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Dislipidemias e risco cardiovascular global
Dislipidemias e prevenção cardiovascular / risco global
O interno pede perfil lipídico todo dia e quase nunca sabe o que fazer com ele, porque o número sozinho não decide nada. Trata-se risco, não colesterol — e o mesmo LDL manda condutas opostas em duas pessoas diferentes.
Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640.
Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia: prevenção de eventos cardiovasculares e pancreatite. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. ISBN 978-85-334-2807-2. Conteúdo da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 30 de julho de 2019.
Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.
Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Relatório de Recomendação nº 1.069 — Ezetimiba para redução do risco cardiovascular em indivíduos com alto e muito alto risco cardiovascular. Brasília: Ministério da Saúde, dezembro de 2025.
Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Relatório de Recomendação nº 1.068 — Rosuvastatina para o tratamento de indivíduos com alto e muito alto risco cardiovascular. Brasília: Ministério da Saúde, dezembro de 2025. Decisão publicada na Portaria SCTIE/MS nº 99, de 26 de dezembro de 2025.
Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST – 2021. Arq Bras Cardiol. 2021;117(1):181-264.
Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624.
Ministério da Saúde. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: hipertensão arterial sistêmica. Cadernos de Atenção Básica, nº 37. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.
Responda antes de ler
Paciente de 47 anos traz perfil lipídico colhido sem jejum: colesterol total 236, HDL-c 38, triglicérides 210 e LDL-c 156 mg/dL. Ele conta que almoçou antes da coleta porque o laboratório disse que não precisava jejuar, e pergunta se o exame 'vale'. Qual a conduta correta?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, duas e vinte da tarde, ambulatório de clínica médica de um hospital de ensino. A residente empurra duas pastas pela mesa antes de sair para o outro consultório e diz que as duas são retorno de exames, que são rápidas, e que ela volta em quarenta minutos. As duas pastas têm o mesmo número escrito na mesma linha do laudo: LDL-c 156 mg/dL.
A primeira é do senhor Jandir Boaventura, 52 anos, torneiro mecânico numa oficina de retífica há vinte e oito anos. Ele veio porque a empresa exigiu exame periódico e o médico do trabalho mandou procurar um clínico. Está de camisa de manga comprida no calor, senta na ponta da cadeira e a primeira coisa que diz é que está ótimo, que nunca faltou um dia de serviço e que não gosta de médico. Fuma vinte cigarros por dia desde os vinte anos. A pressão que a técnica anotou lá fora é 148 por 92, e ele conta que já tomou 'um comprimido para pressão' por uns meses, dois anos atrás, e parou porque acabou. Pesa 88 quilos com 1,74 m. Joga bola no domingo, e diz isso como prova de que está bem. Perguntado sobre a família, responde depressa, quase de passagem, que o pai morreu de infarto aos 51 anos, dentro do ônibus, indo para o trabalho. Jandir tem 52. O laudo dele, colhido sem jejum, diz colesterol total 236, HDL-c 38, triglicérides 210 e LDL-c 156 mg/dL.
A segunda pasta é de Adalgisa Ferraz, 34 anos, professora de ensino fundamental, que pediu o exame por conta própria depois de ler uma reportagem. Não fuma, nunca fumou. Pressão 112 por 74. Índice de massa corporal 23. Caminha para o trabalho. Nenhum antecedente pessoal, nenhum caso de doença do coração em pai, mãe ou irmãos, duas gestações sem intercorrência. O laudo dela diz colesterol total 240, HDL-c 66, triglicérides 90 e LDL-c 156 mg/dL.
O mesmo LDL-c. E, se você fizer a subtração que ninguém faz, dois colesteróis não-HDL bem diferentes: 198 mg/dL no Jandir e 174 mg/dL na Adalgisa. Ao longo deste capítulo, os dois vão receber condutas opostas — um vai sair com receita de uso contínuo e um plano de cinco anos, a outra vai sair sem medicamento e com um retorno marcado. Nenhuma dessas duas decisões pode ser tomada olhando para o número que a residente sublinhou no laudo.
Quem adoece disso
Colesterol alto é comum a ponto de deixar de parecer doença. Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2014-2015, um em cada três adultos brasileiros tinha colesterol total acima de 200 mg/dL e um em cada cinco tinha LDL-c acima de 130 mg/dL, com prevalências maiores em mulheres e maiores entre pessoas de menor escolaridade. Os níveis sobem com a idade, com valores mais baixos dos 18 aos 29 anos e mais altos a partir dos 45. Isso significa que, num ambulatório de clínica médica, a pergunta prática quase nunca é se o paciente tem colesterol alterado — é o que aquilo significa para aquele paciente.
O peso disso em mortes é o segundo maior entre todos os fatores de risco cardiovascular no Brasil, atrás apenas da hipertensão. E os dois números que descrevem a última década contam histórias opostas, o que é exatamente a lição central deste capítulo. A taxa de mortalidade cardiovascular atribuível ao LDL-c elevado, padronizada por idade, caiu de 49,6 para 32,1 por 100 mil habitantes entre 2001 e 2021 — uma queda de 35%. No mesmo período, o número absoluto anual de mortes atribuíveis subiu de 60.716 para 79.604 — um aumento de 31%. Estamos tratando melhor e enterrando mais gente, porque a população cresceu e envelheceu. Para o plantão, a consequência é direta: a taxa que melhora não reduz o número de pacientes que você vai atender.
Se a doença é comum e o tratamento existe há mais de trinta anos, o buraco está no meio. Um registro brasileiro avaliou 2.003 pacientes com doença arterial coronária ou periférica em 25 centros das cinco regiões do país, 56% deles públicos, entre 2020 e 2022 — todos, portanto, de muito alto risco. Cerca de 5% não usavam estatina; entre os que usavam, 55,4% não estavam em alta intensidade; apenas 14,4% tinham LDL-c abaixo de 50 mg/dL e cerca de 30% estavam com valores iguais ou acima de 100 mg/dL. Só 6,19% usavam estatina de alta intensidade com ezetimiba, e um único paciente, entre dois mil, estava em terapia tripla. A observação que fecha o registro é a que o interno precisa levar: a barreira principal não foi financeira, foi a decisão médica de não indicar a terapia adequada.
Falta um número, e ele é o que transforma a leitura deste capítulo em achado clínico. Aplicando os critérios da rede holandesa de clínicas de lípides à coorte brasileira de 15.105 adultos, a prevalência de hipercolesterolemia familiar foi de 3,8 por mil, ou uma pessoa em cada 263 — mais alta em mulheres do que em homens, e mais alta em pessoas pardas e pretas do que em brancas, variando de 1 em 156 a 1 em 417. Numa unidade básica com três mil adultos cadastrados, são cerca de onze pessoas com uma doença que se diagnostica com exame físico, história familiar e um exame de sangue barato — e que, quase sempre, ninguém procurou.
Por que acontece o que acontece
O nome do exame atrapalha o raciocínio. O que causa aterosclerose não é o colesterol, que é uma molécula insolúvel em água e não circula sozinha: é a partícula que o transporta. Toda lipoproteína aterogênica carrega uma cópia de uma proteína chamada apolipoproteína B, e é o número dessas partículas circulando que determina quantas conseguem atravessar o endotélio. A LDL é a mais numerosa delas, e por isso o LDL-c serve como aproximação; mas quando os triglicérides sobem, a mesma quantidade de colesterol se distribui em mais partículas, e o LDL-c passa a subestimar a exposição. É exatamente por isso que existem duas metas ao lado do LDL-c no capítulo anterior: o não-HDL-c, que soma o colesterol de todas as partículas com apolipoproteína B, e a própria apolipoproteína B, que conta partículas em vez de pesar carga.
A partícula entra na parede arterial por difusão, e a maioria sai de novo. O que inicia a doença é a retenção: proteoglicanos da matriz da íntima prendem a partícula pela apolipoproteína B, e a partícula presa sofre modificação oxidativa. A partir daí a lesão deixa de ser um problema de lipídio e passa a ser um problema imunológico — a partícula modificada recruta monócitos, que se diferenciam em macrófagos, captam o lipídio por receptores que não têm regulação por retroalimentação e viram células espumosas. Não é um cano entupindo por depósito passivo. É uma resposta inflamatória crônica a um lipídio que ficou onde não devia, e é essa diferença que explica por que reduzir a partícula funciona e por que o processo continua enquanto a exposição continuar.

A terceira ideia é a que reorganiza tudo o mais: a placa é uma integral no tempo. O que determina o dano não é o valor de um dia, é o produto da concentração pela duração da exposição — miligramas por decilitro multiplicados por anos. Isso explica três coisas que de outro modo pareceriam desconexas. Explica por que a idade domina qualquer escore de risco, já que o tempo é o outro fator do produto. Explica por que a hipercolesterolemia familiar produz doença coronária aos 40 anos: a pessoa não tem um colesterol pior que o de um sexagenário, tem o mesmo colesterol quatro décadas a mais. E explica por que tratar cedo vale mais do que tratar intensamente tarde, ainda que a segunda estratégia seja a que a rotina do pronto-socorro mais treina.
A estatina age no ponto exato onde essa aritmética pode ser interrompida, e o mecanismo tem um passo a mais do que a maioria das pessoas lembra. Ela inibe a hidroximetilglutaril coenzima A redutase e reduz a síntese de colesterol dentro do hepatócito; o hepatócito, percebendo menos colesterol intracelular, aumenta a expressão do receptor de LDL na sua superfície; e são esses receptores adicionais que retiram partículas da circulação. Ou seja, o efeito clínico não vem de fabricar menos colesterol, vem de limpar mais partículas do sangue. Como o mesmo receptor reconhece outras lipoproteínas que interagem com ele, o efeito se estende à lipoproteína de densidade muito baixa e aos remanescentes de quilomícron — o que também explica por que a estatina baixa triglicérides de forma modesta, e não só o LDL-c.
Esse mesmo mecanismo explica duas frustrações da prática. A primeira é a variação entre pessoas: a mesma dose produz quedas muito diferentes, e parte disso é genética, parte é adesão. A segunda é o rendimento decrescente de aumentar a dose — como o efeito depende de uma resposta celular que satura, dobrar a dose de uma estatina acrescenta pouco à queda já obtida. Daí a lógica de somar uma via em vez de forçar a mesma: a ezetimiba inibe a proteína NPC1L1 no enterócito e reduz a absorção intestinal de colesterol, contrabalançando precisamente o aumento compensatório de absorção que a inibição da síntese hepática provoca. As duas drogas não competem; uma corrige a resposta adaptativa da outra, e é por isso que a combinação rende muito mais do que a soma intuitiva sugeriria.
Os triglicérides pertencem a duas histórias que não se misturam, e trocá-las de lugar produz boa parte da conduta errada nessa área. Na faixa moderada, o problema não são os triglicérides em si: são as partículas remanescentes, ricas em triglicérides mas também portadoras de apolipoproteína B, que atravessam o endotélio e se retêm como a LDL. Por isso o alvo nessa faixa é o não-HDL-c, que as inclui, e não o triglicéride isolado. Na faixa muito alta, acima de 500 e sobretudo acima de 1.000 mg/dL, entra outra fisiopatologia inteiramente: os quilomícrons são grandes demais para atravessar o endotélio e não causam aterosclerose, mas causam pancreatite aguda por lipólise excessiva no leito pancreático. Duas faixas, dois mecanismos, dois desfechos, duas condutas — e um único número no laudo.
A lipoproteína(a) é uma partícula de LDL com uma proteína adicional ligada, a apolipoproteína(a), e o seu nível é determinado geneticamente e permanece praticamente constante ao longo da vida, sem responder de forma relevante a dieta, exercício ou estatina. Isso tem duas consequências que estão em lados opostos da mesma moeda. Dosar uma vez basta, porque não há o que acompanhar. E o risco que ela representa é risco residual verdadeiro: a pessoa com lipoproteína(a) muito alta pode atingir a meta de LDL-c e continuar em risco maior do que o número sugere. É uma das razões pelas quais a diretriz permite reclassificar risco para cima com base num único exame.
Por fim, o mecanismo do sintoma muscular, porque conhecê-lo é o que permite distinguir a queixa que importa da queixa que não é da droga. A lesão muscular associada à estatina, quando existe, acomete músculo esquelético de forma bilateral, simétrica e proximal — nádegas, coxas, panturrilhas, musculatura dorsal —, aparece tipicamente entre quatro e doze semanas do início ou de um aumento de dose, e melhora poucos dias depois da suspensão. Ao lado dela existe um segundo mecanismo, que não é farmacológico e é igualmente real: o efeito nocebo, em que a expectativa negativa produz o sintoma. E existe um terceiro, raro e grave, de natureza autoimune, com anticorpos contra a própria enzima inibida, que não melhora com a suspensão e é o único que exige investigação imunológica. Três mecanismos, uma só queixa — e é o padrão clínico, não a intensidade da dor, que diz qual deles está em jogo.
Como se apresenta de verdade
Dislipidemia não tem sintoma. Isso parece trivial e tem uma consequência que não é: o espectro de apresentação deste capítulo não é um espectro de quadros clínicos, é um espectro de portas de entrada. A doença chega como papel, como evento, como achado de exame físico ou como emergência abdominal — e a conduta muda inteiramente conforme a porta.
A forma mais comum: o papel sem paciente doente
Na imensa maioria das vezes o perfil lipídico chega antes da queixa, e frequentemente sem queixa nenhuma: exame periódico de trabalho, avaliação pré-operatória, rotina do hipertenso, pedido do próprio paciente depois de um susto na família. A pessoa se sente bem, não tem sintoma para relatar e está ali para saber se o número está alto. Essa é a apresentação em que o interno mais erra, porque a pergunta que ele recebe é sobre o número e a pergunta que ele precisa responder é sobre a pessoa.
Duas variantes desta porta merecem atenção. A primeira é o exame pedido em contexto agudo — internação, infecção, pós-operatório —, situação em que o perfil lipídico não representa o basal e não deve fundamentar decisão de longo prazo. A segunda é o exame antigo trazido na consulta, às vezes de anos atrás, que serve para mostrar trajetória mas não para prescrever.
A apresentação que já é doença: o lipídio que aparece depois do evento
Aqui a dislipidemia não é diagnóstico novo, é sequela de uma trajetória. O paciente chega com infarto, angina com isquemia documentada, revascularização prévia, acidente vascular cerebral isquêmico ou claudicação — e o perfil lipídico é colhido dentro da internação, quando a decisão de tratar já está tomada pelo evento. A estratificação, nesse caso, não passa por escore nenhum: ele é de muito alto risco por definição, e pode ser de risco extremo se houver mais de um evento maior ou um evento somado a duas condições de alto risco.
O que muda no ambulatório é a meta, e é aqui que o interno encontra material desatualizado com frequência. A meta pós-evento hoje é LDL-c abaixo de 50 mg/dL e não-HDL-c abaixo de 80 mg/dL — números que já estavam na diretriz de síndrome coronariana sem supradesnível de 2021 e que a diretriz de dislipidemias de 2025 confirmou. Relatórios de alta que ainda escrevem meta de 70 mg/dL estão citando régua anterior.
E há a apresentação silenciosa dentro dessa: o paciente que já teve evento, saiu com estatina, e chega ao ambulatório sem ela, sem que ninguém tenha decidido suspendê-la. Perguntar diretamente o que ele está tomando hoje, e não o que consta na receita de alta, é o que revela isso.
A apresentação que se vê no corpo: hipercolesterolemia familiar
É a única forma em que o exame físico faz o diagnóstico, e o interno pode fazê-lo com as mãos, luz e três perguntas sobre a família. Xantoma tendíneo, que se procura palpando os tendões extensores dos dedos e o tendão calcâneo, buscando espessamento nodular e não dor. Arco córneo antes dos 45 anos. Xantelasma antes dos 25 anos. Somados a LDL-c muito elevado e a história de doença coronária prematura em parente de primeiro grau, esses achados fecham um diagnóstico que muda a vida de uma família inteira.
A escala de importância é fácil de subestimar. No estudo brasileiro de coorte com 15.105 participantes, a prevalência estimada pelos critérios da rede holandesa de clínicas de lípides foi de 3,8 por mil, ou uma pessoa em cada 263 — e foi maior em mulheres, em pardos e em pretos do que em brancos, com uma faixa que vai de 1 em 156 a 1 em 417 conforme a cor da pele. Numa unidade básica com três mil adultos cadastrados, isso significa cerca de onze pessoas. Elas não estão diagnosticadas.
A apresentação de urgência: hipertrigliceridemia grave
Quando os triglicérides sobem acima de 500 e sobretudo acima de 1.000 mg/dL, a doença deixa de ser assintomática e o desfecho deixa de ser cardiovascular. O quadro é de dor abdominal, com ou sem pancreatite instalada; podem aparecer xantomas eruptivos, pequenas pápulas amareladas em tronco e superfícies extensoras, e o soro colhido é visivelmente lipêmico. Aqui a prioridade não é o LDL-c — é a prevenção da pancreatite aguda, com restrição de gordura total da dieta, abstinência alcoólica, controle glicêmico e fibrato.
Há também a hipertrigliceridemia grave que aparece em contexto obstétrico ou por síndrome genética rara de quilomicronemia, e há a que aparece como efeito de medicação. Em todas, a pergunta de triagem é a mesma e é de anamnese: álcool, glicemia, medicamento novo, e história familiar de pancreatite.
O que muda no diabético, no renal crônico e em quem tem doença inflamatória
No diabetes, a estratificação tem régua própria, porque o poder aterogênico da doença altera a categoria sem depender do colesterol. Diabetes tipo 2 a partir dos 50 anos no homem, e dos 56 na mulher, já entra em alto risco; antes dessas idades e sem nenhum marcador, fica em intermediário; com três marcadores somados, ou com um marcador de gravidade renal ou vascular, sobe para a categoria seguinte. Ou seja, no diabético a idade e os marcadores decidem antes do LDL-c.
Na doença renal crônica, a filtração glomerular entra tanto na estimativa de risco quanto na lista de condições de alto risco que definem risco extremo em quem já teve evento — na faixa de 15 a 59 mL/min/1,73 m². Vale lembrar que a albuminúria é medida barata, disponível na atenção primária, e que ela informa risco em quem ainda tem filtração preservada.
As doenças inflamatórias crônicas — artrite reumatoide, psoríase, lúpus, doença inflamatória intestinal e infecção crônica pelo vírus da imunodeficiência humana — e o transplante de órgão sólido entram como agravantes que reclassificam risco para cima. São pacientes jovens, com escore calculado baixo e risco real maior do que o número, e é justamente o tipo de caso em que a calculadora sozinha induz ao erro.
A coluna que só existe em mulheres, e que a calculadora não pergunta
Há uma lista inteira de agravantes de risco específicos das mulheres, e nenhum deles entra nas variáveis de um escore. Menarca precoce, aos 12 anos ou antes, ou tardia, aos 17 ou depois. Distúrbios da gestação: pré-eclâmpsia, eclâmpsia, hipertensão gestacional e diabetes gestacional. Parto prematuro. Restrição de crescimento intrauterino. Abortos de repetição, três ou mais perdas espontâneas. Menopausa precoce, antes dos 40 anos.
A consequência prática é direta e cabe em duas perguntas na anamnese de qualquer mulher acima dos 35 anos: como foram as suas gestações, e com que idade a menstruação parou. São perguntas que raramente aparecem numa consulta de clínica médica e que podem mover a paciente de categoria — e categoria, neste capítulo, é meta.
Há ainda uma restrição terapêutica que decorre da mesma anamnese: em gestantes e lactantes há recomendação forte contra ezetimiba, terapia anti-PCSK9, ácido bempedoico e lomitapida, e a mulher em idade fértil sem contracepção segura é critério de exclusão do protocolo do Ministério para o tratamento medicamentoso. Perguntar sobre intenção de engravidar faz parte da prescrição, não da anamnese social.
Como fechar o diagnóstico
Neste capítulo a investigação tem uma peculiaridade que vale nomear antes de começar: o exame já foi feito. Quase sempre o perfil lipídico chega antes da consulta, pedido por alguém, por um convênio, por uma exigência de trabalho ou pelo próprio paciente. A pergunta do interno raramente é qual exame pedir primeiro — é o que fazer com o que já está na mesa. E a resposta começa por conferir se aquele número merece confiança, porque a decisão que vem depois dura décadas.
O perfil lipídico: o que cada linha responde, e o que estraga a coleta
O perfil lipídico devolve quatro medidas diretas e uma calculada. Colesterol total e triglicérides são medidos; o HDL-c é medido; o LDL-c, na maioria dos laboratórios brasileiros, é calculado. O não-HDL-c também é calculado, mas por uma subtração trivial: colesterol total menos HDL-c. Cada linha responde a uma pergunta diferente. O colesterol total quase não decide nada sozinho e serve para entrar nos escores de risco. O HDL-c descreve risco e não é alvo de tratamento. Os triglicérides interessam por dois motivos separados — risco cardiovascular numa faixa e risco de pancreatite noutra, muito mais alta. O LDL-c é o alvo primário, e o não-HDL-c é alvo coprimário, cobrando o colesterol que viaja em todas as partículas aterogênicas e não só na LDL.
A pergunta do jejum, que trava tanta consulta, tem resposta curta: para a avaliação inicial é aceitável colher sem jejum. A coleta sem jejum é adequada para a avaliação habitual, embora existam pequenas variações pós-prandiais e limitações do LDL-c calculado conforme o método e os triglicérides. O que muda é o triglicéride, e por isso o valor desejável tem dois patamares — abaixo de 150 mg/dL em jejum de doze horas e abaixo de 175 mg/dL sem jejum. O laboratório é obrigado a informar no laudo em qual das duas condições a amostra foi colhida, e o laudo que não informa é um laudo pela metade. Uma única situação obriga a repetir em jejum de doze horas: o triglicéride ultrapassar 440 mg/dL na coleta feita sem ele. Abaixo disso, mandar o paciente voltar em jejum custa uma consulta e não muda conduta nenhuma.
Erro pré-analítico é o que faz um resultado descrever um dia ruim em vez de descrever a pessoa. Três causas cobrem quase tudo. O torniquete mantido além de um minuto produz hemoconcentração e altera o perfil inteiro — a orientação é desfazê-lo assim que a agulha entra na veia, e isso está na sua mão, não na do laboratório. A transgressão alimentar na véspera, sobretudo álcool e refeição rica em gordura, eleva triglicérides de forma transitória. E atividade física extenuante no dia anterior também altera o perfil. A instrução ao paciente não é jejuar: é manter a dieta habitual e o estado metabólico estável.
Daí a regra que mais economiza tratamento desnecessário: repita antes de tratar. A variação biológica intraindividual das lipoproteínas é real, e uma decisão de tratamento que vai durar o resto da vida não deve nascer de uma única coleta. A exceção é quem já tem evento aterosclerótico e sai da internação em uso de estatina — ali a decisão já foi tomada pelo evento, e a segunda dosagem serve para ajustar dose, não para autorizar o começo.
Quando o LDL-c do laudo é um número fabricado
O LDL-c calculado pela equação clássica estima a fração de colesterol que viaja nas partículas de densidade muito baixa dividindo os triglicérides por cinco. Essa razão fixa é uma aproximação que funciona bem na faixa habitual e piora quando os triglicérides sobem — e piora exatamente no paciente em que a decisão é mais difícil, o de síndrome metabólica com triglicérides altos e LDL-c aparentemente confortável. A fórmula de Martin e Hopkins substitui a razão fixa por uma razão ajustável e mitiga o problema; laboratórios que a usam costumam declarar isso no laudo.
Há dois modos de não depender disso. O primeiro é ler o não-HDL-c, que é subtração e não estimativa: colesterol total menos HDL-c, sem cálculo indireto, sem dependência de triglicérides e sem dependência de jejum. O segundo é a apolipoproteína B, que conta partículas em vez de medir a carga que elas transportam — a diretriz de 2025 a coloca como meta secundária, sobretudo quando LDL-c e não-HDL-c já estão controlados e ainda há dúvida sobre risco residual.
Uma consequência prática vale ser memorizada: quando os triglicérides passam de 400 mg/dL, o LDL-c calculado deixa de ser confiável e a conduta se apoia no não-HDL-c. Nessa faixa a prioridade clínica também muda de lugar, porque acima de 500 mg/dL o alvo passa a incluir a prevenção de pancreatite aguda, que é um desfecho de semanas, não de décadas.
O que exclui antes de rotular: as causas secundárias, que são o diferencial
Aqui mora o diagnóstico diferencial deste capítulo, e ele não cabe num bloco separado porque é o mesmo movimento de investigar. Antes de chamar um perfil alterado de dislipidemia primária e prescrever para a vida inteira, procure a causa que, corrigida, corrige o número. Os critérios de exclusão do protocolo do Ministério tratam parte disso como impeditivo formal ao tratamento — hipotireoidismo descompensado com TSH acima de 10 mcUI/mL, doença hepática aguda ou crônica grave, gestação ou mulher em idade fértil sem contracepção segura.
Cinco causas cobrem a maioria. O hipotireoidismo eleva colesterol total e LDL-c e some com a reposição — e há uma armadilha extra: enquanto o TSH não normaliza, o paciente fica mais vulnerável a sintoma muscular pela estatina, de modo que tratar a tireoide primeiro também protege o tratamento que vem depois. A síndrome nefrótica cursa com hipercolesterolemia expressiva; a pista é a proteinúria, e o exame que a procura custa quase nada. A doença hepática colestática eleva colesterol por retenção; a pista é a fosfatase alcalina e a gama-glutamiltransferase. O diabetes descompensado e o consumo de álcool elevam triglicérides, às vezes a valores que parecem doença genética e cedem em semanas com controle glicêmico e abstinência. E há a lista de medicamentos — corticoide, alguns antirretrovirais, imunossupressores, retinoides, diuréticos em dose alta —, que é a única causa secundária que se descobre lendo a receita, não pedindo exame.
O painel mínimo que exclui essas cinco é barato e cabe na mesma requisição do perfil lipídico: TSH, glicemia de jejum com hemoglobina glicada, creatinina com filtração glomerular estimada, exame de urina com relação albuminúria/creatininúria, alanina aminotransferase e fosfatase alcalina. É o mesmo painel que o capítulo de hipertensão desta apostila pede na avaliação inicial do hipertenso — e essa coincidência não é acaso, é a razão de os dois capítulos existirem lado a lado: o paciente é o mesmo, e a estratificação é uma só.
Do outro lado do diferencial está o que não é secundário e muda tudo: a hipercolesterolemia familiar. Ela se distingue por três coisas que não precisam de laboratório sofisticado. LDL-c muito alto e desproporcional ao resto do quadro. História familiar de doença coronariana prematura, antes dos 55 anos em homens e dos 60 ou 65 em mulheres, conforme o critério usado. E achados de exame físico que se procuram com as mãos e com luz: xantoma tendíneo, que se palpa nos tendões extensores dos dedos e no tendão calcâneo espessado; arco córneo antes dos 45 anos; xantelasma antes dos 25. O critério da Organização Mundial da Saúde, reproduzido no protocolo do Ministério, pontua esses itens — xantoma tendíneo vale 6 pontos, arco córneo precoce vale 4, LDL-c igual ou acima de 330 mg/dL vale 8 —, e diagnóstico definitivo se faz acima de 8 pontos, provável entre 6 e 8, possível entre 3 e 5.
A estratificação de risco: o que a calculadora usa, o que ela ignora, e quem dispensa a conta
A estratificação vem antes da meta, e não depois. A diretriz de 2025 organiza o risco aterosclerótico em cinco categorias e recomenda o escore PREVENT, da American Heart Association, para estimar risco em dez anos em quem tem de 30 a 79 anos e não tem doença cardiovascular prévia. Ele usa sexo, idade, colesterol total, HDL-c, pressão sistólica, uso de anti-hipertensivo, diabetes, tabagismo, uso de estatina, índice de massa corporal e filtração glomerular estimada; hemoglobina glicada e relação albumina/creatinina urinária entram como opcionais. A escolha é declaradamente de segunda melhor opção: a própria diretriz registra que não existe equação derivada da população brasileira e que outros escores calibrados para o Brasil também podem ser usados.
O que a calculadora não pergunta é tão importante quanto o que ela pergunta, e a diretriz chama esses itens de fatores agravantes. História familiar de evento em parente de primeiro grau antes dos 55 anos no homem ou dos 65 na mulher — que dobrou a chance de evento em homens numa das coortes citadas. Adiposidade, e aqui a fita métrica trabalha: o aumento de um desvio-padrão na circunferência abdominal, cerca de 12,6 cm, associou-se a razão de risco de 1,27 para eventos fatais e não fatais. Esteatose hepática e síndrome metabólica. Doenças inflamatórias crônicas: artrite reumatoide, psoríase, lúpus, doença inflamatória intestinal, infecção crônica pelo vírus da imunodeficiência humana. Transplante de órgão sólido. Lipoproteína(a) igual ou acima de 50 mg/dL e proteína C-reativa ultrassensível igual ou acima de 2,0 mg/L. E toda uma coluna de agravantes que só existem em mulheres, que a próxima seção deste capítulo detalha.
Agravante não soma pontos: reclassifica para cima. A população que mais ganha com essa pesquisa é a de risco intermediário calculado, porque é ali que a reclassificação muda conduta com mais frequência. Em quem já ficou em risco alto, procurar agravante não altera nada; em quem ficou em baixo risco, o agravante interessa sobretudo na perspectiva de risco ao longo da vida, e não do risco em dez anos.
E há quem dispense a calculadora inteira. Evento aterosclerótico prévio, obstrução arterial de 50% ou mais em qualquer território, escore de cálcio acima de 300 unidades Agatston, diabetes com estratificadores, doença renal crônica, LDL-c em 190 mg/dL ou mais, lipoproteína(a) passando de 180 mg/dL: cada um desses coloca o paciente numa categoria tão alta que calcular risco em dez anos seria perda de tempo. Antes de abrir o aplicativo, faça as quatro perguntas que resolvem a maioria dos casos: já teve evento, tem exame de imagem com placa, tem diabetes, tem LDL-c acima de 190. Se qualquer resposta for sim, a conta acabou.
O que não pedir de rotina, e o que custa pedir
Creatinoquinase de rotina em paciente assintomático em uso de estatina não deve ser dosada. A diretriz é explícita: a creatinoquinase se dosa antes de começar, e depois só se aparecerem sintomas musculares ou se entrar um medicamento com potencial de interação. O que se paga ao pedir não é o valor do exame — é que uma elevação pequena e assintomática, que ocorre com frequência e não significa dano, vira motivo para suspender uma medicação que reduz mortalidade. O mesmo raciocínio vale para as transaminases: dosagem basal sim, seriada não; e elevação da alanina aminotransferase até três vezes o valor de referência, que acontece em 0,5% a 2% dos usuários, não é indicação de suspender.
Repetir a lipoproteína(a) é desperdício por um motivo de biologia: o nível é determinado geneticamente, mantém-se estável ao longo da vida e não responde de forma relevante a dieta, exercício ou estatina. A recomendação da diretriz é dosar uma vez na vida em todo adulto. Uma vez significa uma vez.
Escore de cálcio coronário fora do risco intermediário raramente muda conduta. Em quem já é de alto risco pelo resto do quadro, um cálcio alto confirma o que já se sabia; um cálcio zero não desce a categoria de quem tem doença estabelecida. É no intermediário que o exame ganha o direito de existir, porque ali ele reclassifica.
Ultrassonografia de carótidas, ecocardiograma e teste ergométrico pedidos como pacote de investigação de dislipidemia não fazem parte de nenhuma régua. Eles têm indicação própria, por sintoma ou por suspeita específica, e quando entram como rotina produzem achados incidentais que geram consulta, ansiedade e novos exames sem alterar a decisão sobre o hipolipemiante.
E há um exame que se deixa de pedir por engano: o próprio perfil lipídico de controle. O registro brasileiro que avaliou 2.003 pacientes com doença coronária ou periférica encontrou quase um terço deles com LDL-c igual ou acima de 100 mg/dL, e apontou que a barreira principal não era financeira, era a decisão médica de não intensificar. Não medir é o que permite não decidir.
O que existe no SUS — porque exame que não se consegue não é conduta
O perfil lipídico completo está disponível na atenção primária e faz parte do painel de rotina do hipertenso e do diabético. Glicemia, hemoglobina glicada, creatinina, exame de urina com relação albuminúria/creatininúria, transaminases e eletrocardiograma também. Ou seja: tudo de que a estratificação de risco precisa, com exceção de um item opcional, já está ao alcance de uma requisição de unidade básica. Isso não é pouco — é o suficiente para classificar corretamente a grande maioria dos pacientes e para decidir se entra medicamento.
Fora do alcance rotineiro ficam quatro coisas, e convém saber quais para não construir uma conduta sobre elas. Apolipoproteína B raramente está padronizada na rede pública. Lipoproteína(a) menos ainda, e o ensaio recomendado é o independente da isoforma, com resultado em nmol/L — o que restringe mais ainda. Escore de cálcio coronário depende de tomografia com protocolo específico e de laudo com unidades Agatston, o que existe em poucos serviços. E a angiotomografia de coronárias é exame de centro terciário.
A consequência disso não é desistir da estratificação: é fazê-la com o que existe. Quando o refinamento não está disponível, quem decide é a história clínica e o exame físico — antecedente familiar bem colhido, tabagismo, circunferência abdominal, pressão, glicemia, função renal e albuminúria. É a mesma informação que os agravantes buscam, obtida sem tomógrafo. E quando o caso realmente depende de um exame indisponível, a conduta é encaminhar com a pergunta escrita, não deixar a decisão em suspenso enquanto o paciente espera.
As tabelas que decidem
Comece pelo risco cardiovascular e pelo benefício que se pretende oferecer à pessoa. Metas e porcentagens servem para acompanhar esse benefício; não substituem a avaliação de adesão, causas secundárias e efeitos adversos. Uma queixa muscular precisa ser caracterizada antes de atribuir causalidade à estatina ou de descartá-la. Quatro conteúdos tabulares organizam este capítulo, e a ordem entre eles é a ordem da consulta. Primeiro se descobre em que categoria de risco a pessoa está, porque é a categoria que define a meta — e há gente que entra em risco alto sem que se calcule nada. Depois se lê a meta, que nunca é um número solto: vem com uma queda percentual mínima ao lado, e as duas valem juntas. Em seguida se traduz o benefício em pessoas, e não em porcentagem, porque é assim que se decide junto com quem vai tomar o comprimido. Por último se escolhe a droga pelo efeito que ela produz, não pelo nome, e se confere o que existe na rede em que o paciente é atendido.
- 1Perfil lipídico alterado em mão. Antes de qualquer conduta: o resultado é de uma coleta só? Se for, agende a segunda.
- 2Procure causa secundária: hipotireoidismo, diabetes descompensado, síndrome nefrótica, colestase, álcool, medicamento em uso. Corrigir a causa muda o número.
- 3Pergunte pelo evento: infarto, angina com isquemia documentada, revascularização, acidente vascular cerebral isquêmico, doença arterial periférica sintomática. Se houver, a estratificação termina aqui, no risco muito alto ou no extremo.
- 4Sem evento: procure aterosclerose subclínica documentada, diabetes, doença renal crônica, e o valor do próprio LDL-c. Cada um desses entra direto numa categoria, sem escore.
- 5Nada disso? Aí sim, calcule o risco em dez anos e some os agravantes, que sobem a categoria de quem ficou no baixo ou no intermediário.
- 6Com a categoria na mão, leia a meta de LDL-c e a queda percentual mínima. Confira se a meta é alcançável com o que você pode prescrever hoje.
- 7Traduza o benefício em número de pessoas, apresente também o dano, e decida com o paciente.
- 8Prescreva pela intensidade, marque a reavaliação em quatro semanas e escreva no prontuário qual régua você usou.
Metas lipídicas por categoria de risco (Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2025)
| Categoria de risco | Meta de LDL-c | Queda mínima de LDL-c | Meta de não-HDL-c | Meta de ApoB |
|---|---|---|---|---|
| Baixo | menor que 115 mg/dL | 30% ou mais | menor que 145 mg/dL | menor que 100 mg/dL |
| Intermediário | menor que 100 mg/dL | 30% ou mais | menor que 130 mg/dL | menor que 90 mg/dL |
| Alto | menor que 70 mg/dL | 50% ou mais | menor que 100 mg/dL | menor que 70 mg/dL |
| Muito alto | menor que 50 mg/dL | 50% ou mais | menor que 80 mg/dL | menor que 55 mg/dL |
| Extremo | menor que 40 mg/dL | 50% ou mais | menor que 70 mg/dL | menor que 45 mg/dL |
Quem entra na categoria sem que se calcule escore nenhum
| Categoria | Entra direto quem tem | O que isso já decide na consulta |
|---|---|---|
| Extremo | Mais de um evento aterosclerótico maior. Ou um evento maior acompanhado de pelo menos duas das condições que a diretriz lista como de alto risco: ter 65 anos ou mais; carregar hipercolesterolemia familiar; ter feito ponte ou angioplastia por fora do evento que conta; ser diabético; ser hipertenso; ter função renal entre 15 e 59 mL/min/1,73 m²; fumar hoje; seguir com LDL-c em 100 mg/dL ou acima mesmo já no teto tolerado de estatina somada a ezetimiba; ou ter tido o evento agudo nos últimos 24 meses. | LDL-c abaixo de 40 mg/dL, com queda de metade ou mais. A combinação de drogas entra já na primeira receita, e não depois de a monoterapia falhar. |
| Muito alto | Evento aterosclerótico manifesto no passado. Estreitamento de metade ou mais da luz em artéria coronária, cerebral ou de membro. Cálcio coronário acima de 300 unidades Agatston. Diabetes tipo 2 que já carrega um marcador de gravidade renal ou vascular, ou três marcadores de risco somados. | LDL-c abaixo de 50 mg/dL. É onde cai praticamente todo mundo que recebe alta depois de uma síndrome coronariana aguda. |
| Alto | LDL-c de 190 mg/dL ou mais. Placa já vista em exame de imagem, ainda que sem obstruir metade da luz: carótida, coronária por tomografia, cálcio coronário passando de 100 unidades Agatston ou do percentil 75 para a idade, aneurisma de aorta abdominal. Lipoproteína(a) passando de 180 mg/dL. Diabetes tipo 2 a partir dos 50 anos no homem e dos 56 na mulher, ou em qualquer idade quando há um ou dois marcadores de risco. Risco calculado de 20% ou mais em dez anos. | LDL-c abaixo de 70 mg/dL, com queda de metade ou mais. Um LDL-c de 190 mg/dL basta sozinho para pôr a pessoa aqui, sem escore e sem sintoma. |
| Intermediário | LDL-c entre 160 e 189 mg/dL. Diabetes tipo 2 antes dos 50 anos no homem e dos 56 na mulher, sem nenhum marcador de risco. Ou risco calculado de 5% a menos de 20% em dez anos, sem agravante. | Meta de LDL-c abaixo de 100 mg/dL. É a faixa em que um agravante ou um escore de cálcio muda a categoria — e portanto a conduta. |
| Baixo | Risco calculado abaixo de 5% em dez anos, sem agravante e sem diabetes tipo 2. | Meta de LDL-c abaixo de 115 mg/dL, com estilo de vida. Medicamento entra se o LDL-c se mantém igual ou acima de 145 mg/dL depois das medidas não farmacológicas. |
A mesma redução relativa, quatro pacientes diferentes: o que muda é o risco de base
| Quem é, e qual o risco de evento em cinco anos sem tratar | O que a redução relativa diz | O que acontece com 1.000 pessoas iguais a essa, em cinco anos | Número necessário para tratar, em cinco anos |
|---|---|---|---|
| Adulto de baixo risco, risco de 2,5% em cinco anos | A estatina reduz eventos vasculares maiores em cerca de 22% para cada 39 mg/dL de queda no LDL-c. A frase é a mesma nas quatro linhas. | 25 pessoas teriam evento; com a estatina, 19,5. Diferença de 5,5 eventos evitados por mil. | 182 pessoas tratadas por cinco anos para evitar um evento. |
| Adulto de baixo risco no limite superior da faixa, risco de 5% em cinco anos | Os mesmos 22%. | 50 pessoas teriam evento; com a estatina, 39. Diferença de 11 eventos evitados por mil — que é exatamente o número que a metanálise de dados individuais de 27 ensaios encontrou em quem tem baixo risco. | 91 pessoas tratadas por cinco anos para evitar um evento. |
| Adulto de alto risco, risco de 12,5% em cinco anos | Os mesmos 22%. | 125 pessoas teriam evento; com a estatina, 97,5. Diferença de 27,5 eventos evitados por mil. | 36 pessoas tratadas por cinco anos para evitar um evento. |
| Adulto que já teve infarto, risco de 25% em cinco anos | Os mesmos 22%. | 250 pessoas teriam evento; com a estatina, 195. Diferença de 55 eventos evitados por mil. | 18 pessoas tratadas por cinco anos para evitar um evento. |
| O dano, na mesma moeda: diabetes de início novo atribuível à estatina | Há aumento pequeno da glicemia e da incidência de diabetes tipo 2, maior com estatina potente em dose alta, no idoso e em quem já tem excesso de peso ou resistência à insulina. | Cerca de 4 casos novos de diabetes por 1.000 pessoas tratadas por quatro anos. | 255 pessoas tratadas por quatro anos para um caso novo de diabetes. |
A estatina pelo efeito, não pela marca — e o que existe na rede pública
| Intensidade e queda esperada de LDL-c | Esquema | Onde se consegue no Brasil |
|---|---|---|
| Alta intensidade: queda de 50% ou mais | Atorvastatina de 40 a 80 mg por dia, ou rosuvastatina de 20 a 40 mg por dia. | Atorvastatina está na Rename 2024 no Componente Especializado, em comprimidos de 10, 20, 40 e 80 mg, vinculada ao protocolo do Ministério — o que significa processo administrativo, não retirada na farmácia da unidade. Rosuvastatina não está na Rename; a decisão de não incorporá-la foi publicada em portaria de 26 de dezembro de 2025. |
| Moderada intensidade: queda de 30% a 50% | Sinvastatina de 20 a 40 mg à noite; atorvastatina de 10 a 20 mg por dia; pravastatina de 20 a 40 mg à noite. | Sinvastatina está no Componente Básico, em comprimidos de 10, 20 e 40 mg: é a estatina que o interno consegue prescrever hoje na atenção primária, sem processo. Pravastatina está no Especializado, junto com a atorvastatina. |
| Terapia combinada: queda de até 65% com estatina de alta potência e ezetimiba | Estatina de alta intensidade somada a ezetimiba 10 mg por dia. Quando a alta intensidade não é tolerada, estatina moderada com ezetimiba acrescenta 20% a 25% de queda. | Ezetimiba não está na Rename. A comissão nacional recomendou, em dezembro de 2025, a não incorporação para alto e muito alto risco, apesar de todas as 18 contribuições da consulta pública terem sido favoráveis. Na rede privada o comprimido de 10 mg custava R$ 1,69 pelo menor preço de referência — cerca de R$ 617 por ano. |
| Sem estatina, por intolerância verdadeira | Ezetimiba isolada, ácido bempedoico e terapia anti-PCSK9, isoladas ou combinadas; fibrato que não seja genfibrozila e sequestrador de ácido biliar quando a meta ainda não é atingida. | Nenhuma dessas está na Rename para esta indicação. Na prática pública, o que resta é confirmar que a intolerância é verdadeira e reintroduzir estatina em dose menor — por isso o capítulo dedica tanto espaço a não perder a estatina por engano. |
As duas primeiras colunas da tabela de metas valem juntas, não em alternativa. Quem tem risco alto e LDL-c de 168 mg/dL precisa cair 58,3% para chegar aos 70 mg/dL; a queda mínima de 50% o levaria a 84 mg/dL, que é queda suficiente e meta não atingida. Nesse caso não se escolhe entre as duas réguas: falta tratamento.
A meta de não-HDL-c da diretriz é sempre trinta unidades acima da meta de LDL-c da mesma categoria, e a regra está escrita na própria seção 5.1. Conferindo par a par: 115 com 145, 100 com 130, 70 com 100, 50 com 80, 40 com 70. As cinco fecham. É a única das quatro colunas de meta que se pode reconstruir de cabeça, sem tabela na mão.
A aritmética da terceira tabela é a da própria diretriz, e ela fecha com ela mesma. A redução relativa de 22% por 39 mg/dL vem de uma metanálise de 90.056 participantes em 14 ensaios; a redução absoluta de 11 eventos por 1.000 em cinco anos, no baixo risco, vem de outra, de dados individuais de 27 ensaios. Dividindo 11 por 1.000 pelos 0,22, chega-se a um risco de base de 5% em cinco anos — que é exatamente a faixa de baixo risco daquela metanálise. Os dois números do documento se sustentam mutuamente.
A mesma diretriz traz dois valores para a mesma queda de LDL-c: 38,7 mg/dL na seção de metas e 39 mg/dL na seção de estatinas. Não é divergência, é arredondamento — um milimol por litro equivale a 38,67 mg/dL. Convém saber disso antes de tentar reconciliar as duas passagens.
Cuidado com a Lp(a) quando o laudo vier em nmol/L. A diretriz converte 30 mg/dL em 75 nmol/L e 50 mg/dL em 125 nmol/L, o que dá um fator de 2,5; mas converte o corte de alto risco de 180 mg/dL em 390 nmol/L, o que dá 2,17. Pelo fator de 2,5, 180 mg/dL seriam 450 nmol/L. Consequência prática: um laudo de 400 nmol/L é alto risco pela regra escrita em nmol/L e equivale a 160 mg/dL pelo fator de 2,5, que não é alto risco pela regra escrita em mg/dL. O mesmo exame, duas categorias. Enquanto a incoerência não é corrigida, use a unidade em que o corte foi escrito e registre no prontuário qual delas você usou.
A tabela de estatinas define intensidade pelo efeito porque é assim que a diretriz de 2025 a define: alta é a que reduz 50% ou mais, moderada é a que reduz de 30% a 50%. Os nomes e as doses vêm da diretriz de síndrome coronariana sem supradesnível de 2021, da mesma sociedade, que escreve rosuvastatina de 20 a 40 mg e atorvastatina de 40 a 80 mg. Duas fontes, porque nenhuma das duas traz as duas coisas.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo deste capítulo não se mede em horas. Ela se mede em consultas, e a primeira decisão importante é justamente não prescrever na primeira delas — a menos que o paciente já tenha tido um evento, caso em que a decisão foi tomada pelo evento e o relógio começa dentro do hospital. Fora disso, o que se ganha esperando duas a quatro semanas é a certeza de estar tratando a pessoa certa por um motivo que existe.
Todas as doses abaixo estão referenciadas. Onde o que a diretriz recomenda e o que a rede pública oferece divergem, as duas condutas aparecem, porque o interno vai atender nos dois lugares.
Consulta 0 — o dia em que o exame chega
Nenhum hipolipemiante é prescrito hoje, e isso é conduta, não omissão. O que se faz nesta consulta é quatro coisas. Primeira: olhar o laudo inteiro, e não só a linha do LDL-c — confirmar se havia jejum, olhar os triglicérides, calcular o não-HDL-c de cabeça subtraindo o HDL-c do colesterol total. Segunda: estratificar, e a estratificação começa por perguntar sobre evento prévio, exame de imagem com placa, diabetes e doença renal, porque qualquer um desses encerra a conta. Terceira: procurar causa secundária, pedindo o painel que a exclui. Quarta: examinar o paciente de verdade, procurando o que o laudo não mostra — tendões extensores dos dedos e tendão calcâneo, córnea, pálpebras, circunferência abdominal, pressão em ambos os braços, pulsos periféricos. E marcar o retorno com a segunda coleta já solicitada.
Prescrição- Nova coleta de perfil lipídico em duas a quatro semanas, mantendo dieta habitual, sem transgressão alimentar ou álcool na véspera e sem exercício extenuante no dia anterior; jejum dispensado, salvo se os triglicérides desta coleta estiverem acima de 440 mg/dL (Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2025, seção 3.1.1.1).
- Painel que exclui causa secundária, todo disponível na atenção primária: TSH, glicemia de jejum e hemoglobina glicada, creatinina com filtração glomerular estimada, exame de urina com relação albuminúria/creatininúria, alanina aminotransferase e fosfatase alcalina.
- Alanina aminotransferase e creatinoquinase basais, porque as duas se dosam antes de começar a estatina — e só antes (Diretriz de 2025, seção 7.1).
- Orientação de estilo de vida escrita, não falada de passagem: cessação do tabagismo, gordura saturada abaixo de 7% do valor calórico total, gordura trans zero, 25 g de fibra por dia, e atividade física regular (Diretriz de 2025, capítulo 6).
Consulta 1, em duas a quatro semanas — a decisão
Com as duas dosagens e o painel de secundárias na mão, a decisão sai. Se apareceu causa secundária, ela é tratada primeiro e o perfil é reavaliado depois — e o exemplo mais comum é o hipotireoidismo, em que a reposição melhora o perfil e ao mesmo tempo reduz a vulnerabilidade a sintoma muscular caso a estatina venha a ser necessária. Se não apareceu, a categoria de risco define a meta e a meta define a intensidade. Aqui também se decide o que este capítulo chama de conversa: o benefício é apresentado em número de pessoas, e não em porcentagem, e a decisão é tomada junto.
Prescrição- Baixo risco: sem medicamento, com estilo de vida e reavaliação. Medicamento entra apenas se o LDL-c se mantiver igual ou acima de 145 mg/dL depois das medidas não farmacológicas, com meta de LDL-c abaixo de 115 mg/dL e queda de ao menos 30% (Diretriz de 2025, seção 5.2.1).
- Risco intermediário: meta de LDL-c abaixo de 100 mg/dL, queda de ao menos 30%. Estatina de intensidade moderada — sinvastatina 20 a 40 mg, via oral, um comprimido à noite, uso contínuo (Rename 2024, Componente Básico; PCDT da Dislipidemia, Tabela 1, dose inicial de 20 mg).
- Risco alto: meta de LDL-c abaixo de 70 mg/dL, queda de ao menos 50%. Estatina de alta intensidade — atorvastatina 40 mg, via oral, um comprimido por dia, uso contínuo (Diretrizes da SBC sobre Angina Instável e Infarto sem Supradesnível de ST, 2021, seção 3.5; Rename 2024, Componente Especializado, comprimidos de 10, 20, 40 e 80 mg).
- Risco muito alto: meta de LDL-c abaixo de 50 mg/dL. Atorvastatina 40 a 80 mg por dia associada a ezetimiba 10 mg por dia como terapia inicial, com recomendação forte e certeza alta (Diretriz de 2025, capítulo 7). Ressalva do protocolo do Ministério: 80 mg de atorvastatina é dose restrita a casos especiais.
- Risco extremo: alvo de LDL-c abaixo de 40 mg/dL, já começando com estatina de alta intensidade, ezetimiba e terapia anti-PCSK9 na mesma receita (Diretriz de 2025, recomendação forte, certeza alta).
A primeira receita — o que se escreve e o que se diz junto
A receita de hipolipemiante tem três armadilhas de escrita. A primeira é o horário: a sinvastatina e a pravastatina são tomadas à noite, e o protocolo do Ministério deixa isso implícito ao orientar que o fibrato, quando associado, seja tomado pela manhã para se afastar da estatina; a atorvastatina pode ser tomada em qualquer horário fixo. A segunda é a duração: hipolipemiante para prevenção de evento é de uso contínuo, e escrever 'por 30 dias' na receita cria o paciente que suspende sozinho no fim da caixa. A terceira é o que se diz junto com a receita, e que decide adesão mais do que a dose: qual sintoma muscular deve ser relatado, que ele quase sempre é reversível, e que o plano é ajustar, nunca simplesmente parar.
Prescrição- Sinvastatina 40 mg — tomar um comprimido por via oral, à noite, de forma contínua (Rename 2024, Componente Básico; PCDT da Dislipidemia, Tabela 1, dose máxima de 80 mg, com a ressalva de que 80 mg ao dia se associa a risco aumentado de toxicidade).
- Ou atorvastatina 40 mg — tomar um comprimido por via oral, uma vez ao dia, em horário fixo, de forma contínua (Rename 2024, Componente Especializado, Grupo 2, vinculada ao PCDT da Dislipidemia; a dispensação exige abertura de processo administrativo, não é retirada direta na unidade).
- Quando indicada e disponível: ezetimiba 10 mg — tomar um comprimido por via oral, uma vez ao dia, de forma contínua, associada à estatina (Diretriz de 2025, capítulo 7). Não consta da Rename 2024.
- Triglicérides acima de 500 mg/dL, com prevenção de pancreatite como alvo: fenofibrato 200 mg por via oral, uma vez ao dia pela manhã (PCDT da Dislipidemia, Tabela 1, dose inicial 200 mg, máxima 250 mg). Genfibrozila nunca em associação com estatina, pelo risco de rabdomiólise (PCDT, seção 7.4.2).
Semana 4 a 6 — o primeiro controle, que é de eficácia
Quatro semanas depois de começar, ou depois de qualquer ajuste de dose, repete-se o perfil lipídico. Esse controle não é de segurança: é para saber se a droga fez o que se esperava dela. O que se compara não é só o valor com a meta, mas a queda percentual com a queda prometida pela intensidade prescrita. Uma estatina de alta intensidade que produziu 20% de queda não é uma estatina fraca — é, quase sempre, um comprimido que não está sendo tomado, e a conversa que resolve isso é diferente da conversa que aumenta a dose. Creatinoquinase e transaminases não entram nesta coleta se o paciente está assintomático.
Prescrição- Perfil lipídico de controle quatro semanas após o início ou o ajuste de dose (Diretriz de 2025, seção 7.1).
- Não solicitar creatinoquinase nem transaminases de rotina em paciente assintomático: a creatinoquinase se dosa antes de iniciar e depois apenas se surgirem sintomas musculares ou se entrar medicamento com potencial de interação (Diretriz de 2025, seção 7.1).
- Registrar no prontuário o LDL-c inicial, o atual e a queda percentual calculada. Sem o número de partida, o controle seguinte não significa nada.
Mês 3 — meta atingida, ou intensificação
Se a meta foi atingida e a queda percentual bate com a esperada, o tratamento está calibrado e a próxima coleta é anual. Se não foi, existem quatro perguntas em ordem, e pular a primeira é o erro mais caro do bloco: o paciente está tomando? Está tomando todo dia, ou só quando lembra? Apareceu alguma causa secundária nova? A dose está no teto do que ele tolera? Só depois das quatro é que se intensifica — e intensificar tem duas rotas. Dobrar a dose da estatina rende pouco, porque a curva de resposta é achatada; acrescentar uma segunda via de ação rende muito mais.
Prescrição- Meta não atingida com estatina de intensidade moderada: subir para alta intensidade — atorvastatina 40 mg por dia — ou associar ezetimiba 10 mg por dia, conforme a distância até a meta (Diretriz de 2025, capítulo 7).
- Meta não atingida com estatina de alta intensidade isolada: associar ezetimiba 10 mg por dia, uma vez ao dia. A combinação de estatina de alta potência com ezetimiba chega a 65% de queda do LDL-c; a combinação de estatina moderada com ezetimiba acrescenta 20% a 25% (Diretriz de 2025, seção 7.13).
- Alternativa quando a alta intensidade não é tolerada: estatina de intensidade moderada associada a ezetimiba, estratégia que se mostrou não inferior à alta intensidade isolada na redução de eventos em pacientes com doença aterosclerótica estabelecida, com menos descontinuação por intolerância (Diretriz de 2025, seção 5.2.4).
Mês 6 — a dose máxima tolerada não chegou lá
Chega o momento em que a meta não é alcançável com o que está prescrito e o paciente está tomando corretamente. Aqui o interno precisa saber duas coisas ao mesmo tempo, e elas puxam para lados diferentes. A primeira é que o benefício adicional de baixar mais o LDL-c existe e é proporcional à queda obtida. A segunda é que os medicamentos que produzem essa queda adicional não estão disponíveis na rede pública brasileira. O que resta, e é bastante, é garantir que nada foi perdido por engano no caminho: intolerância mal caracterizada que fez perder uma estatina, dose abaixo do teto tolerado, adesão parcial não investigada.
Prescrição- Revisar antes de escalar: confirmar adesão por contagem de comprimidos ou registro de retirada na farmácia; conferir se houve suspensão por sintoma muscular nunca reavaliado; recalcular a queda percentual desde o valor de partida.
- Documentar formalmente que o LDL-c segue em 100 mg/dL ou acima mesmo no teto tolerado de estatina somada a ezetimiba: em quem já teve evento maior, esse registro conta como uma das condições de alto risco que definem risco extremo (Diretriz de 2025, Tabela 4.2).
- Encaminhar para serviço de referência em lípides com a pergunta escrita e os valores em série, não apenas o último. Terapia anti-PCSK9 e ácido bempedoico não constam da Rename 2024.
Ano 1 — o que se repete, e o que não se repete
Atingida a meta, o perfil lipídico passa a ser anual. Repetir com mais frequência que isso só se justifica em duas situações que a diretriz nomeia: suspeita de má adesão e suspeita de efeito adverso. Creatinoquinase segue fora da rotina. A lipoproteína(a), se foi dosada, não se repete — o valor é praticamente invariante ao longo da vida. E há um exame que passa a ser mais útil que o perfil lipídico nesse ponto: a glicemia, porque a estatina eleva discretamente a glicemia e a incidência de diabetes, sobretudo em dose alta, no idoso e em quem já tem excesso de peso.
Prescrição- Perfil lipídico anual após o alcance da meta, com repetição antecipada apenas se houver suspeita de má aderência ou de efeito adverso (Diretriz de 2025, seção 7.1).
- Glicemia de jejum e hemoglobina glicada anuais em quem usa estatina de alta intensidade e tem fatores de risco metabólicos. Diabetes de início novo atribuível à estatina não é motivo para suspendê-la: são necessárias 255 pessoas tratadas por quatro anos para um caso novo, e a redução absoluta de risco cardiovascular supera esse efeito (Diretriz de 2025, seção 7.1).
- Não repetir lipoproteína(a) já dosada; não solicitar creatinoquinase, transaminases, ecocardiograma ou ultrassonografia de carótidas como rotina anual de dislipidemia.
Manutenção — quem acompanha, e o que faz o paciente voltar antes
O paciente de baixo e intermediário risco com meta atingida é de atenção primária, e a continuidade ali vale mais do que qualquer refinamento de escore. O de alto risco em uso de estatina de alta intensidade também pode ficar na primária, desde que o acesso à atorvastatina esteja resolvido. O que sobe de nível de atenção é o de muito alto e extremo risco que não atinge a meta, a hipercolesterolemia familiar e a hipertrigliceridemia grave recorrente. Antes de dar alta do ambulatório, três frases combinadas com o paciente evitam a maior parte dos retornos ruins: o que fazer se aparecer dor muscular, o que fazer se acabar o medicamento, e por que não se deve parar por conta própria mesmo se o exame vier bom.
Prescrição- Rastreamento em cascata quando o diagnóstico é hipercolesterolemia familiar: perfil lipídico em todos os parentes de primeiro grau, e a partir de cada caso identificado, nos parentes de primeiro grau daquele — a família inteira, e não só quem apareceu na consulta (Diretriz de 2025, capítulo 3; PCDT da Dislipidemia, Quadro 1).
- Retorno antecipado combinado por escrito para: dor, fraqueza ou cãibra muscular nova; urina escura; icterícia, dor abdominal ou perda de apetite; gravidez ou intenção de engravidar; e início de qualquer medicamento novo, pelo risco de interação.
- Contrarreferência escrita para a unidade básica com a categoria de risco, a meta, o valor de LDL-c de partida, o valor atual e a queda percentual obtida.
Como saber se está funcionando
Numa doença sem sintoma, saber se o tratamento está funcionando é inteiramente uma questão de medir a coisa certa no momento certo. E há uma armadilha específica aqui: o parâmetro de eficácia e o parâmetro de segurança têm calendários opostos. O de eficácia se mede cedo e depois raramente; o de segurança não se mede de rotina nunca, e sim quando o paciente conta alguma coisa. Inverter os dois é o erro de acompanhamento mais comum deste capítulo — e produz o paciente que faz creatinoquinase todo ano e não sabe qual é o próprio LDL-c.
Esperado: Queda de 30% ou mais com estatina de intensidade moderada e de 50% ou mais com alta intensidade, além do valor absoluto abaixo da meta da categoria de risco. As duas coisas juntas: valor e percentual.
Se não melhora: Antes de subir dose, verifique adesão — a queda muito abaixo da esperada quase sempre é comprimido não tomado, não estatina fraca. Depois procure causa secundária nova, sobretudo hipotireoidismo. Só então intensifique, preferindo somar ezetimiba a dobrar a dose, porque o rendimento de dobrar é pequeno.
Esperado: Valor abaixo da meta de LDL-c da categoria acrescida de 30 mg/dL: 145, 130, 100, 80 e 70 mg/dL, do baixo ao extremo risco. Triglicérides abaixo de 150 mg/dL em jejum ou de 175 mg/dL sem jejum.
Se não melhora: Não-HDL-c fora da meta com LDL-c dentro dela aponta risco residual em partículas remanescentes: reforce controle glicêmico, peso e álcool antes de mexer no hipolipemiante. Se os triglicérides passarem de 400 mg/dL, pare de usar o LDL-c calculado como guia e conduza pelo não-HDL-c.
Esperado: Uso diário contínuo. A pergunta útil não é se ele está tomando: é quantos dias na última semana ele deixou de tomar, e o que costuma atrapalhar.
Se não melhora: Peça a caixa ou o registro de retirada na farmácia. Identifique o motivo antes de resolver: falta do medicamento na unidade, esquecimento, sintoma que ele não relatou, crença de que o remédio 'já fez efeito' porque o exame melhorou, ou custo quando a droga é do componente especializado e o processo não saiu. Cada motivo tem uma solução diferente, e nenhuma delas é aumentar a dose.
Esperado: Ausência de dor, fraqueza ou cãibra novas. Quando houver, caracterize: bilateral, simétrico e proximal, em nádegas, coxas, panturrilhas e dorso, surgido entre quatro e doze semanas do início ou do aumento.
Se não melhora: Sintoma tolerável com creatinoquinase até três vezes o limite superior não exige suspender: pode-se trocar de estatina ou manter a mesma em dose de menor potência, com aumento gradual a cada quatro a seis semanas. Sintoma intolerável leva a suspensão temporária de quatro a seis semanas, com reintrodução em dose baixa depois. Procure e corrija o que aumenta a vulnerabilidade: hipotireoidismo não tratado, disfunção renal, interação medicamentosa. Toda suspensão sai da consulta com data marcada para a tentativa de reintrodução.
Esperado: Valores basais registrados no prontuário, para servir de comparação se um dia houver queixa.
Se não melhora: Elevação de alanina aminotransferase até três vezes o valor de referência ocorre em 0,5% a 2% dos usuários e não indica suspender: reavalie a enzima e procure outra causa. Creatinoquinase acima de dez vezes o limite superior exige avaliação imediata de função renal e de mioglobinúria. Dor que não melhora com a suspensão e creatinoquinase persistentemente alta levantam a hipótese rara de miosite necrotizante autoimune, que precisa de investigação específica.
Esperado: Estabilidade. Pode ocorrer elevação pequena e não clinicamente relevante da hemoglobina glicada.
Se não melhora: Diabetes de início novo não é motivo para suspender a estatina. A conta que decide está publicada: são necessárias 255 pessoas tratadas por quatro anos para um caso novo de diabetes, contra um número necessário para tratar de cerca de 18 em cinco anos para evitar um evento em quem já teve infarto. Trate o diabetes e mantenha a estatina.
Esperado: Pressão na meta pactuada, abstinência de tabaco sustentada, circunferência abdominal estável ou em queda.
Se não melhora: Este é o parâmetro que salva a consulta quando a meta lipídica é inalcançável com o que a rede oferece. Cessar o tabagismo, controlar a pressão e reduzir peso são reduções de risco absoluto no mesmo paciente, obtidas sem depender de incorporação de tecnologia. Quando você não pode entregar o LDL-c ideal, ainda pode entregar risco menor — e é isso que deve ser dito ao paciente, para que ele não conclua que nada mais adianta.
Onde o erro machuca
O dano: O dano corre nas duas direções e é assimétrico. De um lado, trata-se quem ganha pouco: no adulto de baixo risco, cerca de 182 pessoas precisam tomar estatina por cinco anos para que uma evite um evento, e as outras 181 ficam com o custo, o incômodo e o risco pequeno de diabetes de início novo. Do outro lado, e é o lado mais grave no Brasil, deixa-se de tratar quem ganha muito: em quem já teve infarto, esse número cai para cerca de 18. Um LDL-c de 140 mg/dL pode não justificar medicamento numa pessoa e ser tratamento insuficiente na outra — o número é o mesmo, a decisão é oposta.
Como pegar a tempo: Nunca leia o LDL-c sem a categoria de risco ao lado. Antes de abrir a calculadora, faça as quatro perguntas que encerram a estratificação: já teve evento, tem placa documentada em imagem, tem diabetes, o LDL-c está igual ou acima de 190. Escreva a categoria no prontuário, e não só o valor do exame.
O dano: É a principal causa de perda definitiva de um tratamento que reduz mortalidade, e o mecanismo do dano é social, não farmacológico: quem sai raramente volta, porque a suspensão vira parte da história do paciente ('eu não posso tomar estatina') e ninguém a revisita. A metanálise citada pela própria diretriz brasileira conclui que a prevalência de intolerância é frequentemente superestimada, com resultados que variam de 4% a 21% conforme o desenho do estudo, e que ensaios randomizados encontram muito menos do que coortes.
Como pegar a tempo: Caracterize antes de decidir: bilateral, simétrico, proximal, entre quatro e doze semanas do início ou do aumento de dose, melhora dias após parar e volta ao reintroduzir. Dor unilateral, articular, distal ou anterior à estatina não é esse quadro. Se precisar suspender, escreva na receita a data da tentativa de reintrodução, em dose menor. Suspensão sem data marcada é alta silenciosa do tratamento.
O dano: Elevações pequenas e sem significado clínico são frequentes, e cada uma delas gera uma decisão de suspender que ninguém tomaria se o exame não tivesse sido pedido. Elevação de alanina aminotransferase até três vezes o valor de referência ocorre em 0,5% a 2% dos usuários e não indica interrupção — mas, quando aparece num exame não solicitado por nenhuma pergunta clínica, costuma interromper mesmo assim. O paciente perde a droga por causa de um número que não descrevia dano.
Como pegar a tempo: Dose as duas antes de começar e registre os valores. Depois, só quando houver sintoma muscular ou entrada de medicamento com potencial de interação. Se um exame veio alterado sem que você o tivesse pedido por um motivo, trate o resultado como o que ele é: um dado sem pergunta, que exige repetição e contexto antes de virar conduta.
O dano: É a inércia terapêutica com aparência de tratamento em curso. O registro brasileiro com 2.003 pacientes portadores de doença coronária ou periférica encontrou 55,4% dos usuários de estatina fora da alta intensidade e cerca de 30% com LDL-c igual ou acima de 100 mg/dL — e a barreira principal apontada não foi financeira, foi a decisão médica de não intensificar. O paciente sai da consulta achando que está tratado, e o médico também.
Como pegar a tempo: Alta intensidade é o que reduz 50% ou mais: atorvastatina de 40 a 80 mg ou rosuvastatina de 20 a 40 mg. Atorvastatina 20 mg é moderada. Em toda consulta, escreva no prontuário o LDL-c de partida, o atual e a queda percentual — sem o valor de partida registrado, a próxima consulta não tem como saber se o tratamento funcionou.
O dano: Custa uma consulta e um deslocamento, adia semanas ou meses uma decisão que já poderia ter sido tomada, e frequentemente o paciente não volta. As alterações pós-prandiais de colesterol total, HDL-c e não-HDL-c costumam ser pequenas e não impedem a avaliação habitual sem jejum; só o triglicéride muda, e para ele existe valor de referência próprio sem jejum. A única situação que justifica repetir com jejum de doze horas é triglicéride acima de 440 mg/dL na amostra sem jejum.
Como pegar a tempo: Use o laudo que está na mesa e confira se ele informa a condição de coleta, como o laboratório é obrigado a fazer. Oriente o paciente a manter a dieta habitual e evitar álcool, refeição rica em gordura e exercício extenuante na véspera — que é o preparo que realmente muda o resultado — e reserve o jejum para a exceção.
O dano: Perde-se o diagnóstico de hipercolesterolemia familiar, e com ele a chance de encontrar parentes que estão expostos há décadas e ainda não tiveram evento. A doença atinge cerca de uma pessoa em cada 263 adultos no Brasil segundo a coorte nacional, e o risco não é do indivíduo, é da linhagem: cada parente de primeiro grau tem metade de chance de carregar a mesma alteração. Tratar só quem apareceu na consulta deixa irmãos, filhos e pais sem rastreamento.
Como pegar a tempo: Diante de LDL-c persistentemente acima de 190 mg/dL, ou acima de 160 mg/dL com história familiar de doença coronária prematura, examine tendões extensores dos dedos, tendão calcâneo, córnea e pálpebras, aplique os critérios pontuados da Organização Mundial da Saúde reproduzidos no protocolo do Ministério e, confirmado o diagnóstico, solicite perfil lipídico de todos os parentes de primeiro grau — e a partir de cada novo caso, dos parentes de primeiro grau dele.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa deste capítulo tem uma dificuldade que nenhuma outra do internato tem: você vai propor um tratamento diário e permanente a uma pessoa que se sente bem, para um problema que ela não sente, em troca de um benefício que ela nunca vai perceber ter recebido. Quem toma estatina e não infarta não tem como saber que não infartou. Isso torna a conversa uma negociação sobre probabilidade, e a moeda dessa negociação é o número absoluto — porcentagem de redução não significa nada para quem está do outro lado da mesa.
A primeira pergunta que ele faz: 'doutor, meu colesterol está alto?'
“Está acima do valor de referência do laboratório, sim. Mas esse número sozinho não me diz o que fazer, e eu vou te explicar por quê. Eu atendi hoje de manhã outra pessoa com o colesterol exatamente igual ao seu, e para ela a minha conduta é diferente da sua. O que muda não é o colesterol: é o resto — a sua idade, o cigarro, a sua pressão, o infarto do seu pai antes dos 55 anos. O colesterol é um dos ingredientes da conta, não é a conta. Então eu vou fazer a conta com você, e aí a gente decide junto.”
Não diga: Não diga 'está alto, vamos ter que tratar' antes de estratificar. Também não diga 'está um pouquinho alterado, não é nada' — as duas frases substituem a conta por uma impressão, e as duas produzem decisão errada em metade dos casos.
Apresentando o benefício em números que ele consegue usar
“Deixa eu te dar os números de verdade, porque assim você decide comigo. Pensa em mil pessoas iguais a você: mesma idade, mesma pressão, fumando, com o mesmo colesterol. Nos próximos cinco anos, cerca de 125 dessas mil teriam um infarto ou um derrame. Se as mil tomarem o remédio, esse número cai para cerca de 98. Quer dizer: 27 pessoas em cada mil não passam por isso. Visto de outro ângulo, 36 pessoas precisam tomar o comprimido por cinco anos para que uma delas escape de um evento. Isso pode parecer pouco ou muito, e a resposta é sua, não minha. Eu acho que vale, e vou te dizer por quê. Mas eu também vou te dizer o que o remédio pode causar, porque a conta só é honesta com os dois lados.”
Não diga: Não diga 'reduz 22% do risco'. É verdade e é inútil: a pessoa entende 22% do que ela tem, e o que ela tem é uma incerteza sem tamanho. Também não invente o número — se você não sabe o risco de base daquele paciente, diga que vai calcular e traga na próxima consulta.
'Vou tomar isso para o resto da vida?'
“Provavelmente sim, e eu prefiro te dizer isso agora do que daqui a seis meses. O remédio não conserta o colesterol: ele segura enquanto está sendo tomado. Se parar, em algumas semanas volta ao que era. Isso não quer dizer que a dose nunca vai mudar nem que a gente não vai reavaliar — vamos, todo ano. E não quer dizer que você fique preso a mim: quem toma isso de forma estável é acompanhado na unidade básica, perto de casa. O que eu te peço é o contrário de heroísmo: é constância. É o remédio mais chato que existe, porque não melhora nada que você sinta.”
Não diga: Não prometa que 'se melhorar a alimentação a gente tira'. Em risco alto isso quase nunca acontece, e a promessa não cumprida é a origem de metade dos abandonos. Dieta e exercício entram porque reduzem risco por si, não como moeda de troca pela retirada do comprimido.
'Ouvi dizer que esse remédio dá dor muscular e estraga o fígado'
“Você ouviu certo, existe. Dor muscular é a queixa mais comum, e ela costuma aparecer nas primeiras semanas ou depois de um aumento de dose. Só que a maior parte das dores que aparecem em quem toma estatina não é causada por ela — pesquisas grandes mostram que a gente superestima muito esse efeito. Então o combinado é este: se doer, você não para por conta própria. Você me liga ou vem antes da consulta marcada, eu examino, eu peço um exame se for o caso, e a gente decide juntos. Na maioria das vezes dá para continuar, trocando o remédio ou baixando a dose. Sobre o fígado: eu peço um exame agora, antes de começar, e depois só peço de novo se você tiver algum sintoma. Alteração pequena acontece e não significa dano.”
Não diga: Não minimize com 'isso não acontece'. Além de falso, destrói a confiança no dia em que doer. E não recite a lista inteira da bula: o detalhamento excessivo de efeitos adversos é uma das causas reconhecidas do efeito nocebo, em que a expectativa produz o sintoma.
Ele ouve tudo e diz que não quer tomar
“Tudo bem. É uma decisão sua, e ela é legítima — eu te dei os números justamente para que fosse sua. Eu vou registrar no prontuário que conversamos, quais são os números e qual foi a sua decisão, e isso não fecha a porta: se você mudar de ideia daqui a três meses ou daqui a três anos, a conversa recomeça de onde parou. Enquanto isso, tem duas coisas que reduzem o seu risco mais do que o remédio e que dependem só de você: parar de fumar e controlar a pressão. Eu queria que a gente trabalhasse nelas de qualquer jeito. E eu queria te ver de novo em três meses, não para insistir, mas porque o seu risco merece acompanhamento com ou sem comprimido.”
Não diga: Não transforme a recusa em ultimato nem em despedida. E não deixe de registrar: a recusa informada é uma decisão clínica documentada, não uma falha de adesão.
Quando o diagnóstico é hipercolesterolemia familiar, e a conversa passa a ser com a família
“O que você tem não é colesterol alto por causa da alimentação. É uma alteração que se herda, e é por isso que o seu colesterol é tão mais alto que o das outras pessoas e por isso que o seu pai teve infarto cedo. Isso muda duas coisas. A primeira é que o seu tratamento começa mais forte e mais cedo. A segunda, e é a mais importante do que eu vou te dizer hoje: cada irmão seu, cada filho seu e cada um dos seus pais tem metade de chance de ter a mesma coisa. Eles não sentem nada, exatamente como você não sentia. Eu vou te dar pedidos de exame para levar para eles. Um exame de sangue simples, dos que qualquer unidade faz. Encontrar isso neles agora é o que evita que a história do seu pai se repita.”
Não diga: Não use a palavra 'genético' e siga adiante sem explicar o que isso significa para os parentes — a informação que muda desfecho é a do rastreamento familiar. E não descreva a condição como sentença: com tratamento, o risco cai substancialmente.
O paciente que já teve infarto e acha que 'aquilo já passou'
“O entupimento que causou o seu infarto foi tratado, e o senhor está bem. Mas a doença que produziu aquele entupimento continua nas outras artérias, e ela é silenciosa como foi antes. É por isso que o alvo do seu colesterol agora é muito mais baixo do que o de uma pessoa que nunca infartou — e é também por isso que, no seu caso, esse remédio rende muito mais: de cada 18 pessoas que tomam por cinco anos depois de um infarto, uma escapa de um novo evento. É a intervenção com melhor retorno que eu tenho para te oferecer hoje, melhor do que qualquer exame que eu possa pedir.”
Não diga: Não deixe passar a suspensão silenciosa: pergunte o que ele está tomando hoje, e não o que está escrito no relatório de alta. E não repita a meta antiga de 70 mg/dL, que ainda aparece em relatórios de alta — depois de um evento, a meta é abaixo de 50 mg/dL.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Meta numérica por categoria de risco, com controle laboratorial em quatro semanas
A diretriz da cardiologia de 2025 fixa uma meta de LDL-c para cada uma das cinco categorias — de 115 mg/dL no baixo risco a 40 mg/dL no extremo —, acrescenta uma queda percentual mínima ao lado de cada uma e recomenda repetir o perfil lipídico cerca de quatro semanas depois do início e de cada ajuste de dose, e anualmente depois de atingida a meta. Todas as cinco recomendações de meta saem com força forte, e quatro delas com certeza alta. O argumento é de dose-resposta: o benefício acompanha a queda obtida, e sem medir não se sabe se ela aconteceu. O registro brasileiro que avaliou 2.003 pacientes com doença coronária ou periférica sustenta a preocupação — 55,4% dos que usavam estatina não estavam em alta intensidade, e a barreira apontada não foi financeira, foi a decisão de não intensificar.
Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), seções 5.1 a 5.2.5, Tabela 5.1 e seção 7.1
Elegibilidade decidida pelo risco, tratamento contínuo, sem número a perseguir depois
O protocolo clínico do Ministério da Saúde inverte a lógica: o risco cardiovascular é critério de inclusão no tratamento, não alvo a ser perseguido depois dele. Entra quem tem Escore de Risco de Framingham acima de 10% em dez anos, quem tem doença aterosclerótica documentada, quem tem hipercolesterolemia familiar definitiva, ou quem tem diabetes acima de certa idade com um fator de risco maior. E a seção de monitorização diz, com todas as letras, que iniciada a estatina para prevenção de eventos não se faz necessária monitorização do perfil lipídico, porque o tratamento será contínuo de qualquer forma. O texto registra explicitamente que a busca de níveis de colesterol isoladamente já não é critério suficiente.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia (Ministério da Saúde, 2020; Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 30 de julho de 2019), seções 4, 7 e 8
A régua anterior, ainda em circulação nas unidades
O caderno de atenção básica de 2013 estratifica o risco cardiovascular pelo escore de Framingham na consulta da unidade e organiza a periodicidade de retorno por faixa de risco. É um documento de mais de uma década, anterior às duas posições acima, e não serve para escolher a conduta de hoje. Serve para reconhecer de onde veio a conduta que está escrita no prontuário do paciente que você vai atender, e para explicar por que tanta gente na rede foi estratificada por Framingham.
Cadernos de Atenção Básica nº 37 — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: hipertensão arterial sistêmica (Ministério da Saúde, 2013), seções 2.7.4 e 3
Os dois primeiros documentos foram escritos para responder coisas distintas, e daí vem a divergência: um é diretriz clínica, o outro é norma de financiamento e de acesso a medicamento. O protocolo do Ministério precisa de um critério que autorize a dispensação; a diretriz da cardiologia precisa de um alvo que oriente a intensificação. Diante do paciente concreto, três movimentos resolvem. Primeira: se ele já teve evento, as duas réguas concordam que ele trata, e aí a meta numérica é o que vai decidir se você aumenta a dose — use-a. Segunda: se ele está na faixa em que o tratamento depende do risco calculado, escreva no prontuário qual régua usou e por quê, porque a auditoria, a farmácia e o colega que atender depois precisam saber. Terceira: nunca use a frase da seção de monitorização do protocolo — a de que o perfil lipídico não precisa ser repetido — como justificativa para não medir em quem está longe da meta e poderia ser intensificado; ela foi escrita para um paciente que já está no teto do que a rede oferece, não para autorizar inércia.
Terapia combinada como primeira linha em alto, muito alto e extremo risco
A diretriz de 2025 dá força forte e certeza alta a começar já com estatina de alta intensidade e ezetimiba juntas no alto e no muito alto risco, e a associação de terapia anti-PCSK9 já na largada no risco extremo. O argumento é de eficácia e de tempo: a combinação chega a 65% de queda do LDL-c, contra o rendimento decrescente de dobrar a dose de uma estatina isolada; e há o dado de que a combinação de estatina de moderada potência com ezetimiba foi não inferior à alta intensidade isolada em pacientes com doença estabelecida, com menos descontinuação por intolerância. O documento chama isso de migrar do conceito de estatina de alta intensidade para o de tratamento hipolipemiante de alta intensidade.
Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), capítulo 7, seção 7.13, e seção 5.2.4
Estatina isolada, porque a segunda droga não foi incorporada
A comissão nacional de incorporação de tecnologias avaliou exatamente essa pergunta e recomendou, em 9 de dezembro de 2025, a não incorporação da ezetimiba combinada a estatinas para alto e muito alto risco. Os motivos declarados foram limitações das evidências clínicas, razão de custo-efetividade incremental acima do limiar de disposição a pagar e alto impacto orçamentário. O parecer registra que o principal efeito da associação foi a redução do LDL-c e do colesterol total, e que a baixa magnitude de benefício clínico adicional poderia não justificar o investimento. Vale registrar que as 18 contribuições da consulta pública foram todas favoráveis à incorporação, e que parte do próprio comitê defendeu incorporar para uma população mais restrita, de quem já teve eventos e intervenções recorrentes.
Conitec, Relatório de Recomendação nº 1.069 (dezembro de 2025), Registro de Deliberação nº 1.070/2025
Não é discordância sobre o que a ezetimiba faz — os dois documentos concordam que ela reduz o LDL-c. É discordância sobre o que se compra com um orçamento fixo, e um economista de saúde e um cardiologista podem ler os mesmos dados e responder diferente sem que nenhum esteja errado. Para o paciente à sua frente, a pergunta prática é outra: o que se perde por não combinar, e o que se pode fazer no lugar. Três movimentos. Primeiro, garanta que a estatina de alta intensidade está mesmo no teto — muita meta não atingida no Brasil é atorvastatina 20 mg chamada de alta intensidade. Segundo, se o paciente tem condição de comprar, informe: o comprimido de 10 mg custava R$ 1,69 pelo menor preço de referência, algo em torno de R$ 617 por ano, e essa informação pertence a ele, não a você. Terceiro, se não tem, não deixe a meta inalcançável virar motivo para relaxar o resto — pressão, tabagismo, glicemia e peso continuam sendo redução de risco absoluto no mesmo paciente, e nenhum deles depende de incorporação.
Suspender é o último recurso; a maioria das queixas se maneja sem perder a estatina
A diretriz de 2025 organiza os sintomas musculares em sete padrões e só manda suspender a partir do segundo. Elevação assintomática de creatinoquinase até três vezes o limite superior mantém a estatina sem alteração de posologia. Mialgia tolerável com creatinoquinase de até três vezes admite trocar de estatina ou manter a mesma em dose de menor potência, associando ezetimiba, com aumento gradual a cada quatro a seis semanas. Só a mialgia intolerável leva à suspensão, e ainda assim temporária, de quatro a seis semanas, com reintrodução em dose baixa depois. O documento sustenta essa postura com dois argumentos: o efeito nocebo, que produz sintoma sem causa farmacológica, e a metanálise que conclui que a prevalência de intolerância é frequentemente superestimada.
Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), capítulo 8, seções 8.2 a 8.7 e Figura 8.2
Mialgia durante o uso é critério formal de interrupção
O protocolo do Ministério lista, na seção de critérios de interrupção, quatro situações que determinam a suspensão do medicamento, e a primeira delas é mialgia durante o uso — sem gradação de intensidade, sem exigência de creatinoquinase alterada e sem etapa de reintrodução. As outras três são creatinoquinase dez vezes acima do valor normal, aminotransferases três vezes acima do valor normal e o surgimento de contraindicações. É um critério escrito para ser aplicado por qualquer prescritor da rede, sem depender de classificação em sete padrões, e essa simplicidade é a sua virtude declarada e o seu custo.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia (Ministério da Saúde, 2020), seção 7.5
Esta é a divergência que mais muda desfecho, porque a saída do tratamento quase nunca é uma decisão — é um abandono que ninguém registrou. Decida pela reversibilidade do erro nas duas direções. Suspender indevidamente uma estatina em quem já teve infarto retira uma intervenção com número necessário para tratar de cerca de dezoito em cinco anos, e a experiência mostra que quem sai raramente volta; manter indevidamente em quem tem miopatia verdadeira produz dano muscular progressivo. O que separa os dois cenários é a caracterização, e ela é clínica: sintoma bilateral, simétrico e proximal, em nádegas, coxas, panturrilhas e dorso, surgido tipicamente entre quatro e doze semanas do início ou de um aumento de dose, que melhora dias após a suspensão e reaparece com a reintrodução. Dor unilateral, articular, distal ou presente antes da estatina não é o quadro. Na prática: caracterize antes de suspender; dose creatinoquinase quando há sintoma, não de rotina; procure a causa que aumenta a vulnerabilidade, sobretudo hipotireoidismo não tratado e interação medicamentosa; e se precisar suspender, escreva na receita a data em que a reintrodução será tentada. Uma suspensão sem data marcada é uma alta silenciosa do tratamento.
O raciocínio, em voz alta
De volta ao senhor Jandir Boaventura, 52 anos, torneiro mecânico, com LDL-c de 156 mg/dL num laudo sem jejum, pressão de 148 por 92, vinte cigarros por dia há trinta e dois anos, 88 quilos com 1,74 m, e um pai morto de infarto aos 51.
O que penso antes de olhar o exame de novo
O laudo já está na mesa, então minha primeira tarefa não é pedir exame — é decidir o que aquele número significa. Eu tenho um homem de 52 anos com quatro coisas na frente do colesterol: tabagismo ativo pesado, pressão de 148 por 92 sem tratamento, obesidade e um pai que morreu de infarto aos 51 anos, que é doença coronariana prematura em parente de primeiro grau. Antes de calcular qualquer coisa, eu preciso saber se ele já está numa categoria que dispensa cálculo.
As quatro perguntas que encerram a estratificação
Pergunto e examino. Já teve infarto, dor no peito de esforço, derrame, cirurgia ou cateterismo? Não. Tem algum exame de imagem mostrando placa — carótida, tomografia? Não, nunca fez nenhum. É diabético? Não sabe; nunca fez glicemia recente. O LDL-c está igual ou acima de 190? Não, está em 156. Nenhuma das quatro fecha a conta, então ele vai precisar de escore — e vai precisar antes de eu saber a glicemia dele.
O que peço, e o que decido não pedir
Peço a segunda coleta do perfil lipídico em três semanas, com a orientação certa: dieta habitual, sem bebida e sem churrasco na véspera, sem jogo de bola no dia anterior, e jejum dispensado. Peço junto o painel que exclui causa secundária e alimenta a estratificação: TSH, glicemia de jejum e hemoglobina glicada, creatinina com filtração estimada, urina com relação albuminúria/creatininúria, alanina aminotransferase e fosfatase alcalina. Acrescento creatinoquinase basal, porque provavelmente vou prescrever estatina. Não peço ecocardiograma, não peço ultrassonografia de carótidas e não peço teste ergométrico: nada disso vai mudar a decisão que eu tenho de tomar, e o pedido de rotina só produziria achado incidental.
O que faço com as mãos antes que ele se levante
Palpo os tendões extensores dos dedos e o tendão calcâneo dos dois lados procurando espessamento nodular; olho a córnea contra a luz procurando arco; olho as pálpebras. Tudo normal — o que já reduz muito a chance de hipercolesterolemia familiar, e o LDL-c de 156, embora alto, também não aponta para lá. Meço a circunferência abdominal com fita: 104 cm. Confirmo a pressão eu mesmo, nos dois braços, com o manguito certo. Pergunto o que ele toma hoje e peço para ver a caixa, não a receita.
O que a segunda coleta muda, e o que ela confirma
Três semanas depois: colesterol total 231, HDL-c 39, triglicérides 198, LDL-c 152 mg/dL. Não-HDL-c de 192. TSH normal, alanina aminotransferase normal, creatinina 1,0 com filtração de 84, urina sem alterações, relação albuminúria/creatininúria de 18 mg/g, creatinoquinase normal. Glicemia de jejum 108 e hemoglobina glicada 6,0% — pré-diabetes, não diabetes. Não há causa secundária a corrigir. O número se confirmou, e a decisão agora é minha, não do laboratório.
Onde ele cai, e por quê
Com o escore calculado em cima de idade, sexo, colesterol total, HDL-c, sistólica sem tratamento, tabagismo, índice de massa corporal e filtração glomerular, ele fica na faixa intermediária, e não na alta. Mas ele tem agravante: história familiar de doença cardiovascular prematura em parente de primeiro grau, e adiposidade com circunferência abdominal de 104 cm. Agravante em paciente de risco intermediário calculado reclassifica para cima — e é justamente na faixa intermediária que a diretriz manda procurar agravante ativamente, porque é ali que a reclassificação muda conduta. Jandir é de risco alto. Meta de LDL-c abaixo de 70 mg/dL, com queda de pelo menos 50%.
A conta que eu levo para a conversa
De 152 para menos de 70 mg/dL são 54% de queda — ou seja, uma estatina de alta intensidade sozinha talvez não baste, e eu já sei disso antes de começar. E traduzo o benefício antes de propor: com risco em torno de 12,5% em cinco anos, mil pessoas como ele teriam cerca de 125 eventos; com a estatina, cerca de 98. Vinte e sete eventos a menos por mil, ou 36 pessoas tratadas por cinco anos para uma escapar. Digo também o outro lado: cerca de um caso novo de diabetes a cada 255 pessoas tratadas por quatro anos, num homem que já tem hemoglobina glicada de 6,0%.
O que prescrevo, e o que prescrevo primeiro
Atorvastatina 40 mg, via oral, um comprimido por dia, em horário fixo, uso contínuo — e como ela é do componente especializado, abro o processo na mesma consulta e prescrevo sinvastatina 40 mg à noite para o intervalo, porque o que existe hoje na farmácia da unidade não pode ficar esperando o que existirá no mês que vem. Mas a primeira linha da minha prescrição não é essa: é o cigarro. Nenhum comprimido que eu possa dar reduz o risco dele tanto quanto parar de fumar, e a pressão de 148 por 92 é o segundo item. O colesterol é o terceiro, não o primeiro.
O que combino para a próxima consulta
Perfil lipídico em quatro semanas, para saber se a queda percentual bateu com o esperado. Nada de creatinoquinase nem de transaminases se ele estiver sem sintoma. Combino por escrito o que ele deve me contar antes da hora: dor, fraqueza ou cãibra nova, urina escura, icterícia. E escrevo no prontuário, com todas as letras, três coisas que a próxima pessoa que atendê-lo vai precisar: a categoria de risco, o LDL-c de partida de 152 mg/dL, e a régua que usei para estratificar.
Faça você
Segunda-feira de manhã, ambulatório de cardiologia do mesmo hospital. Dona Elzira Damasceno, 61 anos, aposentada, teve infarto agudo do miocárdio com supradesnível de ST há oito meses, tratado com angioplastia primária e implante de um stent. Saiu do hospital com cinco medicamentos. Hoje vem para retorno anual e traz exames: colesterol total 168, HDL-c 52, triglicérides 100, LDL-c 96 mg/dL, alanina aminotransferase normal, creatinina 0,9. Está tomando sinvastatina 20 mg à noite, que é o que a unidade básica dispensa. Não fuma mais. Pressão 128 por 78. Ao ser perguntada se sente alguma coisa, diz que há uns dois meses as duas pernas doem, 'da coxa para baixo', principalmente no fim do dia, e que uma vizinha disse que era do remédio do colesterol — mas que ela não parou porque tem medo.
Passo 1 — em que categoria ela está, e qual é a meta
Infarto prévio com revascularização coloca Elzira em risco muito alto, sem necessidade de escore. Verifique se ela preenche risco extremo, o que exigiria um evento maior acompanhado de pelo menos duas condições de alto risco. Ela tem 61 anos (abaixo dos 65), não tem diabetes, tem pressão controlada, não tem doença renal, não fuma mais e o evento foi há oito meses — portanto, um evento agudo com menos de dois anos conta como uma condição. Só uma. Risco muito alto, e não extremo. Meta de LDL-c abaixo de 50 mg/dL e de não-HDL-c abaixo de 80 mg/dL.
Passo 2 — o quanto falta, em percentual
O LDL-c está em 96 mg/dL, e o não-HDL-c em 116. Para chegar abaixo de 50, faltam 47,9% de queda a partir do valor atual. Isso não é ajuste fino: é a diferença entre uma estatina de intensidade moderada e um esquema de alta intensidade. Sinvastatina 20 mg é moderada.
Passo 3 — a queixa muscular, antes de mexer na dose
Caracterize antes de decidir qualquer coisa. Pergunte se a dor é dos dois lados, se é proximal ou distal, se pega nádegas e coxas ou panturrilhas, quando começou em relação ao início ou a qualquer aumento da medicação, se piora ao caminhar e melhora ao parar, e se ela já sentia isso antes do infarto. Pergunte também sobre outros medicamentos iniciados nos últimos meses e sobre sintomas de hipotireoidismo.
Passo 4 — o que você faz agora
— sua vez —
Ver como fecharíamos
A história ainda não permite atribuir a dor de Elzira à estatina nem afirmar que seja claudicação. A vinheta informa dor nas pernas ao fim do dia, mas não fornece a relação completa com caminhada e repouso, exame de pulsos, fraqueza, interações ou índice tornozelo-braquial. Esses dados precisam ser obtidos. Sintomas após meses de uso continuam possíveis; a cronologia isolada não exclui efeito adverso, e causas musculares e vasculares podem coexistir. Primeiro, caracterize e examine. Dor reprodutível ao esforço com alívio ao repouso aumenta a suspeita de doença arterial periférica e justifica avaliação vascular e índice tornozelo-braquial. Fraqueza importante, urina escura ou suspeita de lesão muscular relevante exigem investigação e ajuste imediato com o supervisor. Não complete a história com achados que não foram apresentados. Segundo, mantenha uma estratégia eficaz de prevenção secundária enquanto esclarece tolerância. Elzira tem infarto prévio e LDL-c de 96 mg/dL com sinvastatina 20 mg; precisa de reavaliação do tratamento. Se a avaliação não identificar toxicidade que imponha pausa, discutir estatina de alta intensidade, por exemplo atorvastatina 40 mg por via oral ao dia, e associação conforme meta, tolerância e acesso. Se houver suspeita consistente de sintoma associado à estatina, uma interrupção breve, troca ou reintrodução deve ter prazo e alternativa planejados, sem abandono definitivo da prevenção. A suspeita de doença arterial periférica não autoriza reclassificar risco antes de confirmá-la. Terceiro, registrar a avaliação da dor, o LDL-c de partida, a conduta acordada e o acesso aos medicamentos. Reavaliar sintomas e perfil lipídico em aproximadamente quatro semanas, antecipando diante de sinais de gravidade. As doses e metas seguem a Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 citada no capítulo.
A coleta sem jejum pode ser usada na avaliação habitual do perfil lipídico. A alimentação afeta principalmente os triglicérides; pequenas variações em outras frações não tornam o exame inutilizável. O valor apresentado está abaixo do limiar de repetição em jejum discutido no capítulo. A decisão terapêutica depende do risco cardiovascular e da meta, e não de descartar automaticamente uma coleta válida.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare dois adultos com o mesmo LDL-c, um com infarto prévio e outro sem doença cardiovascular conhecida. Explique por que a decisão pode ser diferente e só então consulte a tabela de risco e metas. Treine comunicar benefício absoluto, prazo e incerteza sem prometer proteção total. Sua síntese deve mostrar qual dado define o risco, qual intervenção foi escolhida e o que será medido no retorno.
Em 30 dias
Retome Elzira sem completar a história por suposição. Pergunte sobre distribuição da dor, relação com esforço e repouso, fraqueza, início dos sintomas, medicamentos e mudança de dose. Compare as hipóteses de sintoma associado à estatina e doença arterial periférica, que podem coexistir. Proponha a investigação e o ajuste a serem discutidos com o supervisor, preservando uma estratégia de prevenção secundária. Confira benefício, tolerância, acesso e resposta laboratorial no plano de retorno.
Agora atenda
Atenda um adulto que chega ao ambulatório com um perfil lipídico alterado e nenhum sintoma, e conduza a consulta inteira sem prescrever no primeiro minuto: colha os antecedentes que a calculadora não pergunta, examine tendões, córnea e circunferência abdominal, defina a categoria de risco em voz alta, apresente o benefício em número de pessoas e negocie a decisão. A estação termina quando o paciente souber dizer, com as próprias palavras, por que vai tomar — ou por que não vai.
