograma dobrado ao meio, um resultado de troponina e um encaminhamento escrito à mão que diz apenas: avaliar dor torácica. A residente empurra a pasta na sua direção antes de sair para a sala ao lado e diz que é retorno, que o senhor está esperando desde as oito, e que ela volta em vinte minutos.
Waldemiro Bertelli tem 61 anos, 78 quilos, e opera empilhadeira num galpão de distribuição de bebidas. Ele entra andando, senta sem se apoiar nos braços da cadeira e começa pedindo desculpa por estar tomando o seu tempo. A queixa dele, quando finalmente sai, sai desculpando-se de novo: faz uns cinco meses que ele sente um peso no peito quando sobe a rampa de carga do galpão empurrando o carrinho. Para em cima, espera, passa. Desce de novo, empurra de novo, volta. Ele diz que não é nada, que já foi duas vezes ao pronto-socorro e nas duas mandaram ele para casa.
As duas fichas confirmam. Na primeira, de março, está escrito eletrocardiograma sem alterações agudas e troponina normal; hipótese de dor musculoesquelética; prescrito relaxante muscular e anti-inflamatório por cinco dias. Na segunda, de junho, quase a mesma frase, e a mesma alta. As duas estão clinicamente corretas. Nenhuma das duas está errada. E nenhuma das duas respondeu à pergunta que ele veio fazer, porque não era a pergunta do pronto-socorro.
O pronto-socorro pergunta se este paciente vai morrer nas próximas horas. Waldemiro não ia. Foi para casa duas vezes e voltou andando as duas vezes, e isso é exatamente o que se esperava. O ambulatório pergunta outra coisa: se este peito que dói há cinco meses tem uma coronária estreitada por trás, quanto essa coronária vai custar de vida e de capacidade nos próximos dez anos, e o que se faz hoje para mudar esse número. É uma pergunta lenta, e é a sua.
É aqui que o interno erra, e erra em duas direções opostas, com a mesma sinceridade. De um lado, o que ouve dor torácica e vê um homem de 61 anos com sobrepeso e sobe o volume: encaminha à emergência, pede troponina de novo, interna para investigar. Enche o pronto-socorro com uma doença que não tem pressa, e enche o paciente de exames que não decidem nada. De outro lado, o que já viu a ficha, já leu dor muscular duas vezes, e repete a terceira. Escreve a mesma prescrição de anti-inflamatório e devolve o homem para a rampa.
Entre os dois há um caminho que não é caro nem heroico, e que este capítulo percorre. Ele começa numa anamnese de três perguntas que classifica a dor sozinha, passa por uma estimativa de probabilidade feita de cabeça antes de qualquer pedido, e termina numa receita em que metade dos medicamentos não alivia sintoma nenhum e é justamente essa metade que muda o desfecho. No meio do caminho, uma pergunta que você vai fazer em toda consulta e que não aparece em nenhum exame: mudou alguma coisa desde a última vez?
Quem adoece disso
A angina é o sintoma de estreia em cerca de metade das pessoas que têm síndrome coronariana crônica, e a sua presença dobra a incidência de eventos cardiovasculares e o custo associado a esse paciente. Traduzindo para a agenda do seu ambulatório: metade dos coronariopatas que você vai atender ao longo da vida chega pela porta de Waldemiro, com uma queixa que ele mesmo acha boba, e não pela porta da emergência com um supradesnivelamento.
Da mesma população, a fração que apresenta a dor de livro — retroesternal, aos esforços, aliviada pelo repouso — é pequena. Entre os pacientes que chegam com dor torácica suspeita de doença coronariana, a angina classificada como típica responde por 10% a 15% dos casos. Os outros 85% a 90% chegam com dor atípica ou francamente não anginosa, e é sobre esse grupo maior que a decisão fica difícil. Um serviço que só investiga a dor de livro deixa passar a maior parte da doença.
O sintoma que mais confunde não é dor. Em pessoas acima de 50 anos, a dispneia isolada, sem dor torácica, carrega uma probabilidade de doença coronariana obstrutiva de 20% a 32% nos homens e de 9% a 14% nas mulheres. São números altos o bastante para não se poder ignorar a queixa, e baixos o bastante para não se poder tratá-la como equivalente de angina. É por isso que a nomenclatura mudou: chama-se hoje sintoma relacionado à isquemia miocárdica, e não equivalente anginoso, quando não há dor no peito junto.
Há ainda um dado que reorganiza o capítulo inteiro. Num levantamento com quase 400 mil pacientes submetidos a cineangiocoronariografia eletiva, apenas 41% dos que tinham isquemia demonstrada em prova funcional apresentavam doença coronariana obstrutiva. Isquemia e obstrução não são a mesma coisa, e nenhuma das duas é sinônimo de angina. O paciente com angina e coronárias sem obstrução existe, é comum, e recebeu nome próprio nas classificações recentes.
No Brasil, o desfecho dessa história é conhecido: a doença isquêmica do coração continua entre as primeiras causas de morte e de internação por causa clínica. A consequência prática para o interno não é a estatística, é a rotina dela. O paciente de angina estável não ocupa leito, não gera aviso vermelho no painel da emergência e não aparece na passagem de plantão. Ele aparece numa agenda de retorno com quatorze nomes, entre um retorno de exame e um pedido de atestado, e é o único da lista cujo prognóstico de dez anos depende do que se escrever naquela consulta.
Por que acontece o que acontece
A perfusão coronariana do ventrículo esquerdo ocorre predominantemente na diástole, sobretudo no subendocárdio, porque a contração sistólica comprime os vasos intramiocárdicos. Isso não significa ausência de fluxo coronariano sistólico nem exclusividade do coração entre órgãos perfundidos na diástole. O ventrículo direito, de menor pressão, tem distribuição diferente do fluxo ao longo do ciclo. A consequência clínica é que taquicardia encurta a diástole ao mesmo tempo que aumenta a demanda de oxigênio, favorecendo isquemia quando a reserva é limitada.
A segunda peça é a reserva de fluxo coronário. Em repouso, o miocárdio já extrai uma proporção alta do oxigênio oferecido. A reserva de extração é limitada; o aumento da demanda é atendido principalmente pelo aumento do fluxo. As arteríolas de resistência fazem isso dilatando, e é essa capacidade de dilatar que se chama reserva. Quando uma placa estreita a artéria epicárdica, as arteríolas a jusante dilatam para compensar e mantêm o fluxo de repouso normal. O paciente não sente nada, e não sente porque a reserva está sendo gasta para que ele não sinta.

Daí sai a assimetria que explica a queixa de Waldemiro. Em modelos de estenose isolada, o fluxo de repouso pode ser mantido até estreitamentos muito importantes, enquanto a reserva de esforço se reduz antes. Percentuais anatômicos são aproximações: extensão da lesão, microcirculação, pressão e circulação colateral modificam a repercussão. Entre um limiar e outro existe uma faixa larga de doença em que o paciente vive normalmente sentado e sente dor ao subir a rampa. A dor é reprodutível porque o limiar é físico: o mesmo carrinho, a mesma rampa, o mesmo ponto.
A isquemia não atinge a parede de maneira uniforme. O subendocárdio é a camada mais comprimida na sístole, a mais distante da luz do vaso epicárdico e a de maior consumo — sofre primeiro e se recupera por último. É por isso que a alteração eletrocardiográfica típica do esforço é o infradesnivelamento do segmento ST, e não o supradesnivelamento: a isquemia é subendocárdica, e não transmural. Supradesnivelamento durante dor exige avaliar imediatamente uma síndrome coronariana aguda, mas também pode ocorrer em vasoespasmo transitório; o padrão elétrico, isolado, não comprova necrose.
A obstrução fixa é apenas um dos mecanismos. Disfunção endotelial, vasoespasmo, doença da microcirculação e alterações do metabolismo miocárdico produzem angina com coronárias epicárdicas limpas ou apenas irregulares — o quadro que hoje se chama isquemia sem obstrução coronariana. E os mecanismos coexistem: uma placa que não obstrui metade da luz pode causar isquemia porque o endotélio sobre ela responde ao esforço vasoconstringindo, em vez de vasodilatando. Um cateterismo que descreve lesões de 40% não encerra a investigação de um paciente que continua sentindo dor.
Aqui está a parte que reorganiza a conduta, e que vale a pena entender antes de ler qualquer tabela de tratamento. A placa que causa angina e a placa que causa infarto costumam não ser a mesma placa. A que causa angina é a que obstrui: fibrosa, calcificada, estável, capaz de limitar fluxo justamente porque é grande. A que causa infarto é a que rompe: capa fina, núcleo lipídico volumoso, frequentemente sem obstruir a luz o bastante para dar sintoma. Dilatar a primeira alivia o sintoma e não toca na segunda. Estabilizar todas as placas de uma vez é o que a estatina faz, e ela não alivia sintoma nenhum. As duas metades da receita fazem coisas diferentes porque atacam objetos diferentes.
A doença também constrói defesa. Estenoses que se instalam ao longo de anos permitem o desenvolvimento de circulação colateral, e é por isso que uma oclusão crônica total pode conviver com um paciente que caminha, enquanto uma oclusão aguda do mesmo vaso mata. O tempo, que é o inimigo em quase toda a medicina de urgência, aqui trabalha em parte a favor — e é mais uma razão para não transformar o ambulatório numa emergência lenta.
Por fim, o que faz a angina estável deixar de ser estável tem duas famílias. Na primeira, a placa muda: rompe ou erode, forma trombo, e o quadro passa a ser síndrome coronariana aguda, com o tempo virando contra o paciente. Na segunda, a placa é a mesma e o que muda é a demanda ou a oferta: anemia, tireotoxicose, febre, taquiarritmia, hipertensão descontrolada, uso de cocaína, hipoxemia. A segunda família também precisa ser procurada e tratada. Encontrar anemia ou taquiarritmia não exclui um evento coronariano simultâneo nem dispensa hemodinâmica quando há indicação clínica. Um paciente cuja angina piorou é um paciente que precisa ter as duas famílias consideradas na mesma consulta.
Como se apresenta de verdade
Três critérios, e por que eles classificam a dor sozinhos
A classificação da dor torácica em típica, atípica e não anginosa é feita com três perguntas, e apenas três. Primeira: o desconforto é retroesternal, com a qualidade e a duração características? Segunda: é desencadeado por esforço físico ou estresse emocional? Terceira: alivia com repouso, ou com nitrato sublingual, em até dez minutos? Três respostas afirmativas definem angina típica. Duas definem angina atípica. Uma ou nenhuma definem dor não anginosa.
A elegância disso é que não há julgamento no fim: a dor se classifica sozinha assim que as três perguntas são respondidas. O julgamento está inteiro dentro de cada pergunta, e é ali que o interno perde ou ganha o caso. Perguntar se dói no peito não responde à primeira; é preciso saber onde exatamente, e o paciente frequentemente responde com a mão aberta sobre o esterno em vez de com o dedo. Dor que o paciente aponta com a ponta do dedo num ponto de um centímetro raramente é isquêmica.
A qualidade também é uma pergunta com resposta fechada, desde que se ofereça o vocabulário certo. As palavras que os pacientes usam para angina são aperto, opressão, peso, queimação — e muitos negam dor e aceitam desconforto. Perguntar é uma dor de quê pode não levar a lugar nenhum; oferecer é como um aperto, um peso, um queimor, ou é uma fisgada costuma resolver a questão em uma frase. Dor em pontada, dor que muda com a respiração e dor que muda com a posição do corpo raramente são isquêmicas.
A duração é o critério que mais se perde, porque o paciente conta a história do mês e não a do episódio. O episódio anginoso dura de dois a dez minutos. Desconforto que dura segundos e some não é angina; desconforto contínuo há seis horas, num paciente que continua andando e falando, também não. A pergunta útil é sobre um episódio específico: da última vez, quando você parou, quanto tempo levou até melhorar?
O terceiro critério tem uma armadilha própria. Aliviar com repouso e aliviar com nitrato não valem como dois critérios: eles são o mesmo, o terceiro. E aliviar com nitrato não é um teste diagnóstico — o espasmo esofágico também responde a nitrato, e a expectativa do paciente responde a quase tudo. O que o critério mede não é a droga, é a reversibilidade rápida do fenômeno.
Graduar o que já se sabe ser angina: a escala canadense
Classificar a dor responde se é angina. Graduar responde quanto de vida ela está tomando, e é essa segunda resposta que o tratamento vai tentar mudar. A escala da sociedade canadense de cardiologia tem quatro classes. Na classe I a angina só aparece em esforço intenso ou prolongado, e a atividade habitual não a provoca. Na classe II há limitação leve, com angina ao subir escadas depressa, caminhar em aclive, andar depois de refeição, no frio ou contra o vento. Na classe III a limitação é significativa e o esforço que provoca a dor é leve. Na classe IV há angina em repouso ou a qualquer atividade.
Waldemiro é classe II, e a graduação faz duas coisas por ele. Primeiro, transforma uma queixa vaga num número que pode melhorar ou piorar, e portanto num desfecho que a consulta seguinte consegue medir. Segundo, entra diretamente na definição de instabilidade: angina de início recente só conta como instável se for classe III ou IV. Sem graduar, não há como dizer se o quadro mudou.
A escala é mais frágil do que parece quando o paciente não tem uma rotina física estável. Um aposentado que passa o dia sentado pode ser classe I por não fazer nenhum esforço capaz de provocar a dor, e não por ter pouca doença. Nesse caso a pergunta deixa de ser o que você sente e passa a ser o que você deixou de fazer, e desde quando. Quem trocou a escada pelo elevador há três meses tem uma classe funcional pior do que a que declara.
Vale a mesma cautela na direção oposta. O paciente que trabalha carregando peso pode manter classe II com doença extensa porque tolera o desconforto e não o interpreta como aviso. A frase que abre esse caso é sobre parar: você chega a parar no meio da rampa? Alguém já reparou que você para?
O que o paciente diz quando não diz dor
Há uma faixa de apresentação que não passa pelos três critérios porque não tem dor nenhuma. Cansaço desproporcional ao esforço, falta de ar que aparece no mesmo ponto da rampa em que outro sentiria aperto, sudorese, náusea, pré-síncope. Quando esses sintomas acompanham a dor, chamam-se equivalentes anginosos e reforçam o quadro. Quando aparecem sozinhos, o valor diagnóstico cai muito, e é por isso que se prefere a expressão sintoma relacionado à isquemia miocárdica.
O que salva essa faixa não é a qualidade do sintoma, é o comportamento dele. A dispneia da doença coronariana se comporta como angina: tem limiar, é reprodutível no mesmo esforço, cede com o repouso em minutos. A dispneia do descondicionamento piora progressivamente ao longo do esforço e não tem ponto de virada; a da doença pulmonar costuma vir com tosse, chiado ou sazonalidade; a da insuficiência cardíaca traz ortopneia e dispneia paroxística noturna, que é outro capítulo desta apostila. Perguntar por limiar e por reprodutibilidade separa mais do que perguntar por intensidade.
Há também a isquemia inteiramente silenciosa, que aparece num eletrocardiograma de rotina como onda Q antiga, ou num teste feito por outro motivo. Ela não dói e não deixa de contar: doença coronariana documentada em paciente assintomático é síndrome coronariana crônica, entra na mesma prevenção secundária e na mesma meta lipídica.
A mulher, o diabético, o idoso e o doente renal crônico
Os três critérios foram construídos sobre populações majoritariamente masculinas, e a mesma pontuação não vale a mesma coisa em todo mundo. Numa mulher de 55 anos, angina atípica corresponde a uma probabilidade de doença obstrutiva sensivelmente menor do que num homem da mesma idade com a mesma pontuação — a diferença é da ordem de várias dezenas de pontos percentuais, e é exatamente por isso que sexo e idade entram no cálculo antes de qualquer exame. O erro clássico não é achar que mulher não tem doença coronariana; é aplicar a ela a probabilidade calculada para o homem e pedir exame demais, com o falso-positivo que vem junto.
No diabético de longa data, a neuropatia autonômica atenua a percepção da dor, e o quadro pode se apresentar como dispneia de esforço, cansaço, ou nada. Diabetes também entra nos modelos clínicos de probabilidade pré-teste como variável própria, ao lado de tabagismo e hipertensão. É o exemplo mais claro de por que um modelo com fatores de risco separa melhor do que um modelo com idade, sexo e tipo de dor apenas.
No idoso, dois efeitos se somam e puxam em direções contrárias. A prevalência de doença sobe com a idade, o que aumenta a probabilidade pré-teste de qualquer apresentação; e a capacidade de gerar o esforço que provoca a angina cai, o que mascara o sintoma. O idoso que não anda o suficiente para ter angina pode ter doença de três vasos e classe funcional I. Também é nele que a queixa vem trocada por confusão, quedas ou perda de apetite.
Na doença renal crônica avançada, a doença coronariana é mais prevalente, mais difusa e mais calcificada, o eletrocardiograma basal costuma estar alterado por hipertrofia ou distúrbio eletrolítico, e o contraste iodado da angiotomografia deixa de ser uma decisão trivial. É a comorbidade que mais frequentemente força a escolha do exame antes mesmo de se olhar para a probabilidade.
O exame físico de um paciente cujo exame físico é normal
O exame físico do coronariopata crônico costuma ser normal, e é preciso dizer isso ao aluno antes que ele conclua, do normal, que não há doença. O que o exame faz aqui é outra coisa: procura pistas indiretas de aterosclerose, procura as causas não coronarianas de angina, e procura os diagnósticos diferenciais da dor.
As pistas indiretas se procuram com o paciente inteiro despido de suposição. Arco corneano em quem tem menos de 40 anos sugere dislipidemia; xantomas cutâneos ou tendinosos sugerem dislipidemia genética, e a hipercolesterolemia familiar costuma vir com história de doença coronariana precoce na família. O fundo de olho mostra o estrago de hipertensão e diabetes. A prega diagonal no lóbulo da orelha, o sinal de Frank, associa-se a doença coronariana e a doença arterial periférica, e vai ficando bilateral com a idade.
A palpação e a ausculta de carótidas e femorais não são gesto de rotina esquecível: doença carotídea ou periférica coexistente aumenta a probabilidade de doença coronariana, e portanto muda a estimativa que você vai fazer daqui a pouco. Pulsos assimétricos e diferença de pressão entre os braços apontam para outro diagnóstico inteiramente.
As causas cardíacas de angina que não são coronarianas se pegam na ausculta. Estenose aórtica importante e cardiomiopatia hipertrófica produzem angina por hipertrofia e queda de reserva coronariana, com coronárias normais — e as duas têm sopro. Anemia grave, hipertireoidismo, febre e taquiarritmia produzem angina por aumento de consumo em quem já tem lesão suboclusiva. Nenhuma dessas é diagnóstico de exclusão: todas se procuram na primeira consulta, e as duas primeiras pertencem a outros capítulos desta apostila.
Há um exame físico privilegiado que quase nunca se consegue fazer: o exame durante a dor. Se o paciente estiver sintomático na sua frente, terceira bulha, quarta bulha, sopro de regurgitação mitral que aparece e some, desdobramento paradoxal da segunda bulha e estertores nas bases são achados que sugerem isquemia em curso com repercussão. São transitórios, e por isso valem tanto.
Quando deixou de ser estável
Estável é um adjetivo sobre o comportamento no tempo, não sobre a gravidade. Um paciente classe III que está classe III há dois anos, com o mesmo limiar e a mesma duração, é estável; um paciente classe I que virou classe II em três semanas não é. A pergunta que faz essa distinção cabe em cinco palavras e precisa ser feita em toda consulta: mudou alguma coisa desde a última?
Três padrões tiram o paciente deste capítulo. Angina de início recente, com menos de dois meses de história e classe III ou IV. Angina em crescendo, que passou a ser mais frequente, mais intensa, mais duradoura ou a aparecer com esforço menor do que antes. E angina de repouso, com episódios de vinte minutos ou mais sem gatilho. Qualquer um dos três é síndrome coronariana aguda até que se prove o contrário, e o destino do paciente deixa de ser a próxima consulta.
O que o interno faz nesse momento é curto e não admite improviso. O paciente não volta para a sala de espera nem sai com um pedido de exame para fazer na semana que vem: vai para a emergência, com eletrocardiograma feito ali e comparado com o antigo — e é para isso que se guarda o eletrocardiograma antigo —, com troponina seriada, e acompanhado. Se houver dor no momento, nitrato sublingual e ácido acetilsalicílico entram antes do transporte, salvo contraindicação. O manejo daí em diante, a estratificação de risco pelo escore de risco, o prazo de cineangiocoronariografia e a antiagregação dupla pertencem inteiros aos capítulos de síndrome coronariana aguda com e sem supradesnivelamento desta mesma apostila; este capítulo entrega o paciente na porta e para.
Falta a metade que o interno esquece: a piora que não vem da placa. Antes de concluir que a angina desestabilizou por rotura de placa, procure o que aumentou o consumo ou diminuiu a oferta. Hemoglobina caindo por sangramento digestivo oculto, tireotoxicose, fibrilação atrial de alta resposta, febre, hipertensão descontrolada, apneia do sono, uso de cocaína, ou simplesmente o paciente que parou de tomar o betabloqueador. Um hemograma e um eletrocardiograma respondem a boa parte disso na mesma consulta, e um paciente cuja angina piorou porque a hemoglobina caiu de 13 para 8 não precisa de hemodinâmica: precisa de endoscopia.
Há uma terceira coisa a checar, e ela é constrangedora de tão simples: o paciente ainda está tomando o que foi prescrito? Interrupção abrupta de betabloqueador provoca exacerbação da angina e já foi descrita como causa de infarto. Antes de atribuir a piora à doença, confira a caixa e a data da última retirada na farmácia.
Como fechar o diagnóstico
O exame não responde 'tem placa?'
Antes de escolher qualquer exame, é preciso entender o que um exame faz. Ele não devolve a verdade sobre a coronária: devolve um resultado que desloca uma probabilidade. Quem entra na sala com 10% de chance de ter doença obstrutiva sai com uma chance maior se o teste vier positivo e menor se vier negativo, e quanto ela se desloca depende de duas coisas — de quão bom é o teste, e de onde a probabilidade começou. A segunda pesa mais do que quase todo interno imagina.
Vale fazer a conta uma vez, porque ela organiza o capítulo. Suponha um teste com sensibilidade de 89% e especificidade de 59% — não é um exemplo inventado, são os números que a literatura atribui ao escore de cálcio coronário maior que zero para detectar estenose de 50% ou mais. Aplicado a uma população em que 16 de cada 100 pessoas têm a doença, ele produz um valor preditivo positivo em torno de 29%: de cada dez pessoas com teste positivo, sete não têm a doença. Aplicado a uma população em que apenas 5 em cada 100 têm, o mesmo teste, com a mesma qualidade, produz valor preditivo positivo de cerca de 10%: nove em cada dez positivos são falsos.
É por isso que pedir teste em quem tem probabilidade muito baixa não é apenas gastar dinheiro. É fabricar resultado positivo falso em massa, e cada um deles inicia uma cascata que tem custo próprio: mais um exame para esclarecer o primeiro, às vezes um cateterismo com risco de complicação vascular e de nefropatia por contraste, uma anotação de doença coronariana no prontuário que segue o paciente por décadas, e uma pessoa que passa a se considerar doente. O dano não é hipotético; é o desfecho mais provável do exame pedido fora de faixa.
Na outra ponta, pedir teste em quem tem probabilidade muito alta também não decide nada, por simetria. Um teste negativo num homem de 68 anos com angina típica limitante e três fatores de risco não afasta a doença: afasta menos do que a história já afirmou. Nessa faixa, o exame que interessa não é o que diagnostica, é o que descreve a anatomia para planejar o que fazer com ela.
Fica a regra que governa todo o resto: o exame só rende no meio. É lá, na faixa intermediária, que o resultado muda a conduta — e é exatamente por isso que a estimativa da probabilidade tem de vir antes do pedido, e não depois.
Estimar a probabilidade antes de pedir: idade, sexo, tipo de dor
A estimativa de probabilidade pré-teste de doença coronariana obstrutiva usa, no mínimo, três variáveis: idade, sexo e tipo de dor torácica. Os modelos mais completos acrescentam tabagismo, diabetes e hipertensão, e é aí que eles ganham dos modelos de três variáveis. Todos partem da mesma matriz mental: uma tabela de dupla entrada em que a linha é a faixa etária, a coluna é o sexo, e a célula é escolhida pelo tipo de dor.
O modelo original é de 1979 e ficou conhecido pelos nomes dos autores. Ele foi construído sobre uma população encaminhada a cateterismo numa época em que a doença era muito mais prevalente do que hoje e em que quem chegava a cateterismo já tinha passado por uma seleção pesada. O resultado é que ele superestima: aplicado a um paciente de ambulatório de 2026, entrega números altos demais e joga gente demais para dentro da faixa em que se pede exame.
A correção veio em duas ondas. Primeiro, modelos recalibrados sobre coortes europeias contemporâneas, um deles restrito a idade, sexo e tipo de dor, e outro que incorpora os fatores de risco. Depois, a recalibração de 2019 sobre grandes registros, que baixou as estimativas de novo e incluiu a dispneia isolada como sintoma de entrada. É essa família recalibrada que sustenta as faixas de decisão usadas hoje. A diretriz brasileira de 2025 reconhece explicitamente que os modelos antigos inflavam a probabilidade e apresenta a comparação entre eles.
Ela também faz uma coisa que merece ser lida com atenção, porque é incomum numa diretriz: não escolhe. Diz que não há definição clara de qual é o modelo ideal para a população brasileira, sugere usar aquele com que o avaliador esteja mais familiarizado, com as limitações de cada um em mente, e coloca a percepção clínica ao lado dos modelos matemáticos como recurso legítimo. Para o interno, isso significa duas obrigações: saber que modelo está usando quando cita um número, e desconfiar quando o número vier alto demais para o paciente que está na frente.
Na prática do ambulatório, a estimativa de cabeça funciona assim, e vale escrevê-la no prontuário. Homem de 61 anos com dor atípica está na faixa intermediária — não é uma probabilidade de 5% e não é de 90%. Mulher de 45 anos com dor não anginosa e nenhum fator de risco está na faixa muito baixa, e nenhum exame vai melhorar essa informação. Homem de 68 anos com angina típica, diabético e tabagista está na faixa muito alta, e a pergunta já não é se tem.
Uma advertência sobre o que a estimativa não é. Probabilidade pré-teste estima a chance de haver doença obstrutiva; não estima o risco de morrer. São eixos separados, e um paciente pode ter probabilidade alta de ter placa e risco baixo de evento, ou o contrário. Quem confunde os dois acaba tratando anatomia em vez de tratar risco.
O laboratório e o eletrocardiograma de repouso
A investigação laboratorial da síndrome coronariana crônica não procura a coronária. Procura o que agrava o quadro, o que muda o prognóstico e o que faz diagnóstico diferencial. A lista básica é curta: hemograma; creatinina com taxa de filtração glomerular estimada; função tireoidiana com hormônio tireoestimulante e tiroxina livre; glicemia de jejum e hemoglobina glicada; perfil lipídico.
Cada item da lista tem uma razão específica, e vale saber qual. O hemograma procura anemia, que é ao mesmo tempo causa de angina por queda de oferta e marcador independente de pior desfecho cardiovascular. A função tireoidiana procura o hipertireoidismo, que aumenta a demanda metabólica, e o hipotireoidismo, que se associa a aterosclerose, é causa secundária de dislipidemia e, detalhe prático, deve ser corrigido antes de se introduzir estatina, pelo risco aumentado de miosite. A creatinina e a filtração glomerular entram porque a doença renal crônica muda prognóstico, muda dose de fármaco e limita o uso de contraste iodado. A glicemia e a hemoglobina glicada procuram diabetes, que é fator de risco, variável de modelo de probabilidade e razão para uma classe inteira de medicamentos.
O perfil lipídico é pedido aqui, mas a régua que o interpreta não é deste capítulo. A categorização de risco, as metas de colesterol da lipoproteína de baixa densidade e a escolha da intensidade da estatina estão no capítulo de dislipidemias e risco cardiovascular global desta mesma apostila, e este capítulo usa a decisão que sai de lá sem reescrever a régua. O que cabe dizer aqui é a porta de entrada: uma vez documentada estenose de metade ou mais da luz numa artéria coronária, o paciente entra na categoria de risco muito alto pelo simples achado, sem escore nenhum — e a meta que o acompanha é a mais exigente que ele vai carregar.
O eletrocardiograma de repouso deve ser feito em todo paciente com suspeita, e o resultado que ele mais produz é normal. Normal não afasta doença coronariana: a maioria dos pacientes com síndrome coronariana crônica tem eletrocardiograma de repouso sem alterações fora das crises. O que ele pode entregar é achado que muda a estimativa para cima — onda Q de infarto antigo, alterações isquêmicas de repouso — e achado que muda a escolha do exame seguinte.
Esse segundo uso é o mais subestimado. Bloqueio de ramo esquerdo, ritmo de marca-passo, pré-excitação ventricular, uso de digital e infradesnivelamento de ST de 1,0 mm ou mais em repouso tornam o eletrocardiograma não interpretável para teste ergométrico, porque o segmento ST já está deslocado por outro motivo. Num paciente assim, pedir esteira é pedir um exame cujo critério de positividade não pode ser lido. O caminho é método de imagem.
Troponina de alta sensibilidade merece um parágrafo próprio pelo que ela não é aqui. No ambulatório de angina estável, ela não serve para diagnosticar doença coronariana crônica, e um valor discretamente elevado sem padrão de subida e queda significa injúria miocárdica crônica, não infarto. A dosagem seriada com curva pertence ao paciente com dor aguda, e portanto aos capítulos de síndrome coronariana aguda. Pedir troponina de rotina em consulta de angina estável produz mais dúvida do que resposta.
Teste ergométrico: quando ele serve e quando mente
O teste ergométrico continua sendo o método não invasivo mais usado no Brasil na angina estável, por uma razão que não é acadêmica: está disponível, é barato e existe em praticamente todo município de porte médio. Ele entrega quatro coisas ao mesmo tempo — resposta clínica, resposta eletrocardiográfica, resposta hemodinâmica e capacidade funcional — e é a soma delas, não o segmento ST isolado, que vale.
A variável eletrocardiográfica mais preditiva é o infradesnivelamento do segmento ST de 1 mm ou mais, medido a 0,08 segundo do ponto J, com configuração horizontal ou descendente. Configuração ascendente tem valor muito menor. A presença de dor anginosa durante o esforço soma valor à alteração do segmento. E vale saber o inverso: menos da metade dos testes isquêmicos vem acompanhada de angina, de modo que ausência de dor não é resultado negativo.
A capacidade funcional é a variável de maior impacto prognóstico estabelecido na literatura, e é a que o interno menos lê no laudo. Quem ultrapassa o terceiro estágio do protocolo de Bruce tem mortalidade anual abaixo de 1%. Quem não alcança 5 equivalentes metabólicos tem mortalidade anual estimada em 5% — uma diferença de cinco vezes que não depende de nenhuma alteração do segmento ST. Resposta cronotrópica inadequada, queda da pressão sistólica durante o esforço e infradesnivelamento que persiste por mais de cinco minutos na recuperação também apontam risco elevado.
Essas variáveis foram reunidas num escore prognóstico, o escore de Duke, que combina tempo de exercício, magnitude do infradesnivelamento e um índice que grada a angina durante o teste. Ele separa três faixas de risco com mortalidade anual estimada de menos de 1%, de 1% a 3% e de mais de 3%. É um instrumento útil, mas exige atenção a como o índice de angina é numerado na fonte que você está lendo — a conferência disso está entre as notas de auditoria mais adiante, e não é detalhe: a numeração errada desloca o escore inteiro.
O teste ergométrico erra em duas direções previsíveis. Falseia positivo com mais frequência em mulheres, em quem usa digital, em quem tem hipertrofia ventricular esquerda e em quem já tem alteração basal do segmento — e o falso-positivo é tanto mais provável quanto menor a probabilidade pré-teste, pela mesma conta do início desta seção. Falseia negativo em quem não atinge esforço submáximo, em quem interrompe por dor articular ou dispneia antes de chegar ao limiar isquêmico, e em quem está sob efeito pleno de betabloqueador. Um laudo que diz teste submáximo, sem alterações não é um teste negativo: é um teste que não aconteceu.
Daí sai a indicação limpa. Ergométrico é bom exame inicial no paciente com capacidade funcional preservada, eletrocardiograma basal interpretável e probabilidade pré-teste na faixa intermediária. Fora dessas três condições, ele perde a maior parte do que tem a oferecer.
Quando a esteira não serve: imagem funcional e anatomia
Quando o eletrocardiograma basal não é interpretável, quando o paciente não consegue caminhar o suficiente, ou quando o ergométrico veio inconclusivo, a investigação passa a métodos de imagem. Eles se dividem em dois grupos com perguntas diferentes: os funcionais perguntam se há isquemia, e os anatômicos perguntam se há placa.
Entre os funcionais, a ecocardiografia sob estresse — físico ou farmacológico — procura alteração de contratilidade induzida em segmentos que estavam normais em repouso. É recomendada em indivíduos sintomáticos com probabilidade pré-teste intermediária ou alta. Alteração induzida em três ou mais dos dezesseis segmentos avaliados identifica risco anual acima de 3%. Tem a vantagem de não usar radiação nem contraste iodado e a desvantagem de depender fortemente de janela acústica e de operador.
A cintilografia de perfusão miocárdica mede perfusão em vez de contração, e sua leitura prognóstica é quantitativa: isquemia reversível em 10% ou mais da massa do ventrículo esquerdo define alto risco. É o método com maior tradição de correlação entre extensão de isquemia e benefício de revascularização, e é o que o Sistema Único de Saúde oferece com mais capilaridade entre os métodos de imagem funcional. A tomografia por emissão de pósitrons, que seria o padrão para quantificar fluxo absoluto, não está disponível no país por indisponibilidade dos radiofármacos.
A ressonância magnética cardíaca faz perfusão sob estresse com boa acurácia e acrescenta duas coisas que os outros métodos não fazem bem: caracterização tecidual, que ajuda no diagnóstico diferencial de miocardite e cardiomiopatias, e avaliação de viabilidade pelo realce tardio, que responde se o segmento disfuncional tem músculo a recuperar. Isquemia induzida em dois segmentos ou mais define alto risco.
Do lado anatômico, a angiotomografia de coronárias tem valor preditivo negativo alto e é excelente para excluir doença obstrutiva em quem tem probabilidade baixa a intermediária. Ela mostra a placa, inclusive a que não obstrui — e é justamente por mostrar demais que uma angiotomografia alterada frequentemente não encerra a decisão: mostra estenose de grau incerto, e a pergunta que sobra é se aquela estenose limita fluxo. Exige controle de frequência cardíaca, contraste iodado e uma leitura experiente, e não é o exame de quem tem doença renal avançada ou alergia a contraste. A disponibilidade dela na rede pública brasileira é limitada, e a discussão de incorporação e de custo pertence ao capítulo homônimo do nível Preparatório.
No fim da fila está a cineangiocoronariografia, que é diagnóstica e potencialmente terapêutica no mesmo ato. Ela é o exame de quem tem probabilidade muito alta, de quem permanece sintomático apesar do tratamento clínico otimizado, e de quem tem critério de alto risco em teste não invasivo. Não é exame de rastreio, tem complicação com taxa pequena mas não nula, e a estenose que ela mostra nem sempre é a que causa o sintoma: por isso a avaliação funcional invasiva, com reserva de fluxo fracionada, é o que converte um achado anatômico de grau incerto numa decisão de intervir ou não.
Achar a placa não é achar o culpado
Existe um erro de raciocínio que o exame anatômico induz com uma força enorme, e ele custa cateterismos e stents todo mês em todo hospital. Encontrada uma estenose, o médico a declara responsável pelo sintoma e a trata. Só que a estenose é uma medida de geometria, e o sintoma é uma medida de fluxo: a correspondência entre as duas é fraca.
A demonstração mais desconfortável disso vem de um ensaio randomizado com angioplastia e procedimento simulado. Cerca de 60% dos pacientes permaneceram com sintomas mesmo depois de a isquemia ter sido eliminada, e uma análise secundária não encontrou relação entre a gravidade dos sintomas e a extensão da isquemia por ecocardiografia de estresse, nem pela reserva de fluxo fracionada, nem pela gravidade angiográfica da estenose. O melhor preditor de melhora da angina depois da angioplastia foi ter angina típica sob tratamento clínico otimizado — ou seja, a anamnese, e não o cateterismo.
A consequência prática é dupla. Antes de indicar intervenção por sintoma, vale reperguntar se a queixa corresponde mesmo a dor anginosa, e vale garantir que o tratamento clínico foi de fato otimizado e tolerado — não apenas prescrito. E depois de uma intervenção, quando o paciente volta com a mesma dor, a primeira hipótese não é reestenose: é que aquela dor nunca foi da placa dilatada.
É também aqui que se explica por que este capítulo separa com tanto rigor o que alivia sintoma do que muda desfecho. Dilatar a placa obstrutiva resolve o problema de fluxo daquele segmento e não altera o processo que produz placas em todo o leito arterial. Quem sai do laboratório de hemodinâmica com um stent e sem estatina trocou o sintoma pelo sintoma, e ficou com o risco inteiro.
O que decide, e as contas que foram conferidas
Relacione oferta e consumo de oxigênio ao esforço que desencadeia a dor. O plano tem objetivos complementares: aliviar angina, reduzir eventos cardiovasculares e reconhecer mudança do padrão. A anatomia coronariana é uma parte da explicação; vasoespasmo e disfunção microvascular também podem produzir isquemia. Quatro tabelas resolvem a consulta. A primeira é a que se usa antes de qualquer exame: classifica a dor em três categorias e grada a angina em quatro classes, e é dela que sai o número que escolhe o exame. A segunda liga a faixa de probabilidade ao exame e ao que o resultado autoriza fazer. A terceira separa a receita em duas camadas que o paciente confunde e o interno também, e diz o que a rede pública entrega de cada uma. A quarta traduz miligrama em comprimido, porque é aí que a prescrição correta vira erro de farmácia. As notas ao final registram as conferências aritméticas feitas sobre as fontes oficiais deste capítulo — as que não fecharam, com a conta, e as que fecharam.
- 1Caracterize a dor com as três perguntas fechadas: localização e qualidade; relação com esforço; alívio com repouso ou nitrato em até dez minutos. Três critérios, angina típica; dois, atípica; um ou nenhum, dor não anginosa.
- 2Pergunte se mudou alguma coisa desde a última vez. Início há menos de dois meses em classe III ou IV, piora progressiva, ou dor de repouso com vinte minutos ou mais tiram o paciente do ambulatório.
- 3Grade a angina pela escala canadense, e registre a classe no prontuário. Sem esse número, a consulta seguinte não tem como medir se o tratamento funcionou.
- 4Estime a probabilidade pré-teste com idade, sexo e tipo de dor, acrescentando tabagismo, diabetes e hipertensão se o modelo que você usa os aceita. Escreva a faixa no prontuário, junto com o nome do modelo.
- 5Peça o básico que não depende da faixa: eletrocardiograma de repouso, hemograma, glicemia e hemoglobina glicada, creatinina com filtração glomerular, hormônio tireoestimulante com tiroxina livre, perfil lipídico.
- 6Só então escolha o exame, pela faixa e por três condições do paciente: capacidade funcional, eletrocardiograma basal interpretável e disponibilidade local. Faixa muito baixa não recebe exame.
- 7Prescreva as duas camadas na mesma consulta, sem esperar o resultado: o que muda desfecho entra hoje, e o que alivia sintoma entra hoje. Marque reavaliação em 30 dias enquanto o paciente estiver sintomático.
- 8Ensine o nitrato sublingual por escrito, com a instrução de sentar, e com o critério explícito de quando chamar socorro em vez de repetir o comprimido.
As duas réguas que vêm antes de qualquer exame: classificar a dor, graduar a angina
| Régua | Categoria | Definição operacional | O que ela decide |
|---|---|---|---|
| Tipo de dor torácica | Angina típica | Os três critérios presentes: desconforto retroesternal com qualidade e duração características; desencadeado por esforço físico ou estresse emocional; aliviado por repouso ou nitrato sublingual em até dez minutos. | Empurra a probabilidade pré-teste para cima em qualquer idade e sexo. Responde por apenas 10% a 15% das dores torácicas suspeitas de doença coronariana. |
| Tipo de dor torácica | Angina atípica | Dois dos três critérios. É a categoria mais numerosa no ambulatório e a que mais depende da qualidade da anamnese, porque a diferença entre dois e três critérios costuma estar numa pergunta que não foi feita. | Mantém o paciente na faixa em que um exame ainda muda a conduta. É a categoria em que idade e sexo mais pesam no resultado final. |
| Tipo de dor torácica | Dor não anginosa | Um critério apenas, ou nenhum. Fisgada; desconforto que o movimento respiratório ou a mudança de decúbito altera; dor de segundos; dor contínua por horas; dor que o paciente aponta com a ponta do dedo. | Em paciente jovem e sem fatores de risco, coloca a probabilidade abaixo de 5% — faixa em que a diretriz de 2025 não indica novos exames diagnósticos. |
| Gravidade da angina (Sociedade Canadense de Cardiologia) | Classe I | Angina apenas com esforço físico intenso ou prolongado. A atividade habitual não provoca sintoma. | Sozinha, não indica intervenção. Cuidado com o sedentário: classe I pode significar pouca doença ou pouco esforço. |
| Gravidade da angina (Sociedade Canadense de Cardiologia) | Classe II | Limitação leve da atividade habitual: angina ao subir escada depressa, caminhar em aclive, caminhar depois de refeição, no frio, contra o vento, ou nas primeiras horas depois de acordar. | É o alvo mais comum do tratamento antianginoso ambulatorial, e a classe em que a melhora é medida na consulta seguinte. |
| Gravidade da angina (Sociedade Canadense de Cardiologia) | Classe III | Limitação significativa: a angina aparece com esforço leve, como caminhar um quarteirão plano ou subir um lance de escada. | Combinada com início há menos de dois meses, define angina instável de início recente — e tira o paciente deste capítulo. |
| Gravidade da angina (Sociedade Canadense de Cardiologia) | Classe IV | Angina em repouso, ou a qualquer nível de atividade física. | Angina de repouso com episódios de vinte minutos ou mais é síndrome coronariana aguda até prova em contrário: emergência, não ambulatório. |
Faixa de probabilidade pré-teste de doença coronariana obstrutiva: que exame, e o que o resultado autoriza
| Faixa | Exame sugerido (Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica, 2025) | O que o resultado autoriza | O que dá errado quando se ignora a faixa |
|---|---|---|---|
| Muito baixa: 5% ou menos | Nenhum exame diagnóstico adicional. | Encerrar a investigação de doença coronariana e procurar a causa real da dor. | Um teste positivo nesta faixa é falso na esmagadora maioria das vezes. Com sensibilidade de 89% e especificidade de 59%, a 5% de prevalência o valor preditivo positivo cai para cerca de 10% — nove em cada dez positivos são falsos, e cada um abre uma cascata. |
| Baixa: acima de 5% até 15% | Ajustar a estimativa com os fatores de risco, ou angiotomografia de coronárias. | Refinar a probabilidade antes de gastar um teste funcional; se a angiotomografia for feita e vier limpa, excluir doença obstrutiva com valor preditivo negativo alto. | É a faixa em que a diretriz manda pensar de novo, e é a que o interno mais atropela pedindo esteira reflexamente. |
| Moderada: acima de 15% até 50% | Prova funcional ou angiotomografia de coronárias. | Documentar isquemia e sua extensão, ou excluir obstrução. É a faixa em que o exame de fato muda a conduta. | Aqui o erro é o oposto: deixar de investigar por achar que o paciente 'não parece'. Metade da doença coronariana estreia justamente aqui. |
| Alta: acima de 50% até 85% | Prova funcional (ergométrico apenas se o eletrocardiograma for interpretável e a capacidade funcional preservada), ou angiotomografia. | Estratificar risco: extensão de isquemia, capacidade funcional e resposta hemodinâmica dizem quem precisa de estudo invasivo. | Tratar o exame como diagnóstico quando ele já é prognóstico. Um funcional negativo aqui não afasta doença; afasta isquemia extensa, que é outra pergunta. |
| Muito alta: acima de 85% | Cineangiocoronariografia. | Definir anatomia para decidir tratamento — inclusive com avaliação funcional invasiva quando a estenose é de grau incerto. | Pedir teste não invasivo primeiro atrasa a decisão e produz falso-negativo com consequência: nesta faixa, um exame negativo tende a ser erro do exame, não ausência de doença. |
As duas camadas da receita, e o que a rede pública entrega de cada uma
| Fármaco ou intervenção | Camada | O que faz — e o que não faz | Situação na Rename 2024 |
|---|---|---|---|
| Ácido acetilsalicílico 75 a 100 mg por dia | Muda desfecho | Reduz eventos cardiovasculares maiores em cerca de 21% em quem já infartou e em 37% nos demais. Não alivia angina, não melhora tolerância ao esforço, e o paciente não sente nada tomando. | Comprimido de 100 mg, Componente Básico. É retirada na farmácia da unidade. |
| Estatina | Muda desfecho | Estabiliza placa e reduz evento em todo o leito arterial, inclusive nas placas que não obstruem e portanto não dão sintoma. Não alivia angina. A meta e a intensidade são a régua do capítulo de dislipidemias desta apostila. | Componente Básico: sinvastatina, nas três concentrações de comprimido que a lista traz. Atorvastatina em 10, 20, 40 e 80 mg no Componente Especializado, com processo administrativo. Rosuvastatina e ezetimiba não constam. |
| Inibidor da enzima conversora de angiotensina ou bloqueador do receptor de angiotensina | Muda desfecho | Indicado quando há hipertensão, diabetes, disfunção ventricular esquerda ou doença renal crônica associadas. Não é antianginoso, e a régua de pressão arterial pertence ao capítulo de hipertensão desta apostila. | Captopril 25 mg e outros representantes no Componente Básico. |
| Betabloqueador | Alivia sintoma; muda desfecho em subgrupos | Reduz frequência cardíaca e contratilidade, cortando consumo de oxigênio e alongando a diástole. Em fração de ejeção de 40% ou menos, bisoprolol, carvedilol e succinato de metoprolol têm indicação de classe I. Fora dessas situações, o efeito é sobre o sintoma. | Propranolol 10 e 40 mg, atenolol 50 e 100 mg, carvedilol 3,125 a 25 mg e succinato de metoprolol 25 a 100 mg, todos no Componente Básico. Bisoprolol não consta. |
| Bloqueador de canal de cálcio | Alivia sintoma | Di-hidropiridínico (anlodipino) vasodilata sem reduzir condução; não di-hidropiridínico (verapamil, diltiazem) reduz frequência e contratilidade e não deve ser somado a betabloqueador sem cuidado, nem a ivabradina. | Anlodipino 5 e 10 mg e verapamil 80 e 120 mg no Componente Básico. Diltiazem não consta. |
| Nitrato de ação rápida (dinitrato de isossorbida sublingual) | Alivia sintoma | Alívio imediato da crise e profilaxia antes de esforço previsível, com início em poucos minutos e duração menor que uma hora. Não muda desfecho. | Comprimido sublingual de 5 mg, Componente Básico. É o único nitrato de ação rápida da lista. |
| Nitrato de ação prolongada | Alivia sintoma, com ressalva | Melhora tolerância ao exercício, mas produz tolerância farmacológica e exige intervalo livre de 10 a 14 horas. Recomendação de classe IIb apenas para quem segue sintomático com outros antianginosos, e classe III em monoterapia. A evidência mais robusta mostrou mais eventos com o uso prolongado. | Mononitrato de isossorbida 20 e 40 mg, Componente Básico. |
| Trimetazidina, ivabradina, ranolazina | Alivia sintoma | Somam mecanismo sem mexer na hemodinâmica (trimetazidina, ranolazina) ou reduzindo apenas a frequência (ivabradina, em ritmo sinusal com frequência de 70 batimentos por minuto ou mais). São opções de tratamento da angina em monoterapia ou em combinação. | Nenhuma das três consta da Rename 2024. Na rede pública, o esquema realista se monta com betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio e nitrato. |
| Revascularização (angioplastia ou cirurgia) | Alivia sintoma; muda desfecho em subgrupos | Melhora angina e qualidade de vida em quem segue sintomático apesar de tratamento clínico otimizado. A redução de eventos ocorre em subgrupos específicos — doença multiarterial, disfunção ventricular esquerda, lesão de tronco de coronária esquerda — e não deve ser recomendada de rotina com esse objetivo. | Procedimento da rede especializada, com fila e regulação próprias. Não é decisão do ambulatório geral. |
Miligrama, mililitro e comprimido: a tradução, num adulto de 78 kg
| Fármaco e apresentação real de bula | Dose usual na angina crônica | Tradução em comprimidos por dia | Conferência |
|---|---|---|---|
| Ácido acetilsalicílico, comprimido de 100 mg (Rename 2024, Componente Básico) | 75 a 100 mg por dia, dose única. | 1 comprimido de 100 mg por dia. | Fecha. A apresentação da rede pública coincide com o topo da faixa recomendada; não há fracionamento a fazer. |
| Cloridrato de propranolol, comprimido de 40 mg (bula profissional, Prati-Donaduzzi) | Início de 40 mg duas a três vezes ao dia; faixa usual para angina de 120 a 240 mg por dia. | 3 comprimidos de 40 mg no piso da faixa; 6 comprimidos de 40 mg no teto. | Fecha. Mas a Rename também lista propranolol em comprimido de 10 mg: a mesma dose de 120 mg exigiria 12 comprimidos por dia, o que é receita para erro de adesão. Confira a apresentação que a farmácia da unidade dispensa antes de escrever a receita. |
| Atenolol, comprimidos de 25, 50 e 100 mg (bula profissional, Prati-Donaduzzi) | 100 mg uma vez ao dia, ou 50 mg duas vezes ao dia. | 1 comprimido de 100 mg, ou 2 comprimidos de 50 mg. | Fecha, e as duas formas dão a mesma dose diária. A Rename traz apenas 50 e 100 mg; o comprimido de 25 mg da bula não está na lista. |
| Besilato de anlodipino, comprimidos de 5 e 10 mg (bula profissional, Prati-Donaduzzi) | 5 a 10 mg por dia, dose única. | 1 comprimido, de 5 ou de 10 mg conforme a dose. | Fecha. Ambas as concentrações estão na Rename, o que evita fracionar comprimido. |
| Cloridrato de verapamil, comprimidos revestidos de 80 mg e de 120 mg de liberação prolongada (bula, Sandoz) | 240 mg por dia é uma dose corrente na angina de esforço. | 3 comprimidos de 80 mg ao longo do dia, ou 2 comprimidos de 120 mg de liberação prolongada. | Fecha nas duas apresentações. Não somar a betabloqueador sem monitorar frequência e condução atrioventricular. |
| Carvedilol, comprimidos de 3,125, 6,25, 12,5 e 25 mg (Rename 2024, Componente Básico) | 25 mg duas vezes ao dia no adulto acima de 85 kg com fração de ejeção reduzida; metade disso abaixo desse peso. | 2 comprimidos de 25 mg por dia no teto. | Fecha, e é a única dose deste capítulo em que o peso entra — e entra como limiar, não como multiplicador. Nos 78 kg de Waldemiro, o teto é 25 mg duas vezes ao dia. |
| Succinato de metoprolol, comprimidos de liberação prolongada de 25, 50 e 100 mg (Rename 2024) | Titulação a partir de 25 mg por dia, dose única. | 1 comprimido da concentração alvo; 100 mg equivalem a 4 comprimidos de 25 mg. | Fecha. Comprimido de liberação prolongada não se parte: titule trocando de concentração, não partindo o comprimido. |
| Dinitrato de isossorbida, comprimido sublingual de 5 mg (bula profissional, Isordil, EMS) | 5 mg sublingual na crise, podendo repetir; a diretriz de 2025 estabelece teto de 15 mg em 15 minutos. | 1 comprimido por dose; 3 comprimidos é o teto da crise. | Fecha em comprimidos, mas o intervalo de repetição diverge entre diretriz e bula — ver a divergência dedicada e a nota de auditoria correspondente. |
| Mononitrato de isossorbida, comprimidos de 20 e 40 mg (Rename 2024, Componente Básico) | 20 a 40 mg por dia, com intervalo livre de nitrato de 10 a 14 horas. | 1 comprimido de 40 mg, ou 2 de 20 mg tomados no mesmo período do dia para preservar o intervalo livre. | Fecha em comprimidos. A bula do fabricante não foi aberta nesta redação; a apresentação vem da Rename, e a posologia, da diretriz. |
| Sinvastatina, comprimidos de 10, 20 e 40 mg (Rename 2024, Componente Básico) | A dose depende da meta lipídica, que é do capítulo de dislipidemias. | 40 mg é 1 comprimido de 40 mg ou 2 de 20 mg. | Fecha em comprimidos. Este capítulo não fixa a dose: usa a decisão do capítulo vizinho. |
O escore de Duke, tal como impresso na Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica de 2025 e na Diretriz de Doença Coronária Estável de 2014, numera o índice anginoso como 1 para ausência de angina, 2 para presença e 3 para angina que interrompe o exercício. Na definição original do escore, o índice é 0 para ausência, 1 para angina não limitante e 2 para angina limitante. Como o índice é multiplicado por 4 e subtraído, a numeração impressa produz um escore exatamente 4 pontos menor em todo paciente, sem exceção — enquanto os pontos de corte usados são os originais. A consequência é troca de faixa. Paciente que caminhou 6 minutos, sem infradesnivelamento e sem angina: escore original +6, que é baixo risco, mortalidade anual de até 1%; leitura literal do texto brasileiro, +2, que é risco intermediário. Paciente que caminhou 8 minutos com 2 mm de infradesnivelamento e angina limitante: escore original −10, risco intermediário; leitura literal, −14, alto risco. Recomendação prática: calcule com 0, 1 e 2, que é a numeração da publicação original.
Ainda no escore de Duke, há faixa não coberta nas duas diretrizes. A de 2025 define escore de +5 ou mais como baixo risco, entre −10 e +4 como intermediário, e menor que −10 como alto. O escore é contínuo, porque o tempo de exercício entra em minutos com fração: um valor de +4,5 não pertence a nenhuma das três faixas. A de 2014 tem o mesmo vão e mais um: no corpo do texto o alto risco começa abaixo de −10, e na lista de resultados de testes não invasivos, na mesma diretriz, o alto risco é escore menor que −11. Um escore de −10,5 é, portanto, intermediário por uma passagem e nada pela outra.
A Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica de 2025 particiona a probabilidade pré-teste de dois modos diferentes no mesmo documento. No texto corrido são quatro faixas: menos de 5%, entre 5% e 15%, entre 15% e 85%, e mais de 85%. Escrito assim, o valor de 15% pertence a duas faixas ao mesmo tempo — corte duplamente fechado. Na Figura 16 são cinco faixas, todas meio-abertas e sem sobreposição: até 5%, acima de 5% até 15%, acima de 15% até 50%, acima de 50% até 85%, acima de 85%. As duas partições também discordam no meio: onde o texto vê uma faixa única de 15% a 85% com a mesma conduta, a figura vê duas, com condutas diferentes. Este capítulo adotou a partição da figura, que é a que não tem ambiguidade.
Na Diretriz de Doença Coronária Estável de 2014, a tabela de probabilidade pré-teste combinando as séries de Diamond e Forrester e do estudo cooperativo de cirurgia coronariana traz, para homem de 55 anos com angina atípica, a faixa de 25% a 79%. A versão em língua inglesa amplamente reproduzida da mesma tabela traz, nessa célula, 45% a 79%. O argumento, porém, não depende dela: dois testes internos, feitos apenas com os números impressos na própria diretriz brasileira, apontam para o mesmo valor. Primeiro, a largura do intervalo: nessa coluna ela seria 51, 49, 54 e 15 pontos percentuais para as idades de 35, 45, 55 e 65 anos — alarga no meio e desaba no fim, ao contrário de todas as outras colunas; com 45 no lugar de 25, fica 51, 49, 34 e 15, estreitando monotonicamente, como nas colunas de angina típica. Segundo, os incrementos do limite inferior: em todas as outras colunas eles crescem com a idade (3, 9, 23, 49 na dor não anginosa masculina, por exemplo); nessa coluna, como impressa, eles vão 13, 4 e 46, e com 45 voltam a 13, 24 e 26. A diferença importa na prática: 25% cai na faixa em que a diretriz de 2025 manda ajustar a estimativa, e 45% cai na faixa em que manda testar.
Conferência que deu certo, e vale registrar porque mostra um vão sendo fechado entre duas edições. A diretriz de 2014 recomenda teste ergométrico com classe I para pacientes com depressão do segmento ST menor que 1 mm no eletrocardiograma de repouso, e contraindica com classe III quem tem depressão maior que 1 mm em repouso. Depressão de exatamente 1,0 mm não pertence a nenhuma das duas recomendações. A diretriz de 2025 fecha o vão definindo eletrocardiograma não interpretável para o teste ergométrico como depressão de ST de 1,0 mm ou mais em repouso, ao lado de bloqueio de ramo esquerdo, marca-passo, pré-excitação e uso de digital.
Vão semelhante na graduação funcional da diretriz de 2014, e este ainda aberto. A classe II é descrita como angina que aparece depois de caminhar dois quarteirões planos ou subir mais de um lance de escada; a classe III, como angina ao caminhar um quarteirão plano ou subir um lance. O paciente cuja angina aparece com um quarteirão e meio não pertence a nenhuma das duas. A descrição original da escala usa faixas que se encaixam — mais de dois quarteirões para a classe II, de um a dois para a classe III. A diretriz de 2025 resolveu por outro caminho: retirou os números e descreveu as classes qualitativamente, o que elimina o vão e também elimina o limiar operacional.
A duração do episódio anginoso recebe três valores diferentes na mesma diretriz de 2025. O texto da definição de angina diz que o desconforto costuma durar até 20 minutos. A Tabela 2, de aspectos clínicos a avaliar, diz que costuma durar de 2 a 10 minutos. E o Quadro 4 define angina de repouso — subtipo de angina instável — como episódios de 20 minutos ou mais. Lidas juntas, as duas primeiras fazem o limite superior da angina estável coincidir com o limite inferior da instável. Para a beira do leito, o que resolve é o critério de alívio, e não o de duração: episódio que dura minutos e cede com o repouso é estável; episódio de vinte minutos que não cede é emergência.
A diretriz de 2025 orienta repetir o nitrato sublingual em intervalos de 5 minutos até a melhora da angina ou até a dose máxima de 15 mg em 15 minutos, no caso do dinitrato de isossorbida. Com o comprimido sublingual de 5 mg, que é a única apresentação de ação rápida da Rename 2024, a conta é: dose no minuto 0, segunda no minuto 5, terceira no minuto 10 — e o teto de 15 mg é atingido no minuto 10, não no minuto 15. Uma quarta dose no minuto 15, que a leitura literal do intervalo permitiria, levaria a 20 mg e romperia o teto. A instrução operacional que sobra é limpa: até três comprimidos, um a cada cinco minutos; se a dor não cedeu após o terceiro, o destino é a emergência.
Auditoria de Bayes sobre o escore de cálcio coronário. A diretriz de 2014 reproduz, do registro CONFIRM, sensibilidade de 89%, especificidade de 59%, valor preditivo positivo de 29% e valor preditivo negativo de 96% para escore maior que zero detectar estenose de 50% ou mais; e afirma, no mesmo parágrafo, que 3,5% dos pacientes com escore zero tinham estenose de 50% ou mais. Os quatro valores arredondados não saem de uma mesma tabela de dois por dois: o valor preditivo positivo de 29% implica prevalência de 15,8%, e o valor preditivo negativo de 96% implica 18,3%. Mas os 3,5% do próprio texto equivalem a valor preditivo negativo de 96,5%, que implica prevalência de 16,3% — e a essa prevalência o valor preditivo positivo calculado é 29,7%, que arredonda para os 29% publicados. Ou seja: com o número que a própria diretriz dá, a conta fecha; o que não fecha é o arredondamento do valor preditivo negativo para 96%.
O mesmo par de sensibilidade e especificidade serve para medir o custo de pedir exame fora de faixa, e a conta é curta. Com sensibilidade de 89% e especificidade de 59%, o valor preditivo positivo é de cerca de 29% numa população com 16% de doença, e cai para cerca de 10% numa população com 5%. O valor preditivo negativo sobe de 96,5% para 99%. Isto é: na faixa muito baixa, o teste positivo erra em nove de cada dez, e o teste negativo não acrescenta quase nada ao que a clínica já dizia. É a demonstração numérica de por que a faixa de 5% ou menos não recebe exame.
Dois limiares de carga isquêmica convivem na diretriz de 2025. A Tabela 14, de definições de alto risco por modalidade, fixa isquemia reversível em 10% ou mais da massa do ventrículo esquerdo na cintilografia. O texto que discute o benefício da revascularização fala em evidência de benefício quando a carga isquêmica ultrapassa 10% a 12% do ventrículo. Não é contradição — são perguntas diferentes, uma sobre risco e outra sobre benefício de intervenção —, mas o número aparece nos dois lugares sem essa distinção explicitada, e é fácil citar um no lugar do outro.
Erro encontrado na bula profissional do dinitrato de isossorbida (Isordil, EMS Sigma Pharma), que é a apresentação de referência do único nitrato de ação rápida da Rename. O documento cobre duas apresentações — comprimido de 10 mg e comprimido sublingual de 5 mg — e traz, logo abaixo delas, uma única linha de via: uso oral. A linha está errada para uma das duas apresentações. Pior: o histórico de alterações, no fim do mesmo documento, descreve repetidamente comprimidos sublinguais de 10 mg, apresentação que não existe na seção de apresentações, onde o comprimido de 10 mg é oral e o sublingual é de 5 mg. Quem ler o fim do documento pode administrar por via sublingual o dobro da dose sublingual existente.
Conferência dos espelhos, e ela deu certo. O cache deste capítulo tinha quatro cópias da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, baixadas de endereços diferentes. Comparados os textos extraídos linha a linha, as quatro têm o mesmo número de linhas e o mesmo conteúdo; a diferença de 613 caracteres entre dois pares de cópias é inteiramente de espaço em branco no fim de linha e de hífen de separação silábica codificado de dois modos. Nenhuma diferença de fármaco, concentração, forma farmacêutica ou componente de financiamento.
O que a Rename 2024 fornece para este capítulo, conferido item a item por busca exata. Componente Básico: ácido acetilsalicílico 100 mg; sinvastatina 10, 20 e 40 mg; propranolol 10 e 40 mg; atenolol 50 e 100 mg; carvedilol 3,125, 6,25, 12,5 e 25 mg; succinato de metoprolol 25, 50 e 100 mg de liberação prolongada; tartarato de metoprolol 100 mg; anlodipino 5 e 10 mg; verapamil 80 e 120 mg; dinitrato de isossorbida 5 mg sublingual; mononitrato de isossorbida 20 e 40 mg. Componente Especializado: atorvastatina 10, 20, 40 e 80 mg; clopidogrel 75 mg. Não constam da lista: trimetazidina, ivabradina, ranolazina, diltiazem, bisoprolol, nebivolol, rosuvastatina e ezetimiba. O esquema antianginoso que o interno consegue montar na atenção primária é, portanto, betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio e nitrato — as três classes que estão na lista.
Sobre a tabela de tradução em comprimidos: nenhuma das doses deste capítulo é calculada por quilo. O peso de Waldemiro entra uma única vez, como limiar e não como multiplicador, na dose máxima do carvedilol. A tabela existe para o outro erro, que é mais comum e mais silencioso: prescrever 120 mg de propranolol para quem vai receber na farmácia o comprimido de 10 mg, e mandar o paciente para casa com doze comprimidos por dia sem perceber.
Uma conta menor, registrada por honestidade e sem consequência clínica. A tabela de complicações do cateterismo cardíaco da diretriz de 2014 lista 2 óbitos como 0,12% e 2 eventos neurológicos transitórios como 0,1%. Dois eventos não podem corresponder a duas frequências diferentes na mesma casuística. Um denominador de aproximadamente 1.667 procedimentos reconcilia os dois — 2 em 1.667 é 0,12% com duas casas e 0,1% com uma —, e as 5 arritmias que exigiram cardioversão dão 0,30% nesse mesmo denominador, o que confirma a leitura. É arredondamento inconsistente entre linhas, não erro de dado.
A conduta, hora a hora
A cronologia deste capítulo não corre em minutos. Ela se mede em consultas, e a primeira delas decide mais do que qualquer exame que venha depois: é nela que as duas camadas da receita entram, antes de qualquer resultado. Esperar o exame para começar a tratar é o atraso mais caro do ambulatório, porque o exame demora semanas e a placa não espera.
A forma desta linha do tempo também informa. Nos capítulos de emergência desta apostila os marcos são minuto zero, hora seis, dia um; aqui são consulta um, semana quatro, mês três, mês seis. A diferença não é estilística: o desfecho que este capítulo persegue leva anos para acontecer, e o único instrumento capaz de mudá-lo é uma sequência de consultas curtas em que quase nada visível acontece. Quem abandona o seguimento aos oito meses perdeu o tratamento inteiro, ainda que tenha recebido a receita perfeita na primeira consulta.
Consulta 1 — os primeiros vinte minutos
Caracterize a dor com as três perguntas fechadas e classifique. Grade a angina pela escala canadense e escreva a classe no prontuário — é o número contra o qual você vai comparar tudo depois. Pergunte se mudou alguma coisa desde a última vez, e procure ativamente os três padrões de instabilidade. Estime a probabilidade pré-teste com idade, sexo, tipo de dor e fatores de risco, e escreva a faixa junto com o nome do modelo que usou. Faça o exame físico procurando arco corneano, xantomas, sopros carotídeo e femoral, sopro cardíaco e sinais de insuficiência cardíaca. Pergunte sobre disfunção erétil e uso de inibidor de fosfodiesterase — a pergunta parece deslocada e é o que impede a interação mais perigosa da receita que você vai escrever a seguir.
Consulta 1 — o que sai escrito hoje, sem esperar exame
As duas camadas entram juntas. A camada que muda desfecho é a que o paciente não sente: antiagregante e estatina, mais inibidor do sistema renina-angiotensina — que é recomendação de rotina quando há disfunção ventricular, insuficiência cardíaca ou diabetes, e recomendação mais fraca, porém existente, para todos os pacientes com doença arterial coronariana. A camada que alivia sintoma é a que ele sente: um antianginoso e o nitrato de ação rápida para a crise. A escolha do antianginoso não segue mais hierarquia de primeira e segunda linha: a diretriz de 2025 abandonou a classificação porque nenhuma classe demonstrou superioridade antianginosa sobre as outras, e passou a recomendar escolha individualizada. O algoritmo tem quatro perguntas, nesta ordem. Qual a fração de ejeção? Em 40% ou menos, bisoprolol, carvedilol ou succinato de metoprolol têm indicação de classe I, e a conversa acaba aí. Qual a frequência cardíaca de repouso? Em 70 batimentos por minuto ou mais, betabloqueador ou bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico; abaixo de 70, di-hidropiridínico, nitrato, trimetazidina ou ranolazina, que não reduzem frequência. Qual a pressão arterial? Abaixo de 120 por 70 mmHg, as opções que não baixam pressão ganham peso. E qual o mecanismo provável da isquemia? No vasoespasmo e na isquemia sem obstrução coronariana, di-hidropiridínico e nitrato entram como preferenciais, e o betabloqueador deixa de ser primeira escolha — no vasoespasmo, ele pode inclusive aumentar o número e a duração das crises por vasoconstrição sem oposição. Uma advertência de combinação: não somar ivabradina a bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico, e não usar ivabradina com frequência de 55 batimentos por minuto ou menos.
Prescrição- Ácido acetilsalicílico 100 mg, via oral, uma vez ao dia, após o almoço, de uso contínuo
- Estatina de uso contínuo, na intensidade que a categoria de risco exigir — ver o capítulo de dislipidemias desta apostila para a meta e a potência; a sinvastatina de 10, 20 e 40 mg é o que a farmácia da unidade dispensa hoje
- Atenolol 50 mg, via oral, de 12 em 12 horas (ou 100 mg uma vez ao dia), ajustando pela frequência cardíaca de repouso — alternativas na rede pública: propranolol 40 mg de 8 em 8 horas, com faixa de 120 a 240 mg por dia, ou succinato de metoprolol 25 a 100 mg uma vez ao dia
- Anlodipino 5 a 10 mg, via oral, uma vez ao dia, quando o betabloqueador for contraindicado, mal tolerado, ou quando a frequência de repouso já estiver abaixo de 70 batimentos por minuto
- Dinitrato de isossorbida 5 mg, via sublingual, na crise: um comprimido, sentado; repetir a cada 5 minutos até no máximo três comprimidos
- Se houver hipertensão, diabetes, disfunção ventricular esquerda ou doença renal crônica: inibidor da enzima conversora de angiotensina, na dose definida pelo capítulo correspondente; bloqueador do receptor de angiotensina nos intolerantes
Consulta 1 — os pedidos, e a orientação que vale mais que eles
Peça o que não depende da faixa: eletrocardiograma de repouso de doze derivações, hemograma; creatinina com filtração glomerular estimada; hormônio tireoestimulante com tiroxina livre; glicemia de jejum somada à hemoglobina glicada; perfil lipídico. Só depois escolha o exame de isquemia ou de anatomia, pela faixa e pelas três condições do paciente: capacidade funcional, eletrocardiograma interpretável e disponibilidade local. Na faixa muito baixa não se pede exame — e explicar por que não se pede é, ali, o próprio tratamento. Entregue por escrito, na mesma folha, como usar o nitrato sublingual e quando parar de tentar e chamar socorro. Guarde uma cópia do eletrocardiograma de hoje no prontuário: é ele que vai valer como comparação no dia em que a dor mudar de caráter.
Semana 4 — a primeira reavaliação, e ela é do sintoma
Enquanto o paciente estiver sintomático, a diretriz recomenda reavaliação a cada 30 dias, com ajuste progressivo do antianginoso, e admite telemedicina para intervalos menores quando disponível. A pergunta desta consulta não é sobre o exame, que provavelmente ainda não saiu: é sobre a classe funcional. Melhorou de classe? Quantos comprimidos sublinguais foram usados na semana? A frequência cardíaca de repouso caiu? Se o sintoma persiste e há espaço hemodinâmico, some um antianginoso de mecanismo diferente em vez de dobrar o que já está lá — combinação de mecanismos diferentes controla melhor que monoterapia em dose alta. E confira a tolerância: bradicardia, hipotensão postural, cefaleia de nitrato, broncoespasmo.
Semana 6 a 8 — o resultado do exame chega
O resultado não muda a camada que protege: antiagregante e estatina ficam, tenha vindo o que tiver vindo. O que ele muda é o encaminhamento. Prova funcional com isquemia extensa — isquemia reversível em 10% ou mais da massa ventricular na cintilografia, alteração induzida em três ou mais dos dezesseis segmentos na ecocardiografia de estresse, isquemia em dois segmentos ou mais na ressonância, escore de Duke abaixo de −10 no ergométrico — indica estratificação invasiva. Angiotomografia com estenose de grau incerto pede avaliação funcional, e não pede stent: é a reserva de fluxo fracionada, ou uma prova funcional, que converte geometria em decisão. Exame normal em paciente que continua sintomático não encerra o caso: reabre a hipótese de isquemia sem obstrução coronariana, e o tratamento antianginoso continua, agora com preferência pelas classes que agem no vasoespasmo e na microcirculação. E documentar estenose de metade ou mais da luz de uma artéria coronária tem consequência imediata sobre a receita: o paciente entra na categoria de risco muito alto do capítulo de dislipidemias, com a meta lipídica correspondente, sem que se calcule escore nenhum — e placa vista em imagem sem obstruir metade da luz já o coloca em risco alto, com a meta um degrau acima.
Mês 3 — a segunda camada, agora medida
A camada que muda desfecho é a que ninguém cobra, porque não dói. Aos três meses, ela precisa de número: perfil lipídico para conferir se a meta da categoria foi atingida, pressão arterial no alvo do capítulo de hipertensão, hemoglobina glicada no alvo do diabético. É aqui também que se avalia se o paciente pertence a algum dos grupos em que outras classes reduzem eventos — e vale a pena conhecer a lista, porque ela cresceu e nenhuma dessas drogas alivia angina. Em quem tem diabetes tipo 2, inibidores do cotransportador de sódio e glicose e agonistas do receptor de peptídeo semelhante ao glucagon reduzem eventos ateroscleróticos em prevenção secundária; um agonista de peptídeo semelhante ao glucagon reduziu em 1,5% o desfecho composto de morte cardiovascular, infarto não fatal e acidente vascular cerebral não fatal em pacientes com doença aterosclerótica e obesidade, mesmo sem diabetes. Em pacientes de alto risco com aterosclerose em mais de um território vascular, a associação de rivaroxabana em dose vascular ao ácido acetilsalicílico reduziu eventos, ao custo de mais sangramento. E a colchicina em dose baixa aparece como terapia anti-inflamatória, com a ressalva expressa da diretriz de que tem índice terapêutico estreito, sofre interação por citocromo e glicoproteína, e deve ficar limitada a quem permanece em alto risco apesar de terapia otimizada. Nenhuma dessas decisões é do ambulatório geral sem discussão; todas são da mesma camada, a que o paciente não sente.
Quando deixou de ser estável — o que muda no mesmo dia
Angina de início recente em classe III ou IV com menos de dois meses, angina em crescendo, ou angina de repouso com vinte minutos ou mais: o paciente não vai para casa com pedido de exame. Vai para a emergência acompanhado, com eletrocardiograma feito e comparado ao antigo — e é para isso que se guarda o antigo —, e com ácido acetilsalicílico e nitrato sublingual administrados antes do transporte se houver dor e não houver contraindicação. Antes de fechar o raciocínio na placa, procure na mesma consulta a outra família de causas: hemograma para anemia, eletrocardiograma para fibrilação atrial de alta resposta, temperatura, pressão arterial, função tireoidiana se houver suspeita, história de uso de cocaína, e a caixa de remédio — betabloqueador interrompido de forma abrupta exacerba angina e já foi descrito como causa de infarto. As duas famílias não se excluem, e a segunda se investiga enquanto a primeira é descartada, não depois. A partir da porta da emergência, o manejo é dos capítulos de síndrome coronariana aguda com e sem supradesnivelamento desta apostila: a estratificação de risco, o prazo de cineangiocoronariografia e a antiagregação dupla são deles, e este capítulo não os repete.
Prescrição- Ácido acetilsalicílico 300 mg (três comprimidos de 100 mg), via oral, mastigados, dose de ataque única, se o paciente ainda não usa antiagregante e não há contraindicação
- Dinitrato de isossorbida 5 mg, via sublingual, com o paciente sentado, repetindo a cada 5 minutos até três comprimidos — não administrar se houver uso de inibidor de fosfodiesterase nas últimas 24 a 48 horas
- Transporte acompanhado para serviço com eletrocardiograma e troponina; não liberar para ir por meios próprios
Mês 6 e daí em diante — o jogo longo
A síndrome coronariana crônica não tem alta. O acompanhamento passa a ser semestral ou anual conforme a estabilidade, e a consulta tem quatro perguntas fixas: mudou alguma coisa; qual a classe funcional; está tomando; as metas estão atingidas. Como os sintomas oscilam ao longo do tempo e as placas podem ficar quiescentes, a avaliação da efetividade do tratamento pede um horizonte de três a seis meses — não se conclui que um esquema falhou em duas semanas. Três frentes não medicamentosas entram aqui com peso de tratamento, e não de conselho. A primeira é a vacinação: influenza anual, com preferência pela formulação de maior valência disponível, covid-19 com reforço anual e pneumocócica — a vacina trivalente da influenza e a de covid-19 estão na unidade básica, e a pneumocócica passa pela rede de imunobiológicos especiais, que tem a cardiopatia crônica entre as indicações e, desde a Nota Técnica nº 52/2026, aplica a conjugada 20-valente em dose única, sem polissacarídica depois; o calendário do cardiopata que a diretriz de 2025 reproduz, com conjugada e polissacarídica, é anterior à nota. A segunda é o exercício, que se prescreve, e não se recomenda: há estratificação de risco antes, e a prescrição sai com modalidade, frequência, duração e intensidade. A terceira são as conversas que ninguém puxa: dirigir, voltar a trabalhar, viajar, e atividade sexual — que tem orientação própria na diretriz, ancorada na classe funcional, e traz de volta a pergunta sobre inibidor de fosfodiesterase, porque a combinação com nitrato é contraindicação absoluta.
Como saber se está funcionando
Reavaliar angina estável é comparar números que você mesmo criou na consulta anterior. Se a classe funcional não foi anotada, não há reavaliação possível — há apenas uma segunda impressão sobre um paciente que continua dizendo que sente um peso no peito.
Esperado: Queda de pelo menos uma classe, ou desaparecimento do sintoma no esforço habitual do paciente.
Se não melhora: Confira adesão e dose antes de trocar de fármaco — é a causa mais comum, e a mais silenciosa. Depois some um antianginoso de mecanismo diferente, guiado pelo perfil hemodinâmico, em vez de empilhar dose no que já está lá: a combinação de mecanismos diferentes controla melhor que monoterapia, e a diretriz de 2025 recomenda combinação precoce de dois ou três fármacos em vez de esperar a monoterapia falhar. Se três meses de esquema tolerado e otimizado não mudarem a classe, o paciente entra na conversa sobre estratificação invasiva por sintoma refratário. Antes disso, reperguntar se a queixa é mesmo anginosa: num ensaio com procedimento simulado, cerca de 60% dos pacientes seguiram sintomáticos depois de a isquemia ter sido eliminada.
Esperado: Queda progressiva; idealmente, uso apenas profilático antes de esforço previsto.
Se não melhora: Consumo que sobe é o sinal mais precoce de desestabilização, e antecede a mudança de classe. Consumo alto com classe estável levanta a hipótese de que a dor não é anginosa. Consumo zero em paciente sintomático costuma significar que ele não entendeu como usar, ou que a receita venceu.
Esperado: Entre 55 e 60 batimentos por minuto em quem usa betabloqueador e tolera.
Se não melhora: Frequência acima de 70 em ritmo sinusal, com betabloqueador em dose máxima tolerada, é exatamente a situação em que a ivabradina foi estudada — e é também a que não tem solução na rede pública, porque a ivabradina não está na Rename. Quando ela é possível, a dose inicial não deve exceder 5 mg duas vezes ao dia, a de manutenção não deve exceder 7,5 mg duas vezes ao dia, e se aparecer bradicardia a dose cai para 2,5 mg duas vezes ao dia. Não somar a bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico. Abaixo de 55 batimentos por minuto, não introduzir ivabradina e revisar o betabloqueador; bradicardia sintomática pede eletrocardiograma antes de qualquer ajuste.
Esperado: No alvo definido pelo capítulo de hipertensão arterial sistêmica desta apostila.
Se não melhora: Hipertensão descontrolada é causa de angina por aumento de tensão parietal, e não apenas comorbidade: pode ser a explicação inteira de uma piora atribuída à placa. Pressão baixa demais restringe as opções antianginosas e é a razão pela qual o algoritmo de escolha começa perguntando a pressão.
Esperado: Meta da categoria atingida, com a queda percentual mínima que a categoria exige.
Se não melhora: Confira adesão antes de concluir falha. A régua de intensificação, combinação e conduta na intolerância é do capítulo de dislipidemias; o que este capítulo acrescenta é a porta de entrada: estenose documentada de metade ou mais da luz coronariana já classifica o paciente sem escore.
Esperado: Manutenção ou ganho do que o paciente consegue fazer sem sintoma.
Se não melhora: Perda de capacidade funcional sem mudança de classe anginosa levanta duas hipóteses fora deste capítulo: disfunção ventricular em instalação e descondicionamento — e a diferença entre elas se faz com ecocardiograma, não com mais antianginoso. Em teste ergométrico, ultrapassar o terceiro estágio do protocolo de Bruce associa-se a mortalidade anual abaixo de 1%, e não alcançar 5 equivalentes metabólicos, a mortalidade anual estimada em 5%. São cinco vezes de diferença, e não dependem de nenhuma alteração do segmento ST — razão pela qual a capacidade funcional é a variável prognóstica de maior impacto estabelecido, e a que menos se lê no laudo.
Esperado: Uso contínuo das duas camadas, sem interrupção por conta própria.
Se não melhora: Cefaleia é a causa mais comum de abandono do nitrato, costuma ceder em duas semanas, e avisar antes evita a suspensão. Mialgia faz o paciente parar a estatina sem contar a ninguém, e a conduta na suspeita de intolerância é do capítulo de dislipidemias. Betabloqueador não se suspende de forma abrupta, nem por decisão do paciente nem por decisão de quem vai fazer um procedimento. E confira se alguém suspendeu o antiagregante para um procedimento odontológico e ninguém o reintroduziu: essa suspensão silenciosa é uma das causas mais frequentes de perda de proteção em paciente aderente, e só aparece se você pedir para ver a caixa.
Onde o erro machuca
O dano: O paciente perde um dia de trabalho, passa horas numa sala de espera, recebe troponina e eletrocardiograma que já se sabia que viriam normais, e volta sem nada resolvido — e a vaga que ele ocupou era de alguém com dor de verdade. Pior: sai com a impressão de que já foi investigado, e a investigação de verdade não acontece.
Como pegar a tempo: A pergunta que separa é sobre mudança, não sobre gravidade: início recente em classe III ou IV, piora progressiva, ou dor de repouso de vinte minutos ou mais. Angina classe III que está classe III há dois anos é ambulatório.
O dano: Eletrocardiograma e troponina normais fora da dor não afastam doença coronariana crônica — a maioria dos pacientes com síndrome coronariana crônica tem eletrocardiograma de repouso sem alterações. Waldemiro saiu duas vezes com essa frase e passou cinco meses sem antiagregante e sem estatina.
Como pegar a tempo: Separe as duas perguntas por escrito no prontuário: a do pronto-socorro, que é se vai morrer hoje, e a do ambulatório, que é se há placa e quanto ela custa. A segunda não se responde com exame de emergência.
O dano: Nessa faixa, o resultado positivo é falso na esmagadora maioria das vezes: com sensibilidade de 89% e especificidade de 59%, a 5% de prevalência o valor preditivo positivo é de cerca de 10%. Cada falso-positivo puxa outro exame, às vezes um cateterismo com risco de complicação vascular e nefropatia por contraste, e deixa no prontuário um diagnóstico que acompanha a pessoa por décadas.
Como pegar a tempo: Estime a faixa antes de pedir, e escreva no prontuário. Probabilidade de 5% ou menos não recebe exame diagnóstico adicional — recebe explicação, e a busca da causa real da dor.
O dano: Monoterapia com nitrato de ação prolongada é recomendação de classe III salvo impossibilidade de usar qualquer outro antianginoso. Sem intervalo livre de 10 a 14 horas, instala-se tolerância e o fármaco deixa de funcionar; e a evidência mais robusta associou o uso prolongado a mais eventos, incluindo morte, infarto não fatal e insuficiência cardíaca. Retirar de forma abrupta provoca angina de rebote.
Como pegar a tempo: Nitrato de longa ação entra como último recurso sintomático, sempre acompanhado, com horário que crie o intervalo livre, e sai por desmame. O nitrato que todo paciente deve ter é o de ação rápida, para a crise.
O dano: A combinação de nitrato com sildenafila e congêneres produz hipotensão profunda e é contraindicação absoluta. O paciente não conta espontaneamente, e a orientação de usar o comprimido sublingual na crise vai justamente para casa com ele. É uma interação previsível e evitável com uma pergunta.
Como pegar a tempo: Pergunte na primeira consulta e repita no acompanhamento, porque o uso começa depois. Se houver uso, o plano de crise tem de ser outro, e o paciente precisa saber o intervalo mínimo entre as duas classes.
O dano: A placa que obstrui e dá angina não é, em geral, a que rompe e causa infarto. Dilatar a primeira alivia o sintoma e não toca no processo que produz as outras. Quem sai da hemodinâmica sem antiagregante e sem estatina trocou o sintoma pelo sintoma e ficou com o risco inteiro — e nesse paciente, aliviado, a adesão despenca justamente porque ele se sente curado.
Como pegar a tempo: Diga em voz alta, na alta e na consulta seguinte, qual remédio faz o quê. E lembre que revascularização em doença crônica é indicada para sintoma refratário e para subgrupos anatômicos específicos, não como prevenção de infarto de rotina.
O que dizer ao paciente e à família
As frases abaixo servem a um paciente que não vai internar, não vai operar hoje e vai embora com uma receita de cinco linhas para tomar pelo resto da vida. É uma conversa de adesão, e ela se ganha ou se perde na primeira consulta.
Nomear o que é, depois de duas altas com outro diagnóstico
“Seu Waldemiro, pelo que o senhor me contou, isso não parece dor de músculo. Tem um padrão muito característico: aparece sempre no mesmo esforço, some quando o senhor para, e volta quando o senhor recomeça. Isso costuma ser o coração avisando que, naquele esforço, ele está recebendo menos sangue do que precisa. Não é infarto — o senhor não está infartando agora, e não estava nas duas vezes em que foi ao pronto-socorro. É outra coisa, mais lenta, e ela tem tratamento.”
Não diga: Não diga que os colegas do pronto-socorro erraram. Eles responderam à pergunta deles corretamente. Desautorizar quem atendeu antes destrói a confiança do paciente no sistema inteiro, inclusive em você.
Explicar por que não vai internar nem repetir exame de emergência
“O senhor não vai ficar internado, e não é porque eu estou desprezando o que o senhor tem. É porque o que o senhor tem não se resolve com internação. O exame de sangue do infarto e o eletrocardiograma respondem a uma pergunta de horas, e a sua pergunta é de anos. O tratamento começa hoje, aqui, com a receita, e o exame que interessa vamos marcar para as próximas semanas.”
Não diga: Não use 'não é nada grave'. Doença coronariana crônica é grave; o que ela não é, é urgente. Confundir as duas coisas faz o paciente abandonar o tratamento no primeiro mês bom.
Explicar que não vai pedir exame nenhum, num paciente de probabilidade muito baixa
“Eu entendo que a senhora queira um exame para ficar tranquila, e eu queria poder oferecer. O problema é que, com a sua idade e com a dor do jeito que a senhora descreve, a chance de ser do coração é muito pequena — e quando a chance é pequena, o exame erra mais do que acerta. Um resultado alterado aqui teria grande chance de ser falso, e a partir dele viriam outros exames, com risco de verdade. Não pedir exame não é descaso: é a decisão que a protege.”
Não diga: Não termine a consulta aí. Quem não recebe exame precisa receber uma explicação para a dor que sente, um plano para ela, e o critério explícito de quando voltar.
Explicar a diferença entre o remédio que alivia e o remédio que protege
“Nessa receita tem dois tipos de remédio, e eles são bem diferentes. Este aqui o senhor vai sentir: ele diminui o aperto no peito quando o senhor sobe a rampa. Estes outros dois o senhor não vai sentir nada — nem melhor nem pior. Eles não servem para a dor. Eles servem para a placa de gordura dentro da artéria não estourar daqui a cinco anos. São justamente esses dois que o senhor não pode parar quando estiver se sentindo bem.”
Não diga: Não diga 'é para o colesterol'. O paciente com colesterol normal conclui que não precisa e para. Diga que é para a placa, não para o número.
Quando o paciente pede o cateterismo porque um conhecido fez
“O cateterismo mostra onde a artéria está estreita, e em algumas situações ele leva a colocar um stent. O que a gente sabe hoje é que, em quem está estável como o senhor, colocar stent melhora o aperto no peito, mas não aumenta o tempo de vida em comparação com o tratamento com remédio bem feito. Se o remédio controlar o sintoma, não há vantagem em fazer. Se o remédio não controlar, aí sim eu vou querer olhar por dentro.”
Não diga: Não prometa que o cateterismo nunca será necessário, e não diga que ele não serve para nada. Há subgrupos em que a revascularização reduz eventos, e prometer demais compromete a conversa futura.
Ensinar o nitrato sublingual, por escrito, na hora
“Quando vier o aperto e não passar com um ou dois minutos parado, o senhor senta — sentado, não em pé e não deitado — e põe um comprimido debaixo da língua para dissolver. Não engole. Se em cinco minutos não melhorar, põe o segundo. Se em mais cinco não melhorar, põe o terceiro e nesse momento alguém já tem que estar chamando socorro. Três é o máximo. Pode dar dor de cabeça nos primeiros dias; isso passa, e não é motivo para parar.”
Não diga: Não entregue só verbalmente. Escreva na folha, com os três passos e o telefone do socorro, e confirme perguntando ao paciente que ele repita o que entendeu.
A conversa sobre cigarro, sem sermão
“Vou ser direto com o senhor porque o senhor merece a informação: de tudo o que está nessa receita e de tudo o que a gente pode fazer, parar de fumar é o que mais muda o seu resultado nos próximos anos. Não é força de vontade, é dependência, e tem tratamento — eu posso te ajudar com isso hoje mesmo se o senhor quiser. E se hoje não for o dia, tudo bem: eu vou perguntar de novo na próxima consulta, sem cobrança.”
Não diga: Não condicione o restante do tratamento à cessação, e não use culpa. O paciente que se sente julgado falta à consulta seguinte, e aí perde tudo, inclusive a estatina.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Há hierarquia, e ela orienta a prescrição
A Diretriz de Doença Coronária Estável da Sociedade Brasileira de Cardiologia, de 2014, organizava os antianginosos em fármacos de primeira, segunda, terceira e até quarta linha, e as diretrizes internacionais tradicionalmente mantêm a divisão entre primeira e segunda linha. A hierarquia tem uma vantagem prática difícil de descartar: dá ao médico com pouca experiência uma ordem segura para começar, e padroniza a conduta num serviço com muitos prescritores diferentes.
Diretriz de Doença Coronária Estável, SBC, Arq Bras Cardiol 2014;103(2Supl.2):1-59.
Não há hierarquia; há perfil hemodinâmico
A Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica da mesma sociedade, de 2025, abandona a classificação em linhas. O argumento é de evidência: entre os antianginosos recomendados, não há demonstração de superioridade de uma classe sobre as outras em eficácia antianginosa ou em outros desfechos, e uma revisão sistemática de cinquenta anos de ensaios randomizados duplo-cegos não encontrou droga superior às demais no controle da angina nem no prolongamento do tempo total de exercício. No lugar da hierarquia, a diretriz propõe escolha individualizada por fração de ejeção, pressão arterial, frequência cardíaca e mecanismo de isquemia, e recomenda combinação precoce de dois ou três fármacos com mecanismos diferentes.
Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025, SBC, Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250619.
As duas posições convergem mais do que parecem quando se olha o paciente concreto, porque o perfil hemodinâmico quase sempre aponta para o mesmo fármaco que a hierarquia antiga apontava. Onde elas divergem de verdade é em dois pontos. Primeiro, no paciente com frequência de repouso baixa ou pressão apertada, em que a hierarquia manda começar por betabloqueador e o perfil manda não começar por ele. Segundo, no momento de combinar: a lógica de linhas espera a monoterapia falhar, e a lógica de perfil combina cedo. Para o paciente à sua frente, decida pelo perfil — meça frequência, pressão e fração de ejeção antes de escolher — e use a hierarquia apenas como rede de segurança quando não tiver esses três números. E lembre da restrição que nenhuma das duas discute: na rede pública, as classes disponíveis são três, e isso encurta a discussão.
A cada 5 minutos, com teto de 15 mg em 15 minutos
A diretriz brasileira de 2025 orienta que a dose de nitrato de ação rápida seja repetida em intervalos de 5 minutos até a melhora da angina ou até a dose máxima de 15 mg em 15 minutos, no caso do dinitrato de isossorbida, com o paciente sentado. A lógica é a de um episódio agudo com janela curta: ou cede em minutos, ou deixou de ser angina estável e vira urgência.
Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025, SBC, Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250619.
5 a 10 mg a cada 2 ou 3 horas
A bula profissional do dinitrato de isossorbida sublingual registrada no Brasil prescreve, para a terapia de ataque da angina pectoris, 5 a 10 mg por via sublingual a cada 2 ou 3 horas, e a mesma faixa de 5 a 10 mg como profilaxia antes de situações que costumam provocar crise. É o texto aprovado que acompanha a caixa que o paciente leva para casa, e é o que ele vai ler se abrir o papel.
Bula profissional do Isordil (dinitrato de isossorbida), EMS Sigma Pharma Ltda., comprimido sublingual de 5 mg.
As duas instruções respondem a perguntas diferentes que o mesmo comprimido atende, e é por isso que convivem sem que ninguém as concilie. O intervalo de 5 minutos governa o episódio agudo: é uma regra de decisão, e o que ela de fato define é quando parar de tentar e chamar socorro. O intervalo de 2 a 3 horas governa a redosagem ao longo do dia num paciente com crises repetidas. Para o paciente à sua frente, ensine a regra do episódio — sentar, um comprimido, cinco minutos, no máximo três, e no terceiro alguém já está chamando socorro — e escreva-a na folha, porque ela vai competir com a bula dentro da caixa. Se o paciente estiver usando três comprimidos em vários episódios por dia, o problema deixou de ser a dose do nitrato: é angina descontrolada, e a conduta é reavaliar o esquema e a estabilidade, não autorizar mais comprimidos.
A régua recalibrada, porque a antiga superestima
Os modelos recalibrados sobre registros contemporâneos — o modelo clínico do consórcio europeu, incorporado às diretrizes de 2019, e a recalibração que baixou as estimativas e incluiu a dispneia isolada — foram construídos para corrigir a superestimação do modelo original de 1979, derivado de população encaminhada a cateterismo numa era de prevalência muito maior. Usar a régua antiga hoje empurra pacientes para dentro da faixa de investigação sem que eles pertençam a ela.
Quadro comparativo de modelos de estimativa de probabilidade pré-teste, Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025, SBC, Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250619.
A régua que o avaliador domina, porque nenhuma foi validada aqui
A própria diretriz brasileira de 2025 não escolhe. Registra que não há definição clara de qual é o modelo ideal para a população brasileira, sugere que se use o modelo com que o avaliador esteja mais familiarizado, com as limitações de cada um em mente, e coloca a percepção clínica ao lado dos modelos matemáticos — anotando que ela é importante em sistemas de saúde heterogêneos como o brasileiro, e que tem alta variabilidade.
Seção de sugestão de investigação com métodos diagnósticos, Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025, SBC, Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250619.
A tabela clássica, que continua impressa em português
A tabela de dupla entrada combinando as séries de Diamond e Forrester e do estudo cooperativo de cirurgia coronariana permanece na diretriz brasileira de 2014, que é o documento nacional específico sobre o tema até 2025, e continua sendo o que a maior parte do material de ensino em português reproduz. É a régua que muitos preceptores usam de memória.
Tabela 1, Diretriz de Doença Coronária Estável, SBC, Arq Bras Cardiol 2014;103(2Supl.2):1-59.
O que não é opcional é declarar qual régua você usou. Escreva no prontuário o modelo junto com a faixa, porque um mesmo paciente pode ser intermediário por um modelo e alto por outro, e a consulta seguinte precisa saber qual foi. Na dúvida entre duas faixas vizinhas, deixe o desempate para as três condições práticas que decidem o exame de qualquer modo: capacidade funcional, eletrocardiograma interpretável e disponibilidade local. E desconfie sempre que a régua devolver um número alto para um paciente que a sua impressão clínica não considera doente — a própria diretriz autoriza essa desconfiança, e ela costuma estar apontando para o modelo antigo.
O raciocínio, em voz alta
Waldemiro Bertelli, 61 anos, 78 kg, operador de empilhadeira. Peso retroesternal há cinco meses, sempre ao subir a rampa de carga empurrando o carrinho, cede em três a quatro minutos quando ele para, volta quando recomeça. Nunca em repouso. Sem piora referida nas últimas semanas. Ex-tabagista de 20 maços-ano, parou há dois anos. Hipertenso em uso irregular de hidroclorotiazida. Pai infartou aos 58 anos. Duas passagens por pronto-socorro, em março e em junho, com eletrocardiograma e troponina normais e alta com diagnóstico de dor musculoesquelética. Pressão arterial de 148 por 92 mmHg, frequência cardíaca de 84 batimentos por minuto, índice de massa corporal de 28. Ausculta cardíaca e pulmonar normais, pulsos periféricos presentes e simétricos, sem sopros carotídeos ou femorais, sem xantomas.
Classificar a dor
Dos três critérios, dois estão presentes com clareza: desconforto retroesternal com qualidade e duração características, e desencadeamento pelo esforço. O terceiro — alívio com repouso em até dez minutos — também está: cede em três a quatro minutos parado. São três critérios, e portanto angina típica, não atípica. A diferença entre dois e três aqui saiu de uma pergunta que as duas fichas de pronto-socorro não fizeram: quanto tempo leva para melhorar quando o senhor para?
Graduar e procurar instabilidade
O sintoma aparece com esforço moderado bem definido e não limita a atividade habitual fora da rampa: classe II da escala canadense. Cinco meses de história, mesmo limiar, mesma duração, sem episódios de repouso e sem piora recente — nenhum dos três padrões de instabilidade. Fica no ambulatório, e a classe II vai para o prontuário como número de comparação.
Estimar a probabilidade antes de pedir
Homem, 61 anos, angina típica, com hipertensão, tabagismo prévio e história familiar de doença coronariana precoce. Qualquer régua o coloca acima de 50%: pelo modelo clássico, na casa dos 80% a 90%; pelas réguas recalibradas, mais baixo, mas ainda acima de 50%. A faixa é alta, e ela já responde uma coisa: a pergunta não é mais se ele tem doença coronariana. É quanto de isquemia, e o que fazer com ela.
Escolher o exame pelas três condições
Capacidade funcional preservada — ele empurra carrinho em rampa todo dia. Eletrocardiograma de repouso em ritmo sinusal, sem bloqueio de ramo, sem marca-passo, sem pré-excitação, sem infradesnivelamento em repouso, sem uso de digital: interpretável. Disponibilidade local: teste ergométrico existe na regulação do município; cintilografia tem fila de meses. As três condições apontam para o mesmo exame, e ele é o que está disponível. Teste ergométrico pedido, com a observação no pedido de que o paciente usa betabloqueador — porque isso muda a interpretação de um resultado negativo.
Prescrever hoje, sem esperar o exame
As duas camadas saem na mesma receita. Ácido acetilsalicílico 100 mg por dia e estatina de uso contínuo, com a intensidade definida pela categoria de risco do capítulo de dislipidemias, compõem a camada que ele não vai sentir. Atenolol 50 mg de 12 em 12 horas — frequência de repouso de 84 e pressão de 148 por 92 dão espaço hemodinâmico de sobra — e dinitrato de isossorbida 5 mg sublingual na crise compõem a que ele vai sentir. O atenolol resolve dois problemas com um comprimido, porque a hipertensão dele também está descontrolada, e a régua da pressão é do capítulo de hipertensão desta apostila.
Ensinar o nitrato e definir o critério de voltar
Instrução escrita na folha: sentar, um comprimido sob a língua, cinco minutos; se não melhorar, o segundo; se não melhorar, o terceiro e alguém chamando socorro nesse momento. Três é o teto. E o critério explícito de procurar a emergência antes disso: dor em repouso, dor mais forte ou mais demorada que o habitual, dor que aparece com esforço menor do que a rampa. Pergunta feita e registrada: não usa sildenafila nem congêneres.
Reavaliar em 30 dias, pelo sintoma
Ele volta em quatro semanas dizendo que subiu a rampa duas vezes sem parar. Usou dois comprimidos sublinguais no mês inteiro, ambos na primeira semana. Frequência de repouso de 62, pressão de 132 por 84. Classe funcional caiu de II para I. Sem bradicardia sintomática, sem hipotensão postural, sem broncoespasmo. O esquema fica como está, e a consulta seguinte é a do resultado.
O resultado, e o que ele muda
O ergométrico veio com infradesnivelamento horizontal de 1,5 mm em parede inferior no quarto minuto do protocolo de Bruce, com angina não limitante, sem queda da pressão sistólica e sem arritmia. Escore de Duke calculado com a numeração original do índice de angina: 4 menos 7,5 menos 4, igual a menos 7,5 — risco intermediário. Se o índice fosse numerado como a diretriz brasileira o imprime, o mesmo teste daria menos 11,5, e o paciente seria classificado como alto risco. A conduta com o valor correto é intensificar o tratamento clínico e reavaliar sintoma em três meses; a estratificação invasiva entra se a angina não ceder com esquema otimizado e tolerado. A distinção entre as duas leituras vale um encaminhamento à hemodinâmica.
Faça você
Noêmia Amarante, 46 anos, professora do ensino fundamental, chega ao ambulatório com um exame na mão e uma pergunta urgente. Há três meses ela vem sentindo uma fisgada no lado esquerdo do peito, de segundos, que aparece quando ela está sentada corrigindo prova e piora quando ela respira fundo. Nunca aos esforços — ela sobe quatro lances de escada na escola todo dia sem sentir nada. Um médico de convênio pediu um teste ergométrico, que voltou com infradesnivelamento ascendente de 1 mm em derivações precordiais no pico do esforço, sem dor, com boa capacidade funcional e resposta pressórica normal. O laudo conclui: teste sugestivo de isquemia miocárdica. Ela quer marcar o cateterismo. Não fuma, não é diabética, pressão de 118 por 74 mmHg, colesterol total de 190 mg/dL, sem história familiar de doença coronariana precoce. Exame físico normal, com dor reproduzida à palpação da junção condroesternal esquerda.
Classifique a dor com os três critérios, e diga a categoria
Percorra os três: localização e qualidade; relação com esforço; alívio com repouso ou nitrato em até dez minutos. Anote quantos estão presentes e qual categoria isso define. Repare no que a duração e a relação com a respiração dizem, e no que a palpação acrescenta.
Estime a probabilidade pré-teste antes de olhar o exame
Idade, sexo, tipo de dor, e a ausência de tabagismo, diabetes e hipertensão. Em que faixa ela cai? O que a diretriz de 2025 recomenda fazer nessa faixa?
Interprete o resultado do ergométrico dentro dessa faixa
Duas coisas a examinar. Primeira, o critério eletrocardiográfico: o infradesnivelamento descrito preenche o critério de positividade? Segunda, a aritmética: com um teste de sensibilidade e especificidade típicas, qual é a chance de um resultado positivo ser verdadeiro na faixa em que ela está?
Decida sobre o cateterismo, e explique a decisão a ela
O que o cateterismo acrescentaria, e o que ele custaria? Escreva a frase que você diria a uma paciente que chegou convencida de que precisa do exame, sem desautorizar quem o pediu e sem deixá-la sem plano.
Feche o caso com um diagnóstico e um seguimento
Que hipótese explica a dor dela? Que tratamento e que critério de retorno você define? O que você anota no prontuário para que o próximo médico não recomece a cascata?
Ver como fecharíamos
Dos três critérios, nenhum está presente: a dor não é retroesternal com qualidade e duração características (é fisgada de segundos, lateral), não é desencadeada por esforço (aparece sentada e não aparece nos quatro lances de escada), e não há alívio com repouso porque não há relação com esforço. Zero de três: dor não anginosa. Mulher de 46 anos, dor não anginosa, sem tabagismo, sem diabetes, sem hipertensão — probabilidade pré-teste na faixa muito baixa, de 5% ou menos, em que a diretriz de 2025 não indica exame diagnóstico adicional. O ergométrico foi pedido fora de faixa. Além disso, o achado descrito não preenche o critério de positividade: infradesnivelamento ascendente tem valor muito menor que o horizontal ou descendente, e o critério é de 1 mm ou mais com configuração horizontal ou descendente, medido a 0,08 segundo do ponto J. Mesmo que preenchesse, a conta de Bayes decidiria: com sensibilidade de 89% e especificidade de 59%, numa prevalência de 5% o valor preditivo positivo é de cerca de 10% — nove em cada dez positivos seriam falsos. O cateterismo não deve ser marcado: ele traria risco de complicação vascular e de nefropatia por contraste para responder a uma pergunta que a anamnese já respondeu, e um achado incidental de placa não obstrutiva a transformaria em paciente coronariana para o resto da vida. A dor reproduzida à palpação da junção condroesternal, sem relação com esforço e com piora à inspiração profunda, aponta para costocondrite. Conduta: explicar por que o exame não confirma nada nessa situação, sem desautorizar quem o pediu; tratar a dor musculoesquelética; e anotar no prontuário, com todas as letras, que a dor foi classificada como não anginosa, que a probabilidade pré-teste é muito baixa e que o ergométrico é considerado falso-positivo — porque sem essa anotação o próximo médico lê apenas 'teste sugestivo de isquemia' e recomeça a cascata.
Os três critérios são desconforto retroesternal com qualidade e duração características, desencadeamento por esforço físico ou estresse emocional, e alívio com repouso ou nitrato sublingual em até dez minutos. O relato traz os três: aperto no meio do peito, aparece ao caminhar rápido, cede em cinco minutos com o repouso. Três critérios definem angina típica; dois definiriam atípica e um ou nenhum, dor não anginosa. Instabilidade não se define por tempo de história isolado: angina de início recente só conta como instável quando é classe III ou IV da escala canadense.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique por que aumentar a frequência cardíaca pode precipitar angina e por que o ECG em repouso pode ser normal. Descreva como história, capacidade funcional e probabilidade clínica orientam o primeiro exame, consultando as indicações. Depois diferencie o efeito esperado de um antianginoso do efeito da prevenção secundária. Confira se sua explicação contempla angina com e sem obstrução epicárdica importante.
Em 30 dias
Retome Waldemiro com dor semelhante à habitual e, depois, com dor em repouso ou em esforços progressivamente menores. Diga quando o percurso passa a ser de síndrome coronariana aguda. Em outro cenário, acrescente anemia ou taquiarritmia e explique como podem agravar a isquemia sem excluir um evento coronariano simultâneo. Proponha um seguimento que acompanhe capacidade funcional, adesão, efeitos adversos e indicação de avaliação especializada.
Agora atenda
Ambulatório de clínica médica: homem de 61 anos com peso retroesternal aos esforços há cinco meses e duas altas de pronto-socorro com diagnóstico de dor muscular. Caracterize a dor pelos três critérios, grade a angina, estime a probabilidade pré-teste em voz alta, escolha o exame justificando pelas três condições do paciente, e prescreva as duas camadas na mesma consulta — explicando a ele qual remédio alivia e qual protege.
