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Clínica MédicaCardiologia

Crise hipertensiva

O número não é a emergência; a lesão de órgão é. Duzentos e vinte por cento e trinta no corredor pede cinco minutos de exame, não um comprimido debaixo da língua — e o que esses cinco minutos acham decide entre casa, enfermaria e bomba de infusão.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia — Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, Nadruz W et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025;122(9):e20250624

Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3, 1ª edição, 252 páginas

Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192: Suporte Avançado de Vida. Brasília, 2014, com revisões por protocolo até 2016. Protocolo AC19

Nitrop — nitroprusseto de sódio di-hidratado, solução injetável de 25 mg/mL. Bula para o profissional de saúde. Hypofarma, Instituto de Hypodermia e Farmácia Ltda.

01

Responda antes de ler

Mulher de 44 anos chega com dor lombar em cólica de forte intensidade, agitada, sudoreica, com náusea. Pressão de 212 por 120 mmHg, frequência cardíaca de 108 batimentos por minuto. Exame neurológico normal, ausculta cardiopulmonar normal, fundo de olho sem hemorragia, exsudato ou papiledema, eletrocardiograma sem alterações agudas. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

São 14h10 de uma quinta-feira e o corredor do pronto-socorro tem trinta e uma pessoas em pé. Valdenor tem 58 anos, é motorista de van escolar, e chegou por conta própria porque a esposa mandou. Ele não quer estar aqui: a van fica na rua, o turno da tarde começa às cinco, e ele acha que o problema vai passar.

O que trouxe Valdenor foi um aparelho. A farmácia da esquina tem uma cadeira e um aparelho de braço, e ele mede a pressão lá quase toda semana. Hoje o balconista mediu, olhou o visor, mediu de novo e disse para ele ir ao hospital agora. Está escrito num papelzinho, com a letra do balconista: 220 por 130.

A técnica de enfermagem da classificação de risco, a Aldenir, refez a medida no braço direito, sentado, sem repouso, com o manguito que estava pendurado no gancho. Deu 216 por 128. Ela escreveu na ficha, circulou o número duas vezes e colocou a pulseira laranja. Na ficha está escrito, como queixa: hipertensão descompensada.

Valdenor não tem dor de cabeça. Não tem falta de ar. Não tem dor no peito. Anda sem ajuda, fala frases inteiras, e a única coisa que ele reclama é que está com pressa. Toma losartana de 50 mg de manhã — ou tomava, porque a receita venceu há dois meses e a consulta na unidade básica está marcada para outubro. Nas últimas semanas, ele conta, tem tomado só quando lembra.

Do lado dele, na mesma fileira, está a dona Cleuza. Ela tem 66 anos, chegou com a filha, e a pressão dela é menor: 178 por 96. Mas a fala dela está arrastada desde o almoço, e o braço direito não levanta como o esquerdo.

Dois pacientes, duas pressões altas, e a maior das duas é a menos grave. Este capítulo inteiro é sobre essa frase — e sobre o que separa uma da outra em cinco minutos, com o que existe no corredor.

03

Quem adoece disso

Pressão alta na porta do pronto-socorro é banal; crise hipertensiva é rara. A diretriz brasileira de 2025 estima que a crise responda por 0,45% a 0,59% de todos os atendimentos de emergência hospitalar. A série brasileira de referência, com 452 pacientes de um hospital universitário paulista acompanhados por doze meses, chegou a 0,5% do total e a 1,7% das emergências clínicas. Traduzindo para o seu plantão de trinta e um pacientes: a chance de haver uma crise verdadeira naquela fila é pequena, e a chance de haver várias pressões altas é de cem por cento.

Dentro da crise, a emergência é a minoria. A diretriz de 2025 estima que a emergência hipertensiva responda por 25% de todos os casos de crise; a série paulista, que usou critério de diastólica de 120 mmHg com sintoma, encontrou 39,6% de emergência contra 60,4% de urgência. Os dois números fazem a mesma afirmação prática: a maior parte do que o corredor chama de crise não pede droga venosa, e um em cada quatro ou em cada três pede — hoje, agora, e nas próximas horas.

E há uma terceira categoria, que é a mais frequente das três e a que mais recebe tratamento errado. O estudo baiano que mediu isso incluiu 110 adultos com diastólica acima de 120 mmHg atendidos em duas emergências, uma privada e uma pública: 48% deles não tinham crise nenhuma — eram pseudocrises, pressão alta sem lesão de órgão e sem risco. Desses, 94% receberam medicação anti-hipertensiva para derrubar o número. A proporção de tratamento indevido foi praticamente a mesma nos dois serviços, 94% contra 95%, o que aposenta a hipótese de que isso é problema de estrutura. É problema de raciocínio.

O prognóstico separa as três com clareza suficiente para governar conduta. No mesmo estudo baiano, a letalidade em cinco meses foi de 0% no grupo pseudocrise e de 21% no grupo com crise verdadeira. A diretriz de 2025 registra que a emergência não tratada pode chegar a 80% de letalidade em um ano, e que a sobrevida em cinco anos é maior em quem teve elevação importante sem lesão aguda do que em quem teve emergência. Ou seja: existe uma população que morre por não receber tratamento venoso, e outra, quatro vezes maior, que se machuca por recebê-lo. As duas passam pela mesma porta, com o mesmo número escrito na ficha.

04

Por que acontece o que acontece

A pergunta que o capítulo responde é por que 220 por 130 pode ser inofensivo em uma pessoa e letal em outra. A resposta está na autorregulação — a capacidade que cérebro, coração e rins têm de manter fluxo constante apesar da variação da pressão de perfusão. Arteríolas cerebrais se contraem quando a pressão sobe e se dilatam quando ela cai, e o resultado é um platô de fluxo estável dentro de uma faixa de pressão. É esse platô que faz alguém funcionar normalmente com 220 de sistólica, andando, falando e reclamando da fila.

O platô, porém, se desloca. Na pressão cronicamente alta, a arteríola se remodela — parede mais espessa, luz menor — e a faixa inteira de autorregulação desliza para cima. O hipertenso de longa data mantém fluxo cerebral normal em pressões que derrubariam um normotenso, e, na outra ponta, perde fluxo em pressões que um normotenso toleraria bem. Daqui saem as duas consequências que governam o capítulo inteiro: o número absoluto não diz gravidade, e derrubar a pressão depressa em quem se adaptou a viver alto produz isquemia — não hipotensão, isquemia, com pressão que o monitor ainda mostra como normal.

Curvas de autorregulação cerebral com platôs na mesma altura e deslocamento para a direita na hipertensão crônica.
A adaptação à hipertensão crônica pode deslocar a faixa de autorregulação para pressões maiores. Uma queda excessiva pode comprometer a perfusão. O desenho não define a pressão segura de um paciente nem afasta emergência hipertensiva: lesão aguda de órgão-alvo e síndrome clínica orientam a urgência e as metas. Ilustração didática original.

Quando a pressão ultrapassa o teto do platô, a autorregulação falha por cima. A arteríola não consegue mais se contrair, é forçada a dilatar, e a pressão do sistema é transmitida diretamente ao leito capilar. Vem então a tríade da emergência: ruptura da barreira endotelial, extravasamento de plasma e edema, e ativação da cascata que produz necrose fibrinoide da parede arteriolar. Isso é o que se vê no fundo de olho como exsudato e hemorragia, é o que se vê no cérebro como edema posterior, é o que se vê no rim como injúria aguda com sedimento ativo. E é isso, e não o número, que define emergência.

O dano endotelial se realimenta. A parede lesada expõe subendotélio, ativa plaquetas e fibrina, e o resultado é uma microangiopatia trombótica: hemácias que se fragmentam ao atravessar a rede de fibrina, plaquetas que se consomem, isquemia distal ao ponto de obstrução. Ao mesmo tempo, a isquemia renal ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona, que eleva ainda mais a pressão, que lesa mais endotélio. É um circuito fechado, e a única coisa que o abre é reduzir a pressão. Esse é o mecanismo que justifica a droga venosa, e ele só existe quando a lesão já começou.

A explicação de por que se baixa devagar mora no mesmo lugar. Com a autorregulação deslocada para cima, o limite inferior do platô — a pressão abaixo da qual o fluxo cai junto com a pressão — também subiu. Estima-se que ele fique em torno de 25% abaixo da pressão média habitual daquele paciente. Baixar mais que isso na primeira hora leva a perfusão para fora do platô em órgãos que já estão sofrendo, e a consequência tem nome clínico: infarto cerebral em zona de fronteira, isquemia miocárdica, necrose tubular aguda. Por isso o alvo do tratamento não é normalizar; é sair da faixa de dano sem sair do platô, e depois deixar o platô voltar sozinho, o que leva dias a semanas.

A encefalopatia hipertensiva é a demonstração clínica desse limite superior. Quando a pressão vence a contração arteriolar, a hiperperfusão empurra plasma para o interstício cerebral, e o edema resultante aparece preferencialmente nas regiões posteriores, de inervação simpática mais pobre. Daí o quadro característico e sua ordem: cefaleia holocraniana que se instala em horas a dias, náusea e vômito, alteração visual, confusão que progride para sonolência, e crise convulsiva generalizada. Note o que não há na lista: déficit de território arterial. Uma hemiparesia dentro de um quadro que parecia encefalopatia muda o diagnóstico e obriga a imagem.

Há, por fim, o mecanismo do que não é crise. A pressão é uma variável fortemente modulada pelo simpático, e dor, ansiedade, retenção urinária, abstinência de álcool e o próprio ambiente do pronto-socorro elevam catecolaminas em minutos. A pressão sobe como consequência do estímulo, não como causa do sintoma, e cai sozinha quando o estímulo cessa. Foi isso que a série baiana mediu ao encontrar a cefaleia como preditor independente de pseudocrise, com razão de chances de 5,4: quem chega com dor de cabeça e pressão alta tem, na média, mais chance de ter uma dor de cabeça que subiu a pressão do que uma pressão que produziu dor de cabeça. E há a categoria oposta, de mecanismo simpático verdadeiro e perigoso — cocaína, anfetamínico, retirada abrupta de clonidina ou de betabloqueador, feocromocitoma —, em que a descarga adrenérgica é a doença, e não o susto.

Um último mecanismo, farmacológico, explica o erro mais difundido do país. O captopril tem absorção gastrintestinal e pico sanguíneo em cerca de uma hora; a queda máxima de pressão vem 60 a 90 minutos depois da dose oral. Posto sob a língua, o comprimido não tem via de absorção própria e acaba deglutido com a saliva: o efeito que aparece é o do captopril engolido, com o mesmo relógio. O rito da cápsula ou do comprimido sob a língua não acelera nada — só transfere para o paciente o risco de uma queda que ninguém titulou, e cria a ilusão de que algo urgente foi feito num paciente que não tinha urgência.

05

Como se apresenta de verdade

A pressão alta não tem apresentação clínica — quem tem apresentação clínica é a lesão de órgão. Por isso este bloco não descreve o espectro de uma doença: descreve o espectro de cinco doenças diferentes que chegam com o mesmo número na ficha, mais uma sexta que não é doença nenhuma. A tarefa do interno não é reconhecer a hipertensão; é reconhecer, na frente dela, qual das seis está acontecendo.

A forma mais comum: pressão alta e mais nada

É o Valdenor do corredor, e é quase metade do que a pulseira laranja manda para dentro. O paciente anda, fala, não tem sintoma que se sustente ao interrogatório, e o número foi medido por um aparelho de farmácia, por um vizinho, ou pela classificação de risco sem repouso e com o manguito do gancho. A diretriz de 2025 e o protocolo do Ministério dão a esse quadro o mesmo nome — pseudocrise — e a mesma primeira conduta: observação em ambiente calmo, sem droga, e nova medida.

O que engana aqui é a assimetria de sensação. Um número de 220 dá a quem lê a ficha a impressão de gravidade que o paciente não tem, e o interno sente que fazer nada é negligência. O dado brasileiro é o antídoto: 48% dos que chegam com diastólica acima de 120 mmHg não têm crise, 94% deles saem medicados, e a mortalidade em cinco meses desse grupo foi zero. A conduta correta parece omissão porque o resultado dela é invisível.

Existe uma variante importante desta forma, e ela não é pseudocrise: o hipertenso sem tratamento, ou com tratamento abandonado, que chega assintomático com números muito altos e que, medido de novo depois do repouso, continua muito alto. Aqui a pressão é real, o paciente é hipertenso e o problema é crônico. A diferença é de relógio, não de gravidade: ele precisa de tratamento contínuo e de consulta em uma semana, e não precisa de nada por via venosa.

A pressão que subiu porque outra coisa doeu

Dor de qualquer origem, ansiedade e crise de pânico, bexiga cheia por retenção urinária, abstinência de álcool, enxaqueca em curso, vertigem rotatória intensa, o próprio susto de estar num pronto-socorro: todos elevam a pressão por descarga simpática, e todos cedem quando a causa cede. O protocolo do Ministério lista nominalmente ansiedade, dor, evento emocional e desconforto — dando a retenção urinária como exemplo — entre as causas de falsa crise.

A pista de raciocínio é a ordem dos acontecimentos, e ela se colhe com uma pergunta: o que veio primeiro. A cefaleia que começou de manhã e a pressão que foi medida à tarde apontam para dor elevando pressão. A cefaleia que começou junto com a pressão, holocraniana, progressiva, com náusea e visão embaçada, aponta para o contrário. Na coorte baiana, a cefaleia na admissão foi preditor independente de pseudocrise, com razão de chances de 5,4 — o que não significa que dor de cabeça com pressão alta seja sempre inofensiva, e sim que é o sintoma que menos discrimina.

A conduta desta forma é tratar a causa, e ela funciona: analgesia, esvaziamento vesical com sondagem de alívio, ansiolítico quando o gatilho é emocional. O protocolo do SAMU chega a prescrever diazepam de 5 mg por via oral no estresse emocional agudo, e o do Ministério registra o benzodiazepínico como opção aguda na pseudocrise. Tratada a causa, a pressão desce sem que ninguém a tenha tratado.

O cérebro: três quadros que precisam ser separados

O sintoma neurológico é o mais frequente na emergência hipertensiva e o mais perigoso de classificar errado, porque três entidades diferentes chegam com pressão alta e sintoma de cabeça. A primeira é a encefalopatia hipertensiva: instalação em horas a dias, cefaleia holocraniana, náusea, alteração visual, rebaixamento progressivo, eventualmente convulsão — e sem déficit que respeite um território arterial.

A segunda é o acidente vascular cerebral, isquêmico ou hemorrágico, em que a pressão alta é reação, e não causa. Aqui o déficit é focal, começou de forma súbita e tem hora marcada. A régua pressórica dessa situação é outra e não é deste capítulo — está no capítulo de déficit neurológico focal agudo e no de acidente vascular cerebral isquêmico, e a diferença é grande o bastante para inverter a conduta: no isquêmico sem trombólise, a pressão só se trata acima de 220 por 120 mmHg.

A terceira é a hemorragia subaracnóidea, que o protocolo do SAMU lista nominalmente entre as emergências hipertensivas e que se apresenta com cefaleia de início explosivo, muitas vezes com rigidez de nuca. É a única das três em que a pergunta que separa não é sobre o déficit, e sim sobre a velocidade de instalação da dor. Nas três, a decisão passa por uma tomografia, e não por um comprimido.

O coração e a aorta: a dor que muda a régua

Pressão muito alta com dor torácica abre três hipóteses de conduta divergente. Na síndrome coronariana aguda, a pressão alta é em parte reflexo da isquemia, e o tratamento tem alvo próprio — a diretriz de 2025 pede sistólica abaixo de 140 mmHg, evitando ficar abaixo de 120, com diastólica entre 70 e 80 mmHg, ao longo de 24 a 72 horas, usando esmolol, metoprolol ou nitroglicerina. E ela proíbe nominalmente hidralazina, nifedipino e nitroprussiato nessa situação.

Na dissecção aguda de aorta, a régua inverte tudo o que o resto do capítulo diz sobre descer devagar: o alvo é frequência cardíaca abaixo de 60 batimentos por minuto e sistólica entre 90 e 120 mmHg, alcançados em 20 minutos. A ordem das drogas é o que mais se erra: o betabloqueador vem primeiro, e só depois o vasodilatador — porque vasodilatar antes de frear aumenta a frequência e a velocidade de ejeção, que é exatamente a força que propaga a dissecção. A pista de exame são pulsos assimétricos, diferença de pressão entre os braços, sopro diastólico novo e dor que migra para o dorso.

A terceira é o edema agudo de pulmão hipertensivo, e ele tem capítulo próprio nesta apostila. O que interessa aqui é o critério de fronteira: dispneia de instalação súbita, ortopneia que impede deitar, estertores até os ápices e saturação em queda transformam o paciente de pressão alta em paciente de pressão alta com lesão de órgão em curso, e mudam a sala.

O rim, a retina e o quadro que compromete tudo ao mesmo tempo

A lesão renal aguda hipertensiva é a mais silenciosa das emergências, porque não produz sintoma que traga o paciente. Ela se apresenta como creatinina que subiu em relação a um exame anterior, sedimento urinário com hematúria dismórfica ou proteinúria, e às vezes redução do volume urinário. É a razão de a creatinina e o exame de urina estarem no painel mínimo de quem chega com pressão muito alta e alguma queixa — e a razão de valer a pena procurar um resultado antigo no prontuário antes de decidir se aquele número é novo.

A retina é o único lugar do corpo em que se vê arteríola diretamente, e por isso o fundo de olho continua sendo exame de emergência, não de ambulatório. Exsudato algodonoso, hemorragia em chama de vela e papiledema são achados de dano em curso. Com hemorragia e exsudato sem papiledema, o quadro se chama hipertensão acelerada; com papiledema, hipertensão maligna — e a diretriz de 2025 trata os dois termos como intercambiáveis, sob o nome de hipertensão acelerada-maligna, com letalidade descrita de 80% em dois anos quando não tratada.

Há ainda a forma que junta tudo: a hipertensão com múltiplos danos de órgão-alvo, definida pelo comprometimento de pelo menos três dos quatro sistemas — renal, cardíaco, neurológico e hematológico. O componente hematológico é o que costuma passar despercebido no pronto-socorro: anemia com esquizócitos e plaquetopenia, isto é, microangiopatia trombótica. Um hemograma com plaquetas baixas em quem chega com pressão muito alta e creatinina alterada não é achado incidental — é o terceiro sistema.

Quem muda a régua só por ser quem é

A gestante e a puérpera saem inteiramente desta régua. Os limiares são menores, a droga de escolha é outra, o sulfato de magnésio entra em cena e a conduta é obstétrica antes de ser clínica. Isso está nos capítulos de pré-eclâmpsia, de eclâmpsia e de anti-hipertensivos na gestação, e a única coisa que precisa ficar aqui é a instrução que a própria diretriz de 2025 imprime no painel de suspeita de emergência: excluir gravidez em toda mulher em idade fértil.

O idoso muda o alvo e não a lógica. Rigidez arterial produz sistólica muito alta com diastólica normal, o platô de autorregulação está deslocado há mais tempo, e a queda excessiva encontra um cérebro com menos reserva. A diretriz registra que em idosos e frágeis o alvo pressórico pode ser menos restrito, e o corolário prático é que se titula com incrementos menores e se reavalia mais vezes.

E há a crise adrenérgica, que muda a droga: cocaína, crack, anfetamínico e derivados, retirada abrupta de clonidina ou de betabloqueador, e feocromocitoma. Nela o alvo é mais agressivo — sistólica abaixo de 140 mmHg na primeira hora —, o betabloqueador isolado é proibido no feocromocitoma pelo risco de agravar o espasmo coronariano com o alfa desbloqueado, e a conduta na retirada abrupta é reintroduzir imediatamente o que foi suspenso.

06

Como fechar o diagnóstico

Este bloco descreve um exame de cinco minutos. Não é força de expressão: a decisão entre casa, observação e bomba de infusão se toma com sintoma, fundo de olho, exame neurológico, ausculta, eletrocardiograma e uma segunda medida de pressão — tudo disponível no corredor, tudo sem fila. Os exames que se pedem depois servem para confirmar ou afastar a lesão que esse exame de cinco minutos levantou, e não para descobri-la.

A ordem importa porque o tempo dos dois erros é diferente. Deixar de reconhecer uma emergência custa minutos; tratar uma pseudocrise como emergência custa a mesma coisa, no sentido oposto. Por isso a sequência abaixo começa pela pergunta que exclui a metade grande — existe lesão de órgão em curso — e só depois se ocupa de classificar o resto.

Antes de tudo, medir de novo — e medir direito

O primeiro exame é repetir a medida. O protocolo do Ministério registra, dentro do próprio item sobre crise, que se deve verificar se a técnica correta foi usada, justamente para evitar o diagnóstico de uma falsa crise; o protocolo do SAMU põe repouso e tranquilização como primeira ação da conduta, antes de qualquer droga; e a diretriz de 2025 fixa a primeira medida como observação clínica de 30 minutos em ambiente calmo, avaliando a resolução dos sintomas e a queda da pressão.

A técnica não é a mesma de ambulatório, porque o cenário é outro, mas três itens continuam valendo e são os que mais mudam número no pronto-socorro: manguito compatível com a circunferência do braço, paciente sentado com as costas e o braço apoiados, e medida nos dois braços na primeira vez. A diretriz de 2025 pede explicitamente a aferição nos dois membros superiores, preferencialmente em ambiente tranquilo. A medida nos dois braços aqui não é zelo acadêmico: diferença grande de pressão entre os braços é um dos sinais de dissecção de aorta, e é achado que se perde para sempre se ninguém mediu na chegada.

Trinta minutos de observação parecem muito num corredor com trinta e uma pessoas, e são o investimento mais barato do plantão. Enquanto correm, o paciente é reavaliado, o eletrocardiograma é feito, o fundo de olho é examinado e o exame neurológico é repetido. Nenhum desses trinta minutos é de espera passiva — e, se a pressão cair sozinha e o sintoma sumir, esses trinta minutos substituíram uma internação.

O exame que separa as três categorias, em cinco minutos

Sintoma dirigido. Cinco perguntas, nesta ordem: dor no peito ou nas costas; falta de ar ou impossibilidade de deitar; alteração de fala, força, visão ou consciência; redução do volume urinário ou urina escura; e o que aconteceu primeiro, o sintoma ou a pressão. A diretriz de 2025 acrescenta duas informações de anamnese que mudam a conduta e que ninguém pergunta: qual é a pressão habitual daquele paciente, e o que ele parou de tomar. A retirada abrupta de simpatolítico ou de betabloqueador é causa de crise, e o tratamento dela é reintroduzir a droga, não trocá-la.

Fundo de olho. É o exame de maior rendimento e o menos feito. Ele responde, em trinta segundos e sem fila, se existe dano microvascular em curso: exsudato algodonoso, hemorragia retiniana e papiledema. Nenhum outro exame do pronto-socorro dá essa resposta com esse custo, e é o achado que transforma um paciente de urgência em hipertensão acelerada-maligna, ou seja, em internação.

Exame neurológico. Nível de consciência, fala, força nos quatro membros, campo visual por confrontação e sinais meníngeos. O que se procura é a diferença entre déficit focal — que aponta acidente vascular e outra régua — e rebaixamento difuso com cefaleia e alteração visual, que aponta encefalopatia. A diretriz é explícita: diante de déficit localizado, pensar em lesão neurológica focal e fazer imagem.

Ausculta e pulsos. Estertores, terceira bulha e turgência jugular apontam congestão; sopro diastólico novo, assimetria de pulsos e diferença de pressão entre os membros apontam aorta. São dois minutos de estetoscópio que decidem entre duas emergências com condutas opostas.

O eletrocardiograma, e o que ele responde de fato

O eletrocardiograma entra no painel mínimo de todo suspeito de emergência hipertensiva, e o protocolo do Ministério o pede para todos. Ele responde três perguntas em dez minutos. A primeira é se há isquemia aguda — supradesnivelamento, infradesnivelamento, inversão de onda T —, e ela muda a droga e o destino. A segunda é se há sobrecarga ventricular esquerda, que não é lesão aguda: é a marca de que aquela pressão é antiga, e portanto de que o platô de autorregulação está deslocado e a queda precisa ser mais cautelosa.

A terceira pergunta é sobre arritmia, e ela costuma ser esquecida. Fibrilação atrial de alta resposta com pressão alta muda a hipótese; e, no paciente que chega em crise adrenérgica, o eletrocardiograma é o que documenta a taquicardia que o exame já sugeriu.

O que o eletrocardiograma não faz é excluir emergência. Um traçado normal em quem tem déficit focal, dispneia com estertores ou creatinina em ascensão não muda nada. É exame de inclusão, não de exclusão — e essa distinção é a diferença entre pedi-lo e usá-lo.

O laboratório: o que se pede, e o que a resposta muda

O painel que a diretriz de 2025 imprime para suspeita de emergência é curto e cabe em qualquer serviço: eletrocardiograma, radiografia de tórax, hemograma, troponina, creatinina, urina de rotina e potássio — mais teste de gravidez em toda mulher em idade fértil. O protocolo do Ministério acrescenta sódio, filtração glomerular estimada e a relação albuminúria/creatininúria, e reserva para a suspeita dirigida a saturação de oxigênio, o lactato desidrogenase, o fibrinogênio, a haptoglobina e o exame toxicológico.

Cada item tem uma pergunta atrás. A creatinina responde se o rim está lesado agora, e vale mais se houver um valor anterior para comparar. A urina responde se há hematúria dismórfica ou proteinúria, que são lesão glomerular aguda. O hemograma responde por dois caminhos: anemia com esquizócitos e plaquetopenia fecham microangiopatia trombótica, e é justamente esse par que costuma passar batido. A troponina responde se a dor torácica é isquêmica. O potássio responde por causa secundária e por segurança das drogas que virão.

A imagem é dirigida, e o protocolo do Ministério monta a correspondência: radiografia de tórax para congestão; ecocardiograma para insuficiência cardíaca ou isquemia; tomografia ou ressonância de crânio para sintoma neurológico, retinopatia ou trauma craniano; angiotomografia, ressonância de tórax, ecocardiograma transesofágico ou angiografia para dissecção de aorta; ultrassonografia renal para insuficiência renal, inclusive obstrutiva; e Doppler de artérias renais para estenose.

O que não se pede: laboratório de rotina no paciente assintomático que veio por causa de um número de farmácia e que, depois de trinta minutos sentado, está bem e com a pressão menor. Pedir ali gera duas horas de espera, um achado incidental e uma internação evitável — e não muda a conduta, que é reajustar o tratamento e marcar retorno. O custo de pedir, aqui, é o próprio corredor: cada exame desnecessário é uma vaga de maca ocupada por quem não precisa dela.

O diferencial, resolvido pelo mesmo exame

O diferencial da pressão alta no pronto-socorro não é uma lista de doenças a decorar; é o resultado do exame que acabou de ser feito. Quem tem exame de cinco minutos limpo e pressão que cede com repouso é pseudocrise. Quem tem exame limpo e pressão que não cede é elevação importante sem lesão de órgão — o que a diretriz de 2025 propõe chamar assim, em lugar de urgência hipertensiva. Quem tem qualquer um dos achados de lesão em curso é emergência, e a partir daí o nome da emergência define a droga e o alvo.

Há um diferencial de armadilha, e ele é frequente: o paciente com déficit focal e pressão muito alta. Se o déficit é o problema e a pressão é a reação, baixar a pressão encolhe a penumbra e piora o desfecho. Se a pressão é o problema e o quadro é encefalopatia, não baixar mantém o edema. A pergunta que separa é sobre o território: déficit que respeita um território arterial e apareceu de repente é vascular; alteração difusa, progressiva, com cefaleia e alteração visual, é encefalopatia. Na dúvida, a tomografia decide, e ela vem antes da droga.

O segundo diferencial de armadilha é entre emergência renal e doença renal crônica descompensada. Uma creatinina de 3,2 mg/dL não diz nada sozinha; ela diz tudo se havia 1,1 mg/dL há três meses. Procurar o valor anterior no prontuário ou no cartão do paciente é, muitas vezes, o exame mais informativo do atendimento — e é gratuito.

O que a rede oferece — porque exame e droga que não se conseguem não são conduta

Tudo o que decide este capítulo está disponível: aparelho de pressão com manguito adequado, oftalmoscópio, eletrocardiógrafo, hemograma, creatinina, urina, potássio, troponina e radiografia de tórax fazem parte da estrutura mínima de um pronto-socorro. A tomografia de crânio existe na rede de urgência e é o exame que trava a decisão quando não existe — e é por isso que o serviço sem tomógrafo transfere o paciente com déficit focal em vez de tratá-lo pela pressão.

As drogas por via oral do capítulo estão no elenco nacional: o captopril de 25 mg e o dinitrato de isossorbida sublingual de 5 mg constam do componente básico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, junto com anlodipino, nifedipino, enalapril, losartana, hidroclorotiazida, espironolactona, furosemida, atenolol, propranolol, carvedilol, metoprolol em comprimido, verapamil, hidralazina em comprimido e metildopa. Com isso se trata a elevação importante sem lesão de órgão e se reconstrói o tratamento crônico de quem abandonou.

Os injetáveis da emergência são outra história, e o próprio protocolo do Ministério a conta: registra que esses medicamentos podem não estar elencados na relação nacional, por corresponderem ao contexto de emergência e ao ambiente hospitalar, e atribui ao serviço de saúde a responsabilidade de selecioná-los e disponibilizá-los segundo protocolo assistencial local. A consequência prática para o interno é direta: o que existe no carrinho da sua sala vermelha não é uma decisão nacional, é uma decisão do seu hospital — e vale conferir hoje, e não no dia em que precisar. A conferência item a item está na tabela do bloco seguinte.

Quando o injetável de escolha não estiver padronizado, duas saídas continuam de pé e estão em fonte oficial. A primeira é o nitrato sublingual: o protocolo do SAMU prescreve dinitrato de isossorbida de 5 mg por via sublingual na insuficiência cardíaca aguda de etiologia hipertensiva com sistólica acima de 90 mmHg, e a diretriz de 2025 recomenda nitrato sublingual, com benzodiazepínico, nos casos mais leves de crise adrenérgica. A segunda é a transferência: emergência hipertensiva é internação em terapia intensiva com droga titulável, e serviço que não tem isso precisa acionar a regulação no mesmo minuto em que faz o diagnóstico, e não depois de tentar.

07

As três categorias, as três réguas, os alvos por lesão e a conta de cada ampola

O número da pressão chama atenção; a lesão aguda de órgão e a síndrome clínica definem a urgência e a velocidade do tratamento. A primeira tarefa é reconhecer comprometimento neurológico, cardíaco, vascular ou renal. Só depois escolha uma meta e um medicamento compatíveis com a situação, com monitorização e supervisão. Quatro quadros, e eles se leem nesta ordem. O primeiro classifica o paciente em uma de três categorias, que é a decisão que governa todo o resto. O segundo mostra que as três réguas brasileiras não dão o mesmo limiar numérico — e por que isso importa menos do que parece. O terceiro dá o alvo pressórico de cada lesão, incluindo as quatro situações em que ele deixa de ser a queda de 25% na primeira hora. O quarto traduz prescrição em velocidade de bomba: quantos mililitros por hora correspondem a cada dose, no peso de um adulto de 70 quilos e na diluição que você vai preparar. Esse quarto quadro foi refeito a partir da apresentação impressa em cada bula, e não copiado do quadro de doses da diretriz — que traz a unidade de uma das drogas errada por um fator de mil, em duas edições seguidas.

  1. 1Meça de novo, você mesmo, com manguito compatível, paciente sentado e apoiado, nos dois braços na primeira vez. Registre os dois valores e o braço de maior valor.
  2. 2Pergunte cinco coisas: dor no peito ou nas costas; falta de ar ou impossibilidade de deitar; alteração de fala, força, visão ou consciência; mudança no volume ou no aspecto da urina; e o que veio primeiro, o sintoma ou a pressão. Acrescente duas: qual a pressão habitual dele, e o que ele parou de tomar.
  3. 3Examine em cinco minutos: fundo de olho, neurológico completo, ausculta cardíaca e pulmonar, pulsos nos quatro membros. Peça o eletrocardiograma enquanto examina.
  4. 4Achou lesão de órgão em curso — déficit focal, rebaixamento com cefaleia e alteração visual, dor torácica isquêmica, dor migratória com assimetria de pulsos, congestão pulmonar, exsudato ou papiledema, creatinina em ascensão com sedimento ativo? É emergência hipertensiva. Vá para a droga venosa titulável, o monitor e a vaga de terapia intensiva, e escolha o alvo pela lesão, não pelo número.
  5. 5Não achou lesão de órgão? Ambiente calmo, paciente deitado ou sentado confortável, sem estímulo, por 30 minutos. Trate a causa que estiver aparente: analgesia para dor, sondagem de alívio para bexiga cheia, ansiolítico para crise de ansiedade.
  6. 6Reavalie depois dos 30 minutos. A pressão caiu e o sintoma passou? Era pseudocrise: nada de anti-hipertensivo de resgate. Reveja a prescrição crônica, escreva a receita e marque o retorno.
  7. 7A pressão não caiu e o paciente segue sem lesão de órgão? É elevação importante sem lesão de órgão-alvo. Anti-hipertensivo oral de início rápido — captopril de 12,5 a 25 mg —, observação de algumas horas e alta com retorno em 1 a 7 dias, mirando pressão abaixo de 160 por 100 mmHg no ambulatório.
  8. 8Antes de liberar qualquer um dos dois, faça as três coisas que evitam o retorno: confira se ele sabe tomar o remédio que já tem, entregue a receita com data e dose por extenso, e escreva na alta os sinais que o trazem de volta sem esperar consulta.
PseudocriseElevação importante sem lesão aguda (antes: urgência)Emergência hipertensiva
O que definePressão alta sem lesão de órgão e sem risco, em quem está assintomático ou oligossintomático, ou com a pressão elevada por dor, ansiedade, desconforto ou erro de medidaPressão alta acentuada, sem lesão aguda e progressiva de órgão e sem risco iminente de morte, que persiste depois do repousoPressão alta acentuada com lesão de órgão aguda e em progressão, com risco iminente de morte
O que decide o diagnósticoA segunda medida, feita direito e depois de 30 minutos de ambiente calmoA segunda medida que continua alta, com o exame de cinco minutos limpoO exame de cinco minutos e o eletrocardiograma, não o valor da pressão
Quanto pesa na fila48% dos que chegam com diastólica acima de 120 mmHg, na coorte baiana de 110 pacientes60,4% das crises na série paulista de 452 pacientes; 75% delas, na estimativa da diretriz de 202539,6% das crises na série paulista; 25% delas, na estimativa da diretriz de 2025
Via e velocidadeNenhuma droga anti-hipertensiva de resgate. Trata-se a causa do estímuloVia oral, com queda em 24 a 48 horas — podendo se estender por alguns dias, sobretudo no idosoVia intravenosa, titulável, com queda em minutos a horas conforme a lesão
Onde o paciente ficaAlgumas horas de observação; alta no mesmo dia se ficar assintomático e a pressão cairAlgumas horas de observação e alta; internação é exceção, não regraInternação em unidade de terapia intensiva, com monitorização da pressão e da progressão da lesão
Quando ele voltaConsulta na atenção primária, com o cuidado longitudinal da equipe de referênciaReavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias, com alvo de sistólica abaixo de 160 e diastólica abaixo de 100 mmHgConsulta ambulatorial em sete dias após a alta, além do especialista da área do fator desencadeante
Letalidade medida0% em cinco meses, na coorte baianaSobrevida em cinco anos maior do que a da emergência, pela diretriz de 202521% em cinco meses na coorte baiana; até cerca de 80% em um ano quando não tratada, pela diretriz de 2025

As três réguas brasileiras não dão o mesmo limiar — e nenhuma delas manda tratar pelo número

DocumentoA partir de que valor chama de criseO que manda fazer na elevação sem lesão de órgãoO que isso muda para você
Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 (SBC, SBH e SBN)Sistólica de 180 mmHg e/ou diastólica de 110 mmHg — e a própria diretriz avisa que, dependendo da situação, a emergência ocorre com valores menoresObservação de 30 minutos em ambiente calmo; se o sintoma e a pressão não cederem, anti-hipertensivo oral de início rápido e curta duração, com reavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias e alvo abaixo de 160 por 100 mmHgÉ a régua mais permissiva no limiar e a mais explícita em dizer que não há evidência de que esse paciente precise ser tratado na emergência
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde (Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025)Sistólica igual ou acima de 180 mmHg ou diastólica igual ou acima de 120 mmHgRetirar o fator desencadeante; observação em ambiente calmo com analgésico e tranquilizante se necessário; redução gradual por via oral em 24 a 48 horas, estendendo em idosos; captopril de 25 mg quando há risco iminente, com a ressalva impressa de que não é via sublingualÉ o documento que rege o Sistema Único de Saúde e o que escreve, com todas as letras, que a via do captopril é a oral
Protocolo AC19 do Suporte Avançado de Vida do SAMU 192Elevação importante com diastólica em geral igual ou acima de 120 mmHgRepouso e tranquilização primeiro; se a pressão persistir, captopril de 12,5 a 25 mg por via oral, com início de ação em 20 a 30 minutosÉ a régua de quem atende na rua e na unidade sem laboratório, e ela também põe o repouso antes da droga

O alvo depende da lesão, não da pressão — e em quatro situações ele deixa de ser a queda de 25%

SituaçãoAlvo e prazoQuem sustenta
Emergência hipertensiva em geralQueda de até 25% na primeira hora; se estável, 160 por 100 mmHg em 2 a 6 horas; valores normais em 24 a 48 horasDiretriz de 2025, tabela de recomendações do capítulo 11, força fraca e certeza moderada; o protocolo do Ministério repete a mesma escada e fecha em 135 por 85 mmHg
Encefalopatia hipertensivaQueda de 20% a 25% na primeira hora, com anti-hipertensivo oral iniciado em seguida e alvo de 160 por 100 mmHg em até 48 horasDiretriz de 2025, item 11.6.1
Dissecção aguda de aortaFrequência cardíaca abaixo de 60 batimentos por minuto e sistólica entre 90 e 120 mmHg, alcançadas em 20 minutos — betabloqueador primeiro, vasodilatador depoisDiretriz de 2025, tabela de recomendações do capítulo 11, força forte e certeza baixa
Crise adrenérgica e edema agudo de pulmãoSistólica abaixo de 140 mmHg na primeira horaDiretriz de 2025, mensagens principais do capítulo 11 e fluxograma da figura 11.1
Síndrome coronariana agudaSistólica abaixo de 140 mmHg, evitando ficar abaixo de 120, e diastólica entre 70 e 80 mmHg, ao longo de 24 a 72 horasDiretriz de 2025, tabela de recomendações do capítulo 11, força forte e certeza alta
Acidente vascular cerebralRégua própria, que não é a deste capítulo: sem trombólise, só se trata acima de 220 por 120 mmHg; com trombólise, abaixo de 185 por 110 mmHg antes e abaixo de 180 por 105 mmHg nas 24 horas seguintesDiretriz de 2025, tabela de recomendações do capítulo 11; e os capítulos de acidente vascular cerebral isquêmico e de déficit neurológico focal agudo desta coleção
Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade e eclâmpsiaRégua obstétrica, com drogas e limiares próprios, e sulfato de magnésio em paraleloDiretriz de 2025, capítulo 10; e os capítulos de pré-eclâmpsia, eclâmpsia e anti-hipertensivos na gestação desta coleção

A conta já feita: miligrama, mililitro, ampola e velocidade de bomba, num adulto de 70 kg

Droga, apresentação e situação no elenco nacionalDiluição de referênciaDose da fonteA conta em mililitros por horaO que a bula acrescenta
Nitroprussiato de sódio — ampola de 2 mL com 25 mg/mL. Fora do elenco da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 20241 ampola (50 mg) em 250 mL de glicose a 5% = 200 microgramas por mililitro. A bula do fabricante também prevê 500 mL (100 mcg/mL) e 1.000 mL (50 mcg/mL)0,3 a 1 mcg/kg/min para começar, média de 3, máximo de 8 no adulto (bula). A diretriz de 2025 imprime a faixa como 0,25 a 10 — com a unidade trocada, ver as notas6,3 mL/h entregam 0,3 mcg/kg/min, que são 21 microgramas por minuto. 21 mL/h entregam 1 mcg/kg/min. 63 mL/h entregam 3 mcg/kg/min, a dose média da bula. 105 mL/h entregam 5 mcg/kg/min. 168 mL/h entregam 8 mcg/kg/min, que é o teto do adultoFotossensível: equipo âmbar e frasco protegido. Não interromper de forma abrupta — desmame em 10 a 30 minutos, pelo rebote. Na infusão prolongada, teto médio de 2,5 mcg/kg/min e dosagem de cianeto e tiocianato
Nitroglicerina — ampola de 5 mL e ampola de 10 mL, na concentração de 5 mg por mililitro. Fora do elenco da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 20241 ampola de 10 mL (50 mg) em 250 mL de soro glicosado a 5%, ou de soro fisiológico, resultando em 200 microgramas por mililitro. Teto de concentração da bula: 400 mcg/mLInício em 5 mcg/min, com incremento a cada 3 a 5 minutos; sem resposta a 20 mcg/min, incrementos de 10 e depois de 20 (bula). A diretriz de 2025 imprime 5 a 15 mg/h, que são 83 a 250 mcg/min5 mcg/min = 1,5 mL/h. 20 mcg/min = 6 mL/h. 50 mcg/min = 15 mL/h. 100 mcg/min = 30 mL/h. 200 mcg/min = 60 mL/h. A faixa impressa na diretriz cai em 25 a 75 mL/hNunca por injeção direta: exige diluição e bomba. Equipo de policloreto de vinila absorve a droga; equipo não absorvente exige dose menor. Cefaleia é o efeito esperado, não sinal de erro
Metoprolol — solução injetável de 1 mg/mL, ampola de 5 mL. O elenco nacional traz metoprolol em comprimido, e não em ampolaSem diluição obrigatória: aplicação intravenosa lenta, em cerca de 5 minutos por dose5 mg por dose, repetindo a cada 10 minutos conforme necessário, até 20 mg (diretriz de 2025); o protocolo do SAMU escreve o mesmo esquema com teto de 15 a 20 mg5 mg = 5 mL = 1 ampola. 10 mg = 10 mL = 2 ampolas. 20 mg = 20 mL = 4 ampolasÉ a droga que vem primeiro na dissecção de aorta e a que se evita na asma, na bradicardia, no bloqueio atrioventricular avançado e na insuficiência cardíaca descompensada
Furosemida — solução injetável de 10 mg/mL, ampola de 2 mL. Consta do componente básico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024Sem diluição obrigatória. Se diluir, use soro fisiológico: o pH da solução fica próximo de 9, e a droga precipita abaixo de 720 a 60 mg, repetindo após 30 minutos (diretriz de 2025); a bula dá dose inicial de 20 a 40 mg e escalonamento de 20 mg a cada 2 horas20 mg = 2 mL = 1 ampola, em 5 minutos. 40 mg = 4 mL = 2 ampolas, em 10 minutos. 60 mg = 6 mL = 3 ampolas, em 15 minutosA velocidade máxima que a bula admite é de 4 mg por minuto — e cai para 2,5 mg por minuto quando a creatinina passa de 5 mg/dL. É por isso que a coluna anterior traz o tempo de cada dose: o que a diretriz chama de bólus é, na seringa, uma injeção lenta e cronometrada
Captopril — comprimido de 25 mg, via oral. Consta do componente básico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024Não se aplica: comprimido inteiro, engolido com água12,5 a 25 mg por via oral (protocolo do SAMU); 25 mg por via oral, com a ressalva impressa de que não é via sublingual (protocolo do Ministério)Não se aplica: 1 comprimido de 25 mg, ou meio comprimido para 12,5 mgPico sanguíneo em cerca de 1 hora e queda máxima da pressão 60 a 90 minutos após a dose oral. Alimento no estômago reduz a absorção em 30% a 40% — a bula manda tomar 1 hora antes das refeições. A única via registrada é a oral

A diretriz brasileira de hipertensão traz o nitroprussiato de sódio, no quadro de medicamentos intravenosos da emergência, com a faixa de infusão contínua escrita em miligrama por quilo por minuto — de 0,25 a 10. A unidade correta é micrograma por quilo por minuto, e o valor impresso é mil vezes o real. A conta, na diluição usual de uma ampola em 250 mL, que dá 200 microgramas por mililitro: o piso correto de 0,25 mcg/kg/min num adulto de 70 kg pede 5,2 mL por hora na bomba; lido ao pé da letra, o mesmo piso pediria 5,2 litros por hora — a bolsa inteira em dois minutos e cinquenta e um segundos, vinte e uma bolsas por hora. No teto impresso, a velocidade seria de 3,5 litros por minuto, o que corresponde a 210 litros de soro e 42 gramas de droga em uma hora. Nenhuma bomba de infusão entrega isso, e é essa impossibilidade física que protege o paciente deste erro específico — o que não protege é a leitura descuidada de uma unidade errada, que numa droga de apresentação mais concentrada não encontraria o mesmo obstáculo.

O erro do nitroprussiato atravessou duas edições: a de 2020 e a de 2025 trazem a mesma unidade no mesmo quadro, com cinco anos e uma revisão inteira entre elas. E a prova de que é erro está dentro dos próprios documentos, em três lugares. Primeiro, na edição de 2020, o quadro de doses pediátricas da mesma droga, na mesma obra, escreve 0,5 a 10 micrograma por quilo por minuto — a unidade certa. Segundo, no mesmo quadro de adultos da edição de 2025, o esmolol e o fenoldopam vêm em micrograma por quilo por minuto, e só o nitroprussiato escapa. Terceiro, a bula do produto fixa a posologia padrão em micrograma por quilo por minuto, com dose inicial de 0,3 a 1, média de 3 e máxima de 8 no adulto — a mesma bula que, na seção de superdosagem, dá 10 micrograma por quilo por minuto como dose máxima permitida.

O alvo da primeira hora aparece com quatro valores diferentes dentro da mesma diretriz de 2025, conforme onde se leia. O corpo do texto diz que não se recomenda redução aguda e abrupta maior que 25% a 30% nas primeiras 2 a 4 horas. O quadro de mensagens principais do capítulo diz 10% a 15% na primeira hora e 25% nas duas horas seguintes. O fluxograma da figura 11.1 e a tabela de recomendações do fim do capítulo dizem, os dois, queda de até 25% na primeira hora. O item sobre encefalopatia diz 20% a 25% em uma hora. Três das quatro leituras convergem em 25%, e é esse o número que este capítulo usa — mas vale saber que o quadro de destaque, que é o que mais se fotografa, é justamente o que discorda.

A nitroglicerina não tem erro de unidade, e sim uma diferença de ponto de partida que vale conhecer antes de programar a bomba. A diretriz de 2025 imprime 5 a 15 mg por hora, o que dá 83 a 250 microgramas por minuto. A bula do produto começa em 5 microgramas por minuto e sobe a cada 3 a 5 minutos. O piso da diretriz é, portanto, cerca de dezesseis vezes o começo previsto pelo fabricante. Nenhum dos dois está errado — a diretriz descreve a faixa de manutenção de quem já titulou, e a bula descreve como chegar lá. O que seria errado é abrir a bomba direto no piso da diretriz.

Das cinco drogas intravenosas que a diretriz de 2025 mais recomenda para a emergência hipertensiva, quatro não constam da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024: nitroprussiato, nitroglicerina injetável, metoprolol injetável e esmolol. Hidralazina e metoprolol estão no elenco, mas só em comprimido. A única injetável do capítulo que está lá é a furosemida. E o oral que a própria diretriz nomeia em primeiro lugar para a elevação sem lesão de órgão, a clonidina, também está fora do elenco nacional em qualquer apresentação. O protocolo do Ministério registra esse desencontro e resolve quem decide: escreve que esses medicamentos podem não estar elencados por corresponderem ao contexto hospitalar de emergência, e atribui ao serviço de saúde a seleção e a disponibilização, segundo protocolo assistencial local. A consequência é a única que interessa ao interno: o carrinho da sua sala vermelha foi decidido pelo seu hospital, e conferir o que tem nele é tarefa de hoje.

O protocolo do Ministério define a emergência hipertensiva duas vezes, no mesmo item, com desfechos opostos. Na primeira, escreve que é a crise hipertensiva com lesão de órgão-alvo aguda ou em progressão, usualmente com risco de vida. Três parágrafos depois, ao dar a definição numérica, escreve que é a elevação acentuada com lesão aguda e progressiva de órgãos-alvo "e sem risco iminente de morte" — repetindo o final que pertence à definição de urgência, logo acima. A leitura que se sustenta é a primeira, porque é a que combina com o resto do documento, com o quadro da diretriz de sociedade e com a conduta que o próprio protocolo prescreve em seguida, de terapia intensiva e droga intravenosa.

As três réguas brasileiras não coincidem no limiar, e a diferença é de dez milímetros de mercúrio na diastólica: a diretriz de sociedade usa 180 e/ou 110 mmHg, o protocolo do Ministério usa 180 ou 120 mmHg, e o protocolo do SAMU trabalha com diastólica em geral igual ou acima de 120 mmHg. Isso importa menos do que parece, e a razão está escrita nas próprias fontes: a diretriz diz que a gravidade não é determinada pelo nível absoluto da pressão, e que a definição numérica serve como parâmetro de conduta e não como critério absoluto. Um paciente com 174 por 116 mmHg e papiledema é emergência por qualquer das três réguas; um paciente com 210 por 124 mmHg, assintomático e com exame limpo, não é emergência por nenhuma delas.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo tem duas trilhas que se separam no minuto cinco e nunca mais se encontram. Até lá, todo paciente com pressão muito alta recebe a mesma coisa: medida repetida, cinco perguntas, cinco minutos de exame. Depois disso, quem tem lesão de órgão em curso segue por uma trilha de minutos, com droga venosa e monitor; quem não tem segue por uma trilha de horas a dias, com repouso primeiro e comprimido depois.

Duas advertências de escopo. A régua do acidente vascular cerebral não é esta, e a diferença é grande o bastante para inverter a conduta — ela está nos capítulos de acidente vascular cerebral isquêmico e de déficit neurológico focal agudo. A régua da gestante e da puérpera também não é esta, e está nos capítulos de pré-eclâmpsia, eclâmpsia e anti-hipertensivos na gestação. Em ambos os casos, este capítulo para na porta e aponta.

Cada dose abaixo vem com o documento que a sustenta, e cada infusão contínua vem com o número de mililitros por hora, calculado para um adulto de 70 kg na diluição da tabela do bloco anterior. Ajuste pelo peso do seu paciente antes de programar a bomba.

  1. Minuto 0 — a porta, e o que não se faz nela

    O paciente chegou com um número. O primeiro ato clínico é não agir sobre o número. Confirme a medida você mesmo, com manguito compatível com a circunferência do braço, paciente sentado com as costas e o braço apoiados, nos dois braços na primeira vez — e registre os dois valores. Ao mesmo tempo, olhe para ele: anda, fala frases inteiras, tem cor, respira sem esforço? Essa observação de dez segundos vale mais do que o valor da sistólica, porque ela é a primeira triagem entre as três categorias. O que não se faz aqui: prescrever qualquer coisa antes da segunda medida e do exame. A diretriz de 2025 é explícita ao dizer que a redução aguda e abrupta acima de 25% a 30% nas primeiras 2 a 4 horas traz risco de isquemia tecidual, e que isso pode acontecer com o nifedipino de liberação rápida, que ela declara proscrito. O protocolo do Ministério manda verificar a técnica de medida dentro do próprio item sobre crise, justamente para evitar tratar uma falsa crise.

    Prescrição
    • Aferir a pressão nos dois membros superiores, preferencialmente em ambiente tranquilo, e adotar o braço de maior valor como referência daquele paciente (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 11.4).
    • Nenhum anti-hipertensivo antes do exame. Nifedipino de liberação rápida é proscrito nesta situação (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 11.5).
  2. Minuto 0 a 5 — o exame que decide a trilha

    Cinco perguntas e quatro exames, todos à beira do leito. Pergunte por dor torácica ou dorsal, dispneia ou ortopneia, alteração de fala, força, visão ou consciência, mudança no volume ou aspecto da urina, e o que veio primeiro — o sintoma ou a pressão. Acrescente a pressão habitual do paciente e o que ele parou de tomar, porque a retirada abrupta de simpatolítico ou de betabloqueador é causa própria de crise e tem tratamento próprio. Examine fundo de olho, neurológico completo, ausculta cardiopulmonar e pulsos nos quatro membros; peça o eletrocardiograma enquanto isso corre. A partir daqui a decisão está tomada: qualquer achado de lesão em curso manda o paciente para a trilha venosa. Nenhum achado manda para a trilha do repouso.

    Prescrição
    • Painel mínimo de quem se suspeita ter emergência hipertensiva: eletrocardiograma, radiografia de tórax, hemograma, troponina, creatinina, urina de rotina e potássio; excluir gravidez em mulher em idade fértil (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, quadro 11.3).
    • Acrescentar sódio, filtração glomerular estimada e relação albuminúria/creatininúria; conforme a suspeita, saturação de oxigênio, lactato desidrogenase, fibrinogênio, haptoglobina e exame toxicológico (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025).
    • Imagem dirigida pela suspeita: radiografia de tórax na congestão; tomografia ou ressonância de crânio no sintoma neurológico ou na retinopatia; angiotomografia, ressonância de tórax, ecocardiograma transesofágico ou angiografia na suspeita de dissecção de aorta; ultrassonografia renal na injúria renal (mesmo protocolo, Quadro 8).
  3. Minuto 5 a 35 — trilha sem lesão de órgão: o remédio é o ambiente

    Este é o paciente da maioria, e o tratamento dele começa por tirá-lo do estímulo. Ambiente calmo, luz baixa se houver cefaleia, deitado ou sentado confortável, sem monitor apitando, sem gente falando com ele, por trinta minutos. Se houver causa aparente para a descarga simpática, ela é o alvo: analgesia para dor, sondagem de alívio se a bexiga estiver cheia, ansiolítico se o gatilho for uma crise de ansiedade. A diretriz de 2025 registra que não há evidência de que esse paciente deva ser tratado em unidade de emergência, e recomenda conduzi-lo como se conduz um hipertenso não controlado e assintomático no ambulatório. Registra também um dado que costuma surpreender: num estudo de coorte retrospectivo, a recidiva de idas à emergência e a mortalidade foram semelhantes entre os que receberam e os que não receberam terapia anti-hipertensiva aguda.

    Prescrição
    • Observação clínica por 30 minutos em ambiente calmo, avaliando a resolução dos sintomas e a redução da pressão, antes de qualquer anti-hipertensivo (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 11.5).
    • Repouso e tranquilização do paciente como primeira ação da conduta, com nova mensuração dos níveis pressóricos (Protocolo AC19, Suporte Avançado de Vida do SAMU 192).
    • Dor: dipirona 1 g por via intravenosa, ou o analgésico adequado à intensidade e à causa da dor.
    • Estresse emocional agudo: diazepam 5 mg por via oral, dose única (Protocolo AC19, Suporte Avançado de Vida do SAMU 192); o benzodiazepínico consta como opção aguda na pseudocrise no protocolo do Ministério.
    • Retenção urinária: sondagem vesical de alívio — o desconforto vesical está nominalmente entre as causas de falsa crise no protocolo do Ministério.
  4. Minuto 5 a 20 — trilha com lesão de órgão: acesso, monitor, droga titulável

    Reconhecida a lesão, o relógio muda de unidade. Acesso venoso periférico calibroso, monitorização contínua de ritmo e oximetria, pressão arterial aferida a cada cinco minutos enquanto se titula, e contato com a regulação para a vaga de terapia intensiva feito agora, e não depois de estabilizar. A diretriz de 2025 recomenda, com força forte e certeza moderada, que o paciente com emergência hipertensiva seja admitido em unidade de terapia intensiva, use anti-hipertensivo intravenoso com monitorização da pressão e seja observado quanto à progressão da lesão. A escolha da droga é ditada pela lesão, e não pelo número. Nitroprussiato serve à maioria das emergências. Nitroglicerina é a escolha quando há insuficiência coronariana ou edema agudo de pulmão. Betabloqueador intravenoso vem primeiro na dissecção de aorta, e o vasodilatador só depois dele. Na síndrome coronariana aguda, hidralazina, nifedipino e nitroprussiato estão contraindicados.

    Prescrição
    • Nitroprussiato de sódio em bomba de infusão: 1 ampola de 2 mL (50 mg) em 250 mL de glicose a 5%, resultando em 200 mcg/mL, com equipo âmbar e frasco protegido da luz. Iniciar a 0,3 mcg/kg/min, que num adulto de 70 kg são 6,3 mL/h; titular a cada 5 minutos pela pressão; máximo de 8 mcg/kg/min no adulto, que são 168 mL/h (bula profissional do produto, posologia padrão e modo de usar).
    • Nitroglicerina em bomba de infusão, quando há insuficiência coronariana ou edema agudo de pulmão: 1 ampola de 10 mL (50 mg) em 250 mL de glicose a 5% ou de cloreto de sódio a 0,9%, resultando em 200 mcg/mL. Iniciar a 5 mcg/min, que são 1,5 mL/h, com incrementos a cada 3 a 5 minutos; sem resposta a 20 mcg/min, subir de 10 e depois de 20 mcg/min (bula profissional do produto).
    • Dissecção aguda de aorta: metoprolol 5 mg por via intravenosa em cerca de 5 minutos (1 ampola de 5 mL), repetindo a cada 10 minutos até 20 mg, com analgesia por morfina; o nitroprussiato entra depois do betabloqueador, para não elevar a frequência e a velocidade de ejeção aórtica (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 11.6.5 e quadro 11.4; Protocolo AC19 do SAMU 192).
    • Congestão pulmonar associada: furosemida 20 a 60 mg por via intravenosa, repetindo após 30 minutos se necessário (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, quadro 11.4), respeitando a velocidade máxima de 4 mg por minuto da bula — 40 mg são 4 mL em 10 minutos.
    • Crise adrenérgica leve: benzodiazepínico com nitrato sublingual; nos demais casos, nitroglicerina ou nitroprussiato. Betabloqueador isolado é proibido na crise por feocromocitoma (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, tabela de recomendações do capítulo 11).
    • Retirada abrupta de simpatolítico ou de betabloqueador como causa da crise: reintrodução imediata do medicamento suspenso (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 11.6.6).
  5. Hora 1 — o alvo da primeira hora, e por que ele não é normalizar

    O alvo da primeira hora, na maioria das emergências, é uma queda de até 25% em relação à pressão de chegada. Não é um número absoluto: é uma fração. Num paciente que chegou com 220 por 130 mmHg, isso significa mirar algo em torno de 165 por 98 mmHg — e parar aí. A razão é o platô de autorregulação deslocado: abaixo dessa fração, a perfusão de órgãos que já estão sofrendo cai junto com a pressão. Quatro situações têm alvo próprio e mais agressivo, e vale sabê-las de cor: crise adrenérgica e edema agudo de pulmão pedem sistólica abaixo de 140 mmHg na primeira hora; dissecção de aorta pede sistólica entre 90 e 120 mmHg com frequência abaixo de 60 batimentos por minuto, em vinte minutos; e a síndrome coronariana aguda pede sistólica abaixo de 140 mmHg, evitando descer abaixo de 120. O acidente vascular cerebral tem régua própria, mais permissiva, e está em outro capítulo. A titulação se faz pela pressão medida, e não pelo relógio da bomba. Meça a cada cinco minutos enquanto sobe a dose, e diminua o passo assim que aparecer resposta parcial — é a instrução que a bula da nitroglicerina dá com todas as letras, e ela vale para qualquer vasodilatador titulável.

    Prescrição
    • Reduzir a pressão em até 25% na primeira hora, exceto nas lesões com alvo próprio — acidente vascular cerebral, dissecção aguda de aorta, pré-eclâmpsia, eclâmpsia e feocromocitoma (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, tabela de recomendações do capítulo 11).
    • Encefalopatia hipertensiva: redução de 20% a 25% em 1 hora, com anti-hipertensivo oral iniciado em seguida e meta de 160 por 100 mmHg em até 48 horas (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 11.6.1).
    • Aferição da pressão a cada 5 minutos durante a titulação, com redução do passo de incremento assim que houver resposta parcial (bula profissional da nitroglicerina).
  6. Hora 2 a 6 — o segundo degrau, e a entrada do comprimido

    Atingida a queda da primeira hora e mantida a estabilidade, o alvo do segundo degrau é 160 por 100 a 110 mmHg, em duas a seis horas. É também aqui que começa o tratamento por via oral que vai substituir a bomba — não depois, e sim em paralelo, porque a transição precisa de sobreposição. A escolha do oral não é do capítulo de crise: é o tratamento crônico daquele paciente, com as classes de sempre. O que muda é a pressa: a diretriz de 2025 registra que o desmame do intravenoso só acontece com o oral já agindo. Nos serviços em que a droga venosa não está padronizada, este é o degrau em que a decisão de transferir precisa ter sido tomada há horas.

    Prescrição
    • Alvo de 160 por 100 a 110 mmHg entre 2 e 6 horas de tratamento, se o paciente estiver estável (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, figura 11.1 e tabela de recomendações do capítulo 11).
    • Iniciar ou reajustar anti-hipertensivos por via oral em paralelo à infusão, para permitir o desmame (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, itens 11.5 e 11.6.1).
    • Após 8 a 24 horas de terapia intensiva, conforme o alvo definido para a condição associada, a terapia intravenosa pode ser substituída pela via oral (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Portaria SECTICS/MS nº 49/2025).
  7. Hora 6 a 48 — a normalização, a causa e o desmame

    O terceiro degrau é a chegada a valores normais, em 24 a 48 horas — a diretriz de 2025 escreve "valores normais" e o protocolo do Ministério fecha em 135 por 85 mmHg. Nesse intervalo, duas coisas precisam acontecer além da pressão cair. A primeira é nomear a causa no prontuário. Emergência hipertensiva quase sempre tem um gatilho: abandono de tratamento, retirada abrupta de droga, uso de substância, dor, doença renal em progressão, causa secundária não investigada. Tratar a pressão sem nomear o gatilho devolve o paciente em dias. A segunda é desmamar o vasodilatador com cuidado: a bula do nitroprussiato manda não interromper a infusão de forma abrupta, e sim ao longo de 10 a 30 minutos, pelo risco de rebote pressórico. E há a vigilância própria da droga. Na infusão prolongada de nitroprussiato, o teto médio cai para 2,5 mcg/kg/min e a bula pede controle de cianeto no sangue e no plasma; passados três dias de infusão, também de tiocianato sérico. Acidose metabólica sem explicação em quem está em nitroprussiato é sinal de intoxicação, não achado incidental.

    Prescrição
    • Alvo de valores normais em 24 a 48 horas após o segundo degrau (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, figura 11.1); o protocolo do Ministério especifica 135 por 85 mmHg nesse período.
    • Desmame do nitroprussiato em 10 a 30 minutos, nunca por interrupção súbita, pelo risco de elevação pressórica de rebote (bula profissional do produto).
    • Infusão de nitroprussiato por dias ou semanas: não ultrapassar velocidade média de 2,5 mcg/kg/min, com controle de cianeto no sangue e no plasma; acima de 3 dias, também tiocianato sérico (bula profissional do produto).
  8. A alta — o que impede o paciente de voltar na semana que vem

    Vale para as duas trilhas, e é o marco que mais se pula. O paciente que sai andando do pronto-socorro com 200 de sistólica sai com três problemas: uma pressão alta que ninguém vai medir de novo tão cedo, um tratamento que ele não estava tomando, e nenhuma consulta marcada. Se a alta não resolver os três, ele volta — e é isso que produz o hipertenso que conhece a fila do pronto-socorro melhor do que a equipe da unidade básica. Comece pela técnica: pergunte como ele mede a pressão em casa ou na farmácia, e em que circunstâncias. Muito número alto de farmácia é número de quem subiu uma ladeira e mediu de pé. Depois vá à adesão, e faça a pergunta que funciona: não "o senhor toma o remédio?", e sim "quantos dias da semana passada o senhor conseguiu tomar?". Se a resposta for menos que sete, o problema não é a dose. Pergunte o que atrapalha: preço, receita vencida, fila da unidade, efeito adverso, esquecimento, ou a crença de que só se toma quando a pressão está alta. Então escreva. Receita com dose, via e horário por extenso, com data; o encaminhamento à unidade básica; e uma lista curta, na letra do paciente ou na sua, dos sinais que o trazem de volta sem esperar consulta.

    Prescrição
    • Reavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias para quem teve elevação importante sem lesão aguda de órgão, com alvo de sistólica abaixo de 160 e diastólica abaixo de 100 mmHg (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, tabela de recomendações do capítulo 11, recomendação fraca com certeza baixa).
    • Consulta ambulatorial em sete dias para todo paciente atendido por emergência hipertensiva, para avaliar o controle, otimizar o tratamento e reforçar a adesão; retorno com o médico da atenção primária no caso da urgência, mantendo o cuidado longitudinal (Portaria SECTICS/MS nº 49/2025).
    • Reintroduzir ou reajustar o tratamento crônico na própria alta, com as apresentações do componente básico: captopril 25 mg, enalapril 5, 10 ou 20 mg, losartana 50 mg, hidroclorotiazida 12,5 ou 25 mg, besilato de anlodipino 5 ou 10 mg (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024, 1ª edição).
    • Sinais escritos que trazem o paciente de volta sem esperar consulta: dor no peito, falta de ar ou impossibilidade de deitar, alteração de fala, força ou visão, dor de cabeça forte e diferente da habitual, e redução importante do volume de urina.
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Como saber se está funcionando

Este bloco responde à pergunta que o interno costuma não saber responder: passei a droga, e agora, como sei se está funcionando? Na emergência hipertensiva, a resposta tem duas metades. A primeira é a pressão, e ela é fácil de medir e enganosa de interpretar, porque cair rápido demais é falha, e não sucesso. A segunda é o órgão — e é essa que decide, porque o objetivo do tratamento nunca foi o número.

Pressão arterial durante a titulaçãoA cada 5 minutos enquanto a dose está subindo; a cada 15 minutos depois de estabilizada; a cada hora nas 24 horas seguintes

Esperado: Queda progressiva até cerca de 25% do valor de chegada na primeira hora, e não além dela. Depois, 160 por 100 a 110 mmHg em 2 a 6 horas e valores normais em 24 a 48 horas

Se não melhora: Se não desce: confira o acesso, o equipo e a bomba antes de subir a dose — equipo de policloreto de vinila absorve nitroglicerina, e frasco sem proteção degrada nitroprussiato. Confirme dor e ansiedade não tratadas. Só então titule. Se desceu demais e depressa, reduza a infusão e reavalie perfusão: a pressão que voltou ao normal em vinte minutos é motivo de preocupação, não de alívio

Estado neurológicoA cada 15 minutos na primeira hora, depois de hora em hora nas primeiras 24 horas

Esperado: Na encefalopatia, melhora da cefaleia e da confusão em horas, acompanhando a queda da pressão. Nas demais emergências, ausência de sintoma novo

Se não melhora: Piora ou déficit novo durante a queda da pressão é a apresentação clássica de hipoperfusão iatrogênica: reduza a infusão e reavalie. Se o quadro não melhorar em 24 a 48 horas apesar do controle pressórico, o diagnóstico de encefalopatia está errado — refaça a imagem procurando lesão estrutural

Sintomas que motivaram o atendimentoAo fim dos 30 minutos de observação, na trilha sem lesão de órgão

Esperado: Resolução do sintoma junto com a queda da pressão, sem droga alguma. Isso confirma o diagnóstico de pseudocrise retrospectivamente

Se não melhora: Sintoma que persiste com pressão que cedeu aponta que o sintoma nunca foi da pressão — investigue a queixa por ela mesma. Sintoma e pressão que persistem, com exame limpo, definem elevação importante sem lesão de órgão: entra o anti-hipertensivo oral de início rápido, não o venoso

Diurese e função renalDiurese horária no paciente em bomba; creatinina em 12 a 24 horas e depois diariamente

Esperado: Diurese mantida acima de 0,5 mL por quilo por hora. Creatinina estável ou em queda depois das primeiras 24 a 48 horas

Se não melhora: Alta transitória da creatinina nas primeiras 24 horas é esperada e não obriga a subir a pressão de volta — é o rim reajustando a autorregulação. Queda de diurese com creatinina em ascensão sustentada, porém, sugere que a queda pressórica foi excessiva para aquele rim: recue o alvo e reavalie. Piora renal persistente com sedimento ativo levanta microangiopatia trombótica e nefrologia

Marcadores de microangiopatiaHemograma na admissão e a cada 24 horas enquanto houver plaquetopenia ou anemia

Esperado: Estabilização das plaquetas e da hemoglobina em 24 a 72 horas, com o controle da pressão

Se não melhora: Queda continuada das plaquetas com esquizócitos e lactato desidrogenase em alta, apesar da pressão controlada, tira o caso do território da hipertensão: microangiopatia trombótica de outra causa exige hematologia e nefrologia. Numa mulher em idade fértil, reveja o teste de gravidez antes de qualquer outra coisa

Sinais de toxicidade do nitroprussiatoGasometria a cada 12 horas durante a infusão; cianeto e tiocianato conforme a duração

Esperado: Ausência de acidose metabólica inexplicada, de confusão nova e de taquifilaxia — a necessidade de subir a dose para manter o mesmo efeito

Se não melhora: Acidose metabólica inexplicada durante a infusão é sinal precoce de intoxicação por cianeto: suspenda e trate. Na infusão prolongada, a bula fixa os limites de tolerância e manda dosar cianeto no sangue e no plasma, e tiocianato sérico acima de três dias, com hemodiálise para reduzir tiocianato muito elevado. A troca por vasodilatador oral, quando possível, resolve antes de o problema aparecer

Adesão e retorno, depois da altaConsulta em 1 a 7 dias na elevação sem lesão de órgão; em 7 dias em quem teve emergência

Esperado: Paciente com a receita na mão, tomando a medicação todos os dias, com pressão em queda em direção à meta e consulta seguinte marcada

Se não melhora: Se ele voltou ao pronto-socorro antes da consulta, o problema quase nunca é a dose: revise técnica de medida, adesão e acesso ao medicamento antes de escalonar. Um paciente que retorna três vezes em três meses com o mesmo quadro está dizendo que o vínculo com a atenção primária não existe — e resolver isso vale mais do que qualquer ajuste de prescrição

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Onde o erro machuca

Dar captopril debaixo da língua para derrubar o número

O dano: O dano tem duas camadas, e a segunda é a que quase ninguém enxerga. A primeira é a queda que ninguém titulou, num paciente cujo platô de autorregulação está deslocado para cima: a pressão de perfusão sai do platô pela esquerda e o resultado é isquêmico — infarto cerebral de zona de fronteira, isquemia miocárdica, queda no corredor. A segunda camada é que o rito não faz o que promete: o captopril é absorvido no trato gastrintestinal, tem pico sanguíneo em cerca de uma hora, e a queda máxima da pressão vem 60 a 90 minutos depois da dose oral. Posto sob a língua, o comprimido acaba deglutido com a saliva e age no mesmo relógio de sempre. A via sublingual não acelera nada e nem é via registrada na bula — o que ela produz é a sensação de que algo urgente foi feito, o que atrasa o exame que deveria ter sido feito.

Como pegar a tempo: Grave a frase que o protocolo do Ministério imprime entre parênteses, ao prescrever captopril na urgência: observar que não é via sublingual. E grave a conduta que vem antes dele: trinta minutos de ambiente calmo e nova medida. Se o serviço tem o hábito da cápsula ou do comprimido sob a língua, quebre o hábito na sua prescrição — escreva 'por via oral' com todas as letras, e diga em voz alta à técnica que é para engolir com água. O nifedipino de liberação rápida por essa via é pior ainda: a diretriz de 2025 o declara proscrito.

Tratar o número de quem não tem sintoma nem lesão de órgão

O dano: É o erro mais frequente do pronto-socorro brasileiro, e existe medida dele: na coorte baiana de 110 pacientes com diastólica acima de 120 mmHg, 48% eram pseudocrises e 94% desses receberam anti-hipertensivo para derrubar a pressão. A proporção foi praticamente idêntica no serviço privado e no público, o que mostra que não é falta de recurso. O dano imediato é a hipoperfusão; o dano tardio é pedagógico e recai sobre o paciente, que aprende que pressão alta se resolve com um comprimido de emergência e volta ao pronto-socorro toda vez que o aparelho da farmácia der um número grande — em vez de tomar o remédio todo dia.

Como pegar a tempo: Antes de prescrever, responda em voz alta a três perguntas: que órgão está lesado, que achado do exame mostra isso, e qual o alvo pressórico dessa lesão. Se não houver resposta para a primeira, não há indicação para a droga. E use os trinta minutos: o dado da própria diretriz de 2025 é que a recidiva de idas à emergência e a mortalidade foram semelhantes entre quem recebeu e quem não recebeu terapia anti-hipertensiva aguda nessa população.

Baixar a pressão de quem tem déficit focal antes da tomografia

O dano: No acidente vascular cerebral isquêmico, o tecido em penumbra perdeu a autorregulação e o fluxo que chega até ele depende diretamente da pressão sistêmica. Derrubar a pressão encolhe a penumbra imediatamente e converte tecido salvável em infarto. O erro é sedutor porque o número está alto e o paciente está mal — e porque a hipertensão reativa do acidente vascular costuma ceder sozinha nos primeiros noventa a cento e vinte minutos.

Como pegar a tempo: Déficit focal com pressão alta muda de capítulo, e a régua de lá é bem mais permissiva do que a daqui: sem trombólise, a pressão só se trata acima de 220 por 120 mmHg, ou quando houver doença associada que a exija — aorta dissecada, infarto em curso, pulmão congesto. Com trombólise, o alvo é abaixo de 185 por 110 mmHg. A conduta é imagem primeiro. E a pergunta que separa encefalopatia de acidente vascular é sobre o território: alteração difusa e progressiva com cefaleia e sintoma visual é encefalopatia; déficit súbito que respeita um território arterial é vascular.

Abrir o vasodilatador antes do betabloqueador na dissecção de aorta

O dano: O vasodilatador isolado derruba a resistência periférica, e o barorreflexo responde com taquicardia e aumento da velocidade de ejeção do ventrículo esquerdo. Essa velocidade é a força que descola a íntima e propaga a dissecção: o paciente sai com a pressão menor e a dissecção maior. É um dos poucos lugares da medicina em que a ordem de duas prescrições corretas decide o desfecho.

Como pegar a tempo: Na dor torácica ou dorsal com assimetria de pulsos, diferença de pressão entre os braços ou sopro diastólico novo, a primeira droga é o betabloqueador intravenoso — metoprolol 5 mg, uma ampola de 5 mL, repetindo a cada 10 minutos até 20 mg —, com a frequência abaixo de 60 batimentos por minuto como pré-condição. O nitroprussiato entra depois, e o alvo é sistólica entre 90 e 120 mmHg em vinte minutos. Em asmáticos, a diretriz de 2025 aceita bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico no lugar do betabloqueador.

Programar a bomba pelo número impresso, sem refazer a conta na apresentação real

O dano: A fonte central deste capítulo traz o nitroprussiato de sódio, no quadro de drogas intravenosas, com a faixa de infusão escrita em miligrama por quilo por minuto — e a unidade correta é micrograma. O valor impresso é mil vezes o real, e a mesma linha saiu igual nas edições de 2020 e de 2025. Executado ao pé da letra na diluição usual, o piso impresso pediria 5,2 litros de solução por hora num adulto de 70 kg, contra os 5,2 mililitros por hora da dose verdadeira. Nenhuma bomba entrega esse volume, e é essa impossibilidade que salva o paciente — mas a mesma leitura descuidada, numa droga cuja apresentação permitisse o volume, mataria.

Como pegar a tempo: Antes de programar qualquer infusão contínua, faça três contas na ordem: quantos miligramas há na ampola, quantos microgramas por mililitro tem a bolsa depois da diluição, e quantos mililitros por hora correspondem à dose que você prescreveu no peso do seu paciente. Se o resultado sair fora da faixa de 1 a 200 mililitros por hora, refaça — não é a bomba que está errada. E confira a unidade impressa contra a bula do produto: a bula do nitroprussiato dá a posologia padrão em micrograma por quilo por minuto, com dose inicial de 0,3 a 1 e máxima de 8 no adulto.

Dar alta a quem chegou com 200 de sistólica sem receita, sem data e sem plano

O dano: É o erro que produz o paciente que conhece a fila do pronto-socorro melhor do que a equipe da unidade básica. Quem sai sem receita não tem como comprar nem retirar o medicamento; quem sai sem data de retorno não volta; quem sai sem saber quais sintomas exigem retorno imediato volta tarde ou volta cedo demais. O resultado é uma sequência de atendimentos que tratam o mesmo episódio muitas vezes e a doença nenhuma vez — e, no meio dessa sequência, um dos episódios vai ser uma emergência de verdade.

Como pegar a tempo: Três atos concretos antes de liberar, e nenhum leva mais de dois minutos. Pergunte quantos dias da última semana ele conseguiu tomar o remédio, e o que atrapalhou; a resposta muda a conduta mais do que qualquer exame. Escreva a receita com dose, via, horário e data. E escreva a lista dos sinais que o trazem de volta sem esperar consulta. O prazo tem fonte: reavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias na elevação sem lesão de órgão, e consulta em sete dias para quem teve emergência.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo tem uma dificuldade específica: você vai dizer a alguém que um número muito alto, que assustou a família inteira e trouxe a pessoa ao hospital, não exige nada agora. Feito mal, isso soa como descaso e como recusa de atendimento. Feito bem, é a intervenção mais duradoura do plantão — porque muda o que aquela família vai fazer da próxima vez que o aparelho der um número grande.

O paciente chega assustado com o número e quer saber se vai ter um derrame

"Vinte e dois por treze é um número alto, e o senhor fez certo em vir. Mas o que decide se a pressão está fazendo mal agora não é o número: é se ela já machucou alguma coisa. Eu vou olhar quatro lugares para responder isso: o fundo do seu olho, o seu exame de força e de fala, o seu coração e o pulmão, e um eletrocardiograma. Leva uns cinco minutos. Enquanto isso, o senhor vai ficar sentado aqui num lugar mais calmo, e a gente mede de novo."

Não diga: Evite dois extremos que aparecem nessa conversa. O primeiro é dramatizar o número — dizer que está altíssimo, que é perigosíssimo, que podia ter dado um derrame —, porque isso eleva a pressão na hora e ensina o paciente a correr ao pronto-socorro atrás de números. O segundo é minimizar de saída, antes de examinar: dizer que não é nada quando você ainda não olhou o fundo de olho é uma promessa que você não tem como cumprir.

O paciente quer alguma coisa agora — "o senhor não vai dar nada para baixar?"

"Não vou, e quero explicar por quê, porque parece estranho. O seu corpo está acostumado a trabalhar com a pressão nesse nível — faz tempo que ela está assim. Se eu derrubar depressa, o sangue deixa de chegar direito no cérebro e no coração, que se acostumaram com a pressão alta para funcionar. Quem estava bem passa a não estar. O caminho seguro é baixar aos poucos, ao longo de dias, com o remédio que o senhor toma todo dia em casa. O que a gente faz aqui hoje é conferir se nada foi machucado e acertar esse remédio."

Não diga: Evite a frase "não precisa de nada", porque não é verdade e o paciente sabe. Ele precisa de tratamento — de tratamento contínuo, que é exatamente o que ele não está fazendo. Trocar "não precisa de nada" por "precisa de outra coisa, e a gente vai começar hoje" muda a conversa inteira e é o que sustenta a alta.

A alta de quem chegou com pressão muito alta e vai embora andando

"O exame não mostrou nenhum sinal de que a pressão tenha machucado o coração, o cérebro, o rim ou o olho. Isso é uma boa notícia, e é uma notícia que tem prazo: significa que ainda dá tempo. O que o senhor tem é uma pressão alta sem tratamento, e isso resolve na unidade de saúde, não aqui. Estou escrevendo a receita com o horário certinho, e estou escrevendo também os cinco sinais que fazem o senhor voltar na hora, sem esperar consulta. Vou ler os cinco com o senhor antes de sair."

Não diga: Evite entregar o papel sem ler junto. A lista de sinais de retorno só funciona se o paciente ouvir cada item em voz alta e disser que entendeu; entregue-a, mas leia-a. E evite prometer que a consulta vai sair rápido se você não sabe o tempo da fila daquela unidade — em vez disso, diga a data que está marcada, se houver, e o que fazer se ela demorar.

O paciente diz que toma o remédio, e você suspeita que não toma

"Vou fazer uma pergunta diferente, e não é para julgar: dos sete dias da semana passada, em quantos o senhor conseguiu tomar o comprimido? [...] Quatro está longe de ser pouco, e me ajuda mais do que se o senhor tivesse dito sete. Me conta o que atrapalha nos outros três: é a receita que venceu, é a farmácia que estava sem, é o horário, é algum efeito ruim, ou é que o senhor toma quando sente que a pressão subiu?"

Não diga: Evite a pergunta fechada — "o senhor está tomando o remédio direitinho?" —, porque ela só tem uma resposta socialmente possível. E evite corrigir a crença de que o remédio é para quando a pressão sobe com a palavra "errado": é uma crença comum e coerente com a experiência de quem não sente nada. Corrija com o mecanismo, dizendo que o remédio não serve para baixar a pressão de hoje e sim para impedir que ela machuque o corpo ao longo dos anos.

A emergência de verdade: contar à família que houve lesão de órgão

"A pressão da sua mãe está muito alta, e desta vez ela já causou dano: o exame mostra que o rim dela está sofrendo agora. Isso muda o tratamento. Ela vai ficar internada, com um remédio na veia que a gente controla minuto a minuto, para a pressão baixar aos poucos — devagar de propósito, porque baixar rápido faz mal. Ela vai para a unidade de terapia intensiva não porque está morrendo, mas porque esse remédio exige monitor e alguém medindo a pressão o tempo todo."

Não diga: Evite usar terapia intensiva como sinônimo de gravidade máxima sem explicar a razão técnica — a família ouve unidade de terapia intensiva e entende despedida. E evite a palavra "grave" sozinha: diga o que está lesado, o que se vai fazer e em quanto tempo se espera resposta.

A incerteza honesta, quando o exame ainda não fechou

"Ainda não sei dizer se a pressão dele causou algum dano. O exame de força e de fala está normal e o eletrocardiograma está normal, mas a creatinina veio um pouco alterada, e eu não tenho um exame antigo para comparar. Vou pedir a urina e repetir a creatinina daqui a algumas horas. Enquanto isso ele fica aqui, e a gente decide com o resultado. Prefiro dizer que não sei agora a dizer uma coisa e mudar depois."

Não diga: Evite preencher o silêncio com uma hipótese que você ainda não sustenta. Dizer "deve ser só a pressão" ou "provavelmente é o rim dele que já era assim" antecipa uma conclusão e, quando o resultado vier diferente, custa a confiança que você vai precisar na próxima conversa.

O que não prometer

"Eu não posso garantir que a pressão não vai subir de novo — ela vai, em algum momento, e isso não significa que deu errado. O que a gente consegue é que ela fique alta menos vezes e por menos tempo, e é isso que protege o coração e o cérebro ao longo dos anos. Também não posso prometer que o senhor vai sentir alguma diferença tomando o remédio: provavelmente não vai sentir nada, porque também não sentia nada antes. É por isso que esse tratamento é difícil, e é por isso que eu prefiro combinar isso com o senhor agora."

Não diga: Evite prometer normalização da pressão, ausência de recorrência, ou que o tratamento vai fazer o paciente se sentir melhor — nenhuma das três se sustenta, e cada uma delas, quando falha, custa a adesão. E não prometa qual médico vai atendê-lo no retorno nem em quanto tempo a fila anda, se isso não estiver na sua mão.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A elevação importante sem lesão de órgão deve receber anti-hipertensivo agudo no pronto-socorro?

Não medicar agudamente: observar, reajustar o crônico e mandar para o ambulatório

A diretriz brasileira de 2025 registra que não há evidência de que o paciente com elevação importante da pressão sem lesão aguda de órgão deva ser tratado em unidade de emergência, e recomenda conduzi-lo como se conduz um hipertenso não controlado e assintomático. Cita um estudo de coorte retrospectivo em que a recidiva de idas à emergência e a mortalidade foram semelhantes entre quem recebeu e quem não recebeu terapia anti-hipertensiva aguda. A recomendação formal correspondente — reavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias, com alvo abaixo de 160 por 100 mmHg — sai com força fraca e certeza de evidência baixa.

Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 11.5 e tabela de recomendações do capítulo 11

Medicar por via oral quando a pressão não cede à observação

O mesmo documento, no parágrafo seguinte, admite que, se não houver redução da pressão nem resolução dos sintomas após a observação clínica, se recomenda anti-hipertensivo oral de rápido início de ação e curta duração. O protocolo do Ministério da Saúde vai além e nomeia um subgrupo em que a redução deve acontecer em horas: quem tem risco de evento cardiovascular iminente pela pressão muito elevada, como portadores de aneurisma aórtico ou cerebral conhecido — para os quais prescreve captopril de 25 mg por via oral, com pico de ação em 60 a 90 minutos. O protocolo do SAMU prescreve captopril de 12,5 a 25 mg por via oral sempre que a pressão permanecer elevada após o repouso e a tranquilização.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025; e Protocolo AC19 do Suporte Avançado de Vida do SAMU 192

Como decidir

Três coisas decidem à beira do leito. A primeira é se você já cumpriu a observação: antes dos trinta minutos, a divergência não se aplica, porque as duas posições mandam observar primeiro. A segunda é a reversibilidade do erro em cada direção — não medicar quem persiste alto custa uma consulta antecipada, e medicar quem não precisa custa uma queda não titulável num paciente adaptado a viver alto; o segundo erro é o menos reversível. A terceira é a existência de um alvo anatômico frágil: aneurisma aórtico ou cerebral conhecido é a situação em que o próprio protocolo do Ministério puxa o prazo de dias para horas, e nela vale medicar por via oral. Na dúvida sem alvo frágil, observe mais trinta minutos e reajuste o tratamento crônico em vez de prescrever um resgate — a alta com receita e retorno marcado é a intervenção que as duas posições aprovam.

O limiar numérico da crise: diastólica de 110 ou de 120 mmHg?

Sistólica de 180 e/ou diastólica de 110 mmHg

A diretriz brasileira de 2025 define a emergência hipertensiva pela elevação acentuada da pressão, arbitrariamente fixada em sistólica igual ou acima de 180 mmHg e/ou diastólica igual ou acima de 110 mmHg — acrescentando que, dependendo da situação, a emergência ocorre mesmo com valores menores. O fluxograma de atendimento do capítulo parte desse mesmo limiar.

Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 11.1 e figura 11.1

Sistólica de 180 ou diastólica de 120 mmHg

O protocolo clínico do Ministério da Saúde define crise hipertensiva como sistólica igual ou acima de 180 mmHg ou diastólica igual ou acima de 120 mmHg, e usa esse mesmo par de valores para a urgência e para a emergência. O protocolo do SAMU trabalha, na prática pré-hospitalar, com diastólica em geral igual ou acima de 120 mmHg. As duas séries brasileiras que este capítulo usa recrutaram por diastólica acima de 120 mmHg.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Portaria SECTICS/MS nº 49/2025; Protocolo AC19 do Suporte Avançado de Vida do SAMU 192

Como decidir

A divergência é de rótulo, e não de conduta — e as duas fontes dizem isso de formas diferentes. A diretriz de 2025 escreve que a gravidade não é determinada pelo nível absoluto da pressão, e que a definição numérica serve como parâmetro de conduta, não como critério absoluto; o protocolo do Ministério registra que a emergência pode ocorrer com limiar menor que o arbitrado. Na prática: use o limiar mais baixo, de 180 por 110 mmHg, para decidir quem entra no exame de cinco minutos, porque errar para o lado de examinar mais gente não machuca ninguém. E não use limiar nenhum para decidir quem recebe droga venosa — isso quem decide é a lesão de órgão. Se o seu serviço tem protocolo próprio, adote o número dele, porque a consistência interna de uma equipe vale mais do que a escolha entre dois números que nenhuma das fontes considera absoluto.

O termo "urgência hipertensiva" deve ser aposentado?

Aposentar: o nome sugere pressa que a situação não tem

A diretriz brasileira de 2025 registra que atualmente se discute o uso do termo urgência hipertensiva e recomenda que a nomenclatura apropriada seria "elevação importante da pressão arterial sem lesão progressiva de órgãos-alvo". O quadro comparativo do capítulo já adota a expressão nova como cabeçalho de coluna, e a tabela de recomendações escreve o termo antigo apenas entre parênteses, como referência histórica.

Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 11.1, quadro 11.1 e tabela de recomendações do capítulo 11

Manter: o termo organiza o serviço e já tem subdivisão útil

O protocolo clínico do Ministério da Saúde, publicado no mesmo ano, mantém urgência hipertensiva como categoria operativa, dedica-lhe seções próprias de avaliação e tratamento e ainda a subdivide em falsa e verdadeira — reservando a expressão pseudocrise para a primeira. O protocolo do SAMU também mantém a divisão entre urgência e emergência como estrutura do protocolo de atendimento. Os dois documentos registram que o termo foi proposto em 1993 pelo comitê norte-americano que padronizou a nomenclatura.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Portaria SECTICS/MS nº 49/2025, item d do capítulo de diagnóstico; e Protocolo AC19 do Suporte Avançado de Vida do SAMU 192

Como decidir

Escreva no prontuário o que descreve o paciente, e não o rótulo. "Pressão de 216 por 128 mmHg, sem lesão aguda de órgão ao exame e ao eletrocardiograma, assintomático após 30 minutos de observação" é uma frase que qualquer das duas escolas lê sem ambiguidade, e que protege você e o paciente melhor do que qualquer dos dois termos. Onde o rótulo importa é na comunicação com a equipe: se a sua sala usa a palavra urgência para acionar prioridade de maca e de medicação, dizer urgência hipertensiva vai disparar um comportamento que o paciente não precisa. Nesse caso, use a expressão longa de propósito — ela existe justamente porque o nome curto move gente.

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O raciocínio, em voz alta

Zilmar tem 54 anos, é vigilante noturno e chega ao pronto-socorro de um hospital geral às 6h20, depois do turno, trazido pelo colega que dividia o posto com ele. Faz três dias que tem dor de cabeça — não a dor de sempre, ele insiste: essa não passa com dipirona, e ontem começou a embaçar a vista. Hoje de madrugada vomitou duas vezes no estacionamento. Chegou andando, com o colega segurando o braço, e responde às perguntas com uma lentidão que o colega diz que não é dele. A classificação de risco registrou 232 por 138 mmHg no braço direito.

  1. o que penso agora, antes de qualquer exame

    Tenho pressão muito alta com sintoma que se instalou ao longo de dias, e não em segundos. Isso já separa duas famílias. Instalação em segundos, com déficit que respeita território arterial, me faria pensar em doença vascular — e mudaria o capítulo e a régua. Instalação em dias, com cefaleia holocraniana, alteração visual, vômito e lentificação difusa, me põe em cima da encefalopatia hipertensiva, que é lesão de órgão em curso e portanto emergência. Mas não posso fechar isso pela história: alteração de consciência com pressão alta também é hemorragia, também é infecção, também é distúrbio metabólico. O que eu faço agora é o exame de cinco minutos, e é ele que decide se eu abro uma bomba de infusão ou continuo investigando.

  2. o que peço, e por quê

    Repito a pressão eu mesmo, sentado, com manguito adequado, nos dois braços: 228 por 134 à direita e 224 por 132 à esquerda. Sem diferença que sugira aorta. Glicemia capilar, porque alteração de consciência sem glicemia é diagnóstico incompleto e leva dez segundos: 104 mg/dL. Faço o fundo de olho — e é aqui que o caso vira. Vejo hemorragias em chama de vela nos dois olhos, exsudatos algodonosos e borramento das bordas do disco óptico. Exame neurológico: consciente, lentificado, sem déficit motor, sem assimetria de reflexos, sem rigidez de nuca, campo visual sem recorte por confrontação. Ausculta limpa, sem estertores, sem terceira bulha, pulsos simétricos nos quatro membros. Peço o painel: eletrocardiograma, hemograma, troponina, creatinina, sódio, potássio, urina de rotina, radiografia de tórax — e tomografia de crânio, porque a diretriz é explícita ao pedir neuroimagem quando há papiledema.

  3. como a resposta muda o que eu pensava

    O fundo de olho reclassifica o caso antes de qualquer exame de sangue voltar. Hemorragia e exsudato com papiledema não é achado crônico: é dano microvascular em curso, e é o que define hipertensão acelerada-maligna. Isso me tira do território da elevação importante sem lesão de órgão e me põe na emergência, com internação e droga intravenosa — e me tira também da tentação de sentar o Zilmar num canto por trinta minutos para ver se a pressão cai. Nele, os trinta minutos de observação não são conduta: são atraso.

  4. o que faço enquanto os exames voltam

    Acesso venoso periférico, monitor com ritmo e oximetria, pressão a cada cinco minutos. Aciono a regulação pedindo vaga de terapia intensiva agora, não depois de estabilizar. E preparo o nitroprussiato, que é a droga da maioria das emergências e a que a diretriz nomeia especificamente para a hipertensão acelerada-maligna: uma ampola de 2 mL, 50 mg, em 250 mL de glicose a 5%, o que dá 200 microgramas por mililitro, em frasco e equipo protegidos da luz. Zilmar tem 82 quilos. Começo a 0,3 micrograma por quilo por minuto — 24,6 microgramas por minuto, que são 7,4 mililitros por hora na bomba. Refiz essa conta de propósito, porque a faixa impressa no quadro de drogas da diretriz vem em miligrama por quilo por minuto, e no peso dele isso daria uma velocidade que nenhuma bomba entrega.

  5. qual o meu alvo, e por que não é normalizar

    Ele chegou com 228 de sistólica. Uma queda de 25% me põe em torno de 171 mmHg, e é onde eu paro na primeira hora — não em 120, não em 140. O motivo é o mesmo que explica por que ele tolera 228 andando: o platô de autorregulação dele deslizou para cima ao longo de anos, e o limite inferior desse platô subiu junto. Se eu levar a pressão a valores normais em uma hora, tiro a perfusão do platô e produzo isquemia num cérebro que já está edemaciado. Depois disso: 160 por 100 mmHg entre duas e seis horas, e valores normais só em 24 a 48 horas. E começo o anti-hipertensivo oral em paralelo, porque é ele que vai permitir o desmame da bomba.

  6. o que os exames responderam

    Tomografia de crânio sem hemorragia e sem lesão expansiva; sinal de edema difuso posterior, compatível com o quadro. Eletrocardiograma com sobrecarga ventricular esquerda e sem isquemia aguda — o que me diz que a pressão dele é antiga, e reforça a cautela na velocidade da queda. Creatinina 1,9 mg/dL, sem valor anterior para comparar; urina com proteinúria e hematúria dismórfica. Hemoglobina 11,2 g/dL com esquizócitos na lâmina e plaquetas de 96 mil. Troponina normal. Isso reorganiza o diagnóstico mais uma vez, e para pior: tenho retina, cérebro, rim e sangue comprometidos. São quatro dos quatro sistemas, e o quadro passa a ser hipertensão com múltiplos danos de órgão-alvo — que a diretriz define pelo envolvimento de pelo menos três. Não muda a droga nem o alvo, mas muda o prognóstico que eu vou conversar com a família e a urgência da vaga, porque a microangiopatia é o que mais depende do controle pressórico para parar.

  7. o que eu digo ao Zilmar e ao colega dele

    "Seu Zilmar, a pressão está muito alta e desta vez ela já machucou: eu consegui ver isso no fundo do seu olho, e os exames mostram que o rim também está sofrendo. O senhor vai ficar internado, e vai para a unidade de terapia intensiva — não porque o senhor esteja morrendo agora, e sim porque o remédio que eu vou usar entra na veia e precisa de alguém medindo a pressão o tempo todo. Vamos baixar a pressão devagar, de propósito, ao longo de dois dias. Baixar depressa faria mal." Ao colega, que vai avisar a família: o nome do hospital, o que está acontecendo em uma frase, e que alguém da família precisa vir hoje, porque haverá decisões a conversar e ele vai ficar internado.

  8. o que eu não faço, e por quê

    Não dou captopril sob a língua para ganhar tempo enquanto a bomba não chega: a via não é registrada, o efeito é o do comprimido engolido, e a queda seria não titulável num paciente que precisa de titulação fina. Não peço ecocardiograma, Doppler de artérias renais nem dosagens hormonais nesta madrugada — a investigação de causa secundária é obrigatória neste paciente, mas ela é da internação, não da sala. E não deixo a causa em branco no prontuário: escrevo que ele parou de tomar a losartana e a hidroclorotiazida há cerca de dois meses, quando a receita venceu, porque essa frase é o que vai orientar a alta dele daqui a alguns dias.

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Faça você

Mesma sala, três horas depois. Lindaura tem 61 anos, é diarista, e chegou de ônibus porque a filha marcou consulta na unidade básica para daqui a um mês e ela não quis esperar. Faz uma semana que a pressão "não abaixa" no aparelho da farmácia. Ela não tem dor de cabeça, não tem falta de ar, não tem dor no peito e não tem nada de diferente na visão — está incomodada com a fila e pergunta duas vezes se vai demorar. Toma hidroclorotiazida de 25 mg e anlodipino de 5 mg, e diz que toma "quase todo dia". A classificação de risco anotou 214 por 122 mmHg.

  1. o que penso agora

    Número muito alto, sintoma nenhum, paciente que anda e conversa. Isso me põe, de saída, nas duas categorias grandes — pseudocrise ou elevação importante sem lesão de órgão —, e não na emergência. Mas "de saída" não é diagnóstico: a lesão de órgão que importa aqui pode ser silenciosa, e o rim é justamente a que não produz sintoma. Então eu não decido nada antes do exame de cinco minutos.

  2. o que eu faço primeiro

    Meço eu mesmo, com ela sentada, costas e braço apoiados, manguito compatível com o braço dela, nos dois braços: 208 por 118 mmHg à direita, 204 por 116 à esquerda. Fundo de olho: cruzamentos arteriovenosos com estreitamento arteriolar, sem hemorragia, sem exsudato, sem papiledema — achado de pressão alta antiga, não de dano agudo. Neurológico normal. Ausculta limpa, pulsos simétricos. Eletrocardiograma com sobrecarga ventricular esquerda e sem alteração isquêmica aguda. Peço creatinina, potássio e urina de rotina, porque o rim é o órgão que pode estar lesado sem avisar; e procuro no prontuário um exame antigo para comparar.

  3. o que os exames responderam

    Creatinina 1,0 mg/dL — e há uma de 0,9 mg/dL de oito meses atrás no prontuário. Potássio 3,9. Urina sem proteinúria e sem hematúria. Exame de cinco minutos limpo, laboratório limpo, comparação disponível e estável.

  4. os trinta minutos

    Levo a Lindaura para a sala de observação, luz baixa, sem monitor apitando, e peço que ela fique sentada e quieta por trinta minutos. Aviso quanto tempo vai levar e por quê, porque ela tem pressa e vai perguntar de novo. Ao fim dos trinta minutos, a pressão é 186 por 108 mmHg. Ela continua sem sintoma nenhum, e continua com pressa.

  5. e agora — a decisão é sua

    A pressão caiu, mas continua alta. O exame está limpo, o laboratório está limpo, e a comparação renal está estável. Ela toma dois anti-hipertensivos e diz que toma quase todo dia. Escreva, com dose e via por extenso, a conduta completa: o que você prescreve agora na sala, o que você prescreve para casa, qual pergunta você faz sobre adesão e como você a formula, em quanto tempo você marca o retorno e com qual alvo pressórico, e quais sinais você escreve no papel que ela leva. Depois compare com a resposta.

Ver como fecharíamos

Na sala, nada por via venosa e nada sublingual: não há lesão de órgão, e a pressão caiu com o repouso. Este é o caso que a diretriz de 2025 chama de elevação importante da pressão sem lesão aguda de órgão, e para o qual ela registra que não há evidência de tratamento em unidade de emergência. O que se faz é reconstruir o tratamento crônico e checar por que ele não funcionou. A pergunta sobre adesão é aberta e datada: "dos sete dias da semana passada, em quantos a senhora conseguiu tomar os comprimidos?" — e, sobre o que atrapalhou, sem julgar. Se a resposta for cinco de sete, o problema não é a dose, e subir dose agora produz hipotensão no dia em que ela tomar tudo. Se a resposta for sete de sete, aí sim a prescrição está insuficiente e cabe otimizar — subir o anlodipino de 5 para 10 mg ou acrescentar um bloqueador do sistema renina-angiotensina, todos disponíveis no componente básico. Saída: receita escrita com dose, via e horário — hidroclorotiazida 25 mg por via oral pela manhã e besilato de anlodipino 5 ou 10 mg por via oral pela manhã, conforme a resposta sobre adesão —, encaminhamento à unidade básica com reavaliação em 1 a 7 dias e alvo de sistólica abaixo de 160 e diastólica abaixo de 100 mmHg nessa consulta. No papel que ela leva, lidos em voz alta antes de sair: dor no peito, falta de ar ou não conseguir deitar, alteração de fala, força ou visão, dor de cabeça forte e diferente da habitual, e queda importante do volume de urina. Uma observação sobre o que ela vai fazer com o aparelho da farmácia. Vale combinar que ela não meça a pressão todo dia nem depois de subir escada, e que o número da farmácia não decide a dose. O que decide é a consulta — e é para lá que a conduta aponta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor intensa eleva a pressão por descarga simpática: a pressão é consequência do estímulo, e não causa do sintoma. Sem lesão aguda de órgão ao exame de cinco minutos e ao eletrocardiograma, o quadro é o que as réguas brasileiras chamam de pseudocrise, e o tratamento é a causa — analgesia adequada à intensidade da dor, com reavaliação da pressão depois. É exatamente o cenário em que a coorte brasileira mediu 94% de tratamento anti-hipertensivo indevido, com letalidade de zero em cinco meses nesse grupo. Acrescentar anti-hipertensivo de resgate à analgesia soma o risco de hipoperfusão sem qualquer benefício demonstrado, droga intravenosa titulável exige lesão de órgão em curso para se justificar, e internar por causa do número, com exame limpo, ocupa leito e não muda desfecho. A via sublingual, além de não acelerar a absorção do captopril, é proscrita com nifedipino de liberação rápida pelo risco de queda abrupta e não titulável.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare pressão de 220/130 mmHg em uma pessoa sem lesão aguda identificada e em outra com dispneia, dor torácica ou déficit neurológico. Diga o que você examina e investiga primeiro e explique por que a redução rápida pode trazer dano em uma situação e ser necessária em outra. Consulte a meta específica da síndrome antes de conferir dose e diluição. Sua resposta precisa relacionar tratamento, parâmetro de monitorização e momento de pedir ajuda.

Em 30 dias

Reescreva o plano de Lindaura depois de investigar como ela realmente toma os medicamentos. Faça duas versões: uso irregular e uso confirmado com pressão persistentemente elevada. Explique o ajuste, o prazo de reavaliação e os sinais que exigem retorno imediato. Depois simule o aparecimento de um déficit neurológico durante a observação: reclassifique o caso e descreva o acionamento da equipe. Discuta o exercício com o supervisor; uma orientação a paciente real depende da avaliação clínica e da organização do serviço.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 58 anos, motorista de van escolar, que chegou por conta própria ao pronto-socorro às duas da tarde porque o aparelho da farmácia deu 220 por 130. Ele anda, fala frases inteiras, não tem dor de cabeça, não tem falta de ar e está com pressa porque o turno começa às cinco. Tomava losartana e parou quando a receita venceu. Conduza o atendimento inteiro: meça de novo do seu jeito, faça as cinco perguntas e o exame que separa as três categorias, decida se ele precisa de alguma coisa por via venosa, e prescreva o que ele leva para casa com dose, via e horário. Explique a ele, sem assustar e sem minimizar, por que você não vai derrubar a pressão agora — e descubra, antes de liberar, em quantos dias da semana passada ele conseguiu tomar o remédio.

Crise hipertensiva — Internato | OsceLabs