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Clínica MédicaCardiologia

Pericardite aguda e tamponamento cardíaco

Duas doenças dividem o mesmo saco fibroso e têm pressas opostas. A pericardite aguda se confunde com infarto, é muito mais comum do que parece e volta em um a cada três pacientes quando o tratamento é feito pela metade. O tamponamento é diagnóstico de beira de leito e não espera exame: quem decide é a mão no pulso e o olho no pescoço.

Fontes deste capítulo

Montera MW, Mesquita ET, Colafranceschi AS, Oliveira Junior AM, Rabischoffsky A, Ianni BM, et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia. I Diretriz Brasileira de Miocardites e Pericardites. Arq Bras Cardiol. 2013;100(4 Supl. 1):1-36. DOI 10.5935/abc.2013S004. Parte Pericardites, seções 1 a 6.

Montera MW, Marcondes-Braga FG, Simões MV, Moura LAZ, Fernandes F, Mangine S, et al. Diretriz de Miocardites da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;119(1):143-211. DOI 10.36660/abc.20220412. Seções 5.6, 6.9 e Tabelas 20 e 37.

de Barros e Silva PGM, Soeiro AM, Bacchiega BC, Bernoche C, Cerqueira Junior AMS, et al. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620. DOI 10.36660/abc.20250620. Seções 3.4, 4.2.4 e 4.4, Tabelas 9 a 12 e 33.

Adler Y, Charron P, Imazio M, Badano L, Barón-Esquivias G, Bogaert J, et al. 2015 ESC Guidelines for the diagnosis and management of pericardial diseases. Eur Heart J. 2015;36(42):2921-64. Seções 1.1, 2.1, 3.1, 3.3, 3.4, 3.5, 3.6, 3.7, 5.2 e 5.3.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais – Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Grupos B, H, M e N.

01

Responda antes de ler

Paciente de 45 anos retorna no 26º dia de um esquema iniciado na alta por pericardite aguda. A prescrição foi AAS 750 mg a cada seis horas nos dias 1 a 10, seguida de redução de 500 mg da dose diária total nos dias 11, 18 e 25, mantendo cada novo total por sete dias. Está assintomático e com proteína C reativa normal. Considerando apenas a aritmética dessa prescrição, qual é a dose diária no dia 26?

02

O paciente que você vai ver

Quatro e vinte de uma quinta-feira, na emergência clínica de um hospital geral do interior com cento e vinte leitos. Você é o interno da escala noturna. O corredor tem oito pessoas sentadas e a sala de emergência tem duas macas ocupadas. A enfermeira da classificação de risco aparece na porta com uma folha de eletrocardiograma na mão, não com o paciente, e é assim que este plantão começa: pelo papel.

O traçado é de Wesley Cordovil, 27 anos, ajudante num depósito de bebidas. Tem supradesnivelamento do segmento ST em quase todas as derivações. Você conta: parede inferior, parede lateral, precordiais de V2 a V6. A enfermeira diz a frase que a folha já disse: "isso aqui é supra, doutor". E é. A pergunta que decide a noite dele não é se há supra — há —, é se esse supra desenha uma parede.

Wesley está sentado na maca, inclinado para a frente, com os antebraços apoiados nos joelhos. Ele não escolheu essa posição para ficar confortável na maca: escolheu porque a dor melhora assim. Dói há dois dias, piora quando ele deita, piora quando ele respira fundo, e ele descreve como uma facada no meio do peito que sobe para o ombro esquerdo. Duas semanas atrás teve um quadro de garganta e febre que passou sozinho. Está com 37,9 graus agora. A pressão é 128 por 78, a frequência é 96, a saturação é 98 por cento em ar ambiente.

Enquanto você ausculta o precórdio dele — e ouve, por uns quinze segundos e depois não mais, um som áspero que parece couro sendo raspado —, a técnica de enfermagem chama do outro lado da sala. Na maca 2 está dona Elvira Bragantini, 66 anos, costureira aposentada, que chegou há quarenta minutos por falta de ar que piorou nos últimos três dias. Ela fez cirurgia e radioterapia por um câncer de mama há dois anos e está em acompanhamento. A pressão dela, que era 104 por 82 na entrada, agora é 88 por 74. A frequência é 122. E a jugular está cheia com a cabeceira a quarenta e cinco graus.

As duas doenças desta noite dividem o mesmo saco fibroso de dois folhetos, e uma delas tem prognóstico excelente. A outra mata em minutos e o diagnóstico dela não está em exame nenhum: está na mão que você acabou de pousar no pulso radial de dona Elvira. Este capítulo é sobre não confundir as duas — e sobre não deixar que a mais comum ensine você a tratar a mais rara com a mesma pressa moderada.

Repare no que separa as duas cenas, porque é o que vai separar o seu raciocínio. Para Wesley, a pergunta é diagnóstica e você tem a noite inteira: ele está estável, e a decisão de mandar para casa ou internar depende de uma lista de achados que você ainda vai colher. Para dona Elvira, a pergunta não é diagnóstica: é de tempo. O que você tem para decidir é uma curva de pressão que está caindo enquanto os dois exames que confirmariam a hipótese — o ecocardiograma e o próprio traçado — ainda nem foram pedidos. Os dois pacientes vão receber exames parecidos, e o que muda inteiramente é a ordem em que as coisas acontecem.

A frequência com que você vai encontrar cada um também é desproporcional, e isso importa para o treino. Ao longo do internato, Wesley vai aparecer muitas vezes; dona Elvira, poucas. A consequência pedagógica é perversa: você vai ficar bom em reconhecer a doença benigna e vai ter pouquíssimas oportunidades de treinar a grave, justamente aquela em que o intervalo entre a suspeita e o telefonema decide o desfecho. Por isso o exame do tamponamento — jugular, ausculta, pressão de pulso, pulso paradoxal — vale ser praticado em todo paciente com derrame conhecido, mesmo nos que estão bem.

Duas advertências de território antes de começar. A rota da dor torácica na porta, com o tempo até o eletrocardiograma, os escores de probabilidade e a lista das causas que matam, pertence ao capítulo de dor torácica no pronto-socorro; a leitura sistemática do traçado, ao capítulo de eletrocardiograma na prática; a régua do supra que é oclusão coronária, aos dois capítulos de síndrome coronariana aguda. Aqui se assume o que vem depois de o traçado dizer que não é infarto — e, no tamponamento, o que vem antes de qualquer traçado.

03

Quem adoece disso

A pericardite aguda é a doença mais comum do pericárdio, e todos os números de frequência que você vai encontrar são pequenos. A incidência medida numa área urbana italiana foi de 27,7 casos por cem mil habitantes por ano. A doença responde por cerca de um décimo de um por cento de todas as internações hospitalares e por cinco por cento das admissões de emergência por dor torácica. Um registro nacional finlandês de dez anos encontrou taxa padronizada de internação por pericardite aguda de 3,32 por cem mil pessoas-ano, e mortalidade hospitalar de 1,1 por cento, maior nos idosos e nos que tinham pneumonia ou septicemia associadas.

Aqui vale uma conferência que o capítulo faz e o aluno raramente vê feita. O documento brasileiro de 2013 escreve que cinco por cento dos pacientes com dor torácica nos quais se afastou insuficiência coronariana aguda tinham pericardite, e que um por cento dos que tinham supradesnivelamento do segmento ST tinham pericardite. O documento europeu de 2015 escreve cinco por cento das admissões de emergência por dor torácica. O número é o mesmo, o denominador não: num caso é o subgrupo em que a coronária já foi descartada, no outro é a fila inteira da dor torácica. A leitura correta é a mais restrita, porque é a que o texto brasileiro escreve com todas as letras — e ela é a que interessa a você, que só vai pensar em pericardite depois de o traçado não fechar oclusão.

O dado brasileiro de verdade é a ausência de dado. O próprio documento de 2013 abre o capítulo de pericardites registrando que o país não dispõe de estatística oficial sobre comprometimento pericárdico, e que mesmo a literatura internacional é escassa e enviesada pelo perfil de cada centro. Isso tem uma consequência prática: toda frequência que você vai ler aqui vem de fora, de séries de países onde a tuberculose é rara. No Brasil, onde ela não é, a proporção de pericardite tuberculosa é maior do que a que os números europeus sugerem — e é por isso que a suspeita muda de peso conforme o paciente.

O número que organiza a leitura de tudo o mais é o da recorrência. Cerca de trinta por cento dos pacientes recorrem dentro de dezoito meses do primeiro episódio, e essa é a complicação que você mais vai encontrar na vida, muito antes de encontrar um tamponamento. A colchicina reduz essa taxa pela metade. É o único fármaco deste capítulo que muda um desfecho duro, e é justamente o que o interno costuma não prescrever — porque não conhece, porque a dor já passou, ou porque a receita foi feita na pressa da alta. Guarde a proporção como argumento de conversa com o paciente: cerca de um em cada três volta sem ela, e cerca de metade disso com ela.

Do tamponamento, guarde uma frequência e uma proporção. Ele é raro como apresentação da pericardite idiopática ou viral, e deixa de ser raro quando a causa é tuberculose ou neoplasia — as duas etiologias em que o derrame é mais frequente e em que o tamponamento também é. Isso tem consequência direta na porta: diante de um derrame pericárdico volumoso, a probabilidade de a noite virar não depende só do tamanho, depende de quem é o paciente. E o acometimento pericárdico dentro de uma miocardite aguda não é curiosidade: numa coorte de 467 pacientes com miocardite viral ou idiopática diagnosticada por ressonância, cerca de vinte e quatro por cento tinham acometimento pericárdico, e a presença dele multiplicou por 2,5 o risco de morte, transplante, implante de desfibrilador ou internação por insuficiência cardíaca.

Por fim, um dado de contexto brasileiro que muda a leitura de todos os números anteriores. Na doença renal crônica avançada, o documento brasileiro registra pericardite urêmica em torno de dez por cento dos pacientes e pericardite associada à diálise em torno de quinze por cento dos que fazem hemodiálise. São frequências altas para uma doença que na população geral é rara — e como o país tem um contingente grande de pacientes em terapia dialítica, a chance de o seu primeiro derrame pericárdico vir de uma sala de hemodiálise, e não de um pronto-socorro, é maior do que a literatura de países ricos sugere. A régua europeia, para a mesma população, relata incidência em torno de cinco por cento em quem inicia diálise e frequência de dois a vinte e um por cento na forma dialítica: os números brasileiros ficam na metade superior dessa faixa.

04

Por que acontece o que acontece

O pericárdio é um saco de dois folhetos com trinta a cinquenta mililitros de líquido entre eles. O folheto visceral adere ao epicárdio; o parietal é fibroso e, na fase aguda, pouco complacente. Essa palavra — complacência — é a única física de que este capítulo precisa, e ela explica tudo o que vem depois: a dor, o traçado, o choque e a razão de o tamponamento não esperar exame. Guarde a ordem de grandeza do conteúdo normal, porque ela dá a régua de tudo: são menos de cinquenta mililitros, o volume de meia xícara de café.

Comece pela consequência mais grave. Quando líquido se acumula no saco, a pressão dentro dele sobe segundo uma curva que é quase plana no começo e depois vira quase vertical. Enquanto o saco tem folga, um volume razoável entra sem alterar pressão nenhuma. Passado o joelho da curva, poucos mililitros a mais elevam a pressão de forma abrupta. Por isso o determinante do tamponamento é a velocidade de instalação, e não o volume: cento e cinquenta mililitros acumulados em minutos matam, e mil e quinhentos acumulados em meses podem não dar sintoma. Um saco que teve semanas para se distender ganhou complacência; um saco que foi surpreendido, não. Essa é também a explicação de por que a radiografia é tão pobre no tamponamento agudo: a silhueta cardíaca só aumenta acima de duzentos mililitros, e o volume que matou pode estar bem abaixo disso.

Pericárdio com menor reserva de distensão versus acomodação gradual, com curvas qualitativas de pressão e volume.
O aumento rápido do conteúdo pericárdico pode elevar muito a pressão mesmo com volume relativamente pequeno. A distensão gradual permite maior acomodação inicial, mas grandes derrames também podem causar tamponamento. O diagnóstico é hemodinâmico e integra clínica e ecocardiografia; tamanho isolado não basta. Ilustração didática original.

A pressão que sobe dentro do saco comprime primeiro o que tem parede fina: o átrio direito e o ventrículo direito. As câmaras direitas param de encher na diástole, o volume que chega ao ventrículo esquerdo cai, e o débito cai com ele. O organismo compensa do único jeito disponível — taquicardia e vasoconstrição —, e é por isso que a pressão arterial pode estar normal até tarde, com a pressão de pulso já estreitando. Quando a pressão arterial finalmente cai, a reserva acabou. Essa hierarquia de compressão tem tradução direta no ecocardiograma e vale conhecer antes de ler o laudo: o colapso do átrio direito aparece primeiro e por isso é o sinal mais sensível; o colapso do ventrículo direito exige pressão maior e por isso, quando dura mais de um terço da diástole, é o mais específico. E ela explica a forma oculta da doença — no paciente hipovolêmico, as pressões de enchimento já estão baixas, de modo que um derrame menor basta para vencê-las, e o tamponamento se instala sem a jugular cheia que todo mundo procura.

O pulso paradoxal nasce da mesma compressão. Com o volume total das câmaras fixo pelo saco, o coração vira um espaço de soma zero: o que uma metade ganha, a outra perde. Na inspiração o retorno venoso aumenta, as câmaras direitas incham, o septo é empurrado para a esquerda e o ventrículo esquerdo enche menos — daí a queda inspiratória da pressão sistólica acima de 10 mmHg durante respiração normal, que é a definição convencional do sinal. O mesmo fenômeno aparece ao ecocardiograma como variação respiratória dos fluxos mitral e tricúspide: o Doppler está medindo o pulso paradoxal por dentro.

Agora a face benigna do mesmo saco. A dor da pericardite não é isquêmica: é inflamatória, e vem sobretudo do folheto parietal, que recebe inervação do nervo frênico. Como o frênico nasce das raízes cervicais que também inervam o trapézio, a dor referida sobe para a borda do trapézio, e não para a mandíbula ou para o braço, como na isquemia. E como o folheto parietal se move contra o visceral a cada batimento e contra a pleura a cada respiração, a dor muda com a posição e com o ciclo respiratório. É por isso que Wesley está inclinado para a frente: nessa posição o coração se afasta da parede anterior e a fricção diminui.

O traçado tem a mesma origem anatômica. O pericárdio em si é eletricamente inerte; o que aparece no eletrocardiograma é a inflamação do epicárdio subjacente. Como essa inflamação envolve a superfície do coração inteiro e não o território de uma artéria, o supradesnivelamento é difuso e não desenha parede — costuma poupar aVR e V1 —, mantém concavidade superior e não vem acompanhado de imagem em espelho. O infradesnivelamento do segmento PR, que é o traço mais específico e o mais esquecido, vem da inflamação atrial: a lesão da parede fina do átrio desloca a linha de base entre a onda P e o QRS.

Quando a inflamação atravessa do epicárdio para o miocárdio, o quadro muda de nome e de risco. Miopericardite é a forma em que predomina o pericárdio e a troponina sobe; perimiocardite é a forma em que predomina o miocárdio. A distinção importa por duas razões práticas: a presença de disfunção ventricular muda o destino do paciente, e o anti-inflamatório, que no pericárdio é o tratamento, no miocárdio inflamado é objeto de ressalva expressa da diretriz brasileira de 2022. Guarde a assimetria: pericardite pura tem prognóstico excelente; acometimento miocárdico é o que introduz risco de arritmia e de disfunção.

Por fim, a cicatriz. Uma pericardite que inflama por tempo suficiente pode curar com fibrose e aderência entre os folhetos, às vezes com calcificação. O saco vira uma casca rígida: o coração deixa de encher não porque o músculo esteja doente, mas porque não há espaço para ele expandir. É a pericardite constritiva, e ela se apresenta como insuficiência cardíaca direita num paciente com função ventricular preservada. A mecânica dela produz dois sinais que valem ser entendidos e não decorados. O enchimento ventricular acontece de forma abrupta e depois para de repente, quando o volume encosta na casca — daí o colapso Y proeminente no pulso venoso. E, como o pericárdio isola o coração das variações de pressão do tórax, a inspiração deixa de aumentar o retorno venoso efetivo e a jugular sobe em vez de descer, que é o sinal de Kussmaul. No Brasil, a causa que mais leva a esse desfecho é a tuberculose, e é por isso que a suspeita etiológica não é um detalhe acadêmico: ela decide se aquele derrame vira uma cicatriz que precisa de cirurgia.

05

Como se apresenta de verdade

A pericardite aguda tem quatro achados que contam, e a régua diz que dois deles fecham o diagnóstico. Nenhum é exame de sangue. A ordem em que aparecem nesta seção é a ordem em que você os obtém à beira do leito, e a frequência de cada um explica por que dois bastam: se fossem exigidos os quatro, quase ninguém teria pericardite.

O tamponamento não entra por essa porta. Ele não se apresenta como dor: apresenta-se como choque, e o exame que o define é o que você faz com a mão no pulso e os olhos no pescoço. As duas últimas seções são dele e da cicatriz que ele às vezes deixa.

A dor que muda com a posição — presente em quase todo mundo

A dor torácica está presente em mais de oitenta e cinco a noventa por cento dos casos, e é o achado que mais vezes traz o paciente. Ela é tipicamente aguda em qualidade, no sentido de cortante, não em aperto; localizada no precórdio ou retroesternal; e tem dois traços que a separam de todo o resto da dor torácica: piora quando o paciente deita e melhora quando ele senta e se inclina para a frente, e varia com o ciclo respiratório, piorando na inspiração profunda e na tosse.

Os dois traços têm o mesmo dono anatômico. Deitado, o coração cai contra a parede torácica anterior e os folhetos se atritam mais; sentado e inclinado, ele se afasta. Inspirando, a pleura adjacente se move contra o pericárdio inflamado. É por isso que a pergunta mais rentável da anamnese aqui não é sobre irradiação nem sobre esforço — é "melhora se o senhor sentar e se inclinar para a frente?". Pergunte assim, com a manobra, e não com "muda de posição?", que o paciente responde sim para qualquer coisa.

A irradiação para a borda do trapézio, quando existe, é quase específica e é subutilizada. Ela vem do nervo frênico e não tem paralelo na isquemia. Vale perguntar diretamente: "essa dor sobe para o ombro, aqui atrás, na altura do músculo do pescoço?".

O que a dor não faz também informa. Ela não costuma ser desencadeada por esforço nem aliviada por repouso, não é em aperto retroesternal com sudorese, e não tem o crescendo típico da angina. Quando o quadro tem qualquer traço de isquemia somado, a hipótese coronária não sai da mesa — o paciente com doença coronária também pega pericardite, e nesse caso as duas coisas convivem.

Uma observação de duração fecha a seção, porque ela é a que mais separa pericardite de infarto na anamnese e quase ninguém explora. A dor da pericardite costuma durar horas a dias e não cede em minutos; a dor isquêmica típica tem episódios que começam e terminam. Perguntar há quanto tempo a dor está lá, sem interrupção, é barato: dois dias de dor contínua num paciente que continua andando não é o comportamento de uma artéria fechada.

O atrito que some enquanto você busca o estetoscópio

O atrito pericárdico está presente em no máximo um terço dos casos, e é o achado mais específico do exame físico. Ele é um som superficial, áspero, que a maioria dos textos descreve como couro sendo raspado ou neve sendo pisada. Ouve-se melhor com o diafragma, na borda esternal esquerda baixa, com o paciente sentado e inclinado para a frente e em apneia expiratória — a apneia serve para separar o atrito pericárdico de um atrito pleural, que some quando a respiração para.

O atrito pode ter um, dois ou três tempos, correspondendo à sístole atrial, à sístole ventricular e ao enchimento rápido. E, sobretudo, ele é transitório: aparece e desaparece ao longo de horas. Isso tem uma consequência de conduta que quase ninguém aplica — ausculte de novo. Não ouvir atrito na admissão não afasta nada; ouvir uma vez, ainda que por quinze segundos, é achado positivo e conta como critério, mesmo que na reavaliação ele não esteja mais lá.

A ausculta específica leva menos de um minuto e não pede material nenhum. Numa enfermaria com sete pacientes e um internato inteiro pela frente, é o exame com melhor rendimento por segundo neste capítulo — e é o único critério de pericardite que se perde para sempre se não for procurado no momento certo.

Duas confusões de ausculta valem ser antecipadas. A primeira é com o atrito pleural, e a apneia expiratória resolve: o pleural some com a respiração parada, o pericárdico continua. A segunda é com o sopro, e o traço que separa é a qualidade do som — o atrito é rugoso, superficial, parece vir de perto do estetoscópio, e não tem o caráter soprado e mais profundo do sopro valvar. Quando a dúvida persistir, descreva no prontuário o que você ouviu, onde e em que posição, em vez de rotular: a descrição serve a quem auscultar depois; o rótulo errado, não.

Quando não é a dor que traz o paciente

A apresentação clássica descrita pelo documento brasileiro é uma síndrome febril, com frequente acometimento de vias aéreas superiores, dor torácica e atrito. A febre costuma ser baixa. Febre acima de 38 graus, sobretudo com leucocitose, sai da moldura do quadro viral banal e levanta a possibilidade de pericardite purulenta — que é rara em adultos, mas tem alta mortalidade e não se trata com anti-inflamatório.

Há um grupo em que a dor falta justamente onde a doença é mais provável, e é o mais traiçoeiro da apresentação: o paciente com doença renal crônica avançada. Nele, a dor torácica ocorre menos, e o eletrocardiograma frequentemente não mostra as alterações típicas, porque falta a inflamação miocárdica que as produz. Quer dizer: no doente em que a pericardite tem maior frequência, os dois achados mais fáceis são os mais fracos. A calibragem da suspeita nesse grupo se faz por outra via — dispneia nova, hipotensão nos ganhos de peso interdialíticos habituais, atrito procurado ativamente, ecocardiograma com limiar baixo.

O calendário intra-hospitalar da doença — as duas formas que seguem um infarto, com relógios diferentes, a que segue a cirurgia cardíaca e as duas da doença renal — pertence ao capítulo de dor torácica intra-hospitalar, e é lá que cada janela de tempo está desenvolvida. Aqui interessa apenas o que a etiologia muda no seu plano: se existe um gatilho identificável, o tratamento da causa entra ao lado do anti-inflamatório, e às vezes no lugar dele.

Tamponamento: o mesmo diagnóstico em dois relógios diferentes

O tamponamento cardíaco agudo se instala em minutos. As causas são as que rompem alguma coisa dentro do saco — trauma, ruptura de parede após infarto, dissecção de aorta que retrocede para a raiz — e as complicações de procedimento: biópsia endomiocárdica, estudo eletrofisiológico, oclusão de apêndice atrial, implante de dispositivos. O quadro é choque, e ele não dá tempo de o paciente ficar dispneico progressivamente. O tamponamento traumático, com a decisão cirúrgica que ele impõe, é território do capítulo de trauma torácico com risco iminente de morte; o que segue aqui é o tamponamento médico.

O tamponamento subagudo se instala em dias a semanas, e é o que você vai encontrar na enfermaria e no pronto-socorro clínico. Ele se apresenta como dispneia e fadiga que progridem, muitas vezes num paciente com câncer, com doença renal ou em investigação de derrame. É a apresentação de dona Elvira. Porque o saco teve tempo de se distender, o volume acumulado costuma ser muito maior — e, quando o quadro finalmente vira, ele vira rápido, porque o paciente cruzou o joelho da curva.

Duas formas atípicas fecham a lista e as duas enganam. O tamponamento de baixa pressão, também chamado oculto, ocorre no paciente hipovolêmico: com a pressão intracardíaca reduzida, um derrame que não bastaria comprime as câmaras assim mesmo, e o quadro clínico aparece com pressões de enchimento baixas — a jugular pode não estar cheia. E o tamponamento regional acontece quando um derrame localizado, ou um hematoma, comprime uma câmara só; é típico do pós-operatório e não obedece à semiologia clássica.

A tríade de Beck serve para confirmar, não para excluir

Os sinais clássicos do tamponamento são taquicardia, hipotensão, pressão venosa jugular elevada, bulhas abafadas e pulso paradoxal. O documento brasileiro de 2013 resolve o diagnóstico em uma frase, e é honesto ao fazê-lo: ele o declara clínico, apoiado apenas na anamnese e no exame, e nomeia quatro elementos — taquicardia, pressão venosa elevada, hipotensão e pulso arterial paradoxal. Nenhum exame entra nessa definição.

O que a diretriz brasileira de dor torácica de 2025 acrescenta é a medida da fraqueza desses sinais, e ela muda o modo de usá-los. As sensibilidades de cada componente da tríade de Beck, isoladamente, são baixas: hipotensão em torno de 26 por cento, bulhas abafadas em torno de 28 por cento, e pressão venosa jugular elevada em torno de 76 por cento — este último é o único que passa da metade. A leitura correta é assimétrica: a tríade completa, num contexto compatível, é praticamente diagnóstica; a tríade incompleta não afasta nada.

Disso decorre a regra de trabalho que este capítulo pede que você leve: qualquer paciente em choque com derrame pericárdico é tamponamento até prova em contrário, mesmo com bulhas audíveis e pressão ainda razoável. E a jugular, que é o sinal mais sensível dos três, some quando há hipovolemia associada — o que devolve o paciente à categoria do tamponamento de baixa pressão.

O pulso paradoxal é o sinal que mais se ganha em treinar, porque ele é gratuito e quase ninguém mede. A definição convencional é queda da pressão sistólica acima de 10 mmHg na inspiração, em respiração normal. A medida com esfigmomanômetro é feita desinflando devagar até ouvir o primeiro som apenas na expiração, anotando o valor, e continuando a desinflar até ouvir o som em todo o ciclo, anotando de novo; a diferença é o paradoxo. À beira do leito, sem tempo, a curva do oxímetro de pulso enfraquecendo visivelmente a cada inspiração dá a mesma informação com pior precisão.

Constrição: insuficiência cardíaca direita com o músculo intacto

A pericardite constritiva se apresenta como cansaço, dispneia de esforço, edema e aumento do volume abdominal num paciente cuja função ventricular está preservada. O achado que mais chama atenção no exame é a desproporção: ascite marcada com edema de membros inferiores modesto. Isso não combina com insuficiência cardíaca comum, e é a pista que faz alguém pensar em pericárdio.

No pulso venoso jugular há colapso Y proeminente e sinal de Kussmaul — a jugular que sobe, em vez de descer, na inspiração. Já o pulso paradoxal, aqui, é achado de minoria: aparece em torno de um em cada três pacientes, de modo que não encontrá-lo nada afasta. A calcificação pericárdica, quando aparece na radiografia, é praticamente diagnóstica nesse contexto, mas está presente em apenas um quarto dos pacientes com constrição.

Existe uma forma que o interno precisa conhecer porque ela muda a conduta inteira: a constrição transitória. Ela aparece durante a resolução de uma pericardite aguda, costuma vir com derrame e espessamento sem grande calcificação, e desaparece com o tratamento anti-inflamatório em algumas semanas. Reconhecer isso evita que um paciente seja encaminhado para pericardiectomia por uma constrição que ia passar sozinha — e o marcador que orienta essa distinção é a inflamação ativa: proteína C reativa elevada e realce do pericárdio na tomografia ou na ressonância.

Há também a forma efusivo-constritiva, em que a pressão atrial direita permanece elevada mesmo depois de o derrame ser drenado e a pressão intrapericárdica normalizar. Ela é mais frequente na tuberculose, na neoplasia e no hemopericárdio, e é reconhecida no momento da drenagem, não antes.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar pericardite é diferente de investigar quase qualquer outra doença cardiológica por um motivo incômodo: nenhum exame fecha o diagnóstico sozinho, e o exame mais importante — o ecocardiograma — pode ser normal numa doença que existe. O que os exames fazem aqui é outra coisa: eles separam pericardite de infarto, dizem se o miocárdio entrou junto, medem o líquido, procuram a causa e dão o marcador que vai governar quanto tempo o tratamento dura.

A sequência abaixo é a ordem de aquisição, não a ordem de importância. No paciente instável ela se inverte inteira: o ecocardiograma à beira do leito vem antes de tudo, e às vezes a decisão vem antes do ecocardiograma.

Passo 1 — O eletrocardiograma, e o que nele não é infarto

O traçado se altera em quatro estágios, e o primeiro é o que você vai ver na porta. No estágio I há supradesnivelamento do segmento ST côncavo e difuso, poupando aVR e V1, onde ocorre infradesnivelamento; onda T apiculada, com leve aumento de amplitude; e infradesnivelamento do segmento PR, exceto em aVR, onde o PR sobe. Esse conjunto aparece em mais de oitenta por cento dos casos. No estágio II o ST e o PR normalizam e a onda T achata. No estágio III a onda T inverte de forma difusa e o traçado passa a simular isquemia. No estágio IV a onda T volta ao normal, o que pode levar semanas ou meses.

A informação de conduta que sai desses estágios é o encadeamento. No infarto, a inversão da onda T acontece enquanto o supradesnivelamento ainda está lá; na pericardite, ela acontece depois de o segmento ST já ter voltado à linha de base. Um traçado com supra difuso e T já invertida na mesma derivação não é a evolução esperada de pericardite.

Três traços separam o traçado da pericardite do supra de oclusão coronária: a concavidade superior do segmento ST, a distribuição que não desenha parede coronária, e a ausência de imagem em espelho — no infarto com supra, o infradesnivelamento recíproco está presente na maioria dos casos. O infradesnivelamento do segmento PR é o quarto traço, e é o mais específico dos quatro. Há exceção conhecida e ela precisa ser dita: existem casos em que a pericardite, ou a miopericardite, é localizada, e aí o traçado deixa de ser difuso.

Contra repolarização precoce — o diagnóstico diferencial que mais aparece em homem jovem, que é exatamente o perfil de Wesley — existe uma medida. A razão entre a amplitude do início do segmento ST e a amplitude da onda T em V6 é de 0,25 ou mais na pericardite e menor que 0,25 na repolarização precoce, em que a onda T costuma ser alta. Mede-se em milímetros, com o segmento TP como linha de base, e a conta leva menos de trinta segundos.

Dois achados apontam para o líquido, não para a inflamação. A baixa amplitude do QRS acompanha derrame pericárdico e melhora depois da drenagem. A alternância na morfologia ou na amplitude do QRS — o coração oscilando dentro do líquido — associa-se a derrame volumoso com sinais de tamponamento. Nenhum dos dois é sensível: eletrocardiograma normal não afasta tamponamento, e o traçado pode ser inteiramente normal em até seis por cento das pericardites agudas.

A leitura sistemática do traçado, o ponto de medida do desnivelamento e a lista completa dos supradesnivelamentos que não são infarto pertencem ao capítulo de eletrocardiograma na prática. Uma armadilha de medida, porém, vale ser repetida aqui porque é específica desta doença: usar o segmento PR como linha de base num paciente que tem infradesnivelamento do próprio PR exagera o supradesnivelamento medido. A referência é o segmento TP.

Passo 2 — A troponina, que aqui responde outra pergunta

A troponina não serve para diagnosticar pericardite. A diretriz brasileira de 2013 a coloca em classe IIa com nível de evidência C para essa finalidade, o que é uma recomendação fraca, e coloca a creatinoquinase fração MB em classe IIb — mais fraca ainda. O que a troponina responde é uma pergunta diferente e mais útil: o miocárdio entrou junto?

Ela sobe em uma parcela dos pacientes com pericardite aguda — uma série retrospectiva de 55 pacientes encontrou elevação em vinte e sete por cento —, costuma ter pico no segundo dia de sintomas e permanece elevada por mais tempo que a fração MB da creatinoquinase. A elevação marca comprometimento miocárdico associado, ou seja, miopericardite, e essa é a informação que muda três coisas: onde o paciente dorme, quanto tempo ele fica sem esforço físico e com que cautela ele recebe anti-inflamatório.

Cuidado com a inversão do raciocínio, que é o erro comum. Troponina elevada num paciente com dor torácica e supradesnivelamento não vira pericardite porque o traçado é difuso; e não vira infarto porque a troponina subiu. As duas informações são independentes, e é a soma do padrão do traçado com o contexto clínico que decide. Quando a dúvida entre síndrome coronariana e pericardite permanece de pé, a hipótese coronária não sai da mesa e a rota de investigação dela segue em paralelo — essa decisão é do capítulo de dor torácica no pronto-socorro.

Passo 3 — A proteína C reativa, que governa a duração do tratamento

Os marcadores de fase aguda — velocidade de hemossedimentação, leucocitose e proteína C reativa — estão elevados em aproximadamente setenta e cinco por cento dos pacientes. Isso significa que um quarto dos pacientes com pericardite aguda tem marcadores normais na avaliação inicial, e a normalidade não afasta o diagnóstico, sobretudo em quem já vinha usando anti-inflamatório por conta própria ou tem comprometimento imunológico.

O valor da proteína C reativa neste capítulo, porém, não está no diagnóstico e sim no seguimento — e é aqui que ela vira o exame mais útil do capítulo inteiro. Ela tende a normalizar ao fim de duas semanas. Valores que permanecem elevados indicam necessidade de terapia anti-inflamatória prolongada e sinalizam maior risco de recorrência. A dosagem seriada é a que responde quando o desmame pode começar. A diretriz brasileira dá a essa dosagem recomendação classe I com nível de evidência B — a mais forte que ela concede a qualquer exame laboratorial nesta doença.

Traduzido em prescrição: peça proteína C reativa na admissão, e programe a repetição. Sem esse valor de base, o desmame vira contagem de dias no calendário, que é exatamente o que produz recorrência. A frase para escrever na alta é curta — repetir a proteína C reativa em uma semana e trazer o resultado no retorno.

A investigação etiológica laboratorial se organiza por suspeita, não por rotina: função renal, hormônios tireoidianos e provas reumatológicas entram com recomendação classe I; hemoculturas entram na suspeita de infecção bacteriana. A sorologia viral em sangue não deve ser pedida — ela não se correlaciona com o que está acontecendo no pericárdio, e a diretriz é explícita quanto a isso. E o peptídeo natriurético não tem lugar no diagnóstico de pericardite aguda: para essa finalidade, a diretriz o coloca em classe III, que é a de recomendação contrária.

Passo 4 — O ecocardiograma, que é o exame do saco

O ecocardiograma transtorácico com Doppler é o exame de escolha, e recebe recomendação classe I nas duas réguas — a brasileira de 2013, para diagnóstico, para monitoração da pericardiocentese e para acompanhamento; e a brasileira de dor torácica de 2025, para o diagnóstico de pericardite aguda no paciente da sala de emergência com dor de característica fásica respiratória, com ou sem alterações do segmento ST.

A semiquantificação do derrame se faz medindo o espaço livre de eco em diástole, e ela tem três faixas. Abaixo de 10 milímetros, e visível apenas posteriormente ao ventrículo esquerdo, é derrame pequeno. Entre 10 e 20 milímetros, circundando todo o coração, é moderado. Acima de 20 milímetros é derrame importante. Derrames grandes o suficiente para causar tamponamento em geral circundam o coração inteiro; derrames pequenos aparecem só atrás.

Os sinais de repercussão hemodinâmica são outra coisa e precisam ser lidos com a hierarquia certa: dilatação das veias cavas com pouca variação respiratória; colapso diastólico da parede livre do átrio direito, que é o sinal mais sensível; e colapso do ventrículo direito, que quando dura mais de um terço da diástole é o mais específico. Ao Doppler, o aumento do fluxo tricúspide com redução do mitral na inspiração, e o inverso na expiração, com variação de até vinte e cinco por cento — que é o pulso paradoxal medido por dentro.

Duas travas de leitura. A primeira: existe pericardite aguda com ecocardiograma normal, a chamada pericardite seca — exame normal não afasta o diagnóstico, e o achado de imagem é apenas um dos quatro critérios. A segunda, que é a que salva vida: tamponamento é diagnóstico clínico. O ecocardiograma quantifica, confirma e guia a agulha, mas no paciente chocado com derrame ele não é pré-requisito para a decisão. Quando o exame não está disponível na hora, a decisão de drenar é clínica.

O ecocardiograma também dá pista etiológica, e essa parte costuma passar batida: ele permite caracterizar a natureza do líquido, ver fibrina — sugestiva de tuberculose —, cálcio, coágulos, massas sugestivas de tumor ou cisto. Na suspeita de constrição, a espessura do pericárdio deve ser medida; acima de 3 milímetros ao ecocardiograma transesofágico, a sensibilidade é de noventa e cinco por cento e a especificidade de oitenta e seis por cento para pericárdio espessado.

Passo 5 — Radiografia, tomografia e ressonância: o que cada uma responde

A radiografia de tórax é normal na maioria das pericardites agudas, e isso precisa ser dito porque a expectativa contrária produz erro. A cardiomegalia só aparece quando há mais de 200 mililitros de líquido no saco — quatro a sete vezes o conteúdo normal, que é de trinta a cinquenta mililitros. Um paciente com tamponamento agudo por acúmulo rápido pode ter radiografia inteiramente normal, porque o volume que o matou não alarga silhueta nenhuma. Quando o derrame é grande e lento, a silhueta assume formato globular.

Os números da radiografia para derrame são medianos: sensibilidade em torno de setenta por cento e especificidade em torno de quarenta e um por cento para o aumento da silhueta. Não existe achado radiológico que defina pericardite, e a diretriz é explícita ao dizer que o exame entra como complementação diagnóstica, não como método diagnóstico. A exceção é a calcificação pericárdica, que a radiografia mostra bem e que sugere fortemente constrição num paciente com insuficiência cardíaca — presente, porém, em apenas vinte e cinco por cento dos constritivos.

A tomografia responde perguntas de detalhe: espessamento do pericárdio, calcificação, loculação e septações do derrame, e densidade do líquido, que separa transudato — de zero a dez unidades Hounsfield — de exsudato, hemorragia e neoplasia. A presença de gás dentro do derrame associa-se a microrganismos. Na constrição, a tomografia mostra o espessamento e as calcificações, com o coração assumindo forma tubular estreita e os átrios e cavas distendidos.

A ressonância magnética cardíaca é a que enxerga a inflamação. Ela quantifica espessamento e volume do derrame e, pela técnica do realce tardio, identifica injúria inflamatória do miopericárdio. É o exame não invasivo com melhor acurácia para avaliar acometimento pericárdico em quem tem miocardite, e nesse cenário a diretriz de 2022 lhe dá recomendação classe I. Na prática do internato, ela raramente está disponível na primeira noite, e o capítulo trata como o que ela é: um exame de segunda linha, que se pede quando a dúvida persiste ou quando a decisão de tratar por meses depende dela.

Passo 6 — Quando o líquido tem de ser analisado

A pericardiocentese tem duas naturezas e é preciso separá-las na cabeça antes de pedir. A pericardiocentese terapêutica trata o tamponamento e não pede autorização de ninguém — a indicação é a instabilidade. A pericardiocentese diagnóstica tem indicação própria, e a diretriz brasileira a coloca em classe I com nível de evidência B em três situações: suspeita de tuberculose, de neoplasia e de etiologia bacteriana ou fúngica. Em classe IIa fica o derrame importante assintomático.

O material colhido vai para citologia, cultura, pesquisa de células neoplásicas, pesquisa viral por reação em cadeia da polimerase e dosagem de adenosina deaminase, conforme a suspeita. A relação entre a glicose do líquido e a do soro ajuda a separar as etiologias: ela é baixa na pericardite purulenta e mais alta na tuberculosa e na neoplásica, junto com a contagem e o predomínio celular.

As contraindicações precisam ser sabidas de cor porque uma delas é absoluta e o erro é fatal: dissecção de aorta. Puncionar o pericárdio de quem tem tamponamento por dissecção retira a contenção que está segurando o sangramento. As relativas são coagulopatia, anticoagulação, plaquetas abaixo de 50 mil por milímetro cúbico, e derrame pequeno, posterior ou loculado — que também é o cenário em que a punção tem menos chance de dar certo e mais chance de lesar.

O procedimento por cateter deve ser guiado por ecocardiografia, que identifica o melhor sítio e o ângulo, reduz complicações e aumenta a taxa de sucesso. Depois de introduzido o cateter, mede-se a pressão da cavidade e aspira-se; o alívio dos sintomas deve ser imediato. O cateter permanece por alguns dias e não deve ser retirado enquanto a drenagem não cair abaixo de 20 a 30 mililitros em 24 horas. Quando a pressão atrial direita continua elevada depois de a pressão intrapericárdica normalizar, o quadro é efusivo-constritivo.

A drenagem cirúrgica — janela pericárdica — tem a vantagem de permitir biópsia e é a via recomendada na recidiva do derrame após drenagem por cateter, nos coágulos e nos derrames localizados que a via percutânea não alcança. Na pericardite purulenta, a drenagem cirúrgica é o procedimento de escolha. Nada disso é procedimento de interno: o que é seu é reconhecer a indicação, saber a contraindicação absoluta e chamar quem faz.

07

Da porta à decisão: o fluxo, os quatro critérios, o destino e a conta do comprimido

Separe inflamação pericárdica de comprometimento do enchimento cardíaco. A primeira exige integrar dor, ECG, marcadores e imagem; o tamponamento é uma emergência hemodinâmica que pede reconhecimento e acionamento imediato da equipe. O tamanho do derrame, isoladamente, não descreve a velocidade de instalação nem a repercussão. Quatro consultas rápidas, dispostas na ordem em que o plantão as pede. O fluxo é a sequência de decisões desde o traçado até a alta ou a internação. A primeira tabela é a régua diagnóstica contável. A segunda diz onde o paciente dorme. A terceira lê o derrame ao ecocardiograma. A quarta traduz cada dose escrita nas diretrizes em comprimidos de verdade, num homem de 72 quilos, e diz onde o Sistema Único de Saúde fornece cada um. As notas ao fim registram as conferências aritméticas feitas sobre as fontes oficiais, inclusive as que fecharam.

  1. 1Paciente com dor torácica e traçado com supradesnivelamento: primeiro decida se o supra desenha uma parede coronária. Se desenha, ou se há qualquer critério de oclusão, o paciente sai desta rota e entra na de reperfusão. Essa decisão é dos capítulos de síndrome coronariana aguda.
  2. 2Se o supra é difuso, de concavidade superior, sem imagem em espelho e com infradesnivelamento do segmento PR, some ao exame físico e conte os critérios: dor característica, atrito, traçado característico, derrame. Dois fecham o diagnóstico.
  3. 3Antes de contar qualquer critério, olhe o pescoço e meça a pressão. Choque com jugular cheia e pulmões limpos tira o paciente desta página: é tamponamento até prova em contrário, e a próxima ação é chamar quem drena, não pedir exame.
  4. 4Ausculte o precórdio de propósito, com o diafragma, na borda esternal esquerda baixa, com o paciente inclinado à frente e em apneia expiratória. Se ouvir atrito, anote na hora — ele some.
  5. 5Peça eletrocardiograma, proteína C reativa, hemograma, troponina, função renal e ecocardiograma transtorácico. Peça também radiografia de tórax, sabendo que ela normal não muda nada.
  6. 6Leia a troponina como resposta à pergunta do miocárdio, não à do pericárdio. Se ela subiu, o diagnóstico passa a ser miopericardite e o destino muda.
  7. 7Percorra a lista de marcadores de alto risco. Um só presente já interna. Nenhum presente autoriza tratamento ambulatorial, com retorno marcado e proteína C reativa de controle.
  8. 8Escolha o anti-inflamatório considerando o histórico do paciente e a presença de indicação concomitante de antiagregação — quem já precisa de ácido acetilsalicílico por doença coronária usa ácido acetilsalicílico. Prescreva gastroproteção junto.
  9. 9Acrescente colchicina em dose ajustada ao peso, sem dose de ataque, por três meses no primeiro episódio. Confira a função renal e a lista de interações antes de escrever.
  10. 10Prescreva o afastamento do esforço físico por escrito, com o critério de retorno, e não só o repouso genérico.
  11. 11Marque o retorno com a proteína C reativa de controle e escreva no papel o sinal de alarme que traz o paciente de volta antes: falta de ar nova, desmaio, dor que não cede, febre alta.

Os quatro critérios contáveis, e a frequência com que cada um aparece

CritérioComo se reconhece à beira do leitoEm que fração dos casos aparece
Dor torácica característicaCortante, precordial ou retroesternal, piora deitado e na inspiração, melhora sentado e inclinado para a frente; pode irradiar para a borda do trapézioMais de 85 a 90 por cento
Atrito pericárdicoSom superficial e áspero, de um a três tempos, na borda esternal esquerda baixa, com o diafragma, paciente inclinado à frente e em apneia expiratória; transitório, some em horasNo máximo um terço
Alterações eletrocardiográficas característicasSupradesnivelamento do segmento ST difuso, de concavidade superior, sem imagem em espelho, poupando aVR e V1; infradesnivelamento do segmento PRAté 60 por cento pela régua europeia; mais de 80 por cento no estágio inicial pela brasileira
Derrame pericárdico novo ou em pioraEspaço livre de eco ao ecocardiograma transtorácico; medido em diástole e classificado em três faixasAté 60 por cento

Onde o paciente dorme: os achados que tiram a alta da mesa

AchadoQuem o lista, e desde quandoO que ele muda na sua conduta hoje
Elevação de marcador de necrose miocárdicaRégua brasileira de 2013; régua europeia de 2015 o classifica como fator de risco menorInterna. Passa a ser miopericardite: monitorização, ecocardiograma para função ventricular e afastamento de esforço mais longo
Febre acima de 38 graus com leucocitoseRégua brasileira de 2013; régua europeia de 2015 lista febre acima de 38 graus como fator maiorInterna. Levanta pericardite purulenta, que não se trata com anti-inflamatório e pede pericardiocentese diagnóstica
Derrame volumoso, com ou sem tamponamentoRégua brasileira de 2013; régua europeia de 2015 define volumoso como espaço livre acima de 20 milímetrosInterna. Define quem precisa de ecocardiograma seriado e de discussão de drenagem
Paciente imunocomprometidoRégua brasileira de 2013; régua europeia de 2015 o traz como fator menorInterna e amplia a investigação etiológica: tuberculose, fungo, bactéria, neoplasia
Uso prévio de anticoagulante oralRégua brasileira de 2013; régua europeia de 2015 o traz como fator menorInterna. Risco de hemopericárdio e de progressão rápida para tamponamento
Disfunção global ao ecocardiogramaRégua brasileira de 2013, que a lê como sinal de miopericarditeInterna. Muda o eixo do cuidado do pericárdio para o miocárdio
Curso subagudo, sem início nítido, e falha de resposta em 7 diasRégua europeia de 2015; a brasileira de 2013 não os listaInterna. São os dois fatores maiores que o documento brasileiro não escreve

Tamanho do derrame ao ecocardiograma e o que cada faixa autoriza

Espaço livre de eco em diástoleO que se vêO que a faixa autoriza
Abaixo de 10 milímetrosVisível apenas posteriormente ao ventrículo esquerdoDerrame pequeno. Não muda destino por si só; segue a decisão pelos demais marcadores de risco
De 10 a 20 milímetrosCircunda todo o coraçãoDerrame moderado. Reavaliação ecocardiográfica programada; pericardiocentese com biópsia se houver suspeita de tuberculose, neoplasia ou etiologia bacteriana
Acima de 20 milímetrosCircunda todo o coração, com afastamento amplo dos folhetosDerrame importante. Marcador de alto risco pelas duas réguas: interna, e a drenagem entra na mesa mesmo sem tamponamento
Qualquer faixa, em paciente chocadoColapso de átrio direito, colapso de ventrículo direito por mais de um terço da diástole, cavas dilatadas sem variação respiratóriaTrate como tamponamento. A repercussão depende da velocidade de instalação, não do tamanho

De miligrama a comprimido: as drogas deste capítulo num adulto de 72 quilos

Prescrição escrita na réguaApresentação real disponívelQuantos comprimidos, na contaOnde o Sistema Único de Saúde fornece
Ácido acetilsalicílico 500 mg a cada 8 horas — 1.500 mg por diaComprimido de 500 mg1 comprimido por tomada, 3 por diaRename 2024, componente básico, comprimido de 500 mg
Ácido acetilsalicílico 750 mg a cada 8 horas — 2.250 mg por diaComprimido de 500 mg1 comprimido e meio por tomada, 4 e meio por dia — exige partir o comprimidoRename 2024, componente básico, comprimido de 500 mg
Ácido acetilsalicílico 750 mg a cada 6 horas — 3.000 mg por diaComprimido de 500 mg1 comprimido e meio por tomada, 6 por diaRename 2024, componente básico, comprimido de 500 mg
Ibuprofeno 600 mg a cada 8 horas — 1.800 mg por diaComprimido ou cápsula de 600 mg1 por tomada, 3 por diaRename 2024, componente básico, comprimido e cápsula de 600 mg
Ibuprofeno 800 mg a cada 8 horas — 2.400 mg por diaComprimido de 600 mg1 comprimido e um terço por tomada — a dose não fecha em comprimido inteiro; 4 comprimidos por dia dão os mesmos 2.400 mg em 3 tomadas desiguaisRename 2024, componente básico
Colchicina 0,5 mg a cada 12 horas por 3 meses (peso igual ou acima de 70 quilos)Comprimido de 0,5 mg, embalagem com 302 comprimidos por dia; 182 comprimidos em 91 dias; 6,1 embalagensNão consta da Rename 2024 em nenhuma apresentação: o paciente compra
Colchicina 0,5 mg a cada 24 horas por 3 meses (peso abaixo de 70 quilos)Comprimido de 0,5 mg, embalagem com 301 comprimido por dia; 91 comprimidos em 91 dias; 3 embalagens exatasNão consta da Rename 2024: o paciente compra
Prednisona 0,2 a 0,5 mg por quilo por dia — 14,4 a 36 mg por diaComprimido de 5 mg e de 20 mgNenhuma das duas pontas fecha em comprimido inteiro de 20 mg: 14,4 mg arredondado para um comprimido de 20 mg é 39 por cento a mais; com o comprimido de 5 mg o desvio cai para 4 por centoRename 2024, componentes básico e estratégico, comprimidos de 5 mg e de 20 mg
Omeprazol 20 mg por dia, gastroproteção enquanto durar o anti-inflamatórioCápsula de 20 mg1 cápsula por diaRename 2024, componente básico, cápsulas de 10 mg e de 20 mg

Conferência que fechou: os cortes de tamanho do derrame formam partição fechada. Abaixo de 10 milímetros é pequeno, de 10 a 20 é moderado, acima de 20 é importante. Testando os valores de fronteira, 9,9 milímetros cai em pequeno, 10 cai em moderado, 20 cai em moderado e 20,1 cai em importante: nenhum valor pertence a duas classes e nenhum fica de fora. As duas réguas, a brasileira de 2013 e a europeia de 2015, usam os mesmos três cortes.

Conferência que fechou: o limiar do pulso paradoxal é o mesmo nos dois documentos — queda da pressão sistólica acima de 10 mmHg na inspiração, em respiração normal —, escrito com o mesmo sinal de maior nos dois, sem a discordância entre maior e maior ou igual que costuma aparecer em cortes numéricos repetidos entre diretrizes.

Desmame do salicilato, régua brasileira de 2013, seção 5.1. O texto prescreve ácido acetilsalicílico de 500 a 750 mg a cada 6 ou 8 horas por 7 a 10 dias, seguido de redução gradual de 500 mg por semana durante três semanas. As quatro combinações dão doses diárias diferentes, e o desmame de três semanas só zera na menor delas. A conta: 500 mg a cada 8 horas são 1.500 mg por dia, e três reduções de 500 mg zeram em três semanas. Já 500 mg a cada 6 horas são 2.000 mg por dia e exigem 4 semanas; 750 mg a cada 8 horas são 2.250 mg por dia e exigem 4 semanas e meia; 750 mg a cada 6 horas são 3.000 mg por dia e exigem 6 semanas. Prescrito ao pé da letra no esquema mais alto, o paciente termina as três semanas ainda tomando 1.500 mg por dia — metade da dose inicial.

Duração do ácido acetilsalicílico: a tabela contradiz o texto corrido do mesmo documento. A Tabela 30 da régua brasileira de 2013 recomenda, em classe I com nível de evidência A, aspirina ou ibuprofeno por 14 dias no tratamento da pericardite aguda. O texto da seção 5.1, na mesma página, prescreve o ácido acetilsalicílico por 7 a 10 dias seguidos de três semanas de desmame — isto é, de 28 a 31 dias no total, o dobro do que a tabela recomenda. Para o ibuprofeno não há discordância: texto e tabela dizem 14 dias.

Colchicina, régua brasileira de 2013, seção 5.1: a frase é 0,5 mg de 12 em 12 horas ou 0,5 mg a cada 24 horas nos pacientes com menos de 70 quilos. O qualificador de peso está preso apenas à segunda opção, de modo que a frase, lida isoladamente, não diz a quem cabe a dose de 12 em 12 horas. A régua europeia de 2015 escreve a mesma posologia com os dois lados explícitos, sem dose de ataque: 0,5 mg uma vez ao dia se o peso for menor que 70 quilos, e 0,5 mg duas vezes ao dia se for igual ou maior. É essa leitura que a tabela de comprimidos deste capítulo adota.

Corticoide intrapericárdico: três doses de triancinolona no mesmo documento de 2013, em três unidades diferentes. A seção 5.2 escreve 300 mg em dose única; a seção 6.6, das pericardites autoimunes, escreve 300 mg por metro quadrado de superfície corporal em 24 horas; a seção 6.1, da doença renal, escreve 50 mg a cada 6 horas por 3 dias. Num adulto com 1,7 metro quadrado de superfície, os 300 mg por metro quadrado são 510 mg, ou 1,7 vez a dose fixa; o esquema renal totaliza 600 mg em três dias. A diferença entre a dose fixa e a dose por superfície não é de arredondamento: é de unidade.

Corticoide sistêmico: a dose recomendada e a dose que o próprio texto prefere não são a mesma. A régua brasileira de 2013 recomenda prednisona 1 mg por quilo por 2 a 4 semanas e, poucas linhas adiante, registra que doses baixas — de 0,2 a 0,5 mg por quilo por dia durante 4 semanas — tiveram a mesma eficácia com menor taxa de efeitos adversos. A régua europeia de 2015 recomenda expressamente a faixa baixa em vez da alta. Num homem de 72 quilos, 1 mg por quilo são 72 mg e 0,2 mg por quilo são 14,4 mg — cinco vezes de diferença entre as duas pontas do mesmo documento.

Contradição entre a régua e o registro sanitário, no grupo em que a régua mais insiste. A régua brasileira de 2013 estima a forma urêmica em cerca de um em cada dez portadores de doença renal crônica, e a forma ligada à diálise em cerca de quinze em cada cem dos que fazem hemodiálise, recomendando colchicina nos casos refratários à própria diálise. A bula brasileira da colchicina contraindica o fármaco quando a filtração glomerular estimada está abaixo de 15 mililitros por minuto, que é a faixa de quem dialisa, e reduz a dose a 0,5 mg a cada 2 ou 3 dias já na faixa de 15 a 29 — um sexto da dose de quem pesa 70 quilos e tem rim normal. A régua europeia de 2015 relata, para a mesma população, incidência em torno de 5 por cento em quem inicia diálise e frequência de 2 a 21 por cento para a forma dialítica, faixa dentro da qual os números brasileiros ficam na metade superior.

Conferência de frequência que não fechou entre a diretriz e o registro sanitário, no efeito adverso que faz o paciente abandonar o tratamento. A régua brasileira de 2013 escreve que o principal efeito adverso da colchicina é a diarreia, que acomete cerca de 8 por cento dos pacientes. A bula brasileira do comprimido de 0,5 mg classifica a diarreia entre as reações muito comuns, faixa que ela própria define como acima de 10 por cento. A diferença entre 8 e mais de 10 por cento é pequena em valor absoluto e muda a frase que se diz ao paciente: pela diretriz, menos de um em cada dez; pela bula, mais de um em cada dez. Este capítulo dá os dois números com o dono de cada um, em vez de escolher o mais conveniente.

Estatuto regulatório da colchicina no Brasil: a busca exata pelo termo no texto integral da Rename 2024 retorna zero ocorrências, em qualquer apresentação e em qualquer componente de financiamento. A bula brasileira do comprimido de 0,5 mg lista como indicações aprovadas a crise aguda de gota, a profilaxia na artrite gotosa crônica, a febre familial do Mediterrâneo, o escleroderma, a poliartrite associada à sarcoidose e à psoríase, e a doença de Peyronie; pericardite não está entre elas. Isso não é peculiaridade brasileira nem descuido de bula: a própria régua europeia de 2015 abre o documento registrando que toda terapia medicamentosa das doenças pericárdicas é uso fora de bula, porque nenhum fármaco foi registrado até hoje para indicação pericárdica específica.

Discordância aritmética dentro da régua europeia de 2015, sobre o efeito do tratamento antituberculose na constrição. A seção 3.7.3 afirma que os antibióticos antituberculose reduzem o risco de constrição de mais de 80 por cento para menos de 10 por cento, o que é uma redução relativa de pelo menos 87,5 por cento. A seção 5.2.1.2 afirma que, antes da quimioterapia eficaz, até 50 por cento dos pacientes com pericardite tuberculosa efusiva progrediam para constrição, e que o tratamento baseado em rifampicina reduziu a incidência para 17 a 40 por cento — o que, no pior extremo, é uma redução relativa de 20 por cento. As duas frases citam a mesma referência 79 e diferem por um fator de 4,4 no tamanho do efeito; e o intervalo de 17 a 40 por cento aparece antes, no mesmo documento, como a mortalidade da pericardite tuberculosa em 6 meses.

As frequências de cada critério vêm de documentos diferentes e não se somam. O percentual da dor, do atrito e do derrame vem da régua europeia de 2015; o percentual das alterações eletrocardiográficas aparece nas duas — até 60 por cento na europeia, e mais de 80 por cento para o conjunto do estágio inicial na brasileira de 2013. Como cada paciente pode ter mais de um critério, a soma das quatro frequências passa de 100 por cento sem que isso indique erro: elas medem presença, não partição.

Sobre a régua brasileira de tratamento: os quatro critérios contáveis e a exigência de dois deles não estão escritos no documento brasileiro de 2013, que descreve a apresentação clássica em prosa. Eles entram no corpo brasileiro pela Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência de 2025, que os enuncia como régua diagnóstica. Essa diretriz de 2025 trata do diagnóstico e não do tratamento: a posologia, a duração, o desmame e a conduta no tamponamento continuam sendo governadas pelo documento de 2013.

08

A conduta, hora a hora

A conduta deste capítulo tem uma bifurcação logo no primeiro minuto, e ela não é diagnóstica: é hemodinâmica. Antes de decidir se o paciente tem pericardite, decida se ele está em tamponamento. Os dois ramos não se parecem em nada — num deles a intervenção é um telefonema, no outro é uma receita de três meses. O que se segue está em ordem de relógio, e as prescrições listadas trazem entre parênteses o documento de onde cada uma sai.

Duas coisas que este capítulo não faz: não conduz a rota de reperfusão, que é dos capítulos de síndrome coronariana aguda, e não conduz o tamponamento traumático, cuja solução definitiva é cirúrgica e cujo manejo é território do capítulo de trauma torácico da apostila de Trauma.

  1. Minuto 0 — a pergunta que precede o diagnóstico

    Olhe o pescoço, meça a pressão nos dois braços e mantenha o dedo no pulso radial durante três ciclos respiratórios. A pergunta é uma só: este paciente está em choque com pressão venosa alta e pulmões limpos? Se está, ele saiu da rota da pericardite e entrou na do tamponamento, e a partir daqui você tem minutos, não horas. Se não está, você tem a noite inteira para fazer o diagnóstico direito. Essa triagem custa noventa segundos e é a única parte deste capítulo que não pode ser adiada por exame nenhum.

    Prescrição
    • Monitorização contínua de ritmo, oximetria e pressão arterial não invasiva em todo paciente com suspeita de derrame pericárdico e qualquer instabilidade
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos antes de qualquer exame de imagem, no paciente com pressão limítrofe
    • Medida do pulso paradoxal com esfigmomanômetro, anotada em milímetros de mercúrio no prontuário, e não descrita como presente ou ausente
    • Eletrocardiograma de 12 derivações, sabendo que traçado normal não afasta tamponamento e que baixa voltagem e alternância elétrica, quando presentes, reforçam a hipótese (SBC 2013, seção 4.5)
  2. Minuto 0 no paciente chocado — o que fazer, e as três coisas que não se faz

    O tratamento do tamponamento é a drenagem do líquido, e nada além disso resolve. O que você faz enquanto espera quem drena tem efeito real mas limitado: infusão rápida de cristaloide melhora a perfusão porque aumenta a pressão de enchimento das câmaras direitas contra a pressão do saco, e compra minutos. Na presença de bradicardia, aminas ou atropina. Chamar é a intervenção principal, e ela se faz pelo nome, com a hipótese dita em voz alta e a palavra tamponamento pronunciada — pedido de ajuda sem urgência declarada vira fila. As três coisas que não se faz decorrem todas do mesmo mecanismo: o problema é enchimento, e tudo que reduz enchimento piora. Não dê diurético porque a jugular está cheia; não dê vasodilatador porque a pressão de enchimento está alta; e evite ventilação com pressão positiva enquanto for possível, porque a pressão intratorácica positiva reduz ainda mais o retorno venoso — se a intubação for inevitável, ela é feita com o paciente já expandido e com quem drena a caminho.

    Prescrição
    • Cristaloide em infusão rápida para estabilização hemodinâmica antes da drenagem, com a finalidade explícita de ganhar tempo e não de tratar (SBC 2013, seção 5.4)
    • Amina vasoativa ou atropina apenas na presença de bradicardia (SBC 2013, seção 5.4)
    • Acionar quem realiza a drenagem — pericardiocentese percutânea guiada por ecocardiografia, ou drenagem cirúrgica aberta com ou sem janela pericárdica (SBC 2013, seção 5.4; Tabela 31, classe I)
    • Não prescrever diurético, não prescrever vasodilatador, e adiar a ventilação com pressão positiva sempre que possível — as três medidas reduzem o enchimento, que é exatamente o que está comprometido
    • Verificar antes da punção a contraindicação absoluta: dissecção de aorta. Contraindicações relativas são coagulopatia, anticoagulação, plaquetas abaixo de 50 mil por milímetro cúbico e derrame pequeno, posterior ou loculado (SBC 2013, seção 4.11)
  3. Hora 1 — pericardite sem instabilidade: decidir o destino antes de decidir a receita

    Com o paciente estável, a decisão que mais muda o desfecho não é qual anti-inflamatório, é onde ele dorme. Percorra a lista de marcadores de alto risco e trate como binária: um único presente já interna. São seis, na régua brasileira de 2013: troponina ou creatinoquinase fração MB elevadas; temperatura acima de 38 graus somada a leucocitose; derrame volumoso, tenha ele repercussão ou não; imunossupressão de qualquer origem; anticoagulação oral prévia; e disfunção ventricular global vista ao ecocardiograma. A régua europeia de 2015 acrescenta dois fatores maiores que o documento brasileiro não escreve, e que valem a pena na sua lista mental: curso subagudo, sem início nítido, e falha de resposta ao anti-inflamatório em sete dias. Nenhum presente autoriza tratamento ambulatorial com retorno marcado — e é assim que a maioria dos pacientes vai embora.

    Prescrição
    • Internação hospitalar diante de qualquer um dos seis marcadores de alto risco, com intensificação da avaliação etiológica (SBC 2013, seção 4.1)
    • Tratamento ambulatorial na ausência de todos eles, com retorno programado e proteína C reativa de controle (SBC 2013, Figura 3)
    • Ecocardiograma transtorácico com Doppler antes de decidir o destino, mesmo no paciente que parece leve (SBC 2013, Tabela 25, classe I; Diretriz de Dor Torácica 2025, Tabela 33, classe I)
    • Proteína C reativa na admissão, como valor de base para o seguimento (SBC 2013, Tabela 22, classe I)
    • Função renal, hormônios tireoidianos e provas reumatológicas na investigação etiológica; hemoculturas se houver suspeita bacteriana (SBC 2013, Tabela 22, classe I)
    • Não pedir sorologia viral em sangue: ela não se correlaciona com o achado pericárdico (SBC 2013, seção 4.4.2)
  4. Hora 1 — a primeira dose do anti-inflamatório

    O anti-inflamatório é o tratamento da dor e da inflamação, e a dose é a dose anti-inflamatória, não a analgésica. A escolha entre ácido acetilsalicílico e ibuprofeno se faz por três critérios: o histórico do paciente, com contraindicações e efeitos prévios; a presença de doença concomitante que já exija antiagregação, caso em que o ácido acetilsalicílico tem preferência óbvia; e a familiaridade de quem prescreve. Uma exceção precisa ser lembrada: na pericardite pós-infarto, evita-se indometacina, por interferência na cicatrização da área infartada. E a gastroproteção não é opcional — a diretriz brasileira escreve que todos os pacientes devem usar inibidor de bomba de prótons, e a régua europeia repete a exigência.

    Prescrição
    • Ácido acetilsalicílico 500 a 750 mg por via oral a cada 6 ou 8 horas, por 7 a 10 dias (SBC 2013, seção 5.1)
    • Ou ibuprofeno 400 a 800 mg por via oral a cada 6 ou 8 horas, por 14 dias (SBC 2013, seção 5.1)
    • Omeprazol 20 mg por via oral uma vez ao dia, mantido enquanto durar o anti-inflamatório (SBC 2013, seção 5.1, que exige inibidor de bomba de prótons para todos)
    • Evitar indometacina na pericardite após infarto agudo do miocárdio (SBC 2013, seção 5.1)
    • Não iniciar corticoide como primeira linha: ele fica reservado à falha do anti-inflamatório com colchicina, à doença autoimune ou do tecido conjuntivo e à pericardite urêmica (SBC 2013, seção 5.2, classe I)
  5. Hora 1 — a colchicina, que é a parte que muda o desfecho

    É a prescrição que o interno mais esquece e a única deste capítulo que reduz um desfecho duro. A colchicina não trata a dor de hoje: ela reduz pela metade a chance de o paciente voltar. A dose é baixa, ajustada ao peso, e não leva dose de ataque — 0,5 mg duas vezes ao dia para quem pesa 70 quilos ou mais, e 0,5 mg uma vez ao dia para quem pesa menos. A duração é de três meses no primeiro episódio e de seis meses na recorrência. Antes de escrever, confira três coisas: a função renal, a lista de interações e o bolso. A função renal, porque a bula reduz a dose já entre 30 e 59 mililitros por minuto de filtração estimada e contraindica abaixo de 15. As interações, porque o fármaco é metabolizado pela via do citocromo P450 3A4 e transportado pela glicoproteína P — claritromicina, itraconazol, cetoconazol, ritonavir, ciclosporina, verapamil, diltiazem e eritromicina elevam a concentração, com relatos de toxicidade fatal, e a associação a estatinas e fibratos aumenta o risco de rabdomiólise. O bolso, porque o fármaco não consta da Rename e o paciente vai comprar: três meses a dois comprimidos por dia são 182 comprimidos, ou seis embalagens de trinta.

    Prescrição
    • Colchicina 0,5 mg por via oral a cada 12 horas se o peso for igual ou maior que 70 quilos, ou 0,5 mg a cada 24 horas se for menor, sem dose de ataque, por 3 meses no primeiro episódio (SBC 2013, seção 5.1 e Tabela 30, classe I nível A; ESC 2015, seção 3.1.1)
    • Colchicina por 6 meses na pericardite recorrente, na mesma dose ajustada ao peso (SBC 2013, Tabela 30, classe I nível A; ESC 2015, seção 3.3.1)
    • Ajuste renal pela bula brasileira: 0,5 mg uma vez ao dia com filtração glomerular estimada de 30 a 59 mL/min; 0,5 mg a cada 2 ou 3 dias de 15 a 29; contraindicada abaixo de 15
    • Orientar por escrito que diarreia é o efeito adverso mais frequente, e que ela pede contato antes de o paciente suspender por conta própria — a régua brasileira de 2013 estima cerca de 8 por cento e a bula brasileira a classifica como muito comum, acima de 10 por cento (SBC 2013, seção 5.1; bula Geolab V.03_06/2018, seção 9)
    • Evitar em disfunção hepática, discrasia sanguínea e distúrbio de motilidade gastrointestinal (SBC 2013, seção 5.1)
    • Revisar a prescrição em uso à procura de inibidores do citocromo P450 3A4 e da glicoproteína P, e de estatina ou fibrato, antes da primeira dose (bula Geolab, seção de interações)
  6. Dia 1 — o repouso, que aqui é prescrição e não conselho

    Restringir esforço físico é parte do tratamento e precisa ser escrita com critério de retorno, não como a palavra repouso solta no fim da receita. Para quem não pratica esporte competitivo, a régua europeia de 2015 restringe a atividade além da vida sedentária habitual até a resolução dos sintomas e a normalização da proteína C reativa. Para atletas, a mesma régua fixa um mínimo de três meses desde o início do quadro, e condiciona o retorno à normalização de sintomas, proteína C reativa, eletrocardiograma e ecocardiograma. Quando há acometimento miocárdico, o prazo muda de patamar: a régua europeia contraindica exercício por pelo menos seis meses, e a diretriz brasileira de miocardites de 2022 declara que não há consenso sobre esse período, registra que até recentemente se estabelecia mínimo de seis meses e que hoje alguns especialistas liberam com três, e coloca em classe IIa o retorno de atletas e não atletas assintomáticos entre três e seis meses. A régua brasileira de pericardite de 2013 não trata do assunto.

    Prescrição
    • Afastamento de esforço físico além da atividade sedentária habitual até a resolução dos sintomas e a normalização da proteína C reativa, no paciente sem envolvimento miocárdico e sem prática competitiva (ESC 2015, seção 3.1.1)
    • Afastamento mínimo de 3 meses desde o início do quadro em atleta, com retorno condicionado à normalização de sintomas, proteína C reativa, eletrocardiograma e ecocardiograma (ESC 2015, seção 3.1.1)
    • Afastamento de pelo menos 6 meses quando houver acometimento miocárdico pela régua europeia; entre 3 e 6 meses, em classe IIa, pela diretriz brasileira de miocardites de 2022, condicionado a função ventricular normal, biomarcadores normais e ausência de arritmia no Holter e no teste ergométrico
    • Registrar o afastamento no prontuário e no atestado com a data de reavaliação, e não apenas a palavra repouso
  7. Semana 2 a 4 — o desmame guiado pela proteína C reativa

    A retirada do anti-inflamatório deve ser progressiva e lenta, porque a retirada abrupta é uma das causas conhecidas de recorrência. E o gatilho do desmame não é o calendário: é a proteína C reativa. O documento brasileiro é explícito ao dizer que o tempo de tratamento pode ser guiado pelos níveis séricos como marcador de atividade inflamatória, e que valores persistentemente elevados indicam terapêutica prolongada e maior risco de recorrência. O esquema escrito é redução de 500 mg do ácido acetilsalicílico por semana durante três semanas — e vale saber que essa conta só zera se a dose de partida tiver sido a menor da faixa, o que está registrado nas notas de auditoria deste capítulo. Escreva o desmame no papel, com as datas e as doses de cada semana, porque nenhum paciente vai reconstruir isso de memória três semanas depois da consulta.

    Prescrição
    • Manter a dose plena até a resolução dos sintomas e a normalização da proteína C reativa, e só então iniciar a redução (SBC 2013, seção 5.1; ESC 2015, seção 3.1.1)
    • Redução de 500 mg por semana do ácido acetilsalicílico, escrita no papel com data e dose de cada semana, prolongando o desmame até zerar de fato a dose de partida (SBC 2013, seção 5.1)
    • Manter a colchicina pelos 3 meses completos, independentemente da retirada do anti-inflamatório e da resolução da dor (SBC 2013, Tabela 30)
    • Manter a gastroproteção enquanto durar o anti-inflamatório, incluindo o período de desmame
    • Repetir a proteína C reativa antes de cada degrau da redução, e não apenas ao fim
  8. Quando o anti-inflamatório não é o tratamento

    Quatro etiologias mudam a conduta inteira e o interno precisa reconhecê-las porque o erro aqui é tratar com anti-inflamatório uma doença que precisa de outra coisa. Na pericardite purulenta, a conduta é drenagem mais antimicrobiano, com a pericardiocentese servindo de diagnóstico e a drenagem cirúrgica sendo o procedimento de escolha nas formas persistentes e recorrentes. Na tuberculosa, o tratamento é o esquema antituberculose, e o corticoide adjuvante é objeto de controvérsia declarada no próprio documento; a conduta detalhada do esquema pertence ao capítulo de tuberculose. Na urêmica e na dialítica, quem trata é a própria diálise: a maioria resolve em uma a duas semanas quando a volemia é corrigida e a terapia dialítica é ajustada. É exatamente aí que o interno costuma escrever anti-inflamatório para quem já tem o rim comprometido. Na neoplásica, a drenagem alivia e o tratamento é o da doença de base, com a citologia do líquido decidindo o diagnóstico.

    Prescrição
    • Suspeita de pericardite purulenta — febre alta com leucocitose e derrame: pericardiocentese para diagnóstico, com Gram, cultura, pesquisa de fungos e de tuberculose, e antimicrobiano inicial cobrindo estafilococo até o resultado (SBC 2013, seção 6.5 e Tabela 34, classe I)
    • Suspeita de tuberculose pericárdica: pericardiocentese com biópsia, dosagem de adenosina deaminase, cultura e reação em cadeia da polimerase no líquido (SBC 2013, Tabela 28, classe I)
    • Pericardite urêmica ou associada à diálise: adequação da terapia dialítica e correção volêmica como tratamento principal, e cautela com anti-inflamatório e colchicina neste grupo (SBC 2013, seção 6.1)
    • Derrame neoplásico sintomático: drenagem percutânea ou cirúrgica para alívio, com citologia do líquido para o diagnóstico definitivo (SBC 2013, seção 6.3.1)
    • Cateter de drenagem mantido até que o débito caia abaixo de 20 a 30 mL em 24 horas (SBC 2013, seção 5.4)
    • Se o paciente precisar de anticoagulação por outra indicação durante a fase aguda, preferir heparina, com observação estrita (SBC 2013, seção 5)
09

Como saber se está funcionando

A reavaliação da pericardite tem uma vantagem incomum em cardiologia: quase todos os parâmetros são de beira de leito, e o único exame laboratorial que importa de verdade custa pouco e está disponível em qualquer serviço, inclusive nos que não têm ecocardiografista de plantão. A lista abaixo vale igualmente para o paciente internado e para o que voltou ao ambulatório — o que muda entre os dois é a frequência, não o conteúdo.

Duas janelas organizam o seguimento, e confundi-las é o erro de calendário deste capítulo. A janela das primeiras 48 horas responde duas perguntas: o diagnóstico está certo, e o tratamento pegou? Ela se responde com dor, atrito e sinais hemodinâmicos, quase sem exame. A janela das semanas seguintes responde uma pergunta diferente: ele já pode parar? Essa se responde com proteína C reativa, e é ela que decide se haverá recorrência.

Um terceiro eixo atravessa as duas janelas e costuma ser esquecido porque não pertence à doença: a tolerância ao tratamento. Um paciente que abandona a colchicina no décimo dia por diarreia perdeu os três meses de proteção, e ninguém vai descobrir isso se a pergunta não for feita em voz alta na consulta seguinte. Perguntar sobre efeito adverso é parte da reavaliação, não cortesia.

Dor, e a postura em que ela someA cada avaliação nas primeiras 48 horas; depois, no retorno

Esperado: Melhora nítida em 24 a 48 horas de anti-inflamatório em dose plena, com o paciente voltando a tolerar o decúbito. O sinal mais confiável de resposta não é a nota de zero a dez que ele dá para a dor: é a volta da capacidade de deitar sem se inclinar para a frente, porque essa é a manifestação direta do atrito que diminuiu

Se não melhora: Falha de resposta em 7 dias é fator maior de prognóstico ruim pela régua europeia de 2015 e, por si só, interna quem estava ambulatorial. Antes de subir dose ou trocar de classe, revise três hipóteses: a dose estava abaixo da anti-inflamatória, o diagnóstico é outro, ou a etiologia é purulenta, tuberculosa, neoplásica ou urêmica — quatro causas em que o anti-inflamatório não é o tratamento.

Proteína C reativa seriadaNa admissão, e repetida antes de cada degrau do desmame; controle programado em uma semana no paciente de alta

Esperado: Queda progressiva, com normalização em torno de duas semanas. Vale lembrar que cerca de um quarto dos pacientes tem marcadores de fase aguda normais já na avaliação inicial, sobretudo os que vinham usando anti-inflamatório por conta própria — nesses, a proteína C reativa não serve de régua de desmame e o critério volta a ser clínico

Se não melhora: Valor persistentemente elevado indica necessidade de terapia anti-inflamatória prolongada e sinaliza maior risco de recorrência. Não inicie o desmame com proteína C reativa ainda alta — é a decisão que mais produz recaída neste capítulo. Se o valor sobe depois de ter caído, procure recorrência ou etiologia não tratada.

Atrito pericárdicoEm toda ausculta, com a manobra específica, e não só na admissão

Esperado: Desaparecimento ao longo de dias; ele é transitório mesmo na doença ativa

Se não melhora: Atrito que reaparece depois de ter sumido, com dor, é recorrência até prova em contrário. Atrito novo em paciente que estava em desmame é indicação de voltar à dose plena e reprogramar a retirada.

Pressão arterial, pressão de pulso e pulso paradoxalA cada aferição no internado; em toda consulta de quem tem derrame conhecido

Esperado: Pressão estável, pressão de pulso preservada e pulso paradoxal abaixo de 10 mmHg. Anote o valor em milímetros a cada medida, e não a palavra ausente: a informação útil é a tendência entre uma aferição e a seguinte, e ela desaparece quando o registro é binário

Se não melhora: Pressão de pulso estreitando com taquicardia, em paciente com derrame conhecido, é a curva do tamponamento antes de a pressão cair. Não espere hipotensão: meça o pulso paradoxal, refaça o ecocardiograma e avise quem drena. Lembre que hipovolemia associada mascara o quadro — o tamponamento de baixa pressão existe e não tem jugular cheia.

Jugular e sinal de KussmaulDiariamente no internado, com a cabeceira a 45 graus

Esperado: Pressão venosa que baixa conforme o derrame regride

Se não melhora: Jugular que permanece elevada depois de o derrame ter sido drenado e a pressão intrapericárdica normalizada é o quadro efusivo-constritivo. Jugular que sobe na inspiração — sinal de Kussmaul — em paciente que já teve pericardite aponta constrição, e a distinção entre a forma transitória e a permanente se faz por marcador inflamatório e realce do pericárdio à tomografia ou à ressonância.

Ecocardiograma de controleProgramado conforme o tamanho: derrame importante pede reavaliação precoce e seriada; derrame pequeno segue o quadro clínico

Esperado: Redução do espaço livre de eco e desaparecimento dos sinais de repercussão

Se não melhora: Derrame que cresce sob tratamento adequado muda a pergunta de quanto tempo tratar para qual é a causa, e traz a pericardiocentese diagnóstica para a mesa — na régua brasileira, ela é classe I na suspeita de tuberculose, neoplasia ou etiologia bacteriana ou fúngica.

Tolerância à colchicina: hábito intestinal e hemogramaPerguntar em toda consulta enquanto durar o tratamento; hemograma se houver sintoma ou uso prolongado

Esperado: Boa tolerância na maioria; diarreia é o efeito mais comum e costuma ceder com ajuste

Se não melhora: Diarreia importante, fraqueza muscular, náuseas e vômitos pedem redução de dose. Elevação de creatinoquinase, mialgia e fraqueza levantam miotoxicidade, sobretudo em quem usa estatina ou fibrato. Citopenias pedem suspensão. E lembre da farmacocinética: a eliminação continua por dez dias ou mais depois de o paciente parar, então suspender não faz o efeito adverso desaparecer no dia seguinte.

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Onde o erro machuca

Chamar de pericardite um supradesnivelamento que é oclusão coronária

O dano: É o erro de maior custo do capítulo, porque nega reperfusão a quem tem artéria fechada. A armadilha tem uma forma preferida: o supra de fase muito inicial do infarto pode ter concavidade superior, e o paciente jovem sem fator de risco convida à hipótese benigna. A distinção não se faz por idade nem por posição da dor — faz-se pela distribuição, pela imagem em espelho e pelo infradesnivelamento do segmento PR.

Como pegar a tempo: Antes de escrever pericardite no prontuário, responda a três perguntas em voz alta: o supra desenha uma parede coronária? existe infradesnivelamento recíproco em alguma derivação? existe infradesnivelamento do segmento PR? Se a resposta às duas primeiras for sim, ou à terceira for não, a hipótese coronária continua de pé e a rota dela segue em paralelo. Traçado seriado a cada 10 a 20 minutos custa nada e desempata.

Esperar o ecocardiograma para decidir no paciente chocado com derrame

O dano: O tamponamento é diagnóstico clínico, e a espera pelo exame é o que transforma uma decisão de minutos numa parada. À noite, num serviço sem ecocardiografista de plantão, essa espera pode ser de horas — e o paciente que estava em 88 por 74 quando o pedido foi feito já cruzou o joelho da curva quando o aparelho chega.

Como pegar a tempo: Separe as duas funções do exame. Ele quantifica, guia a agulha e acompanha; ele não autoriza a decisão. Diante de choque com jugular cheia, pulmões limpos e derrame conhecido ou presumido, acione quem drena enquanto o exame é providenciado, e não depois. Se houver ultrassom à beira do leito disponível, a janela subcostal responde a pergunta binária que interessa em segundos.

Prescrever diurético ao paciente com tamponamento porque a jugular está cheia

O dano: A jugular cheia induz o reflexo aprendido na insuficiência cardíaca, e aqui ele é exatamente ao contrário. No tamponamento a pressão de enchimento alta é o que ainda mantém alguma diástole contra a pressão do saco; reduzir volume derruba o pouco de enchimento que resta e converte hipotensão em parada. O mesmo raciocínio vale para vasodilatador e para pressão positiva na via aérea.

Como pegar a tempo: Fixe a regra pelo mecanismo, não pela lista: no choque obstrutivo por tamponamento, tudo que reduz enchimento piora. Diante de jugular cheia com pulmão limpo, pergunte antes de prescrever se o problema é excesso de volume ou obstrução ao enchimento — crepitações e hipoxemia apontam para o primeiro, ausculta limpa aponta para o segundo. A régua completa da hipotensão com jugular cheia está no capítulo de hipotensão na enfermaria.

Dar anti-inflamatório em dose analgésica por cinco dias e liberar

O dano: É a receita da recorrência, e ela combina três omissões de uma vez: dose abaixo da anti-inflamatória, duração curta demais, e retirada abrupta sem desmame. Trinta por cento dos pacientes recorrem em dezoito meses com tratamento correto; com esse esquema, mais. O paciente volta em quatro semanas com a mesma dor, e agora precisa de seis meses de colchicina em vez de três.

Como pegar a tempo: Escreva a dose anti-inflamatória por extenso, com intervalo e duração; escreva o desmame com as datas de cada degrau; e escreva a proteína C reativa de controle. Se a receita cabe em uma linha, ela está errada. E confira uma coisa antes de assinar: a colchicina está lá?

Não prescrever colchicina, ou prescrevê-la sem olhar a função renal e a lista de interações

O dano: As duas metades do erro têm custos opostos. Não prescrever dobra a chance de recorrência num paciente que, na maioria das vezes, tem prognóstico excelente e podia não voltar. Prescrever sem conferir é pior num subgrupo pequeno: o fármaco tem índice terapêutico estreito, meia-vida longa, e a associação a inibidores do citocromo P450 3A4 e da glicoproteína P já produziu relatos de toxicidade fatal.

Como pegar a tempo: Trate a colchicina como uma prescrição de três checagens obrigatórias: peso, para escolher entre uma e duas tomadas; filtração glomerular estimada, porque a bula reduz a dose abaixo de 60 e contraindica abaixo de 15; e a lista de medicamentos em uso, procurando macrolídeo, azólico, antirretroviral, ciclosporina, verapamil, diltiazem, estatina e fibrato. Some uma quarta, que não é farmacológica: diga ao paciente que o remédio não está na farmácia básica e quantas caixas ele vai precisar.

Começar corticoide como primeira linha porque a resposta é rápida

O dano: A melhora clínica é de fato dramática, e é por isso que a armadilha funciona. O custo aparece depois: o corticoide favorece a recorrência por ancoramento imunológico, e a retirada rápida é apontada como um dos principais determinantes de recaída. Um paciente que ia resolver em duas semanas passa a ter meses de dependência de dose, com desmames que se arrastam por três meses.

Como pegar a tempo: Guarde as indicações em que o corticoide é a escolha certa e não use fora delas: falha do anti-inflamatório com colchicina, doença autoimune ou do tecido conjuntivo, e pericardite urêmica. Quando for usar, use na faixa baixa a moderada — a régua europeia de 2015 recomenda expressamente 0,2 a 0,5 mg por quilo por dia em vez de 1 mg por quilo —, mantenha a colchicina associada e planeje a retirada lenta desde a primeira receita.

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O que dizer ao paciente e à família

Este capítulo tem duas conversas muito diferentes: uma com um jovem que teve um susto e vai ficar bom, e outra com alguém que pode morrer nas próximas horas. A primeira é a que se faz errado com mais frequência, porque o médico aliviado transmite alívio e o paciente para de tomar o remédio na semana seguinte.

Dizer ao paciente jovem que não foi infarto, sem tirar a seriedade do que ele tem

O exame do coração mostrou uma inflamação da membrana que envolve o coração, e não um entupimento de artéria — por isso o senhor não vai para o cateterismo. É uma doença que costuma ir muito bem e não deixa sequela no músculo do coração. Mas ela tem uma mania: volta em cerca de um a cada três pacientes se o tratamento for feito pela metade. Por isso vou explicar duas partes: o remédio da dor, que o senhor toma por poucas semanas, e o outro, que o senhor toma por três meses mesmo depois de estar bom.

Não diga: Dizer que não foi nada, ou que foi só uma inflamaçãozinha. É a frase que produz o paciente que para o remédio no quinto dia. Evite também descrever como problema no coração sem qualificar — a metade dos pacientes ouve isso como infarto e a outra metade como sentença.

Explicar por que são três meses de um comprimido quando a dor passa em três dias

Esses dois remédios fazem coisas diferentes. O primeiro tira a dor e a inflamação, e o senhor vai sentir efeito em um ou dois dias. O segundo não é para a dor: é para a doença não voltar. Quem toma ele por três meses tem cerca de metade da chance de ter uma nova crise, comparado com quem não toma. Quando a dor passar, a vontade de parar vai vir — e é justamente aí que ele está trabalhando.

Não diga: Dizer apenas que é o protocolo, ou que são três meses porque sim. Sem o número — metade da chance de voltar —, a adesão a um comprimido diário que não produz sensação nenhuma é muito baixa.

Avisar sobre a diarreia da colchicina antes que ela aconteça

Esse comprimido tem um efeito colateral comum, e é melhor o senhor saber antes: cerca de um a cada dez pacientes tem diarreia. Se acontecer, não pare por conta própria — me procure, porque na maioria das vezes a gente resolve ajustando a dose e o senhor não perde os três meses de proteção. E preste atenção em duas coisas menos comuns: dor muscular com fraqueza, e sangramento de gengiva ou infecção seguida. Essas pedem contato imediato.

Não diga: Entregar a receita sem falar do efeito adverso mais frequente do fármaco. O paciente que tem diarreia sem aviso interpreta como intoxicação, para o remédio e não conta na consulta seguinte.

Explicar a restrição de esforço ao rapaz que joga bola no fim de semana

Enquanto a inflamação estiver ativa, esforço pesado não é seguro. O senhor pode fazer a vida normal — trabalhar, andar, subir escada — mas nada de treino, jogo ou academia pesada. Quem faz esporte de competição fica fora por pelo menos três meses. No seu caso a gente libera quando a dor tiver passado e o exame de sangue da inflamação tiver normalizado, e é por isso que vou pedir esse exame de novo daqui a uma semana.

Não diga: Escrever repouso na receita e não dizer mais nada. A palavra sozinha é entendida como ficar de cama por dois dias, e nenhum paciente pergunta quando pode voltar a jogar.

Pedir ecocardiograma de urgência às quatro da manhã

É a doutora do plantão? Tenho uma paciente de 66 anos, na sala de emergência, com derrame pericárdico provável e choque: pressão 88 por 74 caindo, frequência 122, jugular cheia, pulmões limpos e pulso paradoxal de 16 milímetros. Preciso de um ecocardiograma agora, à beira do leito, para confirmar tamponamento e guiar a drenagem. Já chamei a cirurgia. Se a senhora não puder vir nos próximos minutos, me diga, porque a decisão vai ser clínica.

Não diga: Pedir um ecocardiograma para amanhã cedo, ou descrever o caso como paciente com falta de ar e derrame. A palavra tamponamento, o número da pressão e o pulso paradoxal medido são o que transforma o pedido em prioridade — e a frase final é o que impede a espera de virar decisão por omissão.

Chamar quem drena, no meio da noite, quando você é o interno

Doutor, é o interno do pronto-socorro. Paciente de 66 anos com câncer de mama tratado, dispneia progressiva há três dias, agora em choque. Tríade completa: hipotensão, jugular cheia e bulhas abafadas, com pulso paradoxal de 16 milímetros. Hipótese é tamponamento cardíaco. Está com dois acessos, monitorizada, recebendo volume, e o ecocardiograma foi solicitado. Preciso do senhor aqui agora.

Não diga: Dizer que é para aparecer quando der. Sem urgência declarada, o chamado entra em fila — e aqui a espera é o próprio mecanismo de morte. Evite também deixar o recado por escrito num aplicativo: mensagem não tira ninguém do que está fazendo.

Falar com a família enquanto se espera a drenagem

A senhora está com líquido acumulado em volta do coração, e esse líquido está apertando o coração e impedindo que ele encha direito — é por isso que a pressão está caindo. O tratamento é retirar esse líquido com uma agulha, guiada por ultrassom, e a equipe que faz isso já está a caminho. É um procedimento com risco, e vou ser honesto: ele é menor do que o risco de não fazer. Assim que ela estiver estável, vamos investigar por que esse líquido apareceu.

Não diga: Prometer que a drenagem resolve tudo. No derrame de causa neoplásica a drenagem alivia e a causa continua lá, e a família que ouviu resolve interpreta a recidiva como erro. Evite também explicar a fisiologia inteira: a família precisa saber o que está acontecendo, o que será feito e quando terá notícia.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Que dose de anti-inflamatório usar quando a troponina subiu

Dose anti-inflamatória plena, a mesma da pericardite pura — Sociedade Brasileira de Cardiologia, documento de pericardites de 2013

O documento brasileiro que governa o tratamento da pericardite trata os anti-inflamatórios não hormonais como a droga principal do início do tratamento, prescreve ácido acetilsalicílico de 500 a 750 mg a cada 6 ou 8 horas e ibuprofeno de 400 a 800 mg a cada 6 ou 8 horas, e não abre exceção de dose para o paciente com marcador de necrose miocárdica elevado. A elevação de troponina entra no documento como marcador de alto risco que indica internação e investigação etiológica, não como motivo para reduzir a dose.

I Diretriz Brasileira de Miocardites e Pericardites, Arq Bras Cardiol. 2013;100(4 Supl. 1):1-36, seções 4.1 e 5.1

Dose reduzida e com cautela quando há acometimento miocárdico — Sociedade Brasileira de Cardiologia, documento de miocardites de 2022

A diretriz brasileira de miocardites, publicada nove anos depois pela mesma sociedade, escreve que nos casos virais ou idiopáticos sem disfunção ventricular o uso de anti-inflamatórios para controle da lesão pericárdica deve ser considerado com cautela e em doses reduzidas, porque em modelos experimentais esses fármacos aumentaram a mortalidade e pioraram a inflamação miocárdica. O documento não fixa qual é a dose reduzida.

Diretriz de Miocardites da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2022, Arq Bras Cardiol. 2022;119(1):143-211, seção 6.9.1

Mesma dose empírica da pericardite, com registro de que alguns autores reduzem — Sociedade Europeia de Cardiologia, 2015

A régua europeia trata a miopericardite como se trata a pericardite, prescreve ácido acetilsalicílico de 1.500 a 3.000 mg por dia ou ibuprofeno de 1.200 a 2.400 mg por dia para controlar a dor, e registra em seguida que alguns autores recomendam reduzir as doses em comparação com a pericardite pura, pela mesma razão experimental. Ela também recomenda internação nesse cenário, para monitoração e diagnóstico diferencial com síndrome coronariana aguda.

2015 ESC Guidelines for the diagnosis and management of pericardial diseases, Eur Heart J. 2015;36(42):2921-64, seção 3.4.2

Como decidir

Repare que a divergência é sobre dose, não sobre classe: os três documentos usam anti-inflamatório. Decida pela assimetria dos danos no paciente à sua frente e pelo que a troponina está dizendo junto com o ecocardiograma. Se há disfunção ventricular, arritmia ou instabilidade, o eixo do cuidado deixou de ser o pericárdio, e a decisão de dose passa a ser de quem conduz a miocardite — chame a cardiologia e não resolva sozinho. Se a função ventricular está normal e a troponina subiu pouco, a dor é o alvo, e a dose menor da faixa é a que satisfaz os três documentos ao mesmo tempo, com reavaliação em 24 a 48 horas. Nos dois cenários, escreva no prontuário qual régua você seguiu e por quê: a discordância é entre dois documentos da mesma sociedade, e quem ler depois precisa saber qual dos dois você tinha em mente.

Prescrever um fármaco recomendado em classe I que não está registrado para esta doença nem fornecido pelo Sistema Único de Saúde

Prescrever: classe I com nível de evidência A, na régua brasileira de 2013 e na europeia de 2015

O documento brasileiro recomenda colchicina por três meses no tratamento da pericardite aguda e por seis meses na recorrente, em classe I com nível de evidência A — o grau máximo de recomendação com o grau máximo de evidência. A régua europeia sustenta o mesmo, com dose ajustada ao peso e sem dose de ataque, e apoia a recomendação em ensaios clínicos randomizados multicêntricos. O efeito medido é a redução da recorrência a cerca da metade.

I Diretriz Brasileira de Miocardites e Pericardites, 2013, Tabela 30; 2015 ESC Guidelines, seções 1.1, 3.1.1 e 3.3.1

O registro sanitário brasileiro não prevê esta indicação, e a relação nacional de medicamentos não fornece o fármaco — bula do genérico, versão de 2018, e Rename 2024

A bula brasileira do comprimido de 0,5 mg lista como indicações aprovadas a crise aguda de gota, a profilaxia na artrite gotosa crônica, a febre familial do Mediterrâneo, o escleroderma, a poliartrite associada à sarcoidose e à psoríase, e a doença de Peyronie. Pericardite não consta. A busca exata pelo termo colchicina no texto integral da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 retorna zero ocorrências, em qualquer apresentação e em qualquer componente de financiamento — o paciente compra. Um curso de três meses a dois comprimidos por dia são 182 comprimidos, ou 6,1 embalagens de trinta.

Colchicina comprimido 0,5 mg, bula para o profissional de saúde, Geolab, V.03_06/2018, registro MS 1.5423.0203; Brasil, Ministério da Saúde, Rename 2024

A própria régua europeia declara que toda a farmacologia do pericárdio é uso fora de bula — Sociedade Europeia de Cardiologia, 2015

O documento europeu abre a seção introdutória registrando que todas as terapias medicamentosas para doenças pericárdicas são uso fora de bula, porque nenhum fármaco foi registrado até então para uma indicação pericárdica específica. Isso desloca a questão: não se trata de a colchicina ser uma exceção brasileira, e sim de a doença inteira ser tratada com fármacos registrados para outras coisas.

2015 ESC Guidelines for the diagnosis and management of pericardial diseases, Eur Heart J. 2015;36(42):2921-64, seção 1.1

Como decidir

A decisão não é sobre a força da evidência, que é alta e não está em disputa; é sobre o que fazer com uma prescrição legítima que o sistema não sustenta. Duas consequências práticas caem no colo do interno. A primeira é o consentimento: uso fora de bula pede que o paciente saiba disso, e a conversa é curta — este remédio é o que evita que a doença volte, tem estudo bom, e é usado para esta doença fora da indicação escrita na bula. A segunda é o custo: pergunte se o paciente consegue comprar antes de escrever três meses, porque a receita que ele não pode cumprir vale menos que a que ele pode. Se o custo for impeditivo, isso muda o plano de seguimento e o limiar de retorno, e vale registrar no prontuário — não vale fingir que a prescrição foi feita.

Por quanto tempo o paciente fica sem esforço físico

Até a resolução dos sintomas e a normalização da proteína C reativa para quem não compete; no mínimo três meses para atletas; pelo menos seis meses se houver acometimento miocárdico — Sociedade Europeia de Cardiologia, 2015

A régua europeia separa três situações com prazos distintos e diz de onde vem cada um. O prazo do não atleta é clínico e laboratorial, sem número de calendário. O mínimo de três meses do atleta é declarado como definição arbitrária por consenso de especialistas, e o retorno exige normalização de sintomas, proteína C reativa, eletrocardiograma e ecocardiograma. O prazo de seis meses vale quando há suspeita ou confirmação de envolvimento miocárdico.

2015 ESC Guidelines for the diagnosis and management of pericardial diseases, Eur Heart J. 2015;36(42):2921-64, seções 3.1.1 e 3.4.2

Não há consenso; de três a seis meses, em classe IIa, para atletas e não atletas assintomáticos — Sociedade Brasileira de Cardiologia, documento de miocardites de 2022

A diretriz brasileira de miocardites declara expressamente que não há consenso sobre o período, registra que até recentemente se estabelecia um mínimo de seis meses desde o início das manifestações e que atualmente alguns especialistas já recomendam três meses, e coloca em classe IIa com nível de evidência C o retorno a atividades competitivas de atletas e não atletas assintomáticos entre três e seis meses — condicionado a função sistólica normal, biomarcadores normais e ausência de arritmia no Holter de 24 horas e no teste ergométrico.

Diretriz de Miocardites da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2022, Arq Bras Cardiol. 2022;119(1):143-211, seção 5.6 e Tabela 20

Sem recomendação — Sociedade Brasileira de Cardiologia, documento de pericardites de 2013

O documento brasileiro que governa o tratamento da pericardite percorre medidas gerais, anti-inflamatórios, colchicina, imunossupressão, antivirais, tamponamento, tratamento cirúrgico e onze situações especiais, e não fixa prazo nem critério de afastamento de esforço físico para a pericardite. O silêncio importa porque é o documento nacional da doença: na parte de miocardites, o mesmo volume trata de medidas gerais e hábitos de vida.

I Diretriz Brasileira de Miocardites e Pericardites, Arq Bras Cardiol. 2013;100(4 Supl. 1):1-36, parte Pericardites, seções 5 e 6

Como decidir

Decida pelo que separa os prazos, que é a presença de acometimento miocárdico — e essa pergunta você responde com troponina e ecocardiograma, não com bibliografia. Sem envolvimento miocárdico, o critério clínico e laboratorial é suficiente e evita afastar por meses alguém que estava bem em duas semanas. Com envolvimento miocárdico, o prazo passa a ser de meses em qualquer das réguas, e a decisão de liberar deixa de ser sua: ela depende de função ventricular, biomarcadores e pesquisa de arritmia. Some um fator que nenhum dos documentos mede e que muda o peso do erro: o que o paciente faz da vida. Um pedreiro e um jogador amador de futebol de sábado recebem a mesma orientação escrita com consequências muito diferentes, e vale perguntar qual é o esforço real da rotina antes de escrever o prazo.

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O raciocínio, em voz alta

Quinta-feira, 4h50, sala de emergência do mesmo hospital geral de porte médio. Elvira Bragantini, 66 anos, costureira aposentada, 61 quilos. Câncer de mama tratado com cirurgia e radioterapia há dois anos, em acompanhamento, sem quimioterapia atual. Chegou por falta de ar progressiva há três dias, pior deitada, sem febre, sem tosse, sem dor torácica. Entrou com pressão 104 por 82; agora, quarenta minutos depois, está 88 por 74, frequência 122, frequência respiratória 26, saturação 94 por cento em ar ambiente, afebril. Lúcida, ansiosa, sentada. Você é o interno da escala e o clínico plantonista está na maca ao lado, com outro paciente.

  1. o que penso antes de encostar nela

    Dispneia progressiva em três dias com hipotensão que está caindo diante de mim é choque em instalação, e a causa muda a conduta inteira. Câncer de mama tratado com radioterapia mediastinal há dois anos põe duas coisas na mesa que não estariam em outro paciente: derrame pericárdico neoplásico e pericardite por radiação. Falta de ar pior deitada sem crepitação nem febre não é o padrão de pneumonia. Vou responder uma pergunta binária antes de qualquer outra: o pescoço está cheio ou vazio?

  2. o exame que decide, e ele leva noventa segundos

    Cabeceira a 45 graus: jugular túrgida, com pulsação visível até o ângulo da mandíbula. Comparo a ausculta dos dois lados na mesma altura e percuto em seguida — murmúrio presente e igual, sem crepitação, som claro pulmonar dos dois lados. Isso é decisivo. Pescoço cheio com pulmão limpo derruba de uma vez a hipovolemia pura e a congestão pulmonar, e sobra uma lista curta de causas de choque com o lado direito represado: pneumotórax hipertensivo, embolia pulmonar, infarto de ventrículo direito e tamponamento. A simetria da ausculta com percussão normal já elimina o primeiro.

  3. o precórdio e o pulso

    Ausculto o precórdio: bulhas nitidamente abafadas, sem sopro. Pressão de pulso de 14 milímetros de mercúrio — 88 menos 74 —, o que é estreito. Meço o pulso paradoxal com o esfigmomanômetro: o primeiro som aparece só na expiração aos 88, e passa a aparecer em todo o ciclo aos 72. A diferença é 16 milímetros de mercúrio, acima do limiar de 10. Tenho a tríade de Beck completa mais pulso paradoxal, num contexto compatível. Escrevo os 16 no prontuário como número, não como presente.

  4. por que eu não espero o ecocardiograma

    As sensibilidades de cada componente da tríade são baixas isoladamente — em torno de 26 por cento para a hipotensão, 28 para as bulhas abafadas e 76 para a jugular —, e é justamente por isso que a tríade completa vale tanto: ela é ruim para excluir e boa para confirmar. Além disso, a régua diz que o diagnóstico de tamponamento é clínico, baseado em história e exame físico. O ecocardiograma vai quantificar o derrame, mostrar o colapso das câmaras direitas e guiar a agulha — mas ele não é pré-requisito da decisão, e às cinco da manhã ele custa tempo que a curva de pressão não me dá.

  5. o que faço enquanto chamo

    Dois acessos calibrosos, monitorização contínua, oxigênio suplementar. Inicio cristaloide em infusão rápida sabendo exatamente o que ele faz: aumenta a pressão de enchimento das câmaras direitas contra a pressão do saco e compra minutos. Não é tratamento. Não prescrevo diurético, mesmo com a jugular cheia; não prescrevo vasodilatador; e evito qualquer coisa que leve a pressão positiva para dentro do tórax. Peço eletrocardiograma e radiografia, sabendo que os dois podem vir normais e que isso não muda nada.

  6. os telefonemas, nesta ordem

    Primeiro o clínico plantonista, que está a três metros: digo a hipótese em voz alta, com os números. Depois a ecocardiografista de plantão, pedindo exame à beira do leito agora e avisando que, se ela não puder vir em minutos, a decisão será clínica. Depois a cirurgia, porque a drenagem é o tratamento e a via — punção percutânea guiada ou janela pericárdica — é decisão de quem faz. Uso a palavra tamponamento nas três ligações. Pedido sem urgência declarada entra em fila.

  7. o que os exames mostram

    O eletrocardiograma tem taquicardia sinusal a 124 e complexos de baixa amplitude, com variação de amplitude batimento a batimento nas precordiais — alternância elétrica. A radiografia mostra silhueta cardíaca aumentada, de contorno globular, com pulmões limpos: coerente com derrame grande e lento, que é o que se espera de três dias de piora sobre semanas de acúmulo. O ecocardiograma chega às 5h35 e mostra derrame circunferencial com espaço livre de 26 milímetros em diástole, colapso diastólico do átrio direito, colapso do ventrículo direito que dura mais de um terço da diástole, e veia cava inferior dilatada sem variação respiratória.

  8. como leio o número do derrame

    Vinte e seis milímetros é derrame importante pela régua — acima de 20. Mas não é o número que faz o diagnóstico: é a repercussão. Um derrame de 26 milímetros acumulado em meses pode não dar sintoma nenhum, e um de 12 milímetros acumulado em minutos mata. O que confirma tamponamento aqui é o conjunto de colapsos e a clínica, e o tamanho serve para outra coisa — ele coloca a paciente na faixa em que a drenagem entra na mesa mesmo sem tamponamento, e me diz que a punção tem alvo suficiente.

  9. a drenagem, e o que se manda para o laboratório

    A punção é feita guiada por ecocardiografia, com medida da pressão da cavidade antes da aspiração. Saem 480 mililitros de líquido serossanguinolento e a pressão sobe para 112 por 70 em poucos minutos, com a frequência caindo para 96. O cateter fica. Mando o líquido para citologia com pesquisa de células neoplásicas, cultura, dosagem de adenosina deaminase e reação em cadeia da polimerase para micobactéria — a suspeita é neoplásica pelo contexto, mas a tuberculose é a etiologia que mais leva à constrição no Brasil e não se afasta por probabilidade.

  10. o que fica programado para as próximas 48 horas

    Não retirar o cateter enquanto a drenagem não cair abaixo de 20 a 30 mililitros em 24 horas. Reavaliar a jugular diariamente: se a pressão venosa continuar elevada depois de o derrame estar drenado e a pressão intrapericárdica normalizada, o quadro é efusivo-constritivo e a conduta muda. Ecocardiograma de controle. E a pergunta que a alívio da noite não responde: por que apareceu esse líquido? Se a citologia vier positiva, a drenagem foi alívio e o tratamento é o da doença de base, com a recidiva sendo esperada e não um erro.

  11. a lição do plantão, em uma frase

    O diagnóstico que salvou dona Elvira foi feito com a mão no pulso e os olhos no pescoço, às 4h55, e cada um dos três exames que vieram depois apenas confirmou o que o exame físico já tinha dito. O tempo entre a suspeita e o telefonema é a única variável deste caso que estava inteiramente sob controle do interno.

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Faça você

Cinco semanas depois. Ambulatório de clínica médica, terça-feira, 14h20. Wesley Cordovil, 27 anos, aquele mesmo do supradesnivelamento difuso da madrugada de quinta. Naquela noite ele foi diagnosticado com pericardite aguda, ficou em observação por doze horas, teve ecocardiograma com derrame pericárdico de 6 milímetros, troponina normal, proteína C reativa de 68 mg/L, e recebeu alta com receita de ibuprofeno 600 mg a cada 8 horas por 5 dias e orientação de repouso. Volta agora porque a dor recomeçou há quatro dias — mesma dor, mesma piora ao deitar, mesma melhora inclinado à frente. Está afebril, pressão 122 por 76, frequência 88, jugular normal, pulmões limpos. Você ausculta e ouve atrito. A proteína C reativa de hoje, colhida na entrada, é 54 mg/L. Ele pesa 74 quilos e não usa nenhum outro medicamento.

  1. o que o caso pede que se reconheça antes de qualquer receita

    Reveja três coisas do episódio anterior antes de escrever qualquer coisa nova: a dose e a duração do anti-inflamatório, o modo como ele foi retirado, e o que mais deveria ter sido prescrito e não foi. As três explicam por que este paciente está aqui, e as três mudam o que ele recebe hoje.

  2. o que os números de hoje dizem e o que não dizem

    Intervalo livre de sintomas de cerca de quatro semanas entre o primeiro episódio e este, com dor de mesma característica, atrito presente e proteína C reativa elevada. Considere o que isso nomeia e o que isso muda na duração do tratamento — a régua tem duração diferente para primeiro episódio e para recorrência.

  3. o que muda por causa do peso

    Setenta e quatro quilos não é um detalhe: é o dado que decide a posologia de um dos dois fármacos que ele vai levar hoje. Verifique de que lado do corte ele está e o que isso significa em comprimidos por dia.

  4. o que precisa ser conferido antes de escrever a nova receita

    Três checagens antes da caneta: função renal, lista de medicamentos em uso e capacidade de comprar. Uma delas, neste paciente, não oferece risco nenhum; outra é irrelevante hoje; a terceira é a que pode inviabilizar o plano e não aparece em nenhum exame.

  5. o que precisa estar escrito no papel que ele leva

    Além das duas prescrições, três coisas que a receita anterior não tinha e cuja ausência é parte da explicação de ele estar aqui. Escreva-as como instruções datadas, não como conselhos.

Ver como fecharíamos

O quadro é pericardite recorrente: primeiro episódio documentado, intervalo livre de sintomas de cerca de quatro semanas — a régua europeia usa quatro a seis semanas como limiar — e recorrência com dois critérios presentes, dor característica e atrito, somados à proteína C reativa elevada. O tratamento anterior tinha três falhas encadeadas. A dose de ibuprofeno estava correta, mas a duração de 5 dias ficou muito abaixo dos 14 dias que a régua brasileira prescreve; a retirada foi abrupta, sem desmame, e retirada abrupta é causa reconhecida de recorrência; e não houve colchicina, que é o fármaco de classe I com nível de evidência A que reduz a recorrência a cerca da metade. Hoje ele recebe ibuprofeno 600 mg a cada 8 horas em dose plena até a resolução dos sintomas e a normalização da proteína C reativa, com desmame escrito por degraus semanais, e omeprazol 20 mg por dia enquanto durar. E recebe colchicina — aqui o peso decide: com 74 quilos ele está acima do corte de 70, e a dose é 0,5 mg a cada 12 horas, ou seja, dois comprimidos por dia, sem dose de ataque. A duração agora é de 6 meses, e não de 3, porque isto é recorrência: são 366 comprimidos, cerca de doze embalagens de trinta. Das três checagens antes da caneta, a função renal é a que não oferece risco num homem de 27 anos sem comorbidade, a lista de interações é irrelevante porque ele não usa nada, e a terceira — o custo — é a que pode inviabilizar o plano, porque a colchicina não consta da Rename e ele vai comprar seis meses de tratamento. Pergunte antes de escrever. No papel que ele leva devem constar, além das duas prescrições: a data de cada degrau do desmame, o pedido de proteína C reativa de controle com a data em que ele deve colhê-la, e o afastamento de esforço físico com o critério explícito de retorno — resolução dos sintomas e normalização da proteína C reativa. Diga a ele, com o número, que o comprimido de três vezes ao dia é o da dor e o outro é o de não voltar.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A dose inicial é 750 mg a cada seis horas: quatro tomadas, totalizando 3.000 mg/dia. O enunciado determina reduções de 500 mg na dose diária total nos dias 11, 18 e 25, levando respectivamente a 2.500, 2.000 e 1.500 mg/dia. Assim, no dia 26, a dose prescrita é 1.500 mg/dia. Não se aplica a redução a cada tomada, nem se interrompe automaticamente o calendário apenas porque o exame normalizou. Esta é a aritmética do esquema explicitado, não uma regra universal de desmame para pericardite.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique por que a dor e o ECG da pericardite podem se confundir com outras causas de dor torácica e como você organiza o diferencial. Depois descreva os sinais clínicos e ecocardiográficos que aumentam a suspeita de tamponamento. Consulte os critérios de maior risco e justifique quem pode seguir ambulatorialmente e quem precisa de avaliação hospitalar. Evite concluir que derrame pequeno é sempre seguro ou que derrame grande, sozinho, define tamponamento.

Em 30 dias

Simule o retorno de um paciente com pericardite: primeiro com melhora da dor e depois com dispneia, hipotensão e piora da perfusão. Compare o plano de seguimento com a resposta à deterioração. Explique a necessidade de avaliação urgente para drenagem quando indicada e o papel do interno em reconhecer, comunicar e preparar o cuidado sob supervisão. Termine descrevendo quais sintomas e exames serão acompanhados após a fase aguda.

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Agora atenda

Agora atenda: quatro e vinte da manhã, na emergência clínica de um hospital geral do interior com cento e vinte leitos. Homem jovem, dor torácica há dois dias que piora deitado e melhora inclinado à frente, quadro de vias aéreas superiores duas semanas antes, febre baixa, e um eletrocardiograma com supradesnivelamento do segmento ST em quase todas as derivações. Você tem o traçado na mão antes de ter o paciente na frente. Conte os critérios, procure o atrito com a manobra certa, decida se ele interna ou vai para casa — e escreva a receita inteira, com o que a maioria dos internos esquece.

Pericardite aguda e tamponamento cardíaco — Internato | OsceLabs